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A Filha do Capito.
Jos Rodrigues dos Santos
1 Edio, Gradiva, Lisboa, 2004.
Romance.
=20
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se
=unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia
visual. =Por fora da lei de direitos de autor, este ficheiro 
no pode ser =distribudo para outros fins, no todo ou em 
parte, ainda que gratuitamente.
=20
===Digitalizao: =Fernando Jorge Correia
==20
=20
=20
=Coreco: Dores =Cunha
===20
Contracapa:
= =Quem sabe =se a vida do capito Afonso Brando teria sido 
totalmente diferente se, naquela noite fria e hmida de 
=1917, no se tivesse apaixonado por uma bela francesa de 
olhos verdes =e palavras meigas. O oficial do exrcito 
portugus encontrava-se nas trincheiras da Flandres, em plena 
carnificina da =primeira guerra mundial, quando viu o seu 
amor testado pela mais dura =das provas.
Em segredo, o Alto Comando alemo preparava um ataque 
decisivo, =uma ofensiva to devastadora que lhe permitiria 
vencer a guerra num =s golpe, e tencionava quebrar a linha 
de defesa dos aliados num =pequeno sector do vale do=20Lys. O 
stio onde =estavam os portugueses.
Tendo como pano =de fundo o cenrio trgico da participao 
de =Portugal na Grande Guerra, A Filha do Capito traz-nos a 
comovente =histria de uma paixo impossvel e, num ritmo 
vivo e =empolgante, assinala o regresso do grande romance
s letras portuguesas.
=20
Badanas da capa:
O capito Afonso Brando mudou a vida, quase sem o saber, 
=numa fria noite de boleto, ao prender o olhar numa bela 
francesa de =olhos verdes e voz de mel. O oficial comandava 
uma companhia da Brigada =do Minho e estava havia apenas dois 
meses nas trincheiras da =Flandres quando, durante o perodo 
de descanso, decidiu ir pernoitar =a um castelo perto de 
Armentires. Conheceu a uma deslumbrante =baronesa e entre 
eles nasceu uma atraco irresistvel.
Mas o seu amor iria enfrentar um duro teste. O Alto Comando 
=alemo, reunido em segredo em Mons, decidiu que chegara a 
hora de =lanar a grande ofensiva para derrotar os aliados e 
ganhar a guerra e =escolheu o vale do Lys como palco do 
ataque final.=20 sua espera, ignorando o terrvel cataclismo 
prestes a desabar =sobre si, encontrava-se o Corpo 
Expedicionrio Portugus.
Decorrendo durante a odisseia trgica da participao 
=portuguesa na primeira guerra mundial, A Filha do Capito 
conta-nos a =inesquecvel aventura de um punhado de soldados 
nas trincheiras da =Flandres e traz-nos uma paixo impossvel 
entre um oficial portugus e uma bonita francesa. Mais do que 
uma =simples histria de amor, esta  uma comovente narrativa 
sobre a =amizade, mas tambm sobre a vida e sobre a morte, 
sobre Deus e a =condio humana, a arte e a cincia, o acaso 
e o destino.
Com esta obra inesquecvel, o grande romance
est de volta s letras portuguesas.
===JOS RODRIGUES DOS =SANTOS nasceu em 1964
===em Moambique. =Tal como a esmagadora maioria dos 
portugueses, alguns dos seus antepassados =estiveram 
envolvidos na Grande Guerra, na Flandres e em frica, e =este 
romance  o tributo que lhes presta.
===Apesar da faceta de =romancista, o autor  sobretudo 
conhecido=20como jornalista. Iniciou a carreira =jornalstica 
em 1980, na Rdio Macau. Trabalhou na BBC, em Londres, entre 
1987 e 1990, e seguiu =para a RTP, onde comeou a apresentar 
o 24 Horas. Em 1991 passou para =a apresentao do Telejornal 
e tornou-se colaborador permanente da =CNN de 1993 a 2002.
Doutorado em Cincias da Comunicao,  professor da 
=Universidade Nova de Lisboa e jornalista da RTP, ocupando 
por duas vezes =o cargo de director de Informao da 
televiso pblica.  =um dos mais premiados jornalistas 
portugueses, tendo sido galardoado com dois prmios do Clube 
=Portugus de Imprensa e trs da CNN.
J publicou quatro ensaios e este  o seu segundo 
romance.
Fim das badanas da capa.
===Tambm Do Autor
Ensaio
Comunicao, Difuso Cultural, 1992; Prefcio, 2001. 
=Crnicas de Guerra - Da Crimeia a Dachau, Gradiva, 2001;
Crculo de Leitores, 2002.
Crnicas de Guerra II - De Saigo a Bagdade, Gradiva, 2002; 
=Crculo de Leitores, 2002.
A Verdade da Guerra, Gradiva, 2002; Crculo de Leitores, 
2003.
FICO: A Ilha das Trevas, Temas & Debates, 2002; Crculo =de 
Leitores, 2003.
Fim da Contracapa.
=20
===Nota 1: Este livro =contm alguns mapas, que 
pretendem ilustrar os territrios dos dois blocos envolvidos 
na I Guerra Mundial. Dado ter =considerado que a sua leitura 
aqui era completamente incompreensvel, =decidi suprimi-los.
Nota 2: Neste livro a paginao  inferior.=20
(estas duas notas so da correctora).
===20
Jos Rodrigues dos Santos
romance
gradiva
 Jos Rodrigues dos Santos/Gradiva - Publicaes, L. a
Reviso do texto: Jos Soares de Almeida
Capa: Armando Lopes
Fotocomposio: Gradiva
Impresso e acabamento: Multitipo - Artes Grficas,=20
Reservados os direitos para Portugal por: Gradiva - 
=Publicaes, L. a Rua Almeida e Sousa, 21, r/c, esq. -1399-
041 =Lisboa
Telefs. 213974067/8 - 2139713 57 - 213953470
Fax 21395 34 71- Email: geralgradiva. mail. pt
http: /www. gradiva. pt
1. edio: Novembro de 2004
Depsito legal n. 217376/2004
gradiva
Editor: Guilherme Valente
Ao meu bisav materno,=20
o cabo Ral Campos Tetino,=20
que morreu aps ser gaseado na Grande Guerra
Ao meu av paterno, o capito Jos Rodrigues dos =Santos, que 
serviu no conflito de =1914-1918.
"O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisvel. "
JORGE LUS BORGES, O Aleph
"O sentido do mundo emerge fora do mundo. No mundo, tudo  
=como  e acontece =como acontece. "
" muito difcil para os que fizeram a guerra
lutar nos campos das letras
com os paisanos que a descrevem  retaguarda em livros ou nos 
=grandes jornais.
Para se =desenhar em termos um acto herico
 preciso pelo menos um recuo de duzentos quilmetros. De 
=perto, a heroicidade confunde-se demasiadamente com as 
cousas que de =herico no tm a mnima parcela. "
ANDR BRUN, A Malta das Trincheiras
=20
I
AFONSO E AGNES
Foi logo em pequeno que Afonso da Silva Brando percebeu que 
a =vida era uma estrada incerta, repleta de cruzamentos, 
bifurcaes, =pontes, tneis e becos, e que cada caminho 
encerrava um sem-nmero =de mistrios, de segredos por 
desvendar e de enigmas por decifrar. Animado por uma 
=curiosidade persistente e estimulado por uma inteligncia 
viva e =intuitiva, cedo comeou a suspeitar de que o mundo 
era um stio =estranho, um enorme palco de iluses, 
traioeiro e dissimulado, um dplice jogo de espelhos onde 
tudo parecia =catico mas se revelava afinal ordenado, onde 
as coisas tinham =certamente um sentido, mas no 
necessariamente um significado. =Pressentiu, alis, que era 
precisamente na existncia de um significado que principiava 
o enigma do significado da =existncia.
Chegaria o tempo em que se interrogaria repetidamente sobre 
esse =grande segredo, talvez um dos maiores e mais velhos 
mistrios do =universo. A questo do significado da 
existncia. O destino. Iria =ento tentar decifrar o sinuoso 
percurso da vida, o inefvel caminho que os dias =percorrem, 
um aps outro, arrastando-o numa direco obscura, a =rota 
talvez previamente definida,
13
quem sabe se escolhida por si ou forada pelas 
=circunstncias, certamente conduzindo-o atravs de uma 
=labirntica rede at ao inescapvel fim, =como se as coisas 
fossem fruto de uma conspirao na =sombra, preparada por 
agentes sem rosto numa fantstica =conjurao secreta. 
Procuraria a a resposta para o enigma que =o apoquentava.
Quando esse tempo viesse, Afonso suspeitaria de que a vida 
era =afinal uma tragdia, ou talvez apenas uma grandiosa pea 
imaginada =por um dramaturgo sem nome e representada por 
actores sonambulescos, =intrpretes involuntrios de um 
enredo desconhecido, personagens a quem ningum jamais =teve 
a gentileza de explicar a trama da histria, a intriga que 
=estava afinal determinada mas permanecia indeterminvel. 
Talvez essa =viso fosse fruto das circunstncias 
particulares da sua existncia, da sucesso de percursos 
=inacabados que se tornara a sua vida. Confrontar-se-ia ento 
com os =sonhos adiados e os caminhos que no percorrera, dos 
dias que vivera guardaria apenas a cruel nostalgia do =que 
poderia ter sido se as coisas se tm tornado diferentes. Nada 
era =justo, tudo se revelava arbitrrio, cada um limitava-se 
a procurar =retirar um significado do caos da existncia, 
como se fosse importante criar uma =narrativa, estabelecer um 
sentido, buscar uma razo, encontrar uma =explicao para as 
coisas que simplesmente acontecem.
Na vida, concluiria um dia, todos tm direito a um grande 
amor. =Uns ach-lo-iam num cruzamento perdido e com ele 
seguiriam at ao =fim do caminho, teimosos e abnegados, at 
que a morte desfizesse o que a vida fizera. Outros estavam 
destinados a =desconhec-lo, a procurarem sem o descobrirem, 
a cruzarem-se numa =esquina sem jamais se olharem, a 
ignorarem a sua perda at =desaparecerem na neblina que 
pairava sobre o solitrio trilho para onde a vida os 
conduzira. E havia ainda aqueles =fadados para a tragdia, os 
amores que se encontravam e cedo =percebiam que o encontro 
era afinal efmero, furtivo, um mero sopro =na corrente do 
tempo, um cruel interldio antes da dolorosa separao, um 
beijo de despedida no caminho =da solido, a alma abalada
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pela sombria angstia de saberem que havia um outro percurso, 
=uma outra existncia, uma passagem alternativa que lhes fora 
para =sempre vedada. Esses eram os infelizes, os dilacerados 
pela revolta =at serem abatidos pela resignao, os que 
percorrem a estrada da vida vergados pela saudade do que 
=poderia ter sido, do futuro que no existiu, do trilho que 
nunca percorreriam a dois. Eram esses os que =estavam 
indelevelmente marcados pela amarga e profunda nostalgia de 
um =amor por viver.
A vida  realmente um caldeiro de mistrios, a comear 
=pelos mais simples, pelos mais ingnuos e inocentes, por 
aqueles que =esto na gnese da nossa existncia. Afonso, por 
exemplo, nunca teve a certeza absoluta sobre a data =exacta 
em que nasceu. Sabia que tinha sido em Maro de 1890, embora 
=alimentasse dvidas quanto ao dia certo. A me dizia que o 
dera = luz  meia-noite e meia hora de 7 de Maro, mas seria 
a meia-noite e meia =hora da noite de 6 para 7 ou de 7 para 
8? A questo nunca foi =devidamente clarificada, apesar de, 
para todos os efeitos, a data de 7 =de Maro se ter tornado, 
nos documentos oficiais, o dia =em que Afonso nascera.
O pequeno viu pela primeira vez a luz do dia numa casa 
humilde da =Carrachana, um lugar ermo  entrada da =vila 
ribatejana de Rio Maior. Era o =sexto e=20ltimo filho da 
senhora Mariana, uma mulher baixa e forte, as faces 
=rechonchudas e rosadas, o cabelo meio-grisalho puxado para 
trs e =preso por um carrapito, e cujo nome tambm ele estava 
envolto em =absurdas incertezas. A me dizia que se chamava 
Mariana Andr Brando, mas noutras alturas =identificava-se 
como Mariana Silva Andr, ou Mariana =da Conceio, ou 
Mariana das Dores. Afonso nunca entendeu este mistrio, 
embora =a tivesse questionado inmeras vezes sobre o assunto, 
obtendo sempre =respostas contraditrias ou evasivas. Os 
documentos oficiais de Afonso registavam que ele =era filho 
de Mariana Andr Brando, mas um dia verificou que os =papis 
de um irmo atribuam a filiao a Mariana Silva =Andr. No 
meio de tudo isto a nica certeza era a de que o nome prprio 
da me era Mariana.
15
O pai chamava-se Rafael Brando Laureano, o que suscitava 
novo =mistrio. Pois, se o ltimo nome era Laureano, por que 
razo =dera aos filhos o apelido do meio, Brando? Igualmente 
aqui nunca =houve respostas satisfatrias e o pai limitava-se 
a encolher os ombros quando interrogado sobre =esta opo. 
Rafael Laureano era um homem alto, com um metro e =setenta e 
cinco, estatura invulgar em Portugal, e profundamente 
religioso. =Tinha um rosto largo, rasgado por longas rugas 
que lhe nasciam do canto =dos olhos midos, o abundante e 
rebelde cabelo grisalho parecia uma =mo-cheia de palha 
branca plantada na cabea. O senhor Rafael exercia a 
=profisso de jornaleiro, mas, desenganem-se os menos 
esclarecidos, =nada tinha a ver com jornais. Um jornaleiro 
era um homem que trabalhava =no campo e era pago  jornada. 
Sendo jornaleiro, o pai de Afonso era pobre, mas no 
=miservel. Possua dois pequenos terrenos onde cultivava 
vinhas =para produzir tinto, que vendia aos armazenistas de 
Rio Maior. O =problema  que a produo no chegava para o 
sustento da famlia e, =como tinha fama de bom agricultor, 
=Rafael era frequentemente convidado pelos grandes 
proprietrios =ribatejanos para trabalhar  jornada nas suas 
terras.
Rafael e Mariana casaram muito cedo e tiveram o primeiro 
filho =quando ainda eram adolescentes. Ele tinha quinze anos 
e ela catorze. =Mariana deu  luz um belo rapaz, ao qual 
chamaram Manuel. Depois =vieram a Jesuna, o Antnio, o Joo 
e o Joaquim. Em 1889, na altura em que estava a cumprir 
servio na =Marinha de Guerra, Antnio morreu, vtima de 
tuberculose. Mariana =ficou desfeita e a dor encheu o lar. 
Rafael mergulhou numa depresso, =tornou-se amargo, obcecado 
pela desgraa que se abatera sobre a famlia. Era normal 
naquele tempo =morrerem muitas crianas, a maior parte das 
vezes ainda bebs, mas =o Antnio j no era um menino, era 
um homenzinho, tinha sonhos =e projectos, era amado e 
admirado.
O pai deu consigo a sonhar todas as noites com a morte do 
filho. =Sonhava que ele afinal no morrera, ou que 
ressuscitara, ou que =conhecera um outro rapaz igualzinho ao 
seu Antnio, ou que
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o chamava mas ele no o ouvia, ou que isto, ou que aquilo. De 
=todas as vezes era um sonho diferente, frequentemente 
trgico, por =vezes desesperado, raramente feliz. Houve um, 
porm, que o deixou =muito impressionado. Numa noite abafada 
de Vero sonhou Rafael que se ajoelhara junto  campa do seu 
rapaz quando =Deus Lhe apareceu em viso e disse que lhe 
tinha destinado cinco =filhos. Se um morrera, outro teria de 
vir para o substituir. Quando =Rafael despertou, a deciso 
estava tomada e Mariana foi compensada com um novo filho, era 
uma =forma de fazer regressar a alegria a casa e de cumprir 
os desgnios =do Senhor. Foi assim que, no ano seguinte, 
Mariana, j com quarenta e =cinco anos, deu  luz Afonso, o 
menino que veio para substituir Antnio nas contas de =Deus.
O benjamim da famlia cresceu habituado a um mundo em que 
todos =os irmos eram muito mais velhos do que ele. Manuel 
tinha trinta e um =anos, j se casara e sara de casa. 
Tornara-se ferrador e fizera-se pai de uma menina dois anos 
=mais velha do que o seu irmo mais novo. Depois vinha 
Jesuna, que =casou quando Afonso era ainda pequeno. A sua 
primeira memria da =irm remonta a um momento doloroso na 
cozinha, Jesuna lavada em =lgrimas de desespero pela morte 
do primeiro filho, a me a =consol- la, a cabea da filha 
encostada ao ombro materno. Do =terceiro irmo, Antnio, 
aquele a quem afinal devia a vida, s restava uma grande 
fotografia pendurada numa parede da =sala, o rapaz com a 
farda de marinheiro orgulhosamente ostentada. Os =mais 
prximos eram Joo e Joaquim, ambos adolescentes, a 
=trabalharem numa serrao. O pequeno Afonso dormia com estes 
dois irmos na mesma cama de =lato, num quarto sem porta, a 
entrada protegida por uma cortina =muito gasta.  medida que 
o mais novo ia crescendo, tornou-se =evidente que no cabiam 
os trs na mesma cama se continuassem deitados uns ao lado 
dos outros, e =Afonso, que ficava sempre no meio, passou a 
dormir com a cabea junto =aos ps dos mais velhos.
As memrias de Afonso s comearam a tornar-se ntidas =a 
partir dos seis anos. Foi nessa altura que parou de mamar no 
po,=20
17
 falta de chupeta mais adequada, embora ainda comesse as 
sopas =de cavalo cansado, que se tornaram a sua dieta. Aos 
dois anos tinha =deixado de mamar nos seios da me, porque o 
leite secara, e passara =desde ento a depender dessa mistura 
de po e vinho tinto domstico. Ao entrar na escola adquiriu 
maior =conscincia do mundo que o rodeava. Comeou a notar as 
madeiras escuras e toscas que lhe mobilavam a casa e o 
=permanente cheiro a porcos, estrume e mosto que lhe invadia 
o quarto. Os =sunos eram criados numa pequena pocilga ao 
lado da casa e o seu odor =propagava-se facilmente pelo ar. 
No=20 que se importasse, ele que andava descalo por toda a 
parte, =vestindo uns velhos e fedorentos trapos herdados dos 
irmos.
Cedo comeou Afonso a ajudar o pai, semeando melo, limpando 
=as vinhas e enxofrando as cepas. As epidemias ameaavam as 
vinhas =havia mais de dez anos, iniciava-se ento o falatrio 
sobre um =novo mtodo para combater aquele mal, a sulfatao, 
mas, enquanto a novidade no chegava ao Ribatejo, terra 
=remota e de vida rdua, tinha o senhor Rafael de contar 
unicamente =com a proteco da Virgem. Naquele tempo 
circulava-se de carroa, embora Rafael Laureano se remediasse 
com uma burra que o auxiliava na =lavoura. Afonso aprendeu 
que a burra no era burra de todo, =mostrava-se at esperta e 
desembaraada. Era frequente ver o pai =dar instrues ao 
animal.
"Vai para o Cidral! ", ordenava-lhe o senhor Rafael, abrindo 
o =porto do quintal. "Anda, vai "
A burra cruzava o porto e desaparecia vagarosamente pela 
=poeirenta estrada de terra batida, seguida pelo co da casa, 
o Bobby. =Nessas alturas, Afonso acompanhava o pai numa volta 
pela =vila, seguia-o como um rafeiro fiel, achava-o forte e 
=sbio, com ele sentia-se bem, seguro e tranquilo. Quando, 
horas depois, =chegavam os dois ao terreno da famlia no 
Cidral, encontravam a burra =e o co  sua espera.
"Bovi! Bovi! ", chamava o pai, incapaz de pronunciar 
correctamente =o nome de Bobby. Abria os braos e abraava o 
co, que o =recebia com sempre renovado entusiasmo, a cauda a 
abanar
18
como um leque, =saudando o dono como se no o visse havia dez 
anos. ="Ah, Bovi. "
A vida do senhor Rafael era dura. De segunda a sbado 
acordava =s cinco da manh, comia uma sopa ou um naco de po 
com =chourio e ia trabalhar a terra. Almoava s dez horas o 
farnel =que a mulher lhe trazia num cesto e ao meio-dia vinha 
a merenda. A lavoura =s terminava quando o Sol se punha ou 
quando dobravam os sinos do =cemitrio, pelas cinco da tarde.
"Olha as ave-marias! ", exclamava Rafael Laureano, limpando o 
suor =da testa e erguendo-se para mirar o horizonte e escutar 
os sinos =distantes. "Est na hora "
Deitavam-se todos cedo, eram oito da noite quando o senhor 
Rafael =mandava Afonso vestir o seu "pijeta", apagava as 
candeias ateadas com =azeite e mergulhava a casa na 
escurido, era hora de dormir. S aos domingos podia esta 
rotina ser alterada. No dia do Senhor acordavam =cedo, como 
sempre, e vestiam as melhores =roupas, melhores porque no 
estavam esfarrapadas. O banho era quase desconhecido, excepto 
no =Vero, altura em que, uma vez por ms, toda a famlia ia 
=lavar-se em animadas manhs dominicais. Afonso no apreciava 
esses momentos. Encolhia o corpo franzino dentro de uma tina 
=e sentia a gua gelada despejada sobre si pela me. Depois 
de se =vestirem, o senhor Rafael conduzia a famlia  missa 
para uma =manh de virtude, mas  tarde vinha o vcio e o 
pecado. O pai ia com os irmos para a =taberna do Silvestre 
ou para a taberna do Corneta embebedar-se com =tinto. Era 
considerado um "mau vinho" porque, quando embriagado, ficava 
=de mau humor e no raras foram as vezes em que se envolveu 
em zaragatas disparatadas. =Para controlar o problema, a 
senhora Mariana mandava Afonso acompanhar o =pai com a misso 
de o trazer de volta to cedo quanto possvel, =tarefa que o 
pequeno temia, o pai tornava-se irascvel quando tocado pelo 
lcool e aquele rochedo de =segurana transformava-se nesses 
momentos numa montanha =ameaadora, as mos eram pedregulhos 
instveis e =imprevisveis, reagia mal s suas splicas e 
esbofeteava-o com violncia.
19
O vinho fazia parte das suas vidas, ou no fosse Rafael 
Laureano =um pequeno e dedicado produtor. Afonso habituou-se 
a colaborar no =trabalho de produo de tinto, atirando as 
uvas para os balseiros instalados num anexo. O =pequeno 
passou a acompanhar os adultos no trabalho de pisar as uvas 
para =fazer o mosto, uma tarefa que lhe produzia tonturas, 
percebeu mais tarde =que era o lcool libertado do mosto que 
o embriagava. O vinho era depois colocado =em tonis, com 
gradaes que variavam entre os doze e os quinze =graus, para 
serem vendidos aos armazenistas de Rio Maior. Nos balseiros 
=ficava entretanto o engao, formado pelos ps das uvas. O 
pai atirava gua para cima do =engao e nascia ali um vinho 
mais fraco, de sete ou oito graus, a que =chamavam gua-p.
Quando os filhos atingiam os cinco anos, o senhor Rafael 
=arrebanhava-os para o ajudarem no trabalho. Podiam ser ainda 
muito =pequenos, mas o pai considerava-os aptos a 
desempenharem pequenas =tarefas. Em 1876, porm, abriu a 
escola primria=20em Rio Maior. O ensino no vinha a tempo 
=dos filhos mais velhos do casal Laureano, mas a questo 
colocou-se em =relao a Joo, Joaquim e, mais tarde, Afonso. 
O pai mostrou-se =inicialmente relutante em envi-los para a 
primria, argumentando =que precisava era de mos que o 
ajudassem a trabalhar a terra ou a =ganhar sustento para a 
famlia noutros trabalhos. Teve de ser o proco de Rio Maior, 
o padre =Gaspar Costa, a intervir e usar toda a sua divina 
influncia para =levar a melhor sobre o casmurro Rafael. O 
que  facto  que os =rapazes l acabaram por serem 
autorizados a frequentar a escola.
A vez de Afonso chegou num dia hmido e frio do Outono de 
1896. =Logo pela manh, desafiando a nortada gelada que 
soprava com bravura =l do Alto do Seixal, a senhora Mariana 
levou o filho mais novo pela =mo desde a Travessa do 
Rosmaninho, onde viviam, at  Rua das =Dlias. Atravessaram 
apressadamente o largo, encolhidos nos seus =miserveis 
agasalhos, e meteram  direita pela Rua das =Flores. A manh 
despertara agreste, as gotas
20
do orvalho matinal a brilharem como prolas reluzentes nas 
=folhas molhadas das azinheiras, as ptalas das flores 
abrindo-se  =luz fria da alvorada e  primeira dana dos 
insectos, as folhas =fendidas dos carvalhos-das-beiras a 
formarem lgrimas que deslizavam pelos pelos esbranquiados 
das suas pginas =inferiores, o aromtico odor da resina a 
flutuar no ar, era como um =perfume extico que se espalhava 
pelo caminho de terra rasgado por entre a verdura. =Seguiram 
por ali fora, alheios ao espectculo da natureza no dealbar 
=do novo dia, at passarem pela Torre dos Bombeiros e 
chegarem  =escola primria de Rio Maior.
"Que bom, Afonso, vais para a escola", dizia-lhe a me pelo 
=caminho. "Ests contente, no ests?
Afonso assentia com a cabea. A senhora Mariana passara os 
=ltimos dias a pintar-lhe um quadro idlico da escola, que 
era uma =coisa maravilhosa, que ia ter muitos amigos, que ia 
aprender a ser um =grande homem, o tom era de tal modo 
entusistico que o pequerrucho deu consigo ansioso por 
frequentar tal lugar. =Ficou por isso ligeiramente 
surpreendido quando, ao aproximar-se do =edifcio, viu outras 
crianas a chorar, as mes arrastavam-nas =nos passeios e 
elas desfaziam-se=20em lgrimas. Achou
estranho, por que razo estariam os outros midos to 
=assustados por irem para a escola?
A verdade  que, ao cruzar o porto, Afonso entrou num mundo 
=especial, onde as leis eram diferentes e as condutas 
reguladas, um mundo =que lhe abriu as portas para horizontes 
que se estendiam para alm da =Carrachana. Um letreiro 
afixado  porta da escola explicava que os pais teriam de 
entregar uma ="declarao do paroco cerca da edade", uma 
"declarao =do regedor atestando a residncia do aluno na 
freguezia" e uma "
declarao do facultativo de no soffrerem as crianas 
=molestias contagiosas e de terem sido vaccinadas". A senhora 
Mariana =no sabia ler, mas tinha-se informado previamente 
junto do padre =Gaspar e levava consigo os trs documentos 
requeridos, que entregou  ajudante da escola, a 
=circunspecta dona Vadeia Figueiredo.
21
O primeiro mestre de Afonso foi o professor Manoel Ferreira, 
um =dinmico leiriense que havia mais de vinte anos tinha 
chegado a Rio =Maior e aberto a escola, a nica instituio 
de ensino =primrio para rapazes existente na=20vila. O 
professor Ferreira era adepto =intransigente de uma 
disciplina rgida nas salas de aula e obrigou Afonso, a 
exemplo dos seus colegas, a =usar bibe.
"Aqui no h ricos nem pobres", explicou ele  senhora 
=Mariana quando esta se admirou com a imposio. "Na escola 
so =todos iguais e, por isso, vestem por igual. "
 disciplina frrea, Manoel Ferreira juntava mtodos 
=pedaggicos inovadores e activos, como a cartilha Joo de 
Deus. O =professor era casado com dona Maria Vicncia, de 
quem tinha onze filhos, mas, aos =quarenta e quatro anos, 
encontrava ainda tempo para dirigir os jornais O 
=Riomaiorense e, posteriormente, o Civilisao Popular, 
=semanrios que fundara, para alm de uma tipografia. Foi 
Manoel Ferreira quem ensinou Afonso a ler, =associando letras 
a desenhos e a sons, de acordo com as novas teorias de 
=ensino.
A dureza das tarefas de que o pai incumbia Afonso na lavoura 
fez =com que o pequeno gostasse de ir s aulas. Considerava a 
escola um =local=20de descanso que lhe dava oportunidade para 
fugir ao exigente trabalho na =terra. Afonso aplicou-se nos 
estudos, mas sobretudo nas brincadeiras, as =correrias do 
"apanha" e o "aqui-vai-alho" tornaram-se as favoritas. A 
=principal, porm, era o football, jogado em geral com uma 
bola feita de trapos e meias =velhas. Ao meio-dia ia a casa 
comer alguma coisa e levava depois uma =cesta com comida para 
Joo e Joaquim, que trabalhavam na =serrao. Os dois irmos 
iam ter com ele a meio caminho para recolherem o farnel e 
Afonso =voltava depois para a escola. Quando as aulas 
acabavam, perdia-se na =bola com os amigos no Largo 
Conselheiro Joo Franco, a principal =praa de Rio Maior, at 
ao dia em que partiu a vitrina da Pharmcia Barbosa com uma 
bola =reforada por um revestimento de couro. =Como todos na 
=vila se conheciam, o doutor Francisco Barbosa =foi queixar-
se  me e a partir desse dia acabaram-se as =sesses de 
football ps-escolar.
22
A paixo do pequeno Afonso pelo football nasceu-lhe da nica 
=viagem que fez nos primeiros dez anos de vida. Quando tinha 
seis anos, =meses antes de ir para a escola pela primeira 
vez, os pais receberam a =notcia de que a prima Ermelinda, 
uma parente afastada da me, estava a =morrer de tuberculose. 
A prima Ermelinda vivia em Lisboa e ficou =decidido que iriam 
visit-la no domingo seguinte. Nunca tinham ido = capital e 
a viagem suscitou a maior animao na famlia, em boa verdade 
as maleitas da prima Ermelinda =apenas preocupavam a senhora 
Mariana, para o senhor Rafael e os filhos =aquele no 
passava, afinal de contas, de um apropriado pretexto para 
=irem visitar a grande cidade. Corria ento o ano de 1896, as 
vendas de tonis de vinho aos =armazns tinham sido 
excelentes e havia dinheiro disponvel para o ansiado 
passeio.
Levantaram-se pelas quatro horas da madrugada do domingo de 9 
de =Agosto, vestiram as melhores roupas e rezaram  mesa de 
modo a compensarem a missa dominical a que teriam de faltar. 
=Afonso era, nessa altura, um rapaz franzino, de cabelos 
castanhos lisos =e olhos cor de chocolate a sobressarem na 
sua tez plida. Apesar do sono, transbordava de entusiasmo e 
excitao, mal =podia esperar pela grande viagem.
Os Laureanos pegaram em dois sacos de farnel previamente 
preparados =e num garrafo de tinto e apanharam a carreira. 
Pagaram quinhentos =ris por pessoa, bilhetes de ida e volta, 
e seguiram pela Estrada Real n. o 65 at s Caldas da Rainha. 
Na =estao das Caldas compraram bilhetes de 2. a classe para 
o =primeiro rpido, a mil setecentos e vinte ris cada um, e, 
s =sete e meia da manh, o casal Laureano e os trs filhos 
mais novos apanharam o comboio. =Foram parando em sucessivas 
estaes e apeadeiros, primeiro =bidos, depois outros 
lugares de que Afonso nunca tinha ouvido falar, =Bombarral, 
Outeiro, Ramalhal, Torres Vedras, perderam a conta, mas na 
Porcalhota sentiram-se j =com um p na capital, seguiram-se 
Bemfica, Campolide e Alcntara, =acabaram por entrar no Rocio 
s dez e meia da manh.
23
"Ai que confuso, valha-me Deus", queixou-se Mariana, 
afogueada =pelo calor estival e atarantada com o nervoso 
movimento na =estao. "Vamos  Ermelinda? "
"Tem calma, mulher, tem calma", devolveu o marido, excitado 
por =conhecer a cidade e nada interessado em desperdiar o 
passeio em casa =de uma moribunda que mal conhecia. "Temos 
tempo para a tua prima, fica =descansada. Mas, primeiro, 
vamos l dar uma voltinha, anda. " Olhou em redor, os 
edifcios pareciam =estranhos, sofisticados, grandiosos, os 
homens eram uns janotas, mas, =sobretudo, havia ali mulheres 
com ar distinto, sombrinhas na mo e =aspecto bem tratado, 
umas verdadeiras=20flores, duquesas =certamente. Esfregou as 
mos, radiante. "Isto promete, ol se =promete! "
Tudo aquilo era para eles novidade. O senhor Rafael, 
compenetrado =na sua responsabilidade de chefe de famlia, 
mostrava-se =particularmente nervoso. Para se sentir mais  
vontade, ao interpelar qualquer pessoa procurava sempre 
colocar Rio =Maior na conversa, era um modo de o transportar 
para um lugar familiar, =coisa que comeou por fazer logo ali 
na estao.
" amigo, voc j passou por Rio Maior? ", perguntou a um 
=funcionrio da Companhia Real dos Caminhos-de- Ferro 
Portuguezes.
O homem mirou-o embasbacado.
" Eu? No "
"Fez mal", retorquiu o senhor Rafael. ="Diga-me l para onde 
 que  o Terreiro do Pao. "
Afonso era ainda pequeno, mas o bulcio agitado da vida 
citadina =no escapou  sua ateno. Apanharam a boleia de 
uma =carroa proveniente de Alverca, o boleeiro era um saloio 
que viera = cidade levar batatas para o Campo das Cebolas, e 
atravessaram uma =praa de dimenses nunca vistas, um largo 
to grande que =certamente Rio Maior caberia l inteirinho.
"Esta  a Praa de D. Pedro IV", anunciou o saloio, fazendo 
=um estalido com a lngua para incitar as mulas. "Era a Praa 
da =Inquisio, mas a malta conhece agora isto por Rocio. 
Chegaram
24
a fazer-se aqui touradas e a queimar-se hereges, vejam l 
=vossemeceses. "
Uma rua rodeava a vasta praa do Rocio, rvores viosas 
=alinhadas nas extremidades, o cho num tabuleiro de calada 
 =portuguesa desenhada em ondas, bancos de jardim plantados 
perante as =rvores, uma esguia coluna ao centro com a 
esttua de D. Pedro IV no topo, a rica fachada do Theatro de 
D. Maria II =ao fundo, casas a cercarem a praa, muitas de 
comrcio, aqui a =Tabacaria Mnaco, ali as Confeces 
Martins, acol a =Pastelaria Cardoso, mais alm o Caf Gelo.
Depressa a carroa deixou o Rocio para trs e meteu pela Rua 
=Augusta, percorreram-na admirando o rico e variado comrcio 
que a =enchia de vida, de um lado a Casa dos Bordados, do 
outro a Sapataria =Lisbonense, mais  frente a Casa 
Americana, entraram finalmente na faustosa Praa do 
=Commrcio e o saloio parou a carroa para que sassem. 
=Agradeceram a boleia e o homem foi  sua vida, deixando-os a 
=deambularem prazenteiramente pelo Terreiro do Pao. 
Admiraram o Caes das Columnas e os barcos a atracados ou a 
=deslizarem pelo rio com as velas ao vento, contornaram a 
praa de =olhos primeiro postos na imponente esttua equestre 
de D. Jos, ="olha o cavalo preto! ", apontou o senhor 
Rafael=20s crianas, depois miraram em silncio respeitoso 
os =majestosos edifcios amarelos que rodeavam 
geometricamente o largo =com as suas profundas arcadas e 
galerias e os torrees nas alas perpendiculares, finalmente 
maravilharam-se com o Arco =Triunfal e a esttua em p no 
topo, as mos estendidas sobre as =cabeas de duas outras 
esttuas mais baixas, no podiam saber =mas era a Glria a 
coroar o Gnio e o valor, a misteriosa legenda VIRTUTIBUS 
MAIOR por baixo, no a =decifraram, no a entendiam, no 
conheciam latim, no sabiam sequer ler. Satisfeitos, 
decidiram regressar ao ponto de =partida por outro caminho. 
Cruzaram a Rua do Arsenal e meteram pela Rua =urea, 
espantaram-se com os altos armrios de vidro colocados  
=porta da joalharia Cunha & Irmo, abastecedora da Casa Real, 
a exibir as suas pedras preciosas, "isto  que = uma 
riqueza! ", passaram
25
pela Luvaria Gatos e salivaram diante da vitrina da Maison 
=Parisienne, a patisserie que se gabava dos seus sorvetes "de 
todos os =typos. "
Desembocaram novamente no Rocio. Um sol quente de Estio, que 
=banhava a praa com violncia e empurrava as gentes para as 
=sombras protectoras, fazia realar as cores garridas das 
lojas, num =agradvel contraste com o azul-forte e profundo 
do cu. Afonso estranhou o facto de andar ali pouca gente 
descala, =havia muitas pessoas de sapatos a circular pela 
praa, situao que lhe indiciava serem os lisboetas gente 
rica e requintada. Em vez =dos barretes ribatejanos que se 
habituara a ver =em Rio Maior, constatou que, em Lisboa, 
muitos homens usavam refinados =chapus na cabea, ora 
cartolas, ora chapus de coco. Alm =disso, balouavam 
bengalas na mo e aperaltavam-se com gravatas e =laos a 
enfeitar roupas que pareciam limpas, l na terra apenas o 
doutor =Barbosa, o professor Ferreira e poucos mais tinham o 
hbito de se =apresentarem assim to janotas.
Aqui e ali, a destoar, um rapaz descalo sobre uma mula, era 
um =saloio, outro a carregar um barril azul aos gritos num 
prego de ="gua fresca! ", provavelmente um galego. Um monge 
magro, de sotaina =negra e uma corda apertada  cintura a 
servir de cinto, passava por entre dois homens sentados no 
=passeio, um com a cabea no regao do outro, que lhe 
inspeccionava =o cabelo, estava ali aberta a poca da caa 
aos piolhos. No outro lado passava um rapaz a puxar um 
carrinho de =madeira cheio de po, atrapalhando os perus de 
dois campinos ribatejanos, as aves em alvoroo em torno do 
=carrinho e os campinos a tentarem control-las com os 
cajados. Pelo =Rocio circulavam cavalos, mulas, burros, 
coches e carroas, viam-se =rebanhos de cabras e vacas 
conduzidos aos cafs e botequins para fornecerem leite, mas o 
mais estranho era uma =pequena carruagem de comboio que 
assentava sobre carris e era puxada por =dois cavalos. As 
pessoas subiam para a carruagem junto  cooperativa "A 
Lusitana", pagavam um bilhete e sentavam-se num longo =banco 
central, esperando que o cocheiro iniciasse a marcha.
26
" o Americano", disse um saloio junto ao Bebedouro dos 
Quatro =Anjinhos, sentindo-se quase gente fina ao p daqueles 
provincianos. ="Leva o pessoal pela cidade. Partem todos os 
quartos de hora, das sete =da manh s sete da tarde. Se 
quiserem aproveitar para darem uma voltinha... "
No quiseram, acharam que seria demasiado caro para as suas 
=posses. Mais valia andarem a p.
"Vamos  Ermelinda? ", sugeriu a senhora Mariana. " filha, 
=tem calma, temos tempo", exclamou Rafael. "Vamos dar mais 
uma =volta, anda, ainda = cedo. "
Saram do Rocio e meteram por uma rua sinuosa, que se 
inclinava =e subia, ngreme, e o ar moderno da cidade foi-se 
perdendo, =comeou a aparecer o miservel, de certo modo 
Lisboa tornava-se =quase to indigente como Rio Maior. Viam-
se pedintes, homens deitados no cho =a exibirem feridas 
horrendas para comprarem a piedade dos transeuntes, =mais 
ces, porcos, galinhas e patos a patinarem na lama. E o pior 
era toda a =imundice, uma imundice mais imunda do que a da 
Carrachana, uma imundice =de latrina e odores ftidos que 
tudo sujava e penetrava. O senhor =Rafael e a famlia 
saltitavam descalos de pedra em pedra, evi tando os 
excrementos e os rios de urina que =deslizavam rua a baixo. 
Havia canais para esgotos abertos ao lado dos =passeios e que 
desciam para o rio, mas muitos lisboetas tinham demasiada 
=preguia para irem ali colocar os dejectos, preferindo 
atir-los para o meio =da rua, sempre dava menos trabalho. 
Aqui no se via gente aprumada, o =cho era demasiado sujo 
para sapatos de alta sociedade.
"Esta cidade est cheia de merda", resmungou o senhor Rafael
tentando limpar na pedra um pedao de excrementos humanos que 
se =colara ao calcanhar do seu nu p direito.
Os excursionistas de Rio Maior ainda porfiaram por aquelas 
ruelas =estreitas e inclinadas, esquadrinhando-as para cima e 
para baixo, mas um =grito de "gua vai! ", seguido do 
despejar de porcaria de uma janela =para a rua, convenceu-os 
a darem meia-volta.
27
"Ai Jesus, vamos embora, vamos embora, seno ainda levamos um 
=banho de caca", aconselhou Mariana, com um risinho nervoso e 
muito =atenta s janelas em redor.
Regressaram ao Rocio, sempre era mais seguro e no corriam o 
=risco de apanharem uma chuvada de excrementos. No  que no 
=estivessem habituados  porcaria. Estavam. No estavam era 
=habituados quela intensidade de porcaria. Uma vez de volta 
 grande praa =central, meteram em direco dos 
Restauradores. A dada altura, =encontravam-se no Largo de 
Cames, a meio caminho entre as duas =praas e ao lado da 
grandiosa estao de comboios por onde tinham chegado, quando 
apareceu em frente um estranho e ruidoso coche a circular sem 
ajuda de animais e largando uma =baforada suja e malcheirosa. 
Ficaram todos paralisados e embasbacados a =olhar, menos 
Afonso, que se assustou e foi enroscar-se nas largas saias 
=da me. Em boa verdade, esta no era uma reaco 
necessariamente provinciana, uma vez que, =naquele instante, 
os prprios lisboetas pararam nos passeios e =emergiram das 
portas e janelas da imponente estao do Rocio, do =Caf 
Suisso, do Caf Martinho, da seguradora Equitativa de 
Portugal e Colnias e das =residncias em redor para 
admirarem aquela maravilha sem igual, =aquela mquina 
fumarenta a rolar espalhafatosamente sobre o macadame.
"Uma carroa sem cavalos", comentou o senhor Rafael, 
=verdadeiramente surpreendido. "J tinha ouvido falar nisto 
no =Silvestre, mas pensei que fosse reinao "
O comentrio sobre a carroa no era disparatado. Tal como 
=os Benz, nos quais se inspirava, aquele Panhard de dois 
cilindros e =motor Phnix, novinho em folha e acabado de 
importar de Frana por =um conde abastado, tinha 
efectivamente o desenho de uma carroa elegante, a roda de 
trs =maior do que a da frente, o assento escarlate 
almofadado como o dos =coches ricos e garbosos. O barulhento 
Panhard desapareceu numa curva do =Rocio, deixando um efmero 
rasto de fumaa preta atrs de si, e a vida pareceu regressar 
=ao normal. Afonso, tal como o resto da famlia, ainda ficou 
a matutar sobre aquele mistrio da assustadora =carroa
28
sem cavalos, mas depressa a novidade que era Lisboa acabou 
por =distra-lo. Seguiram pela Rua do Prncipe at aos 
=Restauradores, a enorme praa construda poucos anos antes 
no =lugar onde antigamente era o jardim do Passeio Pblico, 
subiram a ampla e arborizada Avenida da Liberdade at  
=Rotunda, detendo-se amide a admirar os surpreendentes 
postes de =iluminao colocados ao longo da avenida, 
diferentes dos bicos de =gs a que estavam habituados.=20
J cansados e com fome, abancaram junto ao lago de um terreno 
=baldio e arborizado no topo da Rotunda, ao lado da Quinta da 
Torrinha. A =me distribuiu a merenda pelo marido e filhos, 
era po caseiro e =chourio, regados com o tinto do garrafo. 
O senhor Rafael, habituado  informalidade rural
meteu conversa com uma outra famlia que ali se instalara 
=tambm em piquenique e, depois de fazer a tradicional 
pergunta =relacionada com uma eventual passagem por Rio 
Maior, comentou aquele =extraordinrio fenmeno da carroa 
sem cavalos.
Aquilo  que  uma mquina", observou para o estranho, 
=batendo com a palma da mo na coxa.
" verdade. E reparou que  limpinha? "
Ento no ? Em vez de largar bostas, deita fumo" observou 
=Rafael. Pigarreou, lembrando-se de
que isso representava uma possvel dificuldade para a 
=agricultura. O problema  que a fumarada no serve para 
estrume. =Fez uma careta. "Mas no faz mal, catano. Aquela 
mquina  mesmo uma maravilha! "
" homem, e vossemec ainda no viu nada! " - retorquiu o 
=outro, sorridente.=20
outro, sorridente. " Est a ver estes postes na Rotunda e por 
=toda a Avenida?"
"Ento no hei-de ver? So diferentes dos do Ribatejo, 
=caramba. "
"Pois so", assentiu o homem. "
" So lmpadas elctricas. " O que  isso
"Olhe,  uma iluminao nocturna. S que, em vez de se =usar 
o azeite, o gs ou o petrleo para alimentar a chama, usa-se 
=electricidade. A lmpada elctrica d muito mais luz, no 
=emite
29
calor, no liberta fumos nem mau cheiro e no provoca 
=incndios. Uma maravilha. "
" Ena "
"Valha-me Deus, Rafael", afligiu-se a senhora Mariana, que, 
tal =como as crianas, estava atenta  =conversa. "A Laurinda 
j me falou nessa elatrocidade e contou-me que ouviu dizer 
que isso faz =muito mal  sade,  antinatural "
"Disparate, minha senhora", admoestou-a o homem. "A 
electricidade =no tem efeitos adversos e, alm do mais, 
possui at muitas =aplicaes. Dizem que, no futuro, os 
Americanos vo ser puxados =pela electricidade, e no por 
cavalos, o mesmo acontecendo com todas as mquinas modernas. 
=Com a energia elctrica far-se-o coisas extraordinrias, 
=impensveis. Por exemplo, no ms passado, ali no Intendente, 
houve =uma grande animao. O Real Colyseu fez uma exibio 
de fotografias vivas, era uma =coisa do arco-da-velha, tudo 
mexido pela electricidade. "
"Homessa! ", admirou-se o senhor Rafael. "Fotografias vivas? 
" =" mesmo assim como lhe estou a dizer. Foram buscar um 
electricista estrangeiro a Madrid e ele mostrou fotografias a 
=mexer, vamos gente a andar, a correr, a pular, um baile em 
Paris, =comboios a circular, uma ponte na cidade, era uma 
coisa impressionante, =impressionante. So fotografias 
animadas por electricidade e  por isso que lhes chamam 
=animatgrafo. " O homem sorriu, o olhar perdido no infinito. 
"Aaah, =aquilo  que foram duas horas bem catitas! Cobraram 
um balrdio =por sesso, mas pensa que isso fez esmorecer a 
tusa do pessoal? Nem p! Foi =uma roda-viva, um ver que 
t'avias a vender bilhetes, era tudo  coca, =a malta queria 
era ver os bonecos. "
"E isso j acabou? "
"Infelizmente j", confirmou o homem com um suspiro. "Mas 
estive =a ler no jornal que o Theatro D. Amlia vai em breve 
comear com =sesses dirias de fotografias animadas. O 
electricista foi para o Porto mas =tenciona voltar aqui a 
Lisboa e dizem que ele agora no ter s =coisas l da 
Frana, vai mostrar fotografias vivas de uma tourada =no 
Campo Pequeno, da=20praia de
30
Algs, ali da Avenida da Liberdade, da Boca do Inferno, 
coisas =com a nossa gente, sabe? De modo que anda tudo em 
pulgas para ver essas =maravilhas. "
O senhor Rafael e a famlia reagiram com cepticismo a to 
=espantoso anncio, pensaram mesmo que o lisboeta estava a 
fazer pouco =de si. Como era l possvel ver fotografias a 
mexer? Mas o homem no se =calava com as novidades e informou 
os ribatejanos de que, se estivessem =interessados em 
sensaes fortes, iria haver nessa tarde um =interessante 
jogo de football.
"E o que  isso do fubu? ", indagou Rafael Laureano, 
=intrigado com as modernices dos citadinos.
"Football", corrigiu o seu interlocutor, divertido por estar 
a =explicar uma palavra inglesa a um paisano das beras. " 
um jogo =ingls em que se formam duas equipas de players e 
todos do kiques =numa bola at fazerem goal. "
O senhor Rafael no percebeu muito bem, mas ficou cheio de 
=curiosidade. Se calhar, valia a pena ir ver esse tal fubu 
para =depois contar as novidades l na taberna do Silvestre, 
a carroa =sem cavalos j iria dar pano para mangas, aquela 
conversa da electricidade e das =fotografias a mexer tambm, 
o mesmo se podia dizer do fenmeno de =muita gente usar 
sapatos e andar vestida como o doutor Barbosa, pode ser =que 
esta outra coisa alimentasse mais uma tarde de cavaqueira, 
que preciosa mina de =assuntos para paleio sem fim se estava 
a revelar este passeio pela =capital, que brilharete ele iria 
fazer com os amigos dos copos.
" amigo, e onde  isso? "
" ali no Campo Pequeno, daqui a duas horas", disse o homem, 
=apontando para a esquerda. "Est a ver aquela rua?  a 
Avenida =Fontes Pereira de Mello. Meta por ali at ao 
Saldanha, uma grande =praa que est por acol, e depois siga 
por uma alameda muito larga, a Avenida Ressano Garcia, =at 
dar com uma grande arena,  direita, uma coisa feita h 
=pouco tempo para as touradas. Chega l em meia hora. "
A senhora Mariana puxou o marido pelo brao.
Rafael, ento e a Ermelinda "
31
" filha, tem calma", retorquiu Rafael, agastado. "A tua 
prima =no vai a lado nenhum, no te aflijas. A gente d o 
passeio e =depois vamos l ver a moa, no te apoquentes. "
Quando terminou a refeio, a famlia Laureano rumou 
=tranquilamente na direco indicada. O passeio durou 
quarenta =minutos, at que os cinco deram com um enorme 
edifcio circular cor de tijolo, cheio de arcadas e galerias, 
decorado a =arabescos, cpulas duplas em azul-celeste a 
dominar os vrios =torrees de estilo neomourisco, era a 
praa de touros erguida no =centro de um terreno maltratado. 
Concentrava-se ali uma pequena multido, incluindo algumas 
mulheres de alta =sociedade com os seus vestidos cheios, os 
chapus espampanantes e as =sombrinhas parisienses, rodeadas 
por um squito de amigas e criados. Indagando se era ali o 
Campo Pequeno, o =senhor Rafael obteve a confirmao. Perante 
si erguia-se a =praa de touros. Aproximou- se da bilheteira 
e verificou que a tabela =de preos indicava que os bilhetes 
mais baratos eram os da galeria de 2. a =ordem a duzentos 
ris cada um, e os mais caros eram os camarotes de =1. a 
ordem, a doze mil ris. Sentiu-se confuso e questionou um 
=empregado.
" amigo, tantos ris para ver fubu? "
O funcionrio riu-se.
"Aqui  s tourada, homem. A bola  ali "
O empregado apontou para os baldios ao lado da praa. 
=Estendia-se ali um pedao de terra com dois grandes 
rectngulos =desenhados no cho, que o homem identificou 
=como sendo os campos de jogo. Um dos =rectngulos, mesmo 
colado  praa de touros, mostrava-se =vagamente nivelado, 
mas o outro estava cheio de covas e buracos. Ao que parece, 
havia sempre ali muitos jogos e as equipas que chegassem 
=primeiro ocupavam o rectngulo mais nivelado. Os atrasados 
tinham de =se contentar com o que se apresentava esburacado.
A famlia de Rio Maior aproximou-se do rectngulo em melhor 
=estado e no teve de esperar muito para que surgissem 
novidades. Dois =grupos de homens apareceram pouco depois no 
local,=20
32
cada grupo transportando pelo baldio umas enormes traves de 
=madeira, duas mais pequenas pregadas em paralelo e unidas 
por uma grande =trave colocada perpendicularmente numa das 
pontas. Cruzaram o descampado =at chegarem ao rectngulo 
mais liso.
"So os players do Real Gymnasio Club", explicou um mirone ao 
=senhor Rafael. "Vm do Rego e trazem as balizas.
" Rafael Laureano no percebeu a explicao, mas =manteve-se 
calado, a observar. Os homens colocaram as traves em cada 
=extremidade do rectngulo e, inesperadamente, comearam a 
tirar os casacos e as gravatas. Via-se que era gente de 
classe =alta, pelo que o seu comportamento deixou a famlia 
de Rio Maior =siderada. Depois de ficarem em tronco nu, 
tiraram os sapatos e, =cmulo dos cmulos, comearam a baixar 
as calas. A senhora Mariana reprimiu um grito =pdico, tapou 
os olhos e virou-se de costas enquanto os filhos e o =marido 
se encontravam paralisados e de boca aberta, tinham 
dificuldade =em acreditar no que viam, at que 
explodiram=20em gargalhadas. Aquela gente fina, =to cheia de 
pruridos e salamaleques, estava a despir-se em plena =rua, e 
as damas que se encontravam na assistncia limitavam-se a 
ocultar os =olhos com os seus leques floridos. Os recm-
chegados ficaram todos =momentaneamente de cuecas at 
vestirem umas calas apertadas e =curtas, como se =fossem 
calas de cavaleiros com a bainha pelos joelhos. Colocaram 
=sobre o tronco umas camisolas coloridas e calaram umas 
meias altas e uns tamancos escuros. Um deles tirou uma bola 
=castanha de um saco e foram todos a correr para dentro do 
rectngulo =aos pontaps  bola. Instantes mais tarde 
apareceram de bicicleta =outros homens que repetiram por 
detrs da segunda baliza o ritual de se despirem e vestirem, 
amontoando a =roupa junto s traves antes de entrarem 
igualmente no terreno.
" o Football Club Lisbonense", anunciou o mirone, 
intimamente =divertido com a reaco dos parolos que o 
escutavam.=20
Estes gajos so muito bons, at agora s perderam uma =nica 
vez, h trs anos, contra uma equipa de ingleses, e, =mesmo 
assim apenas por um goal.
33
Agarrado s calas do pai, o pequeno Afonso reteve na 
=memria o que se passou a seguir. Os dois grupos tinham 
camisolas de =cores diferentes e desataram todos a correr 
loucamente pelo campo a dar =pontaps na bola, perante o 
clamor excitado dos espectadores e a vigilncia =de um homem 
vestido com um elegante fato e gravata de tweed que corria 
=entre eles a dar ordens.
" o referee", esclareceu o mesmo mirone.
As regras eram simples. Tornou-se claro aos visitantes de Rio 
Maior =que s os dois homens que se encontravam nas balizas 
podiam pegar na =bola com as mos, todos os outros apenas 
estavam autorizados a dar =pontaps. Havia alguns que eram 
muito loiros ou ruivos, tratava-se de ingleses =misturados 
nas duas equi pas. Por vezes zangavam-se todos, gritavam, 
=gesticulavam, empurravam-se, o jogo parava, entravam 
espectadores no =rectngulo para participarem na discusso, o 
sururu crescia para depois acalmar, os jogadores e o homem 
=engravatado de fato de tweed empurravam toda a gente para 
fora do campo =e logo tudo recomeava. Uma vez por outra, a 
bola entrava numa baliza, ouvia-se uma grande gritaria e 
aplausos entre os espectadores e alguns =dos jogadores 
saltavam de alegria e abraavam-se efusivamente.
"Aquele pequenino  o Barley, um ingls muito bom", indicou o 
=mirone com entusiasmo, apontando para um homem que corria 
rpido =pelas alas e que acabara de meter uma bola na baliza, 
sendo nesse =instante cumprimentado por vrios amigos. "Mas o 
que eu gosto mais  daquele magrinho ali, o Paiva =Raposo. 
Sim senhor, aquilo  que  um player, um portento nos 
=dribblings e nos kiques! O Barley e o Raposo estiveram os 
dois no team =do Club Lisbonense que ganhou a primeira taa 
de football em Portugal, h dois anos, quando foram ao Porto 
=derrotar o Football Club do Porto por 2-0. At el-rei foi l 
ver o =match"
Nessa tarde soalheira no Campo Pequeno, o Football Club 
Lisbonense =venceu o Real Gymnasio Club Portuguez por 3-1, 
confirmando mais uma vez =tratar-se da melhor equipa de 
football existente em Portugal.
34
"Bem, vamos l ento  Ermelinda", suspirou o senhor =Rafael 
voltando as costas ao Campo Pequeno.
" uma pena que isto v acabar em breve", comentou o mirone, 
=em jeito de despedida, quando j a multido dispersava.
"Ento? ", admirou-se o pai de Afonso, olhando para trs. " 
=Construram aqui h quatro anos esta arena de touros e esto 
a =dar ordens para se acabarem estes jogos. A rapaziada vai 
ficar sem =campo. "
O homem deu meia-volta para se ir embora, mas o senhor Rafael 
=lembrou-se de que tinha ainda uma pergunta para lhe fazer.
"  amigo "
O mirone voltou-se.
" Sirr: "
"Voc j foi a Rio Maior?
35
II
Foi um parto duro, como se espera que sejam todos os =partos, 
mas madame Michelle Chevallier tinha umas ancas estreitas e 
os =rins no se cansaram de protestar quando sentiram que 
chegara a hora de dar = luz a criana. A parteira cortou o 
cordo umbilical, deu uma =palmada no beb e o choro fraco 
irrompeu pelo quarto, era quase um =miar aflito. A av limpou 
a criana em gua previamente aquecida numa chaleira, cobriu-
a com um xaile =macio, saiu do quarto e, com um sorriso feliz 
mas os olhos cansados =aps a longa noite, exibiu-a ao pai e 
ao av, que aguardavam  =porta, excitados com os frgeis 
berros que tinham escutado havia momentos.
" uma menina", anunciou.
Foi na manh de 2 de Outubro de 1891 que Paul Chevallier viu 
=nascer a sua segunda filha. Horas mais tarde, enquanto a 
criana =mamava no seio da me e sob os olhares embevecidos 
do pai, da pequena =e excitada irm Claudette e dos dois avs 
ainda vivos, ficou decidido que ela se chamaria Agns, como a 
=av materna. Nos trs anos seguintes nasceriam mais dois 
filhos, =ambos rapazes, Gaston e Franois, perfazendo um 
total de quatro =irmos, nmero que os pais consideraram 
adequado e final, salvo imprevistos.
36
A famlia Chevallier vivia numa casa antiga situada na Rue du 
=Palais Rihour, no meio de uma colorida fila de estreitos e 
pitorescos =domiclios do sculo xvi e a um passo da 
imponente Grande Place de =Lille. Cedo a pequena Agns 
Chevallier comeou a frequentar a loja do pai, uma casa de 
vinhos localizada na =faustosa Vieille Bourse e chamada 
Chteau du Vin. S por si, o =facto de se ter uma loja na 
Vieille Bourse constitua indcio =forte de que se era algum 
de posses, descrio que vagamente correspondia ao modo de 
vida de Paul. O pai de =Agns era um homem alto e magro, 
muito louro e com os malares =salientes nas mas do rosto. 
Tinha terras perto de Reims, onde cultivava uvas para fazer 
=champagne, cuja qualidade fez dele um enlogo prestigiado em 
=Lille, embora o seu verdadeiro negcio fosse o comrcio de 
vinhos. A =sua loja, frequentemente transformada num 
escritrio comercial, =exportava para a Blgica, a Holanda, a 
Gr-Bretanha e a Alemanha.
Tal como muitos habitantes da cidade, os =Chevallier eram 
burgueses de origem flamenga e no esqueciam esse =facto. O 
nome original de famlia, Van der Elst, tinha sido vitimado 
pela intolerncia francesa =para com as tradies flamengas, 
levando um antepassado que se =notabilizara em aces de 
cavalaria durante as guerras napolenicas a decidir alterar o 
apelido para Chevallier. Essa , de resto, =a histria de 
Lille, uma cidade originalmente belga, Rijssel, alvo de =onze 
cercos e arrasada vrias vezes em mil anos, colocada 
=sucessivamente sob controlo flamengo, francs, austraco e 
espanhol at ser definitivamente anexada pelos =franceses no 
sculo xvi, com o tratado de Aix-la-Chapelle. Lus =XIV 
conquistou a povoao em 1667, conferiu-lhe o estatuto de 
capital da Flandres francesa e =chamou-lhe Lille, uma 
evoluo da palavra L'isle, a ilha, uma vez =que a cidade 
cresceu em torno de um castelo construdo numa das ilhas =do 
rio Dele. O prprio edifcio da Vieille Bourse fazia questo 
de lembrar o passado flamengo de =Lille, mantendo quatro 
lees da Flandres orgulhosamente esculpidos na fachada. A 
imponncia do =edifcio da Vieille Bourse era algo que no 
deixava de =impressionar a pequena Agns
37
sempre que a me a levava a visitar o pai  loja de vinhos. A 
=Vieillr Bourse erguia-se, majestosa, de um dos lados da 
praa central =da cidade, exibindo fausto e opulncia na sua 
arquitectura grandiosa, =com as caritides a ornarem as 
pilastras, as janelas ricamente decoradas  =maneira do 
Renascimento flamengo, um sino dentro da vistosa e altiva 
=coluna vermelho-tijolo que se erguia no topo central do 
telhado escuro. =Embora parecesse um nico edifcio, a 
Vieille Bourse era, na verdade, constituda por vinte e 
quatro =pequenas casas de comrcio, uma das quais albergava 
Chteau du =Vin.
Durante a infncia, os quatro irmos foram educados =em casa. 
Todos eles eram bilingues, falavam =francs e flamengo. As 
conversas em famlia decorriam preduminantemente em =francs, 
mas o flamengo intrometia-se amide, com frequentes 
="goedemorgen" a serem trocados pela manh, pedindo-se 
"gebak", "melk" =e "suiker "  mesa do pequeno-almoo e 
lanando-se "tot ziens " de despedida. As refeies 
=cozinhadas por Michelle tinham a marca da cozinha flamenga, 
feita de =carne de aves e de pratos gordurosos, como boudin e 
morcela com pur de ma. =Mas os favoritos da crianada eram 
o waterzoi; as doces gaufres e a =marmelada com maroille, o 
popular queijo da regio.
Agns tinha duas grandes amigas. Uma era a irm Claudette, um 
=ano mais velha. Claudette era arisca e mandona, Agns 
revelava-se =mais meiga e conciliadora, embora na hora do 
aperto se mostrasse =inesperadamente tesa e inflexvel. As 
brincadeiras entre as duas terminavam numa invarivel guerra 
=de insultos, belisces e arranhes. As palavras mais duras 
eram ="t'es mchante", "tu s m", insulto que em geral 
desencadeava =um rpido e doloroso contacto fsico. A me 
aparecia a separ-las e obrigava-as a pedirem desculpa =uma  
outra. Como era orgulhosa, Agns desculpava-se em flamengo, 
vomitando um cru "het spijt me echt! " com =tal ferocidade 
que mais soava a novo insulto. Evitava sempre dar parte =de 
fraca e raramente chorava, apesar de a irm ser fisicamente 
mais forte e, consequentemente, fazer prevalecer a sua 
=vontade nestes confrontos.
38
Quando as brincadeiras com Claudette acabavam mal, Agns ia 
ter =com a sua segunda amiga, uma boneca de carto e madeira 
 qual =chamava Mignonne e de quem se tornou inseparvel. 
Mignonne era uma boneca jumeau, oca por dentro e fabricada 
num =molde, com olhos de vidro castanhos e uma cabeleira 
loira encaracolada, =a cabea encaixada num corpo composto e 
articulado, os membros a =dobrarem-se nas junes, o que era 
uma novidade. Foi com Mignonne ao colo que Agns =aprendeu a 
tri cotar, e era sempre na sua companhia que ouvia a me 
=contar histrias, na maior parte contos flamengos, como as 
lendas da =batalha entre Lydric e Phinaert, os mticos 
gigantes fundadores de Rijssel, e de Yan den Houtkapper, o 
=lenhador que, segundo a tradio, fabricou um par de botas 
de =madeira para Carlos Magno. Mas foi uma histria 
comprovadamente =verdadeira, a de Florence Nightingale, que 
mais capturou a imaginao da =pequena, ao ponto de passar a 
dizer a toda a gente que ela e Mignonne =iriam ser 
enfermeiras quando fossem grandes.
==="Florence =Nightingale?", admirou-se uma vez madame 
Chenu, uma amiga da me, quando a ouviu citar a sua herona. 
"Ora ora, se gosta tanto de ajudar =os outros, a menina devia 
era seguir os passos do grande heri de =Lille."
"Lydric?", interrogou-se Agns, hesitante.
Madame Chenu riu-se.
"Lydric? No, ma petite, esse j l vai. Estou a falar 
=do nosso Pasteur, o grande Pasteur, que Deus o tenha. Esse, 
sim,  um =exemplo, deve ser imitado."
Foi a primeira vez que Agns ouviu falar no recentemente 
=falecido heri da cidade. Louis Pasteur era oriundo da 
regio e =foi em Lille que desenvolveu as investigaes que o 
tornariam clebre. =Descobriu o papel dos microorganismos na 
fermentao e desenvolveu =a pasteurizao para combater esse 
processo. Mais importante, =inventou as vacinas e demonstrou 
a importncia da higiene nos hospitais como modo de controlar 
a alta taxa de mortalidade entre os doentes =internados. Todo 
esse trabalho, desenvolvido sobretudo na dcada =anterior, 
atraiu uma enorme
==39
ateno sobre este cientista francs, tornando-o o mais 
=famoso filho de Lille e o orgulho da cidade.
Com a medicina vagamente em mente, Agns comeou aos nove 
=anos a frequentar o liceu catlico para raparigas. Magra 
=como um palito, um sorriso luminoso e os traos do rosto bem 
desenhados, =a pequena depressa se fundiu na multido 
homognea de meninas com =batas. No primeiro dia levou 
Mignonne para as aulas, mas a professora, =uma freira austera 
e rspida, depressa lhe tornou claro que no apreciava a 
ideia. A meio de =uma lio, a irm Pezard calou-se 
bruscamente e aproximou-se da =carteira de Agns com ar 
severo.
"O que  isto? ", perguntou a freira, pegando na boneca.
" Mignonne, soeur", informou-a Agns com timidez. " a 
=minha amiga. "
A professora ignorou a resposta.
"No se admitem aqui bonecas. A menina j tem idade para se 
=deixar de criancices. " Deu meia-volta e regressou para a 
sua =secretria com Mignonne na mo. "Venha buscar a boneca 
quando as =aulas terminarem, e, ateno, no a quero voltar a 
ver por c".
Agns ganhou um medo terrvel a soeur Pezard, mas o incidente 
=serviu para lhe fazer perceber que a infncia teria de ficar 
 =porta do liceu. As brincadeiras e conversas com a boneca 
de carto e madeira foram assim reservadas para a noite, em 
particular para os =instantes antes de adormecer. Agns 
deixou naturalmente de acreditar =que Mignonne a ouvia, 
embora permanecesse afeioada  boneca e =falasse com ela 
como quem escreve num dirio, era uma maneira de fazer o 
balano do dia e estruturar =verbalmente o que aprendera e 
tudo o que vira. A segunda filha do casal =Chevallier cresceu 
viosa, mais parecida com a av paterna, j =falecida, do que 
com a me, os cabelos aloirados a acastanharem em caracis 
vistosos, os olhos =de um verde-vivo e intenso, talvez uma 
mistura do azul do pai com o =castanho da me.
Foi nesta idade que Agns guardou a sua mais extraordinria e 
=mgica memria de infncia. O pai adorava falar de Paris, e 
em
40
particular de uma torre gigantesca que para l tinha sido 
=construda, tema frequente das conversas no Chteau du Vin. 
Os =clientes da loja que tinham assistido  inaugurao da 
torre, =dois anos antes do nascimento de Agns, dividiam-se 
quanto  importncia daquela obra e expunham os =seus 
argumentos em intensas e acaloradas discusses. Sentada num 
=canto da loja, Agns ouvia-os em silncio, mas com ateno. 
=Uns diziam que era um monstro, uma chamin de ferro, um 
disparate sem igual, um insulto  arquitectura de =Paris, at 
uma ameaa  segurana das pessoas, as leis da =gravidade 
tornavam evidente que tal tumor metlico iria 
=inevitavelmente tombar. O alfaiate Aubier afirmava mesmo, s 
arcstico, que o stio onde mais =gostava de estar quando 
visitava Paris era na torre, justamente porque =era esse o 
nico local da cidade onde no teria de a ver. Em boa 
=verdade, este dito espirituoso no era da sua autoria, 
Aubier tinha lido uma coisa do gnero num =jornal, atribuda 
a Guy de Maupassant, mas nas conversas com os =amigos a frase 
produzia bom efeito e ele no se importava de a fazer =passar 
por sua.
Outros clientes, porm, gabavam com entusiasmo a 
monumentalidade =e engenhosidade da obra, que consideravam a 
prova de que a engenharia =francesa era a melhor do mundo. A 
torre foi apresentada ao pblico na =Exposio Universal de 
1889, constituindo um tributo  industrializao =da Frana e 
um marco para assinalar o centenrio da =Revoluo Francesa, 
ao mesmo tempo que gerava um aceso debate =pblico nos 
jornais e suscitava acrrima oposio de arquitectos e 
artistas. Em bom rigor, a obra era to =polmica que todos a 
queriam ver. Paul Chevallier, como qualquer =francs que se 
prezasse, acompanhou o debate  distncia mas =no pde na 
altura visitar a Exposio e ver a clebre torre para julgar 
por si mesmo. S mais tarde =teve oportunidade de o fazer, 
durante as vrias viagens a =Paris a que os compromissos 
profissionais o obrigavam para comercializar a =produo 
vincola. Ia sempre sozinho e, no regresso, no se =coibia de 
louvar em casa a grandiosidade da obra.
Por deciso de Lus Napoleo, a Frana acolhia uma =grande
exposio universal todas as dcadas, com intervalos que =no
41
podiam exceder os doze anos, de modo que o certame seguinte 
em =Paris ficou marcado para 1900. Numa =manh da Primavera 
desse ano, ao pequeno- almoo, e por entre dois croissants, 
Paul Chevallier fez perante a famlia =um anncio solene.
"Est decidido", disse. "Este ano vamos  Exposio 
=Universal de Paris "
Foi uma excitao l em casa. Muitas das colegas de Agns no 
=liceu iriam de propsito a=20Paris com os pais para 
visitarem a =Exposio, e os que no tinham planos para tal 
mostravam-se desesperados ante a perspectiva de =perderem o 
grande acontecimento do ano. Os filhos de Paul passaram 
=semanas a falar do assunto, pedindo, implorando, ameaando, 
at =chorando, quando finalmente conseguiram naquela manh 
arrancar do pai o compromisso de que iriam  =Exposio. No 
 que Paul e Michelle fizessem um grande =sacrifcio, na 
verdade sentiam-se ambos igualmente ansiosos por =visitar 
Paris e =participar no grande evento, todos os seus amigos l 
iriam e era =impensvel que os Chevallier ficassem para trs.
A famlia chegou  Gare du Nord num final de manh de =Maio. 
Os seis apanharam um coche com destino ao hotel, no centro da 
=cidade. Mal o coche comeou a andar, atingiram uma lomba e 
viram a =silhueta esguia da Torre Eiffel erguer-se no 
horizonte, um "oh" excitado e =admirativo reverberou entre as 
crianas, j tinham visto a imagem =da polmica torre nos 
jornais e em postais da Exposio de =1889, mas v-la assim 
ao vivo era coisa=20nica e de admirar, que construo to 
extraordinria e =maravilhosa, tudo ferro e engenho, o 
verdadeiro triunfo da indstria. =Na plancie parisiense 
apenas o vulto branco do Sacr Coeur parecia desafiar aquele 
gigante de ferro, mas a catedral de Deus =perdia na 
comparao com a baslica de Eiffel, sem dvida =era esta 
torre um indcio da arrogncia do homem no seu =crescimento 
para os domnios celestes, o sinal inequvoco da 
superioridade da cincia =sobre a superstio, a prova final 
do domnio da luz sobre as =trevas obscurantistas.
42
"Tem trezentos metros de altura", comentou orgulhosamente o 
=cocheiro. " a mais alta construo do mundo, maior do que 
as =pirmides do Egipto. "
Foram instalar-se no Hotel Scribe e, sem perderem tempo, 
apanharam =em Chtelet o chemin de fer metropolitain em 
direco  =Place d'Italie, tudo numa grande excitao, no 
imaginavam ser =possvel andar num comboio por baixo da 
terra, que maravilha, que =prodgio, na Place d'Italie 
apanharam outro metropolitain e foram dar = Place du 
Trocadro, a estao da Exposio Universal, dirigiram-se ali 
a um dos guichets de acesso ao recinto e =Paul puxou da 
carteira.
"Quanto so seis bilhetes? "
"Como j  meio-dia,  um =franco por pessoa", indicou o 
recepcionista.
"Ah ? E se tivssemos chegado mais cedo?
"At s dez da manh so dois francos por pessoa, =msieu. 
Depois das dez passa a um franco. "
Uma enorme multido enchia o Trocadro, tornando difcil a 
=circulao. Os Chevallier entraram no recinto e deram 
=imediatamente de caras com o extico pavilho de Madagscar, 
um =grupo de homens com chapus de palha e capas s riscas a 
cantar alegres canes malgaches num palco sobre o =passeio, 
uma multido em redor a apreciar o espectculo de som e 
=festa, viam-se camelots a venderem postais, elegantes 
senhoras com =vistosas sombrinhas, cavalheiros de bengala e 
cartola, crianas vestidas =como adultos, um mar de gente 
aqui e ali, vagueando, fluindo tudo num =imenso bulcio, era 
a belle poque em todo o seu esplendor.
"Vamos ver, pai, vamos ver", implorou Agns aos pulos, 
apontando =para os animados msicos malgaches.
Claudette fez coro.
"On va? "
Mas Paul, previamente aconselhado pelos amigos a no perder
a cabea com a primeira atraco que lhe aparecesse pela 
=frente e preocupado em gerir o tempo, abanou a cabea.
43
"Agora no, meninas. Vamos primeiro dar uma =volta e s 
depois = que escolhemos o que iremos assistir"
"Mas eu quero ouvir aquela msica", insistiu Agns. " 
=divertida. "
"Depois, filha, depois"
Os seis penetraram no parque do Trocadro e deram com a 
=exposio colonial e a sua miscelnea de estilos 
=arquitectnicos, colunas do antigo Egipto, pagodes de Brama, 
telhados =revirados do Japo, cpulas rabes, casas de bambu, 
palhotas, tendas, medinas, tudo povoado de povos =indgenas 
que enchiam a praa com um colorido exotismo, eram =bedunos, 
chineses, bosqumanos, ndios, bantus, sikhs, =mongis, 
melansios. Desceram o parque pelo corredor direito,  
esquerda um lago a =cair em degraus comn uma cascata 
geomtrica,  direita as =colnias francesas, Martinica, 
Guadalupe, Guiana, Reunio, =Tonquim, do outro lado do lago 
as colnias estrangeiras, a sia russa, o Transval, as 
colnias =portuguesas, as ndias holandesas, nada disto 
interessava, eram =outros imprios, a no ser talvez aquele 
estranho edifcio na =esquina, "c'est quoi a? ",  uma 
rplica do templo javans de Tchandi-Sari entalado entre duas 
casas dos =planaltos de Samatra. Mantiveram-se no corredor 
das colnias =francesas e deram,  direita, com a porta de 
uma casa de Tunes, =depois surgiram as construes do osis 
de Tozeur, prticos da mesquita de Sidi-Mahrs, o minarete da 
=mesquita de Barbier, um caf de Sidi-bu-Said, ruelas de 
souks,  a =Tunsia, "c'est pas rigolo? ",  direita o 
palcio da =Arglia, um edifcio esbranquiado e ornado com 
frisos e cantarias de azulejos, ao lado a velha Argel =com a 
sua pitoresca casbah, terraos abertos, cpulas e minaretes 
=coroados com crescentes islmicos, um restaurante de 
couscous l =dentro, raparigas de Ouled-Nails a atrarem uma 
embasbacada multido com a sua atrevida dana do =sabre, "uh 
la la! ", do outro lado encontravam-se as colnias =inglesas, 
no interessava.
Agns mostrava-se estupefacta com a variedade cultural que se 
=espalhava em redor. Tudo lhe parecia estranho, extico, 
quase mgico, exuberante de diversidade, to diferente do 
=que estava
44
habituada a ver, e olhava para o pai =como fonte de respostas 
para as =mltiplas dvidas que a assaltavam.
"Mas, pap, por que  que eles tm a pele escura?
 " por causa do sol, filha. "
A menina olhou para a brancura marmrea do seu brao, a pele 
=exibia um tom claro de leite, alvo e suave =como marfim.
"Mas eu tambm apanho sol e sou clarinha. "
" que eles, l na sua terra, apanham muito mais sol do que 
=ns, so meses e meses de sol, sem quase verem nuvens. "
Agns fez um olhar cptico.
"Meses de sol? Ento no tm Inverno? "
"Parece que no. O monsieur Dongot, aquele gorducho que s 
=vezes vai l  loja para comprar umas remessas para Hu, o 
do =bigode, sabes? Pois ele anda pelas Indochinas e contou-me 
que nos =trpicos nunca usam casaco e que a gua da=20praia  
to quente que parece que =foi aquecida numa chaleira. "
Agns ficou alguns minutos a mirar as figuras exticas que se 
=moviam em torno de si, imaginando-as num mundo de sol e 
guas =escaldantes, um mundo onde no eram precisos casacos e 
as pessoas se =tornavam escuras com o calor. Era difcil 
acreditar em tal, mas se o pai o dizia...
A figura dominante da Torre Eiffel imps-se finalmente sobre 
o =parque do Trocadro. Os Chevallier admiraram aquele 
monumento em =ferro que os atraa do outro lado do rio =como 
se fosse um man, um magneto =fascinante, imponente, 
poderoso, gigantesco. Cruzaram a Pont d'Iena, =alargada 
especialmente para a Exposio, e, por entre dois =trinck-
hall, entraram no Champ-de-Mars, o colosso metlico rasgando 
o cu diante de si, o espao em redor ocupado por =vistosos 
edifcios de ferro e vidro,  direita o Cinorama e o =Palais 
de la Femme, atrs destes o Palais de l Optique, = esquerda 
o Crdit Lyonnais, o quiosque dos tabacs trangers, =o 
extico Panorama du Tour du Monde com a sua rica e complexa 
fachada =dominada por um pagode japons, um minarete turco e 
uma torre de Angkor, danarinas cambojanas a a =trarem 
mirones frente  porta principal, ao lado o pequeno
45
chalet de madeira do Club Alpin e a seguir o Palais du 
Costume. Por =baixo da Torre Eiffel estendia-se um jardim 
geomtrico francs, =com dois kiosques  la musique a 
executarem ruidosas marchas militares, e de ambos os lados 
desenhavam-se =pequenos lagos sinuosos integrados num 
harmonioso jardim paisagstico =ingls, muita relva entre 
rochas, lombas e rica vegetao tropical, fetos 
arborescentes, palmeiras de estipes esguias, arbustos 
=viosos, caminhos a serpentearem pela verdura, pontes sobre 
a =gua, nenfares a deslizarem suavemente  superfcie, 
=serenos, delicados.
Os Chevallier foram almoar uns crpes au fromage et jambon 
=ao restaurante entre o Palais du Costume e o edifcio dos 
Postes et =Tlgraphes, com vista para o lago e para a Torre 
Eiffel.
"Pap, o que  que monsieur Dongot diz das pessoas que ele 
=para l viu? ", quis saber Agns enquanto saboreava o queijo 
=derretido dentro do crepe.
" Que viu onde Na Indochina "
" Sim. "
"Ele diz que so uns selvagens, uns primitivos, parecem uns 
=chineses escuros e s comem arroz. "
"So simpticos? "
"O monsieur Dongot d a impresso de no gostar deles". 
=Piscou o olho. "Mas isso no quer dizer nada, eles, 
provavelmente, =tambm no gostam do monsieur Dongot. "
Apanharam depois um pequeno e simptico comboio que circulava 
=pelo permetro da Exposio e, confortavelmente instalados 
nos =bancos das alegres carruagens, admiraram a espantosa 
torre, de perto era =sem dvida maior e mais imponente do que 
parecia  distncia ou nas ilustraes e postais. =Seguiram 
pelo Quai d'Orsay para apreciarem os palcios e pavilhes =ao 
longo do Sena, estavam ali as representaes internacionais, 
o Reino Unido, a Espanha, os Estados Unidos, a =Grcia, 
Portugal, a ustria, e ainda as pequenas delcias, =coisas 
mignonnes como a Maison du Rire, o Grand Guignol, a Roulotte, 
a =Chanson Franaise, os Tableaux Vivants, o restaurante 
romeno, o bistrt checo. =Percorreram a Esplanade des 
Invalides, com os seus palcios =consagrados
46
ao mobilirio,  tapearia,  faiana,  =vidraria, e deram 
meia-volta, novamente o Quai d'Orsay e depois a grande =e 
buliosa praa do Champ-de-Mars, deixando para trs o monstro 
=de Eiffel e mergulhando na longa alameda de pltanos 
gigantes, um jardim geomtrico feito de relva, arbustos e 
=canteiros floridos,  volta os elegantes edifcios em art 
nouveau =da Exposio Universal, uma maravilha babilnica 
ornada de =palcios colossais, todos animados por uma 
multiplicidade de bandeiras =tricolores,  esquerda o 
magnfico Palais des Mines et de =la Mtallurgie, depois o 
chic Palais des Fils, Tissus et =Vtements, seguiu- se o 
imponente Palais des Industries =Mcaniques, em frente o 
imperial Palais de l'Electricit e o =soberbo Chteau d'Eau 
"esperem pela noite mesdames et messieurs, esperem pela noite 
=para verem como  imperial este palcio e esta cascata, 
esperem =pela noite para verem a fada electricidade a 
iluminar estas maravilhas, = noite  que ,  noite faz- se 
dia e o homem triunfa sobre as trevas", clamou o guia, e 
=Agns sonhou com estas palavras, sonhou com a noite 
iluminada por =aquela fada encantada, enquanto sonhava o 
comboio negociou a curva e =passou diante do quimrico Palais 
des Industries Chimiques, os kiosques  la musique sempre =a 
entoarem barulhentas marchas militares, depois o movimentado 
Palais =des Moyens du Transport, a seguir o macio Palais du 
Gnie Civil, finalmente o fino Palais de l'Enseignement, 
Sciences et Arts; =o pitoresco comboio completou o passeio e 
voltou  Torre Eiffel ia =agora novamente para o Quai d'Orsay 
com destino aos Invalides, mas os =Chevallier j tinham visto 
tudo, j chegava, queriam agora ficar por aqui, era hora de 
verem as coisas mais =perto.
Apearam-se e esticaram a cabea para cima, observando a
enorme torre de ferro que escalava o cu diante de si.=20
"On va? ", perguntou Paul, desafiando a famlia a subir ao
alto da torre.
Sim, vamos! ", gritou o pequeno Gaston com entusiasmo
dando pulinhos de excitao.
"Ouuuiiii! " concordou Franois.
As raparigas e a me entreolharam-se, apreensivas.
47
"No ser perigoso? ", perguntou Agns, lembrando-se das 
=conversas na loja do pai, sobretudo dos argumentos de que a 
torre estava =condenada a cair por desafiar as leis da 
gravidade.
"Que disparate, meninas", protestou Paul. "Ento viemos a 
=Paris e no subimos  torre? =Ainda por cima, podemos andar 
de ascensor,  uma coisa muito moderna, vocs vo ver. "
Agns ainda hesitou, receando trepar quelas alturas, mas, 
=movida pela curiosidade, juntou-se ao grupo, afinal de 
contas era uma =aventura para partilhar mais tarde com as 
colegas no liceu, se no subisse iria ser gozada o ano 
inteiro. Os Chevallier foram plantar-se =na enorme fila para 
ascenderem ao topo. Quando chegou a sua vez, =entraram para 
uma grande caixa envidraada. As portas foram encerradas, a 
caixa deu um solavanco, estremeceu e, =para grande sensao 
de todos, comeou a subir lentamente. =Michelle ficou nervosa 
e tapou os olhos, mas o marido e os filhos =acharam graa, os 
pequenos Gaston e Franois mostravam-se excitadssimos, o 
ascensor tinha sido inventado =havia poucos anos e a sua 
instalao na torre provava que estava =aqui concentrada toda 
a tecnologia de ponta. Subiram ao primeiro andar, =visitaram 
a sala de espectculos, passaram pelos dois res taurantes e 
pelo bar anglo-americano, =foram apreciar a vista e depois 
juntaram-se novamente  fila do =ascensor.
"Esta torre  uma cidade", comentou Paul com admirao. ="Uma 
verdadeira cidade. J viram que tambm tem ali uma tabacaria 
=e uma tenda de fotografias? "
Elevaram-se ao segundo andar, espantaram-se por igualmente 
=encontrarem a lojas, um bar e uma tipografia onde era 
impressa uma =edio especial do Figaro, deram um novo 
passeio para admirarem =Paris e =colocaram-se mais uma vez na 
fila do ascensor para subirem ao terceiro e =ltimo andar.
"Eu acho que agora no vou", disse Michelle, segurando Gaston 
e =Franois pelas mos.
"Ento e porqu? ", surpreendeu-se Paul.
" muito alto, tenho medo. "
"Eu tambm tenho medo, pap", adiantou Agns.
48
"Mas tm medo de qu, mon Dieu? "
"Eles dizem que isto pode cair.
Mas que mania! Se cair, j c estamos, tanto faz
que estejamos no segundo como no terceiro andar,  o mesmo. 
=Alm do mais, vocs no querem ir visitar o stio mais alto 
=do mundo? "
Eu quero ir, eu quero ir! ", gritaram Gaston e Franois em 
=coro, sempre aos pulinhos.
Era uma ideia poderosa, essa a de visitar o cume do maior 
=edifcio do mundo, e, a custo, Agns deixou-se convencer. 
Apesar =das hesitaes, l se encheu de coragem e foi para a 
fila com o
pai e a irm, a me ficou no segundo andar com os dois 
=irmos eles a chorarem por ficarem
para trs, Michelle a dizer-lhes que eram demasiado pequenos 
=para aqueles voos. Paul e as duas filhas entraram no 
ascensor, Agns =fechou os olhos enquanto a enorme caixa 
subia, s os abriu l em cima para ver, receosa e 
maravilhada, a cidade a estender-se a seus =ps para alm dos 
vidros de proteco, o Sena a serpentear =languidamente com 
os seus barcos a vapor ou  vela, o Arco do Triunfo 
=transformado  distncia num monumento minsculo no centro 
convergente da Place de =l'toile, o Sacr Coeur l ao fundo, 
Notre- Dame e o Louvre do =outro lado, o Panthon mais 
afastado. Vista ali do alto, =Paris =assemelhava-se a uma 
cidade de brincar, um emaranhado de miniaturas que =eram 
verdadeiras rplicas de originais famosos. tudo parecia 
perto, =num nico relance via-se o=20Bois de Boulogne e o 
=jardim das Tulherias, as pessoas no passavam de pontinhos a 
=deslizarem pelos passeios e a aglomerarem-se.=20
" Que medo deve ser estar l em cima, comentou Agns com 
=olhar de espanto, ela tambm c em cima, mas em piso firme, 
no =na
desconcertante ondulao da roda gigante.
Foram nessa noite jantar ao restaurante Kammerzell, onde 
estavam =anunciados pelas paredes os surpreendentes 
espectculos
49
de Ballon Cinorama. Havia j seis anos que se falava numa 
=importante inovao, a das fotografias animadas, e era essa 
=novidade que constitua um dos pratos fortes da Exposio 
=Universal. Paul leu numa brochura distribuda no Kammerzell 
que as fotografias animadas tinham sido inventadas em =1894 
por um "electricista" americano chamado Thomas Edison, que 
baptizou =o seu sistema de kinetoscope. Dizia o folheto que a 
primeira =demonstrao em Frana foi feita por tienne Marey, 
que nesse mesmo ano projectou um filme =chronophotographique 
na Academia das Cincias. Agns achou tudo =isso estranho e 
observou que tal era impossvel, as fotografias =no se 
podiam mexer, no que todos concordaram, mas os cartazes no 
restaurante e a brochura garantiam =o contrrio. Apesar de j 
ter ido a =Paris em anos anteriores, Paul permanecia na 
ignorncia quanto quela =novidade e decidiu informar-se 
junto do empregado quando este se =aproximou com o tabuleiro 
carregado de choucroute e cerveja.
"Sim, as fotografias mexem-se, tornam- se vivas", assegurou o 
=garon, divertido com a admirao dos provenales. "O 
=primeiro Kinetoscope Parlor abriu h seis anos no Boulevard 
=Poissonnire e paguei vinte e cinco cntimos para ver"
"E isso chama-se kinetoscope? "
"H muitos nomes e muitos sistemas diferentes", indicou o 
=empregado, visivelmente um entusistico connaisseur. "H o 
=kinetoscope, que foi o primeiro, mas h tambm o 
stroboscopique, o =praxinoscope, o pantoptikon, o 
eidoloscope, o photozootrope, o =cinmatographe, o 
phototachygraphe, o thatrographe, o =animatographe, o 
chronophotographe, enfim, uma srie de coisas novas =que nos 
mostram as fotografias a mexer"
"Isso v-se no Boulevard Poissonnire? "
"Sim, mas h outros stios e coisas muito melhores do que o 
=Kinetoscope Parlor. "
" Melhores? "
"Claro. Por exemplo, o cinmatographe  fantstico" "O 
=cinmatographe? Onde  isso? "
50
"Oh, em muitos locais. Podem ir ao Caf Eldorado, situado no 
=Boulevard de Strasbourg, ao Olympia ou s Galleries Dufayel, 
no =Boulevard Barbs, ou aos vrios cinmatographes Lumire 
que =h por toda a cidade. Mas, j que aqui esto, sempre tm 
a opo de verem os diversos espectculos que =esto 
previstos na Exposio. "
Depois do jantar, j noite cerrada, foram assistir  
=exibio de electricidade no Palais de l'lectricit, uma 
=majestosa galeria dedicada  glria da luz e a dominar o 
=Champ-de-Mars em contraponto  Torre Eiffel. Os Chevallier 
aproximaram-se, encantados, hipnotizados =com o surpreendente 
espectculo ferico  sua frente, presos no =olhar, 
juntamente com milhares de outras pessoas, ao monumento de 
luz, o =palcio literalmente acendera-se, o edifcio brilhava 
de cor, viam-se =cordes de lmpadas ligadas, exploses de 
arcos de luz, a =esttua do Gnio da Electricidade, brandindo 
a sua torcha no topo, =a resplandecer em aurola raios 
fulgurantes por toda a fachada, vidros coloridos por entre o 
=ferro, luzes fantsticas a mudarem de cor, a brilharem, a 
insinuarem =movimento, bandeiras francesas orgulhosamente 
iadas por toda a alameda e presas como bouquets de flores 
nos mastros e =balaustradas. Diante do palcio, o Chteau 
d'Eau tambm se a =cendera, a cascata tombava de trinta 
metros, a gua iluminada por =lmpadas, parecendo flamejante, 
desenhando no ar esculturas de fogo =lquido, lava ardente a 
mergulhar com furor na massa escura do lago, =a fonte 
luminosa a encantar a fascinada multido.
Os Chevallier foram dormir nessa noite no Hotel Scribe, mas 
Paul =teve o cuidado de comprar um guia da Exposio, no 
queria ser surpreendido com mais novidades nem correr o risco 
de as =perder por ignorar que elas existiam. O guia explicava 
que havia =diversas experincias cinematogrficas em exibio 
no =Champde-Mars, com um total de dezassete locais de 
projeco e doze =pavilhes. Havia o Panorama, o Phonorama, o 
Photorama, o =Thatroscope, o Phono-Cinma-Thatre, o 
Cinmatographe =Algrien, o Cinorama e o Cinmatographe 
Lumire.
Ento o que querem ver? ", perguntou Paul, sentado num canap 
=junto  recepo do hotel, a famlia em torno de si.
51
"Queremos ver tudo", exclamou Claudette, no que foi 
ruidosamente =apoiada pelos irmos.
"Isso no pode ser, no podemos ver tudo", devolveu o pai, 
=abanando a cabea. "S temos mais um dia e temos de escolher 
bem "
"Ooohhh! "
"Por que no perguntar ao concirge? ", sugeriu Michelle.
Paul dirigiu-se ao balco do hotel e inquiriu junto do rapaz 
=sobre qual o melhor espectculo de imagens animadas. O 
empregado nem =hesitou.
"So diferentes uns dos outros", disse. "Mas temos vrios 
=clientes que foram ver o Cinmatographe Lumire e vieram de 
l =maravilhados. "
"O Cinmatographe Lumire, ? Onde est isso? " "Na 
=Exposio, msieur. No Pavilho Machines. " Decidiram aceitar 
a =sugesto e subiram aos quartos. Antes de se deitar, Agns 
foi  janela do quarto e ficou a admirar a silhueta colorida 
da Torre Eiffel, =a sua estrutura de ferro inteiramente 
coberta por um emaranhado de =lmpadas. A electricidade tinha 
chegado e cobria o Champ-de-Mars de luz, a torre brilhando em 
toda a altura e a emitir trs poderosos =focos do topo em 
direco a vrios pontos da cidade.
"Qualquer dia teremos electricidade dentro de casa, vais 
ver", =suspirou Claudette, sentada diante da janela ao lado 
da irm.
Na manh seguinte voltaram de metropolitain ao Trocadro, 
=pagaram os bilhetes de dois francos e entraram no recinto. 
Tinham =decidido ir ao Palais de l'Optique, dizia-se que ali 
se conseguia ver la =lune  un metre, que era uma coisa 
fantstica, nica, que se viajava de telescpio. Agns queria 
=secretamente certificar-se de que se conseguiam observar 
fadas no =cu, aquele era decididamente o pavilho a no 
perder. Depois =de atravessarem a Pont d'lena, viraram  
direita, passaram pelo Cinorama e estacaram frente ao Palais 
de =L'Optique, um edifcio orientado de norte a sul seguindo 
=rigorosamente o meridiano, uma grande meia-cpula no centro 
da =fachada, os doze signos do zodaco incrustados no topo, 
colunas persas a defenderem a entrada, as =paredes=20
52
exteriores decoradas com medidores de tempo, viam-se relgios 
=solares, ampulhetas e clepsidras, duas outras meias-cpulas 
nas =pontas, mais pequenas, ornadas com baixos-relevos 
mostrando smbolos =astronmicos. Os Chevallier galgaram a 
escadaria da entrada principal e =acederam  grande galeria 
central do edifcio banhada pela luz =difusa dos vidros 
coloridos da meia-cpula principal. Entraram na =Galrie du 
Tlescope e maravilharam-se com o longo tubo da luneta 
gigante, eram =sessenta metros de telescpio suportados por 
sucessivas colunas =assentes no cho.
" o maior do mundo", sussurrou Paul para as crianas aps 
=ler o placard com a informao.
Subiram ao balco e olharam-no respeitosamente. O longo 
=telescpio estava disposto na horizontal e apontado para um 
=siderstato de Foucault, um grande espelho, com dois metros 
de dimetro, ligeiramente inclinado para cima, de modo a 
reflectir os astros =para a lente do telescpio.
Saram alegres do Palais de L'Optique a falarem =em Jlio 
Verne, Paul a relatar a iniciativa do Gun-Club descrita em De 
la terre  la lune e Autour de la =lune, os livros j tinham 
uns bons trinta anos mas, mon Dieu! =como eles permaneciam 
actuais. "Mas, pap,  mesmo possvel ir  =Lua? ", perguntou 
Agns.
"Monsieur Verne diz que sim, e a verdade  que a artilharia 
se =est a desenvolver de tal modo que um dia talvez haja um 
canho =capaz de lanar uma bala at  Lua. Por que no? "
"Com gente l dentro? "
"Sim, mas ser complicado. O principal problema  o de 
=amortecer o tiro, fazer com que o impacto inicial no seja 
muito =sentido dentro da bala. Isso talvez seja possvel 
atravs de um =sistema de molas. Depois,  preciso fazer bem 
a pontaria, no se pode apontar directamente para =a Lua, 
sero necessrios muitos clculos matemticos para =fazer com 
que a bala e a Lua se encon trem no mesmo stio ao mesmo 
=tempo. "
"E o que  que eles comem dentro da bala ", intrometeu-se
Michelle, curiosa por perceber qual a forma de impedir que a 
comida =se estragasse durante a viagem.
53
"Oh, isso  simples. Seria necessrio levar galinhas e =perus 
que se matariam consoante as =necessidades. "
"Ento, se isso pode ser feito, por que  que no vamos? =", 
quis saber Agns.
"Porque no existe ainda um canho com essa potncia nem =uma 
bala concebida para tal propsito", explicou Paul, afagando-
lhe o =cabelo encaracolado. "Alm do mais, minha querida, h 
outros =problemas a considerar. Sabem, ir  Lua ainda v que 
no v, mas voltar  que  o diabo, =no h por l canhes 
capazes de atirarem a bala para c. ="
Embrenharam-se assim os seis a conversar, a divagar, 
sonhadores, =circundaram distraidamente o Touring Club e o 
lago e, quase roando =um pilar da Torre Eiffel, entraram na 
grande alameda do Champ-de-Mars, =evitaram os Quiosques  la 
musique, admiraram superficialmente as rosas, as tulipas, as 
=magnlias, as violetas e as margaridas que coloriam os 
jardins e =s se calaram quando desembocaram no Palais de 
l'lectricit, =uma magnfica estrutura de ao contorcido e 
arqueado, a armadura coberta de vidros, expondo entranhas =de 
ferro, espelhos, colunas, arcos, curvas, arabescos, tudo 
concentrado =numa arquitectura que se transformara num festim 
de metal, numa orgia de =ferros, de cpulas envidraadas, de 
fachadas vistosas, embrulhadas em garridas bandeiras 
=tricolores. Subiram ao primeiro andar e espantaram-se com os 
tubos de =Geissler a iluminarem-se, os radiadores a emitirem 
calor sem lenha, as =campainhas a soarem sem corda, as 
lmpadas incandescentes a jorrarem luz sem velas, os 
thtrophones, =os tlgraphones, os telefones incripteurs a 
registarem mensagens, =os comboios em miniatura a circularem 
em carris minsculos, na verdade tudo aquilo se revelava um 
estranho e desconcertante =concerto elctrico caoticamente 
conduzido por um invisvel e =confuso maestro.
O espectculo do Cinmatographe Lumire estava prestes a 
=comear e os seis dirigiram-se apressadamente para a Salle 
des =Ftes, uma enorme estrutura metlica construda 
circularmente =no centro da monumental Galrie des Machines, 
um pavilho de
54
ferro erguido para a Exposio de 1889 com o intuito de 
=celebrar o triunfo da indstria e da tcnica e agora 
considerado =demod. Quando chegaram ao local, comprimido 
entre o Palais de =l'lectricit e a Avenue de=20la Motte-
Picquet, os Chevallier =depararam-se com uma enorme multido 
a convergir para o mesmo =espectculo, de modo que tiveram de 
fazer fila para entrarem na galeria. A =Machines era uma 
gigantesca estrutura de ferro e vidro com mais de 
=quatrocentos metros de comprimento, o porto e a abbada em 
arco, =um espao colossal no interior. Um cartaz anunciava a 
estreia do primeiro =Cinmatographe Lumire gigante e 
milhares de pessoas dirigiam-se = galeria para assistirem ao 
evento.
Os Chevallier entraram na Salle des Ftes da Machines pelos 
dois =lanos descendentes da enorme escadaria e foram sentar-
se nas =cadeiras colocadas ao longo de todo o permetro do 
edifcio =circular, havia ali vinte e cinco mil lugares 
disponveis e claramente no seriam de mais perante o 
extraordinrio =interesse que o espectculo estava a 
suscitar. Agns acomodou-se =entre Claudette e a me e ficou 
a mirar o imenso pano branco erguido verticalmente no centro 
=da gigantesca galeria, mesmo por baixo da cpula 
envidraada, ela =no o sabia mas aquilo era um ecr de 
quatrocentos metros quadrados, de longe o maior do mundo. O 
enorme =pano estava molhado, encontrava-se preso  cpula de 
vidro por um =gancho e pairava sobre um largo tanque de gua, 
donde tinha sido =iado. Agns interrogou-se quanto ao seu 
propsito, nada daquilo tinha o ar tecnologicamente avanado 
=das estruturas de ferro que o circundavam.
Quando j no cabiam mais pessoas na galeria, os portes 
=ovais foram fechados e, aps uma breve pausa expectante, um 
feixe de =luz cortou a sombra e incidiu sobre o pano gigante. 
Soltou-se um =entusistico "ah" da multido e Agns observou, 
pasmada, pessoas a mexerem-se no pano molhado, a gua 
=embebida no tecido a absorver a luz, as formas a preto e 
branco a =evolurem com gestos bruscos na tela. Durante vinte 
e cinco minutos passaram quinze filmes, os suficientes para 
=deixarem a multido hipnotizada e Agns fascinada com o 
mundo do =cinema.
55
A visita  Exposio Universal de Paris produziu uma 
=profunda impresso na rapariga, foram, na verdade, os dois 
dias mais =felizes da sua infncia. Uma vez regressada a 
Lille, todas aquelas maravilhas, formadas por =torres de 
ferro, fotografias que se mexiam em panos molhados e 
=telescpios que mostravam a Lua a um metro de distncia, 
foram =sucessivamente revistas na memria, objecto de 
conversas, de especulaes, de fantasias =sonhadoras, como 
seria magnfico o sculo xx que agora =comeava, como era 
belo o futuro que aquelas mquinas deixavam =adivinhar, como 
 grande o engenho do homem, como  gloriosa a cincia 
francesa.
56
III
A senhora Mariana era uma mulher religiosa e de princpios. 
=Todas as segundas-feiras ia ao ba onde o marido guardava o 
trigo e =tirava uma mo-cheia de cereal, levando-o depois ao 
moinho do =Silvestre, o mesmo que tinha a taberna. O trigo 
era a modo e transformado em farinha. Quando regressava a 
casa, acendia o forno com lenha trazida do Cidral pela =burra 
e cozia o po, que durava at domingo sempre fresco.
Um dia, ao acompanhar a me ao moinho, Afonso ficou fascinado 
=com um peso de ferro usado na balana decimal e meteu-o 
inocentemente =ao bolso. Mariana descobriu o peso roubado j 
em casa e arrastou o =filho por uma orelha durante todo o 
caminho at ao moinho, onde devolveu o objecto, e obrigou 
Afonso a pedir =desculpas. O pequeno descobriu duas coisas de 
uma assentada. Percebeu o =que era o roubo e compreendeu que 
a me ficava muito zangada se ele =roubasse.
A senhora Mariana fazia tambm a panela de misturadas, uma 
sopa =muito rica que juntava todos os alimentos, desde 
hortalias, =feijes e batatas at  carne e aos chourios, 
numa verso ribatejana da sopa de pedra e que veio substituir 
as sopas de cavalo =cansado da infncia. Tal como o po, as 
misturadas duravam
57
toda a semana sem se estragarem. Muitas vezes adicionava-se 
farinha =ou po de milho esfarelado s misturadas, juntamente 
com azeite e =alho cortado, para fazer suculentos magustos. 
Outras opes eram voltadas para o mar. Afonso acompanhava 
frequentemente a me =at  praa e saltava de excitao 
quando ela trazia peixe. Em casa, cada sardinha ou cada 
chicharro, que o =pequeno apreciava mais do que os outros, 
alimentava duas pessoas. Afonso =dividia sempre o seu peixe 
com Joaquim, ficando com a cabea e o =irmo com o resto. No 
caso das sardinhas, devorava a cabea toda, =espinhas 
includas, mas com os chicharros era diferente. Dissecava-os 
=como numa =autpsia, limpando com a lngua a cartilagem da 
cabea e saboreando os olhos =como se fossem uma iguaria sem 
igual. O =problema  que uma nica cabea de peixe=20como 
refeio deixava-o esfomeado =e no raras vezes subia sub-
repticiamente s rvores de fruta =em quintais alheios para 
surripiar peas que completavam a refeio.
A higiene era descontrada, para utilizar um eufemismo 
=simptico. O banho dominical, que, de resto, s existia no 
=Vero, constitua a nica verdadeira limpeza pessoal da 
=famlia, tomado  pressa e sem rigor, ou no fosse a gua 
gelada um elemento fortemente dissuasor da higiene cuidada. 
As =necessidades eram feitas de ccoras no quintal, junto  
pocilga, =ou entre as rvores do pinhal que se estendia por 
detrs da casa. = noite era diferente, Afonso e os dois 
irmos tinham um pequeno bacio =de loua guardado debaixo da 
cama e para onde se aliviavam caso =houvesse necessidade a 
meio do sono, sendo o contedo despejado na =pocilga logo 
pela manh. Limpar o rabo foi um conceito desconhecido nos 
primeiros anos, at =que Joo comeou a comprar por dez ris 
O Sculo para =prospeccionar as propostas de emprego e 
conhecer a evoluo dos =jogos do Football Club Lisbonense 
com os rivais do Real Casa Pia, do Club =de Campo de Ourique 
e dos ingleses do Carcavellos Club. Quando a leitura =estava 
completa, os trs irmos passaram a usar as folhas gigantes 
do jornal para se limparem depois =de defecarem, mas os pais 
no foram em modernices. O senhor Rafael era analfabeto e 
considerava que
58
no tinha nenhum uso para o jornal, nem sequer para a 
limpeza, e =a senhora Mariana partilhava o mesmo ponto de 
vista. Afonso via por =vezes a me ir para o quintal, abrir 
as pernas de p e aliviar-se =sem sequer levantar a saia. No 
usava cuecas e as necessidades eram feitas assim, livres de 
=complicaes de maior.
Afonso completou dez anos em 1900 e deixou a escola. Achava-
se =j um homenzinho, pelo que decidiu ir trabalhar para a 
serrao =com os irmos. Era um armazm grande e, =como o 
rapaz mostrava uma =compleio franzina devido  sua tenra 
idade, foi poupado =inicialmente aos trabalhos mais pesados. 
O senhor Guerreiro, que =chefiava o armazm, colocou-o 
inicialmente nas limpezas e=20como moo de recados. Ao 
=contrrio do que se passava com os irmos, o trabalho de 
Afonso =no era pago em dinheiro, mas=20em gneros. Davam-lhe 
almoo =e lanche, aliviando as magras despesas l =em casa. 
Ao fim de um ano, contudo comeou a envolver-se em trabalhos 
mais pesados, cortando troncos e operando =serrotes de modo a 
preparar a madeira para confeco de =mobilirio. Admirava-se 
com a habilidade dos carpinteiros em darem forma aos troncos 
=toscamente cortados a machado, mas esse era o nico 
atractivo que =descobriu na serrao. O trabalho revelou-se 
pesado e Afonso =no tinha jeito de mos, no lhe restando 
assim espao de progresso naquele emprego.
Um anncio na vitrina da Casa Pereira, em pleno centro de Rio 
=Maior, despertou a ateno de Afonso quando um dia por ali 
passou =a caminho da Feira dos Passos. A Casa Pereira era um 
estabelecimento =comercial onde se vendiam tecidos, fazendas, 
botes, linhas e quejandos e procurava um rapaz para pequenos 
trabalhos. =Afonso aprumou-se, mandou os irmos dizer ao 
senhor Guerreiro que =nesse dia no podia ir trabalhar porque 
tinha febre e apresentou-se =na loja.
Quero trabalhar" anunciou.
A dona da Casa Pereira levantou os olhos das facturas que 
=contabilizava e mirou aquele rapaz magro e compenetrado que 
se perfilava =diante da sua secretria.
59
"Sabes ler? "
"Sei, sim senhora. O professor Ferreira ensinou-me. " "E 
fazer =contas? "
"Tambm, minha senhora. "
Ela estudou-o com o olhar e descobriu- lhe os joelhos 
arranhados, =fios de crostas a rasgarem a pele. Seria um 
arruaceiro?
"Olha l, rapaz", disse, apontando-lhe para os joelhos 
=esfolados. "Onde arranjaste isso? "
"A jogar  bola "
"Jogas  bola? "
"s vezes. Gosto de dar uns kikes e fazer goal. " A 
=proprietria, dona Isilda Pereira, achou-lhe graa e 
contratou-o. Corria o ano de 1902 quando Afonso, com doze 
anos, =entrou na Casa Pereira e foi acolhido debaixo da asa 
protectora de dona =Isilda, que lhe passou a dar almoo, 
lanche e roupas novas, e ainda =um punhado de ris para levar 
para casa. Foi aqui que o pequeno pela primeira vez =saboreou 
coscores, verdadeiras delcias fritas que a =proprietria 
confeccionava segundo uma velha receita de famlia, entoando 
o tradicional "Deus t'alevede, Deus t'acrescente em honra =de 
So Vicente" =sempre que acabava de bater a massa, o que o 
divertia imenso. Foi tambm a =que experimentou usar 
sapatos, uma exigncia da patroa, que =considerava 
desaconselhvel a loja funcionar com um empregado =descalo.
Dona Isilda tinha enviuvado cedo e ficara sozinha a educar 
uma =filha. Carolina, menina ruiva com a cara pintada de 
sardas, tinha onze anos e era =atrevida e arisca. No foi 
preciso esperar muito tempo para que a =catraia comeasse a 
brincar com Afonso, afinal apenas um ano os =separava. O 
rapaz reagiu inicialmente com reserva, no estava habituado a 
relacionar-se com raparigas, elas no =frequentavam a sua 
escola e nunca falara com uma da sua idade, =limitava-se a 
mir-las  distncia na missa de domingo. Afonso =comeou, 
por isso, por se retrair, tmido e desconcertado, mas ela 
insistiu e ele, ardendo de curiosidade, =foi-se deixando 
aproximar, devagar, como quem no quer a coisa.=20Carolina 
ajudava-o
60
nas suas tarefas na loja e Afonso correspondia nos tempos 
livres, =prestando-se a fazer o papel de marido ou de mdico, 
consoante as =brincadeiras. Os jogos aos paps e s mams 
substituram =temporariamente os jogos de football e 
conduziram-nos a um namorico ainda inocente, ambos trocando 
olhares e bilhetes =cmplices por detrs do balco ou no 
armazm da Casa =Pereira. Beijaram-se uma vez s escuras, num 
canto esconso da loja, =por baixo das escadas, mas quando 
saram c para fora sentiram-se envergonhados, mal se 
conseguiram encarar, =aquilo era pecado mortal. Da para a 
frente preferiam jogar na =ambiguidade das suas brincadeiras, 
eram casados a fingir, mas =intimamente fantasiavam que era 
tudo a srio.
Dona Isilda era uma senhora educada, at falava francs e 
=entendia algum do latim das missas, mas revelava-se 
igualmente atenta =s coisas da vida; mulher experiente, 
apercebeu-se da =aproximao entre a filha e o jovem 
empregado. Simpatizava com Afonso, no =havia dvida, mas 
achou pouca graa s brincadeiras entre os =dois e decidiu 
tomar medidas, no fosse o diabo tec-las e Carolina, 
criatura comprovadamente teimosa como o falecido pai, 
=insistir naquele catraio. No eram raros naquela poca os 
=casamentos na adolescncia, a histria dos pais de Afonso o 
=comprovava, e dona Isilda no queria um genro pobretanas e 
muito menos ver-se to cedo com um =neto nos braos.
A opo mais simples seria a de despedir sumariamente o 
=rapaz, mas dona Isilda conhecia a filha e o seu irritante 
gosto pelo =fruto proibido e, mulher avisada e conhecedora 
destas coisas da natureza humana, =suspeitou de que, numa 
terra pequena como Rio Maior, no seria =difcil os dois 
continuarem a encontrar-se s escondidas, avia =abundantes 
histrias de namoros interditos que acabavam no enlace 
indesejado. Eram, =portanto, necessrias medidas mais 
drsticas, embora a subtileza =fosse igualmente essencial.
Depois de muito pensar, a me de Carolina ps os ps ao 
caminho e =foi falar com os pais de Afonso. Apresentou-se na
Carrachana perante uma embaraada senhora Mariana, nunca na
61
vida entrara naquela humilde casa uma senhora to distinta. A 
=anfitri desfez-se em gentilezas, correndo para aqui, 
fugindo para =ali, indo buscar isto e aquilo, saltando at s 
traseiras para =gritar pelo marido, naquelas quatro paredes 
foi um rebolio que s visto.
"Ai, minha senhora, estou to nervosa", gemeu Mariana, 
=esfregando as mos molhadas no avental imundo, os dedos 
gordos =nervosamente irrequietos. "Valha-me Deus, podia ao 
menos ter avisado. " =Olhou em=20redor, assustada com o que 
dona Isilda poderia pensar sobre o aspecto da =sala. "Uma 
senhora to fina! Jesus, a vir aqui  nossa casinha... =a 
gente at fica assim a modos que sem jeito, no ? "
"Oh, no se preocupe, no se preocupe, isto est muito =bem.
Isilda esforou-se por ignorar o cheiro a estrume que 
impestava =aquele miservel pardieiro e procurou manter um 
semblante tranquilo, =sereno, plcido. Mas, ao ver o buraco 
donde era Afonso oriundo, mais =cimentou a sua determinao 
em afastar o rapaz da filha, estava totalmente fora de 
questo que =o namorico prosseguisse, desejava para Carolina 
bem mais do que aquilo. =Ao mesmo tempo, tinha a conscincia 
de que teria de jogar bem as suas cartas, a diplomacia 
inteligente =seria bem mais produtiva do que a fora bruta.
A senhora Mariana indicou um cadeiro a dona Isilda, era o 
=melhor lugar da casa, propriedade exclusiva do senhor 
Rafael.
"Sente-se, minha senhora, faa como se estivesse em casa. " 
Isilda =olhou de relance para o cadeiro e sentiu um vmito 
assomar-lhe = boca quando observou as ndoas de gordura que 
o salpicavam, mas =reprimiu o nojo e forou-se a sentar-se.
"Ai que casa mais simptica que a senhora tem, senhora 
Mariana. = mesmo um encanto. "
A me de Afonso corou, ela que j habitualmente apresentava 
=sempre as faces muito rosadinhas.
"Oh, minha senhora, no  nada de especial,  uma coisa 
=muito humilde, muito modesta, uma casinha remediada. Sabe, 
ns somos =gente pobre. " Ergueu a sobrancelha e abriu-se num 
sorriso. "Pobre, mas =honrada. "
62
"Certamente, senhora Mariana. Certamente. "
O senhor Rafael entrou na sala com lama malcheirosa nos 
braos, =tinha estado na pocilga a pregar umas madeiras da 
cerca. No gostou =de ver a visitante sentada no seu cadeiro 
predilecto, mas ocultou a =irritao. Cumprimentou secamente 
dona Isilda e sentou-se num banco.
"Ento a que devemos a honra da sua visita, minha senhora ", 
=perguntou, indo direito ao assunto.
Isilda respirou fundo. Teria de ser manhosa para vender a 
ideia que =trazia na mente.
"Bem, como sabem, o Afonso trabalha l na =minha loja. " uEle 
fez alguma coisa, o malandro? ", cortou Rafael, =desconfiado 
e de semblante carregado.
"No, no", exclamou Isilda. "Pelo contrrio, ele  uma =jia 
de moo, todos gostamos muito dele. Na verdade, aprecio-o 
=tanto que acho uma pena ele perder-se como empregado na 
minha loja "
Rafael e Mariana miraram-na sem entenderem.
"Mas, minha senhora, temos muita honra em que ele esteja na 
sua =loja", assegurou o senhor Rafael.
"E eu tenho muita honra em que ele l trabalhe", devolveu 
=isilda, ajeitando o cabelo. "Penso, porm, que ele devia 
continuar os =seus estudos para alargar os horizontes, ir 
mais longe na vida. "
"Ah, minha senhora, isso tambm ns gostaramos", replicou 
=Mariana. "Mas, sabe como , no temos posses, somos gente 
pobre e precisamos de toda a ajuda que =pudermos arranjar. E 
o Afonso na sua loja  uma bno para =esta casa, uma 
beno! "  "E  uma bno para mim, =creia-me", insistiu 
Isilda. "Mas
seria realmente bom para ele prosseguir os estudos. 
Compreendo a =questo que est a levantar, a de no terem 
posses para tais =projectos, e  por isso mesmo que vos trago 
uma proposta. " "Uma =proposta? ", admirou-se o senhor 
Rafael.
"Sim", assentiu Isilda. "Sabem, um dos meus irmos  padre no 
=Minho e amigo do reitor de um seminrio da arquidiocese de 
=Braga. o lvaro, no  para me gabar, mas ele  um encanto
63
de homem, at d gosto. Ora bem, se me derem =autorizao, eu 
poderia falar com ele para conseguir ao Afonso um =lugar no 
seminrio.
Os pais de Afonso entreolharam-se, surpreendidos com a 
sugesto.
"Mas, minha senhora, o problema no  esse", atalhou Rafael, 
=confuso. "O problema  que ns no temos =como pagar o 
seminrio, isso=20...
"Eu pago", cortou Isilda, a voz sobrepondo-se  do anfitrio. 
=" uma promessa que eu fiz a Nossa Senhora, a de ajudar um 
rapaz sem =meios a ir para o seminrio. Escolhi o Afonso, 
parece-me bom moo, =atinado e respeitador. Alm disso, com 
certeza que no se vai opor ao cumprimento de uma =promessa a 
Nossa Senhora, pois no? "
"No, no", adiantou-se Mariana, aflita por ela e o marido 
=poderem estar a ofender a me de Jesus, eram ambos tementes 
a Deus e =no queriam conflitos com o Todo-Poderoso. "Valha-
me Deus, minha =senhora, isso no. Nunca. "
"Presumo tambm que no tenham qualquer objeco a que =o 
vosso filho se torne padre? ", quis saber dona Isilda, de 
pernas =cruzadas com pudor no cadeiro, um sorriso evanglico 
desenhado =nos lbios no momento em que formulou a pergunta 
que ali a trouxe.
O senhor Rafael deixou-se ficar alguns instantes calado, 
=meditativo, mergulhado nos seus pensamentos, reflectindo 
naquela =inesperada proposta. Iria perder os rendimentos que 
o filho trazia para =casa,  verdade, mas, por outro lado, 
ficava com menos uma boca para alimentar. =Alm disso, ter um 
padre na famlia no era coisa de =menosprezar, traria 
prestgio social, atrairia o respeito dos vizinhos, seria um 
salto que jamais =pensara estar ao alcance da famlia. Para 
mais, havia ainda a dimenso religiosa a =considerar. 
Lembrou-se do sonho em que o anjo o aconselhou a ter mais um 
filho e achou =que isso era uma premonio. No seu raciocnio 
de homem crente =e religioso, concluiu que a sugesto de dona 
Isilda s podia ser =um novo sinal de Deus.
64
"Muito bem, minha senhora", concordou finalmente. "O Afonso 
vai ser =padre. "
O pequeno deixou a famlia numa manh fresca do Outono de 
=1903. Agarrou-se teimosamente s saias da me, choroso, at 
o =padre lvaro, irmo de dona Isilda, o arrastar para o 
coche.
Gritou em desespero pela janela da carruagem, era a primeira 
vez =que se separava da famlia, e s se calou depois de a 
casa da =Carrachana desaparecer l atrs numa curva, por 
entre a nuvem de poeira levantada pelo coche sobre o 
=macadame da Estrada Real n 65. Caiu ento no assento, de 
=cabea tombada, as lgrimas a escorrerem-lhe pela cara e a 
=soluar abafadamente ao lado daquele estranho de sotaina. 
Sentia-se um pouco =envergonhado pela figura que fizera, mas, 
ao mesmo tempo, tinha desejado =manifestar de modo claro e 
inequvoco a sua revolta por o mandarem =embora, a verdade  
que tinha medo do desconhecido e sentia-se agarrado ao bero 
da =Carrachana. Agora, que deixara a famlia, sentia-se s e 
=aterrorizado, imaginava com horror que o tinham abandonado e 
=interrogava-se repetidamente sobre o que seria de si, se 
alguma vez veria de novo os pais e os irmos.
 O padre lvaro revelou-se, porm, uma pessoa gentil e bem 
=disposta, acabando por conquistar gradualmente a confiana 
de
Afonso durante a viagem. Era um homem baixo e compacto, de
peito largo e com o maxilar inferior saliente, o cabelo 
=meio-grisalho espetado para o ar e cortado curto. Poderia 
muito bem ser =um agricultor ribatejano, mas era um homem de 
Deus. Apanharam o comboio =na estao de Sant'Anna pelas nove 
e quarenta e o percurso at ao =Porto durou quase =dez horas. 
O que vale  que o padre lvaro era homem de posses e 
=confortos, no fosse ele to de quem era, e no se importara 
de pagar mais de seis mil ris por cada bilhete =para ir bem 
acomodado em 1. a classe. Era j noite escura quando =chegou 
o momento de passarem na Dona Maria Pia, a temvel ponte de 
=ferro sobre o Douro. Afonso viu, horrorizado, a mancha 
sombria do =rio a correr por baixo da frgil estrutura 
metlica e, fechando os =olhos, encostou-se ao
65
proco em busca de proteco, pondo assim definitivamente 
=termo  resistncia.
Como no havia ligao ao Minho durante a noite, foram 
=dormir ao Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catharina, 
um =edifcio construdo especificamente para ser uma unidade 
hoteleira =e que oferecia aos hspedes um sofisticado anexo 
para banhos e duches. Cedo no dia seguinte, =depois de um 
apressado pequeno-almoo, saram do hotel e foram =para a 
estao. O padre comprou mais dois bilhetes de 1. a classe, 
=a mil ris cada um, e apanharam o comboio pelas oito da 
manh. Foram precisas =duas horas e meia para fazerem a 
ligao de Campanh at =Braga, tempo mais do que suficiente 
para finalmente entabularem uma conversa =normal, apenas 
interrompida quando a carruagem deu entrada na =estao da 
cidade minhota. O pequeno desceu em silncio do =comboio, 
agarrado  mo do padre, os olhos a encherem-se da novidade 
que era aquela urbe =estranha e desconhecida.
O padre lvaro Pereira era o responsvel pela parquia de 
=So Vicente, que inclua o vasto =cemitrio do Monte de 
Arcos. Tambm ele oriundo de Rio Maior, como toda a famlia 
de dona Isilda, =o proco encarregou-se pessoalmente dos 
primeiros passos da =educao de Afonso. O menino tinha 
apenas frequncia da escola primria, =mas isso estava longe 
de ser o suficiente para poder ingressar no =seminrio. Braga 
no tinha seminrios menores, onde crianas =daquela idade 
eram preparadas em estudos de humanidades para o =seminrio 
maior, pelo que teria de ser o padre lvaro a =ministrar-lhe 
os ensinamentos necessrios de modo a conseguir um lugar no 
seminrio da arquidiocese. =Durante um ano, Afonso passou os 
dias a aprender latim e gramtica, =conhecimentos 
considerados imprescindveis para quem queria seguir =para o 
seminrio maior. Aos fins de semana ajudava o proco a 
preparar sI missas, varrendo o soalho da =igreja e acendendo 
as velas, para alm de exercer as funes de =aclito na 
liturgia.
Nas tardes de domingo, o padre lvaro levava-o em passeio 
=admirar a Torre de Menagem, a imponente construo
66
medieval que assinalava um dos pontos-chave das antigas 
=fortificaes da cidade, ou ento faziam uma volta pelos 
=edifcios religiosos da cidade, subiam pela Rua de So 
Marcos e =davam um salto  Capela dos Coimbras, ou metiam 
pela Rua Nova de Sousa at ao antigo =Pao Episcopal e 
depois,  esquerda, inevitavelmente, iam dar  =S. Apesar do 
seu austero aspecto medieval, Afonso gostava de estar =dentro 
da grande catedral do sculo xII. Sentava-se c atrs, mesmo 
por baixo do grandioso =rgo, cuja riqueza da talha barroca 
contrastava com a rudeza =simples do resto do santurio, e 
enchia a =alma com as sublimes melodias que pareciam =descer 
directamente do cu. Outras vezes iam ao mercado, frente  
=Cmara Municipal, na praa central da cidade, onde o proco 
oferecia umas castanhas assadas ao seu protegido.
===As visitas de tera-feira ao mercado eram 
especialmente apreciadas pelo rapaz, que se =maravilhava com 
toda a vida que enchia as barracas e com a fauna humana =a 
afadigar-se de um lado para o outro, as camponesas de casacos 
curtos =com saiotes azuis, botas at ao joelho e lenos 
listados na cabea, algumas eram ceifeiras que =apareciam 
descalas, um enorme chapu negro na cabea e uma =foice 
reluzente  cintura. Os homens deambulavam por ali com os 
seus =chapus de aba larga e casacos escuros, quase todos de 
bigode, alguns =miserveis de trapos rotos e esfarrapados.
A mesma fauna, a que se juntavam os janotas, encontravam 
ambos =quando iam passear para o Jardim Pblico, em frente  
Arcada. Era =ali antigamente o Campo de Sancta Anna, mas o 
descampado dera lugar a um =muro de pedra e grades de ferro 
para proteger o rico jardim por onde os bracarenses faziam 
=os seus passeios ociosos. Nos dias de sol e calor, Afonso 
gostava de se =sentar com o proco  sombra do gigantesco 
pinheiro americano =situado junto aos portes de entrada, mas 
nos dias mais cinzentos passeavam os dois pelo jardim =e iam 
ali ao lado  Igreja dos Congregados, donde Afonso espreitava 
=os vizinhos Lyceu e Bibliotheca Pblica, instalados lado a 
lado no =antigo Convento dos Congregados do Oratrio.
==67
A nica interrupo desta rotina ocorreu no Natal, quando =o 
padre lvaro foi passar a consoada com a irm, =em Rio Maior, 
levando o seu jovem protegido consigo. Afonso ficou duas 
=semanas com a famlia e, quando chegou a hora de regressar a 
Braga, a =separao revelou-se menos difcil do que da 
primeira vez, o =rapaz j no temia o desconhecido e 
aprendera a confiar no proco que o =acolhera.
O latim e a gramtica eram matrias complexas, que provocavam 
=os maiores bocejos e ofereciam momentos de profundo tdio a 
Afonso, =mas no havia alternativa e ele concluiu que, se 
tinha mesmo de =decorar aquilo tudo, decorar sem compreender, 
ento que decorasse rpido, que aprendesse depressa o que 
tinha de =aprender para mais cedo se ver livre daqueles 
densos e impenetrveis assuntos. Com estes estudos, os 
instantes mais interessantes do dia =acabavam por ser aqueles 
que envolviam as refeies e a catequese, =e o momento alto 
da semana eram sem dvida as escapadelas aos =sbados at  
Cruz & Companhia, a papelaria da Rua Nova de Sousa, onde 
consultava com =avidez a pgina desportiva do Commrcio do 
Porto, com as suas =raras notcias sobre os matches do 
Football Club do Porto, do Boavista Football =Club e do Real 
Vela Club no terreno do Oporto Cricket and Lawn-Tennis =Club, 
e alguns exemplares que por l apareciam de edies muito 
=atrasadas da revista Tiro Civil, que no falhava com as 
faanhas do seu querido Club Lisbonense, embora as 
=informaes actualizadas escasseassem.
O Inverno foi duro, com Afonso a descobrir que o frio minhoto 
era =bem mais rigoroso do que o ribatejano. Depois de noites 
limpas e =geladas, encontrava de manh o cho e as plantas a 
brilharem com =gotas de gua condensada, era o orvalho: que 
se formava ao nvel do solo. Nas =madrugadas em que os 
termmetros desciam=20abaixo de zero, ao nascer do dia via 
pedras, ervas e folhas pintadas de =branco. Pensou 
inicialmente que era a famosa neve de que tanto lhe =falara o 
padre lvaro mas, quando interrogou o proco sobre o 
=assunto, este abanou a cabea.
68
"No  neve, meu filho", disse. " escarcha. "
A escarcha era visvel por toda a parte, formavam-se cristais 
de =gelo em rendilhados na parte exterior dos vidros das 
janelas, ou a =sobressarem, alvos e brilhantes, dos ramos e 
das pontas das folhas e =ervas, em delicadas e formosas 
estruturas geomtricas. A calada coberta pelo manto de 
cristais brancos e =reluzentes tornava-se perigosamente 
escorregadia e muitas plantas =morriam quando eram tocadas 
por esta humidade congelada. Mais tarde =Afonso soube que a 
escarcha era tambm conhecida por geada, muito comum em todo 
o Minho durante o Inverno.
O frio convidava Afonso a permanecer em casa, junto  
lareira. =Como no tinha nada para fazer, =alm das trs 
horas dirias de aulas e catequese que lhe ministrava o padre 
lvaro, =dedicou-se  leitura. A maior parte dos livros que 
se encontravam em =casa do proco eram de natureza religiosa, 
e o jovem embrenhou-se a =ler um exemplar ricamente ilustrado 
da Bblia. Afonso mostrou-se vivamente impressionado com o 
tema da ajuda de =Jesus aos pobres, com os quais ele 
naturalmente se identificava, e pouco =a pouco deixou de 
considerar os versos das oraes uma mera =sucesso de 
palavras ritmadas de sentido incompreensvel e ps- se a 
=meditar sobre o que elas queriam realmente dizer. A sua 
aprendizagem da =catequese deixou de ser meramente passiva, 
colocando ao padre dvidas =que o assaltavam, questes que 
reflectiam a sua crescente e genuna curiosidade sobre o 
=assunto. Comeou at a apresentar problemas que, para um 
garoto de =treze anos, revelavam j alguma inesperada 
profundidade filosfica, resultantes da sua perplexidade em 
torno da questo da =omnipotncia de Deus. Pois se Deus era 
omnipotente, raciocinava =Afonso, como poderia Ele deixar que 
existisse mal no mundo? E, se o homem tinha sido =feito  
imagem de Deus, isso no significaria que Deus continha 
=maldade, uma vez que o homem era capaz dela? O padre lvaro 
ia encontrando respostas para estas perguntas, sublinhando 
que =Deus queria que o homem construsse o seu prprio 
caminho de =rejeio da maldade e que s o podia fazer se o 
mal existisse. =Afinal de contas, qual  o mrito de se ser 
bondoso se no h
69
alternativas? A bondade s tem valor se ela significar a 
=rejeio da maldade, argumentou o proco. Se Deus eliminar o 
=mal, ento o homem ser bondoso por vontade alheia, no por 
=vontade prpria. Afonso meditava nestas respostas e colocava 
novos problemas. A =leitura dos trechos do Novo Testamento em 
que Jesus  retratado a curar os enfermos levou-o a 
interrogar-se sobre se isso =seria realmente um bem. Pois se 
Jesus curava uns enfermos, por que =no havia Ele de curar 
todos? E, se Jesus ressuscitava Lzaro, por =que no havia 
Ele de ressuscitar todos os mortos? Porqu discrimin-los? 
=E, se ningum tivesse doenas, ningum morreria. Seria isso 
=realmente bom? No seria a morte de uns uma condio 
=necessria para a vida de outros?
Ao chegar o Vero de 1904, o padre lvaro percebeu que lhe 
=comeavam a faltar respostas e considerou que o seu pupilo, 
com =catorze anos acabados de completar, j se encontrava 
apto para entrar =no seminrio maior. Numa amena manh de 
Julho, depois de passar pela Rua Nova de Sousa para tomar um 
caf =na recm-inaugurada A Brazileira, o proco levou-o ao 
seu amigo D. =Joo Baslio Crisstomo, vice-reitor do 
Seminrio Conciliar =de So Pedro e So Paulo. Era o nico 
seminrio de Braga e estava situado num pacato largo =junto  
Porta de So Thiago, no sector sul das antigas muralhas da 
cidade. Ao chegar ao =largo, Afonso deteve-se perante o 
seminrio, um edifcio branco e =comprido, e olhou para o 
monumento  esquerda, quase encostado ao =semi nrio, 
tratava-se de Nossa Senhora da Torre, a alta torre medieval 
que =vigiava a Porta de So Thiago. O largo encontrava-se 
abundantemente =arborizado e era ornamentado por um chafariz 
com uma cruz arcebispal no =topo, smbolo que marcava todos 
os monumentos mandados erguer pelo arcebispo. =Havia ainda um 
quiosque e uma outra pequena construo =cilndrica na 
esquina.
" um urinol pblico", esclareceu o padre, respondendo ao 
=olhar inquisitivo do seu protegido. "Ests aflito? "
O rapaz abanou a cabea e prosseguiram em direco  =porta.
Subiram os dois a curta escadaria empedrada da entrada, as=20
70
paredes decoradas com azulejos azuis reproduzindo vasos com 
=flores e desenhos =geomtricos azuis, brancos e amarelos, e 
cruzaram os claustros internos, o =olhar atraido pelas 
austeras colunas de pedra que cercavam um pequeno =jardim 
interior. Os passos ecoavam ruidosamente no soalho de pedra, 
=quebrando a placidez que enchia os corredores, e o ar 
revelava-se impregnado de um aroma =indefinido, lmpido e 
suave. Ascenderam ao primeiro piso e foram =at ao gabinete 
do vice-reitor D. Crisstomo recebeu-os com um =sorriso 
beatfico.
Ento, meu filho, queres ser padre? "
perguntou o anfitrio a Afonso em tom paternal, depois das 
=cortesias habituais.
Sim, senhor vice-reitor"
Mas ainda s um bocado novo para isto. "
Afonso ficou mudo. Estava ali porque o tinham mandado. O 
padre =lvaro respondeu em seu lugar.
D. Crisstomo, o rapaz  dotado. "
Como assim "
Eu tinha planeado t-lo como aclito mais um ano ou dois mas 
=ele mostrou grande interesse e vocao e no vejo 
necessidade de o manter afastado do seminrio s porque 
=ainda  novo. "
O vice-reitor mirou Afonso, pensativo.
Por que queres ser padre? "
"No sei, senhor vice-reitor" murmurou o rapaz, baixando a 
=cabea.
No sabes? "
Afonso hesitou. Sentia-se intimidado, estava habituado a 
discutir =aquelas coisas s com o padre lvaro e o vice-
reitor deixava-o =pouco  vontade. Olhou furtivamente para o 
proco e reparou que =ele, com um subtil gesto com a cabea, 
o encorajava a falar. Afonso encheu-se de coragem, levantou a 
=cabea e fitou o vice-reitor com ar de desafio.
Quero descobrir a verdade. "
A verdade? A verdade de qu? "
"A verdade de tudo. Do mundo, das coisas dos homens, da 
vida."
D. Baslio Crisstomo recostou-se na cadeira e sorriu, 
=agradado.
"Muito bem, vieste ao stio certo", exclamou, balouando 
=afirmativamente a cabea, em sinal de aprovao. Voltou-se 
para =o padre lvaro. "Vou ordenar que se iniciem quanto 
antes as =inquiries de genere ao teu pupilo "
Os servios do seminrio comearam dias depois o =inqurito a 
Afonso, averiguando a sua famlia, o passado, os =hbitos de 
vida, o perfil e os interesses do candidato. Os estatutos =do 
seminrio, redigidos em 1620 e previamente consultados pelo 
padre lvaro, =previam como condio que se garantisse que os 
candidatos eram ="christos velhos inteiros, sem raa de 
judeus, mouros, nem outros =infiis", nico requisito que 
agora era negligenciado, por anacrnico. O padre lvaro 
=serviu de testemunha e o seu protegido, apesar de ser 
considerado um =pouco novo de mais para frequentar o 
seminrio maior, acabou por ser =aceite. Havia precedentes de 
crianas que entravam no seminrio maior com doze e treze 
anos, os =prprios estatutos estabeleciam que os seminaristas 
"seram ao menos =de doze annos", pelo que a inscrio daquele 
rapaz de catorze =anos, embora menos usual, nada tinha de 
extraordinrio.
Afonso entrou no Seminrio dos Apstolos So Pedro e =So 
Paulo no Outono de 1904. Tudo =possua aspecto antigo, 
austero e solene, uma impresso adequada  =histria do 
seminrio. A instituio remontava a 1572, =quando, na 
sequncia do Conclio de Trento, foi aberto o =Seminrio de 
So Pedro, a funcionar no Campo da Vinha, em pleno centro de 
=Braga. Parte das aulas, no entanto, era =ministrada num 
vasto edifcio junto  Porta de So Thiago, o Colgio de So 
Paulo, gerido pelos =jesutas. Os jesutas foram, todavia, 
expulsos em 1759, e o =edifcio ficou nas mos de freiras, 
at que, em 1881, o =seminrio foi para a transferido, 
incorporando-se So =Paulo no nome da instituio.
O novo seminarista foi instalado na sua cela, um pequeno 
quarto =espartanamente decorado e com um certo cheiro a 
bafio.
72
Tinha uma cama encostada  parede, uma mesa com gavetas para 
a =roupa, uma vela, um candeeiro alimentado a petrleo, um 
banco, uma =vassoura, um bacio, um sabo, uma toalha branca e 
um balde com =gua. A janelinha dava para um ptio ajardinado 
com os ramos e as folhas de um vigoroso carvalho adulto a 
=ocuparem parte da vista, viam-se os galhos a serem remexidos 
pelo =inquieto adejar de asas dos pardais, o meldico pipilar 
dos =pssaros enchia ento o ptio e inundava o quarto de 
deliciosas sonoridades musicais. Colocou a =mala sobre a 
cama, abriu-a e arrumou a roupa nas poeirentas gavetas da 
=mesa. S eram autorizadas roupas escuras, de modo que Afonso 
levou dois fatos, =um preto e outro cinzento, ambos 
oferecidos pelo padre lvaro. Tinha =tambm cuecas meias 
pretas e ceroulas, peas de vesturio que =jamais 
conhecera=20em Rio Maior e de que agora no prescindia e =que 
arrumou com o resto. Quanto a sapatos, s possua o par que 
trazia calado, adquirido na Sapataria Celestino Vidal, =na 
Rua do Souto.
A rotina da vida no seminrio ficou logo estabelecida na 
=manh seguinte. Afonso foi acordado pelo som estridente de 
uma =campainha tocada a cordel e levada pelos corredores. 
Eram seis e meia da =manh. A tremer de frio, saltou da cama, 
urinou para o bacio e lavou furtivamente as mos e a =cara 
com a gua gelada do balde. Vestiu o fato preto, fez a cama e 
=varreu a cela. Perto das sete saiu para o corredor com o 
bacio, foi =deitar a urina na zona das latrinas, 
regressou=20 cela para guardar o bacio e voltou a sair, 
acompanhando os =restantes seminaristas em direco  capela, 
para as =oraes da manh. A missa foi celebrada pelo vice-
reitor nos =termos normais em qualquer igreja, isto , em 
latim e de costas voltadas para os fiis. O altar estava 
virado =para oriente, como  habitual nas igrejas, e os 
celebrantes rezavam sempre em direco =a levante porque se 
acreditava que era da que se devia esperar a =salvao, 
afinal de contas foi l que Jesus nasceu. A missa =durou meia 
hora, finda a qual seguiram para o refeitrio=20
uns seminaristas conversando em sussurros pelos corredores, o
73
que impressionou Afonso. O refeitrio era um grande salo com 
=muitas mesas de madeira, quatro cadeiras por mesa. Os 
seminaristas =espalharam- se pelas mesas e o vice-reitor foi 
ocupar o seu lugar. O =po, a broa e as papas de milho foram 
colocados nas mesas, Joo =Baslio Crisstomo ergueu-se e 
todos o imitaram.
"Benedic Domine nos, et haec tua dona quae de tua largitate 
sumus =sumpturi, per Christhum Dominum nostrum", proclamou em 
latim, implorando =a Deus a bno para os alimentos que 
estavam na mesa.
"Jube Domine benedicere", entoou um dicono, prosseguindo o 
=ritual.
"In nomine Patri et Filius et Spiritui Sancto", concluiu o 
vice- =reitor, benzendo os presentes e os alimentos e fazendo 
sinal aos =seminaristas para comearem a comer.
O pequeno-almoo foi tomado em absoluto silncio, Afonso 
=rapidamente iria perceber que era essa a regra em todas as 
=refeies. s oito recolheram aos aposentos, chegara a hora 
de =reverem as lies. O padre lvaro tinha avisado Afonso de 
que deveria aproveitar esta pausa para =passar os olhos pelo 
latim, uma vez que era provvel que fossem =testar os seus 
conhecimentos na lngua romana. Por esta altura j =o jovem 
percebera que o latim podia ser uma lngua morta em todo o 
mundo, mas naquele seminrio estava talvez =mais viva do que 
o portugus. Encheu-se de coragem e, fechado na sua =cela, 
ps-se a recitar declinaes em voz baixa. Meia hora mais 
=tarde, a campainha assinalou a chamada=20 portaria. Afonso 
seguiu para o local, onde o vice-reitor aguardava =os 
seminaristas para os questionar sobre as matrias de estudo. 
O =novo estudante no foi poupado, com o vice-reitor a testar 
minuciosamente os seus =conhecimentos de latim, queria saber 
o que valia a mais recente =aquisio do seminrio. Tomado 
pela ansiedade e com a voz =trmula e submissa, Afonso foi 
gaguejando as respostas. As aulas do padre =lvaro eram uma 
boa base, mas o latim que aprendera na parquia de =So 
Vicente revelou-se claramente insuficiente para as 
necessidades =curriculares e D. Baslio Crisstomo tornou-lhe 
claro que esperava =que ele aprendesse
74
muito mais. Afonso concluiu a sesso da portaria exausto e 
=acabrunhado, imaginando que todos se riam dele.
As aulas comearam s nove da manh. A sua primeira 
=disciplina foi Casustica, ministrada por um mestre
gordo e bonacheiro, na verdade um padre da diocese de =Braga 
que ia leccionar ao seminrio. =O primeiro ano do seminrio 
maior era dominado pelos estudos filosficos, com Filosofia, 
=Casustica e Retrica  cabea, complementados por 
=Gramtica e Latim. Havia ainda um bnus fornecido pelo padre 
=Ettori Fachetti, um italiano que viera para=20Braga aprender 
portugus, que era um =poliglota notvel e ps os seus 
talentos ao servio dos =seminaristas, ensinando italiano, 
ingls, francs e alemo a quem o interpelasse. Vrios 
estudantes =inscreveram-se nas suas disciplinas, e Afonso, 
talvez mais pelo desejo =de se sentir aceite e integrado, 
seguiu-lhes o exemplo e decidiu aprend =er tudo.
o segundo e terceiro anos do seminrio concentravam-se 
sobretudo =em teologia, os estudos a dividirem-se entre a 
Histria =Eclesistica, a Teologia Dogmtica, a Teologia 
Moral, a Teologia =Sacramental, o Direito Cannico, a 
Liturgia, a Hermenutica e o Canto, para alm, claro, das 
disciplinas de lnguas =estrangeiras do padre Fachetti e dos 
inevitveis Latim e =Gramtica.
O almoo foi servido ao meio-dia. Tal =como ao pequeno-
almoo, a comida foi =colocada imediatamente na mesa, mas 
ningum tocou nela antes de o vice-reitor proferir em latim o 
pedido de =bno para a refeio. Quando terminou a orao, 
=todos se sentaram e comearam a servir- se. Havia po de 
trigo, broa, sopa de legumes, carne de vaca cozida, ovos 
cozidos e =castanhas. Para =beber tinham gua. Comiam em 
silncio, fazendo
passarem por uns gestos para os outros o po, a carne ou a 
=gua. A meio
da refeio surgiu uma novidade em relao ao =pequeno-
almoo. Um seminarista com uns dezasseis anos levantou-se da 
=mesa e dirigiu-se ao plpito do refeitrio com um pequeno 
livro na =mo. Abriu o livro numa pgina marcada e comeou a 
ler uma assam da vida de So Francisco =Xavier numa voz 
monocrdica.
Afonso sentiu que o rapaz no entendia o que lia, a =entoao 
era ritmada e inexpressiva, o que dificultava a =compreenso 
do texto. Nessas condies, a voz tornou-se mero =rudo de 
fundo. O orador terminou a leitura quando chegaram as mas 
=para a sobremesa e, pouco depois, o vice-reitor ergueu-se, 
obrigando =todos a levantarem-se, conduziu uma orao final e 
deu o almoo =por terminado.
Foram para o recreio. Afonso verificou que a maior parte dos 
=seminaristas j se conhecia, formando grupos que se juntavam 
aqui e =ali. O ambiente era amigvel, mas o recm-chegado 
mostrava-se =tmido e metido em si mesmo. Eram quase todos 
mais velhos, havia mesmo uns =que j tinham uma barba macia a 
crescer, de modo que Afonso sentiu-se =deslocado. Para =no 
ficar sem nada=20para fazer, resolveu dar discretamente uns 
pontaps numa pequena pedra, fantasiando estar a jogar 
football no Campo =Pequeno com a gloriosa camisola do Club 
Lisbonense. Imaginou que um dos =carvalhos era uma baliza 
defendida por um player do Carcavellos Club, clube 
particularmente detestado por ser exclusivamente de 
estrangeiros =e por ter sido o nico que ganhou ao Club 
Lisbonense. Afonso mirou o =carvalho e pontapeou suavemente a 
pedra, enganando o imaginrio =goal-keeper ingls. Noutros 
instantes cruzou o ptio a transportar a pedra com toques 
=curtos, fingindo que efectuava dribblings que deixavam os 
adversrios =por terra. Fazia-o como se estivesse a passear, 
procurando no dar =nas vistas, percebia que andar 
ostensivamente aos pontaps a uma =pedra durante o recreio 
poderia ser mal interpretado.
O som da campainha avisou-os de que estava terminado o 
recreio. =Eram duas da tarde quando recolheram s celas para 
regressarem s =matrias das aulas da manh. Afonso passou 
parte da tarde a =estudar Casustica e a outra parte 
s=20voltas com o =malfadado Latim, que tanto o envergonhara 
durante a sesso na =portaria. s cinco e meia, a campainha 
chamou-os para a capel e =s seis e meia voltaram ao 
refeitrio para a ceia silenciosa. A refeio terminou s 
sete e meia, =altura em que seguiram para o recreio, e uma 
hora depois a campainha =mandou-os novamente
76
para as celas. s nove da noite, e depois de preparar as 
coisas =para o dia seguinte, Afonso fez uma derradeira visita 
s latrinas, =voltou para a cela, meteu-se na cama, apagou o 
candeeiro a petrleo e =adormeceu.
Os dias seguiram-se uns atrs dos outros nesta rotina, com 
=poucas variaes, montonos e repetitivos. As principais 
=novidades relacionavam-se com os almoos e as ceias, onde os 
pratos =iam variando. Umas vezes aparecia carne de vaca, 
outras carne de porco, outras carne de =carneiro. Jamais foi 
servido peixe, o que deixou Afonso com saudades de =fazer com 
a lngua uma limpeza s cabeas dos chicharros. =Comiam-se 
galinhas, castanhas, batatas, aordas e sopas de legumes ou 
farinha de po. Aos domingos
era apresentada uma iguaria requintada, o arroz, e em dias de 
festa =surgiam os doces, alguns de receitas conventuais. O 
vinho ficava =igualmente reservado para ocasies especiais, 
embora Afonso =estranhasse o sabor do tinto. Em vez do macio 
vinho maduro a que estava habituado =em Rio Maior, este 
revelava-se muito frutuoso. Explicaram-lhe que se tratava de 
=tinto verde, um nctar que ele no conhecia e que era 
proveniente =de vrias zonas do Minho, como Ponte da Barca, 
Ponte de Lima e =Melgao, e ainda do vale do Sousa, na regio 
do Douro.
s quintas-feiras e domingos, os estudantes abandonavam o
seminrio e eram levados em passeio. Seguiam sisudos e
compenetrados, aos pares em fila indiana, para priplos com o
vice-reitor, que os conduzia a Montariol e ao Fraio. Quando 
o =sol despontava especialmente bonito, iam at ao prtico 
entre a =capela da Agonia de Cristo no Jardim e a Capela da 
ltima Ceia. =Subiam o espectacular escadrio do Bom Jesus, 
primeiro pela via-Sacra, com as capelas a =representarem as 
catorze estaes da Jesuz, depois pelo ngreme =escadrio dos 
Cinco Sentidos e, finalmente, j com a lngua de =fora e as 
pernas a pesarem como chumbo,=20arrastavam-se pelo escadrio 
das Trs Virtudes. Uma vez l em =cima, ofegantes e a 
transpirar, encostavam-se s paredes, sentavam-se =no duro 
cho de granito e refrescavam-se na
77
Fonte do Pelicano. J mais recompostos, iam finalmente 
visitar a =imponente Igreja do Bom Jesus, Braga a estender-se 
aos ps do =santurio. Outras vezes, em vez de subirem o 
monte, desciam at =desembocarem no rio Cvado, onde ficavam 
a brincar na gua gelada. =Uma vez por outra iam at  Capela 
de So Frutuoso de =Montlios, uma relquia do sculo vII, ou 
apanhavam a estrada para Barcelos e davam um salto ao 
=Mosteiro de Tibes, um belo complexo com claustros e jardins 
erguido =no sculo xI. O objectivo declarado era o de os 
levar a apanharem ar =puro e desentorpecerem as pernas,=20mas 
alguns mestres riam-se e sugeriam sub- repticiamente que 
aquela era =antes uma artimanha para os estafar. O ponto alto 
da semana tornaram-se =as visitas do padre lvaro, sempre aos 
domingos de manh. O =proco levava ao seu protegido uma mo-
cheia de doces adquiridos na Pastelaria Suissa e ainda, 
atento aos interesses do =rapaz, alguns exemplares do Tiro 
Civil, que arranjava na papelaria Cruz =& Companhia, na 
Livraria Central ou que lhe eram especialmente remetidos =de 
Lisboa. Foi desse modo que Afonso percebeu que o seu querido 
Football Club Lisbonense deixara de existir. =Sentiu-se 
inexplicavelmente rfo e infeliz, as vitrias do =clube 
alimentavam-lhe os sonhos e no podia conceber que aquelas 
cores que um dia vira brilhar alto no Campo =Pequeno jamais 
voltariam a encher um campo.
Passou uma semana de luto pelo desaparecimento do Club 
Lisbonense e =s revelou os seus sentimentos a Amrico, um 
seminarista gorducho, =de quinze anos, com quem fizera 
amizade. Afonso ainda tentou ensinar-lhe =a jogar football, 
mas os pontaps nas pedras no convenceram o redondo amigo, 
mais vocacionado para o =cio e para a gula. Amrico era 
oriundo de Vinhais, em Trs-os- =Montes, filho de 
comerciantes abastados que achavam que ter um padre na 
=famlia era um sinal de distino. Afonso divertia-se a 
olhar para Amrico durante as =refeies. O pequeno de Rio 
Maior, habituado aos manjares frugais =da sua casa em 
Carrachana, onde uma simples cabea de peixe servia de 
=refeio, achava que os almoos e ceias no refeitrio eram 
lautos banquetes, mas Amrico, =mimado pelos melhores pratos 
transmontanos,
78
servidos em abundncia na sua abastada casa de Vinhais, 
sofria
ho rrivelmente com aquela dieta, que considerava mais 
adequada
para tuberculosos e raquticos, e passava os dias a suspirar 
=pela sua terra.
O ano escolar terminou depressa e Afonso, agora com quinze 
anos, =foi premiado com um suficient a Gramtica, trs cum 
laude =designadamente a Latim, Casustica e Retrica, e um 
suma cum laude =a Filosofia, para alm de ser corrido a 
aprovators nas disciplinas de lnguas estrangeiras =do padre 
Fachetti. J Amrico, que se sentia tremendamente infeliz =no 
seminrio, foi varrido a suficient e teve mesmo dois non 
aprovatus =a Retrica e a Casustica. Afonso foi passar o 
Vero a Rio Maior e apresentou-se em casa =impante de 
orgulho, nunca ningum da famlia tinha ido to longe nos 
estudos. Nos primeiros dias estranhou a casa da Carrachana, 
=pareceu-lhe demasiado pobre e imunda. Ficou espantado por 
nunca antes se =ter sentido incomodado com aquela miservel 
penria, em boa verdade nem sequer alguma vez reparara nela, 
tinha nascido ali e =a privao afigurava-se-lhe natural 
aceitou-a sempre =como um facto da vida.
Cumpridor dos seus deveres de protegido, o jovem seminarista 
foi = Casa Pereira visitar dona Isilda, que lhe tinha dado 
esta =oportunidade de estudar em Braga, mas, compenetrado no 
seu papel de futuro padre celibatrio, no =fez questo de 
ver Carolina, pormenor que encheu a =viva de satisfao. 
Dona Isilda concluiu que a estratgia de afastar o moo da 
=filha estava a resultar e festejou essa vitria em privado 
com um =clice de vinho do Porto.
Afonso impressionou os pais pelo empenho que revelava nas 
=oraes e pelas maneiras recatadas com que se comportava. 
Alm =disso, por vezes brindava-os com surpreendentes tiradas 
em italiano, mas =tambm em alemo, francs ou ingls, frases 
pomposas e verborreicas que serviam apenas para pavonear os 
=conhecimentos que adquirira e estabelecer uma subtil 
superioridade sobre =a famlia. J o contrrio, como seria de 
esperar, no se passava. O =jovem sentia-se ligeiramente 
incomodado com a postura da
79
famlia, eram talvez os hbitos de higiene e as conversas que 
=considerava pouco elevadas, s se falava nas colheitas, nos 
preos =do mercado, na diarreia da vizinha, na forretice do 
senhor Ferreira e num problema na perna =da burra. Mas o pior 
eram as bebedeiras do pai aos domingos  tarde, o senhor 
Rafael vinha da taberna do Silvestre a cantar aos altos 
=berros e a caminhar de forma incerta, o que encheu Afonso de 
vergonha.
Foi por isso com alvio que o jovem seminarista regressou a 
=Braga para prosseguir os estudos. A sua =cela cheirava a 
mofo,  certo, mas era asseada e a vida no seminrio revelava 
o que, para os =padres da Carrachana, se poderia considerar 
um ambiente de =abundncia e requinte. Afonso reencontrou 
Amrico, que veio das =frias ainda mais gorducho, e ambos se 
tornaram agora inseparveis. No =segundo ano, as aulas 
deixaram a filosofia e concentraram-se em =matrias 
teolgicas. Afonso embrenhou-se no estudo do divino ao =ponto 
de, cheio de piedosa compaixo, lamentar a sorte dos que, por 
circunstncias da vida que no =controlavam, no tinham 
nascido num ambiente catlico. Pois se o =catolicismo era a 
verdadeira f, ento os hereges dos pases do =Norte estavam 
condenados s eternas chamas do inferno. Tudo, meditou o 
jovem, porque tinham =lamentavelmente nascido no stio 
errado. No pde deixar de =sentir uma certa perplexidade por 
os protestantes teimarem em no =verem a verdade. No era 
bvio que, pela sua grandeza e histria, s em Roma estava o 
caminho da =salvao? No se tornava evidente que, pela sua 
bondade e =majestade, era o Santo Padre o verdadeiro vigrio 
do Senhor? =Como =poderiam aqueles povos, na sua cegueira e 
arrogante ambio, =fechar os olhos  evidncia? Isto para j 
no falar nos =judeus, que no reconheciam o Novo Testamento 
e a palavra de Jesus, ou nos maometanos, =que acrescentaram 
falsos profetas aos verdadeiros. E o que dizer =daqueles 
outros povos que nem o Antigo Testamento reconheciam, =como 
os =hindus e os budistas? Que muro de ignorncia os mantinha 
cruelmente =afastados da salvao? Afonso sentiu-se orgulhoso 
quando aprendeu o papel que a Igreja =portuguesa desempenhou 
na propagao da f no
80
Brasil, em frica, na ndia, na China, no Japo e nas =ilhas 
Molucas e sentiu ganas de vir a ser um desses missionrios 
que =se tornaram confidentes do imperador em Pequim ou que 
acompanharam os =bandeirantes na converso dos selvagens no 
Brasil. A ndia portuguesa estava catolicizada e =havia agora 
muito trabalho a fazer em frica. O jovem seminarista 
=comeou a alimentar o secreto sonho de se tornar missionrio 
e =espalhar a verdadeira f em locais remotos das Guins, de 
Angola e de Moambique, tendo =confidenciado estes projectos 
apenas ao padre Fachetti e a Amrico.
As aulas de Teologia Dogmtica permitiram-lhe penetrar mais 
=satisfatoriamente nos insondveis mistrios de Deus e da 
vida. A =disciplina era leccionada pelo padre Francisco 
Nunes, um inesperadamente =liberal e pouco ortodoxo telogo 
beiro que estudara Teologia em Roma e fizera uma ps-
graduao em =Filosofia na Universidade de Heidelberga, na 
Alemanha. Afonso ainda =no o sabia, mas, como resultado da 
sua curiosidade natural e da forma aberta e desempoeirada 
=como o mestre abordava os problemas =filosficos, essas 
aulas abrir-lhe-iam surpreendentes janelas sobre o mundo. O 
=padre Nunes era um homem magro e curvado, de olhos pequenos, 
barba rala =e falinhas mansas, com duas caractersticas 
dominantes. A primeira = que ciciava a falar, os esses 
saam-lhe em assobios sibilantes, e a outra vinha-lhe da 
paixo pelo =latim, o que o levava a usar profusamente 
expresses proverbiais =latinas na conversa. Ao mestre, 
Afonso remeteu as mesmas perguntas que =formulara antes ao 
padre llvaro, incluindo o problema do bem e do mal que est 
na base da =moralidade judaicocrist. Seria o bem a anttese 
do mal ou no =passariam ambos das duas faces da mesma moeda?
 verdade que, a fortiori, o que  bem para uns pode ser mal 
=para outros", concordou o padre Francisco Nunes, os esses de 
"uns", ="ser" e "outros" a sarem assobiados. "Se eu te 
ganhar um jogo de =xadrez, isso  bom=20para mim e mau para 
ti. Dura sed lex. Muitas coisas na vida so =tambm assim. "
81
"Mas, se Deus  bom, por que razo existe mal? Se Deus  
=omnipotente, por que motivo no arranjou um sistema 
diferente, um =sistema em que o resultado do jogo de xadrez 
fosse bom para os dois =jogadores? ", insistiu Afonso, j 
habituado aos esses assobiados.
"A resposta a essa pergunta, meu caro Afonso, foi dada h 
=duzentos anos por um filsofo alemo", retorquiu o 
professor. =Voltou-se para o quadro e escreveu a giz 
"Gottfried Leibniz". "Leibniz =observou ad litteram que o bem 
e o mal so inseparveis porque cada um deles no tem sentido 
sem o outro", disse =ele, pronunciando "Laibnitsss". "O bem 
s tem valor se o mal for uma =opo, se nos dedicarmos a ele 
porque o desejamos, no porque =no temos alternativa. E esta 
dualidade bem-mal s  possvel =porque estamos a lidar com 
conceitos relacionados entre si e cuja =adopo resulta de um 
acto de livre vontade. De alguma forma =poderemos definir o 
bem=20como sendo um =conjunto de regras e comportamentos que 
produzem bons resultados para =cada pessoa e para a 
comunidade em geral e o mal =como sendo regras e 
comportamentos que =apresentam resultados negativos para o 
mesmo universo.  claro que, a =priori, cada sociedade, ou 
religio, pode estabelecer regras e =comportamentos 
diferentes e at antagnicos. Id est, acontece por vezes que 
uma coisa que  considerada boa =por umas culturas  encarada 
como maligna por outras, e  por isso que temos de =nos guiar 
pela palavra de Deus tal=20como ela foi imortalizada nas 
Sagradas =Escrituras. So elas a alma mater da nossa 
moralidade, so elas o nosso guia para definirmos o bem e o 
mal, para estabelecermos =quais os comportamentos e regras 
que deveremos adoptar e quais os que =deveremos rejeitar. No 
Genesis, a distino do bem e do mal =constitui o terceiro 
passo dado pelo homem, e=20 precisamente a que comea a 
definio da nossa =moralidade. "
"E qual  o principal comportamento ou regra que temos de 
=adoptar para fazermos o bem? ", perguntou o aluno.
"O amor", disse sem hesitar o padre Nunes. "Os judeus 
acreditavam =no princpio de que o bem era praticado quando 
ammos
82
o prximo, e isso est consagrado no Antigo Testamento. O 
=problema  que os judeus achavam que eram o povo eleito, que 
Deus =s os amava a eles. Cristo foi para alm desta ideia, 
defendendo que Deus amava os judeus, sim, mas, magister 
=dixit, tambm amava todos os outros povos, todos eram filhos 
de Deus, =o amor divino era universal. De resto, j os gregos 
defendiam que os =homens so todos irmos, um conceito que 
Jesus incorporou no cristianismo. "
 noite, deitado na sua cela, Afonso matutava sobre estas 
ideias =inquieto, lendo a Bblia com redobrada ateno. Por 
vezes dava =um salto  biblioteca do seminrio e consultava 
textos de =teologia, regressando s aulas do padre Nunes com 
novas dvidas.
"O senhor padre mencionou na ltima aula que o bem e o mal s 
=tm valor porque podemos optar entre eles", observou o aluno 
quando =voltou a Teologia Dogmtica. "Mas estive a ler a 
Carta aos Romanos, =de So Paulo, e ele escreveu a que todos 
os homens so pecadores e que Deus escolhe quais so =aqueles 
a quem vai conceder a Sua graa e salvar. Essa escolha foi 
=previamente efectuada por Deus, antes de o tempo ter 
comeado, antes =de o mundo ter sido feito. "
"E o que concluis dessas palavras, meu filho? "
"Concluo que Deus concede a Sua graa independentemente dos 
=mritos dos que a recebem. Todos somos pecadores, cabe a 
Deus =escolher arbitrariamente quem vai ser salvo. E, =como 
essa escolha foi efectuada antes ainda de =o mundo ter sido 
feito, o que ns fizermos  irrelevante, Deus =j fez as suas 
opes antes mesmo de praticarmos o bem ou o =mal. Ou seja, o 
que quer que faamos no conta para nada, as coisas esto 
decididas antes mesmo de =acontecerem. "
"Esse  precisamente, um ponto de divergncia entre o 
=catolicismo e o protestantismo", comentou o padre Nunes 
afagando a barba =rala. " possvel que, ao avanar com essa 
ideia da graa de =Deus, So =Paulo tenha levado o 
cristianismo para =reas onde talvez Jesus no tivesse ido. 
Outros =santos contestaram o conceito, insistindo no 
=princpio fundamental de que uma
83
f que no  consolidada por actos no tem valor. =Sabes, o 
que se passa  que a Bblia resulta de um conjunto de =textos 
diferentes, que ns consideramos =como sendo produto da 
palavra de Deus, mas a =verdade  que eles foram redigidos 
por homens. Isso significa que, =at certo ponto, esses 
textos so interpretaes humanas da =vontade divina 
e,=20como tal, podem por vezes conter " =contradies, at 
mesmo um ou outro lapsus calami. "
"Mas qual  a resposta para este problema? " "No sei, teria 
=de consultar Deus", riu-se o professor. "Eu diria que talvez 
exista uma =maneira de conciliar os dois pontos de vista. Uns 
tm certamente =razo quando defendem que  preciso praticar 
o bem para merecer um lugar no cu. Mas So =Paulo preconiza 
outra verdade, a de que a bondade de Deus  =ilimitada, 
mirabile dictu, e isso significa que todos podem ser 
=perdoados, mesmo os que s fizeram o mal. Admito que haja 
aqui uma contradio, mas,  =falta de melhor resposta, eu 
diria que, hic et nunc, os caminhos do =Senhor so 
insondveis. "
Afonso no ficou satisfeito com a forma =como o padre Nunes 
no respondeu = sua dvida, mas percebeu que isso acontecia 
porque o professor no tinha realmente resposta. Tal no o 
impediu de problematizar =alguns aspectos do problema, como 
se tornara agora seu timbre.
"Mas como  possvel que as coisas =estejam decididas antes 
ainda de terem acontecido? "
"Tudo est predestinado. "
"Mas, se est predestinado, ento  porque no h =livre 
vontade. Ou seja, a opo pelo mal no  do homem, = de 
Deus. O padre Nunes suspirou. Que aluno difcil, pensou, a 
=curva nas costas acentuando-se =20medida que ganhava 
coragem para atacar mais aquele problema.
"Santo Agostinho responde a essa tua dvida", ciciou. 
"Imagina =que o tempo  como o espao. Quando viajamos, vamos 
um ponto ao outro. Eu estou em =Braga e vou ali a Viana do 
Castelo. =Evidentemente que eu aqui de=20Braga no vejo 
Viana, mas Viana =est l. Se subir para o cu num desses 
aeroplanos
84
dirigveis de que falam agora os jornais, l de cima j 
=poderei ver as duas cidades ao mesmo tempo, =Braga de um 
lado e Viana do outro. Mutatis mutandis, com o tempo  a 
mesma coisa. Eu =viajo
do passado para o futuro. Do ponto onde me encontro no 
consigo =ver o futuro, embora ele exista. Mas Deus est l em 
cima
e, ipso facto, v os dois pontos ao mesmo tempo, o passado e 
o
futturo. Entendeste?"
 "Sim", indicou Afonso hesitante. "Mas em que  que isso
=20
responde  minha pergunta?"
"Com este exemplo, adaptado de Santo Agostinho, eu expliquei-
te a =predestinao", devolveu o professor com um sorriso
 triunfal. "No foi Deus que fez as aces humanas que =vo 
ocorrer
no futuro, foi o homem. A vantagem de Deus  que Ele est =l 
em cima, a ver simultaneamente o passado e o futuro, e 
consegue =perceber o que o homem ir fazer antes mesmo de ele 
o ter feito.
ab initio, Deus viu no passado as escolhas que iremos 
livremente
fazer um dia no futuro, pelo que no precisa de esperar pelo 
=futuro
para enunciar o seu veredictum, para decidir quem ir salvar. 
="Portanto", concluiu o aluno, "o futuro j est determinado. 
"
J.
 "Mas, apesar disso, temos livre vontade.
"Concordo que, grosso modo, parece uma contradio", admitiu 
=o padre Nunes, esforando-se por ocultar a sua atrapalhao.
No entanto, assim . O futuro est determinado desde que o
mundo foi criado, mas o homem mantm o livre arbtrio. "
"No percebo", comentou Afonso. "S posso ter livre =arbtrio
se puder mudar o futuro, se for dono das minhas aces. Ora, 
=se o futuro j est determinado, isso significa que no o 
posso =alterar. Se no o posso alterar, a minha vontade no  
livre, =apenas parece livre. "
No  bem assim", desesperou o professor. "Somos ns que
construmos o futuro. Nihil obstat. Deus limita-se a tomar 
=conhecimento antecipado das nossas aces. "
Afonso no ficou convencido e voltou aos livros. Consultou a
biblioteca do seminrio e conseguiu at autorizao =para dar 
85
um salto  Bibliotheca Pblica, ao lado da Igreja dos 
=Congregados, junto ao Jardim Pblico. Dias depois, no incio 
da =aula do padre Nunes, levantou a mo.
"O que , Afonso? "
"Senhor padre, encontrei uma resposta para o problema do 
livre =arbtrio. "
"O livre arbtrio? Do que  que ests a falar? "
"Lembra-se de na ltima aula termos falado sobre a 
=predestinao e de o senhor padre ter dito que o facto de 
Deus =tomar conhecimento antecipado das nossas aces no nos 
retira =a liberdade de decidirmos por ns mesmos? "
"Sim, a conversa de Santo Agostinho "
"Pois eu descobri que Espinosa contraria Santo Agostinho." O 
padre =Nunes arregalou os olhos.
" Espinosa?"
"Sim, senhor padre", disse Afonso com entusiasmo, folheando o 
=caderno onde tomara as suas notas. "O Espinosa disse que a 
nossa =convico de sermos agentes livres no passa de uma 
iluso baseada no facto de que nunca estamos conscientes das 
verdadeiras =causas dos nossos actos. " Afonso levantou os 
olhos do caderno e mirou o =professor com ar vitorioso. "Ou 
seja, no somos livres, pensamos  =que somos livres. "
" verdade que Espinosa escreveu isso", admitiu o padre com 
um =suspiro. "Mas, se leres bem Espinosa, vers que ele 
tambm disse =que h uma liberdade que temos, que  a de 
tomarmos conscincia das causas dos nossos actos. Tornamo-nos 
livres quando =compreendemos as coisas"
"Isso no impede que se mantenha o problema inicial, o de que 
o =livre arbtrio  uma iluso. "
" o que diz Espinosa", assentiu o mestre. "Mas deixa-me 
=avisar-te, Afonso, de que Espinosa no era catlico. Ele era 
judeu =e mesmo entre os judeus foi excomungado por causa das 
suas ideias =herticas. Portanto, tens de l-lo guantum 
satis. Se eu tiver de escolher entre Espinosa e Santo 
=Agostinho, no tenho dvid em dar razo a Santo Agostinho."
86
Os debates teolgicos e filosficos fascinavam e estimulavam 
=Afonso, no admirando que o jovem fizesse de Teologia 
Dogmtica a =sua disciplina favorita. Nas aulas do padre 
Francisco Nunes compreendeu algo em que nunca tinha pensado, 
a ideia de que os textos =divinos foram escritos por homens e 
no passavam de =interpretaes imperfeitas da vontade de 
Deus. A compreenso de =que os textos sagrados poderiam ser 
falveis e abertos a diferentes leituras deixou-o 
horrorizado, essa era uma =ideia monstruosa, significava que 
os autores dos textos se podiam ter =enganado e estar a 
difundir princpios que no emanavam de Deus. =Passou a ler a 
Bblia com redobrada ateno, tentando descortinar o que era 
=realmente a palavra do Senhor e o que no passava de 
=interpretao subjectiva do autor do texto, mas depressa 
percebeu =que essa era uma tarefa impossvel, a prpria 
traduo revelava-se, ela mesma, uma interpretao. Consoante 
as =tradues, o texto mudava subtilmente.
Apesar destas dvidas, Afonso tornara-se um rapaz devoto e 
=dedicado, imensamente interessado pelo mundo.  medida que 
evolua =das questes mais simples e ingnuas para os 
problemas =teolgicos e filosficos mais complexos e 
aprofundados, crescia a sua admirao pelos =conhecimentos do 
padre Nunes. Certa vez, no final de uma aula, encetou a 
=nica conversa que teve versando matrias no exclusivamente 
=religiosas numa lio de Teologia Dogmtica, ao interrogar o 
mestre sobre onde adquirira =o seu saber. "Estive em Roma, 
meu filho", riu-se o padre, divertido com =a pergunta, 
enquanto arrumava os papis para se ir embora. ="Frequentei a 
biblioteca do Vaticano. Foi l que tive o meu fiat lux. "
"Aprendeu tudo l?"
"Nem tudo. Houve coisas que aprendi quando estudei na 
Alemanha. "
"Mas esse no  um pas protestante? "
"De facto", assentiu o padre Nunes, levantando os olhos dos 
=papis. "Mas  muito bom na filosofia. "
"E os filsofos alemes acreditam em Deus?
 "Alguns sim, outros no. "
87
"Quem so os que no acreditam? "
"Sei l, vrios. "
"Mas quem? "
"Olha, o Schopenhauer, o Fichte... "
 "Esses no acreditam em Deus? "
"No. "
 "Ento, para eles, quem  que criou o mundo? "
O padre Francisco Nunes olhou fixamente para Afonso, suspirou 
e =sentou-se pesadamente na cadeira.
"O Schopenhauer foi o primeiro filsofo explicitamente 
ateu",=20
explicou o mestre, j resignado  ideia de que no iria =sair 
imediatamente da sala, ou no conhecesse ele o aluno que 
tinha =pela
frente. "Ele achava que no foi Deus quem criou o homem  Sua
imagem, mas foi o homem quem criou Deus  sua imagem. Sic.
Deus no passava assim de uma criao antropomrfica, =de uma
projeco do homem... "
"Assim  maneira dos gregos? "
"Quais gregos? "
Afonso consultou as suas notas.
 "Protgoras", exclamou. "Protgoras disse que o homem  a
medida de todas as coisas. "
"Pois, isso", assentiu o padre, com um gesto vago. "Mas h
mais. Schopenhauer rejeitou a prpria ideia de alma, dizendo 
que
todo o conhecimento est no crebro, no no esprito. =Ele 
considerava que o mundo no tem significado, no tem 
=propsito,=20
existe por si mesmo, et caetera. Ou seja, o mundo no tem 
=sentido, ns  que lhe atribumos um sentido, ns  que =lhe 
inventamos um sentido para nos reconfortarmos. "
"E o senhor acredita nisso? "
Credo, Afonso, claro que no. Se acreditasse no seria padre
valha-me Deus. "
"No h nada que ele tenha dito que considere verdadeiro?
"Bem, isso  outra coisa. Sabes, o Schopenhauer via o mundo
como uma coisa cruel, um local de =sofrimento em que para 
viver
 preciso matar. Por exemplo, a todo o momento os animais=20
88
estavam a matar outros animais, so milhares e milhares de 
=mortes por ano em todo o mundo. Para que um nico animal
carnvoro viva durante um ano, uma centena de animais ter de 
=morrrer de modo a alimentar esse nico sobrevivente. E para 
que um =nico animal herbvoro viva durante esse mesmo ano, 
muita =criao tem de morrer para lhe dar de comer. Por outro 
lado as prprias =plantas vivem  custa do apodrecimento da 
carne dos animais e dos restos das outras plantas. Ou seja, a 
vida =alimenta-se de muita morte. Dura lex sed lex. 
Schopenhauer achava que o =mundo dos homens obedece  mesma 
lei, os seres humanos " vivem uma =vida de sofrimento em que 
os homens so escravos das suas necessidades e desejos.  uma 
vida feita de =violncia e de frustraes, de dor, de 
doenas, de medo, de =escravido, de luta, de vitrias 
efmeras e derrotas =permanentes,  um processo de perdas 
constantes e sucessivas, e o pior  que tudo =isso acaba
sempre mal, a vida termina invariavelmente com a perda final 
forte, =na nossa existncia no h fins felizes. " Isso 
parece =assustador. "
 " deprimente. "
Considera isso verdadeiro? "
"De certo modo" disse o mestre. "
Viver  sofrer. E o que  mais curioso  que, apesar de =ser 
um constante sofrimento, ns destinamo-nos  vida com todas 
as =nossas foras, como se fosse o maior tesouro, a coisa 
mais preciosa. =Mas a vida est sempre a ser articulo mortis. 
Ela foge-nos, escapa-se-nos como gua =entre os
dedos. Em cada respirao, a cada palavra, a cada momento 
=encurta- se a distncia que nos separa do nosso fim, 
nascemos e j =estamos condenados  morte. A vida no passa 
de um instante fugaz, =de um brilho efmero das trevas da 
eternidade."
"Acha?"
"Tu ainda no tens noo, Afonso, s muito novo"
Quando somos novos, tudo parece lento, vago, quase eterno. 
Mas olha =que isso vai mudando com a idade. Ainda noutro dia 
eu tinha quinze anos =e agora, quase=20
89
j estou a chegar aos quarenta. Parece que a vida se vai 
=acelerando, os anos ganhando velocidade, e isso assusta-me. 
Repara no D. =Crisstomo, que tem sessenta. Sessenta anos 
ainda  uma idade de trabalho, de actividade. Mas, se formos 
a ver bem, daqui a =dez anos, provavelmente, ele j no 
estar vivo. Dez anos, meu =filho, no  nada. Dez anos  um 
mero sopro na poeira do tempo. ="
Afonso no se impressionou, para ele dez anos era muito 
tempo, =eram dois teros da sua existncia, era um dia 
longnquo que se =perdia na eternidade do futuro. Acreditava 
que a vida era longa, tinha ainda =uma grande marcha pela 
frente e achava aquela conversa inconsequente. A =sua 
preocupao era compreender a vida para a conquistar, no 
=para que ela o esmagasse.
"Se os filsofos ateus no encontram sentido na vida, =ento 
eles vivem para qu? "
"Boa pergunta", riu-se o padre Nunes, sentindo-se confortvel 
=neste terreno. "O problema de Schopenhauer  justamente que, 
sem =Deus, o mundo fica uma coisa vazia, absurda, sem razo 
de ser. =Ento, para substituir Deus, ele apareceu com o 
conceito de arte. Schopenhauer =dizia que, com a arte, o 
homem liberta-se momentaneamente da =escravido do desejo e 
da tortura da existncia,  arrancado =dos grilhes do espao 
e do tempo e transportado para uma realidade paralela, 
sublime, =celestial. O que leva, meu caro Afonso, a concluir 
que Deus  um =artista "
"Ou que a arte  divina. " "Ou que a arte  divina", 
=concordou o padre com uma gargalhada.
Afonso fitou-o com intensidade e ainda hesitou, mas decidiu-
se e, =pesando as palavras, formulou a pergunta que naquela 
conversa mais o =atormentava.
"Ser possvel, senhor padre, que tenhamos inventado
Deus para darmos sentido ao mundo?
O largo sorriso do padre Nunes desfez- se e ele suspirou, 
=interrogando-se sobre onde  que aquele mido ia buscar tais 
=ideias to prximas da heresia.
90
"Essa  a mais terrvel pergunta de todas", declarou 
=pesadamente. "Talvez por isso, nem devia ser uma vexata 
quaestio. Em vez =de falar ex cathedra sobre este assunto, 
temos de ter f e acreditar que Deus existe independentemente 
da nossa vontade, a crena =na Sua existncia no depende da 
lgica nem da prova =cientfica, depende unicamente da nossa 
f. Mas, se me pedirem =raciocnio lgico, eu responderia com 
outra pergunta: seria possvel estarmos aqui =se no fosse 
pela vontade de algum? " "Mas pode provar-se que =Deus 
existe? "
"Provar, provar, no direi, pelo menos no segundo os 
=chamados critrios cientficos de que tanto se fala agora", 
=retorquiu.
Houve um filsofo escocs, Hume, que defendeu que a 
=existncia de Deus  uma questo de facto, ou Ele existe ou 
=no existe. Segundo Hume, as questes de facto s podem ser 
=resolvidas pela observao. Repara que Hume era um 
empirista, acreditava na observao. =Ora, como  evidente, 
ns no conseguimos observar Deus, a Sua =existncia no  
demonstrvel in vitro, mas isso no =significa, digo eu, que 
Ele no exista. Na verdade, procurar provas no passa de lana 
caprina. Eu =nunca vi Bragana, mas sei que Bragana existe. 
Hume constatou que =as provas da existncia de Deus no so 
directas, mas inferenciais. Verbi gratia, a ordem existente 
no =universo indicia que o universo foi organizado por uma 
inteligncia =superior. Isso  um indcio, mas no , admito, 
a prova =final. Se quiseres, talvez tenha sido Descartes quem 
apresentou o melhor indcio da existncia de Deus. =Descartes 
apresentou esse indcio de um modo lgico, chamando a 
=ateno para o facto de o homem ser imperfeito mas ter em 
mente o conceito de =um ser perfeito. Ora, como ningum  
capaz de imaginar algo
melhor do que si mesmo s com base nos seus recursos, ento 
= porque esse conceito emana da realidade. Se eu sou incapaz 
de =imaginar por mim mesmo um ser perfeito, e todavia 
imagino, s pode ser porque esse ser perfeito efectivamente 
existe. "  Ento, se =Deus existe, onde est Ele?"
Est em tudo", afirmou o mestre, abrindo os braos e 
=mostrando o que o rodeava. "O teu amigo Espinosa at pode 
ter sido
91
um judeu herege, mas deu uma boa resposta a essa tua 
pergunta.
Newton disse que Deus criou o universo e depois ficou de fora
e deixou-o funcionar segundo as regras que Ele prprio tinha
estabelecido. Mas Espinosa achou que esta ideia estava mal 
=formulada. Pois se Deus  infinito, ento  porque Ele est 
=em tudo.
Se Ele estivesse separado do mundo e dos homens, como uma
 espcie de entidade exterior, ento o mundo e os homens 
=seriam
o Seu limite. No pode ser. Uma coisa infinita, por 
=definio, no
tem limites. Sendo infinito, no pode Deus ser uma coisa e o
 mundo e os homens serem coisas diferentes. No pode haver
nada que Deus no seja. Logo, se Deus  infinito, a fortiori 
=Deus  tudo."
"Isso contraria o que os filsofos alemes dizem", considerou
 Afonso, um mar de dvidas a encher-lhe a cabea. "Segundo
percebi, para eles  como se o homem estivesse em luta com o
mundo. "
 "De certo modo, sim. No seu quid pro quo, os filsofos ateus
tiram Deus da equao e tendem a estabelecer uma diviso 
=entre
o mundo e o homem. Fichte era um deles, ele afirmava que o
universo da matria inerte est separado do universo da vida.
Mas, ateno,  preciso dizer que outros filsofos =alemes 
tinham
uma opinio diferente, consideravam que  tudo a mesma coisa, 
=
um pouco como Espinosa. Schelling, por exemplo, defendia, 
inter
alia, que a natureza  uma realidade total e que a vida faz 
=parte
dessa realidade como uma evoluo natural das coisas. Para 
=ele, a natureza  um processo e os homens integram esse 
processo.
A vida no  separada da matria inerte, mas uma =continuao
dela. O que  realmente curioso nestas ideias de Schelling  
=que
elas colocam o homem com.azendo parte integrante da natureza. 
=Schelling observou que a natureza no  autoconsciente no
seu processo criativo, mas o homem . Ora, se o homem faz 
parte
da natureza, ento ele trouxe conscincia  natureza, foi 
=esse o seu grande contributo para o processo natural. Com o 
homem, a =natureza tornou-se autoconsciente. "
" O senhor tambm acredita nisso?"
92
"Claro que no. Foi Deus quem criou a natureza e o homem, foi 
=Deus quem decidiu que a natureza no teria conscincia e que 
o =homem teria. A conscincia  o instrumento que Deus deu ao 
homem =para que ele reprima a sua natureza animal
e procure a perfeio espiritual. Sem conscincia, o homem 
=no passaria de uma besta como as outras. A conscincia  o 
=toque divino na natureza humana. "
Mas, senhor padre, isso no contraria o princpio de que Deus 
= infinito? O senhor padre disse h pouco que no h 
=separao entre Deus, o mundo e o homem, Deus est =em tudo. 
Se Deus est em tudo, porque  =infinito, ento voltamos  
velha questo de que Ele tambm =est no pecado. Ora, como  
que pode... "
"Eu no disse isso, Afonso", cortou o mestre, franzindo o 
=sobrolho e erguendo o dedo, o liberalismo de pensamento do 
padre tinha =limites e ele queria evitar aquele terreno 
pantanoso.
"Foi Espinosa que disse. E Espinosa era um judeu hertico, 
=no te esqueas. Na dvida, meu filho, guia-te por Santo 
=Agostinho,  ele o vade-mcum. "
Os problemas da natureza humana comearam por essa altura a 
=afligir profundamente Afonso. Essa preocupao no derivava 
=apenas de meras consideraes filosficas induzidas pelas 
=conversas com o padre Nunes, mas tambm do facto de o seu 
prprio corpo estar a evoluir de um modo que o =esprito 
parecia incapaz de acompanhar. Os pelos apareceram-lhe nos 
=cantos da boca e no queixo quadrado, e ele passou a cort-
los =semanalmente com uma navalha. Comeou tambm a sentir 
ardores por entre as pernas, desejos que tinha combatido com 
=manipulaes dos rgos genitais ainda na sua pequena cela 
=antes de dormir, pecados mortais que procurava depois 
absolver com =intensas e fervorosas oraes na capela.
Aos quinze anos passou a ejacular periodicamente durante a 
noite, o =que o deixava terrivelmente envergonhado e lhe 
alimentava um =insuportvel sentimento de culpa. No sabia 
como
93
controlar o problema e achava que o diabo lhe entrava no 
corpo para =o obrigar a pecar nos momentos em que o apanhava 
desprevenido, =nomeadamente quando estava mergulhado no sono. 
Pensava que isso no =acontecia a mais ningum e suplicava 
diariamente=20 Virgem Maria para que o livrasse da tentao 
e afastasse os =demnios que se aproveitavam da sua 
inconscincia enquanto dormia. =Atormentou-se a pensar que 
Deus j antevira isso no passado e =antecipadamente o 
exclura da salvao. No fora Santo Agostinho que 
considerara que o desejo sexual  =uma tentao do diabo? 
Afonso aprendera =em Teologia Dogmtica que o sexo  animal, 
algo impuro, e que  a =resistncia a esse instinto que faz 
de ns seres humanos. Segundo =Santo Agostinho, a tenta o 
sexual  uma violao da nossa livre vontade. Deus quer-nos 
livres, pelo que no pode ser =Ele o responsvel pelo desejo 
carnal. [ Se assim , a =tentao sexual  algo que s pode 
vir do demnio. Consequentemente, o celibato constitui o 
triunfo do homem sobre
o animal, de Deus sobre Satans, ou, se quisermos, o celibato 
=representa a vitria da livre vontade humana sobre os 
grilhes das =bestas. Se a minha vontade no consegue vencer 
esta tentao, =pensou Afonso, ento  porque o diabo est a 
tomar conta de mim. Para retomar a questo =nos termos 
originalmente apresentados por Schelling, embora pervertendo 
=o sentido do raciocnio do filsofo alemo, Satans est =na 
nossa natureza, na nossa animalidade, e s a nossa vontade 
consciente nos permite =combat-lo. O problema perturbou- o 
tanto que nem sequer nas =confisses se atreveu a revelar o 
que se passava, tudo aquilo =pertencia ao domnio do 
inconfessvel, do vergonhoso. Alm do
mais, receava ser excomungado se algum percebesse que o 
=demnio por vezes tomava conta de si. Quem sabe, reflectiu, 
se aquele =no era um sinal de que Deus considerava que 
aqueles pecados nocturnos o =tornavam indigno de ser 
ordenado, afinal de contas talvez nunca pudesse =ser um homem 
imaculado como D. Joo Baslio Crisstomo, o padre =lvaro, o 
padre Nunes e o padre Fachetti, eles sim castos e verdadeiros 
=celibatrios que viviam livres da tentao.
94
Os males do corpo principiaram a contagiar-lhe a alma. Para 
agravar =as coisas, e para grande tristeza sua, Amrico no o 
conseguia =acompanhar. No  que o seu amigo transmontano no 
fosse =suficientemente empenhado na f. O problema  que ele 
no
era amante dos estudos e no vivia com agrado na clausura do 
=seminrio, o que acabou por precipitar vrios non aprovatus 
no =final do ano, classificaes que convenceram o pai a 
cham-lo a =Vinhais para no mais voltar.
Afonso iniciou por isso o terceiro ano do seminrio com um 
=grande sentimento de solido. Tinha agora dezasseis anos, a 
mesma =idade de outros estudantes que nesse ano tinham 
entrado na =instituio, mas os seus colegas do terceiro ano 
eram todos mais velhos, andavam =pelos dezanove. Mostravam-se 
afveis e corteses, o que no impedia =que a diferena de 
idades se notasse, apesar da irrequieta e =estimulante 
curiosidade manifestada por
Afonso sobre os mistrios do universo. Alguns interessavam-
se, =oh pecadores! pelas "mooilas", o jovem de Rio Maior viu 
mesmo um =deles, o Ablio, a lanar um piropo da sua cela a 
uma rapariga que =passava pelo Largo de So Thiago e sentiu-
se desconcertado com to incauto comportamento. =Quando o 
interpelou sobre o que fizera, mostrando-se soberbo de 
virtude =moral, o seminarista marialva encolheu os ombros.
"O pecado consiste, no em desejar uma mulher, mas em 
consentir =no desejo", retorquiu Ablio com altivez.
"Quem  que disse isso? "
"Abelardo. "
" Quem?"
"Pedro Abelardo, um filsofo e telogo do sculo xii " ="Isso 
 uma heresia", sentenciou Afonso, muito convicto. "Santo 
=Agostinho no disse nada disso "
"Eu quero qu'o Santo Agostinho v pr raio qu'o parta! ", 
=exclamou Ablio perante o olhar escandalizado do colega.
Mas isso no foi tudo. Numa aula de latim, o mestre apanhou 
=outro dos seus colegas, o Rudolfo, com um exemplar do 
Decameron
95
escondido por baixo de Tito Lvio, e o rapaz foi expulso do 
=seminrio pelo vice-reitor. Desiludido e solitrio, Afonso 
=comeou a sentir-se desmotivado e fechou-se em si mesmo. 
Voltou aos =jogos imaginrios no ptio, passando os recreios 
a dar pontaps em pedras, fintando players =invisveis, 
batendo goal-keepers fingidos, marcando goals 
=espectaculares, fantasiando o regresso em glria do Club 
Lisbonense =sob o comando dos seus estonteantes dribblings.
Os jogos imaginrios tornaram-se selvagens. Afonso corria 
=furiosamente pelo ptio a dar toques em pedras e a pontape-
las =com inusitado vigor. Certo dia uma das pedras atingiu na 
cabea um colega que estudava encostado ao tronco de um 
carvalho, e o profuso =sangrar que lhe brotou do couro 
cabeludo levou o vice-reitor a convocar o jovem ao seu 
gabinete para lhe passar uma =reprimenda. O eclesiasta disse-
lhe que aquele comportamento era indigno =de um seminarista, 
quem desejava servir Deus com devoo no se =podia portar 
daquela maneira, parecia um luntico aos pontaps no ptio. 
Afonso ouviu-o cabisbaixo, os olhos =fixados no soalho 
encerado. Durante algumas semanas inibiu-se de jogar 
=football imaginrio, mas a tentao acabou por ser mais 
forte =do que a prudncia e, passado algum tempo, l estava 
ele a dar toques em pedrinhas, =primeiro de forma discreta, 
de mansinho, como quem no quer a coisa, =depois mais 
empolgadamente, esquecendo-se momentaneamente do decoro, 
=fora na bola para os ingleses do Carcavellos Club verem de 
que tmpera =era feito um player do glorioso Club Lisbonense.
O frio, cruel e penetrante, abateu-se sobre Braga durante o 
ms =de Dezembro. Cada um protegia-se do gelo  sua maneira. 
Uns no =largavam as lareiras, outros envolviam-se em 
espessos casacos, Afonso =preferia esfalfar-se a correr, a 
saltar, a=20rematar. Mas, com os msculos enregelados, o 
controlo dos movimentos =era mais brusco, e o inevitvel 
aconteceu. Um pontap mais forte =que o invisvel goal- 
keeper do Carcavellos Club no conseguiu defender acabou com 
o vidro da casinha da jardinagem feito =em bocados.
96
O vice-reitor achou que era de mais. Afonso foi classificado 
de ="pagodeiro", o termo utilizado para os brincalhes e 
indisciplinados =que por vezes apareciam no seminrio. No dia 
seguinte, D. Baslio =Crisstomo chamou logo pela manh o 
padre lvaro e entregou-lhe um sobrescrito lacrado.
"O que  isto? ", perguntou o padre, olhando para o envelope. 
="L", disse-lhe o reitor.
Intrigado, o proco obedeceu e quebrou o lacre. Desdobrou a 
=carta e comeou a ler. O documento era assinado por Joo 
=Baslio Crisstomo e nele o vice-reitor explicava ter o 
=seminrio concludo que Afonso da Silva Brando, embora 
aluno aplicado e talentoso, no tinha na verdade =vocao 
para a vida sacerdotal. Consequentemente, no seria 
=ordenado. O padre lvaro empalideceu, jamais imaginara que 
aquela =convocatria tivesse sido feita para lhe entregar a 
carta de prego. Afinal de =contas, D. Baslio Crisstomo 
sempre lhe tecera os mais rasgados =elogios sobre o seu 
protegido, o que era confirmado pelas boas notas no =final do 
ano, pelo que aquela deciso se revelava totalmente 
inesperada. O vice-reitor explicou ao amigo as 
=circunstncias que o tinham levado a tomar aquela deciso, 
mas =ficou combinado que Afonso seria autorizado a concluir o 
terceiro ano no =seminrio de modo a completar a sua 
educao. A condio era a de que ele teria de =terminar 
definitivamente o seu bizarro comportamento no ptio, era a 
=nica forma de pr fim ao falatrio sobre o seu equilbrio 
=mental, onde  que j se vira um seminarista andar assim aos 
pontaps s pedras?
Afonso sentiu-se profundamente triste e magoado quando o 
padre =lvaro lhe explicou que tinha recebido a carta de 
prego e que ele =afinal no iria ser ordenado. O jovem 
transformara-se num catlico moderadamente devoto e, apesar 
dos tormentos nocturnos da carne, =j se habituara  ideia de 
que iria ser padre. Agora os sonhos de =se tornar um 
missionrio em frica desvaneciam-se como uma nuvem. =Pior do 
que isso, comeou a sentir-se inseguro quanto ao futuro. Se 
j no iria ser =ordenado, o que faria da sua vida? O 
regresso a Rio Maior parecia-lhe =inevitvel,=20
97
mas no encarava a perspectiva com grande entusiasmo, as 
breves =passagens pela Carrachana nos trs veres anteriores 
deixaram-no =com a convico de que aquele j no era o seu 
mundo, no =estava ali o futuro, apenas o passado. O problema 
atormentou-o durante algum =tempo, antes de o sacudir da 
mente como se no passasse de uma =incomodidade passageira. O 
que quer que venha a acontecer  porque =estava j 
predestinado, concluiu por fim, com fatalismo. Entregou-se 
ento =placidamente ao destino.
Quando Maio de 1907 chegou, despediu- se do padre Fachetti, 
do =padre Nunes, do vice-reitor, do padre lvaro e da cidade 
de Braga e =regressou  casa da famlia. Voltava, no com o 
sentimento de =derrota, mas de resignao, se no vinha como 
padre era porque tal no lhe estava reservado, era outro =o 
seu destino. Quatro anos antes abandonara a Carrachana com 
uns trapos =andrajosos no corpo, a chorar baba e ranho e 
cheio de dvidas sobre o =que o esperava no Minho. 
Agora,=20aos dezassete anos, regressava taciturno, vestido 
com roupas escuras e =limpas e com uma gravata ao pescoo, 
ainda carregado de dvidas, =algumas de origem metafsica, a 
maior parte bem mais prosaicas. Destas, a maior era a de 
=determinar o seu verdadeiro papel nos desgnios do Senhor, 
ou seja, e =no imediato, o que seria a sua vida em Rio Maior.
98
IV
"Pap, por que gostas tanto de vinho? "
Paul Chevallier desviou os olhos da garrafa de Chablis e 
observou, =espantado, a filha. O dono do Chteau du Vin 
descera  adega da =loja, uma vela na mo para iluminar o 
caminho, as paredes cobertas de =garrafas e de densas teias 
de aranha. Agns aguardava atrs de si, na sombra, remexendo 
os dedinhos, ardendo de =curiosidade, tentando perceber 
aquela estranha paixo do pai. Como =poderia Paul explicar-
lhe os prazeres de Baco?
"Sabes o que  teres um doce aveludado a deslizar-te pela 
boca? =", perguntou Paul num tom misterioso. Agns abanou a 
cabea. O pai acocorou-se junto de si e abriu o rosto num 
sorriso. "Imagina =esta coisa maravilhosa. A chuva penetra na 
terra, as razes absorvem =a gua, as uvas amadurecem em 
sumo, ns transformamos o =acar em lcool, o vinho inebria-
nos os sentidos. "
Inspirou fundo. Sentimos-lhe o aroma, a fruta, a textura, o 
sabor, =ele  aafro e  poesia,  o nctar de uma flor, as 
=lgrimas de Deus, o grinfar de uma andorinha, um perfume, 
uma =melodia, a curva de uma mulher e uma brisa de Primavera. 
O vinho, ma petite,  a vida " Apertou-lhe =carinhosamente o 
nariz. "Percebeste? "
99
Agns mirava-o com olhos arregalados, vidrados, nunca vira o 
pai =falar assim. Fez que sim com a cabea, em silncio, 
dando a =entender que percebera, mas a verdade  que tinha 
ficado agora mais =intrigada do que nunca. Afinal, por que 
razo o pai gostava assim tanto de vinho? Aquela misteriosa 
resposta na =adega do Chteau du Vin despertou em si uma 
curiosidade =incontrolvel, obsessiva, no percebeu as 
palavras mas estava =determinada a entend-las, no 
compreendeu o sentido mas sentira a sua fora, o seu poder. O 
pai =vivia fascinado pelo vinho e ela fazia questo de 
perceber porqu.
Crescentemente atenta a tudo o que a rodeava, Agns abriu-se 
ao =mundo e passou a ter novos interesses. A Exposio 
Universal de =Paris constitura uma inolvidvel viagem ao 
futuro e um catalisador para a crescente curiosidade da 
=rapariga pelas coisas da cincia. Mas a cincia mais  mo 
=na sua vida em Lille era a do pai, exposta diariamente no 
Chteau du =Vin. Graas  influncia pa terna, motivada por 
aquela fascinante e enigmtica resposta, =mas tambm 
estimulada pelo esprito artstico e cientfico =que 
orientava tudo o que vira em Paris, tornou-se no incio da 
=adolescncia uma verdadeira=20perita na arte do vinho. 
Queria perceber tudo e deitou mos  obra =com desconcertante 
entusiasmo. Achava fascinante a delicadeza quase =religiosa 
com que o pai tratava uma garrafa, girava o lquido no copo 
=para libertar o aroma ou saboreava o nctar. Longas horas de 
observao e de insistentes perguntas =permitiram-lhe aceder 
ao enigmtico mundo da enologia, a cincia =que iria dominar 
as suas atenes imediatas.
Aos onze anos, o vinho j no lhe ocultava mistrios. =Sabia 
que a cortia era a cobertura ideal para as garrafas de vinho 
=devido  sua leveza, limpeza, impermeabilidade e 
elasticidade. A rapariga =acompanhava o pai nos passeios para 
retirar a casca aos sobreiros e =produzir rolhas de cortia 
que deslizavam macias, mas firmes, at = sua posio no 
gargalo das garrafas. Via-o a cobrir a rolha com cpsulas 
feitas de folha de =chumbo e gravadas em relevo, ou 
mergulhando o gargalo em lacre,  =moda antiga. O mais 
espectacular era quando o pai, durante um jantar em =casa com 
amigos,=20
100
em que se bebia vinho velho guardado com rolhas j 
fragilizadas =e quebradias, vestia a sua farda de hussardo 
e,  maneira de =Champagne, usava o sabre contra o gargalo, 
partindo-o de um s golpe e libertando o vinho sem tirar a 
rolha. Era sempre um momento =muito aplaudido, de grande 
intensidade dramtica, embora em =situaes rotineiras com 
vinhos novos preferisse usar o =saca-rolhas hipodrmico, que 
rebentava a rolha das garrafas.
Agns sabia que era importante guardar as garrafas sempre 
=deitadas, de forma a manter a rolha hmida atravs do 
contacto =permanente com o vinho, e em locais escuros, para o 
vinho no ser estragado pela luz. Aprendeu a decantar os 
vinhos velhos, =observando o pai a usar decanters de trs 
anis, de modo a evitar =a parte turva, mas era a apreciao 
dos vinhos em si que se =revelava o lado mais fascinante de 
todo o ofcio. Quando pequena, ficava muito admirada por ver 
o pai a observar a =cor e a textura do vinho danando no 
vidro e a cheir-lo com o =nariz literalmente dentro do copo, 
mas o mais desconcertante era o modo =como ele saboreava o 
lquido, com a lngua a soltar pequenos estalidos. Agns 
descobriu que os tintos =Cabernet eram de um vermelho mais 
denso e escuro do que os Pinot Noir, =que os bons Bordeaux 
desenhavam uma elipse nos copos e que os Chardonnay =s 
adquiriam aroma quando eram mantidos em barricas de carvalho.
Da observao e do cheiro passou, aos doze anos, para a 
=degustao do vinho. No compreendeu de imediato todo o 
valor =que era dado quela bebida quando o pai a autorizou 
pela primeira vez =a saborear o nctar, to azedo, cido ou 
envinagrado lhe pareceu, nada ali era consonante com as 
palavras =misteriosas que ele usara para a enfeitiar na 
adega da loja, mas com =o tempo foi aprendendo a distinguir e 
a apreciar os sabores. A primeira =coisa que lhe foi 
explicada  que no havia dois vinhos iguais, o paladar de um 
vinho dependia do =enlogo que o criava, da casta da uva, do 
clima e das =caractersticas do solo. Depois, aprendeu a 
distinguir um Trebbiano =branco seco, um Gewurztraminer 
branco leve, um Sauternes branco doce, um Marsannay ros, um 
Chianti frutado, um Bordeaux =tinto encorpado e um 
Chteauneufdu
101
-Pape tinto escuro, mais as respectivas combinaes com 
=carne, peixe, queijo e fruta. Por exemplo, o Chablis 
combinava bem com =mariscos, o Sancerre com Roquefort, o 
Mdoc com borrego, o
Sauternes com foie gras e o Sauvignon Blanc com salmo. Os 
seus =conhecimentos na adolescncia eram tais que o pai 
comeou a =considerar seriamente a possibilidade de um dia 
passar o negcio, =no a um dos dois rapazes, como  primeira 
vista seria mais natural, mas quela sua filha dedicada e 
=conhecedora.
Paul Chevallier lidava com clientes de toda a espcie. Entre 
=eles estavam alguns que um dia iriam tornar-se notveis na 
cidade, =como  o caso de monsieur De Gaulle, que por vezes 
aparecia na loja com o seu filho Charles, um rapaz narigudo, 
=alto e desengonado, um ano mais velho do que Agns e que 
viria =mais tarde a tornar-se o mais clebre filho de Lille, 
a par, claro, do recentemente falecido Pasteur. =Afinal de 
contas, a cidade era pequena e todos se conheciam. Outros 
=clientes vinham da classe alta, incluindo donos de castelos 
e casares que gostavam de ver as suas adegas ricamente 
apetrechadas, e Paul =tornou-se por isso visita frequente dos 
seus palacetes e solares.
O enlogo ficou particularmente amigo do baro Jacques 
=Redier, um cliente apreciador do mtodo de abrir garrafas  
=hussardo e com quem ia a cavalo caar coelhos para a 
floresta de =Compigne durante o Vero. A baronesa Solange 
Redier era uma mulher frgil e adoentada, a =quem a me de 
Agns por vezes ficava a fazer companhia, ajudando-a =a 
enfrentar os ataques de tosse provocados por uma tuberculose 
lenta e =aparentemente crnica e que produzia expectoraes 
com traos de sangue. As duas =filhas permaneciam nessa 
altura no Chteau Redier com a me, =enquanto Gaston e 
Franois acompanhavam as caadas =em Compigne. Nessas 
ocasies, Agns =imaginava-se Florence Nightingale e no 
poupava esforos para =ajudar a baronesa, foi afinal ela=20a 
sua primeira paciente.
"A sua filha  uma santa", comentou a baronesa aps um ataque 
=de tosse particularmente violento que lhe valeu inmeras 
carcias =da sua pequena e esforada enfermeira.
102
"Sim,  muito carinhosa", concordou Michelle, ela prpria 
=secretamente surpreendida com as atenes com que a filha 
rodeava =a anfitri. "Sempre foi diferente dos irmos. "
"A menina devia ir brincar, em vez de estar aqui a aborrecer-
se =connosco", considerou a baronesa Redier, abanando o 
leque. "Nesta idade = um desperdcio ela perder tempo com 
uma doente como eu, no =acha? "
"Oh, no se preocupe, baronesa, a minha Agns adora estar 
=entre os adultos. Por vezes, veja l, fica horas sentada num 
canto, =calada, a ouvir as nossas conversas, nem se d por 
ela. Faz-me um =pouco de confuso,  um facto, mas  essa a 
sua natureza, o que quer? D-lhe imenso prazer estar entre os 
=mais velhos. "
"Mas ela no tem amigas? "
"Tem a irm e a Mignonne. "
" uma vizinha?"
"No", sorriu Michelle. " a boneca. "
Quando os homens vinham da caada, a sua alegria incontida e 
=entusiasmo contagiante suscitavam grande curiosidade s duas 
=irms. Contavam faanhas de caa, relatavam perseguies 
=mirabolantes, a lebre que custou apanhar, o faiso que se 
escapou, o javali que cercaram a cavalo, tudo aquilo parecia 
um =excitante mundo de aventuras, um inesgotvel manancial de 
=histrias, um universo de emoes vibrantes que lhes estava 
injustamente vedado. Claudette aborrecia-se =mortalmente no 
Chteau Redier e convenceu a irm a juntar-se-lhe =numa 
vigorosa campanha para persuadir o pai a deix-las ir com 
eles. =O recurso a Agns no era inocente, Claudette sabia 
que Paul nutria um fraquinho especial =pela irm e mostrava-
se determinada a usar isso em seu proveito.
"Nem pensar, Claudette, a caa no  coisa para meninas", 
=exclamou o pai quando a filha mais velha o interpelou com o 
pedido.
"Oh, pap, deixa-nos l ir. "
"No pode ser, filha. Temos de andar a cavalo, temos de 
galopar =atrs das raposas, andamos aos tiros,  perigoso. "
"Mas o Gaston e o Franois vo. "
103
" diferente, so rapazes. "
"Mas so muito mais pequenos do que ns, no  justo. " ="Oh, 
est bem, mas eles no andam nas cavalgadas connosco isso 
=no. "Ah no? Ento onde  que eles andam? "
"Ficam nos tangs de Saint-Pierre com o Marcel. " Marcel era 
o =mordomo do Chteau Redier, um homem sisudo que as crianas 
no =apreciavam.
"Ah ? E ns no podemos ficar com eles? "
"No, filha, isto no  para meninas. "
Claudette sentiu que era chegado o momento de atacar com 
trunfo. =Fez sinal a Agns e a irm encostou-se ao pai, 
mostrando beicinho, =os olhos doces e pedinches, o tom de 
voz irresistivelmente meloso.
"Oh, pap, s mignon, deixa-nos l... "
Paul fitou Agns e engoliu em seco.
"Bem... eu... ", gaguejou. "Enfim... uh... por que no? " 
=Suspirou, vencido. "Est bem, est bem. Amanh levo- vos. "
Abraaram-no, efusivas.
"Merci, pap "
"Pronto, pronto", disse Paul, derretendo-se no abrao. "Mas 
=tm de se portar bem, ouviram? "
Foi a nica vez que o pai consentiu em levar as duas 
raparigas =consigo. Na manh seguinte, um domingo cinzento e 
hmido, meteu os =quatro filhos num coche, com Marcel a 
conduzir, e partiram todos estrada =fora, coche, cavalos e 
ces a seguirem com grande alarido at  floresta. Cruzaram o 
rio =Aisne e entraram no Bois de Compigne, passando por 
entre os grandes =carvalhos at aos Beaux Monts, donde 
viraram para os tangs de =Saint-Pierre. Agns e Claudette 
ficaram a sentadas junto a um lago rodeado de faias, 
enquanto os irmos =brincavam s guerras por entre os 
arbustos, sob o olhar enfastiado de =Marcel, e o pai galopava 
com o baro Redier atrs dos ces e =das lebres. As irms 
acharam a experincia enfadonha, no havia ali aventuras nem 
excitao, =apenas um tdio sem fim. Decepcionadas, nunca
104
mais quiseram ouvir falar de caadas, mil vezes os bocejos no 
=Chteau Redier.
Paul era um homem avanado para a poca e, quando Claudette 
=terminou o liceu, decidiu pagar-lhe os estudos 
universitrios. A =filha mais velha, apaixonada por 
arqueologia e estimulada pelas recentes =descobertas no 
Egipto e na Mesopotmia, foi tirar Histria para a Sorbonne.
No ano seguinte, em 1911, foi a vez de ser dada a mesma 
=oportunidade a Agns. Sem surpresas, a segunda filha do 
casal =Chevallier decidiu aos vinte anos seguir os passos da 
sua herona =Florence Nightingale e matriculou-se em 
Medicina, tambm na Sorbonne. No era enfermagem, mas estava 
no mesmo ramo. Foi para =Paris dividir com Mignonne e a irm 
um apartamentozinho simptico =em St. -Germain-des-Prs. O 
apartamento situava-se num primeiro andar =da Rue de 
Montfaucon, junto ao mercado, e foi a que viveu os melhores 
=anos da sua vida.
Claudette e Agns frequentavam faculdades diferentes, pelo 
que =s se juntavam  noite e aos fins de semana. Uma vez por 
ms =iam a Lille passar um fim de semana com os pais=20e 
receber a mesada. O dinheiro chegava-lhes para a comida, que 
iam =buscar ao March St. -Germain, mesmo ali ao p, e para 
pagarem o =aluguer do pequeno apartamento, constitudo por 
cozinha e uma sala =grande, onde tinham duas camas, um sof, 
um armrio, uma escrivaninha e uma banheira. O quarto de 
banho =localizava- se no rs-do-cho, era um pequeno cubculo 
ocupado por uma retrete branca decorada com motivos azuis, 
como se =fossem tatuagens sobre a porcelana, e servia todos 
os inquilinos do =edifcio.
O curso de Medicina revelou-se absorvente, mas o que se 
tornou =verdadeiramente inesquecvel foi a estreia =em 
Anatomia. Agns era das poucas mulheres a frequentarem o 
curso e foi muito =a medo que, pela primeira vez, entrou na 
sala de dissecaes para a primeira aula dessa temida 
disciplina. A meio da sala estava =uma mesa e sobre ela 
encontrava-se estendido o cadver=20
105
de um homem nu. Os alunos rodearam a mesa num silncio 
=respeitoso, fascinados com a viso do morto, apenas o 
professor =parecia descontrado, talvez at um pouco 
divertido, sabia bem =como os alunos fantasiavam as sinistras 
experincias daquela cadeira, sobretudo antes de a 
frequentarem. O professor =Bridoux tinha fama na Sorbonne, 
entre os estudantes de Medicina, de ser =extravagante com os 
cadveres. Ao contrrio da maior parte dos professores de 
Anatomia, que dispunham de =cirurgies para as aulas de 
dissecao, Bridoux gostava de ser =ele prprio a retalhar os 
corpos e a revelar-lhes as entranhas. =Agns conhecia-lhe a 
lendria fama de homem mrbido, uma reputao entre os 
estudantes que, em boa verdade, =lhe atraa uma clientela 
fiel, afinal de contas o responsvel pela =cadeira de 
Anatomia era geralmente considerado a bizarria mais 
=fascinante da faculdade.
"Muito bem, meus senhores", comeou o professor Bridoux a 
dizer =enquanto esfregava as mos. "A palavra anatomia
deriva do grego anatemnein, ou seja, cortar e abrir. Ergueu 
um =dedo. "Vocs vo ser agora iniciados na mais velha 
disciplina da =Medicina e, se me permitem, vale a pena 
recordar aqui a importncia =histrica deste trabalho " Os 
estudantes bebiam cada palavra, presos  =exposio desta 
lenda viva da Faculdade de Medicina. "As primeiras =autpsias 
foram efectuadas por Herophilus de Chalcedon e por 
=Erasistratus de Kos, trezentos anos antes de Cristo, mas 
esta prtica foi proibida no =sculo III por motivos 
religiosos " Bridoux mirou os rostos em redor =com ar de 
desafio. "A religio, meus caros,  a fonte do obscurantismo. 
Se ela vos tentar, resisti. Se ela j vos =tentou, desisti. 
Cincia e superstio no combinam, =acreditem. Olhem o 
exemplo desta nossa nobre disciplina, to importante para o 
conhecimento do homem. Pois, apesar da sua =importncia, o 
obscurantismo religioso revelou-se to forte e =durou tanto 
tempo que foi preciso esperar pelo sculo xiv para voltar =a 
ser feita uma autpsia na Europa" Bridoux pegou num bisturi. 
"Durante todo esse tempo, =tudo o que a medicina sabia sobre 
a anatomia humana devia-o ao trabalho =do grego Galen de 
Pergamon, o mdico de Marcus Aurelius, que
106
publicou uma centena de trabalhos destinados, dizia ele, a 
trazer =luz s trevas. E s no sculo xvI, meus senhores,  
que =algum retomou os estudos de anatomia e foi mais longe 
do que Galen. =" Mirou os estudantes. "Sabem quem foi esse 
gnio? "
Um rapaz muito magrinho, que Agns sabia ser oriundo de 
=Bordus, levantou timidamente o dedo e o professor fez-lhe 
sinal para =falar.
"Morgagni? "
"Esse veio depois", atalhou o professor Bridoux, brandindo o 
=bisturi. "O mdico que foi para alm de Galen, chegando 
mesmo a =questionar as suas concluses, foi o belga Andreas 
Vesalius. Vesalius =era conhecido por o louco, vejam l, 
tinha essa triste fama s porque possua a paixo pelo 
=conhecimento. Comeou por dissecar muitos animais e passou 
depois aos =cadveres das pessoas executadas em Bruxelas. 
=Chegou at a fazer autpsias em pblico, uma coisa =ento 
nunca vista. As suas descobertas foram descritas em Tabulae 
=anatomicae sex e, sobretudo, em De humani corporis fabrica 
libri septem, o mais fundamental trabalho de desenvolvimento 
da =anatomia, disponvel aqui na biblioteca da faculdade para 
os que =gostam de exercitar o seu latim " Ergueu a mo 
direita, num tom =dramtico. "Mas, hlas! ningum  profeta 
na sua terra. Vesalius foi to enxovalhado pelos seus 
=colegas por ter questionado Galen, por ter desafiado alguns 
dos velhos =ensinamentos, que se viu forado a emigrar para 
Espanha, onde se =tornou mdico da corte " Bridoux olhou para 
o aluno magricelas que falara havia =instantes. "Do mero 
estudo da anatomia, as autpsias passaram no =sculo xvII ao 
estudo da causa da morte das pessoas como forma de ajudar =os 
vivos. Entrou aqui um novo cientista. Quem? "
"Morgagni", sorriu o estudante, corando e sentindo-se 
lisonjeado =pela cortesia do professor.
Bridoux abriu os braos.
"voil. Giovanni Battista Morgagni", disse, pronunciando o 
nome =com um afectado sotaque italiano. "Sabem, a palavra 
patologia tambm =vem do grego. Associa pathos, ou 
sofrimento, a logos, ou ensinamento. Pathos logos. Patologia. 
O ensino do sofrimento. Depois dos trabalhos =pioneiros de 
Galen de Pergamon, foi o mdico italiano Giovanni =Morgagni, 
de Pdua, quem estabeleceu os modernos fundamentos do =estudo 
das patologias.
Morgagni efectuou quase setecentas autpsias e publicou as 
suas
 concluses numa obra em cinco volumes, De sedibus et causis
morborum. Foram aqui efectuadas as ligaes entre sintomas 
=clnicos e os resultados das autpsias. Morgagni tentou 
assim =demonstrar que era possvel descobrir no post mortem 
as causas da =morte de uma pessoa, estabelecendo correlaes 
entre as doenas
e as alteraes encontradas nos rgos dissecados. " =Fez uma
pausa. "Algumas dvidas? "
Ningum disse uma palavra.
"Muito bem", exclamou Bridoux, satisfeito. "Vejo que j sabem 
=tudo. " Aproximou o bisturi do abdmen do cadver. "Meus
 senhores, chegou a hora de vos revelar a vida pelo estudo 
dos
mortos", anunciou com pomposidade. Olhou para o corpo nu e
alterou o tom de voz, duas notas abaixo, como se 
acrescentasse
um aparte. "Sei que vocs esto um pouco nervosos,  =sempre
assim da primeira vez, mas imaginem que estamos no talho e 
que
isto  apenas um pedao de carne. Alis, no  =preciso 
imaginar. Isto  realmente apenas um pedao de carne. "
O professor Bridoux cortou a pele do homem morto e Agns
manteve com grande esforo o olhar fixo no acto, estava 
=horrorizada e fascinada, queria fechar os olhos e ver, fugir 
e ficar.
Surpreendeu-se por observar to pouco sangue em toda a 
=autpsia, mostrava-se perplexa com a falta de dignidade 
daquele =corpo,=20
uma marioneta quebrada e deitada na mesa, uma massa inerte e
despojada, mas, paradoxalmente, a rapariga foi-se acalmando 
medida que o cadver se transformava, cada vez se via menos o
homem e mais um monte de carne, era uma viso assustadora e
tranquilizadora, parecia realmente que estavam no talho, a 
carne
humana, retalhada e cortada, em nada diferia da carne de 
vaca.
Aps essa primeira aula de Anatomia, Agns foi desanuviar
para a Place de l'Opra. Sentou-se no Caf de =la Paix e 
pediu uma
tisana. O garon trouxe-lhe a chvena e o bule cheio, =Agns
108
perguntou quanto era e pegou na bolsa para tirar o dinheiro. 
Abriu =a malinha e viu uma coisa estranha junto ao porta-
moedas. Tocou e =sentiu-a macia. Pegou no inslito objecto, 
tirou-o da mala e, =horrorizada, o garon lvido a olh-la, 
constatou que era uma orelha decepada. Ergueu-se sem dizer 
palavra =e abandonou o caf perante o olhar boquiaberto do 
empregado, ia =furiosa com os colegas, gostaria de saber quem 
tinha sido o =engraadinho, havia brincadeiras que no se 
faziam.
Agns suportava com dificuldade as pavorosas aulas de 
Anatomia, =com as suas repugnantes dissecaes de cadveres 
=esquelticos e aquele permanente odor a formol, mas a parte 
=cientfica compensava largamente estes macabros 
inconvenientes, deixando-a apaixonada =pela Medicina. Os 
ltimos trinta anos tinham sido ricos em =importantes 
descobertas, com Pasteur a revelar o papel das bactrias =na 
proliferao das doenas e a desenvolver vacinas para as 
prevenir, Ivanowsky e Beijerinck a =descobrirem os vrus, 
Starling e Bayliss a detectarem a funo =das hormonas, 
Eijkman e Hopkins a determinarem a importncia das vitaminas 
e Bateson a compreender o funcionamento da =hereditariedade 
estabelecida pelas leis de Mendel.
Mas o que mais a intrigou foi o trabalho de Freud, que poucos 
anos =antes tinha revelado o estranho mundo do subconsciente, 
da sexualidade, =dos sonhos e da psicanlise. Agns ouviu 
pela primeira vez falar =de Freud durante uma palestra do 
professor Maillet num simpsio mdico sobre doenas da mente. 
Maillet =era um discpulo do clebre neurologista Jean 
Charcot. Na pausa =para o caf, a jovem estudante encheu-se 
de coragem e foi ter com o =palestrante.
"Professor Maillet", disse Agns. "Desculpe incomod-lo, mas 
=estive a ouvi-lo e achei curiosa a sua referncia quele 
mdico =austraco que usa a hipnose para curar os loucos. 
Isso funciona =mesmo?"
Maillet olhou-a com ar sobranceiro. Notando, porm, que a 
mulher =que o interpelava era jovem, e bonita por sinal, 
tornou-se imediatamente =solcito.
109
"Claro, minha cara mademoiselle. "
"Mas como  que descobriram isso? "
"Oh, no foi fcil, asseguro-lhe. Sabe, as doenas da =mente
sempre foram um mistrio para a medicina. Os doentes 
apareciam =com comportamentos estranhos e ns no sabamos o 
que
lhes fazer. Como poderamos diagnosticar-lhes um mal e =cur-
los se tinham o corpo perfeitamente saudvel? Era um 
=verdadeiro mistrio. "
"Foi ento que apareceu esse austraco...
"Bem, j havia estudos sobre psicologia e a neuroanatomia 
=constituiu um passo importante para percebermos o que se 
passa aqui
 nas nossas cabecinhas", disse, batendo com o indicador na 
testa.
"Mas no h dvida nenhuma de que o doutor Freud nos deu =uma
grande ajuda. Ele veio c a Paris e encontrou-se com o doutor
 Charcot, que foi meu mestre e tutor. O doutor Freud sentia-
se =muito
 frustrado porque no conseguia tratar os medos, as neuroses 
e =as
obsesses dos seus pacientes usando os conhecimentos e os 
=instrumentos habituais da medicina. Foi o doutor Charcot 
quem o ajudou
a estudar os sintomas da histeria. O doutor Freud inscreveu-
se no
curso do doutor Charcot, aqui em Paris, e aprendeu a tcnica 
da
hipnose, que aprofundou em Nancy com o doutor Bernheim. "
" isso que me deixa perplexa, professor Maillet", atalhou
Agns. "A hipnose funciona mesmo? "
"Claro que funciona. "
"Mas isso parece coisa de bruxaria ou nmero de circo.
"Pelo contrrio, minha cara mademoiselle,  um mtodo 
=perfeitamente legtimo para explorar os males da mente. 
Alis, =
muito usado aqui em Frana e a sua eficcia foi atestada pelo
doutor Freud. Usando a sugesto e a hipnose, o nosso amigo
austraco procura trazer  superfcie as experincias 
=traumticas
que a mente reprime. Sabe, o doutor Freud acredita que esses
traumas so uma espcie de pecado original, so a fonte de 
=muitas
doenas que no tm origem orgnica. O que ele fazia =era 
usar
a hipnose para revelar os traumas e trabalhar a mente no 
=subconsciente dos doentes. "
110
"Fazia?"
"Sim, parece que ele j abandonou o mtodo da hipnose. " "E 
=porqu, se  assim to eficaz? "
"Oh, isso no sei, ter de lhe perguntar a ele. "
Quando abandonou a palestra, Agns foi direita a uma das 
=livrarias de St. -Germain-des-Prs e perguntou por Freud. O 
empregado =estendeu-lhe um exemplar de Le rve et son 
interprtation, que =Agns levou para casa. A jovem no 
descansou enquanto no devorou o livro, percebendo ento por 
que =motivo Sigmund Freud abandonara a hipnose. Tinha 
descoberto um mtodo =melhor.
No ano seguinte, e nas pausas das deambulaes pelas mentes e 
=corpos humanos, Agns descobriu o seu prprio corpo. Ou 
melhor, =descobriu que era vaidosa. At aos vinte anos quem a 
vestia era a =me, e sempre com tal primor que a jovem se 
habituou a estar bem arranjada =sem nada fazer por isso. Mas 
Michelle no se encontrava em Paris, uma =cidade onde, para 
agravar as coisas, se exigia que as mulheres =acompanhassem 
as novidades da moda, ou no fosse aquela a capital mundial 
do estilo. Agns percebeu que teria =de fazer pela vida e 
guardou parte do dinheiro da mesada para comprar tecidos com 
os quais costurava vestidos =copiados da Vogue. Quando chegou 
de Lille usava um espartilho para lhe =apertar o corpo 
debaixo das suas melhores roupas. Estes coletes com =lminas 
metlicas, que os franceses designavam de corset, 
estreitavam-lhe =violentamente a cintura e projectavam os 
seios, desenhando uma silhueta =sensual, embora dolorosa.
Mas em Paris percebeu, com alvio, que os espartilhos tinham 
=cado em desuso. Havia j dois anos que a Vogue apontava 
para o orientalismo, e a grande novidade de 1911 =foi o 
aparecimento de calas para as senhoras. Os pantalons 
femininos =constituram um verdadeiro escndalo, que os 
estilistas atenuaram =ao coloc-los por baixo de saias. Agns 
no se atreveu a comprar calas =logo ao chegar a Paris, mas 
em 1912, quando entrou no segundo ano da =faculdade, encheu-
se de coragem e copiou um arrojado
111
modelo da vogue. Era um vestido oriental, branco e decorado 
com =cornucpias douradas, a saia estreita com uma racha 
lateral a revelar =subtilmente umas calas largas que 
apertavam no tornozelo, como as =calas de um turco. Munida 
dos modelos tirados da Vogue, Agns tornou-se =uma sensao 
na faculdade e depressa comearam a chover =convites 
masculinos para sair.
A flor tinha desabrochado, revelando uma mulher atraente, de 
=traos finos e elegantes, olhar doce e sorriso delicado. No 
era =de uma beleza espampanante, daquelas em que os homens 
viravam a =cabea quando viam a fmea opulenta entrar no caf 
e a con templavam com gula, salivando grotescamente, o desejo 
em =escaldante erupo. Os seus atractivos eram antes outros, 
mais =discretos e graciosos, tornava-se necessrio fixar-lhe 
o rosto para =lhe descobrir os sedutores olhos hipnticos, 
verdes e penetrantes, a que se juntavam as linhas perfeitas e 
os =lbios carnudos. Tratava-se de uma daquelas mulheres que 
no =despertavam uma imediata e animalesca volpia sexual, 
mas uma terna e =incurvel paixo platnica.
A maior parte dos convites destinavam- se a ir comer uns 
croissants =ao Stohrer, tomar um caf no Tortini ou dar um 
passeio pelas =Tulherias e pelas margens do Sena, o que lhe 
valeu alguns breves =namoricos e vrias decepes sem 
sequelas.
112
V
No havia na Carrachana rapaz mais alto do que Afonso. Quando 
=regressou de Braga, no Vero de 1906, o filho mais novo dos 
Laureanos =tinha apenas dezasseis anos, mas era j um 
rapago. A ementa do =refeitrio do seminrio, rica para os 
padres habituais naquele lugar de gente pobre e =despojada, 
contribuiu crucialmente para o desenvolvimento do seu corpo, 
=tornando-o to alto como o pai. Ao p do seu extraordinrio 
metro e setenta e sete, raro naquele tempo, muitas das 
pessoas com =quem se cruzava na rua pareciam uns anes 
mirrados, com as cabeas =a darem-lhe pelo pescoo.
Em casa pouco tinha mudado, mas j havia mais espao no 
=quarto. O Joo tinha-se casado, sara de casa dos pais e 
fora =viver com a mulher para um anexo em Rio Maior. 
Abandonara =a serrao e ganhava agora a vida como empregado 
num armazm de vinho. Afonso passou a dividir a cama do 
quarto da Carrachana com =Joaquim, que o recebeu com um 
agreste mau humor.
"Olha-me esta! Vens agora para aqui azucrinar-me o juzo! ", 
=protestou Joaquim com acidez quando viu o irmo mais novo 
arrumar =roupas numa gaveta que considerava sua.
113
" Joaquim, peo imensa desculpa, mas onde  que queres =que 
eu coloque as minhas coisas? "
"Peo imensa desculpa? ", riu-se o irmo com um esgar de 
=desprezo. "Ests mesmo armado em finrio, com essa conversa 
cheia =de salamaleques! Daqui a um bocado at dizes credo e 
valha-me Deus... ="
"Pois, mas onde  que eu ponho as minhas coisas? " "Sei l! 
=Olha, pe debaixo da cama. "
"Debaixo da cama? Desculpa l, mas eu tenho necessidade de 
uma =gaveta "
"Tenho necessidade? Mas tu s me vens com palavras de cinco 
mil =ris, caraas! V l se falas como gente, h? No me 
=apetece estar a dormir com um padre, ouviste? " Apontou-lhe 
para os =sapatos. "Olha-me s para esses ares de grande 
senhor, nem descalo s j capaz de =andar. At pareces 
rabicho! "
Joaquim era j um homem feito e foi com contrariedade que 
passou =a partilhar a velha cama de lato com o irmo mais 
novo. Os modos =polidos de Afonso contrastavam profundamente 
com os hbitos rudes da =casa. Alm do mais, Joaquim 
ressentia-se por no ter tido a mesma oportunidade =de 
educao. Aprendera a ler,  um facto, mas no passara da 
=primria e gastava agora a sua juventude na serrao. Era, 
por =isso, com ressentimento que via o irmo mais novo gozar 
de oportunidades que nunca lhe foram oferecidas e =seria 
preciso passar muito tempo para que ele aceitasse este novo 
Afonso =que inopinadamente lhe invadira o quarto.
Uma semana depois de se ter instalado na Carrachana, Afonso 
foi = Casa Pereira falar com dona Isilda. Queria agradecer-
lhe a ajuda e =explicar-lhe por que razo no fora bem 
sucedido no seminrio, =mas precisava tambm de trabalho e 
alimentava a secreta esperana de que a sua =protectora o 
contratasse de novo para trabalhar na loja. Ao entrar no 
=estabelecimento, deu de caras com Carolina e ficou 
atrapalhado.
"Ol, Afonso", saudou-o ela, com ar surpreendido por o ver 
ali.
114
"Bom dia", retorquiu ele desajeitadamente.
Carolina estava diferente. Crescera, tornara-se alta, os 
seios =firmes, o cabelo ruivo acastanhara ligeiramente e as 
sardas tornaram-se =menos protuberantes, mas no havia 
dvidas de que, embora no =fosse de arrasar, era uma 
rapariga atraente.
"J s padre? "
"No", engasgou-se. "Desisti, no tenho vocao" =Procurou 
detectar-lhe nos olhos uma reaco a esta notcia, mas 
=Carolina dissimulou bem e Afonso no conseguiu perceber se a 
novidade lhe agradara ou se a tinha realmente =deixado 
indiferente.
"Ento o que te traz por c? "
"Vim falar com a tua me. Ela est? "
Carolina levou-o  me, que conferia contas no seu gabinete. 
=Dona Isilda j tinha sido informada pelo irmo de que Afonso 
=recebera a carta de prego, mas no se sentia especialmente 
desapontada. Tinha patrocinado a ida do rapaz =para Braga 
como mero subterfgio para o afastar da filha. O objectivo 
=foi alcanado e s lhe restava agora mant-lo longe de 
Carolina. Quando Afonso indagou se haveria ainda lugar para 
=ele na loja, dona Isilda fez um ar apropriadamente triste e 
disse que o =negcio no ia l muito bem e no podia meter 
mais nenhum =empregado, pelo que lamentava no o poder ajudar 
desta vez.
"Um comerciante no tem corao", explicou-lhe ela. "A 
=prioridade  defender o negcio. As coisas andam mal e, se 
eu te =puser aqui, apenas vou agravar o prejuzo. Lamento, 
rapaz, desta vez =no te posso ajudar. "
Afonso ficou desapontado, mas ocultou a desiluso. Resignado, 
=agradeceu novamente toda a ajuda que dona Isilda lhe 
prestara e saiu do =gabinete.
"J te vais embora? ", lanou-lhe Carolina quando o viu 
=dirigir-se  porta.
Afonso fixou-lhe os olhos e apercebeu-se de que havia ali uma 
=perturbao, sentiu que ele ainda no lhe era indiferente.
"Vou dar um passeio. Queres vir? "
"Para onde? "
"Vamos ali ao rio, h muito tempo que no vou l. " =Carolina 
olhou em redor, indecisa. A empregada que estava ao balco 
=parecia desatenta, mais preocupada em limar as unhas, e a 
me =permanecia no gabinete. Decidiu-se num impulso.
"Anda. "
Caminharam distraidamente pelas ruas at Rio da Ponte, 
ficaram a =ouvir o agitado marulhar das guas frias e 
cristalinas do rio Maior e =subiram, naquela manh soalheira, 
at ao Moinho do Canto, o passeio revelou-se cansativo e o 
calor apertava, =mas Afonso sentia-se feliz. Apesar de ter 
sado do seminrio =contrariado e das incertezas quanto ao 
futuro, no fundo no lhe =desagradava estar livre dos 
montonos rituais que durante trs anos marcaram a sua vida. 
Por outro =lado, a presena de uma rapariga ao seu lado 
deixava-o inebriado. As =mulheres eram para ele um mistrio, 
fontes de pecado e =tentao, mas tambm de um bem -estar 
inexplicvel, agradava-lhe a tagarelice sem rumo e os 
silncios =embaraados, vivia a troca de olhares como um 
jogo, procurava =adivinhar intenes nos menores gestos e nas 
palavras mais simples =e descobria-se a dar e a dissimular 
sinais.
Nenhum dos dois era, porm, muito bom na arte da 
=dissimulao, ou talvez nenhum verdadeiramente o desejasse 
ser. =Caminhando pela estrada, Carolina encostou o ombro 
esquerdo a
Afonso, como quem no quer a coisa, os braos roando-se 
=repetidamente. Se fosse um ou dois toques, seriam 
acidentais. Mas o =roar permanente conferia intencionalidade 
ao gesto. O rapaz perdeu o =controlo de si mesmo a partir 
desse ponto, entrando num transe de =excitao, primeiro 
devagar, depois mais rpido. Comeou por =sentir o sangue a 
ferver, o corao a bombar, uma ereco a formar-se nas 
calas. Ela caminhava =encostada, sem dizer palavra, e ele 
no desencostava. Ofegante, =atreveu-se a procurar-lhe a mo 
com os dedos, sem olhar. Tocou-lhe na =mo e aguardou um 
instante, esperando para ver se ela a retiraria, mas a 
=verdade  que no retirou. As mos enlaaram-se e assim 
=caminharam, sempre em silncio, um turbilho de sentimentos 
a =revolver-lhes a cabea, o desejo a acumular-se como uma 
tempestade
116
que cresce no cu, a conter-se num volume imenso antes de 
=desabar em fria sobre a terra. Fizeram todo o passeio de 
regresso de =mos dadas. Ao aproximarem-se da Casa Pereira, 
Carolina desprendeu-se =finalmente.
"Amanh espera-me aqui na esquina, s dez da manh", =disse. 
Deu- lhe um beijo furtivo e correu para a loja. O namorico 
fora =reatado, mas no no ponto onde ficara quatro anos 
antes.  certo que Afonso, apesar dos apelos da carne, tinha 
ainda de vencer as =inibies herdadas dos anos do seminrio. 
Passou essa noite a =rezar, implorando  Virgem que o 
protegesse do desejo, da luxria =e do pecado. Quando 
adormeceu, porm, no foi na Virgem que pensou, mas na virgem 
que queria, tinha o =corpo maduro e fantasiou mil pecados nos 
quentes braos de Carolina.
Despertou ansioso e logo pela manh, muito antes da hora 
=combinada, foi a correr para a Casa Pereira. Aguardou pelas 
dez horas =com impacincia, nervoso, cheio de dvidas e 
hesitaes, a =alma aconselhando prudncia, a carne a tent-
lo, a acicat-lo. Quando Carolina apareceu finalmente, foram 
os dois =pela estrada fora, novamente de mo dada, desta 
feita no caminho das =salinas. Ao p do pinhal, Afonso puxou-
a para l da estrada, o =corao em pulgas, a excitao a 
domin-lo, as mos a tremer. Atiraram-se os dois para trs 
=de um arbusto. Afonso procurou por baixo das saias, puxou 
=atabalhoadamente as calcinhas, foi to desastrado que at as 
rasgou ligeiramente. Encaixou-se entre as pernas de Carolina, 
tirou =apressadamente as suas prprias calas e penetrou-a 
com ardor, =ambos ofegantes, tremendo de desejo, de volpia, 
de gemidos e suspiros. O corpo tomou conta de si, como um 
animal =incontrolvel, desencadeando movimentos rpidos e 
ritmados, =copulou-a at os olhos se encherem de estrelas e a 
carne explodir de =prazer.
Foi dona Alzira, vizinha de dona Isilda, quem deu a notcia  
=me da rapariga.
"Ento a sua Carolina j arranjou moo? ", perguntou =Alzira 
da varanda de casa enquanto estendia roupa ao sol. "Para 
quando = o casrio? "
117
Dona Isilda foi apanhada desprevenida e assustou-se. Ficou 
=plida e virou a cara para esconder a surpresa, mas no foi 
=suficientemente lesta. Alzira percebeu que tinha dado uma 
novidade  =vizinha e sorriu, maliciosa.
O que  facto  que, a partir da, a proprietria da =Casa 
Pereira manteve a filha debaixo de olho e bastaram apenas 
dois dias =para perceber quem era o pretendente. Ficou 
surpreendida, no por descobrir que se tratava de Afonso, mas 
por verificar que tinha =sido ingnua, por ter pensado que o 
caso estava arrumado, que os =quatro anos de separao tinham 
sido mais do que suficientes para =enterrar o assunto. Que 
parva fora! No conhecia ela porventura a filha? Que 
disparate lhe teria passado pela =cabea para ignorar a 
natureza teimosa da moa, natureza que ela, =feitas as 
contas, to bem conhecia?
Mas dona Isilda era uma mulher prtica e sabia que no valia 
=a pena perder tempo a recriminar-se, no era isso que iria 
resolver o =problema, o que ela precisava agora era de um bom 
plano. Ps-se a =matutar no assunto e concluiu, aps longa 
ponderao, que de nada serviria estar a impedir o 
=inevitvel, ela prpria tivera oposio dos pais quando 
=comeou a namorar o marido e no foi essa oposio que mais 
tarde inviabilizou o casamento. Pois se gostavam um do outro, 
=como poderia ela resolver o assunto? Claro que tinha a opo 
de =mandar a filha para casa dos primos em Lisboa, mas isso 
s serviria para ter aquela estouvada livre que nem um 
passarinho e sabe =Deus o que ela faria, longe da sua 
vigilncia, naquela terra de =marialvas e doidivanas. No, a 
soluo teria de ser outra. =Reflectiu um pouco mais. Afonso 
era sem dvida bom rapaz, pensou, o problema era ser pobre. 
Mas a verdade, =considerou ainda,  que recebera j alguma 
educao em =Braga, at sabia latim e falava lnguas 
estrangeiras, e isso fazia =dele um candidato mais 
interessante. Para poder casar com Carolina, contudo, era 
necessrio que =completasse a sua educao, precisava de 
atingir um estatuto de =cavalheiro e ter um ganha-po seguro. 
Chegada a este ponto no seu =raciocnio, dona Isilda comeou 
a formular novo plano. O rosto do primo Augusto, major
118
de artilharia no Exrcito, veio-lhe  mente. Decidiu 
=escrever-lhe, perguntando-lhe como poderia um moo de 
dezassete anos =tornar-se um oficial. A resposta veio na 
volta do correio:
Lisboa, 2 de Junho de 1907.
Cara Isilda,=20
Agradeo-te a carta com as novidades de Rio Maior. Ns por 
=c todos bem. A Odete anda com uma tosse aborrecida, mas o 
doutor diz =que no h problemas e vai-me passando umas 
frmulas que eu vou =buscar  pharmcia. Parece que os 
allemes tm uns medicamentos novos muito bons =para os 
pulmes. Os rapazes tm-lhe dado cabo da cabea e o que =vale 
 que o Andr j vai para o Lyceu do Reyno.
Tomo a liberdade de presumir que a dvida que me colocas 
sobre o =Exrcito significa que tens algum em mente. Para se 
ser official  necessrio frequentar a Escola do =Exrcito 
aqui em Lisboa. Para serem admittidos, os candidatos tm de 
ter approvao em =algumas disciplinas da Universidade ou da 
Escola Polytecnica, mas nada =de muito complicado. Tm de ter 
um attestado de bom comportamento, =uma certido de registo 
criminal da comarca e menos de 24 annos. Se frem =menores,  
necessria uma licena do pae ou tutor. A propina de 
=matricula anda entre os cinco mil e os seis mil ris. Existe 
=tambm um nmero limitado de vagas e os candidatos tm de 
ter qualidades physicas =adequadas para servirem como
officiaes, mas eu consigo resolver-te isso com uma palavra
junto do comandante da Escola, o general Sousa Telles, visita 
=frequente em casa do senhor meu pai.
C aguardo noticias tuas e manda um beijo  Carolina.
Saudades do
Augusto.
119
Dona Isilda tomou uma deciso logo que acabou de ler a carta. 
=Foi ter com Carolina, contou-lhe que sabia de tudo e mandou 
a filha =chamar o rapaz. Queria conversar com ele.
Afonso apareceu na Casa Pereira ao final da tarde e Carolina 
=introduziu-o nervosamente no gabinete da me. Informado de 
que dona =Isilda estava a par do namoro, teve dificuldade em 
olh-la nos olhos =e sentou-se acabrunhado na=20cadeira, 
torcendo os dedos no regao. No sabia o que dizer e ela 
=manteve um silncio pesado. S o quebrou quando ficaram a 
ss.
 "Que rico padre que me saste", comentou dona Isilda com 
=secura.
Afonso nada disse. Olhava para o cho, embaraado, com 
=vontade de se sumir dali. Sentia-se um traidor, algum que 
abusara da =confiana de quem o ajudara.
"Se bem entendi, ests a namorar a minha filha?" Sentindo que 
=era uma pergunta, o rapaz emitiu um grunhido de 
assentimento.
"E queres casar com ela?"
Afonso jamais pensara nisso, ficou at surpreendido por dona 
=Isilda levar a coisa to rpido e to longe, mas presumiu 
=naquele instante que seria de mau tom negar que tivesse 
propsitos honestos e voltou a assentir, desta vez com um 
silencioso =movimento de cabea.
"E pode saber-se como  que a tencionas sustentar? " Afonso 
=encolheu-se ainda mais na cadeira. No tinha resposta para 
esta =pergunta, nunca lhe ocorrera tal questo. Permaneceu 
calado e de olhos baixos, algumas gotas de aflito suor a 
=brotarem-lhe da fronte. Fez-se uma nova pausa pesada.
"Portanto, se bem entendo, no tens meios de a sustentar e 
=queres casar com ela", concluiu dona Isilda com um suspiro, 
como quem =diz que j calculava. Mais uma pausa. "Eu podia,  
claro, colocar-te na loja como empregado, sempre ganhavas 
alguma coisa, =mas isso no chega. Como quero o melhor para a 
minha filha, decidi =ajudar-te a completar os estudos de modo 
a teres meios para a =sustentares "
120
O rapaz ergueu a cabea, de olhos arregalados.
"Obrigado, dona Isilda", balbuciou.
"No me agradeas ainda", cortou a viva de forma =rspida. 
"Falei com um primo meu e h a possibilidade de =preencheres 
uma vaga na Escola do Exrcito. Para eu concordar com o 
=namoro, quero em troca que te inscrevas nessa escola e te 
formes oficial. "
"Mas isso  caro, dona Isilda. "
"No te preocupes com os custos, isso  um problema meu. O 
=que eu quero  que se acabem os namoricos com a Carolina 
enquanto =no fores oficial, no v acontecer uma desgraa. 
Quando =sares de l alferes, ento j estars em condies 
de namorar a minha filha. De acordo? "
Afonso olhou-a, indeciso.
"De acordo? ", insistiu a viva, pressionando-o.
" Quanto tempo dura o curso?"
"Ora deixa c ver. " Puxou de um folheto que o primo lhe 
tinha =mandado e consultou a tabela. "So dois anos para 
infantaria e =trs anos para artilharia. "
"Dois para infantaria? "
"Sim. "
" para a que vou. "
O acordo ficou fechado e dona Isilda, apressada, mandou 
=imediatamente Afonso para casa do primo Augusto, a pretexto 
de que o =jovem precisava de se preparar para a admisso na 
Escola do =Exrcito. Em bom rigor, o pretexto era verdadeiro. 
Afonso no tinha feito o liceu nem o politcnico e 
necessitava de obter =aprovao em algumas disciplinas, como 
Trigonometria Esfrica, =lgebra Superior, Desenho, Geometria 
Analytica e Geometria Descritiva, de =modo a preencher os 
requisitos curriculares necessrios para se =matricular em 
infantaria ou cavalaria.
O major Augusto Casimiro, o primo de dona Isilda, vivia num 
=apartamento de Belm com a mulher e dois filhos. Quando 
desembarcou =no Rossio, Afonso seguiu as indicaes 
manuscritas
121
pela me de Carolina e pediu ao cocheiro para o levar at = 
Rua Direita de Belm. Foi acolhido com simpatia pela famlia 
=Casimiro, que logo lhe arranjou explicadores para as 
disciplinas =em questo. O rapaz tinha menos de dois meses 
=para se preparar para os exames do politcnico, de maneira a 
conseguir os certificados que lhe permitiriam =ingressar na 
Escola do Exrcito, e empenhou-se com afinco nos =estudos. 
Sabia que no tinha mais opes e que esta era uma inesperada 
e preciosa segunda oportunidade. Se =falhasse, regressaria  
Carrachana e no lhe restaria alternativa =que no fosse 
seguir os passos do pai e ir trabalhar a terra l =para o 
Cidral ou ento voltar para a serrao onde permanecia o 
Joaquim a gastar a sua =juventude.
A mulher do major, dona Odete, devia ser tuberculosa porque 
tossia =horrivelmente. Afonso, imbudo de um esprito cristo 
que =ganhara no seminrio, desdobrava-se em esforos no 
sentido de a =ajudar. Ia muitas vezes  farmcia situada numa 
esquina da rua, o letreiro por cima das elegantes =cantarias 
das portas e janelas da fachada a anunciar "Laboratrio 
=Franco - Especialidades farmacuticas", para recolher os 
remdios =que o mdico receitava. Numa das visitas=20 
farmcia reparou numa fotografia de uma equipa de football 
=colada  parede.
"Quem so? ", indagou junto do empregado enquanto esperava 
que =lhe aviassem a receita.
O homem sorriu.
" o Grupo Sport Lisboa", disse com orgulho. " o team onde 
=eu jogo. "
"Voc joga football? "
"Todos os domingos", exclamou, apontando de seguida para o 
outro =funcionrio da farmcia. "Eu, aqui o Daniel e at o 
senhor =conde "
O conde era Pedro Franco, conde do Restelo e o dono do 
=Laboratrio Franco.
"Como  que se chama mesmo a equipa? "
" homem,  o Sport Lisboa, nunca ouviu falar? " "No. "
122
"J vi que no gosta de football. "
"Pelo contrrio, gosto muito. "
" Gosta de football e nunca ouviu falar no Sport Lisboa?"
"Eu no. "
"Caramba, homem, vossemec anda distrado. "
"Sabe, eu no sou de Lisboa, cheguei h pouco tempo. " "Ah, 
=bom", exclamou o empregado. "O Grupo Sport Lisboa nasceu 
nesta =farmcia h uns trs anos.  um club formado por 
rapaziada aqui da rua, os manos Catataus, os =Carrilhos e os 
Monteiros, tudo pessoal que vive aqui e que se juntou = 
malta que era da Casa Pia "
"E jogam bem? "
"Se jogamos bem? ", riu-se o empregado. " homem, vossemec 
=anda mesmo no mundo da Lua! Ns no ano passado ficmos em 
segundo =lugar no primeiro Campeonato de Lisboa. Segundo 
lugar, ouviu?  nossa =frente s o Carcavellos Club e atrs 
ficaram o Lisbon Cricket e o CIF dos irmos Pinto Basto. "
"Ah ? Vocs jogam com o Carcavellos Club? ", perguntou 
=Afonso, agora genuinamente impressionado.
J no tempo do Club Lisbonense o Carcavellos Club era a 
equipa =mais temvel que havia, formada por ingleses do cabo 
submarino. Se o =team do empregado da farmcia jogava com o 
Carcavellos Club, =raciocinou Afonso,  porque devia ser 
realmente muito bom.
"Somos vice-campees de Lisboa", repetiu o homem com 
incontido =orgulho.
"Posso ver os vossos jogos? "
"Este domingo, se quiser. Vamos defrontar o Cruz Negra em 
match =amigvel. O Campeonato s comea no Outono. "
" E onde  isso?"
"Aqui ao lado, nas Salsias, aquele campo ao lado do quartel. 
=s trs e meia da tarde. "
Afonso no faltou ao encontro. Eram trs da tarde de domingo 
=e j abancara nas Salsias, um descampado rodeado de casas e
123
que pertencia a um quartel de cavalaria, de resto as 
cavalarias =estavam alinhadas ao fundo, do outro lado via-se 
o Tejo a deslizar =preguiosamente para o mar. Havia j uma 
pequena multido a aglomerar-se em torno do campo de terra 
batida, observando alguns =jogadores que treinavam junto a 
balizas improvisadas. Uns vestiam =camisas verdes com uma 
cruz negra bordada ao peito, outros =apresentavam-se de 
camisolas vermelhas e cales brancos, entre eles os dois 
empregados do Laboratrio Franco. =Afonso no teve 
dificuldades em perceber que os primeiros pertenciam =ao Cruz 
Negra e os segundos ao Grupo Sport Lisboa. Ao fim de meia 
hora, =um homem de calas, gravata e colete chamou os 
captains das duas equipas e os trs =fizeram a escolha do 
campo e da bola. Era o referee.
O match comeou instantes mais tarde, empolgante. A multido 
=animou-se, soltando "aaaaah" sempre que havia um remate  
baliza. =Pela diferena de intensidade dos clamores quando o 
perigo ocorria numa baliza ou =noutra, Afonso percebeu que o 
Sport Lisboa colhia a maior parte da simpatia dos 
espectadores domingueiros. A certa =altura, um jogador do 
Cruz Negra caiu perto da baliza do Sport Lisboa e =o referee 
assinalou penalty. Alguns espectadores no se conformaram e 
entraram no campo a correr para pedirem =satisfaes ao juiz, 
tudo com tal exaltao que tiveram de ser os jogadores a 
protegerem o homem. Quando a calma =foi restabelecida, um 
atleta do Cruz Negra apontou o penalty e marcou =goal. Os 
espectadores reagiram com frieza, em vez do "aaaaah" excitado 
=ouviu-se um "oooooh" desapontado. O jogo recomeou e, a dada 
altura, a bola =saiu do campo. Um dos espectadores agarrou na 
bola e fugiu por ali fora. =Dois jogadores de vermelho foram 
a correr atrs dele e conseguiram =recuperar o esfrico. A 
partida foi reatada e, pouco depois, uma exploso de alegria 
=assinalou a igualdade restabelecida pelo Sport Lisboa. Os 
vermelhos =acabaram por ganhar o match por 3-1 e a multido 
dispersou, =satisfeita.
Afonso ficou ainda a ver os jogadores a despirem-se num canto 
do =campo e a lavarem-se em alguidares. Um rapazinho ia
124
com um balde buscar gua a um poo e despejava-a sobre os 
=atletas. O jovem espectador sorriu perante o espectculo e 
abandonou =calmamente as Salsias, voltando a casa e aos 
exerccios de =lgebra superior.
Durante dois meses foi esta a vida de Afonso. Ao longo da 
semana =estudava com os explicadores pagos por dona Isilda e 
ao domingo ia ver o =Grupo Sport Lisboa brilhar nas Salsias, 
em Alcntara ou no Lisbon =Cricket Club. Chegou at a 
participar em alguns treinos, quando faltavam jogadores para 
=completarem duas equipas, mas escasseava-lhe o talento e a 
=preparao fsica para acompanhar o ritmo dos titulares. 
Esta =vida durou at princpios de Agosto, altura em que 
chegou a hora de ir  Academia =Politcnica prestar provas.
Os exames correram bem e, em alguns dias, Afonso tinha na mo 
os =cinco certificados de que precisava. O major Augusto 
Casimiro levou-o = Escola do Exrcito, situada no stio da 
Bemposta, ou Pao =da Rainha, onde entregou todos os 
documentos e certificados exigidos e pagou os mais de cinco 
=mil ris de propina de matrcula para infantaria. Afonso 
teve =ainda de fazer exerccios fsicos de modo a determinar 
a sua =aptido para enfrentar os rigores dos treinos 
militares, um teste que superou =com espantosa facilidade. O 
seu porte atltico imps-se, mais =ainda porque a sua 
frequente participao nos treinos do Sport Lisboa o colocou 
em apuro de forma. O major =Casimiro ainda chegou a dar uma 
palavra ao general Sousa Telles para facilitar discretamente 
as coisas, uma vez que havia mais candidatos do =que vagas, 
mas a cunha veio a revelar-se desnecessria. A 31 de =Agosto, 
a lista dos candidatos seleccionados foi afixada no trio da 
=Escola e Afonso viu o seu nome includo. Sentiu um peso 
libertar-se-lhe dos ombros e uma lufada de ar puro =encher-
lhe os pulmes. Sabia que um fracasso teria consequncias 
=penosas na sua vida, pelo que foi com grande alvio que se 
viu =matriculado na Escola do Exrcito.
As aulas s comeavam no Outono e Afonso foi gozar Setembro 
= Carrachana. Avisada da presena do rapaz, dona Isilda
125
manteve Carolina fechada a sete chaves =em casa. A viva 
argumentava que os =acordos eram para cumprir e no queria c 
namoricos enquanto o pretendente no tirasse o curso de 
guerra =que lhe abriria as portas do oficialato, no fosse o 
diabo =tec-las e a rapariga aparecer prenha. Mas dona Isilda 
no fugiu =s suas responsabilidades de protectora e 
financiou a confeco, na =alfaiataria do Ulpio Brazo, da 
farda de primeiro-sargento cadete =para Afonso, um uniforme 
obrigatrio para todos os jovens que =frequentavam a Escola 
do Exrcito.
Afonso regressou a Lisboa na quinta- feira, 24 de Outubro. 
=Apresentou-se na secretaria da Escola e fez, dias depois, o 
juramento de =fidelidade, requisito imprescindvel para poder 
prestar servio =nos corpos do Exrcito. A partir desse 
instante estava integrado na Escola do Exrcito =e, pormenor 
estranho para quem tinha sido forado a pagar uma propina =de 
matrcula, passou a ganhar um soldo de trezentos ris por 
dia.
Um sargento conduziu-o, a ele e a mais uns quantos que se 
tinham =igualmente apresentado nesse dia, at  parada do 
internato da =Escola, um grande largo em terra batida rodeado 
de edifcios cor-de-rosa-claro de dois pisos, grandes olmos a 
erguerem-se ao =fundo para l do muro, a bandeira azul e 
branca de Portugal hasteada =num mastro, no outro o 
estandarte da Escola do Exrcito, as armas portuguesas em 
cada canto cercadas por dois ramos de =loureiro. Levaram- nos 
at ao edifcio central do lado esquerdo e, =quando Afonso 
entrou, percebeu que, mais do que um dormitrio, aquele =era 
um verdadeiro armazm de cadetes. Havia beliches  esquerda e 
 direita num espao =amplo e sem compartimentos, contados 
eram cinquenta beliches de cada =lado, cem ao todo, lenis 
brancos assentes em madeira ordinria, nada que ofendesse o 
rapaz da Carrachana, habituado a pior na cama =de lato que 
durante anos partilhou com os irmos. O sargento =indicou-
lhes as suas camas, deu-lhes as chaves dos cacifos e ordenou 
que tirassem as roupas =civis e passassem, a partir da, a 
usar apenas a farda regulamentar.
126
Afonso despiu-se junto ao cacifo, os ps assentes no soalho 
frio =de azulejos, e colocou a farda que apenas experimentara 
no alfaiate de =Rio Maior. Vestiu as calas cinzentas e a 
camisa interior, calou =os sapatos e meteu-se dentro da jia 
do uniforme, o dlman. Era um vistoso casaco azul, abotoado 
=verticalmente a meio do peito com seis botes de metal 
amarelo, as =abas ligeiramente arredondadas na frente, a gola 
de vermelho-vivo com o =emblema dourado da Escola, as divisas 
de primeiro- sargento bordadas a =encarnado nas mangas e uma 
bandoleira branca a cruzar-lhe o peito e a =segurar uma 
cartucheira  anca. Na cabea, o barrete azul. Quando todos 
terminaram de se fardarem, o sargento =conduziu-os para fora 
do dormitrio at  parada e ensinou-lhes =os movimentos que 
teriam diariamente de seguir durante a cerimnia de 
=formatura do almoo. Depois, os cadetes entregaram ao 
sargento os seus pratos e talheres, =devidamente numerados, 
para serem levados para o refeitrio. O prato =e os talheres 
de Afonso estavam marcados com o nmero 190, e os cadetes 
foram informados do lugar que teriam de ocupar no 
=refeitrio.
A cerimnia comeou ao meio-dia e meia. O sargento apareceu 
=pouco antes na parada e mandou os cadetes formarem =em 
sentido. Afonso e os restantes novatos ficaram numa das 
=pontas. Ao meio-dia em ponto, o comandante do corpo de 
alunos saiu do =seu gabinete e entrou na parada. Era o 
coronel Leito de Barros, um =sexagenrio barrigudo, o cabelo 
grisalho puxado para trs, um bigode espesso =e pontiagudo e 
fortes arcadas supraciliares. O comandante colocou-se =frente 
aos cadetes em sentido e fez sinal ao sargento.
"Direita, volver! ", gritou o sargento.
Os cadetes giraram para a direita e Afonso, atento ao 
movimento, =acompanhou-os. Ficaram em sentido, voltados para 
as bandeiras e os olmos =que se erguiam para l do muro.
"Ordinrio, marche! ", voltou a gritar o sargento, o vozeiro 
=a encher a parada.
Um punhado de homens da fanfarra do Exrcito comeou a tocar 
=enquanto os cadetes marchavam em passo militar, circulando 
em redor da =parada at voltarem ao ponto de partida. Tudo
127
aquilo era novidade para Afonso, que se divertia por se ver 
naquela =figura. O sargento deu ordem de que a cerimnia 
estava terminada e os =cadetes destroaram e correram 
rapidamente para o edifcio atrs de si, exactamente no lado 
da parada oposto aos dormitrios. Afonso =entrou no grande 
salo e viu duas enormes mesas em fila de cada lado, =era o 
refeitrio. Os cadetes dirigiram-se s mesas e aguardaram em 
=p atrs das cadeiras. O coronel Leito de Barros entrou no 
refeitrio e, =nesse instante, o sargento voltou a gritar uma 
ordem.
"Ateno, sentido "
Ficaram todos muito hirtos.
"Meu coronel, d licena que mande sentar? ", perguntou o 
=sargento em voz baixa.
"Sim senhor, mande sentar. "
O sargento deu a ordem e os cadetes tomaram os seus lugares. 
Afonso =reconheceu o nmero 190 marcado no prato e nos 
talheres  sua =frente e no pde deixar de admirar aquele 
pormenor da =organizao militar. O rancho foi servido de 
imediato. Os empregados trouxeram =carneiro guisado com 
batatas, gua e vinho tinto. No estava mal =confeccionado, o 
que Afonso achou surpreendente. Para sobremesa, caf =com 
leite e po.
Durou poucos dias esta fase de adaptao. O ano lectivo 
=comeava a 30 de Outubro e adivinhava-se um grande 
acontecimento. Sua =Majestade, El-Rei D. Carlos, vinha 
presidir  sesso pblica da =abertura solene e a Escola do 
Exrcito esmerou-se para a importante ocasio. Afonso nunca 
tinha visto =Sua Alteza Real em carne e osso e ardia de 
curiosidade de observar pela =primeira vez o monarca, o homem 
mais importante do pas, aquele que =tinha poder de vida ou 
de morte sobre todos e cada um.
Na manh do grande dia, os cadetes formaram em quatro 
companhias =perante o porto de entrada da Escola, no Pao da 
Rainha, dando a =direita ao muro da parada. A banda de msica 
de infantaria =encontrava-se agregada ao batalho, enquanto 
uma companhia de Infantaria 16 formava a guarda de honra, 
=tambm
128
com uma banda de msica. Uma bateria de seis peas de 
=Artilharia 1 tinha sido instalada no campu de exerccios da 
Escola, =preparada para as salvas do estilo. A espera foi 
demorada, com o corunel =Leito de Barros e os sargentos a 
inspeccionarem inmeras vezes os =cadetes, o nervosismo 
patente em cada um.
Pelas dez da manh, a cavalaria irrompeu com grande 
espalhafato =pela Rua Gomes Freire e invadiu o Pao da 
Rainha, anunciando a =chegada do rei, e um automvel negro 
apareceu de seguida e foi =imobilizar-se diante do Palcio da 
Bemposta. Estavam todos em sentido e Afonso nunca vira carro 
=to grande, dava certamente para cinco pessoas se instalarem 
nele. As =duas bandas comearam a tocar com estrondo, um 
tapete vermelho foi imediatamente estendido pelo =passeio, o 
general Sousa Telles emergiu da Escola e fez continncia 
=para o automvel, o coronel Leito de Barros ao lado, todos 
de =uniforme de gala. As peas de artilharia dispararam as 
salvas do estilo. A porta do automvel =abriu-se e saiu de l 
um vulto, os oficiais curvaram-se numa vnia, D. Carlos pisou 
o passeio, era um homem gordo por baixo do uniforme 
=engalanado, um bigode loiro a ornar- lhe a face bolachuda. 
Ouviram-se =palmas e o rei acenou para o passeio contrrio 
com um sorriso forado, saudando as mulheres dos oficiais que 
se aglomeravam na rua e nas =varandas a exibirem os seus 
melhores vestidos domingueiros e de =guarda-sis de estilo 
parisiense nas mos, meros adornos naquele dia cinzento. 
Abriram-se alas por entre a guarda de honra e D. Carlos 
=entrou na Escola do Exrcito, o general Sousa Telles sempre 
ao seu =lado a indicar-lhe o caminho e o resto do squito no 
encalo.
"Ser verdade o que dizem dele? ", perguntou Afonso, num 
=sussurro, ao Mascarenhas, o cadete que aguardava ao seu lado 
e com quem =j travara amizade.
" Que ele  impotente?"
"No, que ele  cornudo. "
"Sei l", devolveu Mascarenhas com uma careta. "J ouvi tanta 
=coisa. Impotente, cornudo, fornicador, louco. No sei se  
=verdade, mas olha que no h fumo sem fogo. "
129
"Pelo menos comilo  ele", concluiu o de Rio Maior. ="Viste-
lhe a pana? "
Afonso e os cadetes permaneceram duas horas na rua, 
aguardando =impacientemente o fim da cerimnia solene que se 
desenrolava no =salo nobre do primeiro andar. Por volta do 
meio-dia, o rebolio =regressou ao Pao da Rainha, as bandas 
recomearam a tocar, el-rei reapareceu no passeio, despediu-
se dos oficiais, =acenou s damas e donzelas, meteu-se no 
carro, as peas de =artilharia foram dispensadas das 
habituais salvas do estilo e o =automvel arrancou no meio de 
um pandemnio infernal de cascos de cavalo a ecoarem pelo 
largo, levando consigo o =ruidoso squito da cavalaria.
Com esta cerimnia comeou o ano lectivo. Afonso habituou-se 
= rotina de acordar s seis da manh, ir tomar um =pequeno-
almoo de caf e bolachas e comparecer nas salas para as 
=aulas. Comeava s segundas-feiras, pelas sete da manh, com 
Esgrima, seguindo- se =s oito e meia a classe de 
Escriturao e depois, pelas onze, =Topographia. Ao meio-dia 
e meia era o almoo e  uma da tarde =vinha a aula de 
Fortificao Passageira, onde aprendia os trabalhos de 
bivaque e acampamento, mais =as comunicaes mi litares e as 
aplicaes de fotografia na =guerra. No eram matrias to 
estimulantes como as suas =conversas com o padre Nunes=20em 
Teologia Dogmtica, mas Afonso =esforou-se por encontrar 
interesse nos novos assuntos que tinha de =estudar. Aps as 
aulas, o resto da tarde ficava livre e, depois do jantar, os 
=cadetes seguiam para o dormitrio, onde s nove da noite, 
=terminada uma rpida e frugal ceia, j estava tudo ferrado a 
=dormir.
As aulas do primeiro ano de infantaria eram comuns s de 
=cavalaria. Ao longo da semana, de segunda a sbado, os 
cadetes =passavam o tempo em vrias disciplinas, como 
Instruco de =Tiro, Gymnstica, Administrao e 
Contabilidade, Tctica de Infantaria e Cavallaria, Equitao, 
Balstica =Elementar e Organizao dos Exrcitos. Na carreira 
de tiro =adquirira particular destreza com a Mauser 
Vergueiro, a carabina que tinha uma culatra =tipo Mauser que 
o coronel Vergueiro modificara trs anos antes, =adaptando-a
130
aos braos curtos do soldado portugus. Os braos de =Afonso 
eram, na verdade, longos, mas revelava-se capaz de fazer 
=maravilhas com aquela arma. Outra disciplina considerada 
importante =pelos oficiais era Hygiene Militar, ministrada 
por um mdico que defendia a estranha tese de que se devia 
tomar banho uma vez =por ms e at, quando chegava o calor, 
uma vez por semana. Os =cadetes riram-se com o exagero, tanto 
banho fazia mal  pele e era =pouco saudvel, mas o riso 
transformou-se em irritao quando se viram =obrigados a 
sujeitarem-se periodicamente a to radical =experincia.
As aulas e os exerccios abriam aos cadetes um apetite voraz. 
O =problema  que os pratos dos almoos eram repetitivos. 
Variavam entre a fressura de porco com arroz, o =bife com 
batatas fritas e o bacalhau guisado com batatas. Os jantares 
=eram mais diversificados, com peixe cozido, vitela assada, 
cabea de =porco com feijo branco e hortalia e peixe frito 
com batatas, enriquecidos pelas sopas variadas, como a =sopa 
de arroz com gro, a sopa de feijo branco e a sopa de massa, 
=mais as saladas de brcolos ou de feijo verde e o po. J a 
=ceia limitava-se a ch e po com manteiga para confortar o 
estmago durante a noite.
Os domingos eram dias livres. Afonso comeava-os na capela da 
=Escola, celebrando a missa dominical, e  tarde procurava 
outras =distraces. Por vezes visitava o Animatgrafo do 
Rossio ou o =Chiado Terrasse para ver uma pelcula, brilhavam 
ento nas telas lisboetas as fitas de Mlis e =as produes 
Path, embora as principais atraces fossem =as mirabolantes 
representaes de Max Linder. Outras vezes ia  =Rua da Palma 
assistir s comdias que passavam no Theatro do Prncipe Real 
ou procurava a Rua Nova =da Trindade para se divertir com os 
festivais de gargalhada no Theatro =do Gymnasio ou no Theatro 
da Trindade. Passava noites com os amigos nos =cafs-
concertos da Cervejaria Jansen, na Rua do Alecrim, ou ento 
ia para =a Avenida da Liberdade ver os nobres de charuto e 
cartola a entrarem no =Grande Casino de Paris para esbanjarem 
vrios contos de ris. =Quando desejava outro tipo de 
emoes, apanhava um tramway at Sete Rios e
131
seguia de elctrico por Bemfica para ir cirandar pela Quinta 
das =Laranjeiras, onde por cem ris se deleitava com as 
sensaes =produzidas pela viso das feras expostas no jardim 
zoolgico.
Na maior parte dos casos, porm, preferia ir assistir aos 
jogos =do Grupo Sport Lisboa. O Campeonato comeou nesse 
Outono e as =partidas eram muito disputadas, com a equipa de 
vermelho e branco a =medir foras com o sempre poderoso 
Carcavellos Club, mais o Lisbon Cricket, o CIF, =o Cruz Negra 
e o recm-inscrito Sporting Club de Portugal. Nas =conversas 
com os empregados do Laboratrio Franco, Afonso apercebeu-se 
de um grande ressentimento dos jogadores =do Sport Lisboa em 
relao a este Sporting Club, uma antipatia que =tinha origem 
numa operao de seduo efectuada recentemente =pelo novo 
club aos melhores players vermelhos. Ao contrrio do Grupo 
Sport Lisboa, =um club de Belm em que os jogadores andavam 
com o balnerio s costas e se lavavam na rua, o Sporting 
Club tinha o apoio de gente =endinheirada, incluindo o 
abastado visconde de Alvalade, que ergueu um =moderno campo 
com balnerios e vestirios na antiga Quinta das =Mouras, 
coisa de luxo s vista nos stadiums ingleses. Cansados das 
ms condies em que =jogavam e treinavam, os grandes players 
do Sport Lisboa, talvez os =melhores do pas, aceitaram um 
convite para irem para o Sporting Club. Eram, ao todo, oito 
=players, incluindo dois dos irmos Catataus, e esta sangria 
de =talento quase deu cabo do Sport Lisboa. Foi, por isso, 
com imensa =dificuldade que o club da guia se inscreveu no 
segundo Campeonato de Lisboa numa altura em que =todos o 
davam como acabado.
O football comeou gradualmente a entrar na vida dos cadetes, 
=que adoravam tudo o que era jogo. O ambiente entre eles era 
divertido, =animado por outros jogos que, por vezes, roavam 
uma infantilidade =boal.  noite, Afonso ficava a ver os 
companheiros a disputarem o chamado ="campeonato dos peidos", 
competindo por entre gargalhadas no concurso da =aerofagia 
mais ruidosa ou, em alternativa quando era servido feijo =ao 
jantar, na mais malcheirosa. Antes de libertarem uma exploso 
de gs intestinal,=20
132
alguns imitavam a voz dos instrutores de artilharia e 
gritavam ="fogo  pea! ", seguindo-se a inevitvel descarga 
=aerofgica. Este foi um jogo no qual nunca Afonso 
participou, a sua =educao no seminrio permanecia presente 
nestes pormenores, ao ponto de o terem alcunhado =de 
Aprumadinho.
" Aprumadinho! ", chamavam-no por vezes. "J viste que s =o 
nico gajo que aqui est que no d peidos nem diz 
=palavres, caraas?"
Embora no participasse nestes jogos, seguia as =competies 
com muita ateno e depressa percebeu que tudo =servia aos 
cadetes para se disputarem. Comparavam o rudo dos arrotos =e 
at o tamanho dos pnis, mas aqui os mais fracos depressa 
aprenderam a ter tento na =lngua porque no convinha 
competirem com os cadetes mais =encorpados, os matules nem 
sempre eram os mais avantajados e =mostravam-se 
hipersensveis quando algum menos avisado lhes chamava a 
ateno para esse pequeno pormenor, =sobretudo quando 
comparados com alguns lingrinhas que se revelavam mais =bem 
equipados.
Um tema permanente de conversa eram "as gajas". O quartel 
tinha um =ambiente integralmente masculino e, como era 
normal, as sadas de =domingo destinavam-se sobretudo a irem 
mirar as raparigas. Alguns =cadetes evitavam a missa na 
capela da Escola e preferiam antes visitar as igrejas civis. 
O seu =nico fito era, claro, o de irem ver as moas, a quem 
faziam =sinais discretos durante a liturgia. Vrias raparigas 
ficavam encantadas com as fardas e acediam a passear com =os 
cadetes aps obterem a devida autorizao dos pais, alguns 
=dos quais, pobres ingnuos, acreditavam sinceramente que 
aqueles =vistosos uniformes eram, por si s, garantia 
suficiente de que quem os vestia s podia ser um =verdadeiro 
cavalheiro.
Como  natural, Afonso arranjou o seu grupo de amigos, entre 
os =quais se destacava Cesrio Trindade, um lisboeta 
desajeitado, filho =de um general reformado antecipadamente 
por causa das suas ideias =republicanas. Trindade tornara-se 
famoso desde que
133
despejara com um espirro uma virulenta carga verdejante de 
=corrimento nasal sobre o professor de Balstica Elementar. 
Os colegas =gracejaram com o incidente, considerando aquele 
espirro uma verdadeira =lio elementar de balstica, e desde 
essa altura o Trindade passou a ser conhecido por =Ranhoso.
O que aproximou os dois rapazes foi o prazer intelectual, uma 
vez =que ambos eram os nicos cadetes apaixonados pela 
filusofia. Mas o =Ranhoso era um radical, defendendo ideias 
que chocavam com os valores =que Afonso adquirira no 
seminrio.
"Hegel e Nietzsche so os meus filsofos favoritos", anunciou 
=Trindade certo dia, estavam ambos a saborear no ptio o sol 
do =Outono.
"Ah ? Porqu? "
"Porque no confundem realidade com desejo e so os nicos 
=cujos ensinamentos so teis para a nossa carreira militar. 
"
"Ah sim? ", admirou-se Afonso. "teis em que sentido? " 
="Homessa, ento no os leste? "
 " Ler, li, mas no li tudo, no ? No faltava mais =nada... 
"Olha, o Hegel constatou que a guerra ajuda-nos a compreender 
=que as coisas triviais, como os bens materiais e a vida das 
pessoas, =valem pouco. Ele escreveu que  atravs da guerra 
que se preserva a sade dos povos. Fascinante, no? "
"Ests parvo? A guerra vai contra os ensinamentos divinos 
contra =um dos principais mandamentos, no matars. O que  
que isso =tem de fascinante? "
" Aprumadinho, ests a reinar comigo ou qu? Quais 
=ensinamentos divinos? Ento as cruzadas obedeceram a que 
ensinamentos ="
"Deus disse: No matars! "
"Arre! At pareces um padreco a falar na catequese. A guerra, 
=para tua informao,  o principal catalisador da disciplina 
=humana. Plato e Aristteles, por exemplo, fartavam-se de 
elogiar Esparta, admiravam a sua =austeridade, a rigorosa 
disciplina e aquela cultura de combate ao =egosmo. E donde  
que pensas que esses valores do rigor vieram, =h? Da 
permanente prontido dos
134
espartanos para a guerra, claro. A guerra, quer queiras, quer 
=no, tem efeitos benficos para quem se envolve nela, os 
valores =marciais podem ser positivos para a sociedade... "
"E podem destru-la", atalhou Afonso. "Deixa-te de parvoces, 
= Ranhoso. Embora Hegel tenha realmente enumerado algumas 
vantagens =da guerra, ele nunca fez a sua apologia, nunca 
disse que  bom estar =em guerra. "
"Desculpa, mas isso est implcito no que ele escreveu. Vai 
=ler. Alis, o prprio Moltke criticou a paz, denunciando as 
suas =falsas virtudes. "
"Moltke? Olha,  boa, nunca ouvi falar desse.  um =discpulo 
de Hegel, ? "
Trindade riu-se.
" Aprumadinho, ento no sabes quem  o Moltke? " =Abanou a 
cabea. "No admira que digas esses disparates todos. =Podes 
ter muita cultura filosfica, isso no contesto, mas a tua 
=bagagem de histria militar, desculpa que te diga, deixa 
muito a desejar. O Moltke, meu =caro, foi o general prussiano 
que invadiu a Frana em 1870. Um grande =general, se queres a 
minha opinio. "
"Pois fica sabendo que  a primeira vez que ouo falar nesse 
=gajo. "
"J percebi. Pois o Moltke no era um tipo de meias-tintas, 
=dizia o que muitos pensavam mas no se atreviam a enunciar. 
Vai =da, denunciou a paz, dizendo que a paz duradoura no 
passa de um =sonho, ainda para mais um sonho desagradvel. 
Foi ele quem notou uma evidncia de que ningum quer falar, a 
=de que a guerra  uma parte necessria da ordem de Deus. "
" Ranhoso, e tu acreditas nisso? "
"Ento no hei-de acreditar? Olha para a histria, Afonso, 
=olha para o nosso passado. O que vs? Guerras, sempre 
guerras. Isso =s pode significar uma coisa, que as guerras 
fazem parte da nossa =humanidade, da nossa natureza, so um 
mal necessrio e vo sempre existir. O Moltke e o Hegel  
=que tm razo, podes crer. "
135
"Podia citar-te outros autores que dizem exactamente o 
=contrrio. "
" Por exemplo "
"Por exemplo, o general Fortunato Jos Barreiros. " Era um 
=antigo comandante da Escola do Exrcito, autor do Ensaio 
sobre os =Principios Geraes da Strategia e de Grande Tactica. 
"Ele considera a =guerra o maior flagelo que uma nao pode 
sofrer, sendo conveniente abrevi-la o mais possvel. "
"O Barreiros est ultrapassado. "
"H ainda o Voltaire e o Adam Smith, que dizem que a guerra  
=o resultado de leis erradas, falsas percepes e interesses 
=ocultos. "
"Lricos. "
Afonso suspirou, resignado.
"Olha, Ranhoso, s espero que no haja nenhuma guerra que te 
=faa engolir essas tuas ideias. "
"E eu, Aprumadinho, espero que haja uma guerra para tu veres 
se =tenho ou no razo. " Ergueu o indicador direito e 
adoptou um tom =professoral, pomposo. "So as guerras que 
fazem os grandes homens. =Olha para o duque de Wellington, 
olha para Napoleo, olha para Afonso Henriques. Todos eles 
grandes homens, todos eles =homens de guerra. Mata um homem 
por dinheiro e s um criminoso. Mata =mil homens por uma 
ideia e s um grande gnio. So assim as =coisas. O prprio 
Nietzsche admitiu que o colapso da nossa civilizao  um 
=pequeno preo a pagar para que tenhamos gnios como 
Napoleo. =Nietzsche, meu caro Aprumadinho, observou que a 
infelicidade das pessoas =insignificantes de nada vale a no 
ser nos sentimentos dos poderosos, a crueldade 
espiritualizada e =intensificada  a mais elevada forma de 
cultura. "
"O Nietzsche  parvo. "
"No, Afonso. O Nietzsche  um gnio "
Os choques intelectuais com Trindade criavam em Afonso um 
=sentimento ambivalente. Por um lado, adorava o duelo de 
ideias, o prazer =da discusso filosfica, a descoberta de 
novos caminhos, a =explorao de conceitos diferentes, a 
revelao de novidades.
136
Mas, por outru, debatia-se com um contraditrio sentimento de 
=fascnio horrorizado, descobria-se seduzido por aquelas 
ideias to =radicais e agressivas e, ao mesmo tempo, 
atemorizado por alimentar essa =atraco, experimentava uma 
repulsa moral em relao aos valores to =antagnicos 
daqueles que adquirira no seminrio, intua que o =amigo 
despertava em si uma racionalidade animal que s a fora da 
vontade moral podia reprimir. Por isso mesmo, apenas 
procurava =Trindade quando desejava uma conversa estimulante, 
combativa.
Por estas razes, o seu amigo mais prximo no era o 
=Ranhoso, mas Gustavo Mascarenhas, um irrequieto rapaz de 
Vila Real que =conhecera logo nos primeiros dias. Afonso 
achou curiosa a coincidncia de os seus melhores amigos serem 
transmontanos, j no =seminrio o seu grande companheiro 
tinha sido Amrico, o gorducho =de Vinhais. Mascarenhas no 
era gorducho, mas encorpado e musculoso, =tinha at um certo 
aspecto de troglodita, embora fosse inteligente e divertido. 
=Provinha tambm de uma famlia de militares, o pai era 
coronel de =cavalaria e Mascarenhas pretendia seguir-lhe os 
passos. Para no o =acusarem de seguidismo e falta de 
imaginao, optou antes por infantaria, at porque =em Vila 
Real estava instalada Infantaria 13 e convinha-lhe ficar 
perto de casa, =sempre era mais confortvel.
Como se encontravam ambos longe da famlia, aos domingos 
Afonso =levava Mascarenhas com frequncia ao football, mas 
divergiram nas simpatias. O rapaz de Rio Maior era um 
supporter do Sport Lisboa, =mas o de Vila Real preferia o 
Sporting Club e ambos discutiam =frequentemente a importante 
questo de determinar quem eram os =melhores players. Afonso 
atirava-lhe  cara a ideia de que, sem os oito atletas que 
fora buscar ao Sport =Lisboa, o Sporting Club no seria nada 
nem ganharia a ningum, mas =Mascarenhas defendia-se com 
Francisco Stromp, o craque do emblema do =leo que no viera 
do club da guia, e insistia em que o Sporting era um club a 
srio, tinha campo e =instalaes adequadas, enquanto o Sport 
Lisboa no passava de =um bando de maltrapilhos.
137
O football e as suas rivalidades preenchiam assim as suas 
=conversas, a par de "as gajas", claro, mas Afonso tinha 
igualmente =outros interesses. Passava tardes fechado na 
biblioteca da Escola. =Apreciava o cheiro adocicado a papel 
velho que ali enchia o ar=20e deliciava-se com o aspecto 
distinto dos armrios carregados de =livros e encostados s 
paredes, a sua madeira de mogno trabalhado a contrastar com o 
soalho =de cerejeira clara envernizada. Havia escadas em 
caracol em duas =esquinas da biblioteca, permitindo aceder a 
um varandim de mogno que se =estendia por todo o permetro da 
sala, a uns trs metros de altura e onde se encontravam mais 
=livros, local por onde o cadete gostava de deambular a 
examinar as =lombadas  procura de exemplares com ttulos que 
achava =pitorescos, como Instruces para o campeonato do 
cavallo de guerra, Architectura sanitria, =Nomenclatura de 
machinas de valor e O combate de infanteria contra 
=cavallaria. A grande maioria das obras ali guardadas eram 
textos =militares, mas Afonso descobriu exemplares das Les 
Voyages extraordinaires de Jlio Verne, editadas =pela 
Collection Hetzel. Como lia bem francs, cortesia do padre 
=Fachetti, devorou a voyage au centre de la Terre e =Michel 
Strogoff e acompanhou com divertida ateno os absurdos 
=problemas balsticos propostos em De la Terre  =la Lune.
Verne fazia-o sonhar, mas a biblioteca dispunha de poucos 
livros de =fico e Afonso viu-se forado a levar 
frequentemente romances =para o local, obras que lia 
absorvido, as pginas iluminadas pela luz natural que 
penetrava difusamente pelas duas =grandes clarabias abertas 
no tecto. Foi ali que conheceu Machado de =Assis e agonizou 
com a dvida de saber se Capitu tinha ou no =trado 
Bentinho=20em Dom Casmurro, foi ali que devorou Ea de 
Queiroz e se escandalizou com O Crime do Padre Amaro, ele que 
=imaginava que os tormentos da carne s o atacavam a si e a 
mais uns =poucos no seminrio. Primeiro recusou-se a aceitar 
aquilo, bem que o tinham avisado de que esse era um livro de 
=pecado, de luxria, de volpia, onde  que j se viu 
=descreverem os padres daquela maneira? como se atreveu o 
escritor a =coloc-los naquela figura? que falta de respeito, 
devia ser proibido.
138
Mas  noite, meditando sobre o que lia, ia pensando que 
talvez =aquilo no fosse um disparate. Lembrou-se de que 
Santo Agostinho =abordara o problema da sexualidade e foi 
consultar as suas =Confisses. No meio do texto, por entre as 
assombrosas revelaes da promiscuidade sexual do santo 
quando jovem, sobressaiu =a splica de Santo Agostinho a 
Deus, a quem implorava "Senhor, faz-me =casto, mas no ainda 
". Mas no ainda. Pouco a pouco Afonso acabou por ir 
concluindo que, feitas as =contas, aquela era afinal uma 
tentao universal, "todos so do =mesmo barro", esta curta 
frase de Ea, simples mas poderosa, =ficou-lhe cravada na 
mente, sim,  evidente, todos so do mesmo barro, bem vistas 
as coisas  mesmo =isso, que afirmao to reveladora e 
verdadeira, se at =Santo Agostinho cedera  pecaminosa 
tentao, o que dizer dos =outros, o que dizer do padre 
lvaro? Pois, o padre lvaro. Afinal de contas, at o padre 
=lvaro, o bom padre lvaro que o acolhera e o ajudara em 
Braga, =era feito daquele barro. Mesmo o austero vice-reitor, 
casto e castigador, justiceiro e vingador, tinha =certamente 
as suas tentaezinhas, se calhar, quem sabe, se lhe 
=vasculhassem os podres, tambm ele mereceria a sua cartita 
de prego, a cartita que por muito menos =ele passou a Afonso 
mas que jamais enderearia a si prprio por =pecados qui 
bem piores.
Ah, os filisteus!
A entrada de 1908 foi agitada. No dia 28 de Janeiro comearam 
a =correr no dormitrio da Escola do Exrcito notcias de que 
=estava em marcha uma revolta para derrubar a monarquia. O 
governo =reprimiu a rebelio, deteve os chefes dos revoltosos 
e conseguiu do rei a assinatura de um =decreto que permitia 
enviar qualquer suspeito para o degredo sem =julgamento 
prvio. Trindade mostrava-se assustado, possivelmente o =seu 
pai republicano no estaria em segurana, e Afonso confortou-
o, abstendo-se temporariamente de o interpelar =pela sua 
alcunha de Ranhoso. Mas os acontecimentos precipitaram-se 
dois =dias depois, a 30. Os cadetes estavam na aula de 
Escriturao =quando um oficial entrou bruscamente na sala, 
parou junto ao professor e voltou-se para a classe.
139
"O rei morreu", exclamou. "Viva o rei! "
As aulas foram interrompidas, as bandeiras azuis e brancas de 
=Portugal colocadas a meia haste, havia oficiais que pareciam 
=desnorteados, corria-se de um lado para o outro, semblante 
carregado, =medo, esperana, fria, alegria, lgrimas, 
sorrisos, pesar. O que foi? morreu mesmo? no estar antes 
=ferido? o gordo finou-se finalmente! quem governa? vo pag-
las! a =monarquia caiu? cabres dos republicanos! ter sido a 
=Carbonria? As informaes circulavam de boca em boca, 
contraditrias, a verdade misturava-se =com os boatos, estava 
instalada a confuso, o diz-que-disse, a =desorientao.
Incapaz de permanecer mais tempo naquela incerteza e excitado 
com a =magnitude dos acontecimentos, Afonso saiu com Gustavo 
Mascarenhas e =apanhou dois elctricos at  Praa do 
Commrcio, diziam =que tinha sido ali o regicdio, assim era 
de facto, as lojas encontravam-se fechadas e a praa =estava 
guardada pela polcia municipal, aproximaram-se da zona do 
=Kioske, era ali que tinha sido efectuada a matana, ainda se 
viam =vestgios de sangue no piso. Os guardas que vigiavam o 
local, inicialmente =relutantes, depois com voluntarismo, 
contaram tudo aos cadetes. El-rei =D. Carlos fora abatido a 
tiro quando vinha de Vila Viosa num coche =aberto, o 
prncipe herdeiro, D. Luiz Filippe, tambm tinha sido morto 
ao =desembainhar a espada, o outro prncipe, D. Manuel, 
ficara ferido num =brao, a rainha D. Amlia estava em estado 
de choque, ela que fora =uma herona, uma verdadeira herona, 
"vejam l, coitadinha, tentou travar as balas com um ramo de 
=flores", pormenor muito comentado esse, "com um ramo de 
flores". Os dois =assassinos acabaram mortos a golpe de 
espada pelos polcias =municipais, bravos homens que agora 
guardavam, com um zelo e aprumo que orgulhariam os =defuntos, 
a desolada Praa do Commrcio.
Foram tempos agitados os que se seguiram. Os lisboetas 
deixaram as =ruas insultuosamente desertas  passagem do 
coche funerrio com os =restos mortais do rei e encheram o 
cemitrio do Alto de So Joo durante o enterro dos 
regicidas. Ostentavam-se gravatas vermelhas para =ofender o 
luto dos monrquicos, as revoltas
140
populares eclodiram com as eleies de Abril, os teatros 
=encheram-se de versos antimonrquicos, os militares 
conspiravam em =surdina, contavam-se as espingardas, este  
nosso, aquele  deles, =Afonso ainda no era de ningum, no 
passava afinal de um cadete interessado em football, um jovem 
que =antes procurara dedicar-se ao domnio da palavra do 
Senhor e aos =mistrios do universo e da vida e agora se 
preocupava sobretudo com o manejo =da Mauser vergueiro e com 
o controlo dos segredos da balstica e da =morte.
Julho trouxe consigo a poca de exames. Afonso passou a tudo, 
=excepto a Topographia, forando-o a voltar para a segunda 
poca, =em Outubro. A primeira poca terminou a 31 de Julho e 
=o rapaz s ficou mais uns dias para conhecer a Feira de 
Agosto, um =acontecimento comentado pelos cadetes de Lisboa 
com tanto entusiasmo antecipado que suscitou a maior 
curiosidade aos que vinham =de fora da cidade.
Afonso foi visit-la logo no dia da abertura e no ficou 
=decepcionado. Erguida em plena Rotunda, a feira logo se 
revelou um local de grande animao, havia ali =um circo de 
pulgas amestradas, demonstraes de audiofone e dos 
=cilindros Edison com msica a pedido, teatros de fantoches, 
jogos de pim-pam-pum para derrubar =bonecas com bolas de 
trapo, casas de diverses como o Metropolitan =Scenic Railway 
e outras empolgantes atraces. Os vendedores ambulantes 
apregoavam aos sete ventos os seus =produtos, "bailarinas! 
bailarinas! ", anunciavam os que vendiam =sardinhas, 
"pencudos! pencudos! ", respondiam os dos carapaus, ="olh's 
refiles! olh's refiles! ", gritavam os vendedores de 
pimentos. Via-se ainda gente a vender =burri cozido, fava 
torrada, tremoos, po e, inevitavelmente, =as bebidas, como 
o capil, a limonada e, sobretudo, a boa pinga, eram =vrios 
os que exibiam uma grande garrafa de tinto rodeada de copos 
=pequenos e aos berros de "quem quer a viva e os filhos? ", 
no =deixava de ser surpreendente este espectculo de folia e 
festa num =pas mergulhado em profunda agitao poltica.
141
Afonso regressou finalmente a Rio Maior para usufruir de dois 
=ansiosamente aguardados meses de frias. Estava desejoso de 
se =afastar do clima conspirativo da Escola do Exrcito, dos 
protestos que enchiam as ruas de Lisboa e sobretudo de 
=Gustavo, que no parava de o gozar pelo facto de o estreante 
Sporting =Club ter ficado em segundo lugar no Campeonato,  
frente do Sport =Lisboa e apenas atrs do inevitvel 
Carcavellos Club. Por outro lado, levava saudades de Carolina 
e =alimentava a esperana de que, com as boas notas que 
levava agora =para casa, a me da rapariga talvez no se 
importasse de autorizar o reatamento do namorico, afinal de 
contas =ele j era praticamente oficial, sabia esgrimir, 
usava as Mausers com =destreza e os cavalos no tinham 
segredos
para si.
Quando entrou na Casa Pereira para cumprimentar dona Isilda e 
=tentar ver Carolina, aguardava-o uma rude decepo. Dona 
Isilda =recebeu-o com simpatia e felicitou-o pelas notas 
obtidas, mas, no =momento em que Afonso indagou sobre 
Carolina, a resposta =deixou-o pregado ao cho.
"A Carolina est noiva. "
" Como?"
"A Carolina est noiva, Afonso. Vai casar no Outono. " O 
rapaz =ficou especado a olhar para a viva, plido, tentando 
digerir =aquelas palavras.
"A senhora est a brincar, dona Isilda "
"No estou, no. Vai casar com um engenheiro da Real 
=Companhia de Caminhos de Ferro Portuguezes, um moo muito 
jeitoso, de =boas famlias, gente distinta de Santarm "
Afonso achou a situao extraordinria e inusitada, 
=humilhante at, e no soube o que dizer. Ficou lvido, 
=desconcertado, indeciso quanto ao que deveria fazer. 
Agradeceu e saiu =apressadamente da loja, procurando com 
nsia o ar puro da rua para arrumar as ideias. L fora 
comeou a =duvidar das palavras de dona Isilda, estaria ela a 
tentar engan-lo? =Ficou a matutar no assunto, repetindo a 
conversa vezes sem conta, =procurando inflexes reveladoras 
na voz da viva, no havia dvida de que
142
ali havia gato. Nessa noite mal pregou olho, preocupado com o 
=assunto, murmurando frases soltas, "e se fosse verdade? ", 
deu voltas na =cama, "no pode ser", mais algumas voltas, 
"disparate, a velha =est-me a enfiar o barrete", as horas 
prolongaram-se e adormeceu sem dar por =isso. Pela manh 
seguinte instalou-se bem cedo perto da Casa Pereira, 
=vigiando a loja e o apartamento do primeiro andar onde vivia 
a =proprietria e a filha. Quando viu Carolina sair de casa, 
interceptou-a e =pediu-lhe explicaes.
"Desculpa, Afonso, mas no posso falar contigo", disse ela 
com =ar comprometido, os olhos colados ao cho.
Mas diz-me ao menos o que se passa. "
"O que se passa? ", fitou-o com uma expresso de fria 
=ressentida. "O que se passa  que fiquei quase um ano  
espera de =uma carta tua e no veio nada. "
" que no pude escrever-te. Sabes, os estudos... " "Quais 
=estudos qual carapua! No quiseste saber de mim para nada, 
 o =que . Andas l por Lisboa armado em marialva, se calhar 
metido =com as varinas e as fadistas, e eu aqui  tua espera, 
sem receber uma palavra tua, uma palavra que fosse, nem =gua 
vai, nem gua vem. Grande parva que fui. Pois fica sabendo 
=que no me mereces. Alm do mais, o que uns desprezam, 
outros =anseiam. Adeus. "
Havia verdade nestas queixas, bem no ntimo Afonso sabia-o. 
=Gostava de Carolina, no havia dvidas, mas nunca se sentira 
=profundamente apaixonado, pelo menos nunca sentira por ela 
aquela =paixo arrebatadora sobre a qual lera ao longo dos 
ltimos meses nos belos romances de Ea de Queiroz e de 
Machado de =Assis, as paixes trgicas de Amaro e Amelinha, 
de Bentinho e =Capitu. Mesmo assim, o sentimento de rejeio 
f-lo sofrer. Agora, mais do que nunca, desejava Carolina, 
ansiava pela sua presena, =e surpreendeu-se com esse 
sentimento, com essa perda, com esse desejo. =Quando ela era 
sua, isso agradava-lhe mas no lhe dava grande =importncia, 
encarava a situao como uma cir cunstncia da vida, uma 
coisa natural. Agora, que =no a podia ter, porm, ela 
revelava-se extraordinariamente =importante. Afonso
143
achou curiosa essa contradio e ps-se a dissecar os seus 
=sentimentos, comparando a situao ao pecado original que 
lera na =Bblia, a histria de que Ado s se interessou pelo 
fruto porque ele era proibido. Havia muita verdade =nesse 
raciocnio, considerou, mas a descoberta s vagamente lhe 
=atenuou o sofrimento, pouco o consolava saber que mais amava 
o que menos =podia ter.
Sentiu cimes, odiou Carolina, rogou pragas, fantasiou 
=vinganas, arranjaria uma namorada e passear-se-ia com ela  
=frente daquela que agora o rejeitava, ela haveria de ver, 
iria sofrer, =iria arrepender-se. Mas esta fria de 
retribuio depressa lhe passou e quem se arrependeu foi ele. 
A culpa  minha, =concluiu com amargura.  noite, deitado na 
cama de lato, decidiu =ir no dia seguinte ajoelhar-se aos 
ps de Carolina e implorar-lhe =perdo, prometer que lhe 
escreveria uma carta por dia, faria dela uma rainha, 
=convenc-la-ia a dar-lhe mais uma oportunidade. Mas logo 
pela =manh, sentado  porta de casa, foi-se-lhe o nimo, o 
que  =noite era uma deciso firme no passava agora de uma 
fantasia tola, deixou-se estar, "para o diabo com =ela! ".
Em termos prticos, contudo, a sua vida em nada se alterara. 
O =noivado de Carolina significava que no podia contar com a 
=proteco de dona Isilda, mas a verdade  que j no 
=precisava desse apoio. A propina de matrcula era vlida 
pelos dois anos do curso de guerra e a principal despesa dos 
=cadetes, o uniforme, j estava feita. Continuaria a receber 
os =trezentos ris dirios de soldo, pelo que o seu modo de 
vida iria =manter-se. No havia o perigo de, por falta de 
meios financeiros, ter de abandonar =tudo e voltar para a 
Carrachana, aquela era a sua origem mas no =seria o seu 
destino.
O Vero passou com vagar, quente e modorrento, os dias na 
=provncia arrastavam-se numa pasmaceira insuportvel. Afonso 
=distraiu-se a ajudar o pai na produo do vinho, mas foi com 
=alvio que, em princpios de Outubro, regressou a Lisboa, o 
rapaz achava que j no tinha =vida para aquilo. Fazer vinho 
 cho que j deu uvas, pensou, =rindo-se do trocadilho 
durante a viagem de comboio.
144
Fez o exame de Topographia pouco depois de chegar a Lisboa e 
ficou = espera dos resultados. No domingo, dia 11, as 
classificaes =dos alunos aprovados foram afixadas no trio. 
Afonso fazia parte da =lista e dirigiu-se  secretaria para 
declarar qual a arma que pretendia seguir. O primeiro =ano 
era comum a todas as armas, mas o segundo ano requeria a 
=especializao e o cadete escolheu infantaria. O recomeo 
das =aulas foi marcado para o final do ms, aps uma 
cerimnia de incio de ano lectivo aguardada com enorme 
=expectativa. O caso no era para menos, o novo rei iria 
comparecer = cerimnia inaugural e ningum queria perder o 
momento de ver =a trgica figura.
No grande dia, Afonso formou com os restantes cadetes no Pao 
da =Rainha e, quando a comitiva do monarca chegou, manteve-se 
 espreita. =Como um outro cadete lhe tapava o ngulo de 
viso, no momento =em que D. Manuel II se apeou do carro, por 
entre a =estrondosa barulheira das salvas regulamentares e o 
fragor cacofnico das bandas militares, Afonso esticou o 
pescoo e mirou o =monarca, o olhar vidrou-se-lhe ao 
descobrir, surpreendido, que o rei =no passava de um 
rapazote da sua idade, as feies midas =num rosto claro e 
quase infantil, to imberbe que do bigode apenas se 
adivinhavam uns pelinhos loiros no =canto da boca, as pernas 
ligeiramente arqueadas=20para fora. Chegava a ser chocante 
ver aquele adolescente metido num =grandioso uniforme de 
gala, a fita das Ordens de Cristo, de Sant'Iago de =Espada e 
de So Bento de Avis a cruzar o peito a partir do ombro 
=direito, na cabea um enorme e pomposo capacete emplumado e 
reluzente, um rapaz acabado =de sair da Escola Naval e 
rodeado de velhos em continncia, no meio =da enorme 
algazarra libertada pelas bandas.
"Um copinho de leite", comentou Mascarenhas com um sorriso 
velhaco.
O ar imberbe do monarca alimentou a conversa entre os cadetes 
=durante alguns dias, mas depressa a azfama das aulas lhes 
ocupou as =atenes. O segundo ano envolvia novas 
disciplinas. Os cadetes de infantaria =frequentaram as 
classes de Direito Internacional,
145
Histria e Geographia Militar, Tctica e Servios de
Infantaria, Tctica Applicada, Campanhas Coloniaes, 
=Princpios
 de Estratgia e Fortificao Permanente, para alm dos 
=exerccios habituais de Esgrima, Instruco de Tiro de 
=Revlver, Gymnstica
 e visitas a fbricas e depsitos de material de guerra.
Nos tempos livres voltaram as tardes de football, mas aqui 
tinha =havido uma novidade que no foi do inteiro agrado de 
Afonso. O Grupo =Sport Lisboa, club que no seu corao tinha 
substitudo o =extinto Club Lisbonense, fundira-se no Vero 
com um outro club, o Sport Club de Bemfica, e passara a 
chamar-se Sport =Lisboa e Bemfica. Descontente, Afonso foi 
pedir explicaes aos =empregados do Laboratrio Franco. Os 
rapazes alegaram que a fuso =era a nica maneira de impedir 
a extino do Grupo Sport Lisboa. Segundo eles, o Sport Club 
de Bemfica =tinha um campo prprio mas nenhuma vocao para o 
football, =no passava na verdade de um club de ciclismo, 
enquanto o Grupo Sport =Lisboa era um club de football mas 
no tinha campo, o que estava a minar o moral da rapaziada. A 
=soluo foi juntar os dois clubs. Afonso no gostou da 
ideia, =antipatizava com a palavra Bemfica, era o nome de uma 
estrada que ia dar = Porcalhota, facto que, suspeitava, iria 
irreversivelmente sujar o nome =do Sport Lisboa. Mas o 
Campeonato j tinha comeado e a 25 de =Outubro, justamente 
na vspera do primeiro dia de aulas, o novo club iria 
defrontar o Sporting. =Mascarenhas queria ver o seu Sporting 
"dar uma cabazada queles =tansos", e Afonso, algo 
contrariado, acompanhou-o at ao campo do Sport Lisboa e 
Bemfica, situado na Quinta da Feiteira, junto  =igreja de 
Bemfica.
A primeira grande surpresa de Afonso, ao chegar ao campo e ao 
ver =as equipas no aquecimento, foi a de que nada parecia ter 
mudado. O Sport =Lisboa e Benfica alinhava com o antigo 
equipamento do Grupo Sport =Lisboa, camisolas vermelhas e 
cales brancos, e o prprio emblema da guia se mantinha ao 
peito, =acrescentando-se-lhe agora uma roda de bicicleta, o 
smbolo do =Bemfica. A segunda surpresa foi a de que os 
jogadores da equipa eram quase todos os mesmos do Sport 
Lisboa, era como se tudo
146
tivesse ficado na mesma. E a terceira surpresa foi a 
inesperada =vitria do Bemfica sobre o Sporting, que contava 
com os oito artistas =roubados no ano anterior ao Sport 
Lisboa. Mascarenhas regressou =desanimado com o resultado, 
mas Afonso veio eufrico, afinal o seu club continuava a 
existir.
O ano escolar decorreu com uma lentido que o deixou 
impaciente. =Afonso tinha dezoito anos e o tempo parecia 
parado, ansiava pela =maioridade dos vinte e um e parecia-lhe 
que os trs anos que lhe faltavam eram uma eternidade. As 
aulas consumiam a semana =e, para se distrair, o football 
preenchia os domingos. Para grande =desnimo de Mascarenhas, 
o Sporting voltou a ser derrotado pelo =Bemfica, desta vez no 
Lumiar, e, surpresa das surpresas, os vermelhos empataram com 
o temvel =Carccavellos Club, que voltou a ganhar o 
Campeonato mas sofreu um forte =assdio do club da guia, o 
segundo classificado.
A poca de football e o ano escolar terminaram quase em 
=simultneo e, quando deu por ela, Afonso viu-se no trio a 
mirar a =lista dos "alumnos com approvaes". O seu nome 
constava naturalmente da lista, a pauta assinalava ="Affonso 
da Silva Brando" com a classificao global de 13, 2 
=valores. S a partir dos 15  que se considerava que era 
=classificao com distino, um elemento importante para 
determinar o regimento para onde iria. =Uma vez terminado o 
curso de guerra, cabia aos cadetes solicitarem o seu 
=destino, mas s aqueles que obtinham melhores notas  que 
seguiam=20para os regimentos que pediam, os restantes teriam 
de se contentar com =as sobras. Afonso viu-se perante um 
dilema. O seu desejo era o de =permanecer em Lisboa, mas isso 
queriam todos. Era uma multido =atrs do mesmo e havia 
cadetes com melhores classificaes. Se =escolhesse Lisboa, 
Afonso no iria certamente conseguir lugar a, =seria 
inevitavelmente chutado para uma terriola de provncia, por 
=exemplo, Bragana ou Abrantes. A alternativa era escolher 
directamente um regimento de =uma cidade pouco procurada. A 
opo bvia era Santarm, =sempre ficava perto de Rio Maior, 
mas havia um inconveniente. Afonso =no desejava, de maneira 
nenhuma, ser colocado prximo de
147
Carolina, ela estava-lhe longe da vista e do pensamento, mas 
no =tinha a certeza de qual seria a sua reaco quando a 
visse, essa =era uma ferida que ele no tencionava reabrir, 
ainda para mais com um marido nas redondezas. Foi =assim com 
naturalidade que Afonso se candidatou a um lugar num 
regimento =de Braga, afinal a cidade onde passara quatro anos 
e que se tornara uma =espcie de segunda terra natal.
148
VI
A tarde fez-se invernosa e desagradvel, o que no era de 
=admirar. Outubro trouxe consigo os primeiros sinais do que 
viria a ser o =Inverno desse final de 1913, com o vento a 
percorrer o Sena num sopro =gelado, as rvores a agitarem-se 
com um farfalhar intranquilo, nervoso e barulhento, 
=soltavam-se folhas secas dos ramos e esvoaavam sem rumo nem 
destino, =quebradas e perdidas, ao sabor da brisa. As nuvens 
deslizavam baixas e carregadas, pairando silenciosamente 
sobre os telhados escuros =como vultos fantasmagricos, 
espectros esfumados a vigiarem descon fiadamente a cidade, 
=abafando-a e oprimindo-a sob um manto branco-sujo que tudo 
cobria, eram =sombras taciturnas, uma vasta cobertura de 
vapor que ameaava a =grande urbe, sufocava-a at. A 
atmosfera tornara-se pesada, o ar hmido, pingos caam aqui e 
=ali, em breve iria chover.
Agns tinha matria para estudar mas no quis ficar =fechada 
em casa, preferiu sair. Como o tempo se revelava inspito e 
=inclemente, foi procurar refgio na Brasserie Lipp. A 
cervejaria encontrava-se apinhada de gente e =ela foi sentar-
se a uma mesa de esquina, encostada aos azulejos que 
=decoravam as paredes do
149
estabelecimento. Pediu uma cerveja alsaciana e uma choucroute 
e =embrenhou-se na leitura do trabalho que tinha em mos, um 
tratado =sobre o problema da obstipao.
"Posso? ", perguntou algum que colocou uma mo na cadeira 
=vazia em frente.
Agns levantou os olhos do texto, pensando que era o garon 
=com a cerveja e a choucroute. Mas, em vez do empregado, viu 
um homem =jovem, de bigode aparado, olhos castanhos e ar bem-
disposto.
"Oui", assentiu ela, fazendo meno de regressar  =leitura. 
"Peo desculpa, mas est tudo ocupado e no h =outro lugar. 
" "Esteja  vontade. "
Agns tentou concentrar-se na leitura, o terceiro ano de 
=Medicina tinha acabado de comear e ela tentava adiantar 
matria, =mas o homem era falador.
"Aqui a Lipp  fantstica, no acha? "
"Sim", disse Agns com um sorriso educado. " uma brasserie 
=muito simptica. "
O homem estendeu-lhe a mo.
"Chamo-me Serge", apresentou-se. "Serge Marchand. " "Muito 
prazer. =Eu sou Agns Chevallier. "
Apertaram as mos e ela ainda tentou voltar ao tratado, mas 
=Serge no deixou.
" parisiense? "
"No, sou de Lille. "
"Ah, quem diria! "
" O qu?"
"Que voc no  de c. Sabe, parece mesmo parisiense. "
"Eu? Parisiense? " Ser confundida com uma parisiense tinha o 
seu =qu de chic. Lisonjeada, pousou o tratado. "Ora diga-me 
l o que =faz de mim uma parisiense?"
"Oh, muita coisa, muita coisa. "
"O qu? ", riu-se ela.
"Para comear, o seu ar.
" O que tem o meu ar? "
150
" um je ne sais pas quoi... no sei. Talvez o aspecto fino, 
=o vestido elegante, muito faonnable, os seus traos 
delicados... ="
O garon apareceu com a cerveja e a choucroute, que colocou 
=sobre a mesinha. Serge pediu tambm uma cerveja. Agns 
bebericou a =sua e olhou para o companheiro de mesa.
"Agradeo-lhe o elogio, mas olhe que na provncia h =muitas 
pessoas assim como eu, o que pensa? V-se logo que voc = 
que  parisiense, com essas ideias de que s em Paris  =que 
h glamour e tudo o resto so rsticos provenales. "
"Mas, precisamente, eu no sou parisiense. "
Agns hesitou, surpreendida.
"Ah no? "
"Est a ver como  parecida comigo? Est a ver? Tal como =eu, 
tambm voc avalia os outros pelo aspecto. "
"Grande novidade, todos o fazemos. Mas ento diga l donde 
=."
"Sou da regio mais atrasada da Frana, veja s. " ="Voc  
da Crsega? "
"Bem, sou atrasado mas no  preciso exagerar", riu-se Serge. 
="No, eu venho da Bretanha. "
"Ah sim? E o que est a fazer um breto em Paris? " "O mesmo 
=que voc, presumo. Estou a estudar. " "Estuda o qu? "
Serge rolou os olhos e suspirou.
"Estou a terminar Direito no Collge de France. " "Quem o vir 
a =falar parece que no gosta do curso. "
"Bof, "
"No gosta do seu curso? "
"Nada. "
"Mas ento por que o est a tirar? "
"Oh,  muito complicado", disse ele com um gesto enfastiado. 
"Em =primeiro lugar, porque venho de uma famlia de 
advogados, o Direito = uma tradio que vem de longe. 
Causava um desgosto l em =casa se no seguisse a carreira. 
Depois, porque o que eu gostava de fazer no =d para 
alimentar ningum. Alm do mais,=20
151
nem tenho talento para me dedicar quilo que realmente me 
=apaixona. "
"E o que  que o apaixona? "
"A arte. "
Agns fez um ar de admirao, mostrando-se agradavelmente
surpreendida.
 "Ah, voc  um artista?  msico? "
 "No", sorriu Serge. "No sou artista nem msico. Mas 
=interesso-me muito pela pintura, adorava saber pintar"
" Como Czanne... "
Sim, Czanne agrada-me, mas h agora outros artistas mais
interessantes, artistas verdadeiramente revolucionrios. "
"Quem? "
"Picasso, Braque, Derain... "
"Nunca ouvi falar. "
 natural, eles s so conhecidos no meio, e, mesmo a, =nem
sempre pelos melhores motivos. "
" Porqu?"
"Porque a sua pintura viola as regras clssicas. E, quando se
violam as regras clssicas... oh la la... h quem no =goste.
"E que regras foram essas que eles violaram? "
"Em primeiro lugar, a perspectiva. " Pegou num lpis e fez um
desenho sobre uma folha. "Est a ver? Quando desenhamos 
qualquer =coisa, fazemo-lo sempre a partir de um ponto.  um 
pouco como as =fotografias, so tiradas de um ponto para 
outro. Ns
vemos o outro ponto pela perspectiva do ponto onde a 
fotografia
 tirada ou a pintura  feita.  isso a perspectiva. Mas 
=estes novos pintores decidiram fazer quadros simultaneamente 
de =vrias perspectivas. "
 "Isso no  possvel."
"No s  possvel, como eles fizeram-no. Picasso =comeou a
pintar objectos com a preocupao de exibir as suas trs 
=dimenses, colocando mltiplas perspectivas no mesmo quadro. 
Faz =de
conta que so fotografias sobrepostas do mesmo objecto, em 
que
 vemos o objecto simultaneamente de vrios ngulos, de 
=vrias
152
perspectivas. Foi isso o que ele fez, mas no se ficou por 
=a. Em vez de exibir os objectos como unidades, ele cortou-
os aos =pedacinhos e passou a pint-los de forma fragmentada. 
"
"Mas consegue-se assim perceber a pintura? "
"No se percebe nada", exclamou Serge com uma gargalhada 
=contagiante. Abriu os braos e fez um gesto largo com as 
mos. "O =ttulo do quadro d-nos uma indicao e ns, a 
partir =da, conseguimos descortinar o objecto, ele est l 
insinuado. Mas, se no soubermos o ttulo, aquilo  =apenas 
um conjunto de indecifrveis figuras geomtricas.  como =se 
o pintor partisse de uma imagem concreta e depois removesse 
os =traos da realidade, criando uma amlgama de formas e 
cores. "
"E fica bonito? "
"No sei se fica bonito,  uma questo de gosto, mas olhe 
=que  uma ideia fascinante"
O que Agns achou realmente interessante em Serge  que a sua 
=conversa era diferente da dos outros rapazes que conhecera. 
Em vez de =tentar projectar uma imagem de homem forte, viril 
e protector, Serge =parecia mais empenhado em falar 
sobre=20arte. Tinha alma de artista, olhar sonhador, falas 
melosas e muitos =conhecimentos no meio, graas sobretudo s 
suas amizades com o =pessoal da cole des Beaux-Arts. Uma 
outra caracterstica era a de =que se mostrava frgil e Agns 
espantou-se a si mesma por se sentir atrada por essa 
qualidade. =Descobriu que gostava de homens frgeis, no 
sabia porqu, mas =a vulnerabilidade tocava-a, mexia com ela, 
despertava-lhe talvez um =meigo sentimento maternal.
Escolheram para segundo encontro o Le Procope, supostamente o 
mais =antigo caf do mundo, com fama de ter sido frequentado 
por Voltaire e =Napoleo. Depois de beberem duas chvenas de 
chocolate quente e de combinarem passar a tratar-se por tu, 
=Serge convidou Agns a visitar a galeria Kahnweiler, onde, 
segundo =ele, se revolucionava o mundo da pintura. Caminharam 
os dois debaixo de =um guarda-chuva at  Rue Vignon e, ao
153
cruzar a porta da galeria nessa tarde chuvosa, Agns entrou 
no
universo do cubismo.
Kahnweiler expunha nessa altura vrios importantes trabalhos
terminados recentemente, todos da autoria de pintores ainda
pouco conhecidos, viam-se ali L'Oiseau bleu, de Metzinger, La
femme et L'ombrelle, de Delaunay, e Compotier et verre, de 
Braque. =Mas foram os tons laranja e amarelo-torrado de Femme 
dans
un fauteil, de Picasso, que mais a surpreenderam. Ficou 
espantada
 a mirar o desconcertante quadro, interrogou-se at se aquilo 
=seria
 realmente pintura e hesitou longamente antes de opinar, 
receava =parecer uma parola.
 "Esta mulher no tem rosto", exclamou finalmente, mal 
contendo =a decepo.
 Era o mnimo que conseguia dizer da grotesca imagem exposta
diante de si, sentia-se quase defraudada, como um gastrnomo 
de
gosto requintado a quem algum prometeu gratin de ueues
d'crevisses mas acabou por se ver forado a comer =caracis 
fritos.
"No, ela tem rosto", argumentou Serge. "O que se passa 
que o rosto  reconstrudo, tal como todo o corpo " Apontou
para um pormenor do quadro. "Ests a ver isto? So os seios,
vem-se aqui os mamilos. No fundo, a ideia  apresentar um
 corpo fragmentado onde o todo se reconhece pelas partes. "
"Mas, para alm do cadeiro, dos seios e do jornal, eu quase
s vejo geometrias... "
Serge sorriu.
" a que est o truque. O pintor inseriu figuras =sintticas
cubistas, as geometrias, num espao clssico, tradicional. O 
=efeito
 surpreendente, no achas? "
Agns fez uma careta resignada.
"L surpreendente  ele, isso no h dvida. Mas =ser mesmo
arte?
 "A mais pura", garantiu Serge entusiasticamente. "Eu sei 
que,=20
para toda a gente que v isto pela primeira vez, h sempre um
choque, estes quadros violam todas as convenes, abalam as
154
nossas mais profundas convices sobre o que  a pintura. =Eu 
prprio, quando comecei a ver as pinturas cubistas, confesso 
que =no fiquei l muito convencido. Mas, sabes, isto  como 
a =cerveja. Odiamos de incio, mas depois no podemos passar 
sem ela. "
Ao anoitecer, quando abandonaram a galeria, Agns deixou 
Serge =colocar-lhe a mo no ombro, enlaando-se ambos debaixo 
do =guarda-chuva. Comeou o namoro nessa tarde e uma semana 
depois, rendida aos encantos daquela =alma de artista, 
acabou-se-lhe a virgindade.
Os projectos a dois precipitaram-se a uma velocidade 
espantosa. =Ainda o Inverno no tinha terminado e j Serge a 
convidava para =jantar no Pharamond, o famoso restaurante de 
Les Halles, onde pediram boeuf en =daube regado com sidra da 
Normandia. Depois da sobremesa, ele deu-lhe as =mos e,  luz 
das velas e ao som de um violino previamente =contratado, 
props-lhe casamento.
"Casa comigo, doce princesa. "
O oui emocionado de Agns foi brindado com um frutado 
Beaujolais =Villages que ela cuidadosamente provou e 
sancionou.
Passearam depois pelo Sena de mo dada, at ele a deixar  
=porta do seu prdio, em St. -Germain-des-Prs. Quando entrou 
no =apartamento, Agns ouviu a voz do noivo l fora. 
Surpreendida, foi = janela, olhou para a rua e viu-o no 
passeio, junto ao candeeiro, a =fazer-lhe uma desafinada 
serenata, cantando a plenos pulmes =Bb d'amour, uma 
adaptao francesa da cano inglesa =Some of these days, 
ento na moda em Paris:
Je veux mourir O ma desse! En ce beau soir Sous ta caresse.
Quando Serge terminou, Agns bateu palmas e soprou-lhe um 
beijo =da janela.
155
"Foi magnfico", disse-lhe. "Mas agora vai-te embora, anda, 
=vai-te antes que te prendam. "
As bodas realizaram-se a 3 de Junho de 1914 na Basilique St. 
=-Sauveur, em Dinan, a terra natal do noivo, na costa norte 
da Bretanha. =Era uma terra aprazvel, o ar carregado da 
maresia atlntica, os =aromas salgados do oceano a perfumarem 
a brisa suave.
A famlia Chevallier tinha acabado de chegar de Lille e vinha
ainda atordoada com a rapidez dos acontecimentos.
 "Minha pequena Agns", murmurou-lhe o pai  entrada da
baslica, dando-lhe o brao e falando como se lhe estivesse a
 oferecer a derradeira oportunidade para se salvar. "Tens a 
certeza
do que ests a fazer? "
"Absoluta. "
Paul Chevallier suspirou e enfrentou o corredor que se 
estendia
diante de si, o altar l ao fundo com o noivo  espera, 
=aquele
rapaz no passava de um estranho a quem ia entregar a sua 
filha =predilecta.
"Muito bem", exclamou finalmente, esforando-se por ocultar
 o peso que lhe ia na alma. "Vamos a isto"
Como estava um dia de sol esplendoroso, o copo-d'gua foi
 organizado nos Jardins Anglais, mesmo por detrs da baslica
com uma vista privilegiada sobre o rio Rance e o vale 
verdejante
por onde o vasto curso de gua serpenteava, as margens 
=destacando-se como fiordes naquele plcido mar fluvial.
Serge terminou o curso de Direito nesse Vero e a mulher, 
agora =Agns Marchand, matriculou-se para o quarto ano de 
Medicina. As suas =vidas permaneciam centradas em Paris, onde 
alugaram um apartamento na =movimentada Rue de Tubirgo,=20em 
Les Halles.
Ele foi trabalhar no escritrio de advogados do tio, 
localizado =ali perto, na Rue St. Denis, ao lado da Maison du 
Sphinx, onde um =letreiro na janela anunciava estar-se 
perante uma droguerie, pharmacie, =herboristerie, e ela no 
se importou de ficar um pouco
156
mais longe do Quartier Latin do que estava habituada no seu 
antigo =apartamento de St. -Germain-des-Prs. Claudette j 
tinha =concludo o curso de Histria e regressara a Lille, 
onde foi =ocupar uma vaga de professora num colgio local, e 
o apartamento encontrava-se agora entregue aos outros dois 
=irmos, entretanto chegados a Paris para tambm prosseguirem 
os =estudos.
A vida parecia assentar e o par recm-casado j planeava ter 
=filhos quando, apenas vinte e cinco dias depois da cerimnia 
de =Dinan, uma parangona no Le Petit Journal assinalou a 
novidade que iria =produzir uma profunda transformao das 
suas vidas. O casal estava a tomar o pequeno- almoo e Agns 
=ps-se a folhear o jornal. Os seus olhos fixaram-se 
inevitavelmente =no fatdico ttulo. A notcia referia a 
morte de um arquiduque =austraco, nas ruas de Sarajevo, 
assassinado por um srvio.
"Que horror! ", comentou antes de virar a pgina  procura de 
=cabealhos mais felizes. Trincou uma torrada e olhou pela 
janela. ="Hoje em dia ningum anda seguro nas ruas "
O que ela ainda no sabia  que aqueles tiros, disparados 
=numa obscura ruela no outro lado da Europa, iriam colocar o 
mundo de =pernas para o ar em menos de um ms.
A guerra entrou na vida de Agns com a fora de um furaco 
=enraivecido. Na sequncia de uma complexa sucesso de 
=acontecimentos envolvendo primeiro a ustria e a Srvia, e 
depois =os respectivos aliados, a Frana decretou a 
mobilizao geral a 1 de Agosto. Agns viu Paris 
transfigurar-se =perante os seus olhos, com a multido tomada 
pela febre da guerra a =sair s ruas em grandes nmeros, 
enchendo as principais =artrias com inmeras bandeiras 
francesas, mas tambm russas e britnicas, e =cantando 
entusiasticamente La Marseillaise e marchas patriticas. 
Cartazes com ordens de mobilizao =foram afixados por toda a 
parte, atraindo grupos alvoroados de =homens, enquanto se 
sucediam acalorados gritos de "vive =la France! " e os 
estabelecimentos com nomes =alemes eram atacados e 
saqueados, em particular as brasseries com =ttulos 
germnicos.
157
Serge no ficou indiferente  onda de comoo que se 
=apoderou dos franceses e nessa mesma tarde correu a um posto 
de
recrutamento para se alistar no Exrcito. Chegou de noite a 
casa
com o cabelo cortado  escovinha e os papis para se 
=apresentar
na madrugada seguinte num quartel da Arme, enquanto l fora
era desligada a iluminao pblica e os holofotes da Torre 
=Eiffel
e dos campos de aeronutica patrulhavam diligentemente o cu.
" o meu dever patritico", explicou Serge nessa noite a uma
estupefacta Agns. "Para alm do mais, isto vai ser rpido =e 
estou
em casa antes de o Vero acabar"
Dois dias depois, a 3 de Agosto, a Alemanha declarou guerra
 Frana. Por essa altura j os franceses tinham a sua 
=mquina
militar em movimento, e Agns foi nesse mesmo dia  Gare du
Nord despedir-se do marido. A estao de caminhos de ferro
estava mergulhada na maior confuso, Paris inteira parecia 
=ter-se
dirigido  gare para saudar os seus poilus. Agns teve enorme
dificuldade em furar por entre a compacta massa humana para
chegar perto do comboio destinado ao regimento de Serge.
Depois de uma espera atormentada no meio de uma algazarra
incrvel, viu as alas abrirem-se e os soldados marcharem 
=disciplinadamente at s composies, as espingardas 
=erguidas com a
coronha ao peito, os canos estendidos por cima do ombro.
Ps-se em bicos de ps e esticou desesperadamente a 
=cabea,=20
procurando o marido naquele mar de bons encarnados, mas s
o viu minutos antes de a locomotiva apitar para partir, 
=elegantemente vestido como um soldado dos exrcitos 
napolenicos, =um
majestoso casaco azul e calas de vermelho-vivo, kpi garrido 
=na
cabea, uma espingarda Lebel a tiracolo, como era estranho 
=v-lo assim, parecia um soldadinho de chumbo. Acenaram, ela 
=lanou-lhe beijos pelo ar, ele devolveu sorrisos. Milhares 
de pessoas
cantavam La Marseillaise em coro quando as =composies 
comearam a mexer-se, os soldados despediram-se como se 
fossem
 para um piquenique, Serge a dizer adeus da janela do comboio
que o levava para a frente, agitava alegremente o kpi na mo
esquerda, parecia quase feliz aquele poilu.
158
A Alemanha atacou a Blgica no dia seguinte, 4 de Agosto, 
=levando a Gr-Bretanha a entrar na guerra. Os irmos 
Chevallier =foram entretanto recrutados e tambm eles 
seguiram imediatamente para =a frente. Agns foi despedir-se 
de Gaston  Gare du Nord no dia 5, e de Franois  Gare de 
Lyon a 6, sempre =no meio de grandes manifestaes populares, 
plenas de fervor =patritico. As tropas francesas avanaram 
no dia 7 pela Alscia =at chegarem ao Reno e conquistarem 
Mulhouse. Foi uma exploso de =alegria em Paris, as pessoas 
choravam de alegria e cumprimentavam-se nas =ruas, havia 
sorrisos por toda a parte, "vive =la France! ", a euforia era 
generalizada. Mas os =acontecimentos precipitaram-se 
inesperadamente a meio do ms. Os =alemes irromperam em 
Frana atravs da Blgica e, aps dois dias de combate, as 
tropas francesas =comearam a retirar na noite de 23, no que 
foram acompanhadas pelo =BEF, o British Expeditionary Force. 
Os alemes avanaram no seu =encalo em direco a Paris, 
cidade apenas defendida por uma nica brigada de =infantaria 
naval.
Nessa altura, Agns lia na imprensa parisiense sensacionais 
=notcias de grandes vitrias das foras francesas, numa 
=operao de propaganda que ficaria conhecida por bourrage de 
=crne. Foi por isso com surpresa que, no princpio de 
Setembro, os at a eufricos parisienses receberam a 
=informao de que as tropas alems tinham atingido o rio 
Marne, =a uns meros cinquenta quilmetros a leste da capital. 
Instalou-se o =pnico=20em Paris. O governo abandonou 
=apressadamente a cidade e transferiu-se para Bordus na 
noite de 2 de Setembro, cimentando a convico de que Paris 
=estava prestes a cair.
Angustiada e s, Agns decidiu seguir o exemplo do governo, 
=mas estava fora de causa ir para Lille, uma vez que a sua 
cidade natal, =localizada perto da fronteira belga, se 
encontrava no olho do =furaco, o que a deixava mortalmente 
preocupada. Vivia em sobressalto, pensava permanentemente no 
marido, na =me, nos irmos e na irm, no pai, o que estaro 
a fazer =neste momento? tentava distrair-se, pensar noutras 
coisas, mas tudo lhe =lembrava a famlia, estaro bem? todos 
os pensamentos a conduziam  frente
159
de batalha e a Lille, era ali que se concentrava a sua vida, 
toda a =sua vida, a solido em Paris tornou-se-lhe opressiva, 
pesada, =insuportvel, sentiu-se deprimida, percebeu que no 
podia =continuar assim, "a ne va pas! ", tinha de fazer 
alguma coisa, tinha de sair dali. Optou, por isso, por 
procurar =refgio em casa dos pais de Serge, em Dinan. 
Preparou uma mala, arrumou l dentro umas roupas e Mignonne e 
na manh =seguinte foi at  Gare Montparnasse para apanhar 
um comboio com =destino  Bretanha.
O problema  que meio milho de parisienses teve exactamente 
=a mesma ideia. Agns encontrou a estao de comboios 
apinhada =de
gente, eram famlias inteiras de trouxas s costas, inquietas 
=com a aproximao dos alemes, multiplicavam-se os boatos 
sobre =a situa o no terreno, dizia-se que o inimigo 
entraria em Paris =no prazo de
quarenta e oito horas, a febre do medo sucedera  febre da 
=guerra. Milhares de pessoas acotovelavam-se na Gare 
Montparnasse =carregadas de sacos, maletas, caixotes, 
embrulhos com farnel, =crianas a chorar, a ansiedade 
estampada nos olhos. Agns foi para a fila do guichet e levou 
seis horas para comprar bilhete =para Rennes.
A odisseia seguinte foi a de conseguir entrar no comboio. Um 
mar de =gente enchia os terminais da estao e s ao fim da 
tarde,=20
encharcada em suor e cheia de fome,  que logrou subir a uma 
=carruagem. O comboio transbordava de gente, algumas portas
nem sequer se conseguiram fechar e estava fora de causa obter 
um =lugar sentado. Agns passou doze horas de p, no 
corredor, =encostada a outros passageiros, exausta e 
cambaleando com sono, =suportando os sucessivos pra-arranca 
da composio em todas
as estaes e apeadeiros, at finalmente chegar a Rennes, =j 
o Sol nascera. Um coche alugado na estao levou-a, 
=lentamente e aos
solavancos, at Dinan, numa viagem que durou mais oito 
horas,=20
e foi num estado de total esgotamento que se arrastou at  
=porta da casa dos sogros, um apartamento na Rue de =la 
Lainerie, no
corao de um velho bairro de charme medieval. A =situao no 
teatro de operaes sofreu um novo volte-face.
O VI Exrcito francs e uma diviso argelina juntaram-se = 
brigada de infantaria naval na defesa de Paris, sob o comando 
do
160
general Gallini. O comandante-chefe francs, general Joffre, 
=deu a capital como perdida e prosseguiu a retirada do 
Exrcito, =planeando uma contra-ofensiva para mais tarde. A 
vanguarda das tropas =alems imobilizou-se no Marne e, 
hesitando, comeou at a afastar-se =para leste, esperando um 
realinhamento de foras. Gallini viu a =oportunidade e 
atacou a 4 de Setembro. Confrontado com o facto consumado =da 
deciso unilateral do comandante da defesa de Paris, Joffre 
suspendeu a =retirada e optou por tambm atacar. O VI 
Exrcito, proveniente da =capital, atingiu de surpresa o 
Exrcito alemo na manh de 6 de =Setembro e derrotou-o aps 
trs dias de combate. Os alemes ordenaram uma retirada geral 
no dia 9 e =realinharam as suas foras ao longo do rio Aisne, 
onde cavaram =posies defensivas. Paris estava salva, mas 
comeava a guerra =das trincheiras.
A vitria na Batalha do Marne restituiu a confiana dos 
=franceses no seu exrcito, e muitos parisienses que se 
tinham =refugiado na provncia comearam a voltar para casa. 
Agns empreendeu o longo caminho de regresso e entrou no seu 
apartamento de =Les Halles em meados de Setembro. As ruas de 
Paris apresentavam-se ainda =semidesertas, com muitas lojas 
fechadas e algumas vitrinas partidas, =produto dos saques 
ocorridos no auge da=20confuso. Madame Jolinon, a governanta 
do edifcio onde morava e =que permanecera na capital nos 
dias de incerteza, contou- lhe que os =txis de Paris se 
tinham mobilizado nos momentos mais difceis da Batalha do 
Marne, transportando seis mil soldados de reserva =para a 
frente de combate. Segundo ela, foi isso que salvou o VI 
=Exrcito e, em ltima instncia, a prpria cidade. Era um 
exagero, claro, mas a mulher limitava-se a repetir o =que 
ouvira, o facto  que os propagandistas no resistiram a 
=difundirem o mito de que os civis tinham desempenhado um 
papel =preponderante naquela aco desesperada, podia no ser 
verdade mas era ptimo para o moral.
Agns esforava-se por atear o fsforo e acender o lume, =mas 
no havia meio de a chama aparecer. Vezes sem conta riscou o 
=fsforo na caixa e nada aconteceu, riscou com tanta fora 
que o
161
pauzinho acabou por se quebrar. Foi buscar outro e outro 
ainda, mas =nada sucedia, por mais que raspasse os fsforos o 
lume teimava em =no dar sinal de si.
"Malditos fsforos", comentou para Mignonne, irritada. "Ser 
=que esto molhados? "
Apalpou a cabea negra do ltimo em que pegara e verificou 
=que estava de facto hmido. Praguejou e foi procurar uma 
segunda =caixa ao armrio. Conseguiu finalmente acender o 
fogo e colocou a =panela sobre a chama. Havia muito tempo que 
lhe apetecia um gras-double e nesse =dia enchera-se de 
pacincia para cozinhar o prato. Deixou =momentaneamente a 
panela ao lume e foi  janela espreitar o cu. O =sol 
desaparecera com o Vero, Setembro aproximava-se do fim e o 
Outono instalara-se bruscamente em =Paris, cobrindo a cidade 
com um sombrio manto cinzento.
Toc. Toc. Toc.
Agns sentiu baterem  porta. Ainda de avental foi ver quem 
=era. Abriu a porta e deu de caras com um correio da Arme de 
Terre, =de bon na mo e um saco a tiracolo.
"Madame Marchand? "
"Oui? "
O homem estendeu-lhe um envelope. Intrigada, ela limpou ao 
avental =as mos ainda molhadas, pegou na carta e rasgou a 
faixa lateral do =envelope. Era um postal do Ministre de =la 
Guerre a lamentar ter de a informar de que o =marido, o 
soldado Serge Marchand, morrera como um heri no =cumprimento 
do dever e na defesa da ptria.
Agns releu o texto, incrdula, boquiaberta, olhou para o 
=homem do correio  procura de um sinal de que aquilo no 
passava =de uma brincadeira, o homem baixou os olhos, 
embaraado, ela voltou a mirar o postal e, apreendendo 
finalmente o pleno =significado daquela tremenda notcia, 
sentiu o mundo girar e =desmoronar-se debaixo dos ps, o cho 
a rodopiar como um pio =descontrolado, a memria da voz de 
Serge cantarolando "je veux" mourir, o ma desse, en ce =beau 
soir, sous ta caresse a ecoar-lhe na mente como um pressgio 
que =ignorara, a melodia afastando-se
162
devagar, como se fugisse, como se se afastasse num tnel 
=longnquo, a voz a desaparecer, a esfumar-se at se perder 
num =profundo e doloroso silncio.
Aos vinte e trs anos, e apenas trs meses depois do 
=casamento, Agns estava viva. O postal no dava pormenores 
=sobre a morte de Serge nem dizia onde se encontrava o corpo, 
algo que =tornou o luto ainda mais difcil. Os dias que se 
seguiram  recepo da notcia foram de =grande 
desorientao. Agns recusou-se a sair de casa e foi =madame 
Jolinon quem lhe deu apoio, preparando-lhe as refeies, 
=fazendo-lhe alguma companhia, tentando consol-la.
"Courage, ma petite, voc ainda  nova,  duro mas tem de 
=resistir, c'est la vie! Tambm eu j perdi o meu Honor, sei 
o =que custa, mas aqui estou pronta para outra. "
Os familiares de Serge visitaram-na com decrescente 
frequncia. =Sem o marido, nada a ligava quela gente. Foram-
se gradualmente =afastando at deixarem de se ver. Mignonne 
foi guardada numa mala =para no mais ser tocada, era uma 
forma de enterrar a infncia, cujo fim a =notcia da morte de 
Serge tinha terminalmente precipitado. Deixou de =ser uma 
mulher feliz e despreocupada, o peso do mundo desabou-lhe 
sobre =os ombros.
Para Agns comeou a tornar-se evidente que no podia 
=continuar em Paris. No tinha o marido para a sustentar, a 
ela e aos estudos no ltimo ano =de Medicina, e o apartamento 
de Les Halles tornara-se insuportavelmente =vazio. O problema 
 que a ligao  sua famlia se =mantinha cortada. Os 
alemes ocupavam parte da Flandres e Lille ficava agora por 
detrs das =linhas inimigas. Isso significava que nem ela 
podia regressar a casa nem =os pais lhe podiam enviar ajuda. 
De resto, no era possvel sequer =saber o que se passava em 
Lille, no tinha notcias dos pais e de Claudette e, aps o 
que acontecera =a Serge, alimentava os piores pressentimentos 
em relao a Gaston =e Franois.
Deixou de estudar e comeou a encarar seriamente a 
possibilidade =de arranjar trabalho. Com a ida dos homens 
para a guerra, milhes de =francesas estavam j a substitu-
los nos empregos, at
163
porque os salrios eram melhores do que estavam habituadas. 
=Havia cada vez mais mulheres a conduzirem elctricos e 
=ambulncias, embora a maior parte estivesse a convergir para 
as =fbricas de armamento. Agns admitiu tornar-se uma 
munitionette, como eram conhecidas essas =operrias, mas o 
destino reservava-lhe outros planos.
 entrada do Inverno, Agns foi comer uma choucroute  
=Brasserie Bofinger, na Place de la Bastille. Sentou-se num 
banco de couro da cervejaria a observar distraidamente os 
ricos =vitrais do estabelecimento, a mente a vaguear pela sua 
vida, pelas =opes que lhe restavam, pelas difceis decises 
que teria de tomar. A cervejaria encontrava-se quase deserta, 
no =havia muitos jovens para a frequentarem, estavam quase 
todos na guerra. Foi talvez por isso que os seus olhos 
pousaram num homem de =meia-idade que acabara de entrar e 
fechava o guarda-chuva junto  =porta. Reconheceu o baro 
Jacques Redier, o velho amigo do pai.
"Senhor baro! ", chamou.
O baro Redier virou a cara e os seus olhos encontraram-se, 
mas =ele manteve uma expresso interrogativa, no a 
identificara. =Agns fez-lhe sinal para se aproximar. Ele 
hesitou, mas obedeceu.
"Minha senhora", cumprimentou. "A que devo a honra? " "Senhor 
=baro, no se lembra de mim? Sou a Agns, estive em sua 
casa."
"Pardon "
"Sou Agns Chevallier, a filha de Paul Chevallier, de Lille. 
=Lembra-se de mim? "
O rosto do baro abriu-se num sorriso caloroso, efusivo at. 
="Agns! Meu Deus, como ests mudada! Ests uma mulher, 
=rapariga, nem te reconhecia!"
"Sente-se, sente-se "
O baro acomodou-se.
"Ah, mas que surpresa! ", exclamou. "No esperava encontrar-
te =por aqui, palavra de honra. Ests bonita, h? Uma 
verdadeira flor. =" Ficou a mir- la um instante. "Ento a 
tua famlia? "
O sorriso de Agns desfez-se.
164
"Os meus pais e a minha irm esto em Lille e no tenho 
=notcias deles desde que a guerra comeou. "
"Oh diabo! Isto  um aborrecimento, a guerra". Suspirou. 
="Felizmente que vai acabar depressa. "
" O senhor acha?"
" o que dizem os jornais. Alm do mais, j impedimos os 
=boches de chegarem aqui a Paris. Agora  tudo uma questo de 
tempo =at que os polticos se entendam. Portanto, no 
estejas preocupada que vai correr tudo bem, tenho a certeza 
disso. "
"Quanto tempo? "
"No sei, talvez cinco ou seis meses... "
" muito... ", desabafou Agns com desnimo.
"No te rales, rapariga. Seis meses passam depressa", 
observou o =baro. "O que ests a fazer em Paris? "
"Oh, estou a estudar Medicina. "
"E com os teus pais l em Lille, como  que arranjas dinheiro 
=para financiar o curso?"
Agns baixou os olhos.
" esse o problema", disse. "Vou ter de suspender o curso e 
ir =trabalhar. "
"Trabalhar?  o que mais faltava! "
"Porqu? ", admirou-se Agns. "Tenho de viver, no ? " 
="Sim, claro, mas nem pensar em trabalhar. "
"Como assim? H muitas mulheres que esto a ir para as 
=fbricas de armamento para. "
"Nem penses nisso! ", cortou o baro. "Eu no me chame 
=Jacques Redier se no te ajudar. "
"Mas... "
"Olha, por que no vens para Armentires comigo? Desde que a 
=minha mulher faleceu que me tenho sentido muito s naquele 
palacete =imenso. "
"A senhora baronesa faleceu? Oh, lamento muito. " "Obrigado. 
Ela =morreu h dois anos, coitadinha, vtima daquela 
tuberculose =crnica de que padecia h muito tempo. De modo 
que s tenho o =Marcel para me fazer companhia. Ora, se
165
h uma coisa que aprendi  que os mordomos so uns 
=companheiros entediantes. Preciso por isso de algum que 
encha o =chteau de alegria. Por que no vens para 
Armentires? "
"Mas, senhor baro, eu no posso ir para Armentires... " 
="Ah no? E ficas aqui a fazer o qu? A passar fome? Vais 
para as =fbricas colocar plvora nos cartuchos? O que  que 
te prende a =Paris, valha-me Deus? No s casada, pois no? "
"Sou viva. "
O baro abriu a boca de espanto.
" Como?"
"Casei-me h pouco tempo, mas depois veio a guerra e o meu 
=marido alistou-se... "
O baro passou a mo pelo cabelo.
"Compreendo", murmurou, constrangido. "Pobrezinha, deves 
estar a =passar tempos difceis". Fez uma pausa. "Mais uma 
razo para vires =para Armentires comigo, no ests aqui a 
fazer nada. Diz =l, h alguma coisa que te prenda a Paris? "
Agns ficou parada a olhar para ele.
"Bem... eu. ", gaguejou. "Em bom rigor, nada. Mas no me 
parece =de bom tom ir para o seu chteau. "
"Que disparate! ", exclamou o baro. "Conheo-te desde 
=pequena. Precisas de ajuda, ests sozinha, a mim tambm me 
d =jeito arranjar companhia, o que mais queres? Tenho 
obrigao de te =ajudar, sobre isso no resta a menor dvida. 
Alm do mais, esta  apenas uma soluo temporria, =at a 
guerra acabar. Quando a paz regressar, vais a Lille ter com a 
=tua famlia e voltas aqui a Paris para concluir o curso "
"Mas, senhor baro, no posso aceitar isso. "
"No digas palermices. Na situao inversa, tenho a =certeza 
de que o teu pai ajudaria um filho meu. " Fez um gesto 
=enftico com a mo. "Est decidido, rapariga. Vens para 
=Armentires comigo e no se fala mais nisso. "
Foi assim que Agns se viu, no princpio de 1915, instalada 
=no Chteau Redier, o enorme casaro onde passou tantos fins 
de
166
semana na sua meninice. O palacete dava-lhe conforto e 
=segurana, mas, por outro lado, tinha o enervante 
inconveniente de =estar relativamente prximo das primeiras 
linhas. O permanente =marulhar da artilharia, feito de um 
furioso mar de ondas que teimosamente fustigava rochedos 
=invisveis, deixava-a algo inquieta. Com o tempo, porm, 
foi-se =habituando aos sons daquela longnqua mas incansvel 
tempestade, o trovoar constante transformou-se numa rotina, 
num =barulho de fundo que se vai aprendendo a ignorar.
O baro tratava-a como uma filha, o que, dada a diferena de 
=idades e a proximidade de Redier ao seu pai, parecia 
natural. A =relao entre os dois foi, todavia, evoluindo 
gradualmente, um =sorriso aqui, um toque ali, uma palavra 
acol, at se tornar inevitvel a conversa que tiveram no 
salo, numa =tarde cinzenta e ociosa, depois de terem tomado 
o ch das cinco e =trincado umas madeleines de fabrico 
caseiro.
"Tenho uma proposta a fazer-te", anunciou ele com ar solene, 
=recostado no canap.
Agns balouava suavemente na sua cadeira de balano, 
=olhando com melancolia para l da janela, para as rvores do 
=jardim que farfalhavam debaixo do vento fresco do anoitecer.
"Sim? "
O baro pigarreou e endireitou-se. Agns sentiu-o subitamente 
=perturbado e desviou para ele a ateno, observando-o com 
=curiosidade. Redier enrubescera, tinha o rosto tenso e os 
olhos =inquietos, parecia nervoso.
"Sabes, Agns, desde a morte da minha Solange que me tenho 
=sentido muito s. Este palacete  enorme, mas no to grande 
=como a solido que me atormenta. A vida parece-me vazia, sem 
sentido, =os dias passam uns atrs dos outros e eu tenho esta 
terrvel sensao de vegetar, sem =direco nem rumo,  merc 
do tempo e do que o destino me =quiser oferecer." Fixou-lhe 
os olhos. "A tua vinda mudou um pouco tudo isso, =trouxe-me 
alegria e uma certa raison de vivre. Afeioei-me a ti e =no 
sei se suportaria viver nesta casa sem a tua presena. Tenho, 
=por isso, uma proposta a fazer-te. "
167
O baro calou-se e ficou a observ- la, como se estivesse 
=mergulhado num debate interior, tentando decidir se avanava 
ou =no com a ideia que lhe fervilhava na mente. Agns 
agitou-se, =inquieta, na sua cadeira de balano, 
desconfortvel com o enervante silncio que se seguira 
quelas intrigantes =palavras.
"Sim? "
Redier suspirou pesadamente, ganhando coragem para avanar 
com a =sua arrojada proposta, sabia que, depois de a 
formular, no haveria =caminho de retorno, tudo seria 
diferente.
"Sou um homem de meia-idade e no tenho iluses sobre o que 
=sentes em relao a mim. " Piscou os olhos com um tique 
nervoso. ="Mas, mesmo assim, gostaria de pedir a tua mo em 
casamento. "
Agns abriu a boca, surpreendida com a ideia. Encarava o 
=baro como uma figura paternal, protectora e amiga, e no 
sentia a =menor atraco por ele. A sua primeira reaco foi 
a de =dizer que o casamento estava totalmente fora de 
questo. Ainda esboou um gesto para rejeitar logo ali o 
pedido, mas =hesitou, de certa forma afeioara-se a ele e no 
o queria magoar =nem ofender, percebeu que teria de recorrer 
ao seu melhor tacto para =lidar com a situao. Considerou a 
maneira mais apropriada de abordar o assunto e optou =pela 
prudncia.
"Bem, senhor baro, essa ...  uma proposta inesperada, 
=estou surpreendida", gaguejou, ganhando tempo para pensar. 
"A bem dizer, =nem sei o que responder"
"Responde que sim", implorou ele fervorosamente. Agora que 
=formulara a proposta mostrava-se decidido a ir at ao fim. 
"Por =favor, diz que sim"
"Mas temos uma grande diferena de idade, o senhor podia ser 
meu =pai. "
"Escuta, Agns. Como eu te disse, no tenho quaisquer 
=iluses. Sei que no me amas, isso  evidente e natural, s 
=muito mais nova do que eu. Mas suplico-te que pelo menos 
consideres =seriamente o meu pedido. Deixa-me que te diga que 
os melhores casamentos no so os que partem de =uma paixo 
que depressa
168
se extingue, mas aqueles cujo amor vai nascendo com o tempo e 
=amadurecendo como o vinho. No tenho dvidas de que irs 
=aprender a gostar de mim, esse sentimento ir crescer 
naturalmente e =estou certo de que poderemos ser muito 
felizes."
"E se no crescer? "
"Crescer, tenho a certeza. "
" possvel, no digo que no. Mas, e se no =crescer? " O 
baro voltou a suspirar, considerando essa hiptese. ="Bem, 
parece-me evidente que essa  uma possibilidade que temos de 
=admitir. " Coou o queixo, pensativo. "Olha, podemos 
perfeitamente comear devagar, =deixar que as coisas 
aconteam naturalmente. Por exemplo, em vez de =irmos logo 
viver para o mesmo quarto, cada um pode manter-se 
inicialmente nos seus aposentos, aguardando o curso normal 
dos =acontecimentos, sem nada forar. Eu acho  que temos de 
fazer o =caminho caminhando. "
Agns disse que tinha de pensar. Era um mero estratagema para 
=ganhar tempo e procurar uma forma de rejeitar delicadamente 
a proposta. =Ao longo da semana que se seguiu considerou a 
ideia de vrios =ngulos, at admitiu o casamento como 
hiptese acadmica, imaginou como seria a sua vida unida 
quele homem. =A verdade, surpreendeu-se,  que talvez nem 
fosse assim to m =como isso. Ali estava ela perdida num 
mundo hostil, desenraizada, =separada da famlia, fragilizada 
e vulnervel, e quem a ajudara, quem lhe tinha estendido a 
mo sem hesitar =na sua hora difcil, tinha sido o baro, 
aquele mesmo homem que =ela se mostrava to pronta a 
desdenhar.  verdade que Redier era =mais velho do que ela e 
que no a atraa, mas, observando-o agora com outros olhos, 
no os olhos de uma =rapariga sonhadora, mas os de uma mulher 
madura, verificava que o =baro at se revelava um homem 
interessante, bem conservado para a =idade, enrgico e seguro 
de si. No se tratava, evidentemente, de um Matt Moore, longe 
disso, do ponto de =vista fsico no se podia comparar  
famosa estrela de cinema, =mas, quand mme, o baro 
distinguia-se pelo ar charmant e mostrava =ser uma pessoa 
sensvel e culta. Alm do mais, concluiu, era sensata a ideia 
de no forar as
169
coisas, de deixar que o casamento seguisse o seu rumo 
natural. =Agns deu consigo a imaginar-se realmente a viver 
com aquela figura =distinta.
Casaram-se num sbado chuvoso de Outubro de 1916 na 
=Conservatria de Armentires, numa cerimnia civil em que o 
=nico membro da famlia que a acompanhou foi Gaston, o irmo 
=que desempenhava funes administrativas no sector de 
Champagne e que se encontrava de =licena. No momento da 
verdade, Agns fechou os olhos, despediu-se =em segredo de 
Serge, sentiu-se invadida por uma plcida serenidade e, =num 
sopro furtivo, disse "oui ".
170
VII
O quartel do Ppulo dominava a grande praa com a sua larga 
=fachada branca,  esquerda a igreja, a meio a porta de 
armas. O =alferes Afonso Brando saudou a sentinela e entrou 
no edifcio onde estava aquartelado o Regimento de Infantaria 
8. Atravessou o =ptio de entrada e galgou a pedra das vastas 
escadarias interiores =que cruzavam o centro das instalaes. 
Afonso subiu os degraus sempre a admirar os vistosos azulejos 
azuis =que embelezavam as paredes caiadas, eram reprodues 
de =buclicas cenas de monges em jardins, reminiscncias da 
origem =religiosa do vasto edifcio. Na sua anterior passagem 
por Braga, nos tempos do seminrio, soubera que aquele 
=quartel era o antigo convento dos eremitas de Santo 
Agostinho, pelo que =a decorao no lhe passou despercebida. 
Calcorreou o soalho de madeira no primeiro =andar e foi 
apresentar-se aos seus superiores hierrquicos.
A vida de um oficial no quartel de Braga era to aventurosa 
como =o retiro de uma freira num convento. Sem nada para 
fazer, a no ser =talvez entediar-se at  morte, Afonso 
passou os primeiros dias a =reconhecer o edifcio e a 
inteirar-se da sua histria. Descobriu que o Estado havia 
tomado conta =do convento em
171
1834, quando da guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel, 
passando =as instalaes a servir de boleto das vrias foras 
=militares que iam para Braga enfrentar a guerrilha 
miguelista e =pacificar a regio. Infantaria 8, originalmente 
um regimento de Castelo de Vide, foi uma =dessas foras, 
tendo sido destacado para o Minho com a misso de =combater 
os miguelistas e Maria da Fonte, e acabando por se fixar no 
=quartel do Ppulo=20em 1848, a pedido do municpio 
bracarense.
Quadros rsticos no topo das paredes das escadarias centrais 
do =quartel mencionavam "combates em que tommos parte nas 
alturas de", =seguindo-se uma longa lista de locais e datas, 
Buaco em 1810, =Fuentes de Onoro em 1811, Salamanca em 1811, 
Pyreneos em 1813, Nive em 1813, Barcelona em =1814, Orthez em 
1814, Toulouse em 1814, e outros registos do gnero. Afonso 
estranhou alguns dos nomes e foi ter com o alferes Pinto, =um 
minhoto magro e ruivo, chamavam-lhe o Cenoura,=20rapaz 
arrebatado e nervoso, simpatizante da monarquia e com quem 
tinha =travado amizade. O alferes Pinto estava havia dois 
anos no regimento e =Afonso perguntou-lhe o que significavam 
aquelas referncias.
"So as batalhas em que o nosso regimento participou", 
=esclareceu prontamente o Cenoura.
" Infantaria 8?"
"Sim, claro, quem querias que fosse? "
"Mas ali so mencionadas cidades francesas, como Orthez e 
=Toulouse... "
" E ento?"
"Mas ns estivemos a combater em Frana? "
" Sim. "
"Em Frana?"
"Sim, claro. Foi durante as invases napolenicas. Fomos 
=atrs dos gajos pela Espanha e pela Frana, com o Wellington 
a =comandar-nos, dizia ele que ns ramos os galos de guerra 
do seu =exrcito. "
"Arre!"
172
Para matar o tempo, Afonso tornou-se visita regular do padre 
=lvaro e foi duas vezes ao Largo de So Thiago visitar o 
=seminrio e rever rostos conhecidos. Os seminaristas eram 
outros, mas =D. Baslio Crisstomo permanecia ainda como 
vice-reitor e os professores mantinham-se, = excepo do 
padre Fachetti, entretanto regressado a =Npoles, e do padre 
Nunes, que se transferira para o Porto. V-lo de uniforme 
deixou os padres surpreendidos, Afonso passara de =soldado de 
Cristo a soldado de el-rei, ironia que suscitou =comentrios 
espirituosos.
"Ainda ds pontaps nas pedras? ", perguntou-lhe o padre 
=Francisco, o bonacheiro mestre de Retrica.
Todos se riram e Afonso corou.
"s vezes. "
"Mas que grande pagodeiro! ", troavam os padres, divertidos 
a =recordarem as bizarras cenas no ptio do seminrio.
At o vice-reitor, que na altura no achara piada nenhuma =s 
brincadeiras, parecia agora encontrar nelas uma graa 
=inesperada, como se aquele comportamento que suscitara a 
expulso do seminarista se tivesse transformado numa mera 
excentricidade digna =de figurar na mitologia da instituio.
"Ento como  que deste em oficial, Afonso, tu que no =fazes 
mal a uma mosca? ", quis saber D. Baslio Crisstomo.
"Oh,  uma longa histria", suspirou Afonso. "Digamos que 
=andei  procura de uma profisso em que no se faa nada. 
=Como vocs no me deixaram ir para padre, l fui eu para a 
=tropa.
"Ests a ser injusto", comentou o padre Francisco com ar 
=trocista. "Ns dedicamo-nos a Deus, e nada existe de maior 
=responsabilidade. Alm do mais, temos de aturar os alunos do 
=seminrio, e isso d uma trabalheira dos diabos, acredita. "
"Oh, se d", concordou D. Baslio em tom bonacheiro. "Mas 
=olhem que ns na tropa tambm nos fartamos de trabalhar", 
atalhou =Afonso.
"A fazer o qu, pode saber-se? "
"Muita coisa. Para alm das formaturas, jogamos s cartas, 
=bebemos umas cervejolas, andamos a ver as catraias, 
fatigamo-nos a =dormir,  uma canseira, um labor que s visto 
"
173
Apesar de cultivar um discreto sentido de humor, o alferes 
Afonso =no era homem de fazer muitos amigos. Tratava-se de 
uma pessoa de =trato fcil e tornara-se relativamente culto e 
interessado no mundo, =mas nas relaes pessoais preferia a 
qualidade  quantidade.  excepo do =alferes Pinto Cenoura, 
o seu rol de amigos era formado sobretudo por =aqueles que 
tinha conhecido ao longo da vida. Convivia com o padre lvaro 
em Braga e ia visitar Gustavo Mascarenhas a Vila Real, o 
amigo =sempre conseguira lugar em Infantaria 13, o que no 
era surpresa para =ningum, Vila Real no era um stio muito 
procurado pelos =cadetes que se formavam na Escola do 
Exrcito. Chegou at a ir a Vinhais para ver Amrico. O 
antigo =companheiro do seminrio estava diferente, casara, 
tinha filhos e =envolvera-se no negcio do pai. Recebeu 
Afonso com efuso, =encheu-o de comida e rodeou-o de 
atenes, mas Vinhais era longe e aquela foi a nica viagem 
que o oficial =fez at  remota povoao transmontana. O 
alferes mantinha =igualmente correspondncia com Trindade 
Ranhoso, que seguira o curso de estado- maior e ainda 
=permanecia na Escola do Exrcito. Era atravs destas cartas 
que =Afonso ia recebendo notcias do Campeonato de Lisboa de 
football, sendo informado pelo Ranhoso =de que o Bemfica 
pusera fim ao reinado do Carcavellos Club e sagrara-se 
=finalmente campeo. O Sporting ficou em quinto lugar. O 
alferes =celebrou a notcia com vinho do Porto e mandou uma 
carta ao sportinguista Mascarenhas a dar-lhe a =notcia e a 
apresentar-lhe os psames.
Afonso nunca prestara especial ateno  poltica, esse =era 
um assunto que no fazia parte do seu universo de interesses. 
=Nisso tornou-se uma excepo. Quase todos os seus colegas 
discutiam com ar conspirativo o =conturbado estado do pas, e 
Afonso foi reparando que, apesar do =ambiente 
predominantemente conservador de Braga, alguns oficiais eram 
=republicanos. A cedncia da Coroa ao ultimato britnico de 
1890, que desfizera os sonhos imperiais do mapa cor-de-rosa, 
=minara profundamente a credibilidade da monarquia no meio 
militar, e =no s. O descontentamento grassava por toda a 
parte e o =prprio Afonso tendia
174
a concordar com a ideia de que a monarquia era coisa do 
passado. A =imagem do rosto lcteo de D. Manuel II na 
abertura do ano escolar de =1908 ficara-lhe indelevelmente 
marcada na memria, era para ele um =choque pensar que o rei 
no passava de um rapazote da sua idade, como era possvel 
acreditar =que um mido ainda imberbe seria capaz de governar 
um imprio?
Foi ao pequeno-almoo, no quartel de Infantaria 8, que Afonso 
=ouviu pela primeira vez a notcia de que algo muito grave 
estava a =acontecer em Lisboa. Corria a manh de 4 de 
=Outubro de 1910.
"J sabes da novidade? ", perguntou-lhe o alferes Pinto com 
um =tom sigiloso mal o viu.
"Sei, o Bemfica  campeo. "
"No sejas parvo. Andam aos tiros em Lisboa. " " O qu?"
"Disse-me o telegrafista. "
"Andam aos tiros? "
" como te digo. Parece que saiu  rua o movimento 
=republicano e houve algumas unidades que aderiram. "
"Quem? "
"No sei bem. O telegrafista falou-me na Marinha e na 
Artilharia =1, mas a situao permanece confusa. "
"E ns? "
"E ns? E ns nada, estamos longe das coisas. O coronel 
=reuniu-se com o seu estado-maior, os majores e os oficiais 
da sua =confiana. Dizem eles que foram conferenciar, mas eu 
acho que =esto mas  cagados de medo e preferem ficar a ver 
o que  que isto d para =depois apoiarem o vencedor"
"Tu quem  que apoias? "
"Eu? Que pergunta, Afonso. Eu sou pelo rei, j sabes. " O dia 
=prolongou-se, tenso e enervante, e os oficiais do regimento 
de Braga =passaram as horas em redor do telegrafista e a 
conspirar em voz baixa =nos corredores, uns pela monarquia, 
outros pela repblica, a maioria na expectativa e sem se 
comprometer. Pedaos =soltos de informao eram despejados 
pelo
175
telgrafo. Segundo as notcias que vinham a conta-gotas, 
=elementos de Artilharia 1 e Infantaria 16 tinham ocupado a 
Rotunda, onde =tambm se encontravam alguns cadetes da Escola 
do Exrcito e civis =armados, falava-se na Carbonria. As 
foras leais ao rei ocupavam o Rossio e defendiam pontos 
=estratgicos, como os bancos, o Arsenal do Exrcito e o 
Palcio =das Necessidades, onde se refugiava o monarca. A 
certa altura veio a =notcia de que um dos chefes dos 
revoltosos, o almirante Cndido dos =Reis, se suicidara aps 
ter tido a informao de que o golpe =fracassara.
Pouco depois de se conhecer esta notcia, o comandante do 
=regimento de Braga abandonou a sua reunio de estado-maior 
para se =colocar ao lado do rei. Sentira que os monrquicos 
iam ganhar e apressara-se a posicionar-se no lado vencedor. 
Foi =um erro. Os navios da Marinha desataram a bombardear o 
Rossio e o =Palcio das Necessidades, e uma bandeira branca 
empunhada por um =diplomata alemo para obter uma trgua 
destinada a retirar os cidados estrangeiros foi erradamente 
=interpretada como sendo um sinal de que os monrquicos se 
rendiam. Os =populares saram em massa  rua para festejarem 
a vitria da =Repblica. O regime ficou desconcertado e, num 
acesso de pnico, o rei =fugiu. Na manh do dia 5, os lderes 
do movimento republicano =subiram  varanda da Cmara 
Municipal de Lisboa e, perante uma =vasta e eufrica multido 
que se concentrara na Praa do Municpio, Jos Relvas 
=proclamou a Repblica em Portugal.
A vida mudou imenso em Braga. O novo poder em Lisboa contou 
as =espingardas monrquicas nos regimentos e procedeu  
limpeza. O coronel que comandava Infantaria 8 passou  
reforma =antecipada e o mesmo aconteceu aos majores e 
capites da sua =confiana que tinham cometido a imprudncia 
de apoiarem a monarquia no momento em que esta se 
desmoronava. =Pinto Cenoura, apesar de monrquico, escapou  
varridela geral, =l devem ter pensado que no valia a pena 
preocuparem-se com a =arraia-mida, e o que era um alferes 
seno arraia- mida? Seja
176
como for, a limpeza provocou um movimento ascendente no 
quartel.
Como vagaram vrios postos de oficiais, sucedeu-se uma 
catadupa =de promoes e Afonso deu consigo em tenente apenas 
um ano depois =de ter abandonado a Escola do Exrcito. Mas as 
vagas continuavam por preencher, pelo que, logo a seguir, 
=foi a vez de o alferes Pinto ser igualmente promovido, 
talvez a sua =costela monrquica fosse considerada uma mera 
bizarria da juventude.
A Repblica trouxe consigo um acirrado clima anticlerical, o 
que =se traduziu num rpido cerco  Igreja, fruto da promessa 
do novo =governo em acabar com o catolicismo no pas em duas 
geraes. =Os jesutas foram expulsos, o ensino do 
catolicismo proibido nas escolas =pblicas, vrios bispos 
foram destitudos ou desterrados e foi =aprovada a lei do 
divrcio. Em 1911 foi publicada a lei da =separao das 
igrejas do Estado, que ps fim aos subsdios  Igreja e lhe 
expropriou bens, incluindo =propriedades. Um dito mandou 
encerrar todos os seminrios do =pas e o Seminrio Conciliar 
de So Pedro e So Paulo no =foi excepo. Professores e 
alunos foram mandados para casa e o edifcio do =Largo de So 
Thiago entregue a Infantaria 29.
"Este pas est um caos", queixou-se amargamente o =vice-
reitor, D. Joo Baslio Crisstomo, quando Afonso o =visitou 
nas vsperas de o edifcio ser abandonado. "Valha-me Deus, =o 
poder caiu  rua! Onde  que j se viu perseguir assim a 
Igreja? Parece que voltmos  Roma antiga! "
"Tenha calma, D. Crisstomo, que tudo se h-de compor. " 
="Calma? Calma? Valha-me Deus, Afonso! ", agastou-se o vice-
reitor, =deambulando amargurado por entre os caixotes de 
tralha que arrumava =antes que chegassem os homens do 29. " 
uma vergonha para a civilizao o que nos esto a fazer. Uma 
=vergonha, ouviu bem? E uma vergonha para o uniforme que voc 
enverga! =Onde  que j se viu entregar um seminrio  tropa? 
Onde = que j se viu mandar encerrar os seminrios? Mas que 
pas  este, Virgem Santssima, que =pas  este que assim 
persegue a f?"
177
As mudanas eram generalizadas e atingiram quase todas as 
=instituies. At a Escola do Exrcito teve de mudar de 
=nome, passando em 1911 a Escola de Guerra. O governo 
republicano =reorganizou o Exrcito, abandonando o modelo 
profissional e adoptando a forma miliciana, =e a Escola viu 
suprimido o curso de Engenharia Civil, ficando 
=exclusivamente dedicada ao estudo das cincias blicas. 
Rolaram =cabeas monrquicas por toda a parte e os postos 
cruciais foram entregues a =republicanos, mas a maior parte 
dos oficiais que ocupavam os cargos =intermdios permaneciam 
leais  coroa exilada e manifestavam m =vontade para com o 
novo regime.
O aparecimento da Repblica no ps fim  conturbada 
=instabilidade poltica em que o pas estava mergulhado, at 
=porque havia uma enorme expectativa popular em relao aos 
=republicanos, expectativa de que as suas polticas 
conduziriam rapidamente  estabilidade e  prosperidade e 
=que eles, naturalmente, no conseguiram satisfazer. Em boa 
verdade, =s se podiam recriminar a si mesmos, to alta tinha 
sido a fasquia que colocaram quando se encontravam na 
=oposio  monarquia. Para conter os preos dos produtos 
=alimentares bsicos, o novo governo criou uma tabela de 
preos independente da lei da oferta e da procura. Como 
resultado, e apesar =de a tabela nem sempre ser respeitada, a 
produo agrcola =baixou em qualidade e quantidade. Nos 
mercados comearam a escassear =os cereais, o feijo, a 
batata e a carne, e at o po se tornou escuro e malcheiroso.
O descontentamento grassava, em particular no Norte, liderado 
pelo =clero. Os prprios republicanos estavam divididos, com 
Afonso Costa a =chefiar os radicais, Antnio Jos Teixeira a 
liderar os moderados =e Brito Camacho  frente dos 
conservadores. As medidas radicais, tanto no combate  
=Igreja como na poltica econmica e social, eram 
invariavelmente =levadas a cabo por Afonso Costa, com 
Teixeira e Camacho horrorizados com =o que consideravam serem 
excessos reformistas. Como se toda esta confuso no 
bastasse, =tambm os monrquicos se encontravam divididos, 
com os fiis do =rei no exlio a mostrarem-se mais moderados
178
na sua oposio  Repblica do que um outro grupo, =chefiado 
por Paiva Couceiro, que se refugiara na Galiza e se preparava 
=para pegar em armas. No meio deste clima =efervescente 
multiplicavam-se os boatos e falava-se em golpes de Estado, 
=em novas revolues, em guerra civil.
Embora no estivesse alheado dos problemas que o rodeavam, 
=Afonso viveu com indisfarvel prazer a sua condio de 
=tenente. O soldo de tenente era melhor do que o de alferes, 
as =refeies na messe dos oficiais no eram ms apesar da 
crise, ia  missa na S, sentando-se sempre por baixo =do 
magnfico rgo, como nos seus tempos de seminrio, e 
=usufrua da cumplicidade de novos amigos, sobretudo do 
tenente Pinto.
Na companhia do Cenoura, Afonso ganhou gosto s coisas doces 
da =vida. Passavam o dia a jogar bridge no caf A Brazileira, 
onde um =cartaz na esquina da Rua Nova de Sousa, rebaptizada 
Rua D. Diogo de =Sousa em 1912, anunciava que "o melhor caf 
 o d'A Brazileira", ou a ver as garotas a bambolearem-se no 
Jardim =Pblico. Iam comprar mas e regueifas de po podre  
Padaria =Central ou comer sameirinhos e fidalguinhos  
Marinho & Filho, a =velha pastelaria que todas as tardes lhes 
adoava a boca e temperava a alma. Por vezes almoavam na 
Penso =Aliana, que servia boas sarrabulhadas, ou no Hotel 
Central, mesmo =junto ao quartel, onde a opo variava 
sobretudo entre o sarapatel =e o empado de peixe.
s quintas e domingos  noite, Afonso e os restantes oficiais 
=juntavam-se s famlias em torno do coreto do Jardim 
Pblico, =pomposamente designado Pavilho Musical, e 
escutavam os concertos da =banda militar de Infantaria 8. Nas 
outras noites, os tenentes Afonso e Pinto iam =encher-se de 
cerveja na Cervejaria Cruz & Sousa ou davam um salto ao =Caf 
Vianna, por baixo da Arcada, e ficavam a jogar  roleta,  
=batota e  banca francesa at s duas da manh. O ambiente 
fumarento era animado pela melodia alegre =dos concertos de 
piano e pelos bailados das rolias danarinas =contratadas 
para entreterem os fregueses. Uma vez
179
por outra, enquanto mirava as carnudas bailarinas do Vianna, 
Pinto =desafiava o amigo.
" Afonso, vamos s meninas das Travessas. "
Primeiro envergonhadamente, depois mais  vontade, Afonso 
seguia =o Cenoura e iam ambos ao Bairro das Travessas, por 
detrs da S, =visitar as prostitutas da Rua de Santo Antnio 
das Travessas. Aquele =era um bairro proibido, s frequentado 
por mulheres de m fama e por homens que as procuravam. 
=Nenhuma mulher honrada se atrevia a pr o p naquelas 
paragens de =ruelas estreitas e intenes suspeitas, quem 
fosse por ali encontrada perderia certamente a honra =e dir-
se-ia que tinha sido "vista nas Travessas", referncia 
=humilhante e vergonhosa que marcaria para sempre qualquer 
mulher como =rifeira, trapalho, buxote, e mesmo, se os 
comentrios se tornavam verdadeiramente cruis, buscate. 
Atormentado =pela velha conscincia de seminarista, mil vezes 
jurou Afonso a si =mesmo que no mais voltaria l e mil vezes 
quebrou a promessa.
A rotina apenas foi alterada numa manh de 1913, quando a 
cidade =se encheu de um grande burburinho porque o enorme 
pinheiro americano =veio abaixo, a verso oficial era a de 
que a grande rvore fora derrubada pelo temporal da noite 
anterior, mas um empregado =do Caf Vianna confidenciou a 
Afonso, com ar conspirativo e =misterioso, que, na verdade, 
isso era desculpa, ela tinha era sido =cortada. O que  facto 
 que o municpio aproveitou para derrubar os muros do Jardim 
Pblico do Campo de =Sant'Anna e abrir uma grande avenida 
desde o ponto onde anteriormente se =encontrava o pinheiro 
americano at l ao fundo, em direco ao Sameiro. Com a nova 
Avenida Central a rasgar o jardim ao meio, =abriu-se um 
passeio pblico em ambas as alas da avenida, =instalando-se 
ali uma curiosa segregao social que muito divertia o jovem 
tenente. Os soldados e o pessoal =mais despojado subiam o 
passeio pelo lado direito da grande avenida, =frequentando 
amide o Caf Avenida, que as boas gentes de Braga 
=apelidavam desdenhosamente de "caf do reviralho". Quanto s 
boas gentes, essas preferiam o lado =esquerdo do passeio
180
pblico, com os paps e as mams a concentrarem-se junto =ao 
coreto, que sobrevivera  devastao do Jardim Pblico, 
enquanto os casais de namorados seguiam em par avenida a 
cima, =avenida a baixo, separando-se perto do coreto para que 
os pais no os =vissem juntos, um para um lado e outro para 
outro, e reencontrando-se =mais  frente.
Quando saa de Braga, Afonso dividia as suas licenas com 
=passeios pelo Minho e visitas ao Porto e a Lisboa. Evitava, 
no entanto, =Rio Maior, onde, desde que Carolina casara com o 
seu engenheiro dos =caminhos de ferro, se limitava a rpidas 
excurses  Carrachana para ver a famlia. Mas, sempre que l 
ia, =fazia questo de passar propositadamente perto da Casa 
Pereira a =exibir o seu belo uniforme, certo de que a sua 
apario seria =comunicada  antiga namorada com=20pormenores 
apimentados. H-de roer-se de remorsos, pensava Afonso 
=enquanto acariciava o punho do sabre durante esses penosos 
passeios pelo =centro da povoao, priplos que culminavam 
com uma volta pela =recm-baptizada Praa da Repblica, onde 
visitava o velho chafariz para matar a sede antes de ir 
=comer uma cachola com arroz ou um delicioso magusto  casa 
de pasto =da viva Maria das Dores.
Mas eram as idas a Lisboa e ao Porto que verdadeiramente lhe 
davam =prazer, sentia-se atrado pela civilizao, pelas 
mulheres =elegantes, pela modernidade. Nessas deslocaes 
continuava a =acompanhar o football e a visitar os 
animatgrafos. Em Braga lia o semanrio local, o Ptria Nova, 
mas =tambm o Commrcio do Porto e, sempre que calhava, os 
jornais da =capital e a Ilustrao Portugueza. No era uma 
pessoa politicamente madura mas, apesar de manter uma 
atenuada =costela religiosa, mais por fora do hbito do que 
por =convico arreigada, ia-se inclinando para os 
republicanos, =considerava-se um democrata e intimamente 
apoiava o radical Partido Democrtico, no governo, e o 
audacioso =primeiro-ministro Afonso Costa, afinal de contas 
os Afonsos tinham de =ser uns para os outros.
O regimento foi diversas vezes colocado em alerta devido s 
=incurses monrquicas. Na de 1911, quando a fora invasora
181
liderada por Paiva Couceiro entrou em Trs-os-Montes com 
=setecentos homens e ocupou Vinhais, Afonso ficou encarregado 
de =controlar o acesso a Braga pelo Arco da Porta Nova. E na 
de 1912, quando =a mesma fora veio da Galiza e tentou 
assaltar Chaves, coube-lhe a misso de defender a estrada 
para =Trs-os-Montes. O tenente Pinto acompanhou-o em ambas 
as ocasies, =mas a sua presena deixou-o intranquilo e 
desestabilizado. En quanto =vigiavam as suas posies, o 
Cenoura passou o tempo a dizer que, se os homens do Paiva 
Couceiro =lhe aparecessem pela frente, juntar-se-ia a eles, 
afinal era esse o seu =dever de patriota. Afonso praguejava 
e, em silncio, suplicava a Deus =que no deixasse Paiva 
Couceiro chegar ali a Braga, seria a maior confuso =naquela 
terra de conservadores e monrquicos. Por outro lado, 
=tornou-se-lhe evidente que os padres colaboravam activamente 
com os =monrquicos, mas fez-se distrado, afinal de contas a 
sua unidade no chegou a entrar em combate e =no valia a 
pena meter-se em trabalhos. J o seu amigo Mascarenhas, mais 
a sua Infantaria 13, viu aco de =sobra, ossos de ofcio 
para quem se encontrava aquartelado =em Vila Real.
O jovem tenente sentou-se numa manh de Agosto de 1914  
=janela do Caf Bracarense e abriu uma edio atrasada do 
=Cinematgrafo, o semanrio humorstico da cidade. Vilela, o 
=apressado director do Echos do Minho, passou pelo balco 
para pedir um rpido caf e saudou-o  distncia.
"Ol tenente", disse Vilela. "Ento j sabe das =ltimas? "
" H "
"Comeou a guerra. A Alemanha declarou guerra  Frana e 
=dizem que vai haver chatice nas colnias. "
A novidade deixou-o pensativo e preocupado. J sem vontade de 
se =rir com as graolas do Cinematgrafo, pagou o caf e 
saiu. Como =se fizera uma tarde quente de Vero, foi sentar-
se num banco em =frente ao coreto,  sombra de uma rvore, a 
meditar sobre aquela tremenda notcia. De olhos perdidos nas 
=ameias da Torre de Menagem, perfeitamente visvel do coreto, 
Afonso =logo
182
pressentiu que dificilmente o pas sairia inclume, em 
=particular por causa das colnias portuguesas em frica, 
=ambicionadas pela Alemanha.
Dois dias depois de se encetarem as hostilidades, Londres 
pediu a =Lisboa que no se declarasse neutral nem beligerante 
e os jornais =encheram-se de notcias de uma declarao 
aclamada no Parlamento a unir o destino de Portugal ao de 
Inglaterra, =com juras de apoio militar. Dois meses depois, 
na sequncia de um =pedido de peas de artilharia para o 
exrcito francs, os aliados aceitaram a entrada de Portugal 
na guerra e comeou a =ser estudado o envio de uma diviso 
para Frana, designada =Diviso Auxiliar. No entanto, a 
situao nas colnias portuguesas obri gou a repensar as 
prioridades. Os alemes =atacaram Angola pelo Sul e entraram 
em confronto com as foras =portuguesas no sector de Naulila, 
sucedendo-se outros incidentes em =Moambique com unidades 
alems vindas do Norte. As prprias populaes locais 
aproveitaram o =clima de instabilidade e algumas revoltaram-
se contra os portugueses. =Foram enviados reforos para 
frica, Braga contribuiu com Cavalaria 11 para Angola, e todo 
o processo =para se criar a Diviso Auxiliar, destinada a 
combater no teatro =europeu, sofreu um atraso. O processo foi 
mesmo interrompido no ano =seguinte, durante a efmera 
ditadura do general Pimenta de Castro, sendo reactivado logo 
que =este foi derrubado, em Maio de 1915, aps uma aco 
militar =levada a cabo por elementos essencialmente afectos 
ao Partido =Democrtico e que restabeleceu a democracia.
A Diviso Auxiliar passou a ser designada Diviso de 
=Instruo. Em Abril de 1916, o Ministrio da Guerra publicou 
a =lista de trinta e dois regimentos que deveriam ser 
mobilizados, e =Infantaria 8, que pertencia  8. a Diviso, 
era um deles. A primeira opo foi, porm, a de colocar 
=apenas quatro divises a prepararem-se para as hostilidades, 
com a 8. a de reserva. Apesar =disso, um grupo de oficiais do 
8, incluindo Afonso, foi destacado em =finais de Maio para 
Tancos, onde se envolveu no colossal esforo de =preparar a 
tropa para a guerra europeia.
183
Um mar de soldados encheu toda a rea entre Mafra, Tancos e 
=Vendas Novas, eram ao todo vinte mil homens instalados num 
gigantesco =acampamento de barracas de madeira e de lona que 
tinha sido montado numa =charneca acabada de desmatar.
Logo no primeiro dia, quando se apressava a cumprir uma ordem 
que =lhe tinha sido dada pelo major Montalvo, viu o 
entusiasmo refreado =por outros oficiais.
"Onde  que vais com tanta pressa,  Afonsinho? ", 
=perguntou-lhe o capito Cabral, um republicano conservador, 
=displicentemente encostado a um pinheiro manso.
"O major Montalvo mandou-me chamar os homens para a 
=ginstica, meu capito. "
"O major Montalvo? ", riu-se o capito. "Esse gajo quer  
=subir na vida e julga que vai para a guerra. "
Afonso olhou-o, atrapalhado.
"Meu capito,  para isso que nos estamos a preparar... "
"Ests parvo,  Afonsinho? Alguma vez ns vamos para a 
=guerra com esta tropa fandanga? Achas que os ingleses nos 
querem l?"
"Isso no sei, meu capito. Mas as ordens so para...
"Quais ordens qual carapua! Ento se te mandarem atirar a um 
=poo, tu atiras-te? Esta malta quer usar-nos para os seus 
fins, as =suas negociatas, as suas ambies. Tem mas  juzo 
e abre os =olhos! "
"Peo licena, meu capito", disse Afonso, percebendo a 
=inutilidade de alimentar a conversa e com pressa de ir 
chamar os homens.
"Vai l, vai l, mas no te deixes comer por esses =vivaos." 
Tornou-se imediatamente claro que o quadro de oficiais de 
=Tancos estava dividido quanto aos preparativos para a 
guerra. Apenas os =republicanos afectos ao Partido 
Democrtico de Afonso Costa pareciam verdadeiramente 
empenhados no processo de =instruo, transbordando de 
entusiasmo e de desejo de fazer =coisas. Os outros, 
monrquicos ou republicanos opositores ao partido =do 
governo, mostravam- se cpticos, a sua postura era negativa e
184
a atitude transbordava de cinismo, para eles era tudo 
=impossvel, a falta de equipamento revelava-se um obstculo 
=intransponvel, os soldados no passavam de uns bandalhos e 
maltrapilhos, as chefias eram formadas por =incompetentes e 
oportunistas.
O clima tornou-se muito politizado e, por mais que se 
tentasse =manter afastado daquele debate, Afonso viu-se 
irresistivelmente =atrado para a polmica, era impossvel 
manter-se distante, o =assunto emergia em qualquer conversa, 
no havia modo de o evitar, at o seu melhor amigo dentro do 
regimento =o puxava para a discusso. O tenente Pinto, o 
Cenoura, alinhava pelos =anti-intervencionistas, e, embora 
sem surpresa, Afonso depressa o =descobriu na primeira manh 
em Tancos, quando saram da tenda  procura das latrinas.
"Mas o que  que ns estamos aqui a fazer? ", interrogou-se o 
=Cenoura, insatisfeito, de passo rpido no encalo do amigo, 
=olhando para o desconchavado acampamento de barracas e 
tendas que se =prolongava em redor at perder de vista. "A 
cidade de Pau-Lona. Diz-me l se isto tem algum =jeito? "
Afonso passou a mo pelo cabelo revolto, tentando pente-lo 
=com os dedos.
"Estamos a fazer o que nos mandam. "
"Mas eu no sei se quero fazer o que nos mandam estes 
parvos."
"Tens bom remdio, Pinto", devolveu-lhe. "Sais do Exrcito. " 
="Era o que mais faltava, sair do Exrcito por causa dos 
cabres =dos republicanos. "
"Ento, se ficas, sujeitas-te, o que  que queres que eu te 
=diga? " "O que eu quero  estar a empregar bem o meu tempo, 
em vez de =andar metido em cavalgadas idiotas, estes gajos 
esto a encher-se de =dinheiro e a conduzir o pas  runa e 
ns estamos a colaborar nesta estupidez. "
" Pinto, ns estamos aqui para fazermos o nosso trabalho", 
=impacientou-se Afonso. "O resto  conversa. "
"No  bem assim, Afonso", retorquiu o Cenoura, agastado. 
="Ns estamos a ser cmplices nesta loucura. Tu achas mesmo 
que
185
faz algum sentido Portugal envolver-se nesta guerra? Ento 
vamos =meter- nos naquele matadouro que no nos diz respeito 
s porque os =senhores republicanos esto  rasca com a 
contestao que =cresce no pas?
"No tem uma coisa a ver com a outra "
"Ah no, no tem! Ento por que  que achas que aqueles 
=parvos querem meter Portugal na guerra? "
"Bem. ", atrapalhou-se Afonso, parando para se concentrar na 
=resposta, l ao fundo j se viam as latrinas e a fila de 
homens = espera da sua vez para defecarem naquele descampado 
imundo, o fedor =a fezes sentia-se  distncia. "Em primeiro 
lugar, para defender as colnias e o imprio. =E, alm disso, 
 importante que o pas se afirme no concerto =das naes. "
"Concerto das naes? "
"... e marque a diferena em relao  Espanha. " "Essa =do 
concerto das naes  boa! Andas a ler muito a imprensa 
=republicana "
"Porqu? No  verdade? "
"Claro que no", exaltou-se Pinto, gesticulando profusamente. 
="No vs que tudo isto s tem a ver com as mifas que esta 
=malta tem de que o regime mude?"
"No, no vejo "
" Afonso, mete-me isto bem na cabea", disse, de dedo em 
=riste e o bigode ruivo a tremer. "O governo est aflito com 
a =contestao s suas polticas ruinosas e espera fazer da 
=guerra uma causa comum, quer criar uma unio sagrada que 
cale as dissenes e consolide o regime. Tudo  =custa do 
nosso sangue e tudo para que aquele bando de chupistas 
mantenha =os seus tachos. "
"Ests parvo. "
"No tenhas dvidas de que  como te digo. Enquanto =andamos 
todos a apoiar os soldadinhos que vo para a guerra, 
=coitadinhos, ningum contesta o governo. Os republicanos 
esto a tentar fazer da sua causa uma causa nacional, uma 
union sacre =como
186
os franceses, e com isso tencionam manter-se no poleiro, o 
=verdadeiro objectivo de todo este exerccio. "
" Que exagero "
"Podes crer que  verdade. Isto no tem nada a ver com esse 
=tal concerto das naes. "
"Claro que tem, ou no sabes que a Alemanha quer abocanhar o 
=nosso imprio? Alm disso, no te esqueas da Espanha. "
"A Espanha? ", riu-se Pinto. "No me vais agora dizer que 
=queremos entrar na guerra por causa dos espanhis. "
"Ri-te, ri-te. Mas no te esqueas de que os ingleses andam 
=chateados com o derrube da monarquia e comearam a fazer 
olhinhos aos =espanhis. No leste no jornal que os gajos nos 
disseram que a =aliana militar no envolve a defesa das 
nossas fronteiras terrestres, apenas a defesa da =costa e das 
colnias? O que  que pensas que isso quer dizer, =h? Os 
bifes esto a tramar alguma. E no te esqueas =tambm de que 
j andam em Espanha=20a falar na necessidade de anexar 
Portugal e de esmagar o bichinho da =Repblica antes que ele 
l chegue. Alm disso, lembra-te de que =foi de l que vieram 
as incurses militares do Paiva Couceiro nos =ltimos anos. 
Junta os ingleses aos espanhis e estamos todos =arrumados, o 
que  que pensas? "
"Tudo basfias, moinhos de vento, espantalhos para assustar a 
=malta. Mas, no te preocupes, essa treta de irmos para a 
guerra =no vai passar de conversa "
"Isso j no sei. "
"Mas sei eu. S vamos para a guerra se a Inglaterra nos 
pedir. E =a Inglaterra, que no  parva e nos conhece de 
ginjeira, nunca o =vai pedir. Por isso, c vamos ficar ns a 
brincar s guerras =aqui em Tancos. "
"Olha que h dois anos, quando a guerra comeou, eles pediram 
=para a malta entrar. "
"Isso j l vai. No fomos e agora j no vamos. Os =bifes j 
nos toparam, para que  que querem eles um bando de 
=maltrapilhos a combater l em Frana? Dvamos-lhes mais 
=trabalho do que uma diviso de boches. "
187
Afonso fixou os olhos na fila de homens  sua frente,  
=espera de vez para entrar nas latrinas, e decidiu pr termo 
 =discusso.
"Olha l, vamos ou no aliviar-nos? "
Os prs e os contras dos preparativos para a guerra eram 
=calorosamente discutidos na messe de Tancos, transformada 
num verdadeiro =caldeiro de intrigas e conspiraes, os 
oficiais a =degladiarem-se sobre os mritos e demritos de um 
eventual envolvimento de Portugal na guerra, um envolvimento 
=em que poucos, na verdade, acreditavam. Mas os 
acontecimentos =precipitaram-se em 1916.
A Gr-Bretanha precisava de reforar a sua frota de navios 
=para compensar as perdas que a campanha levada a cabo pelos 
submarinos =alemes estava a infligir no contingente da 
marinha mercante. No =incio do ano, os aliados descobriram 
que trinta e seis navios alemes =se tinham refugiado em 
portos portugueses e, aps uma troca de =mensagens, Londres 
invocou a aliana militar e pediu a Lisboa que apreendesse os 
barcos. Os navios foram =tomados de assalto a 23 de Fevereiro 
e a Alemanha declarou guerra a =Portugal a 9 de Maro.
O clima conspirativo atingiu por toda a parte o seu clmax. 
=Apenas o Partido Democrtico, no poder, e o Partido 
Evolucionista =apoiavam a entrada de Portugal na guerra. Tudo 
o resto era =oposio. Os unionistas, os monrquicos, os 
catlicos, os socialistas, os sindicalistas, os republicanos 
moderados, os =republicanos conservadores, a maior parte do 
Exrcito, todos se =mostravam anti- intervencionistas. 
Conspirava-se nos corredores do =Parlamento e nos quartis, 
nos cafs e nos botequins.
Ainda em Tancos, e em pleno ambiente de surda contestao, o 
=capito Cabral voltou a acercar-se de Afonso para exprimir o 
seu =descontentamento com o estado de coisas. Repetiu os 
argumentos do =costume sobre o despropsito da interveno 
portuguesa e a irresponsabilidade criminosa do governo, e o 
tenente, =sem querer entrar em discusses que lhe pareciam 
estreis, a tudo =foi dizendo que sim, pois claro,  uma 
vergonha, o que  que se
188
pode fazer? isto no tem remdio. Encorajado com a aparente 
=receptividade de Afonso, e sem a perspiccia de perceber que 
se =tratava de mera cortesia destinada a evitar um confronto 
verbal com um =superior hierrquico, o capito deixou cair o 
verdadeiro propsito da conversa.
" tenente, diga-me l sinceramente", atalhou, como quem =no 
quer a coisa, ao mesmo tempo que o sondava intensamente com 
os =olhos. "Voc estava disposto a tomar uma atitude? "
"Uma atitude, meu capito? Mas que atitude posso eu tomar? " 
"
Uma atitude, homem, uma coisa a srio. Sei l, ajudar a impor 
=a voz da razo. "
Afonso pensou no que aquelas palavras no diziam, mas 
=sinuosamente insinuavam.
"Pegar em armas, quer o meu capito dizer? "
"Eh l, rapaz, essa  uma maneira forte de pr as coisas", 
=atalhou Cabral com uma gargalhada nervosa e os olhos 
perscrutadores, = procura de sinais de cumplicidade. O rosto 
recuperou depois a seriedade e a voz =manteve-se serena, 
embora um tudo-nada excitada. "Temos de pensar no que =vamos 
fazer. Mas  verdade que somos militares e temos uma 
=responsabilidade para com a ptria. Se essa responsabilidade 
nos obrigar a pegar em armas... "
O capito Cabral deixou a frase a pairar sibilinamente no ar, 
=aguardando com expectativa a reaco do tenente. Afonso 
olhou para =as unhas como se estivesse preocupado com a 
porcaria l entranhada e =levou um bom momento a pegar na 
palavra.
"s ordens de quem, meu capito? "
Cabral sorriu.
"Digamos que h uma importante figura da Repblica que quer 
=pr fim  baguna, colocar as coisas em ordem e salvar o 
=pas de uma catstrofe... "
Afonso endureceu o rosto.
"Meu capito, eu fiz um juramento de bandeira e tenciono 
=respeit-lo. Actuar... "
"Eu tambm, Afonso, eu tambm respeito a bandeira. "
189
"Deixe-me acabar. "
"Diga l "
"Eu respeito o meu juramento de bandeira. Isso significa que 
cumpro =as ordens que so legitimamente dadas pela minha 
hierarquia. Actuar =de modo a violar a lei  algo que eu no 
farei "
"Mas asseguro-lhe, Afonso, que ns tambm. "
"Meu capito", cortou Afonso. "No participarei em nenhum 
=acto ilegal ou sedicioso e aconselho-o a que no me d mais 
=informaes sobre o que tenciona fazer, o senhor e a 
importante =figura da Repblica que mencionou, porque seno 
ver-me-ei na obrigao de relatar esta conversa aos nossos 
=superiores "
O capito Cabral suspirou, agastado.
"Muito bem, Afonso, faa como entender. Se quer colaborar com 
=esta poltica irresponsvel e ruinosa para a ptria, 
colabore. =Mas no se arme em moralista e em fiel defensor da 
legalidade, a =histria dir quem so os verdadeiros 
traidores. "
Afonso passou a evitar os grupos, a conversa era sempre a 
mesma e =enfastiava-o. Alm disso, no queria ser 
permanentemente colocado no dilema de ter de escolher entre 
=passar a vida a discordar dos seus camaradas ou, em 
alternativa, a ter =de con cordar com eles para evitar 
discusses, mas correndo o risco =de tal ser interpretado 
como um envolvimento tcito naquela epidemia de =conspiraes 
e m lngua.
Mau-grado este clima, os preparativos militares prosseguiram 
e os =elementos da Diviso de Instruo, uma vez completados 
os =exerccios em Tancos, regressaram em Agosto aos quartis. 
Foi com =alvio que Afonso voltou a Braga e foi no quartel, 
em pleno exerccio de =esgrima, que ouviu pela primeira vez 
falar no Corpo Expedicionrio =Portugus. Inicialmente dizia-
se que seria formado por uma nica =diviso, em Dezembro 
comearam a ser mencionadas duas divises, e depois trs. A 
partida das =tropas foi marcada para o incio de 1917, os 
primeiros regimentos a =entrarem nos barcos seriam Infantaria 
7, 15 e 28.
A apenas trs semanas do embarque, as foras de Infantaria 
=34, aquarteladas em Tomar, iniciaram uma revolta. Corria o 
dia
190
13 de Dezembro e um dos heris da Repblica, o prestigiado 
=general Machado Santos, o mesmo que no 5 de Outubro tinha 
liderado o =audacioso avano dos revoltosos republicanos da 
Rotunda at ao =Rossio, fez publicar um Dirio do Governo a 
demitir todos os ministros e a nomear substitutos. O =jornal 
era falso, mas o envolvimento de Machado Santos verdadeiro, o 
=heri da revoluo republicana queria impedir o embarque das 
=tropas para Frana. As unidades fiis ao governo reagiram a 
tempo e a intentona falhou. Nos dias seguintes =descobriu-se 
que a maior parte dos oficiais envolvidos na =sublevao 
estavam escalados para seguirem para Frana. O =executivo 
teve de os substituir  pressa, uma situao que atrasou em 
algumas semanas a partida do CEP. Pior do que isso, =abalou 
profundamente o moral dos soldados. Se nem os seus oficiais 
os =queriam conduzir na guerra, o que iam eles para l fazer? 
Alguns =capites e majores de Infantaria 8, incluindo o 
capito Cabral, foram =detidos por causa do papel que 
desempenharam na revolta e tornou-se =necessrio preencher 
estas vagas. Afonso deu consigo promovido a =capito.
Os primeiros soldados portugueses embarcaram em Lisboa com 
destino =a Brest nos finais de Janeiro de 1917, num ambiente 
de secretismo e =alguma confuso.
O recm-promovido capito soube da notcia quando estava 
=sentado na messe com um copo de aguardente de cana na mo. O 
major =Montalvo contou-lhe os pormenores durante uma partida 
de bridge, por =entre duas baforadas de cachimbo e uma 
chvena de caf. Quando a partida acabou e o major se foi 
embora, Afonso =ficou a matutar no assunto, no sabia se 
deveria estar contente ou =preocupado.
Viu-se perante um dilema. Por um lado, Portugal envolvia-se 
num =conflito de dimenso europeia e respeitava os seus 
compromissos de =aliana com a Inglaterra. Alm disso, o 
Exrcito cumpria os seus deveres. Mas, por outro, tudo aquilo 
seria =engraado se no o envolvesse directamente, se no 
houvesse a =possibilidade de tambm ele ser levado para 
aqueles palcos de morte.
191
Enquanto abstraco, a partida das tropas enchia-o de 
=satisfao. Porm, enquanto acontecimento que poderia ter um 
=impacto directo na sua vida, o embarque assustava-o. Embora, 
bem vistas =as coisas, houvesse ali um lado de aventura que 
no lhe desagradava de todo, andar aos tiros de arma na mo, 
arriscar a =vida, enfrentar o perigo, quem sabe se um acto de 
bravura no o =tornaria um heri, um bravo, um Mouzinho, que 
nicada ficaria =Carolina!
O aparecimento do tenente Pinto na messe levou-o a decidir-se 
a =encarar a notcia pelo lado positivo, os medos eram para 
os =cobardolas, em Frana esperava-o a aco, o herosmo, a 
=glria. Afonso, embrenhado nos seus pensamentos, reflectiu 
que possua =gales de oficial e tinha de se comportar como 
tal. Por outro lado, o =apoio  partida das tropas sempre era 
uma forma de se meter com o tenente, um =pretexto para o 
provocar, para remexer a sua visceral repulsa pelo 
=envolvimento de Portugal na guerra.
"L vai a rapaziada naquela viagem que dizias que nunca se 
=realizaria", soltou Afonso maliciosamente quando o amigo se 
sentou com =um copo de bagao entre os dedos.
"Uma triste figura,  o que vo l fazer", resmungou o 
=Cenoura entre dentes, pouco convencido.
"E apareceu toda a gente. Soldados, oficiais, no houve 
=deseres. "
"Ah no? E ento o que aconteceu em Santarm, h? " ="No me 
fales de Santarm. "
"No te convm... "
"No te convm  a ti. "
"A mim? "
"Sim, a ti. Foi uma vergonha o que l se passou. Os soldados 
=compareceram no quartel, no faltou um nico, todos 
preparados =para apanharem o comboio para Lisboa e seguirem 
para Frana. Todos. E =os senhores oficiais ficaram todos em 
casa. "
"Ests a exagerar", riu-se o tenente. "Olha que houve um 
alferes =que apareceu. "
192
"No gozes que  grave. Os oficiais desertaram, abandonaram 
=os seus homens, e isso no  para brincadeiras. "
"Desertaram, no. Indignaram-se. "
"Desertaram. E j sabes o que lhes aconteceu? "
"Foram presos. "
"No, depois disso. "
"Depois disso? Depois disso, nada. Esto presos. " " homem, 
=no sabes o que lhes aconteceu? "
"Eu no. "
"Aaah, no sabes... Olha, foram enxovalhados pela populaa. O 
=povo saiu  rua quando eles eram levados para a estao. As 
=mes, as mulheres, as namoradas, as irms dos soldados, 
todas na =rua a=20atirarem- lhes pedras e lama e a chamarem-
lhes cobardes, a insultarem os =oficiais que ficaram enquanto 
as praas partiram. Uma vergonha. "
"Mas quem  que te contou isso tudo? "
"O major Montalvo. "
"Esse tambm  uma boa pea", murmurou baixinho, revirando 
=os olhos. "Mas, olha, ao menos conseguiram no seguir para 
Frana. ="
"Isso  o que tu pensas", riu-se Afonso. "Foram condenados a 
=trinta dias de priso correccional e j esto a cumprir a 
pena =num barco. "
" O qu? Eles seguiram mesmo para Frana?"
"Seguiram, pois. "
"No sei se ser boa ideia. "
"No vejo porqu. Parece-me at muito justo. "
"Ah sim? E como  que uns oficiais que esto contra a guerra 
=vo chefiar os homens a combater? J viste como vai ser? "
"Debaixo de fogo no tm outro remdio seno irem em =frente, 
caraas. "
"Afonso, Afonso, as guerras no se ganham assim. Ganham-se 
com =liderana e moral elevado, ganham-se com motivao e 
=empenhamento. Diz-me l que liderana, que moral, que 
=motivao, que empenhamento, esses oficiais tm? "
193
Afonso fez um silncio meditativo, ponderando naquela 
=situao. "Sim, tens razo", admitiu finalmente. "Pode ser 
um =problema. Mas no vejo alternativas. Se eles tivessem 
ficado c, =isso seria um prmio e encorajaria outros a 
repetirem a mesma gracinha. "
Pinto tirou do bolso um mao de Mondegos e acendeu um 
cigarro.
"Outra coisa que no percebo  por que razo mandam a =malta 
de barco", disse pensativamente, expelindo uma baforada 
cinzenta. ="Com os submarinos alemes  solta, parece-me um 
perigo =desnecessrio,  mais um disparate deste governo de 
merda. "
"Essa  boa! Ento como  que querias que eles fossem? " ="De 
comboio, claro"
"De comboio? Ests parvo ou qu? "
"Mas qual  a dvida? "
" homem, a Espanha no deixa. " "No deixa? No deixa 
=porqu?"
"Poltica, o que  que havia de ser? "
"Mas o que  que a poltica tem a ver com isto? " "O problema 
= que a Espanha  um pas neutral e no autoriza o movimento 
=de tropas beligerantes pelo seu territrio. Alm do mais, 
no =te esqueas de que os espanhis simpatizam com os 
alemes "
"Olha que isso no deve ser bem assim", atalhou o tenente. 
="Disseram-me que o coronel Abreu vai seguir para Frana de 
comboio. "
"Vestido  civil, Cenoura, vestido  civil. Como turistas, 
=sem a farda vestida, podemos ir por Espanha, no h qualquer 
=problema. Mas no  possvel enviar todo o CEP  paisana por 
comboio, como deves compreender. Portanto, como ir a nado 
=no  opo, l tm eles de apanhar os barcos "
O tenente Pinto ficou calado um momento.
"Se queres que te diga, os espanhis  que tem razo", 
=desabafou finalmente.
"Em qu? Em serem neutrais? "
"Sim, nisso tambm. Mas refiro-me a apoiarem os alemes. " 
="No digas disparates!"
194
"No  disparate nenhum. A que propsito  que vamos =ajudar 
os ingleses e os franceses? "
" Cenoura, temos de respeitar a nossa aliana com a 
=Inglaterra. Se eles nos pedem ajuda... "
"No me venhas com essa conversa. Os ingleses que tm uma 
=aliana connosco so os mesmos que nos deram o ultimato em 
1890 e =so os mesmos que negociaram com os alemes a entrega 
das nossas =colnias. E, quanto aos franceses, nem  bom 
lembrar as invases napolenicas nem o que eles escavacaram 
=por aqui. Vamos ajudar essa malta? A que propsito? "
" do nosso interesse. Se nada fizermos agora, no estaremos 
=mais tarde em condies de defender o nosso imprio quando 
os =mapas forem redesenhados. E, alm disso, reafirmando a 
nossa =aliana com a Inglaterra, ficamos com a certeza de que 
os espanhis no =se atrevem a virem moer-nos o juzo. "
"L vens tu com a mesma conversa. "
"Tens razo", sorriu Afonso. Baixou a cabea, pensativo,  
=procura de um outro tema menos tenso e conflitual. Lembrou-
se. "Olha =l, j foste esta semana ao restaurante do Hotel 
Francfort? Aquilo = que tm l um bacalhauzinho de se lhe 
afiar o dente! "
A partida da 1. a Diviso foi acompanhada por um intensificar 
=dos preparativos das unidades que pertenciam  2. a Diviso. 
Os =britnicos fizeram chegar fardas novas a Portugal, 
distribudas pelos contingentes integrados no CEP. Dizia-se 
que fazia frio em =Frana e foram entregues a cada soldado um 
capote de l e duas =mantas, para alm de dois pares de cada 
pea de roupa. Em Braga, os homens de Infantaria 8 foram 
todos equipados, a =maior parte com capacetes de copa 
canelada na cabea, eram de m =qualidade, o refugo do 
exrcito britnico. Afonso teve mais sorte e conseguiu um 
mais resistente capacete MK1 =e um magnfico dlman aberto, 
privilgios de oficial.
As ordens de embarque vieram num dia nublado de Abril. Na 
manh =de sbado, dia 21, os dois mil homens de Infantaria 8 
e Infantaria 29 =marcharam pelas ruas de Braga e formaram 
junto
195
 estao num ambiente de grande comoo, =famlias inteiras 
compareceram  despedida, mulheres choravam =amargamente a 
partida dos filhos, dos maridos, dos namorados, dus pais. 
=Alguns civis irrompiam pelas filas desordenadas de soldados 
para =abraarem este ou aquele, para darem um ltimo 
conselho, para =entregarem uma ma, uma regueifa, um 
fidalguinho, para =partilharem mais uma lgrima ou largarem 
um derradeiro beijo.
A uma ordem dos oficiais, os homens subiram s carruagens e o 
=comboio iniciou a marcha com um apito longo e triste, bons 
a =acenarem pelas janelas, beijos lanados pelo ar, a 
locomotiva a =carvo ganhou velocidade e desapareceu 
lentamente na curva, du comboio apenas =se via agora o fumo 
negro que se erguia acima do casario, deixando a =multido 
desalentada com a partida dos seus rapazes para a guerra.
Aquele era um comboio especial, pelo que no fazia paragens. 
=Afonso no se despedira de ningum, limitara-se a escrever 
uma =carta para a Carrachana com a notcia da sua partida. O 
capito passou a viagem a ver Portugal desfilar-lhe pela 
janela, rezando em =silncio, interrogando-se se voltaria e 
em que estado. Leu vezes sem =conta a edio dessa manh do 
Commrcio do Minho, que, na =primeira pgina, chamara 
"Jornada Solemne" quele dia. "Quantas lgrimas =vo hoje ser 
vertidas; quantas recordaes saudosas a =amargurarem as 
almas", escreveu o jornal num longo artigo repleto de 
=angstias e exortaes e que terminava com uma fervorosa 
prece: "Deus vos acompanhe na lucta =e guie os vossos passos 
ao triumpho,  victoria " Afonso achou o =texto piroso, mas 
no fundo gostou, sentiu-o sincero. Quando esgotou a =leitura 
do jornal, passou para as "Instrues para o embarque", um 
documento emitido na vspera pela 2. =a Repartio do CEP, 
destinado a regular procedimentos que =impedissem a repetio 
do caos dos primeiros embarques. O ambiente no comboio 
revelava-se =moderadamente alegre, os soldados eram rapazes 
novos e muitos =mostravam-se excitados com a viagem, viviam 
intensamente a grande aventura, "vamos despachar umas 
=francesas" tudo era novidade, a maior parte abandonava pela 
primeira vez
196
o Minho e sentia que ia conquistar o mundo.  vista de Lisboa 
o =comboio abrandou e entrou lentamente na gare. Os soldados 
apearam-se e =foram alojados num quartel, onde pernoitaram.
Na manh seguinte marcharam para o porto. No cais, Afonso 
=assegurou que a sua companhia formava em linha no local que 
lhe fora =designado e ficaram todos a aguardar as instrues 
dos=20delegados do quartel-general. Havia milhares de homens 
e centenas de =cavalos no porto, e tornou-se claro que o 
embarque seria demorado. =Aproveitando o compasso de espera, 
Afonso deu um salto a uma tabacaria, =comprou O Sculo desse 
memorvel dia 22 de Abril e regressou ao cais. Os homens 
encontravam-se =sentados no cho  conversa ou a admirar os 
navios britnicos =que os iriam levar para Frana.
O capito abancou sobre uns caixotes, Pinto encostado ao lado 
a =espreitar pelo ombro, e ambos ficaram assim a ler o 
jornal. A grande =manchete do dia era a notcia de que "os 
inglezes derrotam os turcos", mas passaram os olhos pelas 
=primeiras linhas e perceberam que tudo aquilo acontecia na 
distante =Mesopotmia, no interessava. A sua ateno 
percorreu a =segunda coluna at se fixar num pequeno ttulo, 
"Os prisioneiros de guerra", isso j era algo que lhes =dizia 
respeito, ou podia dizer. A notcia contava a histria de 
=trs soldados britnicos que tinham fugido de um campo 
alemo =de prisioneiros e, uma vez nas linhas aliadas, "citam 
coisas extraordinrias dos sofrimentos e do tratamento 
=brutal a que so sujeitos os prisioneiros". Segundo a 
notcia, os =trs pareciam esqueletos vivos e revelaram que a 
vida nos campos era =dominada pela fome, pelo frio e pelas 
doenas.
"Eh l", exclamou o Cenoura. "J vi que, se me render, tenho 
=de levar uns chourios no bolso. "
Um outro ttulo despertou-lhes igualmente a ateno, 
="Portuguezes na guerra". Leram e verificaram que era o 
anncio de que =a Ilustrao Portugueza do dia seguinte iria 
trazer "flagrantes aspectos das nossas =tropas que foram 
combater contra os alemes. "
"J viste? ", perguntou Afonso. "Qualquer dia a malta tambm 
=aparece na Ilustrao Portugueza. "
197
Ao fim de algumas horas de espera, gastas essencialmente a 
carregar =os navios de abastecimentos e cavalos, os delegados 
do quartel-general =deram a ordem de embarque. Como 
responsvel de uma companhia, Afonso subiu ao barco destinado 
ao seu regimento, =era o Bellerophon, e ficou junto  ponte a 
aguardar os homens. =Infantaria 8 alinhou em fraces de doze 
praas, cada =fraco comandada por um cabo, e os homens 
marcharam de costado a dois e =desfilaram para o convs do 
navio, sendo distribudos pelos =alojamentos segundo as 
instrues dos comandantes de peloto. O =embarque foi feito 
em silncio, de acordo com as ordens emitidas, o que conferiu 
uma solenidade =pesada ao momento. Terminado o embarque de 
Infantaria 8, os oficiais =entregaram aos delegados a relao 
nominal de todos os homens que =embarcaram no Bellerophon. 
Eram, ao todo, vinte e nove oficiais, quarenta e =cinco 
sargentos e mil e setenta e cinco soldados do 8, mais 
cinquenta =praas do 10, o regimento de Bragana. Alguns 
homens do 8 tinham =sido colocados no Inventor Do convs, 
Afonso observou os restantes navios, o City of Benares e o 
Bohemian, =onde se encontravam os efectivos do 29, o outro 
regimento de Braga, e =pensou que teria de se habituar  
ideia de que aquelas unidades deixariam de ser regimentos e 
passariam a =batalhes, era um passo necessrio para 
homogeneizar as foras =portuguesas e britnicas.
As pontes foram desmontadas e, pouco tempo depois, os 
rebocadores =comearam a arrastar os navios para longe do 
cais, levaram-nos para =guas profundas, para abismos 
longnquos, para trevas =desconhecidas, e os homens ficaram 
em silncio a observar a terra a afastar-se, devagar, 
devagar, s voltariam =a ver a costa quando avistassem Brest.
198
II
FLANDRES
I
O enorme Daimler negro, as bandeiras com a guia imperial 
=esvoaando junto aos enlameados faris dianteiros, cruzou a 
Rue de =la Chause, entrou na Grande Place por sul, deu 
=vagarosamente a volta ao largo e imobilizou-se frente ao 
Htel de =Ville, o edifcio da Mairie, os batedores 
espraiando-se pela praa =para vigiarem os acessos, afinal de 
contas havia oito ruas que para ali iam =convergir. Um 
oficial com a cruz de ferro ao colarinho e farda feldgrau 
=fez continncia para a janela da limusina, deu um passo em 
frente e =abriu com deferncia a porta esquerda traseira. O 
general saiu do carro, a bota =impecavelmente polida mergu 
lhou numa poa de gua barrenta, "Scheisse! ", praguejou, 
procurou uma parte mais seca do =piso, sentiu o vento 
cortante a atormentar-lhe o rosto e ajeitou o =grosso 
sobretudo com um gesto rpido, protegendo o pescoo do =frio.
"Was fiir ein schreckliches Wetter! ", vociferou entre 
dentes, a =voz rouca e baixa, resmungando contra o tempo e o 
frio.
Ergueu os olhos para o cu cinzento, procurando inexistentes 
=raios de sol, mas a sua ateno foi atrada para a soberba 
=fachada que se erguia em frente. O general =estacou defronte 
dos enormes
201
portes abertos diante de si, admirando a arquitectura do 
=edifcio da Cmara Municipal e ignorando os soldados que se 
=perfilavam em sentido e a estranha esttua de ferro que 
protegia a =entrada.
"Xas ist das fr ein Kunststil? ", perguntou ao ajudante-de-
campo, =sem tirar os olhos da fachada. Queria saber qual era 
o estilo =arquitectnico da Mairie.
"Gotilz, Herr Kommandant. "
A Cmara de Mons estava instalada na praa principal da 
=cidade, capital da ocupada provncia belga de Hainant. Era 
um antigo =forte do sculo xv, construdo em estilo gtico, 
imponente, a fachada pintada em cor-de-rosa e trabalhada em 
=pormenor pelos arquitectos e pedreiros medievais. A esttua 
de ferro =colocada junto  grande porta era a popular Grande 
Garde, o macaco da =Guarda, uma escultura da Idade Mdia, de 
origem desconhecida, mostrando um macaco de ccoras, a mo 
=esquerda a coar a cara. Ao lado da original esttua 
encontrava-se =uma tabuleta com Eintritt verboten escrito em 
gordas letras gticas, =uma proibio de entrada obviamente 
destinada aos civis belgas. No alto do =edifcio, na zona 
central, erguia-se, como uma coroa imponente, uma =torre 
quase cilndrica, com um relgio na base, assina lando oito 
=horas e nove minutos.
Era manh em Mons e o calendrio marcava 11 de Novembro de 
=1917. Depois de apreciar a fachada do Htel de Ville, o 
general =recm-chegado cruzou os portes, atravessou o tnel 
e chegou ao =jardim interior,=20designado Le jardin du 
Mayeur, cruzou o jardim, entrou por uma porta =larga, subiu 
ao salo nobre da sede do municpio, o =ajudante-de-campo na 
peugada, e saudou apressadamente o grupo que o =aguardava.
"Guten Morgen", cumprimentou o general Erich Ludendorff 
general =quartel-mestre das foras armadas alems, o crebro 
por =detrs das operaes militares da Alemanha, o terceiro 
homem na =hierarquia militar do pas, depois do comandante-
chefe, o Kaiser, e do marechal Paul von =Hindenburg, mas na 
verdade o verdadeiro comandante de todos os =exrcitos 
alemes, a grande eminncia parda do pas.
202
O salo agitava-se de homens fardados, atarefados num bulcio 
=de trabalho, um mapa gigantesco do sector da frente 
ocidental a =espraiar-se pela mesa, no centro. Quando o 
general entrou, imps-se =instantaneamente o silncio, os 
homens puseram-se em sentido e fizeram continncia.
"Guten Morgen, Herr General", exclamaram todas as vozes, mais 
ou =menos em unssono, o som a reverberar pelo salo.
Os elementos suprfluos dos diversos estados-maiores 
abandonaram =rapidamente o local, numa agitao de papis a 
serem remexidos e botas a ecoarem pelo soalho impecavelmente 
=encerado. Os sons foram-se afastando e a tranquilidade 
instalou-se pouco =a pouco at o silncio se abater 
totalmente sobre o ambiente da sala. Ludendorff pousou a 
pasta que levava na mo, =tirou da cabea o caracterstico 
pickelhaube, o imponente capacete =negro com uma seta gtica 
apontada para cima, sentou- se no =cadeiro que lhe estava 
reservado, em posio dominante na mesa, limpou o monculo 
com meticulosa =ateno, colocou-o no olho e, calado e 
perscrutador, fitou os =trs altos oficiais diante de si. 
Estava reunido o Oberst =Heeresleitung, o Comando Supremo 
Alemo, num conselho de guerra que iria revelar-se decisivo.
"Meine Herren", comeou o general, em tom vigoroso. "Estive a 
=conferenciar com o marechal Hindenburg e decidimos antecipar 
a ofensiva =da Primavera. "
 mesa no estavam os comandantes dos vrios corpos de 
=exrcitos alemes, mas, como era costume na tradio marcial 
=da Alemanha, os respectivos chefes de estado-maior. Eram 
eles que =discutiam a estratgia, no os comandantes 
nominais. Sentado com Ludendorff encontrava-se o =general 
Herman von Kuhl, chefe de estado-maior do corpo de exrcitos 
=do prncipe Rupprecht da Baviera e anfitrio daquela 
cimeira. Era em Mons que estava sediado o quartel-general do 
=prncipe Rupprecht e eram as suas tropas bvaras que 
garantiam a =segurana do edifcio, os estandartes 
axadrezados em azul e branco =da Baviera ao lado da bandeira 
da Alemanha na fachada do municpio. Presentes encontravam-se
203
tambm o general von der Schulenberg, chefe de estado-maior 
do =corpo de exrcitos do prncipe herdeiro, Guilherme, e o 
=conselheiro de estratgia do prprio Ludendorff, o coronel 
Georg =Wetzell.
"Como sabem, a entrada da Amrica na guerra, h sete meses, 
=alterou todos os dados", declarou Ludendorff com um suspiro. 
"Os =soldados americanos j esto a chegar em grandes 
quantidades, mas =acreditamos que s no Vero  que a sua 
influncia poder ser decisiva no teatro de =operaes. "
"Estamos numa corrida contra o tempo", observou von Kuhl. 
"Nem =mais", concordou Ludendorff. "A iminente sada da 
Rssia da guerra =libertou-nos a frente leste e abriu-nos uma 
janela de oportunidade que =temos de aproveitar. As nossas 
foras do Leste j comearam a afluir  frente ocidental e 
pela =primeira vez comemos a ter vantagem numrica sobre os 
=franceses e os ingleses. Temos agora cento e cinquenta 
divises na frente ocidental e poderemos em breve aumentar o 
nosso contingente =em mais trinta divises provenientes da 
pacificada frente leste e do =Caporeto, onde derrotmos os 
italianos. Esta vantagem vai durar pouco =tempo, por causa 
dos americanos, e temos, por isso, de tirar o mximo =partido 
possvel da actual situao. A primeira questo  =saber onde 
vamos atacar. "
"Estamos a falar de que tipo de ataque? ", quis saber von 
Kuhl.
"De um ataque decisivo", esclareceu Ludendorff, com um gesto 
=enftico. "A nossa ofensiva ter de fazer vergar os aliados 
e =obrig-los a assinarem a paz. Nem mais nem menos. Ser a 
ofensiva =que nos vai dar a vitria.
"Nesse caso, s vejo um stio possvel", disse von Kuhl. ="A 
Flandres. "
"A Flandres? ", sorriu Ludendorff.
O general quartel-mestre sabia que a Flandres era justamente 
o =sector em frente ao VI Corpo de Exrcitos do prncipe 
Rupprecht da =Baviera, cujo chefe de estado-maior era o 
prprio von Kuhl.
204
"A Flandres", confirmou von Kuhl. "Os ingleses esto 
esgotados =com a Batalha de Passchendaele e este  o momento 
de lhes
desferir o golpe decisivo. "
"A Flandres no me parece boa ideia", interrompeu von der
Schulenberg, abanando a cabea. "Os ingleses so duros de 
=roer
e acho que  melhor entrarmos pelo sector francs, menos 
=disciplinado. "
"E em que sector francs est a pensar? ", perguntou 
=Ludendorff.
"Bem, Verdun parece-me o stio ideal", avanou von der
Schulenberg. "Os franceses tm estado a ser duramente 
castigados =em Verdun e penso que existem condies para os 
quebrarmos. "
"Verdun? ", sorriu novamente Ludendorff, nada surpreendido.
Verdun era o sector em frente do qual se encontravam as
foras do prncipe herdeiro, de quem o general von der
Schulenberg era chefe de estado-maior. Ou seja, qualquer 
dos=20
corpos de exrcitos queria uma fatia da aco e a melhor 
=maneira de o conseguir era convencer Ludendorff a atacar no 
seu sector.
=20
Ja, Verdun", confirmou von der Schulenberg. "A Gr-Bretanha 
=sobreviveria a um desastre na Flandres, mas a Frana 
jamais=20
recuperaria de uma catstrofe em Verdun. Temos por isso de
lanar um duplo ataque em Verdun, de modo a provocarmos o
colapso de toda a linha francesa e obrigarmos Paris a 
negociar a =paz. Se Paris negociar, Londres ter de ir atrs. 
"
O general quartel-mestre voltou-se para o seu assessor de
estratgia.
"O que pensas, Wetzell? "
O coronel Wetzell olhou para von der Schulenberg.
"Concordo com o general von der Schulenberg", disse.
"Verdun  melhor. "
"Porqu Verdun? ", quis saber Ludendorff.
Verdun  um ponto delicado, que  preciso controlar", 
=explicou Wetzell. "Os franceses so menos disciplinados, j 
houve
vrias revoltas entre eles este ano, e  importante =comear 
pelo
205
sector mais fraco. Derrotando os franceses, poderemos de 
seguida =isolar os ingleses e forar a paz. "
Ludendorff fez uma pausa, pensativo. O general era um homem 
alto e =erecto, tinha a cabea redonda e o cabelo cortado 
curto, os olhos =protuberantes revelavam um carcter feito de 
ambio e =impacincia. A impenetrvel postura prussiana 
impunha respeito aos que o conheciam, ao ponto de =haver 
mesmo quem confessasse que a sua presena provocava arrepios 
de =medo, exageros por certo de espritos frgeis, que se 
deixavam =impressionar com facilidade. Mas a verdade  que a 
prpria famlia se intimidava com o =olhar frio do general e 
por vezes at circulava em casa o aviso sussurrado de que "o 
pai hoje parece um =glaciar". Por isso, quando fez a pausa 
pensativa naquele conselho de =guerra em Mons, a mesa ficou 
em silncio, os dois generais e o =coronel quase suspenderam 
a respirao,  espera do veredicto.
"No concordo", sentenciou finalmente Ludendorff. "O terreno 
em =Verdun -nos desfavorvel e quebrar aquele sector no nos 
daria =nada de decisivo. Pior=20ainda, arriscamo-nos a sermos 
atacados pelos ingleses na Flandres, =aproveitando a nossa 
vulnerabilidade quando estivermos a lidar com os =franceses. 
Alm disso,  preciso notar que os franceses esto a 
recuperar bem das feridas que lhes infligimos."
"Ento concorda com a minha proposta de atacar a Flandres? ", 
=avanou von Kuhl, esperanado.
"Sim", assentiu Ludendorff. "Para ganhar esta guerra  
preciso =derrotar os ingleses. Esse  o primeiro grande 
princpio que nos =deve orientar no nosso pensamento 
estratgico. Derrotar os ingleses. Passchendaele abriu-lhes 
profundas feridas e =deixou-os vulnerveis. Temos de 
aproveitar o momento "
"Ento, se vamos atacar na Flandres, o melhor stio  o 
=sector entre Ypres e Lens", props von Kuhl.
"Mas isso  o grosso das foras inglesas", argumentou 
=Ludendorff, consultando o mapa. "Auf keinen Fall! Nem 
pensar! Ter de =ser num sector em que se juntam exrcitos de 
nacionalidades =diferentes. Esses  que so pontos de 
ruptura, onde a coordenao entre foras diferentes = menos 
bem conseguida. "
206
"Est a pensar em qu? ", perguntou von Kuhl.
Ludendorff ps-se de p e apontou a bengala para o mapa sobre 
=a mesa.
"Estou a pensar em St. Quentin", disse Ludendorff, =indicando 
aquela regio do Somme. "O ponto onde se encontram o sector 
ingls e o sector francs. "
"Mas, Herr Kommandant, essa  a zona do Somme", interrompeu o 
=coronel Wetzell. "Essa rea est cheia de obstculos, a 
=progresso ser difcil, e, alm disso, os franceses 
=podero fazer chegar a rapidamente os reforos. "
" melhor do que a zona Ypres-Lens", argumentou o general. 
="No necessariamente", disse von Kuhl, defendendo a sua 
ideia. ="Notmos recentemente que existe uma vulnerabilidade 
importante nesse =sector e penso que vale a pena explor-la. 
"
"Uma vulnerabilidade? ", interrogou-se Ludendorff. "Uma 
pequena =faixa da frente est a ser defendida por tropas 
portuguesas, =encaixadas entre divises inglesas", explicou 
von Kuhl. "As nossas =informaes sugerem que os portugueses 
esto desmotivados, mal preparados e tm carncia de oficiais 
e falta =de descanso. "
"Wo ist es? ", questionou Ludendorff, querendu saber onde era 
isso.
" no sector do rio Lys, a sul de Armentires, =em Neuve 
Chapelle mais precisamente."
"Ach! ", exclamou o comandante das foras alems, que ouvira 
=falar do sector quando das primeiras grandes ofensivas 
aliadas em 1915. =Olhou pensativamente para o mapa, fixando-
se em Armentires. "Queres atacar os portugueses? ", 
perguntou Ludendorff.
"Eu diria que eles esto a pedir para serem atacados", sorriu 
=von Kuhl. "Repare, Herr General, que o Lys responde ao seu 
requisito de =atacar uma zona de juno de foras de 
nacionalidades =diferentes."
"Continuo a pensar que St. Quentin  melhor", comentou 
=Ludendorff, cptico.
"Note, Herr General, que a zona do Lys tem outra vantagem", 
indicou =von Kuhl, apontando no mapa para Armentires.=20
207
"Entrando por aqui, poderemos chegar ao estratgico eixo 
=ferrovirio de Hazebrouck, dificultando o movimento de 
reforos =inimigos e deixando os ingleses sem espao de 
manobra, encostando-os =ao mar. "
"Herr Kommandant, penso que devemos explorar a sugesto de 
von =Kuhl", defendeu Wetzell. "Por que no juntar todas as 
ideias?"
"Como assim? ", perguntou o general.
"Na minha opinio, no vamos conseguir a vitria com um =s 
golpe, por mais bem planeado que ele seja", explicou o 
coronel. ="S conseguiremos destruir a frente inimiga atravs 
de uma =inteligente combinao de ataques sucessivos em 
diferentes pontos da frente, coordenando-os e =relacionando-
os em momentos cuidadosamente escolhidos. "
"Ach so! ", exclamou Ludendorff. "Ests a propor atacar ao 
mesmo =tempo no Somme e no Lys. "
"No ao mesmo tempo", corrigiu Wetzell. "Sucessivamente. 
=Atacamos primeiro no Somme, depois no Lys, mais tarde em 
Arras, a seguir =em Verdun, depois em Champagne, ataques aqui 
e ali, uns atrs dos =outros, numa estratgia de marteladas 
consecutivas. "
"Como na frente leste", comentou Ludendorff, afagando o 
bigode =grisalho.
"Jawohl, Herr Kommandant. "
O general quartel-mestre e o seu conselheiro de estratgia 
=referiam-se s novas tcticas desenvolvidas na frente leste 
e =estreadas pelos russos com grande sucesso. Durante a 
Ofensiva Brasilov, =no Vero de 1916, as foras russas 
utilizaram a surpresa e os efeitos desorientadores suscitados 
=por ataques mltiplos ao longo de uma vasta frente para 
devastarem as =posies austro-hngaras no sector da Galcia. 
Os alemes assimilaram rapidamente o conceito russo dos 
ataques sucessivos em =toda a linha da frente, chegando mesmo 
a aperfeio-lo, atravs =das tcticas de infiltrao 
desenvolvidas pelo general Oskar =von Hutier e aplicadas com 
grande xito apenas dois meses antes, na Batalha de Riga. 
Wetzell defendia agora =a aplicao dessas mesmas tcticas na 
frente ocidental para =conseguir uma vitria decisiva.
208
"Parece-me vivel", assentiu Ludendorff, olhando para os 
outros =dois generais. "O que acham? "
Von Kuhl e von der Schulenberg concordaram, o bvaro mais 
=entusiasmado.
"O sector do Lys tem o problema da chuva", observou, no 
entanto, =von Kuhl, que conhecia bem a regio. "O terreno s 
estar =transitvel l para Abril. "
A lama da Flandres era famosa entre as foras militares que 
=viveram o inferno lamacento das Batalhas do Somme e de 
Ypres, pelo que a =observao foi instantaneamente 
compreendida.
"Pois bem, se no chover em demasia, avanamos no Somme em 
=Fevereiro ou Maro", decidiu Ludendorff. "Em Abril ser 
ento a =vez dos restantes golpes, a comear pelos 
portugueses no Lys. "
"O VI Corpo de Exrcitos do prncipe Rupprecht entra, 
=portanto, em aco em Abril... ", observou von Kuhl.
"Em princpio", retorquiu o general. Ludendorff apontou o 
dedo =para toda a extenso da linha da frente, representada 
no mapa. ="Comecem a preparar-me estudos pormenorizados sobre 
cada sector, quero =vigilncia reforada, desencadeiem 
operaes regulares para obterem informao, no quero 
surpresas =na hora da verdade. Comecem a exercitar as tropas 
para combate em =terreno aberto segundo as tcticas do 
capito Geyer e chamem- me o =coronel Bruchmiiller para a 
frente ocidental, de modo a preparar a artilharia. Quero =ver 
montada a maior feuerwalze da histria da guerra. E, von 
Kuhl, =transfira tambm o general von Hutier para a frente 
ocidental, vamos =ver se ele aplica aqui as suas famosas 
tcticas de surpresa e bombardeamento em progresso. "
"Jawohl, Herr Kommandant", assentiu von Kuhl. Tal como von 
Hutier, =Bruchmizller destacara-se na frente leste, e em 
particular na Batalha de =Riga, pelas suas inovaes 
tcticas. Georg Bruchmiiller era =conhecido por 
durchbruchmller, o Miiller decisivo, devido s arrasadoras 
=feuerwalze, ou valsas-do-fogo, com que regava as linhas 
inimigas antes =da progresso da infantaria. O coronel estava 
na reserva quando foi chamado para o =activo na frente leste, 
onde desenvolveu uma tcnica de =bombardeamento orquestrado 
que se tornou famosa entre as foras
209
alems. Utilizando uma mistura de granadas numa sequncia 
=precisa e coordenada, com lanamento sucessivo de bombas 
contendo =diferentes gases, poderosos explosivos e schrapnel, 
conseguia espalhar a =grande confuso nas linhas inimigas. 
Bruchmizller manipulava as granadas de modo a =provocar 
determinadas reaces ou efeitos. Por exemplo, uma das =suas 
especialidades eram os cocktails de gases, lanando primeiro 
o =gs arsine, que no era letal mas que penetrava nas 
mscaras antigs. Os soldados =comeavam a vomitar e tiravam 
as mscaras. Era nesse momento que =Bruchmiiller atirava o 
gs chlorine, que era mortal e que apanhava o =inimigo sem 
mscaras. As granadas com os diferentes gases estavam 
marcadas por =diversas cores, o que deu ao cocktail o nome de 
huntkreuz, =multicolorido. Ludendorff, que conhecia bem a 
frente leste, onde ganhara =fama de grande estratego e onde 
desenvolvera a sua viso de Drang nach Osten, a expanso para 
oriente, queria transportar =todo esse talento para a frente 
ocidental e acreditava que conseguiria =assim ganhar a 
guerra.
"Entschuldigen Sie bitte, Herr Kommandant", interrompeu 
Wetzell, =levantando a cabea do seu bloco de notas e 
quebrando o breve =silncio meditativo que se instalara na 
sala. "Quais os nomes de =cdigo que vamos adoptar? "
"Alguma sugesto? ", perguntou Ludendorff para a mesa.
Todos se entreolharam. Cada um foi avanando com ideias, 
algumas =suscitaram consenso, outras no. Depois de um debate 
rpido, o =general quartel-mestre fechou a questo.
"Bitte schreiben Sie es auf", ordenou Ludendorff a Wetzell, 
=dando-lhe instrues para tomar nota das ideias que 
mereceram =concordncia. "O ataque no Somme ser a Operao 
Michael, a =ofensiva no Lys ser a Operao St. George, a de 
Arras ser a Operao Marte, a de Champagne =ser a Bliicher 
e as duas de Verdun sero a Castor e a Plux. =Estas 
operaes esto destinadas a porem fim  guerra e a =darem a 
vitria  Alemanha e encontram-se subordinadas ao nome de 
cdigo geral de =Kaiserschlacht. " O conselho de guerra 
terminou e a Kaiserschlacht, a =batalha do Kaiser, entrou em 
marcha.
210
II
A noite cara fria e hmida sobre Armentires, mas a isso =j 
todos se tinham habituado. O Inverno estava  porta e as 
=rvores preparavam-se para enfrentarem os rigores do frio. 
Os grandes =pltanos e os delicados choupos encontravam-se 
quase totalmente despidos, = certo que algumas rvores ainda 
exibiam folhas amareladas ou =avermelhadas ornando os ramos 
ou estendendo-se em tapete  sombra das =copas, espectros 
fantasmagricos na paisagem verde, plana e buclica da 
Flandres. Pendurados nos =ramos ou esvoaando de rvore em 
rvore, os melros assobiavam =aqui e os pardais pipilavam 
ali, alegres e despreocupados, numa animada =sinfonia de 
despedida do Outono.
O ronco distante de um motor a aproximar-se intrometeu-se 
naquela =harmoniosa melodia da natureza. Um Hudson negro 
cruzou o grande =porto de pedra e entrou nos domnios do 
Chteau Redier, a =estrada calcetada cortando a meio o vasto 
jardim, com as suas sebes cuidadosamente aparadas e dispostas 
em labirinto por =entre choupos de faia-branca, ciprestes 
delgados e tlias de grande =porte, o palacete claro a 
erguer- se ao fundo, logo atrs de uma =rotunda estreita com 
um jardim formado em crculo ao meio, enfeitado por coloridas 
tulipas, vigorosos jacintos e =hibiscos
211
teimosamente roxos. Um anjo de pedra ornava o centro daquele 
=pequeno jardim oval, um repuxo de gua a jorrar do pfaro 
=ostentado na boca da esttua cinzenta.
"Encosta junto  escadaria", indicou Afonso  sua =ordenana. 
"Sim, meu capito. "
O oficial tinha os olhos pregados no espectculo de 
serenidade =verde que ordeiramente se perfilava em redor, 
sentia-se quase chocado =com o contraste relativamente ao mar 
de lama a que se habituara desde =que tinha chegado  
Flandres. O Hudson contornou a rotunda e imobilizou-se  
beira dos =degraus de mrmore envelhecido do chteau. Afonso 
apeou-se e =estudou a fachada do edifcio, as trepadeiras 
cobrindo a pedra gasta, =o verdete entranhando-se=20na base 
do palacete, as enormes janelas sobressaindo daquele 
emaranhado =de plantas e de paredes cinzentas, um elegante 
alpendre sobre a porta de =entrada, guarnecida por duas 
colunas de um mrmore fino, o creme =polido rasgado por 
mltiplos veios encarnados.
Joaquim tirava j a mala da bagageira quando a porta 
principal =se abriu. Um homem pequeno, com um bigode grisalho 
e um monculo no =olho direito preso  algibeira por uma 
corrente dourada, desceu as =escadarias de encontro aos 
recm-chegados.
"Bon soir", saudou, apresentando-se. Je suis le baron 
Redier." "Bon =soir, monsieur le baron. Je suis le capitaine 
Afonso Brando. Venho =da parte do maire."
"Eu sei, eu sei", exclamou o baro, estendendo o brao. 
="Bienvenue. "
"Merci", agradeceu Afonso, olhando de relance para trs. 
="Joaquim, traz a mala. "
"Ele precisa de ajuda? ", indagou o baro. "Vou chamar os 
=criados. "
"No  necessrio", apressou-se a dizer o capito. =" s uma 
mala. "
Os dois cruzaram a porta de entrada, o anfitrio concedendo a 
=vez ao convidado, o foyer abriu-se a toda a largura, uma 
escadaria ampla =dando acesso ao piso superior, duas portas, 
uma 
212
direita e outra  esquerda, revelando corredores e salas. O 
=cho brilhava, reluzente de to impecavelmente envernizado, 
=parecia um lago cristalino=20a reflectir, como um espelho, 
as figuras que o pisavam e tudo o resto, =incluindo os 
enormes retratos que ornavam as paredes, os candelabros que 
=caam do tecto, os largos cortinados que enfeitavam as 
janelas.
"Marcel! ", chamou o baro para o corredor  esquerda. Um 
=homem calvo com um colete escuro assomou, solcito, ao 
foyer.
"Oui, msieur le baron? "
"Conduz a ordenana ao quarto do nosso convidado para 
depositar =a mala. "
Marcel ajudou Afonso a retirar o sobretudo, pendurou-o num 
=compartimento do foyer e, de seguida, guiou Joaquim pela 
escadaria, a =mala sempre na mo, at desaparecerem ambos no 
andar superior.
"Tem fome? ", indagou o baro, caminhando para o salo,  
=direita.
"Jantei num estaminet, obrigado", esclareceu o convidado. 
"Mas =no recusa um digestivo... "
"Allons!"
O salo estava quente, agradvel, as madeiras escuras 
=iluminadas pelas velas acesas nas paredes e nas mesas, 
projectando luzes =amareladas e sombras tremidas sobre os 
sofs, os mveis e o soalho =coberto de tapetes. Na parede 
junto aos sofs ardia lenha numa lareira intensa, cheia de 
fagulhas e estalidos, =alguns pedaos de madeira amontoados 
num cesto de vime  espera de =serem atirados para 
alimentarem aquele fogo acolhedor. O baro =dirigiu-se ao bar 
e agarrou em dois copos.
" Cognac? Porto?"
"Tem whisky? " O baro riu-se.
"Whisky? No imaginei ver um portugus a beber whisky... " "A 
=culpa  dos oficiais do regimento escocs", sorriu Afonso. 
"Os =jocks apresentaram-me o whisky e agora no quero outra 
coisa."
213
"Mas olhe que os ingleses fazem sempre os brindes com porto", 
fez =notar o baro. "S optam pelo whisky quando j no h 
=mais porto. "
"Eu sei, eu sei, mas o que quer? O whisky aquece-me mais. " O 
=anfitrio curvou-se, agarrou uma garrafa e colocou-a sobre o 
=balco do bar. O lquido dourado danava e brilhava dentro 
do =recipiente delgado, o rtulo a indicar The Balvenie.
"Tenho aqui este blended scotch que vai apreciar", anunciou. 
="Foi-me oferecido por um coronel do regimento de Yorkshire". 
Levantou a =cabea e olhou em direco  lareira. Agns, 
qu'estce que =tu prends? "
Afonso olhou na mesma direco, surpreendido. De uma cadeira 
=de balano  sombra, junto  lareira, saiu uma baforada 
suave =de fumo cinzento-azulado que rapidamente se dissolveu 
no ar. O oficial =portugus apercebeu-se pela primeira vez da 
presena feminina no salo.
"Du champagne", murmurou uma voz doce, impregnada de uma 
melodia =meiga de que s as mulheres francesas so capazes.
O capito tentou perceber o rosto da mulher, mas a sombra era 
=ali densa e apenas identificou o perfil da cadeira e da 
cabea feminina, umas pernas longas a emergirem da penumbra, 
meio escondidas =por entre um desconcertante e sensual 
vestido vermelho com folhos =brancos.
"M'dame", cumprimentou, baixando levemente a cabea e olhando 
=sem a ver.
Assiez-vous, s'il vous plait", disse a mulher, indicando com 
a =mo um sof junto  lareira, um cigarro entre os dedos.
Afonso pegou no copo com scotch e no outro com champagne, 
=entretanto preparado pelo baro, e aproximou-se da cadeira 
de =balano. A cadeira rodou e a mulher ergueu-se com 
delicadeza, dando =um passo para receber o champagne. O 
capito sentiu primeiro a fragrncia perfumada de L'heure 
bleue a emanar =daquele corpo escultural, a harmoniosa 
mistura de rosas, ris, =baunilha e almscar do sofisticado 
perfume de Guerlain a aguar-lhe os sentidos. Depois, a 
bruxuleante luz amarelada da lareira =iluminou o
214
misterioso rosto, destapando-lhe os traos finos e distintos, 
os =cabelos castanhos, longos, e os caracis com madeixas 
aloiradas, o =nariz pequeno e delicado, os olhos de um verde-
forte e luminoso, o ar =doce e vulnervel, um sorriso 
enigmtico formado em lbios grossos e bem desenhados, 
transparecia um tom =sereno, algo inacessvel, naquele rosto 
belo, sublime mesmo, de =francesa coquette. Afonso 
experimentou um baque, uma falta de ar sbita, oh que 
encanto! ficou perturbado com o brilho que dela irradiava, =a 
mulher era de uma beleza ofuscante, inalcanvel, to radiosa 
=que se tornava difcil mir-la de frente e impossvel deixar 
de =a olhar. O capito sentiu-se paralisado de surpresa, no 
esperava ver ali uma flor =daquelas, uma mulher jovem, 
algures a meio da casa dos vinte, pouco mais =nova do que ele 
prprio, uma jia rara to perto do sector da =frente. Seria 
filha do baro?
"Ma femme", apresentou o baro, aproximando-se com o seu 
cognac. =Agns. "
"Enchant, madame la baronne, saudou o oficial, esforando-se 
=o mais que podia por ocultar a perturbao que a mulher lhe 
=causava e a forte decepo pela notcia de que ela era 
casada =com o seu anfitrio. Beijou-lhe a mo e apresentou-
se. "Je suis le capitaine Afonso Brando, um seu =criado. "
"Alphonse? ", sorriu a francesa.
"Se o desejar... "
O sorriso desfez-se do rosto de Agns no momento em que pela 
=primeira vez o viu de perto. A francesa fitou-o 
intensamente, por =instantes pareceu reconhec-lo, hesitou, 
avaliou-o de alto a baixo, =observou-lhe o ar sonhador, 
melfluo, os olhos largos e penetrantes, a tez plida, o 
nariz direito, o =bigode bem desenhado, o cabelo castanho 
escuro curto e bem penteado, o =porte altivo e tranquilo. 
Suspirou.
"Voc faz-me lembrar algum que uma vez conheci", disse com 
=lentido, algo sria, solene at, uma inesperada palidez a 
=esvaziar-lhe a face, era notria uma enigmtica perturbao 
=a ensombrar-lhe o olhar. Mas depressa o rosto marmreo se 
reabriu num sorriso, primeiro forado e =tenso, depois 
gradualmente
215
genuno e fcil, de uma candura que se tornou desarmante. 
="Donde vem voc, Alphonse? "
" Merville. "
"No", riu-se Agns, esforando-se por ficar mais alegre, 
=parecia que se tinha transformado em meros segundos. "Qual  
o seu =pas? "
"Sou portugus, m'dame"
"On dit que les portugais sont toujours gais", exclamou, 
citando um =ditado francs segundo o qual os portugueses so 
sempre =divertidos.
"Pas toujours, m'dame", negou Afonso.
Agns fez um trejeito mimado na boca, como se estivesse 
=decepcionada.
"Voc no  divertido? "
"Eu sou", exclamou, corrigindo o tiro e desejando agrad-la. 
="Mas se visse os meus generais... "
A baronesa voltou a sentar-se na cadeira de balano e os dois 
=homens acomodaram-se no sof, um requintado canap de faia 
=estofado em gros e petit point. Afonso no conseguiu 
impedir-se de =pensar que havia uma sensvel diferena de 
idades no casal anfitrio, ele aproximava-se dos sessenta, 
ela =mais de trinta anos mais nova, andaria algures por volta 
dos vinte e cinco. Era bonita =como uma princesa, mas vivia 
encerrada naquele palacete, uma prisioneira =encarcerada numa 
terra de misria e desolao, rodeada por =runas e 
destroos, num mundo de homens e fel, com a guerra perto e o 
inimigo s =portas. Estranhamente no definhava, essa 
vulnerabilidade tornava-a =at mais atraente, mais desejvel, 
mais frgil, era como uma flor teimosamente exposta a um 
temporal, delicada mas =obstinada, e essa tocante teimosia 
despertava no oficial um =inexplicvel e irresistvel 
sentimento de proteco.
"Quero agradecer por me terem acolhido", disse Afonso, 
clareando a =voz e fixando-a nos perturbadores olhos verdes, 
envolvendo-se assim, =quase sem dar por isso, num subtil jogo 
de seduo.
"Oh,  um prazer", retorquiu Agns, devolvendo-lhe o olhar e 
=aceitando o jogo. "Jacques e eu percebemos que temos de 
cooperar com o =esforo de guerra."
216
"No tenho como dizer no a um pedido do presidente da 
=Cmara", atalhou o baro. "Mas, s vezes, d-me a =impresso 
de que monsieur le maire acha que o meu chteau  um =hotel, 
e isso aborrece-me. "
"C'est la guerre, Jaques", exclamou a francesa, com uma
expresso reprovadora para o marido.
Afonso percebeu que, apesar de o esconder, o baro no se 
=sentia inteiramente agradado com a sua presena. O 
alojamento de =militares no castelo era-lhe imposto pelo 
presidente da Cmara de =Armentires, encarregado de instalar 
os oficiais dos exrcitos =expedicionrios aliados que 
combatiam em Frana. Naquele sector concentravam-se a 1. a e 
a 2. a Divises do Corpo =Expedicionrio Portugus, o CEP, 
ladeado,  esquerda, pela 38. =a Diviso do XI Corpo e,  
direita, pela 25. a Diviso do =Corpo, ambas pertencentes ao 
Exrcito do British Expeditionary Force, o BEF, a fora 
expedicionria britnica. Os =soldados que no ocupavam a 
frente eram instalados em quintas, a =vinte cntimos por 
noite com cama e cinco cntimos quando no havia cama. Por 
cada cavalo eram pagos cinco cntimos por abrigo =fechado, 
com os proprietrios franceses a reterem o direito de 
=ficarem com o esterco para estrume. As autoridades civis 
francesas =mostravam-se, porm, empenhadas em evitarem, na 
medida do possvel, que os oficiais =ocupassem os currais e 
as cavalarias onde dormiam os soldados e os =solpedes. Um 
oficial pagava um franco por noite e sentia-se =naturalmente 
com direito a instalaes mais condignas do que as praas e 
os animais. Mas, com as =penses lotadas, as casas 
particulares j todas requisitadas e os =hotis a cobrarem 
preos inacessveis, por vezes apenas =restavam como 
alternativa os palacetes da regio.
"Como vai a guerra, capito Alphonse? ", quis saber a 
baronesa. =" como os jornais dizem? "
"E o que dizem os jornais? "
"Que estamos a ganhar. "
"No se pode acreditar sempre nos jornais... "
Agns admirou-se.
"Estamos a perder? "
217
"No, no ganhamos nem perdemos. Estamos imobilizados " "Mas 
=no  verdade que o inimigo recuou h alguns meses? " Afonso 
=sorriu.
"L recuar, recuou. Mas recuou por sua prpria iniciativa, 
=no fomos ns que o empurrmos."
"Como assim? ", interrompeu o baro, a garganta aquecida pelo 
=cognac. "Se eles recuam,  porque ns avanamos, ningum 
=recua porque lhe apetece."
"O que se passou, sieur le baron,  que os boches construram 
=umas trincheiras melhores numa posio elevada e na 
retaguarda das =suas trincheiras habituais e depois 
abandonaram as suas posies e foram instalar-se nessas 
trincheiras. Chamamos a essas novas =posies a linha 
Siegfried, mas parece que os boches lhe chamam =linha 
Hindenburg. Seja como for, este recuo para a Siegfried 
significa =que eles perderam uns quilmetros mas ganharam 
posies quase impregnveis. "
"Ento no acha que vamos ganhar a guerra? "
"Para ganhar uma guerra  preciso que ela acabe", comentou o 
=capito com secura.
"E esta no vai acabar? ", quis saber Agns.
"No d sinais disso. Repare que j estamos a 20 de 
=Novembro, perto do final de 1917 portanto, a guerra dura h 
mais de =trs anos e as posies permanecem estticas. Nem 
ns =rompemos, nem eles se mexem."
"O senhor  um homem de pouca f, pelo que vejo", comentou a 
=francesa.
"Pelo contrrio, m'dame, sou um homem de f. " "Pois no 
=parece", observou ela. "No foi no seu pas que apareceu, no 
=ms passado, Nossa Senhora a anunciar o fim da guerra em 
breve?"
"Sim, j li sobre isso", disse Afonso, inclinando-se para a 
sua =pasta. "At tenho aqui um jornal que me mandaram h dias 
com =notcias sobre essa apario, veja l!"
O capito retirou da pasta um exemplar de O Sculo, uma folha 
=gigante dobrada em duas, de modo a dar quatro pginas, e 
amarfanhada =pelo correio, mas perfeitamente legvel. O 
jornal
218
estava datado de segunda-feira, 15 de Outubro. Ou seja, 
trinta e =cinco dias antes. As duas colunas do lado direito 
da primeira pgina =encontravam-se preenchidas, do topo  
base, com um texto dedicado ao =assunto, o antettulo 
anunciando em caixa alta "Coisas espantosas! " e o ttulo 
=falando em "Como o Sol bailou ao meio-dia em Ftima". O 
subttulo =era longo. "As aparies da Virgem - Em que 
consistiu o sinal do =cu - Muitos milhares de pessoas 
afirmam ter-se produzido um milagre - A =guerra e a paz."
Agns inclinou-se para melhor ver o jornal.
"Quem so? ", perguntou, apontando para uma grande fotografia 
=por cima do texto mostrando trs crianas de olhos fixos na 
=imagem, duas raparigas de saia larga e leno na cabea a 
=ensanduicharem um rapaz com um barrete, por trs um muro de 
pedra.
"So as crianas que dizem ter falado com a Virgem", explicou 
=Afonso. Leu a legenda e identificou-os, o dedo movendo-se da 
esquerda =para a direita. "Esta chama-se Lcia, este 
Francisco e esta Jacinta. ="
A francesa mirou a imagem, fascinada.
"E o que viram elas exactamente? "
O capito ps-se a ler o texto, momentaneamente silencioso. 
="Bem, o reprter comea por descrever como chegou  charneca 
de =Ftima, que viu l muita gente, estavam todos a rezar", 
disse, explicando o texto que =acabara de ler. Fez mais uma 
pausa enquanto lia os pargrafos =seguintes. "Comeou a 
chover e as trs crianas chegaram ao =local meia hora antes 
da anunciada apario, os fiis ajoelharam-se na lama  sua 
passagem e uma das =crianas, a Lcia, pediu-lhes para 
fecharem os guarda-chuvas". =Nova pausa para leitura. "O 
reprter diz que,  hora certa, o =cu comeou de repente a 
clarear, a=20chuva parou e apareceu o Sol " Ainda mais uma 
pausa. "Aqui  muito =interessante, ora oiam", exclamou 
Afonso, passando a traduzir o =texto palavra a palavra, em 
voz alta. "O astro lembra uma placa de prata =fosca e  
possvel fitar-lhe o disco sem o mnimo esforo. No queima, 
no =cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis 
que um alarido =colossal se levanta e aos espectadores que se 
encontram
219
mais perto se ouve gritar Milagre, milagre! Maravilha, 
maravilha! =Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude 
nos transporta aos =tempos bblicos e que, plido de 
assombro, com a
cabea descoberta, encara o azul, o Sol tremeu, o Sol teve 
nunca
vistos movimentos bruscos fora de todas as leis csmicas - o 
Sol
 bailou, segundo a tpica expresso dos camponeses. "
 Afonso levantou a cabea do jornal.
"Interessante, no? "
"Oui", disse Agns, fascinada, fixando a fotografia das trs
 crianas na primeira pgina. "No tem mais? "
 O portugus retomou a leitura silenciosa do jornal e resumiu
 o seu contedo.
"Diz aqui que o reprter falou com as pessoas e nem toda a
gente estava de acordo com aquilo a que todos tinham acabado
de assistir. A maioria confirma ter visto um bailado do Sol, 
mas
outros garantiram terem observado o rosto da prpria Virgem e
que o Sol girou sobre si mesmo como uma roda de =fogo-de-
artifcio, descendo do ponto onde se encontrava. E uns poucos 
=asseguram que at o viram mudar de cor.
"Iluso de ptica", comentou o baro Redier com um sorriso
condescendente.
" possvel", assentiu Afonso.
"No digam disparates", comentou Agns. "E as crianas? "
O capito leu mais um pouco.
"O essencial est nesta frase que vos vou traduzir", indicou.
" Lcia, a que fala com a Virgem, anuncia, com gestos 
teatrais
ao colo de um homem que a transporta de grupo em grupo, que
 a guerra terminar e que os nossos soldados iam regressar. "
Quando Afonso levantou a cabea, viu Agns recostar-se na
 cadeira de balano, serena.
 "Ento sempre  verdade", disse ela. "A guerra vai acabar. "
" o que diz aqui."
"E no acredita?"
"Que a guerra vai acabar? ", admirou-se o baro Redier, 
=juntando-se  conversa. "Ento no h-de ele acreditar? =At 
eu! Nem que seja daqui a cem anos, mas que ela vai acabar, l 
=isso vai. "
220
"No sejas parvo, Jacques, a profecia  a de que a guerra vai 
=acabar em breve. "
"No foi isso, em bom rigor, o que o nosso convidado leu no 
=jornal", disse o baro, apontando para O Sculo. "O que, 
pelos =vistos, est ali escrito  que a guerra terminar. 
Ora, bem =vistas as coisas, essa no me parece ser=20uma 
profecia muito difcil de fazer,  evidente que a guerra, 
mais =tarde ou mais cedo, vai terminar. At eu posso prever 
isso. A grande =questo  saber quando, e isso esses 
intrujes fanatizados =j no se atrevem a profetizar. "
"Presume-se, pelo contexto da frase, que ser =em breve. No 
acredita nisso, Alphonse? ="
"Bem, eu gostaria que fosse verdade... "
"Mas acredita ou no acredita?"
"No sei em que pensar", atrapalhou-se Afonso. "Era bom que 
=fosse verdade. "
"Isso  tudo uma fantasia", riu-se o baro. "Vivemos tempos 
=difceis e  nestas alturas que aparecem profetas, milagres, 
=crendices a apontar o caminho da salvao. As mensagens 
=messinicas so normais nestes perodos de incerteza e 
aflio. "
"Acha? ", interrogou-se o capito.
"Tenho a certeza", asseverou o anfitrio. "Vai ver que a 
guerra =no ir acabar imediatamente e que, daqui a algum 
tempo, j =ningum vai falar dessas crianas. "
Agns olhou-o com irritao. Aps um breve instante de =olhar 
carregado, suspirou e voltou-se para Afonso.
"Jacques  ateu", explicou. " pior do que Robespierre. Veja 
=l que at faz pouco de Lourdes. "
"Ah", exclamou Afonso, nada surpreendido.
"O senhor sabe o que aconteceu em Lourdes? "
"Naturalmente", assentiu o capito. "Tal como em Ftima no 
=ms passado, a Virgem apareceu numa gruta de Lourdes a uma 
=criana... "
"Bernardette Soubirous."
"Isso. A primeira apario foi em 1858, j l vo =quase 
sessenta anos. "
221
"Oh la la! ", espantou-se a bela baronesa. "At sabe o ano. " 
="Eu disse-lhe que era um homem de f", sorriu Afonso. 
"Crendices! ", =cortou o baro, sempre cptico, abanando a 
cabea.
"Eu tive uma vez um professor na faculdade que era to =anti-
religio como o meu marido", disse Agns com um sorriso. "Era 
=o professor de Anatomia, chamava-se Bridoux. Dizia ele que a 
religio =era a inimiga da cincia. " Fitou Afonso. "Tambm 
acha isso, Alphonse? "
"Sim, at certo ponto poder ser verdade", assentiu Afonso. 
="Sabe, tanto a religio como a cincia oferecem explicaes 
=para o mundo, mas o problema  que essas explicaes 
competem entre si. Para que uma seja verdadeira, a outra tem 
de ser =falsa.  por isso que a religio sempre fez tudo o 
que podia para =desacreditar a cincia e  por isso que a 
cincia faz agora o =mesmo  religio. H, todavia, uma 
hiptese que ainda ningum colocou e que me parece merecer 
=ser explorada.
"Qual ? "
" a possibilidade de estarem as duas a falar verdade, embora 
=complementando-se uma  outra, dizendo verdades diferentes. 
J =reparou que no  possvel demonstrar cientificamente a 
=existncia de Deus, mas tambm no  possvel demonstrar o 
contrrio? "
" um facto. "
"Os filsofos ateus afirmam que ns projectamos numa entidade 
=divina as nossas prprias caractersticas, o que significa 
que =Deus  uma mera criao humana. "
"Quem diz isso? "
"Oh, vrios filsofos. Sei l, Schopenhauer, Hegel, 
=Feuerbach... "
"Todos alemes", riu-se Agns. "S por isso os boches 
=merecem perder a guerra. "
Afonso sorriu.
"J vi que acha essas ideias uma heresia. "
"No, nem por isso, estava s a brincar. Julgo at que =essa 
 uma tese que merece ateno."
222
" o que eu penso. Mas a verdade  que, se, por um lado, o 
=homem criou Deus  sua imagem, por outro, coloca-se a 
questo de =saber quem criou o homem? Ou, mais importante 
ainda, quem criou tudo o =que nos rodeia, quem criou o 
universo? Ser que as coisas surgiram sem qualquer razo, o 
universo apareceu por =aparecer, assim sem mais nem menos? "
"Concordo consigo", disse Agns, estimulada por este 
pensamento. ="Talvez a verdade seja partilhada pela religio 
e pela cincia, =essa  uma hiptese fascinante."
"A minha ideia vai para alm disso, m'dame, a minha ideia  a 
=de que no h uma nica verdade. Nietzsche dizia que no =h 
factos, s interpretaes, o que  verdade do ponto de =vista 
do ser humano.  indesmentvel que existe uma realidade, 
aquilo a que Kant chamava a coisa em si, o =nmeno. Mas, como 
o prprio Kant notou, ns no vemos a =coisa em si, apenas 
vemos as suas manifestaes. Ou seja, ns =interpretamos o 
real. " Olhou em volta e viu uma fotografia emoldurada na 
parede, era o baro =montado a cavalo, com uma espingarda a 
tiracolo e rodeado de ces, =uma cena de caa em Compigne. 
Afonso =apontou para a imagem. " um pouco como aquela 
fotografia ali, =est a ver? Aquele no  o senhor baro, mas 
uma imagem =dele. Percebe? A fotografia no  o real,=20 uma 
representao do real, construda a partir de um =ngulo, com 
determinados filtros e segundo um determinado cdigo 
=arbitrrio. Tal como a fotografia reconstri o real, pondo-o 
a =preto e branco, por exemplo, ns tambm o reconstrumos. 
J Kierkegaard tinha observado que tudo o que =existe  algo 
exclusivamente individual. Ou seja, ns pomos algo =de ns 
prprios quando interpretamos a realidade e  por isso =que a 
nossa verdade  diferente da verdade de outras pessoas."
"Portanto, no h verdade.  isso? "
"No, claro que h verdade, claro que h. Mas h muitas 
=verdades. O real  uno, embora inatingvel na sua plenitude. 
As =verdades so mltiplas, uma vez que so interpretaes 
individuais do real. Eu sei que parece complicado, mas... "
"No, no, estou a entend-lo perfeitamente,  =realmente uma 
ideia interessante. "
223
 "Sabe, eu acho que esta  a nica maneira de estabelecer que
 a religio e a cincia podem estar as duas a falar verdade", 
=concluiu o capito. "O real  uno, mas cada um destes 
discursos, o
religioso e o cientfico, apresenta uma interpretao 
=individual
 desse real. As duas podem at ser contraditrias e, 
=paradoxalmente, permanecerem ambas verdadeiras. "
Fez-se silncio, apenas quebrado pelo som dos estalidos da
 madeira a arder na lareira. As sombras do lume danavam pela
 5ala, as fagulhas saltitando e bailando pelo ar como 
pirilampos
nervosos. Todos fitavam o fogo, Afonso com um sorriso de 
ntima =satisfao. Desde os tempos do padre Nunes, no 
seminrio, e
do Trindade Ranhoso, na Escola do Exrcito, que no voltara a
discutir filosofia com ningum. Era um imenso prazer estar a
faz-lo agora, pela primeira vez em tanto tempo, naquele 
recanto =perdido de Frana, ainda para mais com uma mulher 
lindssima.
Interrogou-se se alguma vez conseguiria falar de coisas to 
=profundas e apaixonantes com uma portuguesa, mas tinha 
muitas
dvidas, no se imaginava a conversar sobre Hegel com 
=Carolina.
S essa constatao encheu-o de admirao por =Agns.
A francesa, por seu turno, tinha tambm a mente concentrada
em Afonso, nas palavras que pronunciava, na maneira gil como
raciocinava. Era a primeira vez desde o namoro com Serge que
mantinha uma conversa to interessante com algum, um 
=dilogo
que a libertava daquelas quatro castradoras paredes e, 
atravessando =uma maravilhosa janela imaginria, a lanava 
destemidamente numa =viagem feita de encantamento e magia, um 
deslumbrante priplo pelo =inspirador mundo das ideias, um 
universo
rico, pleno de pensamentos audazes, de novidades palpitantes, 
de =revelaes surpreendentes. Lembrava-se de ter tido essa 
=sensao
quando visitou a Exposio Universal de Paris ou quando o pai
 lhe ensinou os segredos do vinho. Tambm viveu as mesmas 
=emoes de descoberta ao frequentar as aulas de Medicina e 
na =altura
 em que conheceu Serge e o seu sublime mundo das artes. Agora
 vinha este capito portugus despertar-lhe esses 
=sentimentos, esse gosto pelo conhecimento, pela explorao, 
e =Agns desejou arden temente ficar ali toda a noite a 
descobri-lo.
224
Talvez pressentindo que havia uma perturbadora qumica a 
nascer =entre o oficial e a sua mulher, o baro decidiu pr 
um fim abrupto =ao sero. Engoliu de uma assentada todo o 
cognac e levantou-se com =vigor.
" tarde. O Marcel vai conduzi-lo ao seu quarto", disse. 
Olhou =para a porta e elevou a voz: "Marcel! "
O mordomo apareceu em alguns instantes.
"Leva o senhor capito aos seus aposentos", ordenou. "Senhor 
=capito", disse, despedindo-se do seu convidado com um sinal 
de =cabea, e olhou para a mulher. "Viens, Agns. "
A francesa demorou-se um instante na cadeira de balano, como 
se =hesitasse. Ergueu-se devagar, quase contrariada, e olhou 
para o =capito portugus.
"Bonne nuit, Alphonse", sussurrou com a sua voz meiga e 
serena. =" demain. "
"Mdame! ", exclamou Afonso, pondo-se de p num salto e 
fazendo =uma vnia galante.
Marcel conduziu-o pelos corredores do palacete, indicando-lhe 
o =cabinet de toilette e os seus aposentos. O quarto onde foi 
instalado era =sumptuoso, to luxuoso que, por momentos, o 
oficial se sentiu um =palmpede, um daqueles homens do 
quartel-general que faziam a guerra =comodamente instalados 
num palacete, fardados de pijama e armados com chinelas de 
quarto. Tudo ali era requintado. =Molduras ovais decoravam as 
paredes com retratos pintados, ilustrando =rostos e feitos 
das sucessivas geraes de Redier, a famlia =que dera o nome 
ao chteau. No centro do quarto destacava-se, imponente, uma 
cama de =armao Lus XV, toda feita em nogueira, um motivo 
de concha =esculpido na madeira da cabeceira.
O quarto de banho era grande e frio. Encostada  parede 
estava =uma pia em art nouueau, o suporte de ferro batido 
revirado em arabescos, curvas aqui e ali, contorcendo-se para 
um lado e para outro, um espelho =redondo no centro ladeado 
por duas velas. Afonso acendeu-as, a bacia =tinha uma 
torneira dourada de alavanca, o bico longo de nquel =curvado 
para baixo, abriu-a,=20
225
 sentiu o lquido gelado queimar-lhe os dedos, passou a gua
 fugitivamente pela face, como um gato, pegou no savon au 
miel
 que se encontrava no bojo circular da pia e esfregou as 
palmas
das mos, sentiu a fragrncia do sabo e passou-a pelo 
=rosto,=20
esfregou a cara com gua e secou-se  toalha. Olhou de 
=relance
para a banheira Chariot instalada junto  janela, toda ela em
 ferro fundido, o interior em branco, o exterior em rosa-
forte, os
 ps dourados, sonhou tomar banho ali no dia seguinte, agora
no, a bexiga apertava-se-lhe. Saiu do cabinet de toilette e 
foi =ao
 quartinho adjacente onde se encontrava a retrete, o vaso de 
por =celana com uma elegante gravura floral decalcada, um 
longo tubo
 de nquel pregado  parede a ligar o vaso  cisterna =branca 
de
ferro fundido fixada junto ao tecto e sustentada por dois 
suportes
 dourados de girassol, levantou o assento de mogno e urinou 
para
o vaso, no final puxou a alavanca que caa da cisterna, a 
=gua foi
despejada com fragor dentro do vaso.
O capito regressou ao quarto sem lhe passar pela cabea
voltar a lavar as mos, sentia-se satisfeito com estes luxos, 
=isto
sim, isto  que era vida, a malta  volta com as latrinas e 
=ele ali
a satisfazer-se naquele palacete, o pessoal deitado em 
palheiros ou
a chafurdar na lama dos boletos campestres e ele com um 
quarto
digno de reis s para si. Suspirou com alegria, "ah caraas! 
=ah
 camano! ", murmurou, tinha de aproveitar bem aquele momento.
Despiu-se, abriu a cama e deitou-se, puxou os cobertores at
 quase  cabea, ainda encheu os pulmes com o aroma =fresco 
dos
lenis lavados e imaculadamente alvos, sentiu o calor a 
=anichar-se no seu corpo encolhido, respirou com 
tranquilidade, fechou
os olhos e adormeceu num instante, o murmrio longnquo dos
 canhes a ressoar como vagas a baterem l longe, fustigando
imaginrios rochedos da costa, a furiosa tempestade 
transformada =em distante e modorrenta mar que o embalava no 
seu agitado sono de =soldado.
O oficial portugus foi acordado de manh por uma criada que 
=lhe trouxe leite, caf, trs tostas, um pouco de manteiga e
226
uma compota, que devorou com avidez. Afiou a navalha e fez a
barba com gua fria, vestiu-se e saiu do quarto. A meio do 
=corredor viu Marcel a transportar roupas de cama.
"Msieur, o est Joaquim? "
"Pardon."
"Joaquim, le portugais. Onde est ele? "
"Ah", compreendeu Marcel. Attendez, s'il vous plait. "
O mordomo pousou as roupas numa cadeira alta do corredor,=20
deu meia-volta e apressou o passo, desaparecendo pela 
escadaria.=20
Afonso seguiu na mesma direco, desceu as escadas e deu 
=consigo no foyer. Agns apareceu  porta do salo e 
encostou-se = aduela.
"Bonjour, Alphonse. "
"Bonjour, m dame. "
"Dormiu bem? "
"Magnificamente, merci", disse, observando-a com curiosidade. 
Era =de facto uma criatura bela, os olhos verdes ainda mais
brilhantes  luz do dia. De noite parecia uma gata, tentadora 
e =misteriosa, mas agora surgia-lhe como um anjo, um ar 
imaculadamente =divino e gracioso. "Et vous? "
Agns encolheu os ombros.
"a va. "
Afonso apreciou o seu jeito suave e doce, a beleza 
tranquila,=20
o ar carinhoso e levemente triste. Admirou-a e sentiu-se 
=interessado em conhec-la melhor. Mas uma voz atrs de si, 
em =portugus, desviou-lhe a ateno.
"Meu capito! "=20
Era Joaquim, fazendo continncia.=20
"Vai buscar o carro", ordenou o oficial.
"Est l fora, meu capito. "
Marcel abriu a porta e Afonso voltou-se para Agns.
"Mdame, muito obrigado pela sua hospitalidade", agradeceu,=20
pegando na carteira e no billeting certificate que trazia 
guardado
no bolso. "Ora, um oficial  um franco e um soldado so vinte
cntimos. Portanto, julgo dever-lhe um franco e vinte 
=cntimos. "=20
227
 A baronesa aproximou-se um passo, ignorando as moedas que
 ele lhe estendia mas pegando no billeting certificate. 
Estudou o
documento com curiosidade, era o certificado de aboletamento 
e
 estava assinado pelo maire e pelo comandante do batalho e
autenticado com o carimbo do CEP. Levantou os olhos do papel
 e fitou o capito.
"Voltar esta noite? "
 "No, m'dame. "
 "E porqu? "
 "Parto hoje para as trincheiras. "
Agns cerrou os lbios.
"Vai l estar muito tempo? "
"Uma semana, m'dame. "
"Ento seja nosso hspede daqui a uma semana", disse-lhe,=20
devolvendo o billeting certificate.
Afonso hesitou um instante, sem saber como responder ao
inesperado convite.
"Com muito gosto, m'dame, teria muito prazer em c 
voltar",=20
disse, "mas tudo vai depender dos boches e do maire. "
"Voc tenha cuidado e trate dos boches que eu tratarei do
maire. "
 "E o billet? ", quis ele saber, referindo-se ao boleto.
 "Paga-me o billet para a semana. "
 Os dois apertaram as mos, ela com um sorriso sempre 
levemente =desenhado nos lbios, desta vez era um rubor 
suave, de =rosa-avermelhado, a encher-lhe a face de calor, o 
aroma floral de =L'heure bleue a perfumar o ar com as suas 
essncias frutadas.
 "Voc  realmente parecido com uma pessoa que conheci. "
 "Espero que seja uma parecena agradvel."
Ela sorriu com tristeza.
"Je vous attends", murmurou intensamente, evitando responder. 
Deu =meia-volta para se retirar e, afastando-se, olhou de 
relance para =trs, com um movimento gracioso e uma expresso
afvel. "Bonne chance! "
228
III
A terra estendia-se pelo campo quase plano, desrtico e 
=desolado, ao mesmo tempo molhado, enlameado, sujo. At onde 
os olhos =podiam ver o solo era revolto, rido, tudo se 
encontrava queimado, o =cho apresentava-se esburacado pelas 
crateras de granadas de obuses e =esventrado por minas, aqui 
e ali viam-se poas de gua e lama =donde emergiam ferros 
contorcidos, um ou outro cadver humano em =decomposio, 
ossos, botas com os ps decepados l dentro, farrapos de 
uniformes, ratazanas mortas a =boiar. As nicas coisas de p 
naquele tenebroso mar de =desolao eram as redes 
enrodilhadas de arame farpado, rvores =calcinadas sem folhas 
e com os troncos carbonizados, paredes incompletas do que 
=outrora foram casas e no passavam agora de tristes e 
=irreconhecveis runas.
Um silncio profundo abatera-se na ltima hora sobre esta 
=sinistra paisagem lunar. Encostado ao parapeito, Matias 
Silva, a quem =chamavam Matias Grande, no sabia o que mais 
detestava. Este seu =turno nas trincheiras comeara havia 
apenas dois dias e ainda no se habituara totalmente ao 
=cheiro a fezes que provinha das fossas por baixo do estrado 
de madeira, =um cheiro a que se
229
misturava o odor nauseabundo de carne putrefacta, de detritos 
de
comida apodrecida e de urina. Para se proteger do frio tinha
vestido sobre a farda o seu colete de pelica, feito de pele 
de
carneiro e sem mangas, que se tornara uma imagem de marca dos
soldados portugueses na Flandres durante os dias frios. 
=Chamavam-lhes, por isso, os lzudos. Matias levantou a 
cabea pelo
parapeito do posto, em Neuve Chapelle, e espreitou para as 
=posies inimigas. Da primeira linha, no ponto onde se 
encontrava
de vigia, at  primeira linha alem distavam quinhentos 
=metros.
"M! ", gemeu uma voz fingidamente =trmula du outro
lado da terra de ningum. "M! "
 "Filhos da puta dos boches que j me viram! ", resmungou por
 entre dentes a sentinela portuguesa, afastando-se cinco 
metros do
 local por onde espreitara, no fosse o diabo tec-las.
O colete de pele de carneiro era um sucesso entre a tropa 
alem.
Do outro lado das trincheiras estavam os homens da 50. 
Diviso
do VI Exrcito alemo, comandado pelo general von Quast e 
=pertencente ao grupo de exrcitos do prncipe herdeiro 
Rupprecht,=20
que no se cansavam de provocar os portugueses com =imitaes
de sons de rebanho. Alguns lzudos ficaram inicialmente fora 
de
si com estas graolas do inimigo, mas j todos se tinham 
=habituado, a piada, de tanto repetida, deixara de fazer 
efeito, e,=20
quando atiados, os homens dos quatro batalhes de infantaria
da Brigada do Minho, a 4. a Brigada da 2. a Diviso do CEP, 
=limitavam-se agora a ruminar alguns insultos contra os 
alemes.
 A primeira linha portuguesa prolongava-se por dez 
quilmetros, =da trincheira de comunicao New Bond Street, 
no sector de
 Fauqussart, at Ferme du Bois, a sul, com Neuve Chapelle no
meio. Este era, de resto, um troo cheio de histria antes de 
=os
portugueses chegarem. Foi justamente =em Neuve Chapelle 
que,=20
em Outubro de 1914, os alemes utilizaram pela primeira vez
gases qumicos como arma de guerra. Na altura estas 
trincheiras
 eram ocupadas por tropas francesas que, no entanto, nem 
repararam =nos gases no letais que as granadas de schrapnel 
transportavam, pelo =que a estreia das armas qumicas se 
saldou por um
230
fracasso. Depois, em Maro de 1915, j com as tropas inglesas 
=a ocuparem o sector, foi aqui lanada a primeira grande 
ofensiva =britnica contra as posies alems. Aps sucessos 
=iniciais, a ofensiva fracassou ao fim de trs dias, mas 
revelou-se uma aco politicamente importante porque =serviu 
para mostrar aos franceses o empenho dos seus aliados 
=britnicos. Na Batalha de Neuve Chapelle foram pela primeira 
vez na =guerra utilizados avies para fotografar as posies 
inimigas, de modo a fornecerem informao para a =operao, 
uma prtica que se tornaria rotineira, embora =perigosa, nas 
aces subsequentes.
Agora, neste dia 22 de Novembro de 1917, Neuve Chapelle e as 
=vizinhas Ferme du Bois e Fauquissart viviam tempos calmos 
nas mos =dos portugueses. Todo o sector da primeira linha 
era constitudo por =trs linhas fundamentais de trincheiras, 
todas elas paralelas e ligadas =entre si pelas trincheiras de 
comunicao, que as cruzavam =perpendicularmente. A mais 
adiantada das trs linhas era a linha da =frente, com um 
desenho quebrado, quase aos ziguezagues, num esforo 
deliberado de fugir ao =traado rectilneo para evitar 
enfiamentos e facilitar o cruzamento do fogo das 
=metralhadoras defensivas. Diante da linha da frente, logo a 
seguir ao =parapeito da trincheira, estendiam-se trs faixas 
de rolos de arame =farpado, erguidos para dificultarem a 
progresso do inimigo quando este atacava pela terra de 
ningum. Atrs, =cavada paralelamente  linha da frente, 
estava a linha B, que =constitua a principal linha de defesa 
adiantada e se encontrava protegida por mais uma faixa de 
rolo farpado e por ninhos =camuflados de metralhadoras 
pesadas, em geral Vicers. Mais atrs ainda, a linha C, tambm 
conhecida por linha de apoio, onde =se situavam as sedes dos 
batalhes avanados. Depois destas =trs filas de 
trincheiras, conhecidas globalmente sob a =designao de 
primeira linha, vinha a linha das aldeias, ligando 
Richebourg, Pont =du Hem e Laventie, igualmente protegida por 
uma longa rede de arame =farpado, e a linha de Corpo, que 
passava por Huit Maisons e Lacouture, =constituda por vrios 
pontos fortificados que defendiam as principais vias de 
=comunicao para a retaguarda.=20
231
Finalmente, ao longo da ribeira de Lawe, a linha do Exrcito, 
=atrs da qual se encontravam os quartis-generais e uma 
legio =de cachapins, a expresso pejorativa por que eram 
referidos todos os =militares envolvidos em tarefas 
burocrticas e que das trincheiras apenas conheciam as 
fotografias que viam nas =revistas.
Matias sentiu movimento  esquerda. Pelos regulamentos estava 
=proibido de virar a cabea para outro lado que no fosse a 
terra =de ningum, mas tinha de se certificar de que o 
inimigo no entrara furtivamente na primeira linha. Afinal de 
contas, as =trincheiras eram locais habitualmente desertos, 
andava-se centenas de =metros e s se via uma sentinela, pelo 
que qualquer movimento naquele =stio desolado tinha de ser 
identificado. Olhou para a esquerda e no =viu ningum. 
Poderia ser o sargento ou o oficial de servio  =ronda da 
linha da frente, mas tinha de ter a certeza. Virou a =Lee-
Enfield e apontou-a preventivamente.
" Quem vem l ", perguntou.
"Tiro", foi a resposta. "Contra- senha? "
"Fogo", disse Matias, descontraindo-se e voltando a prestar 
=ateno  terra de ningum.
Um soldado tambm protegido por um colete de pele de carneiro 
=apareceu da trincheira de comunicao =La Fone Street, 
perpendicular  linha da frente e construda =igualmente em 
sucessivos ziguezagues, e apresentou-se no posto da 
=sentinela. Matias viu-o e reconheceu Vicente, um homem baixo 
e forte, o =rosto largo, um bigode tmido no canto dos lbios 
e umas mos de ouro, era carpinteiro em Barcelos e o jeito 
para =criar objectos a partir da madeira atingira tal fama 
que todos o =conheciam por Manpulas.
"Venho render-te", anunciou Vicente. "Com' qu'est esta 
=merda?"
Vicente era um pouco trapalho a falar, disparava as palavras 
=com rapidez sfrega e engolia algumas slabas. Era por vezes 
=difcil entend-lo, mas, com o hbito, Matias tornou-se um 
bom =descodificador das suas conversas.
"Tive uma hora tranquila", foi a resposta. "A costureira dos 
boches =abriu fogo h vinte minutos, mas acho que foi s para 
me manter =acordado. "
232
"Brrrr, t qui um gelo... "
"Aguenta-te, Manpulas, que eu agora vou serrar presunto e 
ver =se como umas gajas no abrigo. "
"Vai mas  pentear macacos, meu cabro! "
Matias riu-se e saiu dali em passo rpido, aliviado, 
permanecer =na linha da frente punha qualquer pessoa nervosa. 
 certo que a tarde =ia ainda no princpio e que o pior era a 
noite, mas ningum =ignorava que, em corrida e se no 
existissem obstculos, bastariam aos alemes entre quinze 
=segundos a dois minutos para cruzarem a terra de ningum e 
aparecerem =nas trincheiras portuguesas, dependendo do ponto 
da frente onde fizessem =a travessia. Em alguns sectores, a 
distncia era de uns meros oitenta metros, noutros atingia os 
oitocentos. =Quando volta e meia os alemes efectuavam um 
golpe de mo, as =sentinelas da linha da frente viviam uma 
experincia desagradvel.
O soldado meteu por La Fone Street, apanhou a linha B, 
paralela = linha da frente mas cem metros mais atrs, 
atravessou os postos das metralhadoras pesadas, umas Vickers 
Mk =rotativas, alimentadas por um cinto de munies e 
protegidas por =sacos de areia com uma abertura para a terra 
de ningum. Matias =cruzou ainda o posto dos telefones e 
alcanou Ghurkha Road, seguiu-a at Sign Post Lane, voltou  
direita e =foi apanhar Cardiff Road. Passou pelo abrigo de 
comando e chegou a =Euston Post, onde naquele dia estava 
montada a cozinha.
"Matos", chamou. "D-me a o borrego assado com batatas a 
=murro e o molho de caviar. "
O cozinheiro pegou numa tigela.
" para j, senhor marqus", disse, enchendo a tigela de 
=sopa aguada e entregando-a ao soldado.
Matias pegou num naco de po, sentou-se sobre a tbua e viu a 
=gua gordurosa com legumes a boiar na tigela branca.
"Porra, Matos, puseste caviar a mais", queixou-se, metendo 
uma =colher  boca e engolindo devagar a sopa juliana.
Matias Grande era um minhoto bem-disposto. Vinha de Palmeira, 
uma =freguesia a norte de Braga, e estava habituado  boa
233
e pesada comida do Minho, mas aqui, nas trincheiras, no 
tinha =iluses quanto  qualidade da cozinha. A sua me fazia 
canjas =de sonho, suculentas, ricas, temperadas, regadas a 
coentros da horta, um =manjar dos deuses a que s agora dava 
o devido valor. Desde que chegara a Frana, integrando o 
=Batalho de Infantaria 8 da Brigada do Minho, Matias Grande 
raramente =voltou a comer bem. Sonhava abundantemente com as 
sopas secas, as bolas de =carnes, as orelheiras e as papas de 
sarrabulho, mais as deliciosas =sobremesas de arrufadas, de 
brisas e de roscas, para j no falar das fabulosas 
molarinhas. Mas ali, nas primeiras linhas, tudo =isso no 
passava de fantasias cruelmente alimentadas pela memria =de 
dias que, sendo de misria e feitos de carncias, vistos 
daquela perspectiva pareciam fartos e opulentos. Tal como =a 
generalidade dos seus companheiros, Matias emagrecia meio 
quilo por =dia quando ocupava as trincheiras e s ao voltar 
s aldeias da =retaguarda, uma semana depois,  que conseguia 
restabelecer o peso.
Mas, se houve algo que aprendeu naquele lugar, foi a dar 
valor aos =pequenos nadas. As coisas mais simples 
proporcionavam-lhe agora momentos =de inexprimvel alegria. 
Frua os instantes de silncio, saboreava com gosto qualquer 
alimento, mesmo o repetitivo =corned-beef lhe sabia quase to 
bem como uns rojes  moda do =Minho, gozava com o calor da 
aguardente distribuda s=20sentinelas a arder-lhe nas 
entranhas e a queimar-lhe o sangue, =deleitava-se com os 
instantes em que no tinha tarefas atribudas =e se empenhava 
aplicadamente em recuperar o dfice de sono ou em sonhar com 
o ar perfumado dos montes do Minho, com as =guas frias do 
Este a congelar-lhe os ps ou com o calor =ternurento da sua 
Francisca a aquecer-lhe a alma e a atear-lhe o fogo da 
=paixo. Durante uma marcha, at uma paragem de meio minuto 
lhe dava prazer. Como qualquer outro soldado =do CEP, Matias 
aprendera a viver para o presente, para o momento, vivia 
=como se no existisse amanh, como se no tivesse futuro, 
como se o tempo lhe fugisse, como se a morte o pudesse =levar 
da a uma semana ou j no minuto seguinte.
234
Depois de esvaziar a sua quota de corned-beef e de tomar o 
ch, =que bebericou de olhos fechados, saiu da cozinha e 
voltou a =La Fone Street at chegar  linha C, quinhentos 
=metros atrs da e completando as trs linhas de trincheiras 
que =constituam a primeira linha. Na linha cruzou-se com 
elementos da =reserva do batalho e foi para a zona das 
latrinas. O cheiro a excrementos, sempre =presente nas 
trincheiras em geral, e nas portuguesas em particular, era 
=aqui mais intenso. Matias agarrou num balde, fechou a porta 
da latrina, =defecou para o balde enquanto ia abanando a mo 
para afastar as moscas da cara, eram enormes varejeiras azuis 
e =deslocavam-se numa nuvem ruidosa, zumbindo e azoinando, 
sequiosas da =podrido. Quando terminou, o soldado ergueu-se 
e verificou a cor das =fezes, estavam um bocado lquidas, 
interrogou-se se no estaria com disenteria, procurou sinais 
=da to frequente diarreia das trincheiras, mas no lhe 
pareceu, =afinal de contas no lhe doa o abdmen e no viu 
sangue nos =excrementos. Mesmo assim tomou nota mental para 
vigiar a prxima evacuao, limpou-se a um jornal, na 
=ocasio uma pgina desportiva do Le Petit Journal, saiu da 
=latrina, pegou no balde e lanou os excrementos para a 
fossa, guardou o balde, viu que gotas de fezes =lhe tinham 
salpicado as costas da mo direita, praguejou, limpou- se, 
=esfregando fugazmente a mo ao pano spero das calas, e 
desceu =rapidamente pela linha at ao abrigo do seu peloto.
O posto de comando da segunda companhia de Infantaria 8 da 
Brigada =do Minho estava transformado num verdadeiro 
escritrio. Encostado = parede de Grants Post encontrava-se 
o catre de arame para o oficial =de servio. Ao lado, alguns 
caixotes pregados como estantes para armazenar o que =fosse 
necessrio, aqui e ali eram visveis velas de estearina e 
=junto  entrada estava um caixote de munies a servir de 
mesa, =com um banco encostado.
Sentado  mesa, os traos rudes do caixote disfarados por 
=uns trapos esfarrapados, o capito Afonso Brando preparava 
o=20
235
relatrio das trs da tarde sobre a situao no sector =sob o 
seu comando e sobre o vento, informao esta considerada 
=relevante para avaliar a possibilidade de serem lanados 
gases txicos pelo inimigo. Por acaso, naquele dia 22 de 
Novembro, o vento vinha =de leste, sendo por isso propcio  
utilizao de armas =qumicas pelo inimigo. O documento que o 
capito ultimava era o =quinto do dia. Pelo menos, ningum 
podia acusar o CEP de ignorar a burocracia. Ainda ontem 
Afonso chegara =s trincheiras, depois da intrigante noite no 
Chteau Redier, e =afadigava- se agora, em plena frente de 
guerra, com a papelada da =companhia que chefiava.
s seis da manh j tinha enviado o "relatrio das =operaes 
e das informaes", descrevendo a ocupao =das trincheiras, 
o nmero de cartuchos consumidos pelas =metralhadoras, as 
patrulhas, as obras de reparao das trincheiras 
bombardeadas, a visibilidade, a actividade visvel =do 
inimigo, a aco das suas metralhadoras e granadas, os 
=stios alvejados, o movimento dos aeroplanos e outras 
=informaes. Este primeiro documento era sem dvida o mais 
importante, mas havia mais. As dez da manh, Afonso tinha 
=telegrafado as baixas das ltimas vinte e quatro horas e ao 
meio-dia =havia remetido o relatrio dos trabalhos e 
requisies. O =prximo relatrio seria agora s quatro da 
manh, com informaes sobre o vento e a =situao nas 
trincheiras. O problema  que a papelada no se =ficava por 
a, e o capito suspirou com desalento ao lembrar-se de =que 
teria ainda de ler com ateno a circular 22. 753, enviada 
pela brigada para clarificar a circular =12. 136 da 2. a 
Diviso, a qual, alis, era uma ampliao da =circular 9. 227 
do CEP, com novas indicaes para os soldados =sobre o modo 
de colocarem e tirarem as mscaras de p, deitados, em 
marcha, parados, a dormir ou acordados.
"Afonso", chamou uma voz atrs de si.
O capito voltou a cabea e viu o major Gustavo Mascarenhas, 
=o antigo colega da Escola do Exrcito que estava colocado 
como =segundo comandante de Infantaria 13, de Vila Real, uma 
das duas unidades =transmontanas presentes na Flandres, 
integradas=20tambm na 2. a Diviso.
236
"Entra", convidou Afonso, voltando a sua ateno para o 
=documento que ultimava. "No devias estar a preparar o teu 
=relatrio? "
"J acabei", disse Mascarenhas, baixando a cabea e 
=sentando-se no catre. "Tenho uma surpresa para ti. "
"Conta", pediu Afonso, sem levantar os olhos do seu 
relatrio.
"Lisboa mandou-nos um oficial novinho em folha. " Afonso 
parou e =ergueu a cabea.
"No me digas", sorriu, olhando para o amigo. "Quem  o 
=anjinho "
"Um tal de capito Resende. "
"Donde  que ele ? "
"Sei l", disse Mascarenhas, com um trejeito de boca. "Como 
vem =para o 13, deve ser transmontano. "
"Ainda dizem que o 13 d azar", desabafou Afonso. "Andamos 
=ns com uma enorme falta de oficiais e vocs conseguem um 
=reforo. Quando  que ele vem aqui s trinchas? "
" essa a questo", excitou-se Mascarenhas. "Ele chega daqui 
=a um bocadinho, a minha ordenana j o foi buscar. "
" homem, ento s agora  que me dizes isso? ", =repreendeu-
o Afonso. "Vamos fazer-lhe uma recepo e peras! "
" isso, Afonso, foi por isso que te vim c chamar. " Afonso 
=ergueu- se e espreitou pela porta do posto em busca da 
ordenana.
"Joaquim", chamou.
" Meu capito."
"Daqui a um bocado chega a um oficial novo", anunciou-lhe. 
="Vamos fazer-lhe a recepo ao caloiro. Avisa a malta para 
se =preparar para o nmero do costume. "
"Imediatamente, meu capito", disse Joaquim, fazendo 
=continncia antes de descer em corrida pela segunda linha.
Afonso e Mascarenhas abandonaram o posto de comando da 
segunda =companhia de Infantaria 8, em Grants, meteram pela 
Winchester Road e =apanharam a Rue Tilleloy at Baluchi Road, 
a trincheira de =comunicao por onde seguiram at virarem em
237
Cardiff Road e chegarem  linha de apoio, no sector de Euston 
=Post. A encostaram-se ao muro de pedra e aguardaram pelo 
=recm-chegado oficial.
O capito Resende apareceu no local dez minutos depois, 
=conduzido pela ordenana do major Mascarenhas. Afonso e 
Mascarenhas =viram-no aproximar-se pela longa Rue de la 
Basse e =apreciaram-no com mal disfarado prazer e 
antecipao. A farda =vinha imaculadamente lavada, o capacete 
de ferro impecavelmente colocado =e apertado debaixo do 
queixo, a mscara antigs pendurada ao pescoo e muito 
direita como requerido =pelo regulamento, o porte majestoso e 
altivo, as botas reluzindo de =graxa, embora j com alguma 
lama na sola. Apenas a barriga =proeminente estragava a 
majestosa postura marcial.
Quando se encontraram, os trs fizeram continncia e depois 
=apertaram as mos.
"Ento, capito, preparado para a vida nas trinchas? ", quis 
=saber Afonso.
"Nem por isso", disse Resende. "Ainda h quinze dias passeava 
eu =no Rossio e, veja l, estou agora aqui, de surpresa, sem 
=preparao alguma, pus-me na guerra enquanto o diabo esfrega 
um =olho. "
"Homessa! ", exclamou Mascarenhas. "No Rossio? O que fazia 
=vossemec no Rossio? "
"Bem", atrapalhou-se Resende. "Passeava, suponho. Ia at l 
=acima  Casa Havaneza comprar tabaco. "
" Havaneza? ", admirou-se Mascarenhas. "Mas donde  
=vossemec? "
"Eu sou de Pao d'Arcos."
"De Pao d'Arcos? ", surpreendeu-se ainda mais o major. "Mas 
o =que  que vossemec est a fazer no 13, que  uma unidade 
de =Trs-os-Montes? Voc devia era estar na 6. a Brigada, a 
de Lisboa, =onde se encontram o 1, o 2, o 5 ou o 11. "
"Pode parecer-lhe um pouco estranho, meu major, mas no tenho 
=nada a ver com Trs-os-Montes e fui colocado de emergncia 
no 13", =justificou-se o capito. "Vou para onde me mandam. "
238
O major Mascarenhas afagou o bigode, pontiagudo nas 
extremidades.
" a porra da falta de oficiais", comentou para Afonso. "Como 
=j viemos desfalcados e vamos perdendo homens por causa dos 
boches e =das doenas, at mandam lisboetas para os nossos 
batalhes =transmontanos. "
" meu major", observou Resende. "Quem o ouvir falar at 
=parece que me desconsidera... "
"De modo algum, de modo algum", apressou-se a esclarecer 
=Mascarenhas. "Seja muito bem-vindo ao Batalho de Infantaria 
13 e =s trincheiras do CEP. Ns estamos estacionados em 
Ferme du Bois e =aqui o capito Brando, que  do 8, de 
Braga, encontra-se a defender a linha de Neuve Chapelle. O 8 
=pertence  Barrigada do Minho. "
"Barrigada do Minho? ", admirou-se Resende.
"Engraadinho... ", comentou Afonso, rolando os olhos. 
=Mascarenhas riu-se.
"A malta chama Barrigada do Minho  Brigada do Minho. Mas, 
como =v, os minhotos ficam todos nicados. "
Os trs oficiais e a ordenana desceram pela Rue de =la 
Basse at apanharem a Edgware =Road, meteram por esta at, 
l ao fundo, galgarem pela Baluchi Trench. =Afonso adiantou-
se ligeiramente, conduzindo-os para a linha do seu =sector, 
onde, se Joaquim cumprira bem as instrues que lhe dera, 
=estava preparada a recepo ao caloiro.
Quando desembocaram na linha B, Afonso avisou, induzindo o 
=recm- chegado em erro:
"Estamos na linha da frente, o inimigo encontra-se a duzentos 
=metros. "
Era mentira, claro, mas a informao tinha sido transmitida 
=em tom grave e impunha respeito. Uma voz de sentinela troou 
nos
ares.
" Quem vem l?"
Afonso encheu os pulmes. "Mijo! ", gritou. "Contra-senha "
239
" Merda."
Afonso voltou-se para trs e olhou para Resende, que o fixava 
de =olhos esbugalhados.
"Vamos, podemos passar. "
Resende estava perplexo.
"Arre! ", exclamou. "Vocs tm o diabo de umas senhas... " 
="Chiiiu! ", indicou Afonso, o dedo  frente da boca exigindo 
=silncio.
"Silncio total! ", ordenou Mascarenhas, reforando a 
=mensagem.
O capito Resende encolheu-se no sobretudo, intimidado com o 
=ambiente opressivo. Uma rajada de metralhadora rasgou o ar. 
O facto de =ser uma Lewis portuguesa, previamente instruda 
para abrir fogo na =sequncia de um sinal de Joaquim, no foi 
comunicado ao recm- chegado. Mascarenhas deu um brutal 
=encontro ao capito Resende, este patinou desesperadamente 
no =estrado at tombar de joelhos na lama. Os outros oficiais 
e =respectivas ordenanas encostaram-se tambm ao parapeito, 
agachados. Nova rajada de metralhadora.
"Capito! ", chamou Mascarenhas, dirigindo-se a Resende. 
="Deite-se ali, depressa! "
Ali era uma poa de lama. Resende olhou, ainda hesitou, mas 
=pensou que estava em terra estranha e que os seus 
companheiros sabiam o =que faziam e por isso atirou-se em 
fora para a lama. Mascarenhas e =Afonso viram-no rebolar-se 
com entusiasmo pela poa viscosa, a impecvel farda lavada 
transformada numa papa =repugnante, e viraram a cara para 
rirem em silncio, os ombros em =convulses de gargalhadas 
reprimidas. Quando recuperaram, Afonso =fechou os olhos e, 
num titnico esforo para no se desmanchar, encheu os 
pulmes de ar e gritou baixinho:
"Boches! Aos abrigos! "
O grupo desapareceu num pice pelo emaranhado de trincheiras 
e =buracos, deixando Resende s, chapinhando na lama. O 
capito =virou-se para todos os lados e no viu ningum. Com 
os olhos muito =abertos, aterrorizados, olhou para cima  
procura
240
do temvel inimigo, o boche maldito, ergueu-se e encostou-se 
ao =parapeito, encurralado, sem saber o que fazer, a mo, 
trmula, =sacando o revlver do coldre. Durou alguns longos 
segundos este =momento de suprema desorientao e logo Afonso 
reapareceu.
"Falso alarme", explicou sumariamente. "Venha por aqui. " O 
=capito Resende suspirou de alvio e seguiu-o, transpirando 
apesar =do frio, Mascarenhas e as duas ordenanas a juntarem-
se a eles, todos =com cara de caso. Passaram por uma rvore 
carbonizada e Afonso apontou para o tronco.
"Bata aqui! ", disse a Resende.
"Como?"
"Bata aqui, homem! ", ordenou.
O capito caloiro, obediente, embora sem perceber o propsito 
=da agresso ao tronco queimado, levantou a bengala e bateu 
na =rvore. O impacto produziu um surpreendente som metlico 
e o =tronco deu um berro.
"Cuidado com isso, suas bestas!!"
Resende deu um salto, estupefacto. A rvore falava. Afonso e 
=Mascarenhas desataram a rir.
" homem, isto  um posto de observao, camuflado em 
=rvore", explicou Mascarenhas. "Chama-se Betty e  uma das 
=rvores de ferro que para aqui temos."
"Vocs esto-me a gozar... "
"Ento o que queria vossemec? ", justificou-se Afonso. "Esta 
= a nossa tradicional recepo ao caloiro aqui nas trinchas, 
=diga l se no  uma maravilha!"
"Vo-se cardar! "
Os dois oficiais riram-se.
"Deixe l que caem todos", comentou Mascarenhas. "Quando 
=entrmos pela primeira vez nas trinchas, os gajos da 1. a 
Diviso =fizeram-nos a mesma coisa. Venha da at ao posto de 
comando para =bebermos um vinho do Porto e lamber as feridas. 
"
E l foi o capito Resende, o bigode desalinhado, a farda 
=numa amlgama de lama escura e hmida, as botas cobertas de 
terra, =
241
arrastando-se penosamente pela trincheira suja e malcheirosa, 
na =esperana de saborear um doce clice com sabor a 
Portugal.
A entrada do abrigo do peloto no passava de um buraco 
=aberto junto  base do parapeito, vrias tbuas pregadas e 
=sacos de areia a=20reterem a lama cinzenta que teimava em se 
infiltrar pelas arestas. =Matias Grande meteu pela toca, 
sentindo as tbuas da escada a =rangerem a cada degrau. O 
abrigo estava iluminado por lamparinas e eram =visveis 
vrios homens deitados ou sentados, pertenciam ao seu 
desfalcado =peloto. Alguns dormiam, um fumava, outro catava 
piolhos do seu =colete de pelica, um ltimo lia uma carta 
numa pose pouco habitual, afinal de contas era raro 
=encontrar quem soubesse ler naquele universo de analfabetos, 
homens =rudes da serra e do campo que cresceram a trabalhar a 
terra e a zelar =pelos animais e que a nica educao que 
receberam foi a que a vida lhes deu. Matias ps a mo no 
=ombro do soldado que lia a carta.
" Daniel ", chamou.
O homem, magro, franzino e com olheiras, levantou a cabea. 
Tal =como Matias, mais alto e forte, usava mataces, uma 
barba cortada =rente e que distinguia os soldados minhotos do 
resto da tropa =portuguesa.
"Ento? ", saudou Daniel.
"Tudo bem, vou ver se serro presunto. "
"Alguma merda?"
"No, os balzios do costume, nada mais. "
"J manducaste? ", quis saber Daniel.
"Caviar", disse Matias, os olhos desviando-se para a carta. 
="Notcias da patroa? "
"Sim", retorquiu Daniel, a sua ateno voltando-se de novo 
=para o papel escrevinhado que tinha nas mos.
"Alguma novidade l na terra?"
Daniel, tal como Matias, era de Palmeira. Tinham andado 
juntos na =brincadeira, lavraram campos para o mesmo patro, 
fizeram vindimas =lado a lado, eram unha com carne nas 
trincheiras. Daniel muito =religioso, como convm a qualquer 
minhoto,=20
242
chamavam-lhe at Beato. Aprendera a ler com o proco, era a 
=nica forma de entender a Bblia. J Matias, menos dado a 
=misticismos, nunca encontrou grande motivao para a 
aprendizagem. =Alm do mais, os pais cedo o obrigaram a ir 
lavrar a terra, no queriam =o peso de uma boca para 
alimentar que permanecesse improdutiva. Como =resultado, 
ficou analfabeto.
"Est tudo bem, mas ela queixa-se de que o mido  
=endiabrado."
"Um boche "
"Um boche", assentiu Daniel, sorrindo.
Uma ratazana gorda correu desajeitadamente pelo abrigo, 
passando a =um palmo da tbua de Matias e deixando atrs de 
si um rasto =enlameado. O soldado observou-a a anichar-se por 
um buraco aberto nas =paredes de lama.
"Mais? ", perguntou, olhando novamente para o amigo e 
esperando =notcias de Palmeira.
"O perdigueiro da Assunta teve uma ninhada e o Zelito fez uma 
=birra, quer um cozinho. "
"Olha, a mim  que me dava jeito um co", riu-se Matias. ="J 
viste o Fritz chegar ao meu posto e levar com um perdigueiro 
nas =trombas? "
Daniel ficou pensativo.
"Eu, se tivesse um co, fazia j aqui um churrasco", 
=exclamou. "Dizem que os chineses lhes chamam um figo"
"Ests maluco", disse Matias, puxando por uma manta. "Os 
bifes, =se soubessem, deixavam de nos falar. Os camones 
adoram os ces!"
"Deixavam de nos falar? ", retorquiu Daniel. "E eu ralado, 
no =percebo nada do que eles dizem!"
" Daniel, vai-te quilhar", concluiu Matias, sacudindo a 
manta =para a libertar dos parasitas e das pulgas e deitando-
se depois na =tbua molhada e enlameada.
"Vai-te quilhar tu. "
"Vou mas  dormir, dormir e sonhar com gajas", soltou Matias, 
a =cabea j debaixo da manta. "No estado em que estou at a 
=Assunta marchava. A Assunta e o perdigueiro. "
243
"s um porco. "
"Cala-te l que eu agora vou adunar e sonhar que estou a 
tratar =do assunto com a Assunta. "
Sentiu a humidade a enregelar-lhe as costas, a lama da tbua 
a =misturar-se com a farda suja e empapada. Praguejou 
baixinho. Odiava =aquele mar de lama, no havia meio de se 
habituar a ele,=20
detestava dormir com a roupa molhada, o frio a colar-se-lhe  
=pele e a penetr-lo at aos ossos. Pensou que era inevitvel 
um dia apanhar uma pneumonia, mas esse pensamento tornou-se 
lento e =transformou- se subitamente num sonho. Tinha 
adormecido.
O posto de comando de Grants estava hmido e Afonso puxou o 
=catre para junto do caixote de munies, de modo a permitir 
que os =seus convidados se sentassem. Baixou-se para procurar 
a caixa com as =bebidas e, ainda curvado, virou a cabea para 
Resende.
"Vossemec quer experimentar um whisky? " " Um qu?"
"Um whisky "
"O que  isso? "
" uma espcie de aguardente escocesa."
Resende abanou a cabea.
"Quero l saber dessas mistelas dos bifes. D-me l mas = um 
bom porto. "
Afonso ps a garrafa na mesa, era escura, o vidro sujo e sem 
=rtulo, distribuiu trs copos e despejou um dedo de vinho em 
cada =um. Os trs oficiais ergueram os copos.
" nossa "
Depois de engolirem o primeiro trago, Resende ajeitou-se no 
banco.
"Ento como  a vida por aqui? ", quis saber. O major 
=Mascarenhas puxou de uma caixa branca, Embassy
escrito a vermelho, e tirou de l um cigarro, era um mao que 
=vinha nas raes inglesas.
"Aqui no se vive, homem", disse, acendendo o cigarro. "Aqui 
=sobrevive-se. "
244
"Imagino. "
"No imagina nada", cortou o major. "Mas vai perceber 
depressa. =O que a malta tenta  passar despercebida, 
provocar os boches o menos =possvel e ir fazendo pela vida. 
"
"Tem havido muitos combates? "
"Nem por isso", disse Mascarenhas com um trejeito de boca, 
=libertando uma baforada cinzenta do Embassy. "Nada que se 
compare com o =que se passa com os camones, aquilo  que  
bordoada da grossa. "
Mascarenhas olhou para Afonso, que se sentiu na obrigao de 
=retomar a explicao.
"Temos sobretudo duelos de artilharia, misses de patrulha na 
=terra de ningum, tiros de sniper, rajadas de metralhadora, 
essas =coisas que do encanto  vida nas trincheiras", disse 
Afonso. "As =patrulhas na terra de ningum acabam por vezes 
aos tiros, j l perdemos alguns homens. Mas =combates mesmo 
a srio, daqueles de envergadura, tivemos apenas =quatro. O 
primeiro foi logo em Julho, quando a malta do 24, de Aveiro, 
=ainda fresquinha-da-silva, fez um raide s linhas alems com 
trinta homens, s que as coisas no =correram l muito bem. "
" Porqu?"
"ramos ainda inexperientes, andvamos armados ao pingarelho 
=e apanhmos uns maduros pela frente", disse. "Alm do mais, 
um =oficial do 24 contou-me que tinham ficado com a impresso 
de que os =boches j sabiam antecipadamente que ia haver um 
raide."
"Sabiam, como? ", admirou-se Resende.
"Sei l. Por espionagem ou por um desertor, qualquer coisa 
=assim. Mas tambm porque ramos uns ingnuos. Disseram-me 
que, =dias antes do ataque, a prpria populao francesa j 
=comentava a operao. "
"No acredito. "
"Pode crer. Sabe como  o pessoal, era tudo novidade, uma 
=aventura, e facilitaram, puseram-se a falar em toda a parte 
sobre o que =iam fazer. Resultado, as coisas acabaram mal. "
245
 "E os outros combates? "
"Depois do espalhano do 24no fizemos mais nada, de modo
 que os restantes trs foram todos de iniciativa alem", 
=explicou
Afonso. "O primeiro raide dos tipos ocorreu em Agosto, trs
semanas depois do nosso. Lanaram gases e atacaram com 
centenas =de homens em Fauquissart, chegando a passear nas 
nossas
linhas, e foi sobretudo o pessoal do 35, de Coimbra, que teve 
de
se aguentar  bronca. Uma semana depois, os boches voltaram a
atacar, agora ali em Ferme du Bois, mas a artilharia bateu 
forte
e conseguiu impedir que eles chegassem s nossas linhas "
"E o terceiro raide? "
"Esse ocorreu h pouco tempo", indicou Afonso, olhando de
relance para Mascarenhas.
"H uns dez dias, mais coisa, menos coisa", referiu o major.
"J envolveu o pessoal da 2. a Diviso. "
"Os outros no foram com a 2. a Diviso? "
" homem, voc anda no mundo da Lua ou qu? ", =questionou-se 
Mascarenhas. "Ns s entrmos nas trincheiras =h pouco
tempo. Pouco tempo,  como quem diz, fez ontem dois meses e
j achamos muito. Mas a verdade  que quem aqui tem andado
no duro tm sido os gajos da 1. a Diviso, esses esto a 
=combater
desde Maio, enquanto ns s chegmos aqui s trinchas a =23de
Setembro. E foi apenas h dez dias que tivemos um combate a
srio, justamente quando desse raide inimigo. At a s 
=tnhamos
visto bombardeamentos e patrulhas."
"O azar dos boches neste ltimo raide foi o de terem 
encontrado =pela frente aqui a malta de Braga", exclamou, 
orgulhoso, Afonso.
"Ah, foi convosco? ", surpreendeu-se Resende, pousando o
copo.
 "No", disse Afonso. "Temos aqui dois batalhes de Braga,=20
 pertencentes  Brigada do Minho da 2. a Diviso. "
"A Barrigada do Minho? "
"A Brigada", insistiu, com ar de quem no admitia 
brincadeiras =com o nome da sua brigada. "Temos o 8, que  o 
meu, e o
29. Foi com o 29. "
246
" E o que aconteceu?"
"Eles avanaram ao fim da tarde em Ferme du Bois e entraram 
nas =nossas linhas, mas a malta de Braga p-los a correr num 
instante. "
" Afonso, no ests a contar a histria toda", atalhou =o 
major Mascarenhas com um sorriso, apagando no cho o cigarro 
=ingls.
"Qual histria? ", pressionou Resende.
"Ah, umas coisinhas de nada", disse Afonso.
"Umas coisinhas de nada, no", corrigiu Mascarenhas. "Houve 
=homens que abandonaram os postos e cavaram, outros foram 
feitos =prisioneiros sem lutarem e, para cmulo, houve at um 
comandante =que ficou de tal modo acagaado que nem no dia 
seguinte se atreveu a ir  linha da frente saber o =que tinha 
acontecido e mandar reparar as trincheiras danificadas. "
"Est bem, mas a verdade  que, uma hora depois de ter 
=comeado o ataque, os boches cavaram", argumentou Afonso, 
defendendo =a honra do batalho de Braga, mesmo no sendo o 
seu.
"Cavaram uma ova! ", exclamou o major transmontano. "Andaram 
a =passear na nossa linha da frente, foi o que foi, e s se 
foram embora =quando lhes apeteceu e com uma carrada de 
prisioneiros s costas, os tipos pareciam uns pastores a 
levarem a carneirada. "
"Desculpa, mas houve sete louvores e duas promoes por 
=distino em combate", lembrou Afonso.
"", cortou Mascarenhas, carregado de ironia. "E um oficial e 
=trs soldados foram punidos com priso correccional e um 
outro =oficial foi repreendido. Deve ter sido por bravura "
Afonso calou-se e engoliu as ltimas gotas do seu porto. Fez-
se =um silncio embaraado e Resende olhou para o relgio. 
"J =so quase cinco da tarde", observou o lisboeta. 
Mascarenhas ps-se =de p e os dois capites tambm se 
levantaram.
"Daqui a pouco  a formatura", disse o major, olhando para 
=Resende. "Tenho ainda de o colocar a par da nossa rotina 
aqui nas =trincheiras e das suas funes. "
247
"Ento o que tenho de fazer, meu major? ", perguntou Resende, 
=apalpando inconscientemente a barriga, cujo volume tinha o 
futuro =seriamente ameaado pela vida nas trincheiras.
"Para j, vai ser o oficial de servio  meia-noite", 
=indicou Mascarenhas. "Ter de fazer durante duas horas a 
ronda das=20
sentinelas sem nunca se abrigar e ir contar com um sargento 
com =a mesma misso, mas em sentido contrrio. H duas 
formaturas =gerais, uma ao amanhecer e outra ao anoitecer. 
Cabe- lhe ainda preparar =os relatrios sobre a actividade no 
seu sector e ter de garantir que as suas =trincheiras esto 
transitveis a qualquer momento. "
"Muito bem", disse o capito lisboeta, antevendo sete dias de 
=pesadelo e dieta forada.
"Vou agora lev-lo aos seus aposentos e apresentar-lhe o 
=pessoal. "
"Aposentos? "
" mais um buraco", corrigiu o major. Cruzou a porta e 
abandonou =o posto de Afonso, despedindo-se do amigo com um 
aceno. "At logo. "
Os dois oficiais de Infantaria 13 desceram pela trincheira, a 
=caminho de Ferme du Bois, e o capito Afonso regressou ao 
seu =relatrio das trs da tarde. A elaborao do documento 
tinha sido interrompida para a praxe ao caloiro e, por =isso, 
o relatrio teria agora de ser enviado com um grande atraso. 
=Alm do mais, era importante no esquecer a leitura da 
circular =22. 753. O oficial mirou o relgio da mesa e viu-o 
a assinalar as cinco da tarde em
ponto.
248
IV
A equipa de artilheiros tinha ordens para disparar trs 
salvas =s cinco da tarde.  hora exacta, os homens pegaram 
numa granada =de duzentas e noventa libras, carregaram a 
Howitzer, o chefe da equipa =regulou pelo culo a elevao 
at aos quarenta e trs graus e, quando ficou satisfeito, 
recuou.
"Ateno! "
Os homens taparam os ouvidos.
" Fogo!"
A Howitzer deu uma violenta guinada para trs e vomitou uma 
=lngua- de-fogo pelo cano chamuscado, um trovo ensurdecedor 
=encheu o ar e a granada saiu disparada em direco s linhas 
=inimigas. O projctil afastou-se com um silvo sinistro, o 
assobio foi morrendo no cu =at se calar, fez-se uma pausa 
de vrios segundos, uma nuvem =silenciosa ergueu- se do outro 
lado, a pausa prolongou-se, finalmente =escutou-se o 
longnquo estampido da detonao, eram notcias trazidas pelo 
vento a confirmarem que a =granada tinha explodido como 
previsto. A operao foi repetida =duas vezes, aps o que os 
artilheiros recolheram ao abrigo, no =desejando estar junto 
ao canho quando viesse a resposta.
249
No foi preciso esperar muito. Em alguns minutos, uma chuva 
de =granadas comeou a regar as linhas portuguesas. As 
sentinelas =correram a abrigar-se do fogo largado pelas 
Morser alems e at os =observadores camuflados se encolheram 
nos buracos.
As sucessivas detonaes despertaram Matias Grande e os 
=restantes homens de Infantaria 8 do torpor do sono. A terra 
tremia
e alguns pedaos de lama caram-lhe no corpo. O enorme
minhoto ergueu-se na tbua, viu uma ratazana a roer-lhe a 
manta, =sacudiu-a para afugentar o animal e sentou- se junto 
a Daniel Beato, que =tremia. O abrigo estava frio e hmido, 
mas aquele era
um tremor nervoso, de medo. Matias sentiu tambm as mos a 
=tremer e ps a manta a cobrir-lhe as costas, mas de modo a 
=esconder-lhe os membros. Uma granada explodiu perto e o 
fragor da =detonao ressoou como um tambor. Ao tremor das 
mos vieram juntar-se os suores frios. A dezena de homens que 
se apertava =no abrigo sofria em silncio, gotas de suor no 
rosto, todos sentados =olhando uns para os outros ou fixando 
os olhos no infinito ou nas =paredes enlameadas do abrigo. 
Daniel era o=20nico com as plpebras cerradas, os lbios 
murmurando uma =orao rpida e sempre repetida quando 
chegava ao fim, fazendo =assim pleno jus  alcunha de Beato.
"AveMariacheiadegraabenditasoisVsentr 
=asmulheresbenditfruto. " Escutando a ladainha sussurrada da 
=orao do amigo, por entre os baques e silvos da artilharia, 
=Matias lembrou-se com um sorriso amargo da decepo que 
sentiu quando pela primeira vez chegou s trincheiras, dois 
=meses antes, em Setembro de 1917. Imaginava antes que a 
guerra era uma =grande aventura, repleta de aco e emoo, e 
ficou =surpreendido com o volume de trabalho rotineiro e de 
bocejante tdio que preenchia a vida nas linhas. Grande 
=parte do dia era ocupada com trabalhos da mais diversa 
ordem. Os homens =carregavam munies e mantimentos, enchiam 
sacos de areia, =consertavam vedaes e redes de arame 
farpado,=20
faziam buracos, procediam a drenagens, pregavam tbuas nos 
=parapeitos, reforavam paredes, efectuavam limpezas, tudo 
sempre com =o estmago a apertar de fome e o corpo a tremer 
de frio.
250
A estafa era tanta que Matias comeou a concluir que fazia 
=trabalho de servo em condies de escravo e a viver como um 
homem =das cavernas.
Quando vieram os primeiros bombardeamentos pesados foi uma 
alegria, =os lzudos pareciam uns garotos traquinas, 
estupidamente =entusiasmados com o espectculo ferico que 
iluminava a noite. =Naquela altura, tudo cheirava a novidade, 
tudo prometia animao. =Ningum teve verdadeiro medo, havia 
at quem sasse dos abrigos =para ver como eram as coisas, a 
aco parecia excitante, palpitante, tremenda, a adrenalina 
disparava, a =guerra era um alucinante jogo de luzes, cores, 
sons e emoes =fortes. Sentiam-se bizarramente 
invulnerveis, turistas num inofensivo passeio, actores numa 
emocionante =aventura. Matias achava ento que as granadas 
no lhe eram =destinadas, que as balas passariam sempre ao 
lado, e admirava-se quando =via os tommies a abanarem a 
cabea, estupefactos com a alegria infantil dos lzudos. Mas, 
quando =comeou a ver os seus camaradas morrer, pedaos de 
carne =espalhados pelo cho e membros mutilados em redor, 
tudo mudou, a =morte deixou de ser abstracta. O que 
inicialmente no parecia passar de uma fantasia irreal 
transformou-se agora em perigo =letal, deixou de ser 
brincadeira e comeou a ser pesadelo. Vieram os =tremores, o 
suor, o horror, a impotncia. Matias comeou =gradualmente a 
perceber que a=20guerra era feita de oitenta por cento de 
tdio e rotina, dezanove por =cento de frio polar e um por 
cento de puro horror, o mesmo horror que =naquele momento o 
paralisava, a si e aos seus companheiros. Fugir dali =estava 
fora de questo, mesmo que os regulamentos militares o 
permitissem. Os abrigos =encurralavam-no,  certo, mas sempre 
ofereciam alguma =proteco. L fora, sob a tempestade de ao 
e de fogo, =suspeitava que no seria possvel sobreviver 
muito tempo.
"Os cabres dos cachapins deviam era estar aqui", resmungou 
=Vicente Manpulas, que terminara havia uma hora o servio de 
=sentinela e tentava agora distrair as atenes do 
bombardeamento =pesado que decorria no exterior.
251
Vicente era o mais rezingo soldado do grupo, no perdia 
=oportunidade para flagelar os oficiais com palavras 
carregadas de =revolta, mas a verdade  que se limitava a 
expressar de viva voz o =que outros calavam em pensamento. O 
ressentimento das =praas para com os oficiais e a multido 
de militares com tarefas =exclusivamente burocrticas era 
profundo e tema recorrente das suas conversas. Os soldados 
=formavam uma comunidade fechada, unidos pela misria 
extrema, tinham =conscincia de serem carne para canho e 
sentiam-se esquecidos =pelo pas e espezinhados pelos chefes.
"Temos de aguentar", comentou Matias laconicamente, cerrando 
os =dentes para controlar o medo.
"Ns aqui na merda eles nos seus abrigos com camas, a viverem 
= grande nos quartis-generais aquecidos com lareiras, a 
gozarem o =prato nas brincadeiras c'as demoiselles, a 
alambuzarem-se nas messes =c'as raes de carne de vaca, a 
emborcarem tintol servido em copos de cristal e a =dormir'em 
lenis lavados e perfumados", enumerou Vicente com um =esgar 
de desprezo.
Um outro lzudo aproximou-se, quase gatinhando pelo soalho 
=enlameado do abrigo. Era Baltazar, um serrano do Gers que 
costumava =ser gordo e agora, com a pele enrugada e o cabelo 
prematuramente =grisalho nas tmporas, mostrava um aspecto 
envelhecido, chamavam-lhe at o Velho. =Sentindo uma espcie 
de comunho do medo, que o levava a procurar =os homens que 
com ele sofriam, decidiu animar o dilogo, apimentando-o com 
pormenores sobre as demoiselles, era uma maneira =eficaz de 
distrair a mente do bombardeamento.
Noutro dia, em St. Venant, vi mesmo uma gaja a sair do
quartel-general", disse Baltazar. "Que categoria! "
Calaram-se, imaginando-a. Qualquer notcia sobre o 
aparecimento =de mulheres causava sempre sensao.
"Era boa? ", perguntou Matias, sabendo que o Velho no era 
=econmico no uso da palavra "categoria", essa era mesmo a 
sua =expresso favorita desde que a ouvira da boca de um 
oficial.
252
"Sabes que no sou esquisito", disse Baltazar Velho, 
encolhendo =os ombros. "L na minha aldeia, em Pites das 
Jnias, j =pinei sansardoninhas bem piores, de bigode e 
tudo, o que  que =vocs pensam? "
"Mas como  que ela era? "
"Francesa ou flamenga, arruivada, grande e cheia de carnes", 
=descreveu, os olhos brilhantes.
"Um almazem? ", perguntou Matias.
"Um almazem", confirmou o serrano. "Mas marchava c com uma 
=categoria. "
Uma sequncia de violentas detonaes ali perto f-los 
=calarem-se e olharem para a entrada do abrigo. A terra 
voltou a tremer e =mais lama caiu do tecto.
"Porra! ", praguejou Vicente Manpulas. "Eles hoje no 
=param!" Novo silncio dentro do abrigo, abalado pelos 
=estremees e detonaes que vinham do exterior. At =Daniel 
Beato calou a orao por instantes e virou-se, apreensivo, 
para a porta do abrigo.
"Espero que esta merda aguente", disse Baltazar com fervor, 
=verificando a solidez das paredes lamacentas.
"Vamos todos morrer na puta desta guerra! ", vociferou 
Vicente, =claustrofbico naquele buraco. "Tenho c um 
pressentimento... "
"Isto est a escacholar", comentou Matias com ar tranquilo. O 
=homenzarro de Palmeira tinha a qualidade de saber ocultar o 
medo por =detrs de uma mscara de imperturbabilidade, apenas 
o tremor das =mos o traa. Matias dava importncia ao bom 
ambiente no grupo e esforava-se por acalmar os 
=companheiros, em especial Vicente, que era particularmente 
supersticioso e a todos enervava com os seus =maus agoiros. 
"Mas no h-de ser nada. "
As trepidaes libertaram novos pedaos de lama do tecto. =Os 
homens calaram-se, olhando para cima com alarme, analisando 
as =tbuas que seguravam as paredes do abrigo.
"At me treme a passarinha! ", murmurou Baltazar, angustiado. 
="... 
ventreJesusSantaMariaMedeDeusrogaipornspecadoresagora. ", 
=prosseguia Daniel, os olhos devotamente cerrados.
253
Mas as paredes aguentaram-se e, minutos mais tarde, os 
soldados =retomaram a conversa.
"Eu gostav'era de ver os oficiais aqui metidos", resmungou
Vicente. "Quando lhes chusm'a coisa xuega, pisgam-se todos.
"Os gajos so galrichos", observou Baltazar. "Agafanham-se
 em abrigos de cimento e a malta  que fica aqui a bombar. "
 Quando comearam a ter verdadeiro horror dos 
bombardeamentos, =estes momentos deixavam-nos sem fala e sem 
reaco,=20
permaneciam prostrados, encolhidos nos abrigos, quietos e 
=inquietos. Mas agora j tinham aprendido a conversar, num 
esforo
 titnico para pensarem noutras coisas e distrarem as 
=atenes da tempestade de fogo que l fora se abatia sobre 
as =trincheiras.
Chegaram at a tentar jogar s cartas, mas isso era pedir de 
=mais,=20
no se conseguiam concentrar e depressa desistiram, as suas 
=mentes
decididamente no se podiam abstrair da sombra de morte que
sobre eles pairava naqueles penosos momentos de trovoada de 
ferro.
As conversas entrecortadas, as frases despejadas num flego e 
as =palavras ditas como se queimassem eram o limite do seu 
esforo.
O velho prometeu h dois meses conceder-nos licenas p'ra
irmos a Portugal, mas aqui a mim inda no me coube nada
apesar de j ter direito", queixou-se Vicente. "Marranos. "
 "Como  que queres que a malta v se no nos deixam ir de
comboio? ", perguntou Baltazar.
 "Ist' p'ra rir", exclamou Vicente. "Do-nos as licenas 
=mas no
nos deixam apanhar o comboio.=20
O "velho" a que se referiam no era Baltazar, mas antes o 
=general
 Tamagnini Abreu, o comandante do CEP que, dois meses antes, 
em =Setembro de 1917, estabelecera um sistema de quinze dias 
de licena
 para quem estivesse cinco meses em campanha. O general 
aproveitou para =autorizar os primeiros soldados a irem de 
licena a Portugal. Em Outubro, o ministro da Guerra aumentou 
o tempo de =licena
 para vinte dias e consentiu que os soldados fizessem a 
viagem de
 comboio atravs de Espanha,  falta de navios para 
=efectuarem a ligao, mas cortou essa regalia pouco depois. 
No =havendo outro
254
meio de transporte, a proibio de usar os comboios 
=traduziu-se, na prtica, na interdio de gozar as licenas 
=em Portugal. O general Tamagnini verificou tambm que, =de 
todas as praas que em Setembro tinham sido autorizadas a 
irem a =Portugal gozar duas semanas de frias, nem uma nica 
regressara ao =CEP Nesse ms de Novembro, as licenas foram 
aumentadas para um ms mas, como no havia barcos de 
=transporte e o comandante do CEP desconfiava que qualquer 
soldado de =licena em Portugal era um soldado perdido, as 
praas ficaram literalmente a ver navios. Estavam reunidos os 
ingredientes =para lanar a grande confuso. Nas trincheiras 
comeou nesta =altura a grassar um clima de enorme 
descontentamento entre a tropa, uma revolta ainda surda de 
quem se via com a oportunidade =burocrtica de gozar a 
licena, mas que no tinha a =possibilidade real de exercer 
esse direito.
Eclodiu mais uma sucesso de detonaes prximo do =abrigo. 
As granadas passavam to perto que at se distinguiam os 
=silvos, alguns curtos, outros alongados. Todos se calaram e, 
por =instantes, voltou o silncio dentro do local.
Mas no por muito tempo.
"Os cabres no param", notou Vicente, aproveitando a 
=primeira pausa daquela sequncia de exploses. "Isto dur'h 
=meia hora e os cabres no param. "
Abel transpirava profusamente no posto de sentinela da linha 
da =frente, perto de Punn House, ali em Neuve Chapelle, 
apesar da temperatura glaciar que durava havia semanas. O 
soldado =entrara de servio s cinco da tarde, justamente 
quando o =bombardeamento comeara, e no via a hora de 
terminar o turno e ir =refugiar-se no abrigo, os ares c fora 
no lhe pareciam saudveis.
As ratazanas corriam desesperadas pelas trincheiras, fugindo 
dos =sucessivos pontos onde ocorriam detonaes. Os alemes 
varriam =de bombas as posies portuguesas e Abel, o 
Lingrinhas entre os amigos, estava proibido =pelo regulamento 
de procurar refgio. Abel era um magro agricultor de 
=Gondizalves cujas mos calejadas de trabalharem a terra 
trocaram a rude enxada pela macia =Lee-Enfield. Sabia que uma 
sentinela no podia abandonar
o posto e no tinha como se abrigar.  falta de melhor, 
=encostou-se  base da trincheira, junto  parede anterior, e 
ficou =deitado na lama, evitando assim os estilhaos de metal 
e de pedra =que, com
a chuva de lama levantada por cada rebentamento, voavam por
 toda a parte, e por ali permaneceu quase toda a hora do 
turno.
Por definio, as trincheiras so locais desagradveis. =Mas 
ali,=20
 no sector do Lys, o desconforto atingia extremos devido s 
=caractersticas do terreno. As posies ocupadas pelos 
=portugueses eram constitudas por terras baixas e argilosas, 
bastando =cavar cinquenta centmetros para encontrar gua. Na 
poca do degelo das chuvas, os drenos que cruzavam as linhas 
=transbordavam, produzindo inundaes gerais. Isto 
significava, na =prtica, que, ao
 contrrio da generalidade das trincheiras, as linhas 
=portuguesas no podiam ser cavadas em profundidade, sob pena 
de se =transformarem em verdadeiras piscinas. Por isso, a 
parte escavada
nunca excedia os sessenta centmetros, sendo as paredes dos 
=parapeitos constitudas por sacos de areia ou de terra 
amontoados
 acima do nvel do solo, uma soluo menos segura mas a 
=nica
que se revelava prtica naquelas circunstncias. Mesmo assim, 
=a lama chegava aos joelhos em quase todas as trincheiras 
portuguesas =durante o perodo das chuvas ou do degelo, e no 
era uma lama =qualquer. Pegava-se ao corpo como cola e no 
era a primeira
nem a segunda vez que os soldados ali deixavam as botas. Abel
ficou uma vez com os ps presos naquela lama escura,=20
tentou levantar as pernas mas no conseguiu, ps as mos =no 
cho para
 melhor fazer fora nas pernas e acabaram tambm elas por 
=ficarem ali coladas. Permaneceu durante meia hora numa 
posio
ridcula, os ps e as mos pregados ao cho, e s =conseguiu 
sair quando um companheiro escavou a lama com ps.
J perto das seis da tarde, prximo da hora da rendio =de
sentinela, apareceu o sargento Rosa, de servio de 
=fiscalizao 
 linha da frente, e agachou-se junto a Abel.
 "No se pode andar por aqui no meio das marmitas, faz mal
  sade", ironizou o sargento entre duas golfadas de ar para 
=recu perar o flego. " Lingrinhas, tens espreitado pelo 
=parapeito? "
256
"Sim, meu sargento", mentiu Abel.
"No topaste movimento na Avenida Afonso Costa? " Era a 
alcunha =da terra de ningum.
"No h nada. "
Uma das obrigaes das sentinelas era a de espreitarem pelo 
=parapeito para a terra de ningum, de modo a verificarem se 
o inimigo =estava em progresso. Como o bombardeamento =se 
prolongava e mostrava uma intensidade anormalmente elevada, a 
=vigilncia tinha de ser maior, uma vez que estes fogos de 
artilharia serviam normalmente para amaciar o =terreno e 
preparar uma surtida da infantaria. Mas Abel Lingrinhas 
=sentia-se demasiado aterrorizado e no se atrevia a erguer o 
corpo =para observar o territrio hostil.
"Quando o Beato daqui a bocado te vier substituir, no quero 
que =te vs embora", ordenou o sargento. "Como as coisas se 
esto a =pr, parece- me melhor haver duas sentinelas. "
Era uma m notcia, mas Abel procurou ocultar a =decepo. 
Queria desesperadamente refugiar-se nos abrigos, onde =estava 
o resto do pessoal, e o prolongamento do servio de 
sentinela, =embora natural naquelas circunstncias, 
significava que continuaria a expor-se penosamente e sem 
defesas =ao bombardeamento. A nica proteco era a ateno 
que =dava aos diferentes sons dos vrios projcteis. Com a 
experincia que adquirira, Abel, tal como a generalidade da 
tropa que prestava =servio nas trincheiras, j aprendera a 
reconhecer o barulho das =bombas alems antes de explodirem, 
conseguindo at adivinhar a =direco e a distncia a que 
iriam cair pelo tipo de assobio que produziam. Nessas 
=circunstncias, se distinguisse um zumbido indiciador de que 
o =projctil iria tombar em cima de si, Abel j tinha 
planeado atirar-se para o outro lado de uma das curvas em 
=ziguezague da linha da frente. Era uma proteco frgil, mas 
a =nica de que dispunha ali, a cu aberto, no posto de 
sentinela.
Para alarme dos dois homens encolhidos junto a Punn House, um 
=desses zumbidos chegou-lhes aos ouvidos. Ambos se encolheram 
no cho, =protegendo a cabea com as mos, e uma brutal
257
exploso sacudiu o ar, levantando lama e pedras e fazendo-
lhes =chegar um bafo quente e uma chuva de pequenos 
projcteis. Meio =aturdido, Abel ergueu a cabea e percebeu 
que a bomba tinha cado =na trincheira de comunicao ali ao 
lado e que parte da parede se desmoronara. O sargento Rosa 
=tambm levantou os olhos e viu a nuvem de fumo a subir da 
trincheira =situada a cinco metros de distncia. Virou-se 
para Abel e verificou =que este tinha sangue no ombro 
direito.
"Ests ferido,  Lingrinhas", disse, examinando o ombro da 
=sentinela.
Abel olhou e viu a pele esfacelada.
"Porra.!"
"Di-te? ", perguntou o sargento, vasculhando j a caixa dos 
=primeiros socorros  procura de um penso.
"No", murmurou o soldado, abanando a cabea. "Se calhar  
=melhor ir ao posto mdico."
"No digas disparates", cortou o sargento Rosa. "Vais, mas s 
=depois do bombardeamento. Isto so uns arranhes de 
estilhaos =de pedra, no  nada de grave. Pe-se a um penso 
e j =est. "
Um cheiro a mas assadas paralisou-os a meio da conversa. 
=Ergueram os olhos e viram uma nuvem amarelada a aproximar-
se, era como =se fosse um vapor suspenso no ar e empurrado
suavemente pela leve brisa que soprava das linhas inimigas. 
="Gs! ", exclamou o sargento.
Os dois homens agarraram as mscaras que traziam suspensas ao 
=peito e colocaram-nas apressadamente na cabea. Os dentes=20
apertaram o bocal do tubo, a pina metlica fechou as narinas 
=para impedir a respirao pelo nariz e as fitas elsticas 
=ajustaram
a mscara de tela ao rosto. Era muito desconfortvel, mas 
=no havia alternativa. Depois de voltar a pr o capacete, o 
=sargento deu um salto  sineta de alarme antigs e accionou-
a, alertando a tropa para a necessidade de todos utilizarem 
=as mscaras, conhecidas por "respiradores". Sabendo que o 
gs era =um prenncio de um eventual avano iminente da 
infantaria inimiga, =Rosa fez um sinal  sentinela para 
espreitar para a terra de ningum e
258
estar atenta a qualquer movimentao dos soldados alemes =e 
largou de imediato a correr pela linha, saltou por cima dos 
pedaos =desmoronados da trincheira de comunicao, chegou  
linha B, =meteu a cabea por um abrigo, tirou por instantes a 
mscara e gritou l para =dentro.
"O que  que esto aqui a fazer? "
Os homens olharam-no da penumbra do abrigo escuro, 
atrapalhados. =Sabiam que, durante um bombardeamento, as 
ordens eram de sarem dos =abrigos que no fossem de beto, 
uma vez que havia uma elevada probabilidade de os buracos se 
=desmoronarem, mas o pavor de enfrentarem as bombas e 
granadas a cu =aberto sobrepusera-se.
O sargento impacientou-se.
"Todos  linha da frente, em postos de combate", berrou. "J, 
=j! "
Sem esperar, correu para o abrigo seguinte e deu a mesma 
ordem aos =homens que l se encontravam. Entretanto, os do 
primeiro abrigo, que =eram o peloto de Matias Grande, j 
emergiam pela abertura, o sargento voltou para eles e apontou 
para a =linha da frente.
"Espalhem-se pela linha junto  Punn House", ordenou. 
="Imediatamente, meu sargento", respondeu Matias, ajeitando a 
mscara =antigs que tinha ido buscar logo que comeou a 
ouvir o alarme.
Matias Grande seguiu em corrida pela trincheira de 
=comunicao, intimamente satisfeito por se estar a mexer. 
No =havia nada que lhe fizesse mais medo do que permanecer 
encerrado num =buraco a ouvir as bombas a carem e a terra a 
tremer, tinha nessas alturas uma angustiante =sensao de 
impotncia, de claustrofobia, imaginava que a terra =lhe 
cairia em cima e morreria soterrado. Mas agora, correndo pela 
=trincheira com a espingarda na mo, ao ar livre, sentia-se 
dono do seu destino, era pura iluso, decerto, mas a 
=actividade ocupava-lhe a mente e expulsava- lhe o medo para 
um recanto =da conscincia. Daniel, Baltazar, Vicente e mais 
trs homens =seguiam na sua peugada, mas o sargento foi
259
no sentido oposto, dirigindo-se ao segundo abrigo, donde 
saltavam =agora os soldados do segundo peloto.
"Ao posto da costureira", ordenou Rosa, mandando-os ocupar a 
=posio da Vickers na linha B.
De seguida, o sargento, j ofegante, meteu pela trincheira de 
=comunicao, sentiu que o bombardeamento alemo abrandara 
=visivelmente, pensou que este era o momento mais sensvel, 
era agora =que se teria de vigiar melhor a terra de ningum, 
preocupou-se com o tempo que escasseava, chegou  linha da 
frente =e deu com os homens encostados ao parapeito e com as 
armas em =prontido, as baionetas aguadas na ponta.
"Novidades? ", quis saber, voltando a afastar momentaneamente 
a =mscara para lanar a pergunta.
Os homens abanaram a cabea, indicando que nada acontecera. 
=Estavam todos com as mscaras colocadas, pelo que se tornava 
=difcil perceber quem era quem. Vicente Manpulas 
distinguia-se pelo corpo baixo e forte, enquanto Matias 
Grande era =o mais alto e encorpado e Daniel o mais franzino, 
os dedos do Beato a =acariciarem o pequeno crucifixo que 
trazia ao pescoo. E o magricelas =que tinha o ombro direito 
esfacelado s podia ser o Abel Lingrinhas. Encontrava-se 
sentado no cho, um =companheiro de ccoras a colocar-lhe um 
penso, aquele que o sargento =no tivera tempo de fazer por 
causa da intempestiva chegada do =gs.
"Todos a vigiarem o inimigo", ordenou o sargento. Um oficial 
=apareceu nesse instante na linha. Era o tenente Cardoso, que 
estava de =servio de turno  linha da frente e levava a 
mscara na =mo.
"Sargento", chamou. "Est tudo bem? "
"Sim, meu tenente", confirmou o sargento Rosa, tirando 
novamente a =mscara.
" Est tudo a postos."
"Sim, meu tenente", repetiu. "Chamei os homens do abrigo e 
coloquei =uma seco na Vickers ali atrs. Mas talvez seja 
melhor mandar =vir mais homens, agora que o bombardeamento 
abrandou, nunca se sabe o =que  que o inimigo vai fazer. "
260
"V l que eu fico aqui", ordenou o tenente.
O sargento recolocou a mscara e voltou  semidestruda 
=trincheira de comunicao, fazendo-se  segunda linha para 
=convocar mais soldados que se encontravam nos abrigos.
Na linha da frente, o tenente Cardoso colocou a mscara e 
=posicionou os homens ao longo da trincheira. Matias 
instalou-se na =esquina mais prxima da trincheira de 
comunicao de Punn =House, atento ao que se passava na terra 
de ningum. Havia muito fumo  frente, resultado das 
mltiplas granadas que =foram caindo no local, em particular 
junto ao arame farpado das linhas =portuguesas. Em alguns 
pontos, a linha de arame farpado estava mesmo interrompida, o 
solo aberto em crateras escavadas pelas bombas da =ltima 
meia hora.
Matias sentiu os vidros da mscara embaciarem-se. Pegou nas 
=dobras do respirador e limpou exteriormente os vidros sem 
retirar a =mscara. Respirar pela boca cansava-o, mas no 
tinha remdio. =De sbito, viu um vulto emergir do fumo  
esquerda, um outro insinuou-se ao lado. Matias reconheceu os 
contornos =inconfundveis dos capacetes pickelhaube. Retirou 
a boca da =vlvula respiratria.
"Boches! ", anunciou, num sussurro gritado e abafado pelo 
=respirador, apontando na direco onde referenciara o 
inimigo.
Eram os primeiros alemes que via de corpo inteiro ao natural 
e =em situao de combate, sem serem prisioneiros ou vultos 
fugidios =que se esgueiravam de longe algures nas linhas 
inimigas. Estranhou o =caracterstico capacete gtico em 
couro cozido, o pickelhaube tinha sido no ano anterior 
=substitudo por mais modernos capacetes de ao, certamente 
que =aquela fora ainda no tinha sido equipada com essa 
novidade, =no interessava, eram alemes e bastava. Os homens 
voltaram as Lee-Enfield para a terra de =ningum, os coraes 
aos saltos. O tenente Cardoso chamou =Daniel Beato com um 
gesto, apontou para um dos foguetes encostados na 
=trincheira, fazendo sinal de que queria que ele os lanasse, 
sacou o revlver e indicou os vultos.
"Fogo! ", ordenou o tenente, a voz tambm distorcida pela 
=mscara de lona.
261
Matias sentiu a espingarda saltar-lhe dos braos com o coice 
do =tiro, as detonaes da sua arma e das dos seus 
companheiros a =ecoarem-lhe ruidosamente nos tmpanos e a 
testarem-lhe os nervos. Os =vultos atiraram-se ao cho e uma 
metralhadora inimiga abriu fogo sobre a posio de Punn 
=House, fazendo saltar a lama em redor. Os portugueses 
encolheram-se por detrs do parapeito, as =respiraes 
aceleradas pelo medo e pela tenso de terem de =colocar 
depressa uma nova bala em posio. As suas =espingardas 
tinham um sistema de repetio e, por isso, eram =forados a 
recarreg-las manualmente. Ao mesmo tempo que os seus 
=camaradas, e numa anrquica sinfonia de cliques e claques 
metlicos, Matias abriu =apressadamente a culatra da Lee-
Enfield, puxou- a, deixou a mola do =carregador empurrar a 
bala seguinte para o cano, fechou a culatra, esperaram todos 
pela passagem das balas de uma nova rajada disparada pela 
=metralhadora inimiga, ergueram-se, deram mais um tiro 
vagamente para a =posio onde estavam os alemes e voltaram 
a encolher-se para recarregarem as espingardas. Fazia =frio, 
mas todos transpiravam abundantemente.
Com uma pistola semiautomtica na mo, o tenente Cardoso =no 
tinha de se preocupar em recarregar a arma. Estava ocupado a 
=vigiar a movimentao inimiga e ansioso por se ver livre da 
=claustrofbica mscara antigs. Olhou atentamente em redor e 
concluiu que a nuvem txica j se tinha afastado. =Arrancou 
parcialmente o respirador, inalou uma pequena golfada, a 
medo, =nada aconteceu, verificou que, de facto, o ar era 
respirvel e, mais =confiante, tirou toda a mscara. Os 
homens imitaram-no, aliviados por se verem livres do 
=incmodo dispositivo de respirao, e sentiram a brisa 
fresca =chocar com o suor e gelar-lhes a pele.
"Cuidado com a costureira  direita", alertou o tenente, 
=avisando desnecessariamente para a actividade da 
metralhadora inimiga.
Daniel, entretanto, conseguiu acender o rastilho do foguete e 
este =saltou para o ar com uma guinada brusca, como os 
foguetes
262
em dia de feira em Palmeira, e foi detonar l em cima, sobre 
a =linha, com um pop luminoso e inofensivo.
Espreitando as linhas a partir do seu posto, o capito Afonso 
=Brando j tinha percebido que, pela inusitada intensidade, 
aquele =no era um bombardeamento normal nem uma mera 
retaliao pelas =trs salvas das cinco da tarde. Mas quando 
viu o foguete a rebentar no =cu em frente, lanando um flash 
vermelho sobre o sector de Punn =House, percebeu que a 
infantaria inimiga estava a avanar. O foguete =significava 
um SOS.
A artilharia alem voltou a abrir fogo, varrendo a retaguarda 
=portuguesa, e os canhes do CEP respondiam com disparos a 
regar as =trincheiras inimigas. Novos clares vermelhos 
iluminaram os cus = direita, alguns sobre Ferme du Bois, 
eram mais SOS. Afonso correu =at ao posto dos sinais com a 
sua ordenana, Joaquim, logo =atrs, os dois chegaram ao 
local, o capito baixou-se para entrar =pela pequena porta e 
deu com o oficial de ligao da artilharia sentado na gaiola 
dos pombos- correios, os telefones =em cima de um caixote.
"Vocs so cegos ou qu? ", gritou o capito. "Os =canhes 
esto a disparar para o stio errado. "
O oficial de ligao, um tenente, olhou-o sem entender. "Meu 
=capito... ", gaguejou, hesitante.
"Estou-lhe a dizer que  preciso corrigir o tiro da 
artilharia", =disse, impaciente e nervoso. "D-me um 
telefone."
"Est aqui, meu capito", indicou o tenente, agarrando no 
=auscultador de um dos aparelhos que faziam ligao aos 
canhes.
Afonso pegou no telefone e conseguiu que lhe respondessem do 
outro =lado.
"Aqui capito Afonso Brando, de Infantaria 8", =identificou-
se. "Faam o favor de largar as trincheiras inimigas e 
=bombardear imediatamente a terra de ningum  frente das 
linhas =em Punn House, Church e Chapelle Hill, que =acabaram 
de lanar um SOS."
A artilharia tinha as coordenadas previamente registadas e 
Afonso =desligou sem demoras, voltando-se para o telegrafista 
 procura de =informaes adicionais.
263
" Ento?"
"As companhias da linha telegrafaram a confirmarem o 
avistamento de =tropas inimigas e a anunciarem a presena de 
nuvens de gs nas =trincheiras", indicou o telegrafista. "E a 
brigada pede =informaes sobre o que se est a passar. "
"Telegrafe a todos os postos para colocarem as mscaras de 
=gs e porem todos os homens nas trincheiras e avise a 
brigada de que =os alemes esto a atacar com infantaria =em 
Neuve Chapelle e Ferme du Bois", ordenou o =capito. "Diga  
brigada que eu solicito que os batalhes de =apoio se 
preparem para nos ajudarem."
Afonso saiu do posto de sinais e subiu ao parapeito para 
observar a =frente de combate. As granadas de obus e canho 
das minenwerfer =sobrevoavam as linhas portuguesas, indo 
explodir na retaguarda e em =vrios pontos das trincheiras, 
ao mesmo tempo que as balas metralhadas =pelas Maxim MG 
alems repicavam os locais donde os homens do CEP =abriam 
fogo. Pairavam nuvens espessas na terra de ningum e 
=tornava-se evidente que os alemes tinham lanado granadas 
de fumo para ocultarem o movimento da infantaria. O =capito 
tentou desesperadamente interpretar a pouca informao =que 
tinha ao seu dispor. Qual seria o objectivo do inimigo? Obter 
prisioneiros? Arrasar as linhas =portuguesas? Criar uma 
diverso para atrair reservas e atacar depois =noutro ponto? 
Quais os sectores da linha que precisavam de reforos? =O que 
fazer?
O tenente Cardoso j no sabia o que fazer. Os soldados 
=inimigos deslizavam colados ao cho, evitando avanar 
directamente =para Punn House, posio que estava bem 
guarnecida por si e pelos =seus homens, procurando antes um 
envolvimento=20em pina. Os portugueses disparavam 
=consecutivamente para a terra de ningum, mas nenhuma bala 
parecia atingir qualquer inimigo.
"Tu a", disse o tenente, apontando para Daniel. "Vai ali 
=derrubar a porta do paiol e traz o que encontrares. " Daniel 
foi ao =paiol de reserva, colocado perto da linha da frente
para emergncias como esta, deu cabo da fechadura a tiro e 
=arrastou a primeira caixa que encontrou para junto dos 
companheiros.
264
O tenente Cardoso arrancou a parte superior da caixa e 
inspeccionou =o contedo. Eram Mills bombs, as granadas 
arredondadas de fabrico =britnico, o formato a lembrar uns 
ananazes anes.
"Boa! ", regozijou-se. "V l agora se encontras uma Luisa e 
=magazines de munies. "
A Lewis era uma metralhadora concebida pelos americanos e 
muito =mais ligeira do que a tradicional Vickers, de fabrico 
britnico. =Pesava doze quilos, mesmo assim demasiado pesada 
para uso porttil =eficaz, mas perfeita para aquelas 
circunstncias. Daniel encontrou uma Lewis no paiol e 
agarrou-a com o brao =direito, enquanto o esquerdo pegava em 
dois magazines de munies, =em forma de disco, cada um com 
noventa e sete balas, e voltou para o =posto de combate.
"Qual de vocs se d melhor aqui com a Luisa? ", quis saber 
=Cardoso.
"Eu ajeito-me, meu tenente", voluntarizou-se Matias Grande. 
="Ento agarre l na costureira e este seu camarada d-lhe 
apoio =com as munies", disse o tenente, apontando para 
Daniel.
Matias pegou na metralhadora, encaixou um magazine de 
=munies e apontou a arma pelo topo do parapeito. Verificou 
de =imediato que a posio lhe dificultava o tiro e tomou uma 
=deciso.
"Meu tenente", chamou. "Preciso que lancem uma ronda de 
laranjinhas =para eu poder saltar l para cima" As 
laranjinhas eram as granadas =Mills. "E vo buscar mais 
munies. "
Os homens agarraram nas Mills, mas, nesse mesmo instante, 
como que =respondendo  solicitao de Matias, embora fosse 
de facto uma =resposta ao pedido feito havia minutos pelo 
capito Afonso, =comearam a chover na terra de ningum 
granadas disparadas pelas Howitzer portuguesas. Espalhou-se a 
=confuso entre as foras atacantes e Matias aproveitou para 
pular =pelo parapeito para a terra de ningum e posicionar-se 
deitado =atrs do arame farpado defensivo e de uma pilha de 
sacos de areia. Viu =alemes a atirarem-se para as crateras 
em frente, de modo a =encontrarem refgio que os abrigasse 
dos estilhaos das =exploses portuguesas, e de imediato 
carregou no gatilho.
265
A Lewis sacudiu com violncia e vomitou duas rajadas rpidas. 
=Um alemo caiu ferido, vrias balas bateram o solo em 
sequncia =e um outro soldado germnico tambm tombou. Os 
restantes aperceberam-se do fogo da metralhadora, 
=infinitamente mais perigosa do que as Lee-Enfield que os 
portugueses =estavam at a a disparar daquele ponto, e 
deitaram-se todos no =cho. J no havia alemes a correr, 
encontravam-se agora tombados, a maior parte a rastejar para 
=depresses no terreno, em geral cra teras, todos em busca de 
=refgio. As granadas portuguesas caam, porm, demasiado 
longe, o que tinha pelo menos a virtude de isolar a =fora 
atacante e impedir a passagem de reforos, mas o problema = 
que o seu efeito sobre a infantaria alem que se aproximara 
das =linhas portuguesas era assim meramente psicolgico.
Ouviu-se um apito na terra de ningum e, num pice, como que 
=respondendo a uma ordem, levantaram-se das crateras vrias 
nuvens de =soldados alemes, todos a carregarem sobre as 
linhas portuguesas. Matias Grande =apertou longamente no 
gatilho e a Lewis comeou a saltar-lhe nas =mos, num 
frenesim louco, os sucessivos coices da rajada prolongada da 
metralhadora a impedirem-no de fazer adequadamente pontaria. 
Atrs =do parapeito, os companheiros largaram momentaneamente 
as Lee-Enfield e =comearam a atirar Mills para a terra de 
ningum. Vrios =alemes caram com o fogo da Lewis e mais 
dois quando as granadas explodiram, mas =Matias apercebeu-se 
de que no os conseguiria conter a todos e =sentiu-se tomado 
por um acesso de pnico. Para agravar as coisas, o =magazine 
de munies esgotou-se inesperadamente e deu consigo a 
carregar num gatilho que =j no disparava balas. Nesse 
instante, as Maxim alems =descobriram-no e comearam a 
chover projcteis junto ao soldado =portugus. Era de mais. 
Sem recarregar a Lewis, Matias atirou-se para trs,=20
caindo aparatosamente na lama e no entulho da linha da frente 
=portuguesa.
 A situao deteriorou-se quando o grupo que defendia a linha
em Punn House viu soldados inimigos a =avanarem rapidamente
266
pela direita e a saltarem para a linha da frente do CEP, a 
uns =meros quinhentos metros de distncia, algures perto de 
Tilleloy Sul, =que estava a ser defendida por Infantaria 29, 
tambm de Braga. E o =pior  que a Lewis de Matias se calara 
e os alemes em frente j se =tinham apercebido disso, 
aproximando-se agora perigosamente, apesar do =fogo furioso 
do punhado de Lee-Enfield manejadas =em Punn House.
"Os cabres saltaram para a nossa linha", gritou o tenente, 
=anunciando o que todos j tinham visto com grande alarme. "A 
malta do =29 est tramada! " Olhou com impacincia para a 
retaguarda. "O que =esto a fazer a porra das nossas 
bacoreiras? "
As bacoreiras eram as metralhadoras pesadas Vickers. "Meu 
tenente, = melhor cavar daqui", aconselhou o pequeno Vicente 
Manpulas, =vermelho como um pimento, enquanto recarregava a 
espingarda. "Isto =t a ficar xuega. "
O tenente apercebeu-se de que, sem a metralhadora de Matias 
na =terra de ningum a varrer as linhas inimigas e com as 
Vickers =ocupadas com o flanco direito, no conseguiria 
travar a avalancha que =lhe vinha em frente e que era agora 
uma questo de um ou dois minutos at os alemes lhes 
saltarem =em cima. E, mesmo que conseguissem resistir ao 
ataque frontal, o que era =improvvel, estavam em perigo de 
serem apanhados de flanco pelos =soldados inimigos que se 
encontravam na linha portuguesa =em Tilleloy Sul.
"Vamos recuar", decidiu. "Recuem, recuem! "
O peloto disparou uma ltima salva para a terra de =ningum 
e abandonou apressadamente o parapeito em direco  
=trincheira de comunicao, o tenente a mostrar o caminho. 
Matias =j tinha recarregado a Lewis e foi o ltimo a sair, a 
metralhadora preventivamente apontada para cima dos 
=parapeitos.
As minenwerfer comearam entretanto a disparar sobre Punn 
House, =talvez alertadas pela infantaria alem para aquele 
foco de =resistncia portuguesa. Uma sucesso de exploses 
abalou com =violncia as trincheiras naquele sector, e o 
grupo comandado pelo tenente =Cardoso deslizou clere pela 
linha, os soldados correndo curvados e =tentando proteger a 
cabea.
267
Uma granada atingiu em cheio a trincheira de comunicao por 
=onde seguiam os portugueses, produzindo um fragor medonho e 
levantando =uma nuvem que envolveu o grupo. Caram todos no 
cho e Matias, =porque vinha mais atrs a fechar a fila, foi 
o nico que olhou para o local da exploso, mesmo =em frente. 
Ouviu os gemidos de um homem sem =um brao, era o tenente 
Cardoso, estava estendido no cho e olhava, =surpreendido e 
atordoado, para o coto ensanguentado que fora o seu ombro =e 
que se agitava absurdamente no ar. Mas o que verdadeiramente 
ficou =gravado para sempre na memria de Matias foram os dois 
segundos que se seguiram.
No primeiro segundo despenhou-se do cu um corpo decapitado, 
=como se fosse um fardo pesado. Pof. Depois, outro segundo 
volvido, =tombou a cabea, como uma pedra. Poc. Matias 
aproximou- se, o =corao aos saltos, angustiado, no 
querendo ver mas querendo ver, olhou para a cabea decepada e 
=reconheceu, os
olhos rolados para cima e a lngua de fora na face semi-
rasgada, =o rosto do seu amigo Daniel, o Beato, o companheiro 
de infncia nas =vindimas de Palmeira e pai do boche" Zelito, 
o homem franzino que ainda =havia duas horas lhe dera 
notcias da terra e novidades sobre o perdigueiro da Assunta, 
o camarada de =armas que rezava fervorosamente durante cada 
bombardeamento e cujas =oraes, feitas agora as contas, de 
nada lhe serviram, a no =ser
talvez poup-lo a novas tribulaes na misria da =guerra.
O posto de sinais animava-se ao ritmo de uma sinfonia de 
=comunicaes. Todos os telefones tocavam e os telgrafos 
=despejavam informao em morse, num tut-tut-tutut-tut 
contnuo =e incansvel. O telegrafista leu a ltima mensagem, 
saltou da secretria e saiu apressadamente do posto, =indo 
ter com o capito Afonso Brando, que fumava um nervoso 
=cigarro junto  porta, a ordenana ao lado.
"Meu capito", chamou.
"O que  agora? ", perguntou Afonso, irritado, voltando-se 
para =o telegrafista.
268
"Chegou h instantes a comunicao de que o inimigo j =est 
a circular na linha da frente. "
"O qu? ", exclamou o capito, vendo confirmarem-se os seus 
=piores receios. "Onde? "
"No  muito claro", retorquiu o telegrafista. "Mas a 
=mensagem menciona Tilleloy. "
"O qu? ", admirou-se Afonso, muito alarmado.
"Tilleloy, meu capito. "
"A estrada? "
"No, meu capito. Uma trincheira. "
"Ah", expirou Afonso, aliviado. "Norte ou Sul? " "Essa 
=informao no consta. Diz apenas Tilleloy. " "Informe 
=imediatamente a brigada", indicou.
"Sim, meu capito. "
Se os alemes estivessem na Rue Tilleloy, a importante 
estrada =que se prolongava desde Neuve Chapelle a Fauquissart 
sempre =paralelamente  primeira linha, isso significaria 
sarilhos dos =grandes. Sendo uma trincheira, isso queria 
dizer que a aco se encontrava circunscrita, em Neuve 
Chapelle, ao sector entre Sunken =Road e Min Street.
Afonso sentia-se mais tranquilizado, mas queria a ajuda dos 
=canhes.
"O oficial de ligao que ligue  artilharia", ordenou. ="Ela 
que bombardeie as posies  frente do arame farpado em 
=Tilleloy, diante de Mastiff Trench, para impedir que o 
inimigo consiga =reforos, mas tenham cuidado para no 
atingirem as nossas linhas, uma vez que no sabemos qual das 
=Tilleloy est ocupada, se a Norte ou se a Sul. "
"Sim, meu capito. "
Afonso olhou-o para ter a certeza de que no havia equvocos. 
="Eles s entraram em Tilleloy, certo? "
"Em Neuve Chapelle foi s no sector de =Tilleloy, meu 
capito. Mas os boches esto a atacar forte em Ferme du Bois. 
"
"Isso  para o 13", devolveu o oficial, fazendo um aceno de 
=despedida. "Vai l transmitir as instrues "
269
O telegrafista voltou apressadamente para o posto e Afonso, 
=impaciente, seguiu-o, ansioso por novas informaes. Quando 
entrou =no abrigo dos sinais havia uma outra notcia, esta 
boa,=20
 para variar. A aco da artilharia funcionara bem  =direita 
e, em combinao com a infantaria, obrigara o inimigo a 
=bater em retirada frente a Church e Chapelle Hill e o mesmo 
acontecia em Ferme du Bois. O problema era neste momento 
determinar =o que se passava em Tilleloy e, j agora, =em 
Punn House, o primeiro ponto donde fora lanado um foguete de 
SOS. =Incapaz de conter mais a impacincia e a ansiedade que 
se apossara de si, Afonso fez sinal a Joaquim para o 
=acompanhar e desceu em corrida as trincheiras, a pequena 
pistola Savage =na mo, decidido a comandar a limpeza de 
Tilleloy.
O capito encontrou as linhas mergulhadas na mais completa 
=confuso. Havia fumo por todo o lado e os homens pareciam 
=desorientados, correndo por aqui e por ali, desordenadamente 
e sem rumo =e propsito visveis, pareciam umas galinhas 
tontas. Ao
percorrer a linha, Afonso deu com o posto de primeiros 
socorros e =notou a enorme actividade  porta. Entrou no 
posto e deparou com =poas de sangue no cho, homens feridos 
a gemerem nas
macas e outros gaseados a tossirem convulsivamente, macas 
sujas por =debaixo dos corpos, algumas com pedaos de carne 
solta, os
mdicos e os enfermeiros atarefados a fazerem garrotes e de 
=tesoura em punho a cortarem peles e msculos, um deles a 
serrar
uma mo esfacelada.
 "Algum esteve em Tilleloy ou em Punn House?", perguntou 
Afonso para =ningum em particular.
Um mdico lavado em suor, a bata branca manchada de sangue 
como =se fosse um homem do talho, olhou-o de relance,=20
reprovadoramente, e regressou ao trabalho. Um oficial deitado 
numa =maca, junto  parede do posto, levantou timidamente o 
brao =direito.
"Eu estive em Punn House", disse, a voz fraca. Afonso 
=aproximou-se e reconheceu o tenente Cardoso, com
quem falara duas ou trs vezes na messe e jogara umas 
partidas
270
de bridge no quartel do Ppulo, em Braga. Cardoso jazia 
prostrado num canto =do posto sem o brao esquerdo, a manga 
rasgada pelo ombro a exibir o coto esfarrapado e =coberto de 
sangue escuro e fresco, aguardando que o tratassem e que lhe 
=dessem morfina.
"Os alemes esto em Punn House? ", perguntou Afonso, 
=sentando-se de ccoras junto  maca e indo direito ao que 
precisava de saber.
" provvel", murmurou o ferido com um esgar de dor, a voz 
=fraca e cansada. "Quando samos de l, eles j tinham tomado 
=Tilleloy Sul e estavam a assaltar o nosso sector. " Parou 
para recuperar =o flego. "Fomos bombardeados e levmos com 
uma marmita em cima, mas o pessoal que escapou ficou l, 
=montando uma nova posio de defesa na linha B. " Nova pausa 
em =busca de golfadas de ar. "O resto j no sei porque 
entretanto apareceram os maqueiros e trouxeram-me para aqui 
=neste estado."
"Est bem", suspirou o capito, erguendo-se e afagando o 
=cabelo do ferido. "Est descansado que vai correr tudo bem. 
 =desta que vais para casa, Cardoso. As melhoras. "
Momentaneamente acabrunhado com o seu jeito desastrado de 
consolar =o ferido, Afonso abandonou o posto de socorros e 
seguiu com Joaquim pela =trincheira. Cruzou-se com um 
estafeta e mandou-o parar.
"Vais ao posto de sinais e entregas ao telegrafista um papel 
que te =vou dar", ordenou, enquanto remexia os bolsos  
procura do bloco de =notas.
Afonso encontrou o bloco no bolso do casaco e ajoelhou-se 
para =rabiscar uns gatafunhos na primeira folha, suja com 
ndoas de =gordura. Eram instrues para que se suspendesse o 
bombardeamento frente a Tilleloy Norte, que =afinal poderia 
ainda estar ocupada pelo CEP, e que se prosseguisse o 
=batimento perante Tilleloy Sul, onde confirmadamente entrara 
o inimigo. =O capito entregou a nota ao estafeta e, sem 
perder mais tempo, meteu por uma trincheira de =comunicaes 
em direco  linha com a ideia de se =aproximar de Punn 
House. No caminho deu com um
271
grupo de quatro homens de olhar nervoso, pareciam 
desorientados.
"O vosso oficial? ", perguntou.
"No sabemos dele, meu capito", respondeu um soldado.
"Perdemo-lo, a ele e ao resto do peloto, no meio de toda 
esta
barafunda. "
"Venham comigo", ordenou.
Eram agora seis homens a dirigirem-se para o sector de Punn
House, pensou Afonso que talvez conseguissem fazer a 
diferena,=20
os combates tambm so feitos de momentos de inspirao =e o
que o inspirava agora era ajudar os soldados a defenderem a 
linha
e a expulsarem o inimigo, no queria ver o seu batalho 
=gozado
na messe dos oficiais da brigada nem diminudo aos olhos dos
bifes. Quando chegaram perto de Punn House ouviram exploses 
de =granadas de mo, o pop-pop-pop intermitente das 
metralhadoras e o =silvo das balas a cruzar o ar, zzziiiim, 
algumas arrancando pedaos =de madeira dos esqueletos das 
rvores carbonizadas.
"Estamos perto", avisou o capito, escondendo a apreenso
que aqueles barulhos pavorosos lhe provocavam.
O grupo foi dar com o peloto de Punn House, Matias Grande
deitado no cho com a Lewis apontada para o caminho que
conduzia  linha da frente, vrios sacos de areia amontoados
apressadamente quase at ao topo do parapeito de modo a 
=fornecerem alguma proteco, Baltazar Velho a apoi-lo com 
as =munies e Vicente e Abel a atirarem para a esquerda. No 
cho =esten dia-se um quinto soldado, agarrado  barriga e a 
agonizar, o
sangue a jorrar pelo canto da boca.
"Quem  que est a comandar isto? ", perguntou Afonso, no
 vendo nenhum oficial ou sargento no grupo.
"Eu, meu capito", disse Matias, levantando os olhos da mira
da Lewis.
Afonso procurou-lhe os gales e no encontrou nenhum. Era
uma praa.
"A que propsito? "
272
"O tenente ficou ferido e o sargento desapareceu", explicou o 
=soldado. "Como sou o mais antigo, assumi o comando. "
Afonso achou por bem no questionar a situao, as 
=lideranas naturais eram por vezes as melhores, e optou por 
se =concentrar na tarefa em mos.
"Os boches? ", interrogou.
"Esto para ali, em Tilleloy Sul", indicou Matias. "Tm =uma 
costureira apontada para aqui e decidimos montar neste ponto 
uma posio defensiva. "
"E o pessoal do 29? "
"No sei, meu capito. Devem ter recuado."
"Eles abandonaram o posto? "
Matias hesitou, percebendo a pergunta do capito. Tilleloy 
Sul, =sendo um reduto que se encontrava em mau estado de 
conservao, =tinha oito abrigos com capacidade para 
albergarem uma guarnio de cinquenta homens. Era ainda 
defendida por uma posio a =descoberto para metralhadora e 
contava com um paiol e um depsito de =gua. Tomar um reduto 
deste calibre no era suposto ser fcil.
"No sei, meu capito", disse finalmente o soldado. "O ataque 
=foi forte, l isso foi. "
Afonso suspirou.
"Arranje-me a um periscpio", disse a um dos soldados que 
=havia pouco encontrara na trincheira. Olhou para o ferido 
que agonizava =no cho, dobrado sobre o estmago. "Aproveite 
para chamar os maqueiros e tirarem-me este homem =daqui", 
ainda foi a tempo de acrescentar, virando- se para o elemento 
=que se afastava.
O soldado desapareceu e Afonso distribuiu o grupo pelo local, 
pondo =dois homens a vigiarem o sector imediatamente em 
frente, de modo a =prevenir surpresas, e os restantes 
voltados para a
esquerda. O soldado regressou entretanto com um periscpio, 
=apesar do nome pomposo no passava de um pau com um espelho 
na ponta, =e Afonso ergueu-o acima do parapeito para observar 
melhor Tilleloy Sul. =A princpio no detectou movimento,=20
273
mas os clares brancos que acompanharam uma rajada inimiga 
=revelaram-lhe uma metralhadora alem camuflada junto  base 
de um =tronco de rvore, o cano voltado para si.
"Joaquim", chamou.
A ordenana aproximou-se.
"Meu capito. "
"Ests a ver aquele tronco ali? ", perguntou, exibindo-lhe a 
=imagem no espelho do periscpio.
Joaquim olhou e viu o tronco.
"Sim, meu capito. "
"Vai ao posto de sinais e pede para a artilharia destruir o 
=tronco", instruiu. "Quando os canhes abrirem fogo, quero 
duas =Vickers tambm a dispararem ininterruptamente sobre o 
tronco. =Entendido? "
"Sim, meu capito."
"Ento vai depressa antes que eles saiam dali. "
Joaquim largou em corrida pela trincheira e desapareceu na 
primeira =curva. Afonso voltou ao periscpio para analisar 
Tilleloy Sul. Havia =detonaes sucessivas de granadas mesmo 
diante da linha da frente, =era a artilharia do CEP a 
corresponder ao seu pedido de havia pouco e a tentar =isolar 
os alemes que tinham entrado na trincheira portuguesa.
Mais uns minutos volvidos e Afonso viu grupos de alemes a 
=procurarem saltar o parapeito para regressarem s linhas 
inimigas.
"Apanhem-me aqueles boches", ordenou aos seus homens. Os 
soldados =dispararam imediatamente as Lee-Enfield, Matias 
levantou-se, apontou a =Lewis sobre o parapeito e, apesar do 
desconforto da posio e do peso da metralhadora, sempre eram 
doze quilos, largou algumas =rajadas. Os alemes que tentavam 
escapar desistiram momentaneamente, =assustados com a ateno 
que tinham atrado, mas a aco =teve um preo. A 
metralhadora alem escondida junto ao tronco abriu fogo, as 
balas foram chover na =posio portuguesa, muitas assobiando, 
algumas batendo nos sacos =de areia, na lama e at no 
parapeito, uma atingindo Baltazar, que =tombou no cho 
agarrado ao lado esquerdo da cara.
274
Os companheiros rodearam-no e constataram que tinha a pele 
rasgada =junto  orelha, uma ferida que provocou um profuso 
jorrar de sangue =numa abundncia que, em boa verdade, era 
desproporcional  =gravidade do ferimento.
Vicente Manpulas prestou os primeiros socorros a Baltazar, 
=fazendo- lhe um penso na ferida, e Afonso aproveitou a pausa 
para =explanar a tctica que iriam adoptar.
"Oiam bem", interpelou-os. "Ningum se vai ficar a rir da 
=malta de Braga. Quando as marmitas comearem a cair sobre a 
=costureira dos boches, avanamos pela trincha a cima e 
varremos tudo =o que nos aparecer  frente, entendido? "
Os homens fizeram que sim com a cabea, mas apenas Matias 
Grande =parecia realmente motivado e empenhado em levar a 
cabo o golpe de =mo. Afonso pressentiu isso e encarou-o, 
avaliando-lhe o corpanzil =enorme e a postura determinada.
"Voc, quem ? "
"216. "
"O nome, homem!"
"Matias Silva, meu capito."
"Pois bem, Matias", disse-lhe. "Voc parece ter caparro 
=suficiente para levar a costureira pelas trinchas. 
Recarregue =imediatamente a Luisa e, quando eu disser, vai  
frente comigo a =despejar rajadas sobre os boches, entendeu? 
"
"Muito bem, meu capito!"
"O resto do pessoal arme as baionetas. "
"Eu tambm, meu capito? ", perguntou Baltazar Velho, 
=agarrado  orelha que estava envolvida num penso.
"Claro", devolveu prontamente o capito. "No quero 
=mariquices aqui no 8. Que eu saiba, um arranho numa orelha 
no =impede ningum de combater. "
Matias colocou um novo disco de balas na Lewis, levantou a 
=metralhadora e encostou-a verticalmente  parede da 
trincheira para =depois lhe ser mais fcil pegar nela e ir 
por ali fora aos tiros. Os outros homens, incluindo 
=Baltazar, encaixaram as baionetas debaixo do cano das Lee-
Enfield.
275
Afonso voltou ao periscpio e ficou a observar Tilleloy Sul. 
De =repente, no meio do fragor da artilharia, comearam a 
erguer-se =nuvens de fumo e lama em torno do tronco onde 
estava a metralhadora =alem emboscada e, acto contnuo, as 
Vickers portuguesas abriram fogo sobre a posio inimiga. 
=Joaquim tinha comu nicado bem as suas instrues.
"J esto a neutralizar a costureira", disse Afonso sem tirar 
=os olhos do periscpio. Aps um breve instante, pousou o 
=instrumento no cho e voltou-se para os homens. "Vamos l. "
Matias Grande agarrou na pesada Lewis, os msculos macios a 
=retesarem-se com o esforo, respirou fundo e lanou-se em 
corrida =pela trincheira, os enormes braos segurando a 
metralhadora em riste, =Afonso colado a si com a pistola numa 
mo e uma Mills noutra. Chegaram  linha da frente e 
inspeccionaram os =dois lados, a direita e a esquerda, e no 
viram ningum.
"Limpa", disse Matias.
"Voc a", indicou Afonso, apontando para Baltazar. "Fique 
=aqui a vigiar a direita para no sermos apanhados por trs. 
"
Baltazar Velho plantou-se de sentinela  direita e os oito 
=homens restantes flectiram pela esquerda em direco a 
Tilleloy =Sul, Matias sempre com a Lewis apontada para a 
frente a ziguezaguear =pela linha.
Um vulto emergiu do fumo na trincheira e o portugus nem 
=hesitou, s podia ser um alemo, abriu fogo com a 
metralhadora e =derrubou o vulto, os homens do CEP 
ultrapassaram o corpo do inimigo =cado no cho e Matias 
voltou a disparar com a Lewis para o meio do fumo, apareceu 
=um segundo alemo que ergueu os braos em sinal de rendio, 
=gritando "Kamerad", Matias cortou-o a meio com uma nova 
rajada, silvavam =projcteis por=20toda a parte, em plena 
confuso os alemes pensaram que era um =contra-ataque de 
grande envergadura, tinham perdido momentos antes a 
=metralhadora e ouviam agora soldados portugueses a 
aproximarem-se =rapidamente da posio onde se encontravam, 
saltaram todos pelo parapeito, desafiaram =destemidamente as 
granadas do CEP que erguiam penachos de fumo e ferro =na 
terra
276
de ningum e mergulharam nas nuvens de guerra que pairavam 
entre =as linhas inimigas.
Os portugueses ficaram a ver os alemes a correrem de 
regresso =s suas posies, saberiam depois que vrios 
companheiros do 29 tinham sido feitos prisioneiros mas nunca 
=chegariam a saber que era esse o verdadeiro objectivo 
daquele assalto =alemo, apanhar prisioneiros portugueses 
para obter informaes =que facilitassem o planeamento da 
ofensiva da Primavera, decidida onze dias antes, =em Mons, 
pelo conselho de guerra inimigo. No parapeito, o nico 
=soldado portugus que ainda disparava sobre os alemes em 
fuga era Matias Grande. Afonso fez-lhe sinal para parar 
quando se =tornou evidente que os alemes estavam j 
demasiado longe e seria =difcil atingi-los em movimento, mas 
Matias ignorou-o, manteve o dedo =furiosamente carregado no 
gatilho e assim permaneceu enquanto viu =inimigos  frente e 
mesmo depois de eles terem desaparecido de vista. =O capito 
admirou-se com a fria do soldado e atribuiu-a erradamente a 
qualidades inatas de =guerreiro. O que Afonso no sabia, no 
podia saber, era que, =naquele dia, Matias tinha um amigo de 
infncia para vingar.
277
V
At a luz amarelada das lamparinas sobre a mesa pareceu 
brilhar =mais forte quando Marcel se colocou na porta. Afonso 
nem reparou nele, =to absorto estava a apreciar a bela mesa 
de mogno que enchia o =centro do salo de jantar, a tbua 
assente em cinco pernas pesadas com cabochons salientes, os 
talheres =de prata a enquadrarem as requintadas porcelanas de 
Svres, decoradas =com gotas de esmalte e geometrias douradas 
sobre azul-forte, =cuidadosamente alinhadas na toalha bordada 
 mo. A empregada entrou apressadamente no salo de jantar 
com a =travessa nos braos, afogueada, as mos protegidas da 
porcelana =quente por um pano branco de cozinha. Vendo-a 
passar clere e corada, o mordomo encheu o peito de ar e, a 
voz firme e solene, =anunciou o menu.
"Poulet rti aux riz  la normande", proclamou Marcel, o 
=jeito cerimonioso e o tom altivo.
A rapariga rechonchuda, sorridente e aliviada, pousou a 
travessa =fumegante na mesa e o baro Redier, agradado com o 
murmrio de =satisfao dos convidados como reaco ao 
anncio da =chegada da comida, abriu as mos em direco ao 
poulet.
278
" voil!"
"Jolly good! ", exclamou o tenente Cook, arqueando as 
sobrancelhas =e elogiando a viso do que, por todas as 
aparncias formais, seria =certamente um lauto banquete. 
"Loolzs smashing. "
O capito Afonso Brando olhou para a travessa e no =pde 
deixar de apreciar a genial maneira francesa de transformar 
um =prato banal num manjar de reis unicamente com recurso a 
um grandioso =floreado semntico inserido num ambiente 
requintado. O pomposamente designado poulet =rti aux riz  
la normande no passava de um vulgar frango =grelhado servido 
com arroz branco em molho cremoso. L em casa, na Carrachana, 
fazia-se melhor com nomes mais simples, pensou =Afonso, 
empenhado no entanto em perdoar Cook pelo entusiasmo 
excessivo que manifestava por um prato to =simplrio. No 
era ele afinal ingls, habituado a violentas =dietas de 
corned-beef, mushed potatoes, baed beans com bacon, sausages 
e =scrambled eggs? Como censur-lo pelo extraordinrio efeito 
que um mero frango produzia antecipadamente nas suas =papilas 
gustativas se o pobre moo estava habituado a sofrer os 
=rigores da austera cozinha britnica?
O oficial portugus encontrava-se de regresso ao palacete 
onde =pernoitara dez dias antes, nos arredores de 
Armentires, e admirou-se =por no se sentir admirado de ali 
estar de novo. Foi graas a uma conversa particular entre a 
bela baronesa e o maire da cidade =que Afonso obtivera um 
novo boleto no Chteau Redier, embora desta =feita no 
tivesse vindo sozinho. Tambm o tenente Timothy Cook, do 
Royal Flying Corps, recebeu o billeting =certificate para 
pernoitar no palacete nessa noite fria de 1 de =Dezembro.
"C'est bon? ", perguntou Agns, fazendo sinal a Marcel para 
=trazer o vinho.
"I say", retorquiu Cook com a boca cheia pela primeira 
garfada, um =pingo de gordura no bigode loiro. "Capital! Most 
excellent! "
Marcel aproximou-se com uma garrafa fechada e entregou-a  
=baronesa. Agns pegou nela e exibiu-a aos convidados.
279
" um Bordeaux Chteau Margaux de uma colheita de ano 
=vintage, 1892. Alguma objeco? "
Os convidados entreolharam-se, sem saberem o que dizerem. 
Cook =no era connaisseur e tanto lhe fazia. J Afonso 
entendia de =vinhos, mas apenas dos portugueses e no podia 
adivinhar que lhe =estava a ser oferecido um nctar dos 
deuses produzido pelas melhores vinhas francesas.
"C'est bon", disse finalmente o ingls, como diria a qualquer 
=outro vinho que lhe pusessem  frente, mesmo o mais 
ordinrio dos =tintos, ele que estava mais habituado s 
frescas lagers e s =tpidas ales, s mild, s bitter, s 
porter e s stout, aos halfa-pint de draft servidos num 
qualquer =pub da Strand, de King's Road ou da estreita Neal 
Street.
Agns envolveu a garrafa num guardanapo imaculadamente 
branco, =retirou a cpsula de chumbo do topo do gargalo, 
limpou o bordo e a =rolha com a ponta do guardanapo, inseriu 
o saca- rolhas metlico, =tendo especial cuidado para no 
perfurar totalmente a rolha, e puxou devagar, como se fosse 
uma =alavanca. A rolha soltou-se com um poc seco, Agns 
limpou o interior =do bordo com o pano do guardanapo, deitou 
um pedacinho de vinho no copo, =cheirou-o para captar a 
fragrncia, girou o lquido em contraluz para avaliar a cor, 
era tinto =escuro, provou-o de olhos fechados, deixando o 
vinho percorrer as =gengivas e estender-se pela lngua para 
melhor experimentar a sua fruta, textura e intensidade, 
=engoliu e esperou, sentindo o hlito a perfumar a boca. Aps 
um =breve momento, entregou a garrafa a Marcel.
"Pode servir", disse.
Os convidados olhavam-na, espantados com o inesperado 
=espectculo. Todo o ritual tinha durado uns bons trs 
minutos.
"Onde  que aprendeu a fazer isso? ", quis saber Cook. "Esse, 
=mon chre,  o meu segredo."
A baronesa sorriu e desviou os olhos para Afonso. Tinha um 
vestido =creme enfeitado com folhos trabalhados nas mangas. O 
capito reparou =no medalho azul que trazia ao pescoo, 
mesmo por cima do discreto =decote, e teve dificuldades em 
ocultar
280
a sensao de encantamento que aquela francesa lhe produzia, 
=a forma como abrira a garrafa era um inesperado extra que 
mais a =aproximava dele.
Depois de todos gabarem o poulet e o tinto to finamente 
=desenrolhado, a conversa deambulou pelas recentes aventuras 
de Afonso, =que relatou em pormenor os acontecimentos que 
vivera dias antes nas =trincheiras, mais as outras histrias 
que os seus camaradas de armas lhe contaram sobre o raide 
alemo =a Neuve Chapelle e Ferme du Bois. Os pormenores 
sangrentos e chocantes =foram eliminados, por pudor e 
respeito pela senhora presente, ficando =apenas=20os actos 
insinuados como de grande bravura. Causou particular 
=sensao junto do casal anfitrio a narrativa do audacioso 
=golpe de mo que expulsou os alemes de Tilleloy Sul, com 
Afonso a ter, todavia, o cuidado de omitir o =pormenor do 
abate do alemo que se rendera.
Agns mostrava-se discretamente encantada com o que lhe 
pareceu =ser a coragem de Alphonse e dos seus homens e por 
duas vezes fez um =brinde em homenagem ao capito e ao Corpo 
Expedicionrio =Portugus. Preocupada em no marginalizar o 
outro convidado e em ocultar do marido o interesse que =lhe 
despertava Afonso, a baronesa questionou igualmente o tenente 
=ingls sobre o que vira e o que fazia na guerra.
"I say", disse Cook, afinando a voz. "Neste momento sou 
oficial de =ligao com o exrcito portugus "
"Ah bon ", surpreendeu-se Agns.
"Indeed! ", retorquiu o tenente. "Tudo por causa do meu 
=portugus. "
"Fala portugus? ", admirou-se, por seu turno, o baro 
=Redier. "Right ho ", assentiu Cook. "Vivi trs anos no 
Brasil. " ="Ah", exclamou o baro. "No Rio de Janeiro? "
"Manaus. "
O baro ergueu as sobrancelhas, em sinal de que no 
=reconhecera o nome. "Pardon "
"Manaus.  uma cidade no meio da Amaznia "
281
"E o que estava o senhor a fazer na Amaznia? ", atalhou 
=Agns, retomando o fio da conversa.
"Its a long story", riu-se Cook. "Tive um desaguisado 
familiar em =Hendon, onde vivo, e embarquei para o Brasil. No 
Rio conheci um =carpinteiro ingls que trabalhava numa 
fazenda perto de Manaus e ele convenceu-me a ir =conhecer a 
floresta. Fiquei por Manaus. Como tinha um p-de-meia e 
=jeito para a mecnica, adquiri um pequeno barco a vapor, no 
qual transportava =seringueiros ou comerciantes pelo Amazonas 
ou pelo rio Negro at =s fazendas. Ningum falava ingls e 
l tive de aprender =portugus. "
"Alphonse", chamou a baronesa. "Ele fala bem? " "No  mau", 
=retorquiu o capito, olhando para o tenente ingls com ar de 
quem =lhe est a prestar um favor.
"Depois voltei para Hendon e comeou a guerra", continuou 
Cook, =ignorando a amigvel provocao. "O meu jeito para a 
=mecnica atirou-me para o Royal Flying Corps. "
"No tem medo de voar? ", questionou Agns, curiosa. "
Heavens, no", devolveu o tenente, abanando enfaticamente a 
=cabea. "I love it! Excepto quando aparecem os jerries, 
claro."
" Os jerries?"
"Os boches", corrigiu Cook. "Chamamos- lhes jerries. " "No 
lhes =chamam boches? "
"A Huns, who cares? " Boc es, jerries, ritz
"Huns? O que  isso? Um nome? "
"Hunos", explicou Afonso, interrompendo a conversa. "Os 
ingleses =chamam-lhes hunos"
"Ah", compreendeu Agns. "Hunos, os brbaros. " "Yes", 
=confirmou Cook. "Mas eles tambm se chamam a si prprios 
hunos. "
"Ah sim? ", surpreendeu-se Afonso, suspendendo uma garfada no 
ar. ="Nunca ouvi falar nisso!"
"Oh yes, they do! ", retorquiu o ingls, quase cantarolando. 
="Eles usam nos cintures a frase Gott Mit Uns. Eu j vi "
"Isso  outra coisa", exclamou Afonso com uma gargalhada. 
"Gott =Mit Uns significa Deus est connosco. "
282
"Deus est com os hunos", corrigiu Cook.
"Connosco", insistiu o capito.
Alphonse", chamou Agns. "Voc fala alemo? " Afonso olhou 
=para a francesa e no pde deixar de admirar a sua ateno 
=aos pormenores.
"Un petit peu. "
Ah bon ", exclamou a baronesa, em tom de admirao 
=apreciativa. "E onde aprendeu? "
Afonso hesitou, considerando as consequncias da resposta. 
=Decidiu- se pela evasiva.
"Na escola. "
"Ensinam alemo nas escolas portuguesas? "
Era uma boa pergunta. O capito sentiu uma gota de 
=transpirao a nascer-lhe na fronte e um calor sbito a 
=encher-lhe as axilas. Todos na mesa se calaram e pararam de 
mastigar, =fitando o portugus e aguardando a resposta com 
moderada expectativa. Instintivamente, =Afonso no quis 
contar a verdade, no quis dizer que frequentara o =seminrio 
em Braga nem quis falar do padre Fachetti que lhe ensinara 
=alemo, mas no percebia exactamente por que razo se 
recusava a revelar esse =facto. Ou, para ser verdadeiramente 
sincero, at percebia, embora nem =a si mesmo o quisesse 
admitir. Falar do seminrio seria dar indcios de que 
estudara para padre, o que o capito pretendia a todo o 
=custo evitar, nem pensar em deixar pairar na mente da 
francesa qualquer =hiptese de considerar que ele lhe era 
inacessvel, que as mulheres lhe eram indiferentes. Ainda 
admitiu a =possibilidade de alegar que as escolas portuguesas 
tinham capacidades =pedaggicas excepcionais, mas 
imediatamente compreendeu que essa =seria uma afirmao 
absurda e susceptvel de levantar suspeitas. Mais valia ir 
pelas meias-verdades.
"Digamos que os meus pais me colocaram numa escola especial, 
onde =se aprendiam vrias lnguas. "
"Ah bon! ", concluiu Agns, dando mostras de acreditar na 
=resposta. "E que outras lnguas aprendeu? "
"Para alm do francs, do ingls e do alemo? ", =perguntou 
Afonso. "Tambm aprendi italiano e latim. "
283
"Mas isso  uma maravilha", encantou- se a baronesa. "Voc = 
um poliglota formidvel! "
"Molte grazie, signorina, le dispiace si non parlo francesi? 
" =disparou o portugus, exibindo o seu italiano cantado.
"Oh la la ", riu-se Agns, batendo palmas e mostrando os 
dentes =brancos e bem alinhados.
Seguiu-se uma nova ronda de brindes, com Afonso a largar mais 
umas =tiradas em italiano, palavras que ningum compreendia 
mas que =produziram o seu efeito naquele subliminar jogo de 
seduo que se estabelecera entre os dois. Quando os 
italianismos se =esgotaram, o baro voltou-se para o tenente 
ingls.
"Tudo isto vinha a propsito, no me perguntem como, da sua 
=experincia na Fora Area. "
"Right ho! ", exclamou Cook, como quem regressa  terra. 
"Onde =ia eu? "
"Na Fora Area. Veio do Brasil e alistou-se na Fora =Area 
para vir  guerra."
"Oh yes! ", disse, "Alistei-me no Royal Flying Corps e l vim 
eu =para Frana. Naquela altura, h trs anos, os avies 
=pareciam feitos de carto e s serviam para voos de 
reconhecimento. O meu primeiro aparelho foi um =Farman HF-20, 
de fabrico francs, que tinha sido comprado  =Aronautique 
Militaire, a fora area francesa. Depois, =comearam a 
aparecer novos avies e passei para um Nieuport 11, tambm 
francs, um grande =avio, que estava armado com uma Vickers 
e j servia para combate. ="
"E matou muitos alemes? ", quis saber Agns.
"Estive mais envolvido em operaes de reconhecimento. As 
=minhas misses consistiam em fotografar as trincheiras, 
verificar o =que se passava por detrs das linhas inimigas e, 
j agora, =sobreviver s antiareas dos jerries. Mas houve 
uma vez em que abati um Fokker "
"Um qu? ", interrompeu o baro.
"Um Fokker, um avio boche. "
"Mas os avies dos boches no so os Tauber? " ="Tambm", 
riu-se Cook. "Os Tauber so apenas um dos modelos =boches, 
porventura aquele que os civis conhecem, mas eles
284
tm outros aparelhos, como os Fokker, os Gotha, os 
Halberstadt, =os Albatros e outros. "
"E tinha medo? ", perguntou Agns, insistindo na questo de 
=havia pouco.
Always", assentiu o tenente ingls, fazendo de seguida uma 
=expresso pensativa. "Mas houve uma vez em que tive mais 
medo de ser =apanhado vivo do que de morrer. "
"Ah sim?"
"As operaes de reconhecimento so muito ingratas no =Somme 
por causa do tempo. Est sempre nublado, as nuvens so 
=baixas e ocultam as linhas inimigas, impossibilitando as 
fotografias =areas. No ano passado, por causa da ofensiva no 
Somme, recebemos ordens =para fotografarmos as posies 
inimigas. Cansmo-nos de =sobrevoar as linhas, sem sorte 
nenhuma com as nuvens, que permaneciam =cerradas. Um dia 
estvamos a jogar football perto do aerdromo quando 
comearam a soar =as sirenes. Tinha havido uma aberta nas 
nuvens e tnhamos de =aproveitar. Fomos a correr at ao 
aerdromo e eu, sem tempo para mudar de roupa, saltei para o 
cockpit com o meu =equipamento de football. L em cima fazia 
um frio desgraado e, a =bater os dentes, os joelhos nus e 
vendo as exploses das granadas de =antiarea  minha volta, 
comecei a sentir um medo terrvel de ser atingido e de =ter 
de aterrar atrs das linhas inimigas. J viram o que era os 
=boches irem-me buscar ao avio e verem-me sair de cales e 
=equipado  footballer? "
Todos se riram, divertidos. O tenente ingls manteve um ar 
=impenetrvel, como se tivesse contado uma coisa grave. 
Sorveu um golo =de tinto e retomou a palavra.
"Este ano fui abatido durante o grande dogfight de 26 de 
Abril, =aqui perto. Foi uma batalha area que envolveu 
noventa e quatro =avies, o maior dogfight da histria da 
guerra. O Royal Flying =Corps foi dizimado, eu fiquei sem 
avio e, como falava portugus e o Corpo Expedicionrio 
Portugus =tinha acabado de chegar  Flandres, fui destacado 
como oficial de =ligao. Et
UOll. "
285
 mesa, todos se calaram. A histria do voo com equipamento 
=de football tinha sido engraada, mas o final no. Fez-se um 
=silncio embaraado e foi Afonso quem, interessado no 
pormenor =desportivo da narrativa, relanou a conversa.
"Gosta de jogar football? " "S association football"
"H mais tipos de football? "
"Sim", assentiu Cook. "H tambm o rugby football. " "Bem, 
=refiro-me quele que se joga com os ps. " "Jogam- se ambos 
com os =ps,  por isso que se chamam football", riu-se o 
ingls.
Afonso ficou atrapalhado.
"Mas qual  a diferena entre eles? "
"O association football s autoriza o goal-keeper a segurar a 
=bola com as mos, enquanto o rugby football permite que 
todos os =jogadores peguem na bola com a mo, embora os goals 
sejam marcados =com o p."
"Ah! ", entendeu Afonso. "Ento em Portugal s conhecemos o 
=association football."
" precisamente desse que eu gosto", exclamou o ingls. " 
=menos violento, os empurres so proibidos e as obstrues 
=tambm, no  como o rugby football, mais prprio para 
=energmenos rsticos do que para verdadeiros gentlemen. "
O capito percebeu que os anfitries no estavam a =entender 
a conversa e, diplomaticamente, refreou o entusiasmo. Queria 
=contar as aventuras de infncia atrs de uma bola de trapos, 
os =desvarios da juventude aos pontaps a uma pedra rolante e 
ainda os grandes matches a que assistiu no Campo =Pequeno, 
nas Salsias e na Quinta da Feiteira, mas conteve-se.
Agns aproveitou a oportunidade para fugir do tema 
desportivo, =que decididamente no lhe interessava.
"Ento o senhor est agora com os portugueses", disse, 
=dirigindo-se ao tenente ingls.
" Yes. "
" E gosta deles?"
286
"Right ho! ", assentiu, olhando para Afonso. "So simpticos, 
=uns verdadeiros jolly good fellows, e, alm disso,  preciso 
=no esquecer que so os nossos mais velhos aliados. "
"So bons soldados... ", disse a anfitri, meio perguntando, 
=meio afirmando.
A resposta foi inesperada. "Well, no exageremos. "
"No so bons soldados? "
"Sabe, para haver bons soldados , sobretudo, preciso haver 
boa =organizao. Mostre-me um exrcito bem organizado e eu 
=mostro-lhe bons soldados. A organizao produz disciplina, 
=motivao e esprit de corps. Os portugueses so uns merry 
men, uns homens descontrados, tmidos e pacficos, =mas a 
sua organizao, lamento diz-lo, deixa muito a desejar. ="
Afonso manteve-se calado. J uma vez conversara com Cook na 
=messe dos oficiais da brigada sobre este tema e conhecia as 
suas pouco =diplomticas opinies, pelo que estas palavras 
no =constituam novidade. O tenente ingls era de uma 
candura desarmante, quase cruel, mas o capito achava, =no 
ntimo, que o que ele dizia era verdadeiro. Na fase de 
=instruo, Afonso passara uma temporada nas trincheiras 
inglesas e =sabia quo diferentes eram elas das portuguesas 
em termos de organizao, =disciplina, higiene e trabalho.
"Os portugueses so desorganizados... ", avanou Agns, 
=sorrindo, como quem diz que isso no  um pecado muito 
grande.
"Right ho! ", confirmou Cook. "So os campees do improviso, 
=e isso pode pagar-se caro quando se est numa guerra. "
"Talvez amem demasiado a vida e percebam que h coisas mais 
=interessantes do que andarem a matar-se uns aos outros", 
adiantou a =francesa, olhando para Afonso como que a 
encoraj-lo.
O portugus aproveitou a deixa.
"Tirem-nos o amor, o vinho, o nosso po, o chourio e o sol, 
=e tiram-nos a alegria", observou com um sorriso.
Era uma oportunidade para mudar de tema, o que Agns e Afonso 
=ardentemente desejavam, mas o baro Redier no deixou.
287
"D-me um exemplo da desorganizao portuguesa", pediu o 
=baro ao tenente ingls.
"A questo da limpeza das trincheiras", retorquiu Cook quase 
=imediatamente.
"A limpeza? "
"A limpeza. Esta  uma rea que parece irrelevante para 
=definir um bom exrcito e, no entanto,  de enorme 
importncia. =Pelos padres de higiene  possvel descortinar 
os nveis de =organizao, disciplina e motivao de um 
exrcito. "
"As trincheiras portuguesas so sujas? ", perguntou o baro 
=com um esgar malicioso.
"As portuguesas e as francesas", adiantou Cook, no deixando 
que =o baro se ficasse a rir do capito.
O esgar de Redier desfez-se e o seu rosto exibiu um sbito 
rubor =irritado, que o tenente ingls ignorou. Se lhe faziam 
perguntas, =respondia, e que culpa tinha ele de as respostas 
no serem do agrado =de quem perguntava?
"As francesas?"
"Right ho! ", confirmou Cook. "Aps visitar vrias 
=trincheiras, aliadas e inimigas, eu e os meus amigos do 
Royal Flying =Corps at j estabelecemos a lista das mais 
limpas, por ordem =decrescente. Quer saber quais so? "
"Bien sr "
"Very well", disse o tenente, adoptando o trejeito de quem 
est =a fazer um esforo de memria. "Os campees da limpeza 
so =os ingleses e os protestantes alemes, designadamente os 
prussianos. =Depois vm os galeses, os canadianos e os 
irlandeses protestantes. Seguem-se os =catlicos irlandeses e 
os catlicos alemes, como os =bvaros. De seguida, os 
escoceses, os franceses e os belgas. No =patamar mais abaixo 
esto os indianos. Depois, os argelinos. Por ltimo, os 
portugueses, os =campees da porcaria "
Fez-se silncio.
"Isso no  simptico", cortou Agns, agastada com o =rumo da 
conversa e com os comentrios do tenente, que considerou 
=desagradveis e desnecessrios.
288
"Pediram-me a verdade e eu dei-vos a verdade", devolveu Cook, 
=fazendo um gesto de impotncia. "Aqui o capito Afonso j 
=conhece as minhas opinies e, tanto quanto me pude 
aperceber, at =concorda. "
Afonso sentiu que tinha de dizer alguma coisa. Fez um uh uh 
com a =garganta, afinando as cordas vocais antes de falar.
" um facto que as trincheiras portuguesas esto longe de 
=serem um modelo", admitiu. "Temos um problema com o nosso 
quadro de =oficiais que, em geral, no acredita na 
participao de =Portugal nesta guerra. Os homens esto a 
ficar cansados, no foi ainda feito roulement das tropas e h 
=uma gradual deteriorao da disciplina. Como consequncia, 
por =exemplo, as latrinas no so convenientemente limpas e 
h lixo =a acumular-se nas trincheiras. Para alm disso, no 
h hbito em Portugal de se tomar regularmente =banho. A 
campanha dos higienistas, que se propagou pela Europa no 
=sculo passado, no chegou ao nosso pas, onde se considera 
que =o banho  um prazer narcisista de mulheres ociosas e 
fteis, quase um pecado. =Impusemos aos nossos soldados a 
obrigatoriedade de um banho semanal, mas =a maior parte acha 
isso um exagero e muitos evitam a gua, consideram =at que a 
sujidade  a melhor defesa contra as doenas, e, ainda para 
mais com o frio que =est e a que no estamos habituados, os 
soldados fogem do banho =como o diabo da cruz.  um problema 
que temos de resolver. "
"Mas olha, Afonso, que o pior so mesmo os vossos oficiais", 
=insistiu o ingls. "Os soldados ainda v que no v, vo 
=mostrando boa vontade, mas os oficiais portugueses... "
"Admito", concordou o capito. "Temos muitos oficiais 
=contrariados com o esforo de guerra, so pouco pontuais, 
no =executam imediatamente as ordens que recebem, passam a 
vida a falar mal =de tudo e esto-se nas tintas para o bem-
estar dos seus homens. Com oficiais assim, = realmente 
difcil motivar os soldados. "
"Para ser inteiramente justo, h um outro problema que no 
=mencionaste e que contribui muito para o problema", atalhou 
o tenente =Cook.
289
"Qual? "
"A natureza das prprias trincheiras ocupadas pelas vossas 
=tropas", disse o oficial britnico. "A entrega do sector de 
Neuve =Chapelle aos portugueses foi um presente envenenado. 
Neuve Chapelle =est situada num lamaal baixo, dominado pela 
cumeada de Aubers-Fromelles, uma posio =elevada ocupada 
pelos jerries. Quando chove, os homens que defendem =Neuve 
Chapelle tm de levar no s com a gua que lhes cai =em cima 
como com a que vem do sector boche pelo fosso que desce pelo 
caminho =Estaires-La Basse. A consequncia  que as 
trincheiras =esto sempre inundadas de gua e lama e tornam 
vos todos os =esforos de limpeza.  por isso que quem se 
encontra em Neuve Chapelle est destinado a viver =como um 
rato. "
Mas o baro Redier j nada ouvia, sentia-se agora mais 
=preocupado com a observao sobre o que se passava nas 
trincheiras =francesas e insistiu com Cook.
"Voc colocou as trincheiras francesas s um grau acima das 
=indianas. "
" Yes. "
"C'est pas possible! ", exclamou, abanando a cabea e 
=recusando-se a aceitar tal comparao.
"E, no entanto,  verdade. "
Afonso decidiu ir em socorro do seu anfitrio.
"Sabe, monsieur le baron,  um facto que as trincheiras 
=portuguesas e francesas so mais sujas do que as inglesas e 
que os =nossos hbitos de asseio so menores do que os dos 
nossos =aliados", disse. "Mas  um exagero reduzir a 
qualidade de um exrcito  limpeza das =trincheiras e aos 
hbitos de higiene dos homens. Os ingleses podem =ser muito 
limpos e organizados, mas, do ponto de vista militar, os 
=franceses apresentam melhores tcticas de combate. "
"Ah bon? ", soltou o baro, a auto- estima a regressar. "Os 
=ingleses acreditam no sistema de encher a linha da frente de 
soldados =quando o inimigo ataca, mas os franceses j=20
290
perceberam que isso  disparatado e, tal como os alemes, 
=concentram as suas foras na retaguarda", exemplificou o 
capito.
"Qual  a diferena? "
"A diferena  que os ingleses perdem inutilmente muitos 
=homens nos bombardeamentos preliminares do inimigo, enquanto 
os =franceses e os alemes os protegem na retaguarda e s os 
mandam =para as primeiras linhas quando  mesmo preciso.  
mais inteligente. "
O baro olhou para o tenente Cook com ar triunfal. "A lors "
"I agree", retorquiu o ingls, concordando com a =observao 
de Afonso. "Eu e o capito j falmos muito =sobre isto, as 
nossas tcticas so excessivamente inflexveis e 
=conservadoras. Infelizmente, os nossos altos oficiais so 
todos da velha escola e resistem a modelos inovadores e mais 
=dinmicos. Como diria aqui o nosso amigo Afonso,  um 
problema que =temos de resolver. "
"E o pior  que o nosso exrcito est a beber da doutrina 
=inglesa", disse o capito portugus, rindo-se. "Ou seja, 
imitamos =os ingleses no que eles tm de pior e no os 
imitamos no que eles =tm de melhor. "
O esguio relgio de caixa alta encostado  parede, um antigo 
=regulador vienense Biedermeier, deu um estalido e, acto 
contnuo, =assinalou ruidosamente as nove da noite, o 
mostrador prateado e o =mecanismo de grande sonnerie a 
funcionar na perfeio. Agns achou que j chegava de 
comparaes entre =exrcitos. Percebeu que, quando os 
interlocutores eram de =nacionalidades diferentes e decidiam 
ser sinceros, estas conversas resultavam por vezes 
humilhantes para alguns. Era =preciso tacto, algo que 
manifestamente se encontrava ausente naquela =mesa. A 
refeio estava concluda e havia, pois, que aproveitar os 
oportunos gongos do Biedermeier e o =tom descontrado desta 
ltima interveno de Afonso para =fechar o assunto e no o 
voltar a aflorar. Findos os gongos, a francesa levantou-se da 
mesa, =determinada a agarrar a oportunidade.
291
"Msieurs", anunciou. "Faam o favor de seguir para a sala de 
=estar, onde nos esperam os digestivos e onde eu vos vou 
mostrar um =objecto de arte que decerto vos ir surpreender."
O som do piano era abafado pela imensa algazarra que enchia o 
=salo. O fumo do tabaco, espesso e denso, flutuava como uma 
nuvem =dentro do estaminet "A Cambrinus", em Merville, mas 
ningum parecia incomodado, a piores e mais perigosos fumos 
estavam todos =j habituados nas trincheiras. Junto  janela, 
um tommy magrinho =deslizava os dedos pelo piano barato, 
desafiando vigorosamente a cacofonia das conversas com um 
fox-trot =animado, os versos incompreensveis para os lzudos 
mas vagamente =acompanhados por alguns ingleses meio 
entorpecidos pelo lcool.
"If were the only girl in the world... "
Uma rapariga magra, um avental sujo sobre o ventre, 
ziguezagueou, =esguia, por entre as mesas cheias de homens 
barulhentos, um tabuleiro =com copos de cerveja blanche na 
ponta dos dedos da mo direita. =Baltazar Velho viu-a e 
esticou a cabea.
"T'es bonne! ", rugiu o veterano, insinuando um convite 
sexual. ="Mademoiselle coucher avec moi? "
A rapariga sorriu e prosseguiu sem responder. Estava 
habituada aos =avanos dos soldados, aos grosseiros piropos 
de caserna e ao =desajeitado patois de francs das 
trincheiras, feito de um conjunto limitado de palavras, como 
compris, pas compris, bonne, pas bonne, =jinish, coucher 
avec, manger, promenade e pouco mais.
"Que categoria de gaja! ", disse Baltazar, voltando-se para a 
mesa. =Sorveu um golo de cerveja, pousou a caneca pesadamente 
na mesa e =arrotou. "Hoje temos de ir s buscates."
" Baltazar, j no tens idade p'ra isso", devolveu =Vicente 
Manpulas. "E, alm disso, ts ferido, tens de =descansar. "
Baltazar passou a mo pelo penso que lhe enfeitava a orelha. 
"Eu =estou ferido na orelha, no no saarugo", retorquiu, 
apontando =para entre as pernas.
292
"Camano, eu tou arrasado", queixou-se Vicente. "Passmos a 
=manh na porra dos trabalhos de fortificao e a tarde c'as 
=marchas e a instruo de baionetas, l c'aquela merda das 
=estocadas contra sacos suspensos e sacos no cho, mais 
aqueles exerccios todos de coronhadas, joelhadas, rasteiras 
=e cabeadas, de modo que tou que nem posso. "
"Mau, no te armes em rabeta", advertiu Baltazar. "A melhor 
=maneira de recuperar dessa estafa  dar uma grande pirocada. 
"
"O qu' qu'achas? ", perguntou Vicente a Matias Grande.
De olhos fixos e melancolicamente perdidos no amarelo-turvo 
da =blanche que segurava entre as mos, o enorme homem de 
Palmeira =mostrava- se distante e sorumbtico. No conseguia 
conformar-se =com a morte de Daniel, o amigo de infncia, e a 
imagem do corpo e da cabea a tombarem do cu assombrava =os 
seus pesadelos desde o combate da semana anterior. Sara j 
das =trincheiras mas era como se ainda l estivesse, 
martelando o =episdio vezes e vezes=20sem conta, angustiado 
e invadido de incontrolveis sentimentos de =culpa, pensando 
que deviam ter abandonado mais cedo a linha da frente, =ou 
ento alguns segundos mais tarde, imaginando a carta que iria 
=pedir ao sargento para escrever  mulher do Beato, repisando 
as palavras, as ideias, os sentimentos, a =revolta, a 
resignao, a tristeza. Matias olhou para Vicente, =parecendo 
despertar de um sonho longnquo.
"H? "
"O qu' qu'achas? "
" O que  que eu acho de qu?"
"D'irmos s buscates, homem", disse Vicente, impaciente. 
="Ests a dormir ou qu? "
"Irmos s buscates? ", interrogou-se Matias, como se se 
tratasse =de uma ideia extraordinria. Parecia apalermado e 
levou um segundo a =reflectir. "Vamos l. "
"Ento est decidido! ", exclamou Baltazar, batendo com a 
=palma da mo na mesa de madeira. "Vamos s buscates! "
"Algum tem til que me empreste? ", perguntou Abel, meio 
=ensonado com o efeito das cervejas. "Sem til no posso 
chafurdar =naquelas breixas. "
293
"Eu tenho til, Lingrinhas, est descansado", disse 
Baltazar,=20
exibindo umas notas de francos. "Carradas de moni" Voltou-se
para Matias. "Desde a porrada do outro dia que andas 
abatido,=20
homem. Levaste um louvor de categoria, foste promovido a 
=primeiro-cabo, o que  que queres mais? "
"Estou-me a cagar para o louvor e para a promoo", exclamou 
=Matias, erguendo-se e deixando algumas moedas na mesa
para pagar as suas duas cervejas. "Vamos embora. "
O grupo levantou-se e saiu do estaminet, metendo pela rua
 suja e lamacenta em direco ao bordel de Merville.
 "Mas,  Matias, a promoo no  m, sempre =ganhas mais
uns carcanhis. "
 "Ganho uma merda!"
"No so vinte francos? "
"So. "
"Ento sempre  melhor do que ns, caraas. A malta =continua
nos quinze e a verdade  que tambm arriscmos o plo "
Matias encolheu os ombros e, arrastando Abel consigo, foi
urinar junto a uma rvore, na berma. Os outros dois 
companheiros =adiantaram-se um pouco. Baltazar ps-se a 
cantar " amen doeira! =Que  da tua rama? ", mas Vicente 
interrompeu os berros estridentes e =desafinados.
"Cala-te", vociferou. "Ests a dar espectculo. "
"O que  que tu queres,  Manpulas? ", devolveu Baltazar.
"Ests nervoso por causa das mademoiselles que vamos comer? "
"Cala-te. "
 "J sei, Manpulas, o teu problema  que vais ter uma 
=mulher
de categoria e tu preferes dar  mo! ", disse Baltazar, com 
=uma gargalhada grosseira. O Manpolas prefere a manpola. "
"Cala-te, ts bbado! "
 Baltazar calou-se. Matias e Abel juntaram-se-lhes e o grupo
seguiu em silncio pela rua, os quatro a fintarem as poas de 
=lama
espalhadas pela via, as fardas a arrastarem as pontas pelo 
cho, =
enormes. Eram uniformes confeccionados para soldados 
ingleses,=20
mais altos, e que nos portugueses se mostravam ridiculamente
294
grandes, as mangas quase a taparem as mos, as bainhas das 
=calas a nadarem na lama, verdadeiros anes em trajos de 
gigantes. =Apenas Matias Silva, o homenzarro cuja estatura 
elevada lhe valia =merecidamente a alcunha de Grande, parecia 
feito=20 medida daquele uniforme.
O bordel ficava numa esquina da avenida principal de 
Merville, para =onde se dirigiram com vagar. A um quarteiro 
da avenida viram um =rapazinho sentado num muro frente a uma 
casa com um buraco na parede =lateral.
"Msieurs! ", chamou o rapaz. "Voulez-vous ma soeur? Very good 
jig- =a-jig. Demoiselle very cheap. Very good. "
O francesinho tinha uns dez anos de idade e, claramente, com 
a sua =mistura de ingls e francs, confundia os soldados 
portugueses com =tommies ingleses.
"O qu' que quer o mido? ", perguntou Vicente a Baltazar. 
="Est a oferecer a irm", explicou o veterano, estacando e 
olhando =para o rapaz francs. "Coucher avec mademoiselle? "
"Oui sieur, trs jolie, trs bon march. "
"Combien? "
"Cinc francs. "
" barato", comentou Baltazar para os amigos. "Cobra-nos 
cinco =francos pela irm. "
"E  mesmo irm dele? ", admirou-se Abel Lingrinhas. "Sei 
=l!", exclamou Baltazar, encolhendo os ombros. "Devem ser 
refugiados =belgas. "
"Vamos embora", disse Matias.
"Tem calma, espera l um pouco", retorquiu Baltazar, 
voltando-se =para o rapaz e querendo saber onde se encontrava 
a irm. "O est =mademoiselle? "
O francs, que se calhar era belga, saltou do muro e cruzou a 
=rua.
"Venez! ", disse, entrando no quintal de uma casa baixa do 
outro =lado da rua e fazendo-lhes sinal para o seguirem.
Os portugueses entreolharam-se e, com um passo lento e 
hesitante, =foram atrs dele. Chegaram  casa, na verdade 
umas
295
runas j sem telhado, e encontraram o rapaz  sua espera =no 
fundo de umas escadas,  porta do que parecia ser uma cave 
com =acesso exterior. Desceram as escadas e o adolescente 
convidou-os a entrarem. Estava =escuro na cave, mas depressa 
se aperceberam de uma vela acesa no canto. =Entraram e viram 
uma rapariga sentada sobre um pano largo, uma almofada =ao 
lado, utenslios de cozinha num outro canto da cave.
"Cinc francs pour ma soeur", repetiu o rapaz, exibindo os 
cinco =dedos da mo.
Os quatro portugueses olharam para a rapariga, escanzelada e 
magra, =que os fitava com algum nervosismo, os olhos cansados 
saltando de um =soldado para o outro.
"Promenade avec moi?
"Esta mida no tem mais de catorze anos", comentou Matias em 
=voz baixa, abanando a cabea.
" quase a idade da minha filha", observou Baltazar, sem 
tirar =os olhos da rapariga. O pequeno tamanho dos seios 
juvenis no lhe =passou despercebido. "Vocs j viram as 
catrinas dela? Parecem =umas bolotas!"
Matias Grande aproximou-se, ps a mo no bolso, tirou umas 
=moedas e deu-as  rapariga, que guardou o dinheiro e comeou 
a =despir-se.
"Vais dar-lh'uma pinadela? ", perguntou Vicente. "Ests 
maluco? =", devolveu Matias, dando meia-volta e saindo
da cave. "Vamos embora. "
O grupo abandonou a cave e voltou  rua, deixando os 
=adolescentes para trs.
"Uma mida desta idade! ", exclamou Baltazar. " pecado. " "E 
=ir s buscates no  pecado? ", quis saber Abel.
"Ir s buscates  necessidade", explicou Baltazar. "Mas 
=crianas  pecado. "
"Sei d'um tipo que pinou uma destas refugiadas", comentou 
Vicente =Manpulas.
 "Uma mida como esta?"
"Sim, novinha. "
296
"E o que  que ele achou? "
"Uma maravilha", respondeu Vicente. "Disse-me que tava 
aflit'e qu'a =refugiada lh'aditou bem a mingalha. "
Riram-se todos nervosamente.
O baro Redier j se tinha escusado perante os hspedes e 
=recolhido aos seus aposentos. Era um homem de hbitos, 
gostava de =rotinas, de passear pelos mesmos stios, de comer 
os mesmos pratos, =de dormir  hora certa. Agns ficou a 
fazer sala com os dois oficiais junto  lareira, ela com um 
=champagne na sua cadeira de balano, Afonso instalado no 
canap =com o habitual whisky, Cook com um porto num cadeiro 
de mogno =estofado e braos de serpentinas. O ingls puxou de 
uma caixa de charutos de madeira, o topo assinalando =Tabak-
en-Sigaren, registado pela P. G. C. Hajenius, a clebre casa 
de =tabaco da avenida Damrak, em Amesterdo,=20abriu-a e 
ofereceu Coronitas aos dois companheiros, que declinaram, 
=acabou por acender ele prprio um dos curtos havanos, que 
aspirou com =gosto, o aroma quente e agradvel do charuto a 
encher a sala com o seu perfume tropical. Conversaram =sobre 
tudo e sobretudo sobre a guerra, o tema que dominava as suas 
=vidas. O capito mostrava-se particularmente interessado em 
perceber =como  que os ingleses viam a guerra, se a viam de 
forma diferente dos =portugueses, e o clice de porto pareceu 
ter soltado a lngua ao =tenente Cook. Agns tentava 
igualmente entender se o que lhe diziam sobre as hostilidades 
=era verdadeiro ou falso, se os alemes eram mesmo cruis e 
=cobardes como os descrevia a imprensa, se a guerra ia ou no 
acabar. =O tenente Timothy Cook, com trs anos de experincia 
no conflito, revelou-se uma verdadeira mina de =informao.
All lies", exclamou o tenente aps uma baforada, no 
=hesitando em considerar mentirosas muitas das notcias 
publicadas nos =jornais. Percebeu a confuso da sua 
interlocutora e traduziu para =francs: "Mensonges. "
"Mensonges?"
297
"Yes", assentiu. "Os poilus chamam a isso bourrage de crne.
 como se os jornais fossem uma fbrica de produzir 
=mentiras."
"Par exemple? "
"Oh, sei l, tanta coisa! Olhe, uma vez estive em Champagne
durante uma semana, a testar um Farman num aerdromo francs, 
=e as coisas apresentavam-se tranquilas. Pois li nos jornais 
que
tinha havido ali uma poderosa ofensiva alem que fora travada
sem que o exrcito francs tivesse recuado um nico metro. 
=All
lies. Outra vez foi o contrrio. Quando da ofensiva do 
Somme,=20
em que parecia que o inferno tinha descido  terra, os 
jornais
noticiaram que estava tudo calmo na zona da frente. "
Agns ficou a fit-lo, confusa.
"Seja", concedeu. "Mas no  verdade que os boches so
cruis? "
"I say", retorquiu Cook. "No mais do que ns. Se nos virem
  frente, tentam matar-nos, mas no  isso afinal o que =ns 
tambm Lhes fazemos? Para ser inteiramente honesto, eu diria 
=que alguns at so uns very decent chaps. Um amigo meu que 
est =nos=20Royal Jelch contou-me que, durante uma ofensiva 
desastrosa ali
no sector de Bthune, milhares de homens nossos ficaram 
=cados
 na terra de ningum, feridos e a agonizarem. Pois os 
boches,=20
 parado o ataque, no dispararam um nico tiro durante a 
=noite,=20
deixando os nossos maqueiros irem buscar todos os feridos e 
at =muitos mortos."
 "No me diga que vocs gostam dos boches. "
"Don't get me wrong", disse Cook, abanando a cabea. "Se
 vir um  minha frente, mais facilmente o abato do que o fao
 prisioneiro."
A srio?
 Fazer prisioneiros d muito trabalho, explicou, fazendo uma
curta pausa para aspirar a sua Coronita. "Alguns oficiais no
hesitam em darem ordens implcitas para no fazer 
=prisioneiros. "
"E isso quer dizer."
 "Mat-los on the spot, no dar trguas a ningum", 
=esclareceu
o tenente, largando o fumo retido nos pulmes.
298
"Vocs fazem isso? "
"Right ho! ", confirmou. "Se estamos com pressa ou 
particularmente =aborrecidos porque um amigo nosso foi morto, 
vai tudo de enfiada. Mas =devo dizer que, a este respeito, os 
piores so, de longe, os =canadianos e os australianos, que 
tm a fama de matarem todos os boches que se rendem. No se 
brinca com =eles."
"Mon Dieu."
"C'est la guerre", concluiu Cook, utilizando a expresso 
=ento muito em voga sempre que se mencionavam as desgraas 
=provocadas pelo conflito.
Como acontecia quando se falava da guerra, a conversa 
enveredara =por caminhos desagradveis e Afonso sentiu que 
era necessrio =inflectir o rumo. Por isso, aproveitou a 
pausa para tentar conhecer =Agns.
"Deve ser difcil a uma mulher bonita e encantadora como a 
=senhora estar a viver neste recanto violento de Frana. "
Agns sorriu, agradada com o piropo.
"C'est pas facile", disse ela. Encarou Afonso, sorriu 
sedutoramente =e acrescentou: "Mas, s vezes, tenho a 
felicidade de conhecer uns =oficiais trs charmants que me 
deixam encantada."
O portugus ia-se engasgando com o whisky, no estava  
=espera desta resposta, as senhoras em Portugal costumavam 
ser mais =passivas no jogo da seduo. O capito ficou sem 
saber o que dizer. Engoliu em seco, muito corado, e 
prosseguiu sem acusar o =toque.
"Imagino que... uh... com os soldados todos na rua, uh... no 
=possa andar por a a passear  vontade. Como consegue 
preencher o =seu tempo? "
"Leio. Leio muito. "
"Ah sim? E o que l?"
Oh, um pouco de tudo. Stendhal, Balzac, Flaubert, Dumas, 
Daudet, =Maupassant. "
" E de qual gosta mais?"
"No sei. Talvez Dumas, diverte-me. "
Afonso pousou o copo de whisky.
299
"Eu tambm gosto de ler. " "E o que l em Portugal? "
"Bem, no temos tanta variedade como vocs aqui em Frana, 
=mas aprecio Ea de Queiroz e Jlio Dinis. "
"Eu j li um romance portugus", comentou Cook. "Ah ? ", 
=surpreendeu-se Afonso. "E qual? "
"Chamava-se O Guarani."
"O Guarani? ", interrogou-se o capito, fazendo uma careta. 
="Nunca ouvi falar. De certeza que era esse o ttulo? "
"Sure. O autor era Jos de Alencar. "
"Tem piada, no conheo. Onde encontrou o livro? " "No 
=Brasil."
"Ah, no deve ser portugus,  certamente um escritor 
=brasileiro. Gostou?"
"gostei, no percebi algumas palavras", riu-se o ingls. "Mas 
=acho que sim. "
"Era melhor ou pior do que os romances ingleses? " "Era 
diferente. ="
"E o que se l em Inglaterra?", quis saber Agns, com pouca 
=vontade de voltar ao jogo das comparaes. "Charles Dickens? 
"
"Sim, esse  o nosso maior nome, depois de Shakespeare. Mas 
=h outros. "
"Por exemplo? "
"Oh, tantos. Thackeray, as irms Bront, Eliot, Trollope, 
=Stevenson, Hardy, Kipling, Conrad... "
"Pois eu dos autores ingleses s li aquele romance de Dickens 
=passado durante a Revoluo Francesa."
"A Tale of Two Cities. Gostou? "
"Oui", riu-se a francesa. "Chorei muito no fim. " "Thats 
Diclnens, =all right", concordou Cook com um sorriso 
conhecedor.
"E qual  o escritor de que gosta mais? "
"Acho que  Stevenson, aprecio o seu sentido de aventura, o 
=gosto pelo extico. Mas olhe que ando agora a ler um romance
300
que saiu h pouco tempo e que  muito bom, muito original, 
=muito profundo. "
" Do que trata?"
"O livro chama-se Of Human Bondage e  a histria de um homem 
=que se apaixona obcecadamente por uma mulher, mas ela no 
quer saber =dele para nada. O que  extraordinrio neste 
romance  que o =leitor entra na cabea da personagem e 
comea a pensar como ela, a perceber os seus =sentimentos, a 
compreender as suas reaces, a antecipar os seus 
=movimentos. O leitor transforma-se na personagem. "
"Parece interessante", concordou Agns. "Quem  o autor? " 
="Somerset Maugham.  um escritor novo, eu prprio nunca 
tinha =ouvido falar dele. "
"Pois olhe que o romance que comecei agora a ler  o 
=contrrio, est at a dar-me dores de cabea. "
"Ento e porqu? "
"Porque a histria no avana. Mon Dieu, at d a =impresso 
de que no tem histria. "
"E que obra-prima  essa? "
" la recherche du temps perdu.  um ttulo que me parece 
=adequado porque j ando  procura do tempo que estou a 
perder com =ele. Veja l que as primeiras cinquenta pginas 
so gastas com =uma cena em que a personagem est deitada na 
cama  espera de que a me lhe venha dar o beijo de =boa-
noite. So cinquenta pginas nisto! "
Riram-se todos.
"E quem  o gnio que escreveu essa obra de arte? " "Marcel 
=Proust. "
"No vai longe", sentenciou Cook.
"No diga isso, o livro at est extraordinariamente bem 
=escrito. "
"Mas qual  a histria? "
" esse o problema, ainda no percebi a histria", =observou 
Agns, pensativa. " certo que vou ainda no princpio, =mas 
parece-me que a personagem est  procura de coisas da sua=20
301
memria, de coisas perdidas no tempo, da possivelmente o 
=ttulo.  algo estranho mas d-me a impresso de que, talvez 
=mais do que de histrias, este  um livro feito de 
=sensaes, de impresses, de odores, de paladares, de sons, 
de cores, de emoes, de =afectos. Eu diria que  um grande 
fresco pintado de nostalgia, de =momentos mgicos de 
infncia, de pequenos nadas."
"Olhe, eu tenho um amigo que uma vez me fez a definio 
=perfeita do que  um bom livro", disse Cook, efectuando uma 
pausa =teatral para expelir uma baforada perfumada da sua 
Coronita. "Um bom =livro  aquele que est bem escrito e tem 
uma boa histria. Se o livro est bem escrito =mas a histria 
 m, o livro no  bom. Se o livro tem =uma boa histria mas 
est mal escrito, tambm no  bom. =O livro s  bom se 
tiver uma boa histria e estiver bem escrito. "
A lenha na lareira crepitava suavemente e os trs encostaram-
se =nos respectivos assentos, tranquilos e serenos, a 
saborear o momento e a =digerir aquela ideia. Todos 
recordaram os romances que leram ao longo da =vida, pensaram 
nos que tinham boas histrias mas estavam mal escritos e nos 
que estavam bem escritos mas =tinham ms histrias. E 
pensaram sobretudo naquelas obras, raras e =preciosas, que, 
com palavras simples e elegantes, frases graciosas e bem 
=estruturadas, poderosas at, contavam histrias 
inesquecveis e arrebatadoras. Sim, =concordaram, esses  que 
eram os livros realmente bons. Quantas =excelentes histrias 
no se desperdiaram em maus textos, =quantos bons redactores 
no se perderam em ms histrias?  como a pintura, 
considerou Afonso. De que serve ter boa =tcnica se no se 
tiver imaginao criativa? De que serve =ter imaginao 
criativa se no se dominar a tcnica de =pintura? No est 
uma sempre ao servio da outra, dando e recebendo, mudando e 
evoluindo, transformando-se e =influenciando-se?
O som metlico e distante do Biedermeier a dar horas na sala 
de =jantar encheu o silncio. Por associao de ideias, quase 
sem =querer, Afonso lembrou-se ento da promessa feita pela 
baronesa ao =jantar.
302
"M'dame, h pouco referiu-se a um objecto de arte 
=surpreendente... "
"Oui", exclamou Agns, o rosto abrindo-se e apontando para um 
=ponto da parede acima de uma estante. " aquele quadro ali. 
"
Os dois oficiais viraram-se naquela direco e repararam, 
=pela primeira vez, num pequeno quadro realmente estranho, 
era uma =paisagem pintada de maneira pouco ortodoxa, o cu 
cortado em formas =geomtricas de diferentes tons de azul, as 
casas transformadas em =rectngulos tpidos, as rvores 
pareciam tringulos verdes.
"Good heavens! ", soltou Cook, os olhos arregalados. "O que  
=aquilo?"
"Cubismo", explicou a baronesa, divertida com o ar perplexo 
dos =dois militares.
" Cubismo?"
" uma nova corrente artstica, muito chic, muito avant 
=garde", indicou Agns. "Aquele quadro ali  de Robert 
Delaunay e =comprei-o h uns quatro anos na galeria 
Kahnweiler, em Paris. "
"Mas  horrvel", disse Cook com um esgar de repulsa. "Eu 
=diria que  diferente, original talvez. "
"Mas a natureza no  assim, o cu no  assim, =est tudo 
mal pintado. "
"No est mal pintado", assegurou a francesa. "A ideia do 
=cubismo no  a de representar o objecto tal como o vemos, 
mas tal =como o conhecemos. O cu tem vrios tons de azul 
porque sabemos =que o cu  assim, a intensidade do seu azul 
varia com a luz do dia. "
"Its ghastly! ", repetiu o oficial britnico, ainda 
horrorizado =com o que observava e insistindo na ideia de que 
no via qualquer =virtude artstica no quadro. Para no dar 
tempo para que se =exibissem mais objectos do gnero, 
susceptveis de ofenderem a sua sensibilidade esttica, Cook 
esmagou no =cinzeiro o pouco que restava da Coronita, ergueu-
se do cadeiro e =bocejou. "Meus amigos, foi agradvel mas j 
so onze da noite e =estou
303
com sono. As minhas homenagens, madame, e os meus 
agradecimentos. =Afonso, old chap. Cheerio and behave 
yourselfl."
"Bonne nuit! "
"At amanh, Tim. "
O ingls saiu e Agns e Afonso ficaram ss.
Os lzudos caminhavam agora pelos movimentados passeios da 
=principal avenida de Merville, evitando o pavimento 
enlameado da rua, =ocupado por cavalos e algumas carroas, e 
a animao do centro da vila deixou-os mais alegres. Seguiram 
pela avenida at =chegarem a um edifcio cor de tijolo 
perante o qual se aglomerava um =considervel nmero de 
soldados, era a porta do bordel, Le Drapeau Blanc escrito 
numa =tabuleta vermelha acima da entrada.
"Ena", comentou Baltazar. "Tanta mingalha aflita! " Os 
soldados =faziam fila, eram,  vontade, mais de uma centena. 
Misturavam-se =ingleses, escoceses e portugueses numa grande 
algazarra, cada um =esperando a sua vez, quase todos em 
grupo, eram raros os=20homens que aguardavam sozinhos, 
multiplicavam-se as piadas e as =gargalhadas. O bordel tinha 
sido montado pelas prprias autoridades francesas para servir 
as tropas daquele sector, e o Le =Drapeau Blanc era apenas um 
dos muitos existentes na retaguarda das =linhas aliadas. 
Havia bordis para oficiais, mais discretos e caros, =onde 
at se conversava com as prostitutas, enquanto os soldados se 
contentavam =com verses industrializadas e despachadas, sem 
tempo para grandes =conversas porque o tempo urgia e a 
clientela estava  espera, =verdadeiras fbricas de sexo 
massificado e em srie.
Matias e os seus amigos juntaram-se  fila. Diante de si 
=encontravam-se uns ruidosos escoceses, facilmente 
reconhecveis pelos =kilts de l Black Vatch do regimento 
highlander e boinas Tom O'Shanter. Os escoceses riam-se 
alarvemente e davam sinais de =estarem embriagados. Mas, logo 
a seguir, Matias reconheceu dois =camaradas do 8 e foi ter 
com eles.
"Ento? ", saudou-os. "Vieram s buscates? "
304
"Viemos pois", confirmou um dos portugueses, um rapaz chamado 
=Victor. "Mas isto ainda vai levar um bom bocado. "
"Sim, h muita gente", confirmou Matias. "Quantas buscates 
=esto l dentro? "
"Disseram-me que so trs. "
"Trs... ", repetiu Matias, fazendo mentalmente as contas. 
="No te canses, j fizemos o clculo", disse Victor. "Somos 
=cento e vinte e elas so trs, d quarenta homens para cada 
=buscate. A cinco minutos cada pinadela, d duzentos minutos, 
mais coisa menos coisa. "
"Duzentos minutos, mais o tempo que se perde a vestir e 
despir", =observou Matias.
"No, no", indicou Victor, abanando a cabea. "Esta conta 
=j inclui isso tudo"
"Ah bom", admirou-se Matias. "Portanto, s temos de esperar 
=trs horas. "
" E  se queres! ", riu-se Victor.
Matias regressou ao seu lugar na fila, contando as novidades 
aos =companheiros. Apenas Baltazar pareceu desanimar.
"Se calhar, devamos era voltar para trs e ir ter com a 
=refugiada", gracejou. "Sempre era mais rpido e barato. "
Ficaram  espera, vendo a fila avanar lentamente e os 
=clientes j aviados a sarem do Le Drapeau Blanc, a 
felicidade =estampada no rosto, a auto-estima subindo-lhes 
pelas calas. No =havia dvidas de que aquelas prostitutas 
forneciam um servio eficiente. Numa =anterior visita ao 
bordel de Merville, Matias fora informado de que cada =uma 
delas servia o equivalente a quase um batalho por semana. 
=Trabalhavam enquanto tinham foras e=20nimo. O limite 
normal eram trs semanas, aps as quais elas em =geral iavam 
a bandeira branca e, cansadas, retiravam- se com o dever 
=patritico cumprido, mas sobretudo com um belo p-de- meia, 
=governadas, provavelmente, at ao fim da guerra. Enquanto 
aguardavam, os quatro comearam a falar =sobre as qualidades 
das mulheres francesas na cama, as que gostavam de =jogos, as 
desavergonhadas e as pdicas, ou falsas pdicas. Este
305
era um assunto onde os homens se gostavam de gabar, ou de 
sonhar. =Em geral, eles preferiam evitar as estatsticas, no 
se fosse dar =o caso de um dos colegas apresentar 
performances sexuais superiores, =mesmo que fictcias, mas ir 
s francesas, incluindo as prostitutas, era um tema de 
especial orgulho entre =eles, e os mais experimentados no se 
negavam aos comentrios. =Neste ponto, Baltazar Velho decidiu 
fazer uma comparao com as =portuguesas e descobriu que as 
suas avaliaes crticas, embora seguidas com ateno, no 
eram =rebatidas ou corroboradas pelos amigos. Achou o facto 
intrigante e =pressionou-os at arrancar de Vicente uma 
confisso que muito o =surpreendeu.
"A minha primeira mulher foi aqui em Frana", murmurou 
Vicente =Manpulas, olhando para baixo, quase envergonhado. 
"Nunc'experimentei =uma portuguesa. "
Baltazar ficou a mir-lo, embasbacado.
"Tu vieste virgem para aqui? "
Vicente fez que sim com a cabea.
"Que idade tens? "
"Vinte. "
"Valha-me Deus, homem, quem te visse nunca diria", comentou o 
=veterano. "Todos os quinze dias vens aqui s buscates, at 
parece =que fizeste isto toda a vida, a dar pirocadas desde o 
bero. "
"Sabes, Baltazar", explicou Vicente, "quando se t nas 
trinchas =pensa-se muito, a malta pensa na morte, pens'em 
tudo."
"Ento eu no sei, homem? "
Todos sabiam o que era isso de pensar nas trincheiras, 
durante as =longas horas de espera, feitas de puro tdio, e 
ao longo dos =interminveis minutos de bombardeamento, 
consumidos em puro horror. =Ningum ignorava que havia uma 
elevada hiptese de no sarem vivos de Frana, ou de sarem 
mutilados e =estropiados, e o tempo fugia, escasseava-lhes. 
Como passar por cima do =facto de que talvez nunca viessem a 
experimentar as coisas boas da vida, =de que a juventude lhes 
seria possivelmente roubada da a alguns dias, de que o 
futuro lhes ficaria =eventualmente vedado por uma bala 
traioeira ou por um estilhao =perdido? Nas trincheiras, o
306
sexo era uma obsesso universal, sempre presente na linguagem 
=dos homens, nunca esquecida na mente, nos gestos, na memria 
e no =desejo. Havia que aproveitar enquanto era possvel, 
enquanto estavam =vivos e de corpo inteiro, enquanto tinham 
foras para agarrarem a vida como quem abraa a me, todos 
tinham =visto demasiados amigos ceifados, ningum queria 
morrer virgem. Mas o =facto  que s os oficiais dispunham de 
oportunidades genunas de arranjarem verdadeiras namoradas 
francesas. Aos soldados, =entorpecidos de frio e de fome, 
embrutecidos pela guerra e sempre =ocupados a esconderem-se 
nas trincheiras ou empenhados em trabalhos de =fortificao 
na retaguarda, restava geralmente o amor comprado numa cama 
gasta de =um qualquer bordel. Os que vinham virgens de 
Portugal depressa tratavam =do assunto no prostbulo ou num 
curral com uma camponesa mais arisca =ou com falta de 
dinheiro, no fossem os alemes anteciparem-se e priv-los de 
frurem =aquele fruto at ali proibido. E at os muitos que 
j =anteriormente praticavam sexo, por serem casados ou por 
terem encontrado =moas que no receavam pecar antes do 
matrimnio, no se privavam de gozar a carne sempre que a 
oportunidade =se oferecia, mesmo que a troco de uns francos 
oferecidos num canto =esconso de umas runas miserveis, 
temendo tambm que lhes =restasse pouco tempo para usufrurem 
daquele prazer efmero.
Passaram-se trs horas na fila do Le Drapeau Blanc e a vez 
dos =quatro portugueses chegou finalmente. O primeiro a 
avanar foi, como =era natural, Baltazar Velho, veterania 
oblige. Era um homem casado e pai de uma rapariga e dois 
meninos, a pele com rugas =prematuras para quem tinha apenas 
trinta e seis anos, rugas nascidas do =emagrecimento forado 
nas trincheiras, do ar seco da serra onde vivia e da dura 
vida de =quem estava habituado a acompanhar os rebanhos em 
longas correrias pelos =montes, mas tudo isso no o impediu 
de mergulhar com entusiasmo e =antecipada excitao no quarto 
escuro que se lhe oferecia.
Depois foi a vez de Matias Grande. A porta de um dos quartos 
=abriu-se, saiu de l um escocs ainda a apertar o cinto 
do=20
307
kilt verde, o escocs piscou o olho e soltou um enrolado 
"your =turn, lad! " quando passou pelo portugus, Matias saiu 
da fila e =avanou, abriu a porta, ouviu um "entrez" 
feminino, cruzou a entrada =e estacou, viu uma mulher morena 
e magra a lavar-se numa bacia ao lado da cama desfeita, o 
=quarto iluminado por uma lamparina sobre a mesa de cabeceira 
e a luz =amarelada a projectar sombras fantasmagricas sobre 
as paredes, =fechou a porta, aproximou-se de uma cadeira, 
comeou a tirar o casaco de pelica mas foi interrompido pela 
mulher, ="seulement les pantalons", disse ela apontando para 
as calas, =percebeu que era s suposto tirar as calas e as 
ceroulas, no =valia a pena retirar o acessrio, tirou o que 
tinha a tirar, entretanto a mulher voltou para a cama e 
=abriu as pernas, "viens ici! ", ele foi ici sem 
preliminares, ela =recebeu-o molhada, ele entrou, "vite! 
vite! ", insistiu ela sem sequer =simular respirao 
ofegante, ele foi vite mas ainda teve tempo de lhe apalpar as 
=ndegas e os seios, o corpo entrou em cadncia, o ritmo a 
crescer, =tornou-se incontrolvel, sentiu a exploso, 
estremeceu de prazer, =o momento prolongou-se, depois os 
msculos comearam a distender-se, o enorme corpo foi-se 
descontraindo =e acalmando, devagar, devagar, o corao a 
diminuir as batidas, =ela aguardou um instante mas no tardou 
a fazer um gesto de =impacincia, ele despertou do seu 
torpor, quase chocado com aquela pressa, saiu =dela com 
lentido contrariada, ela levantou-se, dirigiu-se  bacia =e, 
enquanto a mo esquerda buscava gua, a mo direita apontava 
para a mesa, "dix francs", ele vestiu as ceroulas e =as 
calas, tirou dinheiro do bolso e contou dez francos, 
colocou-os =na mesa ao lado de outras moedas e notas que j 
l estavam =amontoadas, "merci, mademoiselle, trs bonne", e 
saiu ainda a apertar o cinto. Piscou o olho ao tommy =ingls 
que aguardava a sua oportunidade e disse "vai-te a ela, bife! 
="
Tinham passado cinco minutos.
Olharam-se de forma cmplice, divertidos com a reaco de 
=Tim perante o estranho quadro e a sua precipitada retirada 
para o =quarto, mas o olhar prolongou-se e, embaraados, 
Afonso
308
e Agns passearam os olhos pela sala, procurando novos 
motivos =de interesse. Estava fora de causa continuarem a 
prestar ateno = original pintura=20de Delaunay e ambos 
tiveram de se contentar em ficar a observar as =chamas a 
crepitar na lareira, o lume mostrando-se j muito brando, 
=lambendo com suavidade a lenha carbonizada que se amontoava 
numa amlgama negra e quente, as pequenas labaredas 
incandescentes isoladas =naquela massa inerte como gotas de 
lava a brilharem sobre o carvo, =como lgrimas de ouro 
choradas pela madeira no seu derradeiro sopro =de vida.
"Adoro conversar", disse ela finalmente, recomeando a 
=balouar na cadeira. "O meu marido  um homem de poucas 
palavras, =o que me deixa frustrada, e a vossa presena aqui 
constitui um raio =de luz que ilumina a minha solido"
"Quem a ouvisse diria que  infeliz", comentou Afonso. O 
=capito levantou-se do canap e aproximou-se da lareira, 
=voltando-se de costas para a sua anfitri, no a queria 
enfrentar, sentia-se acanhado e inibido. Pegou na vara de 
=ferro e empurrou a lenha para junto do cascalho, espevitando 
a chama =moribunda. Algumas fagulhas voaram pelo ar, soltando 
estalidos secos, e =as labaredas cresceram com fulgor, 
atrevidas e orgulhosas.
"a vous amuse, le feu... ", observou a baronesa. "Oui, 
=vraiment. "
"Nos tempos de Lus XVI havia um estilo delicioso de cultivar 
o =convvio", suspirou Agns. "As pessoas tinham nessa altura 
o =elegante hbito de enviarem convites onde se escrevia 
simplesmente on =causera', iremos conversar. "
Afonso remexeu de novo a lenha, reactivando definitivamente a 
=lareira. O fogo voltou com fulgor moderado. O capito recuou 
a =cabea, admirando a sua obra. Dando-se finalmente por 
satisfeito, =limpou as mos com umas palmadas rpidas e 
poeirentas, ergueu-se e sentou-se outra vez no canap de 
=faia.
"No respondeu  minha pergunta... "
" Qual?"
"Sente-se infeliz? "
309
"No  bem infeliz", explicou a baronesa, pensativa. ="Sinto-
me s, vazia, desacompanhada. Tenho saudades de Paris. " 
="Viveu em Paris? "
"Oui. "
"E ento o que est aqui a fazer? "
" uma longa histria. "
"Gosto de histrias longas. "
"Quer mesmo ouvir? "
"No estou aqui para outra coisa. "
A baronesa sorriu.
"Saiba, mon chre Alphonse, que eu nasci em Lille", disse. Em 
=dez minutos contou-lhe a histria da sua infncia e todos os 
=pormenores sobre a famlia, a loja de vinhos do pai, Serge e 
o =baro Redier. Neste ponto, Afonso constatou que Agns o 
observava, hesitante, como se estivesse a considerar se valia 
ou =no a pena acrescentar mais uma coisa. Decidiu-se.
"Sabe que ele era parecido consigo? "
"Quem? " " Serge. "
"Ah sim? ", surpreendeu-se Afonso.
" o olhar,  o sorriso, mas no s, h mais =qualquer coisa 
em si que me lembra Serge, no sei, talvez um certo 
=esprito, uma certa maneira de estar, esse ar sonhador", 
disse. Ficou =fixada no portugus, de ar contemplativo, os 
olhos verdes com um brilho intenso. "E =voc, alguma vez 
casou? "
"Non", disse, abanando a cabea.
"Nem tem ningum  sua espera? ", inquiriu. " Une petite amie 
=peut-tre? "
"Non. "
Agns voltou a baixar os olhos.
"Sabe, eu, na verdade, casei com Jacques porque me sentia s, 
=desamparada, e ele tinha aparecido quando eu mais precisava, 
=estendendo-me a mo naquele momento de maior fragilidade, 
quando o mundo desabara e =deixara de fazer sentido. Ele foi 
o farol que me guiou na tormenta, a =luz que me trouxe at 
porto
310
seguro. Feitas as contas, casei, se quiser, por gratido. " 
Fez =uma pausa. "Foi um erro. "
"Hoje teria feito de maneira diferente? "
"Sim, sem dvida. Se fosse hoje, ficava em Paris e acabava o 
=curso, custasse o que custasse " Suspirou. "Mas a vida  
como  e =as decises, bem ou mal, foram j tomadas. "
"Pelo que me diz, devo presumir que no tem nenhum amor na 
sua =vida. "
"Engana-se. Tenho um grande amor. "
"Tem?"
"Sim. A medicina. "
"Ah, est bem", exclamou Afonso, aliviado.
"Sabe o que me fascina na medicina? "
"No. "
Agns ergueu dois dedos.
"So essencialmente duas coisas", indicou. "Em primeiro 
lugar, e =como lhe disse, desde criana que tenho um fascnio 
por Florence =Nightingale, acho uma coisa extraordinria 
ajudar os outros na =doena, atenuar-lhes o sofrimento. Isso 
direccionou-me para o campo da =sade. Em segundo lugar, acho 
que pesou muito o gosto pela cincia =que adquiri quando 
visitei a Exposio Universal de Paris em 1900. ="
"J vi que gosta do aspecto cientfico da medicina... " A 
=baronesa fez um ar pensativo.
"Sim,  isso. Apesar de ser uma pessoa moderadamente 
religiosa, =sei que, na vida, no podemos estar sempre  
espera do auxlio =divino, Deus ajuda quem se ajuda a si 
prprio. Aqueles que percebem =isso no entendem nada da 
vida. O que  facto  que, durante muito tempo, os nossos 
antepassados no =compreendiam essa simples verdade e foram 
muito penalizados pelo excesso =de confiana na interveno 
divina. Sabe, Alphonse, antigamente =a medicina esteve 
associada  superstio, os antigos acreditavam que os males 
eram causados por =espritos malignos. No Neoltico, por 
exemplo, chegavam a fazer =buracos no crnio dos pacientes 
para expulsarem esses espritos, =veja l "
311
"E curavam-nos? "
Agns riu-se.
"Claro que no. Com esses mtodos, mon chre Alphonse, = 
evidente que os doentes morriam da cura, no do mal. Mas 
depois, =passado este perodo rudimentar, a cincia comeou 
gradual =mente a entrar em campo. A par dos feitios surgiram 
=procedimentos pragmticos e racionais para tratar de doenas 
=facilmente diagnosticveis ou para=20prevenir o aparecimento 
de outros males. A Bblia, por exemplo, =est repleta de 
instrues quanto  higiene, quanto  =necessidade de manter 
doentes de quarentena e quanto  obrigao de desinfectar os 
objectos tocados pelos doentes. Mas o grande passo, =a 
ruptura da medicina com a religio e a superstio, foi dado 
=na Grcia. Presumo que, com os seus estudos clssicos, saiba 
o que =aconteceu neste perodo... "
"Em relao  medicina, infelizmente conheo pouca =coisa. 
Lembro-me de que os filsofos gregos consideravam que os 
=doentes eram vtimas de desequilbrios do corpo. "
"Pois, os gregos trouxeram realmente uma postura nova. As 
mais =famosas escolas de medicina da Grcia localizavam- se 
em Knidos e =em Kos. Foi em Kos que nasceu Hipcrates, 
considerado o =primeiro mdico moderno. "
" O do juramento?"
"Sim, o autor do famoso texto de tica mdica conhecido por 
=juramento de Hipcrates.  claro que os gregos diziam muitos 
=disparates. Por exemplo, achavam que a sade resultava 
=fundamentalmente de um equilbrio entre quatro humores 
presentes no corpo humano, designadamente o =sangue, a 
fleuma, a blis negra e a blis amarela. Como resultado, =os 
tratamentos que prescreviam limitavam-se a dietas, a vmitos 
=forados e a sangramentos, procedimentos efectuados 
supostamente para reequilibrar os =humores do corpo. Doentio, 
no acha? "
"Mas olhe que ainda h pouco tempo se faziam esses 
tratamentos. =O meu pai contou-me que, quando era pequeno, o 
sangravam sempre que =estava doente. Diziam que era para 
reequilibrar os humores e eliminar os =venenos. "
312
"Sim, os tratamentos prescritos pelos gregos mantiveram-se 
=vlidos at ao sculo passado, veja bem, embora no sculo 
=xvIII estas ideias comeassem a ser revistas. "
"Portanto, nem com os gregos a medicina evoluiu... " "No", 
=disse Agns, abanando a cabea. "A medicina evoluiu com os 
gregos, =uma vez que foi a que, pela primeira vez, se 
estabeleceu que as =doenas no resultavam de acontecimentos 
sobrenaturais, mas tinham uma =explicao fsica. At esse 
tempo, os doentes eram encarados =como pecadores punidos 
pelos deuses ou como gente possuda por =demnios, ideia que 
os gregos combateram. O problema  que a medicina =entrou em 
retrocesso na Idade Mdia, vitimada pelo obscurantismo de 
=que o meu antigo professor de Anatomia no se cansava de 
falar. Os =textos gregos foram levados para o mundo rabe e 
s regressaram ao Ocidente pela mo dos monges beneditinos, 
=que traduziram para latim os documentos rabes e assim 
tomaram =conhecimento do que Hipcrates e os outros mdicos 
gregos =escreveram. O atraso foi tanto que s no sculo xII 
nasceram as escolas de medicina e foi preciso esperar pelo 
=Renascimento para finalmente se comear a
estudar o corpo humano. E a, sim, houve de facto uma grande 
=evoluo. Descobriu-se que as doenas eram causadas por 
microorganismos, percebeu-se que o sangue =circulava, enfim, 
o corpo humano e os seus funcionamentos e patologias 
=tornaram-se mais compreensveis"
"Descartes escreveu que o corpo funcionava como uma 
mquina..."
"Justamente, Alphonse, o corpo comeou a ser visto como um 
=sistema. Os mdicos descobriram o sistema digestivo, o 
sistema =metablico, o sistema sanguneo, o sistema 
respiratrio, o =sistema nervoso. Alm disso, apareceu a 
qumica, os mdicos comearam a usar qumicos para 
reequilibrarem os =sistemas. Surgiram tambm as 
especialidades, como a neurologia, a =patologia e outras. 
Depois, com o meu conterrneo de Lille, Louis =Pasteur, 
vieram as vacinas e a cincia tomou totalmente conta da 
medicina, acabando de vez com as =feitiarias do passado. "
313
"Estou impressionado", exclamou Afonso com sincera admirao. 
="J vi que conhece bem a histria da medicina "
"Tenho obrigao", sorriu Agns. "Sempre foram trs =anos na 
Sorbonne, no ? Alguma coisa tinha de aprender. "
"E qual  a sua especialidade? "
"Bem, eu quando andava na faculdade no tinha ainda entrado 
nas =especialidades, estava na rea geral. Mas confesso que 
me sentia =tentada a ir para a psicanlise "
"Psicanlise? "
" uma rea nova, desenvolvida por Freud. J ouviu falar? ="
"Vagamente.  um hipnotizador, no ? "
Agns riu-se.
"Sim, ele utilizou a hipnose na terapia, mas j se deixou 
dessas =coisas. "
"Desculpe, mas isso no lembra ao diabo! Como  que um 
=mdico espera curar uma febre com hipnose? "
A francesa voltou a rir-se.
"No, Alphonse, Freud no trata doenas do corpo. Ele =trata 
as doenas da mente. "
"Dos loucos? "
"Sim, tambm dos loucos, mas no s, h igualmente =pessoas 
com perturbaes ou traumas, casos a que a medicina no =tem 
conseguido dar resposta. Pois Freud descobriu que muitos 
males da mente nascem de =traumas ocorridos no passado e que, 
se a pessoa conseguir resolver esses =traumas, curar-se-. O 
problema  que muita gente no tem =conscincia dos traumas 
que sofreu, uma vez que eles so reprimidos e =atirados para 
o inconsciente, pelo que o trabalho do mdico  o de 
=localizar esses traumas para os resolver. Freud comeou por 
usar a =hipnose, mas agora voltou-se para outros mtodos, 
como a associao de ideias e a interpretao dos =sonhos. "
"Ele tambm acredita que os sonhos so profecias? " "No, = 
exactamente o contrrio. Ele acha que os sonhos no revelam o 
=que vai acontecer no futuro, mas o que as pessoas
314
gostariam que acontecesse no futuro. Percebe a ideia? Os 
sonhos =revelam- nos o que as nossas instncias censoras nos 
ocultam. Por =exemplo, vamos imaginar que voc gosta muito de 
uma mulher e sonha =que est a fazer amor com ela. " Afonso 
corou. "O seu sonho no  uma =profecia, ele no revela que 
voc vai fazer amor com essa mulher. =O que ele revela  que 
voc gostaria de fazer amor com ela. Quando =est acordado, e 
tratando-se de uma pessoa com decoro, evita imaginar essa 
=situao. Isso significa que a sua conscincia reprime tal 
=desejo. Mas, no momento em que voc est a dormir, a 
=conscincia tambm dorme e  o subconsciente que toma conta 
da sua mente. O subconsciente sabe que =voc gostaria de 
fazer amor com essa mulher. Ora, como a =conscincia j no 
est activa para censurar esse desejo, o =subconsciente 
manifesta-o atravs do sonho. Entendeu? "
"Bem... uh... sim", titubeou Afonso, embaraado com o 
exemplo.
Agns sorriu.
"Vejo que o meu exemplo o deixou um pouco... como direi? um 
pouco =constrangido", comentou ela com malcia.
"Uh... enfim, no estou habituado a ouvir... a ouvir uma 
=senhora... enfim... "
"Est a ver? A sua instncia censora encontra-se muito 
=activa" observou Agns alegremente. "No se preocupe, isso 
s =mostra que voc  um homem decente, muito civilizado. "
"Enfim... ", soltou Afonso com alvio, o elogio soube-lhe 
bem. ="Mas deixe-me que lhe diga", apressou-se Agns a 
acrescentar, =divertida por saber que o ia chocar de novo. "O 
sexo  um elemento =crucial no comportamento dos homens e das 
mulheres, sabia? " Afonso abanou a cabea, pasmado, incapaz 
j de emitir =nem que fosse um grunhido. "Freud descobriu que 
a sexualidade constitui =um factor dominante e ocupa um lugar 
central em toda a experincia =humana. Ele verificou que as 
pessoas tm comportamentos sexuais desde que so bebs, o 
que... "
"Isso no pode ser", atalhou Afonso, recuperando a fala. "Os 
=bebs?"
315
"Compreendo a sua incredulidade, muita gente reage assim, mas 
a =verdade  que j os bebs manifestam sexualidade. Nunca 
ouviu =falar no complexo de dipo? "
"No. "
"Existe um mito grego que conta a histria de um homem dipo, 
=que, sem querer, cumpriu uma profecia antiga, matando o pai 
e casando =com a me. Ora Freud acha que todos os homens 
gostariam de fazer o =mesmo, matar o pai e casar... "
"Ah, desculpe, m'dame, mas isso  ir longe de mais. Faz algum 
=sentido essa ideia? No que me diz respeito,  um perfeito 
disparate =dizer que eu quero matar o meu pai e casar com a 
minha me, isso  =realmente... no sei, mas no  aceitvel. 
"
"O complexo de dipo  uma metfora, Alphonse, e assim =deve 
ser entendido. O que Freud quer dizer com isto  que os 
homens =tm desejos sexuais inconscientes que remontam  
infncia, =desejos de casarem com a me, no porque ela=20 a 
me, naturalmente, mas porque ela  a fmea que =conhecem. 
Para casarem com ela, porm, os homens tm de eliminar o =seu 
rival. E quem  ele?  o homem que est com a fmea que =eles 
desejam.  o pai. "
"Mas est a dizer que eu tenho esse desejo? "
"Calma, no o estou a acusar de nada", sorriu Agns. "Sei que 
=voc  um homem muito ntegro, um homem at muito 
=interessante. Mas o que eu estou a dizer  que Freud 
identificou esse desejo inconsciente, repito, inconsciente, 
=no comportamento masculino. Pode ter a certeza, no entanto, 
de que tenho =a convico de que o seu pai nada tem a temer 
de si, as instncias censoras desses desejos inconscientes 
funcionam, em si, muito bem. ="
Afonso fitou-a e o rosto abriu-se-lhe num sorriso. "J vi que 
se =est a meter comigo!"
"No, asseguro-lhe que Freud pensa tudo o que eu lhe disse e 
=sim, estou a meter-me consigo". Riu-se. "O que  curioso  
que os =homens ficam sempre furiosos com isto, voc  o 
primeiro a =perceber que eu no passo de uma provocadora "
"Ah sim, voc  uma grande provocadora. "
316
Ela lanou-lhe um olhar malicioso. "E posso provoc-lo ainda 
=mais? "
Afonso corou novamente. O que ser que vem a? pensou. ="Faa 
o favor. Provoque-me, v. Estou por tudo " "Quer danar 
=comigo?"
" Como?"
"Eu sei que no vem a propsito de nada, mas apetece-me. Quer 
=danar comigo? Sabe danar, presumo... "
"Uh... bem... eu... ajeito-me, acho. "
A baronesa levantou-se e abriu um mvel encostado  parede. 
=Das entranhas retirou um imenso gramofone e pousou-o sobre a 
mesa junto = lareira. O gramofone era constitudo por uma 
caixa de madeira com uma manivela a sair de um dos lados, 
tratava-se do =manpulo que permitia dar corda ao motor. A 
caixa tinha um prato por cima e =uma enorme corneta no topo, 
erguendo-se como uma orelha gigante e =desenhada em flor 
segundo o estilo art nouveau.
"Este  um gramofone Path", explicou Agns. "O que gosta =de 
danar? "
Afonso ergueu-se.
"No sei, o que tem a? "
Agns aproximou-se dos discos e consultou-os.
"Fox-trot, sinfonias, valsas... "
"Talvez um fox-trot, no? "
"Sim, gosto muito, mas talvez seja demasiado barulhento a 
esta =hora, no acha? " Deteve-se noutro disco. "Este  
fascinante. La =mer, de Debussy. " Abanou a cabea. " 
brilhante, simula os sons =da gua, mas no serve para 
danar" Olhou para Afonso. " Por que no uma valsa?"
"Pode ser. "
A francesa seleccionou um disco e colocou-o sobre o prato do 
=gramofone. Ps a agulha da corneta sobre a borda do disco e 
deu  =manivela. A melodia emergiu da corneta aberta em flor, 
ondulante, bela e =harmoniosa.
"Strauss", disse ela, dirigindo-se ao capito.
317
Os sons da orquestra de Viena encheram a sala. Afonso tomou-a 
nos =braos e comearam a bailar, os olhos pregados um no 
outro, os =corpos embalados ao ritmo da valsa, as mos 
apertadas entre si, as =livres procurando os corpos, a 
direita dele na cinta dela, a esquerda dela nos ombros dele. 
=Danaram sem nada dizerem, os olhos fixos nos olhos, 
insinuantes, =maliciosos, provocadores, na vegando na onda da 
msica. A valsa acelerou e Afonso puxou-a mais para si, os 
ventres a =chocarem-se, as roupas a roarem-se. Perderam a 
noo do =espao e do tempo, rodopiando na sala ao som da 
valsa tocada pelo gramofone, =desejando que aquele momento se 
prolongasse, se eternizasse, sublime, =arrebatador, perene, 
inesquecvel. A melodia encheu-lhes a alma e =atirou-os para 
um universo  parte, um mundo s seu, encantado, feito de 
beleza e sonho, =xtase e magia. Afonso mergulhou nos olhos 
verdes e observou-lhe a =boca entreaberta, os lbios 
aveludados brilhando como ptalas =hmidas, convidativos, 
acolhedores. Aproximou-se ligeiramente com a cabea, hesitou, 
ela =permaneceu de olhos muito abertos, fixos nele, ele 
sentiu-a =irresistvel, sentiu que chegara o momento, era 
altura de o desejo =tomar conta do corpo.
"Madame deseja mais alguma coisa? "
A voz masculina rompeu como um trovo o momento mgico. 
=Afonso e Agns sobressaltaram-se e olharam para a porta. Era 
Marcel, =o mordomo. A baronesa desprendeu-se bruscamente do 
capito.
"No, Marcel, obrigada. Boa noite. "
"Boa noite, madame", disse Marcel com os olhos 
perscrutadores. "Boa =noite, monsieur"
O mordomo retirou-se com vagar, algo frio, deixando-os sem 
jeito. =Fez-se um silncio breve, constrangido e embaraado, 
sentiam-se =como crianas apanhadas numa tropelia.
Agns desligou o gramofone e Afonso regressou  lareira, as 
chamas precisavam de ser ateadas. Remexeu a madeira da =lenha 
e o fogo reacendeu-se, respirando fogo e calor. Durante 
alguns =segundos apenas se ouviram os estalidos das fagulhas. 
Satisfeito, o =capito voltou ao seu lugar, no canap, e 
sentou-se.
318
Ficaram os dois a olharem-se. Foi um olhar inesperado e o 
=capito atrapalhou-se com aqueles olhos bonitos e meigos que 
se =fixavam em si, era um homem tmido, o olhar prolongou-se 
e ele =comeou a sentir o corao a bater, a bater, cada vez 
mais, tudo muito rpido, agora ecoando =nas tmporas, a certa 
altura j pulava quase descontroladamente. =Experimentou 
pulses contraditrias. Queria beij-la, =pressentia que ela 
no resistiria, existia ali uma fora magntica, um man 
=invisvel atraa-os, mas caiu em si, pensou que aquela era 
uma =mulher casada, estaria ele louco? Ainda havia pouco 
estivera  =conversa com o marido. Alm do mais, quem lhe 
garantia que no estava a confundir tudo, que o =seu desejo 
por ela no o traa, criando a iluso de que ela =tambm o 
desejava? Sentiu-se inseguro, que escndalo se a beijasse =e 
viesse a constatar que ela afinal no o queria, que aquele 
olhar era s de simpatia, que vergonha =desrespeitar a anfi 
tri e o marido na sua prpria casa. Afinal de =contas, 
pensou, esta
mulher era bela de mais para si, pertencia a um outro mundo, 
era =uma princesa inalcanvel e inacessvel, uma fada de 
sonhos, e =ele no passava de uma mera r, um portuguezito 
emproado que tudo =misturava, o olhar que dela recebia s 
podia ser de cortesia, havia que no confundir afabilidade 
com =desejo. Afastou os olhos, embaraado, quebrando o 
contacto visual.
Virou a cabea com naturalidade forada e foi salvo pelo 
=gongo do Biedermeier que soava na sala de jantar, era o 
pretexto ideal, =fixou-se nas batidas do grande relgio de 
parede como se aquele som =metlico e tranquilizador fosse a 
coisa mais importante do mundo.
" tarde, dame, i1 faut dormir", disse, levantando-se com tal 
=prontido que at parecia que tinha algo de urgente para 
fazer e =que no podia esperar mais. Agns ergueu-se devagar.
"Tem razo, Alphonse", concordou. " tarde.  demain. " =" 
demain, m'dame. "
Afonso caminhou para o quarto sentindo-se dilacerado pela 
=dvida, ela desejava-o realmente ou tudo no tinha passado 
de
319
um equvoco, de uma impresso errnea? Reconstituiu a 
=conversa palavra a palavra e a dana passo a passo, tentou 
ler-lhe o =olhar e o tom, recordou cuidadosamente cada 
expresso, procurou =interpretar as intenes por detrs do 
menor acto, do menor gesto, e concluiu que sim, talvez, era 
=provvel que ela desejasse ser seduzida. Pensou ento que 
no passava de um parvo, estava ali uma das mais bonitas e 
interessantes =mulheres que jamais conhecera, parecia-lhe 
gradualmente evidente que ela =alimentava um fraco por si, e 
ele certamente por ela, mas no tinha sido audaz, encolhera-
se, duvidara, acobardara-se. Era, todavia, =mais do que isso. 
Aprofundou a introspeco e descobriu que, de =certo modo, 
estava tambm a armar-se em cavalheiro, em grande =gentleman, 
a proteger um homem que, no fundo, at lhe era desagradvel. 
Que estpido! Estpido, =estpido, estpido! Abanou a cabea, 
os olhos perdidos no =soalho. Mas no valia a pena chorar 
agora sobre o que ficara =consumado, no tivera coragem de a 
beijar e a oportunidade perdera-se, talvez para =sempre. 
Desesperou, sentiu ganas de dar meia-volta e ir a correr  
=sua procura, implorando-lhe que o perdoasse, que 
desperdcio, quem =sabe se ele no iria morrer da a alguns 
dias, que o que tinha para dizer ficaria por dizer, e por 
=fazer. Mas nada fez, a no ser encolher os ombros, 
resignado. Correr =atrs dela no passava de uma fantasia, 
tinha de se conformar, que =remdio, pacincia, j estava 
feito, se calhar foi melhor assim.
O capito entrou no quarto que lhe fora destinado, o mesmo de 
=havia dez dias quando se hospedou pela primeira vez no 
Chteau =Redier. Acendeu a lamparina, viu a mala que Joaquim 
lhe deixara ao lado =da cama de armao Lus XV, tirou o 
casaco e pendurou-o numa cadeira. Sentiu-se triste e =s. Foi 
ao cabinet de toilette, rodou a alavanca da torneira e lavou 
=a cara na porcelana da pia em estilo art nouveau, esvaziou a 
bexiga na =decorada sanita Oneas do cubculo vizinho, to 
requintada que at fazia pena sujar. Voltou ao =quarto, 
sentou-se na cama, descalou as botas, desfez vagarosamente a 
=gravata verde-plida e despiu a farda, ficou de ceroulas, 
tremia de =frio, deitou-se e cobriu- se,=20
320
encolhendo e enrolando o corpo para melhor aquecer os lenis 
=e as mantas, quando o tremor acalmou espreitou pelos 
lenis, =estendeu o brao e apagou a lamparina. s escuras, 
fechou os =olhos, suspirou e pensou em Agns, fantasiando uma 
resposta diferente  oportunidade que acreditava =ter tido 
quinze minutos antes, arquitectando planos para o dia 
seguinte, =imaginando atra-la para um local discreto onde 
lhe confessaria o seu =amor com palavras romnticas e 
irresistveis, sentiu- se mais tranquilo quando decidiu que 
=assim iria actuar, atrevido e arrojado, embora soubesse, bem 
l no =ntimo, que verdadeiramente jamais teria coragem de o 
fazer, quando a =manh nascesse veria tudo com outros olhos, 
as destemidas decises da noite =transformar-se-iam em 
ingnuas iluses infantis.
Um estalido oriundo da porta desfez as fantasias como uma 
nuvem que =se dissolve no cu. Afonso ergueu a cabea e olhou 
para a entrada. Por momentos pareceu-lhe que estava tudo 
=normal, pensou que ouvira talvez uma madeira a dar de si, 
possivelmente =um mvel a estalar com as subtis mudanas de 
temperatura, afinal de contas um barulho habitual num 
palacete =daquelas dimenses. Mas um novo som, agora um pouco 
diferente, mais =suave e prolongado, confirmou que algo de 
facto se passava. Afonso =sentou-se na cama, alerta. Um tnue 
claro de luz emergiu verticalmente da entrada do quarto, era 
a porta que se =abria, devagar.
"Alphonse? "
O capito arregalou os olhos.
Alphonse? "
"Oui? "
Um vulto entrou com uma vela na mo, os contornos de luz a 
=revelarem as linhas graciosas de Agns, as sombras danando 
no =rosto fino, a penumbra acentuando as curvas da cintura e 
das coxas e a =protuberncia dos seios firmes que se 
insinuavam sob o vestido creme. A baronesa =estacou, olhando 
para ele, frgil, quase receosa, submissa at. =Ele fitou-a, 
surpreendido. Agns sorriu com timidez e doura, =aproximou- 
se com passos leves,=20
321
 olharam-se de perto, de corao palpitante, aos pulos, 
=caram um no outro, envolvendo-se num abrao, beijaram-se 
=timidamente, depois com sofreguido.
Afonso comeou pela face, desceu para os lbios, descobriu-os 
=hmidos e fofos, penetrou-a com a lngua, a boca era doce, 
quente, =acolhedora, encontrou a um sabor melfluo que o 
deixou inebriado, =bbado de prazer, perdido numa dimenso 
que no sabia existir, como se o tivessem arrancado da 
=realidade e o elevassem  eternidade, Afonso era uma 
andorinha e =Agns o cu, ela um lago, ele um nenfar. Sentiu 
o veludo macio =dos grossos lbios vermelhos a receb-lo com 
paixo e soube ento, nesse preciso instante, como se de =uma 
revelao se tratasse, que esses mesmos lbios de mel eram =o 
seu fado, que aquela boca quente se fizera=20para ser a sua 
casa, que aquela mulher terna nascera para ser o seu 
=destino.
O desejo cresceu, tornou-se irresistvel, arrebatador, 
=incontrolvel, a respirao pesada, ofegante, ela sentiu as 
=pernas fraquejarem, tombou na cama e perdeu-se nos lenis. 
O =capito lambeu- lhe a orelha direita, desceu para o 
pescoo e depois, tirando-lhe os seios para fora da camisa de 
noite, =percorreu os mamilos erectos com a lngua, chupou- os 
e lambeu-os, =eram rosados e arrebitados. Meteu a mo por 
baixo do vestido de =dormir, ajudou-a a tirar as calcinhas e 
acariciou-a entre as pernas. Depois, =quando a verificou 
muito hmida, tirou as calas do pijama e =procurou-lhe a 
entrada.
"Doucement", sussurrou ela.
Afonso penetrou-a com suavidade. Sentiu-se inebriado, era 
como se =tivesse mergulhado num delicioso pote de mel, 
infinitamente doce, quente =e hmido, to saboroso que at 
salivou. Agns fechou os =olhos, gemeu, deitou a cabea para 
trs e experimentou-o dentro de si, abrindo-a, explorando-a. 
Sem que Afonso =o esperasse, ela rodopiou e rolou para cima 
dele, dominando-o. O =capito nunca vira uma mulher colocar-
se sobre si, nem as desavergonhadas =meninas das Travessas, 
em Braga, alguma vez o tinham feito. Passada a =surpresa 
inicial, aceitou a dominao,=20
322
considerou-a mais uma coisa excitante que esta francesa lhe 
=ensinava. Ela cavalgou-o com entusiasmo, o ventre danando 
para cima =e para baixo, por vezes acariciando-o com a ponta 
dos dedos. Quando =sentia a ejaculao a aproximar-se, 
apertava-lhe as mos.
"Pra! Pra", implorava-lhe.
Ela imobilizava-se, paciente, at a lava que o queimava 
recuar =de mansinho, e depois recomeavam, sempre beijando-se 
e =acariciando-se. Minutos mais tarde, ela deitou-se e voltou 
ele para a =posio dominante. Sentiu o corpo ganhar 
velocidade e ritmo, tomando conta de =si, cavalgando 
autonomamente com crescente intensidade, mais rpido e =mais 
rpido, at no mais se conseguir conter e soltar a =erupo 
com um urro, sentir o corpo explodir e gemer de prazer, ao 
mesmo tempo =que ela se agitava por baixo de si num orgasmo 
mais prolongado. Todos os =msculos se retesaram, atingiram 
um pico de tenso e, passada a =onda alucinante, 
descontraram-se de imediato. A respirao readquiriu gradual 
normalidade, =uma indescritvel sensao de bem-estar encheu-
lhes a alma de =paz e adormeceram nos braos um do outro.
323
VI
A luz era, nessa manh, lmpida e suave. O sol espalhou uma 
=claridade gelada pelo manto branco intermitente que cobria a 
paisagem =agreste das trincheiras. Dezembro trouxera os 
neves e um frio =glaciar, mais gelado quando o cu se abria 
num azul puro, como hoje, pedaos de flocos amontoados =aqui 
e ali, como se estivessem ao abandono, pequenas poas de neve 
=derretida nas crateras e nas fossas das ranhuras rasgadas na 
terra por =entre parapeitos e onde se amontoavam as toupeiras 
humanas. A vegetao jazia queimada, pelo gelo ou =pelo fogo 
de guerra. As rvores, nuas, carbonizadas e mutiladas, 
=erguiam-se como espectros teimosamente de p naquela terra 
revolvida =pelo ao e pela morte.
A tranquila placidez da paisagem alva criava a iluso, 
=agradvel mas perigosa, de que ali no havia guerra, 
impresso =intensificada pelas novas sensaes que tinham 
entrado de rompante =no mundo do capito Afonso Brando e que 
coloriam a sua nova perspectiva da vida. A intensa noite com 
=Agns e a cumplicidade que se estabelecera entre os dois 
amantes, =cumplicidade cimentada nos fugazes encontros que 
tiveram nos quatro =restantes dias de descanso do oficial, 
trouxeram-lhe um outro estado de =esprito. De certo modo, o 
capito receava agora ainda mais as semanas
324
de trincheiras, mas, ao mesmo tempo, e apesar de um mal 
=disfarado sentimento de culpa por estar a relacionar-se com 
a mulher =de outro homem, a perspectiva do regresso ao 
descanso apresentava-se =mais luminosa, cheia de promessas, 
de=20encantos proibidos, de prazeres despertados, de emoes 
=arrebatadas.
Era a manh do dia 6 de Dezembro, Afonso e Infantaria 8 
tinham =regressado s posies de Neuve Chapelle na noite 
anterior. O =frio revelava-se cortante, e, se as coisas j 
assim se apresentavam =no princpio do ms, como seria em 
Janeiro e Fevereiro? Encostado ao parapeito interior da 
=linha B, os pensamentos do capito dividiam-se entre o 
esforo =para se proteger do gelo que lhe penetrava pelo 
dlman e o desejo de =se refugiar no calor da memria ardente 
de Agns e no universo de fantasia que construa na =sua alma 
apaixonada, antecipando os novos encontros que adivinhava 
=depois desta semana nas trincheiras. Tirou do bolso a 
cigarreira =prateada que a baronesa lhe oferecera na emoo 
da despedida, colocou distraidamente um Kiami! nos lbios e 
=acendeu-o, sempre mergulhado nos seus pensamentos, 
procurando encontrar =no acre fumo do cigarro o doce cheiro 
da boca da baronesa, o aroma =perfumado de L'heure bleue. To 
absorto estava que s se apercebeu da aproximao do tenente 
=Timothy Cook quando o oficial ingls de ligao o 
cumprimentou.
"What ho, Afonso, old boy? "
O capito regressou das nuvens e olhou para o recm-chegado. 
=" H ", exclamou. "Ah, ol Tim. "
" What up ", perguntou Cook, querendo saber quais as 
novidades.
"Nada. Tudo na mesma como a lesma. "
" Ento qual o motivo de toda a comoo?", perguntou o 
=tenente ingls no seu portugus britanicamente 
abrasileirado.
"Comoo? Qual comoo? "
"A que ali vai, na line. "
" O que  que se passa na linha "
"No sei, me diga voc. Vi um ajuntamento  porta do posto 
=de sinaleiros, em Dreadnought Post. "
325
"Ah sim? Quando "
"Agora mesmo, passei por l e estava a maior confuso. " 
=Afonso fitou Cook com ar interrogativo.
"No sei de nada", disse. "Espera a que eu vou l ver o =que 
 " O capito percorreu com Joaquim a linha B, chegou  
=linha de comunicao, Jock Street, virou  esquerda e meteu 
pela Winchester Road, apanhou a linha C, seguiu para a 
=direita e foi ter ao posto de sinaleiros de Dreadnought, um 
buraco =aberto entre sacos de areia. Ao aproximar-se, 
apercebeu-se de que havia, =de facto, um burburinho no local.
"O que se passa? ", perguntou ao tenente Curado, que se 
quedava = porta, rodeado de oficiais excitados.
"Uma revoluo, meu capito."
"Uma revoluo? Que revoluo? "
"Em Portugal, meu capito. O Bernardino e o Afonso Costa 
foram = vida "
"Que histria  essa? "
" como lhe digo, meu capito. Houve uma revoluo em 
=Portugal. "
Afonso penetrou no posto, onde todos falavam animadamente, 
era a =maior algazarra, abriu espao entre os excitados 
oficiais e foi ter =com o telegrafista.
"Conta l o que  que est a acontecer. "
O telegrafista, um alferes de nariz protuberante, olhou-o, 
=desanimado, era a vigsima vez que lhe faziam a mesma 
pergunta, todos =queriam saber o que se passava, quais as 
informaes que chegavam =por telegrafia, e ele j se cansara 
de repetir a mesma lengalenga. Suspirou e decidiu ser 
=sucinto.
"Sei pouca coisa, meu capito. Apenas a informao de que 
=houve ontem uma revoluo e que h combates nas ruas de 
=Lisboa."
"Disseram-me ali  porta que o presidente da Repblica e o 
=primeiro- ministro tinham sido derrubados. "
"Tanto quanto sei, isso no se confirma,  apenas 
=especulao. Se h combates, julgo que isso significa que a 
=coisa ainda no est decidida. "
326
"E quem  que est a encabear esse golpe? "
"Um tal de major Paes. "
"Major Paes? Quem  esse? "
"No sei, meu capito. "
O tenente Pinto, o seu maior amigo dentro de Infantaria 8, 
apareceu =por entre outros dois oficiais, o cabelo ruivo 
despenteado, como se =tivesse acabado de acordar, e ps-lhe a 
mo no ombro.
"Ento Afonso? Se calhar, vamos para casa. "
"Ol, Cenoura. Eu acho  que, afinal, estamos no stio 
=errado. A guerra  em Portugal, no aqui. "
", andam l aos tiros. "
"Quem  esse major Paes? "
"Olha, disseram-me h pouco que  um gajo do Exrcito que =h 
uns anos esteve no governo e depois foi para nosso ministro 
em =Berlim. "
Afonso arregalou os olhos, identificando o nome. "Aaaaah, o 
=Sidnio Paes! "
"Esse mesmo", confirmou Pinto. "Conheces o tipo? " "S dos 
=jornais", explicou o capito.
"E ento? "
"Se ele ganhar,  como tu dizes, parece-me que podemos ir 
=fazendo as malas e preparar-nos para irmos para casa. "
"Foi isso mesmo que me disseram. O gajo  monrquico? " "Isso 
=querias tu", sorriu Afonso, largamente conhecedor da costela 
=monrquica do tenente Pinto. "Tanto quanto eu sei, o Paes  
=republicano, est ligado ao Partido Unionista. Lembro-me de 
que at integrou os primeiros governos da =Repblica. "
"Mas  contra a guerra... "
"Acho que sim. Ele estava em Berlim quando os boches nos 
declararam =a guerra, fartava-se de elogiar aqueles cabres 
e, do que sei, no =gostou da nossa vinda aqui para a 
Flandres " Calou-se, pensativo. "Vais =ver que a Virgem de 
Ftima sempre tinha razo, vamos mesmo mais cedo para casa. "
327
O capito Resende, j menos gordo desde que havia duas 
=semanas se sujeitara  recepo ao caloiro, abraou os dois 
=ho mens, efusivo.
"Vamos para casa, caraas! "
"Aguenta l os cavalos, Resende", recomendou Pinto. "Ainda  
=no sabemos como  que aquilo acaba, o major Paes pode no 
=ganhar. "
"Ests mas  maluco, Cenoura. Eu conheo o homem, ele vai 
=ganhar. "
" Conheces o gaj o?"
"De Coimbra. Ele deu l aulas na universidade. " "E como  
=que ele ? "
"Um tipo s direitas, com ele no se faz farinha. Este 
=regabofe dos deputados, do Afonso Costa e da guerra vai 
acabar, o Paes =vai pr ordem nesta merda. "
"Deus te oia", comentou o tenente Pinto, que nunca digeriu a 
=deciso de Portugal entrar na guerra. "Vocs j viram isto? 
=Ainda em meados de Outubro o Bernardino e o Afonso Costa 
vieram c ao =CEP e menos de dois meses depois j esto ambos 
com guia de marcha "
O ambiente no posto era agitado. Os oficiais percebiam que os 
=acontecimentos de Lisboa, qualquer que fosse o seu desfecho, 
teriam =impacto nas suas vidas. Se o Partido Democrtico 
permanecesse no =poder, mantendo Bernardino Machado como 
presidente da Repblica e Afonso Costa como primeiro-
ministro, o plano de envolvimento =de Portugal na Grande 
Guerra provavelmente permaneceria inalterado. Mas, =se 
Sidnio Paes vencesse, as coisas mudavam de figura e ningum 
=ignorava que era possvel a retirada do CEP do teatro das 
operaes. Mais do que entre =republicanos e monrquicos, o 
pas estava agora dividido entre =intervencionistas e no 
intervencionistas. Se o Partido =Democrtico, no poder, era 
intervencionista, ento quem quer que se lhe opusesse teria 
necessariamente de ser contra o =envolvimento de Portugal no 
conflito.
328
Afonso saiu do posto e, apesar do frio glaciar, veio c fora 
=apanhar ar. Sentia-se dividido e no sabia o que pensar. Por 
um lado, =desejava ardentemente deixar as trincheiras, 
esquecer a guerra e =regressar ao quartel de Braga ou ao 
ninho de Rio Maior. Fizera a sua parte, cumprira o =seu 
dever, era hora de descansar. Mas, por outro, no deixava de 
=achar que o abandono do conflito deixaria o pas malvisto 
pelos =aliados e com o ps-guerra comprometido. Como manter o 
imprio se Portugal nem era =capaz de aguentar duas divises 
na Flandres? E, no fundo da sua =mente, isso no era tudo, se 
o CEP partisse, no era s o =prestgio de Portugal que se 
perderia, havia mais coisas que ficariam para =trs. Havia 
Agns.
Marcel estranhou o pedido da baronesa, franziu o sobrolho mas 
=limitou-se a assentir.
"Oui, madame", disse, seguindo-a pelos corredores do 
palacete. =Agns atravessou o foyer com impacincia, cruzou a 
porta de =entrada, recebeu o ar frio da manh como um sopro 
de liberdade e =desceu as escadarias com alvio, estava c 
fora, sara do palacete, sentia-se leve. O criado 
ultrapassou-a, apressado, e =foi a correr para o lado 
direito. Instantes mais tarde ouviu-se um motor =a roncar e 
ele apareceu ao volante da Renault amarela do baro Redier, 
era uma elegante sedan, deu a volta  praceta, =imobilizou-se 
diante da patroa, saltou c para fora, o motor ainda a 
=funcionar e a despejar fumo negro pelo escape, abriu a porta 
traseira, =Agns ergueu as largas saias cor-de-rosa, assentou 
o p direito no degrau =e instalou-se no compartimento 
fechado. Marcel voltou ao volante, =destravou e arrancou, uma 
rajada de vento gelado despenteou-o quando o =carro passou o 
porto, afinal de contas o lugar do chauffeur era ao ar 
livre, apenas =protegido pelo vidro dianteiro e pelo 
tejadilho.
A baronesa deixou-se guiar docilmente, os olhos fixos para 
alm =das janelas, cravados melancolicamente nas filas de 
pltanos, de =choupos, de olmos, de tlias, que desfilavam 
pela berma da estrada, =olhos que se perdiam na plancie, nos 
bosques, nas
329
ribanceiras, no cu aberto, nas vacas e nos porcos, nos patos 
e =nos gansos, nas casas abandonadas, nos celeiros vazios, 
nos muros =conquistados pela hera, nos flocos de neve que se 
diluam em lama, =nas carroas vagarosas, nos teimosos 
camponeses que insistiam em lavrar a terra, olhos que olhavam 
=para fora mas apenas
 viam para dentro, os arbustos agitavam-se e Agns observava-
os =sem os ver, diante dos olhos tinha somente Afonso, via-o 
a sorrir,=20
 a beij-la, imaginava-o algures l na frente, desde que lhe 
=sentira o calor que deixara de suportar a presena de 
Jacques, =ansiava
 pelo capito que lhe fazia lembrar o marido perdido, ansiava
tanto que, j desesperada, pedira a Marcel para a levar com 
ele
para o mercado, para o acompanhar nas compras. Ela que nunca
se preocupara com as compras na praa queria agora um 
pretexto
para se afastar do palacete que a sufocava, um pretexto para
escapar  espera ansiosa pelo seu portugus, para pensar 
=noutras
coisas, para se distrair, tambm para se sentir mais perto 
dele
naquela vilria por detrs das primeiras linhas onde ele se 
=enterrara. Estarei a ficar louca? questionou-se, ainda vendo 
sem ver os
viosos campos da Flandres a espraiarem-se para l da 
=estrada, a estenderem-se at ao fio do horizonte, a 
prolongarem-se =at o verde se fundir no azul do cu. 
Conheo-o h to =pouco tempo,=20
to pouco, to pouco, estarei a ficar louca? Respirou 
fundo,=20
buscava ar que a libertasse da ansiedade que a oprimia, 
encheu
o peito com aquele aroma frio e puro que lhe trazia notcias 
da =vida, agitou-se com intranquilidade.
O automvel entrou em Armentires e os olhos de Agns 
=comearam enfim a ver, a enxergar o que se encontrava para 
alm
dos vidros. L fora agitava-se a povoao, a lama do carro 
=saltava para as paredes das casas, a neve adquiria um 
aspecto sujo
pelos cantos, via-se ali um estaminet, acol um barbeiro, 
=alm
uma boulangerie, por todo o lado soldados, deambulavam por 
ali
todas as nacionalidades, tantas que at faziam lembrar aquele
longnquo passeio pela Exposio Universal, eles eram 
=ingleses, escoceses, canadianos, australianos, portugueses. 
Ah, =portugueses! Agns inclinou-se no assento e olhou-os com 
curiosidade, =
330
com intensidade, estudou-os, procurou neles traos de Afonso 
e =vestgios que os assemelhassem a Serge como Afonso se 
assemelhava, =les portugais sont toujours gais, lembrou-se, 
mas no lhe pareceu. Eram pequenos, atarracados, uns com 
rostos largos, outros =de caras chupadas e mas salientes, 
simplrios, rudes, mal =barbeados, botas sujas e descosidas, 
vestiam roupas ridculas, rotas, =casacos azuis com mangas 
to grandes que nelas se escondiam as mos, uns usavam 
pelicos com =peles de carneiro, outros tinham ar andrajoso, 
pareciam tristes, =desenraizados, arrastavam-se pelas ruas em 
grupo, a fumar, alguns =seguiam solitrios, metidos consigo, 
eram midos sem alegria da vida, crianas sem infncia, 
homenzinhos =abandonados numa terra distante.
A Renault dobrou a esquina e aproximou-se do mercado, havia 
mais =gente nas ruas, viam-se civis, sobretudo velhos e 
crianas. Ali ao =fundo reconheceu uma nuca, o corao 
disparou, era Afonso. =Agns levou a mo  boca, 
sobressaltada.
"Alphonse ", murmurou.
Afonso estava ali. Afonso caminhava pelo passeio alagado, de 
=costas, o carro aproximou-se, passou por ele, a francesa com 
o rosto =colado ao vidro, os olhos verdes bem abertos, o 
automvel ultrapassou =Afonso, ela ficou a v-lo, vidrada no 
vidro, a nuca dele tornou-se perfil e finalmente rosto, 
=Afonso tinha os olhos a saltitarem distraidamente pelo cho 
e um =cigarro no canto da boca, o bigode diferente, ela 
percebeu enfim que =no era ele, no era Afonso, era outro, 
era um soldado canadiano. Agns encostou-se =no assento, 
ofegante, espantada, surpreendida consigo mesma, a mo no 
=peito.
"Estarei louca? ", interrogou-se. "Mon Dieu, j o vejo por 
toda =a parte. "
Matias Grande sentia-se cansado e com frio. Mantinha-se 
alinhado =com os homens do peloto na linha B, perto de 
Deadhorse Corpse, =integrando a formatura da tarde, designada 
por A Postos, uma rotina =diria directamente inspirada no 
Stand To britnico.
331
O sargento Rosa olhou para o fundo da trincheira, viu o 
capito
Afonso Brando a aproximar-se e gritou para os seus homens.
"Aaaaaa postos! "
O peloto ps-se em sentido nos buracos cavados na paisagem
branca, chocalhando as botas e os metais das armas e munies
num fragor rpido, voltou o silncio e todos aguardaram a 
=inspeco do oficial. Afonso foi chapinhando pela lama e 
pisando =flocos
de neve at ao ponto onde os homens se encontravam formados.
Caminhava quase distraidamente, um bengalo de ponteira 
=metlica balouando como um pndulo na luva que calava a 
=mo
esquerda, at que chegou junto do primeiro soldado do 
=peloto,=20
Vicente Manpulas, olhou para a Lee-Enfield e fez uma careta 
de =desaprovao, um bafo de vapor a sair-lhe pela boca.
"Quero este cano limpo e oleado. "
"Sim, meu capito. "
O oficial passou lentamente pelos homens do grupo, apontando 
com o =bengalo para aqui e para ali, fazendo reparos ao
equipamento, s armas, s munies, aos aparelhos =antigs. 
Repreendeu Baltazar Velho porque o seu respirador no se 
=apresentava na devida posio de alerta, uma vez que, embora 
a =mscara
estivesse suspensa  frente do peito, como era do 
regulamento, =as molas da tampa encontravam-se voltadas para 
fora, o que violava
as regras estabelecidas. Afonso passou por Matias Grande e 
inclinou =ligeiramente a cabea, em sinal de que o reconhecia 
da aventura de =havia duas semanas, e, no final da revista 
aos homens, estacou junto do =sargento Rosa.
"Sargento, quero ver o material de trincheira. "
O sargento percorreu a trincheira com o oficial atrs, 
=mostrando-lhe as tarimbas, os armeiros, as bombas para tirar 
gua das =linhas, as picaretas e enxadas, os braseiros, os 
pulverizadores
Vermorel, as pistolas especiais para lanar os cunhetes de 
=iluminantes lerey, tambm designados por Verey lights, ou 
very =lights, mais as buzinas Strombos e as sinetas de 
alarme. O mais =frustrante eram as bombas, que continuamente 
retiravam gua das trincheiras para os soldados verem mais 
gua a brotar do =cho
332
lamacento ou a nascer do gelo acumulado, tornando quase 
intil =todo o exerccio. O capito mandou limpar algumas 
fezes que =encontrou aninhadas nas tbuas das passadeiras e 
ordenou que se =consertassem duas banquetas danificadas e um 
rolo de arame farpado que uma minenwerfer tinha rompido duas 
horas =antes, deixando uma cratera junto ao parapeito de 
sacos de areia.
O Sol, triste e esgotado, deitou-se por detrs das linhas 
portu =guesas e a noite caiu, gelada e escura. O A Postos da 
tarde terminou, =comeando o perodo mais difcil da jornada. 
No havia nada que o soldado mais temesse do que a noite, com 
os seus =mistrios e perigos ocultos, com as suas ameaas 
escondidas e =silncios traioeiros. Afonso deu ordens para 
que fossem colocadas =quatro sentinelas de vigia, em vez de 
uma nica, como se fazia de dia. Duas das sentinelas tinham 
de ficar de =p, vigiando as linhas inimigas pelo parapeito, 
e as outras duas =podiam sentar-se nas banquetas. Ao fim de 
meia hora, um dos homens de =p trocava de posio com um dos 
sentados, e meia hora depois era a vez de os dois restantes 
=trocarem igualmente de lugar. Tratava-se de uma forma de 
manter sempre =de vigia um homem com os olhos habituados  
escurido. Apesar dos =maiores perigos da noite, os snipers 
foram dispensados, dado que a visibilidade nocturna era nula 
e convinha =poupar os soldados.
Como comandante da companhia da direita, cabia a Afonso 
garantir os =preparativos para a noite, assegurando a posio 
das sentinelas, a =fiscalizao da linha da frente e a 
divulgao das ordens do =dia. Nessa noite mandara efectuar 
vrios trabalhos de reparao de passadeiras, drenagem de 
=trincheiras e reposio de proteces, para alm de =ordenar 
a sada de vrias patrulhas de reconhecimento e outras de 
=proteco aos homens que trabalhavam no arame farpado. Mas a 
ordem mais importante =dizia respeito  sada de uma patrulha 
de escuta, destinada a =obter informaes sobre o que se 
passava nas posies =inimigas.
O problema  que as notcias de Portugal concentravam as 
=atenes de toda a gente, com soldados e oficiais a 
especularem =sobre o futuro da sua presena na Flandres. No 
era ainda certo
333
o rumo dos acontecimentos, se o major Sidnio Paes venceria, 
se =Portugal iria pr termo  sua participao na guerra, mas 
=bastava a hiptese ser colocada para minar o esprito 
combativo. =Ningum queria morrer to perto de regressar a 
casa, e foi, por isso, com contrariedade que =Vicente 
Manpulas e Abel Lingrinhas receberam a ordem de se 
=prepararem para a incurso pela terra de ningum. A ordem 
veio de =Afonso, mas foi transmitida pelo sargento Rosa.
"Porra, meu sargento, porqu ns? ", queixou-se Vicente, a 
=gesticular com veemente indignao.
"Cala-te e veste-te", indicou Rosa, estendendo aos dois 
homens os =impermeveis brancos.
Estas fardas eram utilizadas como camuflagem em paisagens 
nevadas, =de modo a que os soldados se confundissem com o 
manto gelado que tudo =cobria de serenidade alva.
"Ento e porqu' qu'o capito no vem tambm? " ="Cala-te e 
veste-te. "
" sempr'a mesma merda c'os oficiais", murmurou Vicente, 
=furioso, enquanto punha as calas brancas com gestos 
bruscos. ="Arrotam postas de pescad'e ns  qu'arriscamos o 
couro. V =l s'ele tem tomates p'ra vir connosco. "
"Cala-te Manpulas, j te disse. "
"Os camones da direita j mudaram e ns ind'aqui tamos nesta 
=pocilga, a chafurdar na lama com'uns marranos. "
Vicente referia-se  25. a Diviso britnica do XI Corpo, 
=que ocupava a linha  direita de Ferme du Bois e que, dias 
antes, =tinha sido substituda pela 42. a Diviso do XV Corpo 
do =Exrcito do BEF. As tropas portuguesas comeavam a ver os 
seus vizinhos a serem substitudos para irem descansar =e 
ansiavam j pelo mesmo.
"No te aviso mais", rosnou o sargento. Apontou o indicador 
para =Vicente, ameaador. "Voltas a piar e na semana de 
descanso vais de =servio s latrinas, ouviste? "
O soldado continuou a resmungar, mas agora de modo 
=imperceptvel. Abel Lingrinhas permanecia silencioso, era 
mais
334
introvertido, mas sentia-se igualmente assustado e irritado. 
=Parecia-lhe pouco sensato fazer aquela operao quando havia 
a =possibilidade de, da a alguns dias ou semanas, receberem 
todos ordem de regresso. Mas =conformou-se. Mostrava-se 
determinado a permanecer o mais invisvel =possvel na terra 
de ningum e a regressar inteiro s linhas do =CEP e foi com 
essa ideia que vestiu o impermevel branco e, acompanhado 
pelo sargento Rosa e por um muito =contrariado Vicente, 
seguiu para a linha da frente.
Como sempre quando frequentavam a primeira linha, instalou-se 
um =silncio respeitoso ao pisarem as tbuas da passadeira da 
linha da =frente, no posto avanado de Duck's Bill. Aquele 
era o ltimo reduto antes de enfrentarem o inimigo e era por 
ali que acederiam =ao ponto mais perigoso de todos, a terra 
de ningum. O sargento fez um sinal e os dois homens armaram 
as baionetas e sentaram-se nas =banquetas, aguardando a 
chegada do oficial. O capito Afonso =Brando apareceu em 
Duck's Bill perto das nove da noite =com um rolo de linha 
telefnica desactivada debaixo do brao e =sentou-se junto 
dos homens que iam partir para a patrulha de escuta.
"Isto  uma operao simples", indicou, a voz num =sussurro. 
"Quero vigilncia do terreno sem interveno. =Entendido? "
Os dois soldados permaneceram calados. O manto escuro da 
noite =ocultava-lhes os rostos, apenas era possvel 
distinguir um vago =contorno das silhuetas. Afonso sentiu-se 
desconfortvel com aquele =silncio.
"Entendido? ", repetiu.
"O que devemos vigiar? ", quis saber Vicente.
Afonso rolou os olhos, impaciente. Era evidente que o soldado 
=estava contrariado e se fazia desentendido, no era possvel 
que =andasse havia dois meses nas trincheiras e ainda no 
soubesse em que =consistia uma patrulha de escuta.
"Quero que verifiquem se h movimento de patrulhas inimigas e 
=nmero de efectivos, mas no quero tiros, apenas 
=informao", disse com toda a pacincia que conseguiu 
juntar, =estendendo-lhes o rolo de fio telefnico que tinha 
trazido consigo. "Levam o fio a servir de cordo. Um =estico 
significa que chegaram e que
335
esto bem, dois estices para regressarem, trs =estices se 
detectarem patrulhas inimigas, seguidos do nmero de 
=estices relativos ao nmero de boches, e quatro estices se 
acharem que a patrulha inimiga representa um perigo para as 
nossas =linhas. Entendido?. "
"Sim, meu capito", assentiu Vicente, resignado. "Vamos a 
isso, =rapazes. Boa sorte e tenham cuidado. " Os dois homens 
embandoleiraram as =Lee-Enfield, agarraram o fio de telefone, 
entregando a ponta ao sargento =Rosa, pegaram no arame-guia, 
que os conduziria por uma rota aberta entre o emaranhado dos 
rolos de =arame farpado, puseram os ps nas banquetas e 
pularam em silncio =pelo parapeito, mergulhando na noite. 
Afonso e o sargento assomaram ao =parapeito no seu encalo e 
sentiram, mais do que viram, Vicente e Abel a rastejarem 
lentamente =pela neve, seguindo o percurso revelado pelo 
arame-guia, at que, uns =metros mais  frente, os seus 
movimentos deixaram de ser perceptveis. Apuraram a vista, 
tentando descortin-los, mas nada registaram =e Afonso no 
pde deixar de pensar que existiam possivelmente =patrulhas 
alems tambm a circular por ali, invisveis e =silenciosas, 
traioeiras e perigosas, e no desejou estar na pele dos dois 
homens que acabara de mandar para =desafiarem a morte na 
terra de ningum.
O capito e o sargento permaneceram longamente no parapeito, 
=mirando a imensido de trevas que se estendia  sua frente. 
Apenas =uns ocasionais tiros ou rajadas rompiam o silncio 
que se abatera sobre as linhas. A certa altura, um very 
light, =proveniente do lado alemo, acendeu-se no cu e 
comeou a =descer com lentido, lanando uma luminosidade 
quase diurna sobre =a terra de ningum. Era uma luz estranha 
e assustadora, tinha algo de sinistro, parecia =de outro 
mundo. Havia quem a achasse bela, mas o capito sentia um 
=invarivel arrepio de medo sempre que via aquele claro 
sobrenatural a pairar sobre as linhas. Tentando abstrair-se 
dos =sentimentos sombrios gerados pelo very light, Afonso e 
Rosa =esforaram-se por aproveitar a visibilidade e detectar 
presena =humana naquela faixa de terreno inspito, presena
336
que sabiam existir. Mas a paisagem permanecia morta, a luz 
revelava =apenas as rvores tristemente curvadas, amputadas e 
calcinadas, =erguendo-se como espantalhos, as sombras a 
girarem com suavidade pelo =cho numa rotao contraposta ao 
farol que cruzava o cu, crateras cavadas na terra, =um manto 
branco de neve a resplandecer luminosamente sob o claro 
=frio do very light que descia pendurado no seu pequeno pra-
quedas. O =foco de luz foi morrer perto do horizonte, e, 
naqueles longos instantes de claridade, no =vislumbraram 
sinais de Vicente e Abel, era como se ambos se tivessem 
=volatilizado da terra de ningum.
Ao fim de dez minutos, um nico estico do fio telefnico 
=indicou que os dois soldados tinham chegado  posio de 
=observao. Tranquilizado, Afonso sentou-se na banqueta, 
deixando =o sargento a vigiar a terra de ningum, e acendeu 
um cigarro curvado sobre si mesmo, as mos enluvadas a 
=protegerem o lume do vento cortante e, sobretudo, dos 
olhares inimigos. =Os minutos passaram e no vieram 
novidades. O fio telefnico =permaneceu imvel e, por mais 
que aguassem o ouvido ou tentassem discernir algo na 
escurido, Afonso e o =sargento Rosa no tiveram qualquer 
indicao proveniente da =patrulha. O capito sabia que, com 
aquela neve espalhada pelo =cho, no deveria manter os dois 
homens muito tempo na terra de ningum, sob =pena de sofrerem 
hipotermia, pelo que, ao fim de meia hora, fez sinal ao 
=sargento.
"Manda-os voltar. "
O sargento Rosa puxou duas vezes o fio telefnico e ficou a 
=vigiar pelo parapeito. Dez minutos depois, os vultos dos 
dois soldados =emergiram da noite, brancos de frio, e 
saltaram para a linha da frente, =os queixos a tiritarem, os 
braos enregelados, tremendo e tremendo, sentaram-se nas 
banquetas e =dobraram-se sobre si, encolhidos em busca de 
calor. O sargento =estendeu-lhes um copo de aguardente, que 
engoliram de uma vez, ansiando =sofregamente pelo ardor 
quente do lcool que lhes invadiu o corpo e queimou as 
vsceras.
337
"Ento? ", perguntou Afonso quando os homens pareceram mais 
=recompostos.
"No h novidade, meu capito", disse Vicente Manpulas 
=muito rapidamente, engolindo slabas, num flego quebrado 
pelo =frio. "Ouvimos os gajos a falarem ao fund'e mais nada. 
"
"Nenhum movimento?"
"Nada. "
"Para onde  que vocs foram? "
"P'ra uma cratera ali ao fundo, perto dos gajos. Estav'um 
zieiro do =camano. S'a gente se delatasse mais um pouco, 
cangava. "
"Em que ponto  que os boches estavam a falar? " "Junt' 
=parapeito, em linha recta diante de Rifle Row, ali =em Mitre 
Trench", respondeu Vicente, indicando a direco com a =mo. 
"Mesm'ali. "
Afonso suspirou e ergueu-se.
"Vo l descansar", disse, antes de se afastar.
O capito seguiu para o posto de sinaleiros. Tinha de passar 
a =informao de que permanecia tudo calmo no seu sector e a 
ordem =para metralharem a posio onde a patrulha detectou 
soldados inimigos a falarem, mas sobretudo =queria ainda 
saber novidades dos acontecimentos =em Portugal. Depois de 
comunicar que a patrulha de escuta =no tinha registado 
nenhum movimento nas posies alems, =foi informado pelo 
alferes de servio ao telgrafo de que as =foras revoltosas 
em Lisboa montaram um acampamento no Parque Eduardo VII, 
=enquanto a Guarda Republicana, leal ao governo, se instalara 
no Rossio. =No havia mais pormenores e o capito voltou s 
linhas para efectuar a ronda da noite e inspeccionar os 
trabalhos de =reparao e drenagem das trincheiras. S iria 
deitar-se pela =alvorada, depois de o claro radioso da manh 
emergir difuso para =alm das linhas inimigas.
Matias Grande, Baltazar Velho e mais quatro homens passaram 
trs =horas por cima do parapeito da linha da frente, entre 
Newcut Alley e =Chteau Road, envolvidos no trabalho de=20
338
fortalecimento das posies defensivas. Operando s =escuras 
e comunicando em murmrios temerosos, os seis soldados 
=colocaram dezassete concertinas e quatro rolos de arame 
farpado naquele =sector, uma vez que as anteriores proteces 
tinham sido arrancadas por umas morteiradas que ali caram 
durante =o dia. Perderam a sensibilidade nos dedos, as mos 
agitavam-se num =tremor mido, dormentes e enregeladas, e foi 
com grande alvio que =deram o trabalho por concludo e 
receberam autorizao do sargento Rosa para recolherem ao 
=abrigo, situado em Baluchi Road.
Matias e Baltazar beberam meia garrafa de rum junto s 
paredes =interiores do parapeito, sentiram o lcool a 
aquecer-lhes as =entranhas como o bafo de um vulco e, mais 
reconfortados, fizeram-se =ao caminho. Subiram pela Chteau 
Road at  Rue Tilleloy e meteram logo pela Baluchi at 
chegarem ao abrigo. =Mergulharam no buraco lamacento e deram 
com Vicente e Abel estirados no =cho e envolvidos em mantas, 
os corpos iluminados por uma lamparina =fraca, a luz amarela 
e bruxuleante a danar-lhes no rosto.
"Ento essa patrulha? ", perguntou Matias enquanto se 
instalava.
"Nem me fales", devolveu Vicente, plido de frio, a manta a 
=cobri-lo at ao nariz. "Estav'um zieiro infernal "
"Ento eu no sei? Estou com as mos inchadas de frieiras 
=caraas. " Exibiu os punhos deformados pelo frio, os dedos 
gordos e =vermelho-arroxeados. "At parece que me sai sangue 
das unhas. "
"Isto  pior do que a serra", queixou-se Baltazar, que era do 
=Gers e estava habituado ao gelo seco das alturas. "Nem 
sinto os =dedos, porra! "
Matias fitou Abel e reparou que o amigo tremia 
descontroladamente.
" Lingrinhas, isso est mau. "
"Ah, Matias, estou gelado", desabafou com dificuldade. "Esta 
=patrulha na neve fez-me mesmo mal. "
"Isso vejo eu. J emborcaste a murrilha? "
339
"O sargento deu-me um bocado quando acabou a patrulha" gemeu 
Abel. ="Mas o rum, a mim, no me faz muito efeito."
"Credo, homem, no sei o que te faa. No te posso acender 
=uma fogueira, no te posso arranjar uma gaja boa para te 
escacholar. =Se aquela mascambilha no te faz efeito. "
Abel Lingrinhas bateu o dente mais um bocado antes de 
conseguir =voltar a falar.
"Sabes o que me fazia mesmo bem? ", perguntou finalmente. 
"Diz =l "
" uma coisa que a minha me me dava no Inverno " A 
=tremideira de frio acentuou-se e Abel cerrou as plpebras e 
calou-se, =toda a cabea a agitar-se num delrio de gelo. 
Matias =impacientou-se.
"Que coisa? Desembucha, homem."
Abel reabriu os olhos.
"Ch. " " Ch?"
"Sim, um ch quentinho, regado a lcool. Pode ser rum. Ch 
=com rum. Ah, isso  que era uma maravilha "
" Lingrinhas, onde  que te vou arranjar ch a esta hora? 
=No d para ir ali ao estaminet... "
Abel voltou a fechar os olhos, o corpo sempre a tremer em 
=descontroladas convulses de frio.
"A malt'ainda tem aqui uns pacotinhos de ch", anunciou 
Vicente, =vasculhando a caixa das raes. "O problem' a gua 
quente "
"Sempre podamos fazer uma fogueira", avanou Baltazar, 
=pensativo. "Montvamos um fogo de categoria"
"Ests maluco, Velho", cortou Matias. "Ainda sufocvamos aqui 
=dentro, nem pensar. " Calou-se um instante, pensativo,  
procura de =solues. Uma rajada de metralhadora cortou o ar 
l fora, o som sincopado a entrar abafado no abrigo, pareceu 
a Matias que =vinha das linhas alems, era uma Maxim. O 
soldado teve uma ideia e =ergueu-se num pice. "A chaleira? "
" H "
"A chaleira "
340
"Est'ali ao fundo, homem", apontou Vicente, apoiado no 
cotovelo. ="Porqu? Queres mesm'acender a fogueira? "
Matias deu trs passos, agarrou na chaleira e saiu disparado 
do =abrigo.
"J volto. "
O cabo subiu a Baluchi em passo rpido e enrgico, tentando 
=gerar calor que o defendesse do frio cortante que lhe 
penetrava pelo =colete de pelica, e foi at Sunken Road. 
Meteu  direita pela Sunken e, antes do posto de Tilleloy 
Sul, deu com o ninho de =metralhadora camuflado entre sacos 
de terra e vegetao =postia.
"Rogrio", chamou.
"Quem vem l? ", perguntou uma voz vinda da escurido. "Sou 
=eu, o Matias. "
"Ah, mangano. O que me queres? "
" Ests de servio  costureira?"
"O que  que julgas que estou aqui a fazer, h? A pinar uma 
=sansardoninha? "
"Preciso de uma ajudinha tua. "
"Diz l. "
"Tenho um marada que est a cangar de frio, treme que nem uma 
=galinha diante do cutelo. "
"D-lhe uma murrilha. "
"Isso j lhe disse eu, mas parece que no faz efeito. " 
="Ento ele que vista um casaco. "
"Porra, Rogrio, estou aqui a apanhar um zieiro do catano e 
=no tenho pacincia para brincadeiras. "
"Ento diz l o que queres. "
"O meu marada precisa de ch. "
" Ch?"
" Sim, ch. "
"Olha l,  Matias, ests a mangar comigo ou qu? " "A 
=srio."
"Ch para aquecer? Diz-me l, quem est com frio  um =marada 
teu ou no ser antes uma demoiselle que trouxeste s 
=escondidas aqui para as trinchas? "
341
" um marada, porra.  o Lingrinhas. O tipo andou na neve 
=durante uma patrulha e est que nem pode.
"Mas onde  que queres tu que eu lhe arranje ch? Tens cada 
=uma!
Matias impacientou-se e decidiu ir directo ao assunto. "Olha 
l, = Rogrio, j abriste fogo esta noite? " Fez-se 
silncio.
" Rogrio "
"Ests a reinar comigo, diz-me que ests a reinar comigo. " 
="V l, s bacano, d-me uma mozinha. "
Fez-se um novo silncio, mais curto.
"Portanto, se bem entendi, queres que eu abra fogo para que 
tu =possas fazer um ch a um marada que est com frio, ainda 
para mais =o Lingrinhas, esse gramito metido consigo... "
" isso. "
"Tu ests mas  maluco,  Matias. "
"V l. "
Novo silncio.
"O que  que eu ganho com isso? "
"Dou-te um xagrego. "
A voz na escurido riu-se com gosto.
" Um xagrego Um! "
"Est bem, dois"
"Dois xagregos? Ests a reinar comigo. "
"Trs. "
"Um mao. "
"Cinco. "
"Um mao, j te disse. "
Matias suspirou, apalpou o bolso e sentiu o mao de cigarros. 
="Um mao inteiro no tenho", disse. "Mas posso dar- te todos 
os =xagregos que esto no meu bolso, faz quase um mao "
Fez-se mais um breve silncio.
"Est bem, seu valdra, negcio fechado. Ajuda-me aqui. " 
=Matias avanou no escuro de braos estendidos. As mos 
=flutuaram no ar at sentirem o corpo quente de Rogrio e 
a=20
342
superfcie metlica e dolorosamente gelada da Vickers Mk I, a 
=grande metralhadora pesada britnica, de 303 polegadas, 
assente num =trip.
"Passa-me a caixa que est a ao fundo", pediu Rogrio. ="So 
as munies. "
Matias puxou a caixa e tirou uma cinta de balas, eram 
duzentos e =cinquenta projcteis alinhados lado a lado, como 
dentes afiados e =ameaadores, prontos a rasgarem a carne e a 
estilhaarem ossos. =Rogrio encaixou a fita na metralhadora, 
agarrou os manpulos com as duas =mos, sentiu o gatilho nos 
polegares e rodou a arma.
"Para onde  que atiro? "
"Manda umas bujardas ali para a segunda linha da Mastiff 
Trench, =mesmo junto aos boches. "
Rogrio apontou para a esquerda, calculou a posio da =linha 
da Mastiff Trench, bem dentro das posies alems que se 
espraiavam diante de si, e carregou no gatilho. Um matraquear 
=ensurdecedor encheu o pequeno abrigo camuflado, as balas 
saam do =cano em sucesso rpida e explosiva. Tra-tra-tra-
tra-tra-tra. =Matias pensou que era como um co a ladrar-lhe 
sobre os ouvidos, um ronco louco e insuportvel, um =rudo 
dos infernos a encher-lhe a cabea e a testar-lhe os nervos. 
=O tapa-chamas, na ponta do cano, ocultava do inimigo os 
relmpagos de =cada tiro, impedindo que os alemes 
detectassem com preciso a fonte dos disparos. A primeira 
cinta =esgotou-se em trinta segundos, to rpida era a 
sucesso de =fogo, e a arma calou-se. Um silncio 
retemperador encheu o pequeno =abrigo. Rogrio meteu uma 
segunda cinta e a cacofonia infernal regressou de =imediato. 
Quando a segunda cinta tambm se esgotou, trinta segundos e 
=outras duzentas e cinquenta balas mais tarde, Rogrio 
colocou uma terceira e, meio minuto mais tarde, uma quarta. 
Gastou =mil balas em dois minutos de tiro, mais algum tempo 
para as mudas de =cinta. Quando terminou, ps levemente o 
indicador na grossa manga de =arrefecimento para avaliar a 
temperatura.
"Est bom", disse finalmente.
343
Matias ergueu-se, foi at  extremidade da gorda manga 
=cilndrica da Vickers, tacteou o metal quente em busca da 
abertura =para a sada da gua e encontrou-a na ponta, por 
baixo, mesmo =atrs do tapa-chamas. Desenroscou a abertura 
com os dedos, encostou a =chaleira por baixo do orifcio e 
deixou a gua a ferver encher o =recipiente. Quando a 
chaleira ficou cheia, tirou-a e deixou despejar o =resto da 
gua quente no cho. Depois voltou a enroscar a tampa do 
orifcio de evacuao da =gua e abriu o orifcio de entrada 
de gua, no topo da manga, =mesmo junto  mira. Rogrio deu-
lhe um garrafo com gua =gelada e Matias despejou-o pelo 
orifcio para dentro da manga. Ouviu-se um fzzzz prolongado, 
era a gua =gelada a arrefecer o cano quase incandescente. 
Terminada a tarefa, o =cabo enroscou a tampa, pegou na 
chaleira a transbordar de gua quente =e ergueu-se.
"Isto de a costureira ser arrefecida a gua d um jeito =do 
caraas", comentou com um sorriso. Ps a mo esquerda no 
=bolso, agarrou no prometido mao de cigarros e estendeu-o ao 
operador =da Vickers. "Obrigadinho,  Rogrio"
E abalou por ali fora, a chaleira repleta de gua a ferver 
para =o ch do Lingrinhas.
Infantaria 8 terminou o turno nas trincheiras a 12 de 
Dezembro e =logo no dia seguinte, aproveitando a jornada de 
descanso habitualmente =concedida a uma unidade que acabara 
de abandonar as primeiras linhas, =Afonso solicitou um passe 
para abandonar o acantonamento, requisitou um cavalo, um 
=pesado ardens branco- sujo com tufos de pelos negros do 
topete  =crineira e manchas escuras nas coxas e no 
curvilho, e seguiu a trote =para o quartel-general do 
CEP=20em St. Venant. J nas ruas da vila =estacou perante uma 
tabuleta inslita. "Avisa", anunciava a tabuleta, indicando: 
" prohibido o uzo =latrines inglezas aos portuguezas teem os 
proprios latrines ao entrada =do Parque algumas encontrados 
uzando otros latrines ser castigados =severamente. " Releu o 
texto, atnito e divertido. Quem ser o idiota que escreveu 
isto? =interrogou-se. Comeou por imaginar um analfabeto
344
das beras, mas logo concluiu que s poderia tratar-se de um 
=ingls, s esperava que no tivesse sido Tim. Ainda a rir-
se, =deu um estalido com a lngua e obrigou o cavalo a 
retomar a marcha =at ao quartel-general, onde chegou minutos 
depois.
" ento isto a Grande Canja? ", comentou para a sentinela, 
=em tom de provocao, quando viu o edifcio diante de si, 
numa =buclica rea verde defendida por um slido muro de 
pedra.
Grande Canja era o nome que os homens usavam para se 
referirem ao =quartel-general do CEP, por considerarem ser 
fcil a combater na =guerra. O quartel-general da 1. a 
Diviso era a Canja n. 1, e o da 2. =a Diviso era a Canja n. 
o 2, os antros onde formigavam as legies de =combatentes da 
retaguarda, os bravos guerreiros que faziam dos hotis =e dos 
restaurantes os seus sangrentos campos de batalha, os 
=indomveis homens=20que, em vez das trincheiras cinzentas de 
Fauquissart, de Neuve Chapelle =e de Ferme du Bois, preferiam 
arriscar a vida nas macias areias das =praias de Ambleteuse, 
taples e Boulogne.
O oficial desmontou do cavalo, acariciou-lhe o dorso, 
entregou-o a =uma ordenana e cruzou a p o porto de entrada 
para o terreno =da Grande Canja. Era uma manso majestosa, de 
dois andares e enormes janelas, a principal situada no 
=primeiro andar, sobre a entrada, e assinalada pelo 
rectangular =gradeamento de ferro trabalhado que protegia um 
pequeno varandim. O =capito atravessou o desmazelado jardim 
que se estendia defronte da manso, =passou por entre um 
pequeno Ford T e um elegante Bugatti Tippo 10 =estacionados  
porta e entrou no quartel-general.
Afonso tinha um amigo no quartel-general. Tratava-se do 
tenente =Trindade, o seu colega de carteira na Escola do 
Exrcito, que trabalhava no secretariado do general Tamagnini 
Abreu. =Trindade era o antigo cadete conhecido na Escola por 
Ranhoso devido ao =clebre incidente infeliz numa 
aula=20quando espirrou violentamente sobre um professor. Mas, 
na Flandres, a =alcunha mais adequada era a de "cachapim", o 
termo pejorativo que os =homens das trincheiras reservavam a 
todos os militares que escolhiam a =burocracia como teatro de 
operaes e elegiam as canetas como
345
as suas armas de combate. O CEP estava cheio de cachapins, 
homens =que pululavam na retaguarda para garantirem o 
funcionamento dos mais =variados servios, desde trabalhos de 
secretaria at ao servio =de subsistncias, servio de 
contabilidade, servio de beneficiao de fardamento, servio 
de =salvados, servio de agronomia e at o servio de 
=expedio de bagagens e registo de perdas, militares que do 
campo de batalha =nada conheciam. Havia os cachapins 
ligeiros, que ocupavam o =quartel-general da brigada, os 
mdios, que deambulavam pelas =divises, e os cachapins 
pesados, que se encontravam ali, na Grande Canja. E =exis 
tiam ainda os palmpedes, uma espcie de cachapins de luxo, 
=felizardos que andavam de automvel e pernoitavam nos 
palacetes por =entre lenis lavados e chauffage central, o 
sistema de aquecimento s =acessvel a uns eleitos. No 
Chteau Redier, Afonso fora um =palmpede,  verdade, mas 
apenas por pouco tempo. J o tenente =Trindade era um 
cachapim de alma e corao, ainda para mais um cachapim 
pesado com aspiraes a =palmpede, porventura o nico que 
Afonso no desprezava, =privilgio sem dvida resultante da 
velha amizade que nem nestas =horas se traa.
O capito bateu  porta do secretariado e perguntou pelo 
=tenente.
"Ento, Ranhoso? ", disparou em jeito de saudao quando =viu 
o amigo assomar  porta.
"Olha-me este finrio! ", exclamou o tenente Trindade com um 
=sorriso. "S bem-vindo ao meu miservel posto de combate. " 
Fez =sinal para entrar e Afonso obedeceu. "Diz-me uma coisa, 
 =Aprumadinho.  mesmo verdade que proibiste os teus homens 
de dizerem palavres? "
"Sim, porqu? "
Trindade soltou uma ruidosa gargalhada.
 " Ena, s mesmo catita, disse, contorcendo-se de gozo. No 
=h dvida de que a alcunha de Aprumadinho te caiu a matar. " 
=Riu-se mais um pouco. "Olha l, quando um magala leva um 
balzio =no cu, que palavras autorizas tu que ele diga, h? 
Valha-me Deus? Credo? Ai Jesus? "
346
Afonso forou um sorriso.
"No autorizo palavra nenhuma em especial. O que eu no gosto 
 de =estar a ouvir as ordinarices todas, isso no faz o meu 
feitio e o pessoal sabe. "
"Ah, caraas, enganaste-te na vocao", observou o =tenente. 
"Devias era ter ido para padre. " Ergueu o indicador. "Para 
=padre, digo-te eu. "
"Vou pensar nisso. "
Trindade bocejou.
"Ento diz l,  Aprumadinho, o que ests tu aqui a =fazer? " 
"Se queres que te diga, no sei", gracejou Afonso. ="Cansei-
me do tdio das trincheiras e vim aqui ver como  que se 
=combate no quartel-general. Devo dizer-te que estou 
impressionado, vocs parecem uns guerreiros =temveis. Os 
boches cagavam-se todos se aqui viessem. "
O tenente riu-se. Conhecia a m fama dos cachapins entre os 
=homens das trincheiras, mas no se mostrava preocupado. L 
em =Portugal a famlia considerava-o um heri, estava na 
guerra e era =tudo o que sabiam, preocupavam-se com a sua 
segurana e desconheciam que era possvel fazer a guerra sem 
ver a =guerra. Era preciso estar na Flandres para conhecer a 
diferena entre =lzudos
e cachapins,  distncia eram ambos iguais, encontravam-se 
=todos na guerra, e o que lhe interessava verdadeiramente era 
o que =pensava a malta l em casa, no a malta das 
trincheiras. Que =melhor coisa havia seno aquela de ter a 
fama de andar na guerra e ter o conforto de no a =viver, de 
ter a reputao de dormir na lama e passar as noites 
=confortavelmente aninhado debaixo de lenis
perfumados e com os ps aquecidos por botijas de gua quente, 
=de ser conhecido por matar alemes  baioneta enquanto dos 
=alemes s ouvia falar nas conversas da messe. Alm do mais, 
e
bem vistas as coisas, ser um cachapim no era um acto de 
=vontade, mas um capricho do destino. Afinal de contas, 
quantos =lzudos, se pudessem, no se tornariam cachapins? 
Quantos homens =no dariam um brao para abandonarem a 
misria das trincheiras e recolherem-se ao conforto da 
retaguarda? Quem
347
poderia afirmar, com absoluta sinceridade, que era melhor ser 
=lzudo do que cachapim? No seria afinal o desprezo dos 
lzudos =pelos cachapins uma forma dissimulada de inveja? 
Tudo isto aflorava  mente do tenente Trindade sempre que era 
confrontado por um lzudo, =mesmo quando o lzudo se tratava 
de um amigo de carteira da Escola do =Exrcito.
"Senta-te, Afonso", convidou, indicando-lhe uma secretria. 
="Agora no posso ir tomar um copo contigo, estou de servio 
aos =sinais, mas falamos aqui. "
Afonso tirou o bon de oficial e sentou-se junto  
=secretria do amigo. O gabinete estava repleto de tecnologia 
de =comunicaes, desde pombos-correios at s ltimas 
=novidades no domnio dos aparelhos elctricos, como os 
telgrafos Fullerphones e os telefones Power-Buzzer.
"Muitos mortos nas trinchas? ", perguntou Trindade, 
recostando-se =na cadeira.
"Alguns", disse Afonso com tristeza, sem querer entrar em 
=pormenores.
" bom,  bom! ", exclamou o Ranhoso, aprovadoramente. " 
=preciso que morram muitos para que os nossos aliados vejam o 
nosso =sacrifcio, o nosso herosmo "
O capito arregalou os olhos, surpreendido com o comentrio. 
="Ests parvo ou qu? "
"A srio, Afonso. Quantos mais morrerem, mais nos respeitam. 
= assim mesmo, o que  que pensas? Eu sei que parece 
chocante para =quem est nas trinchas, mas nos estados-
maiores eles prestam =ateno a isso, caraas, quando no h 
mortos  porque no h combate, h cagufa.  assim que =eles 
pensam.  por isso que precisamos de mostrar trabalho.  
=fundamental que os camones vejam de que cepa  a nossa 
gente, de que =tmpera  a nossa raa! "
"No sabes o que dizes", murmurou Afonso, suspirando e 
abanando =a cabea. "Desde que te conheo que passas a vida a 
elogiar a =matana, a citar Hegel, Moltke e Nietzsche, 
dizendo que a guerra faz parte da =ordem divina, que ajuda a 
preservar a sade
348
dos povos, que a crueldade intensificada  a mais elevada 
forma =de cultura e outras balelas do gnero. Pois olha que 
nunca te vi nas =trinchas a elevar a tua cultura, a preservar 
a tua sade e a defender =a ordem divina das coisas... "
"No me viste, nem vers", riu-se Trindade. "Que eu saiba sou 
=militar, mas no sou parvo. A gentinha que se mate. Eu c 
estou =para a glorificar. "
A conversa do Trindade Ranhoso era tpica de um cachapim do 
=quartel-general. Quanto mais longe se estava da linha da 
frente, mais =grandiosas e eloquentes eram as tiradas sobre a 
glria de Portugal e =a bravura da raa portuguesa. Os homens 
que frequentavam as trincheiras no falavam assim, apenas se 
preocupavam com =a sua sobrevivncia e com a dos seus 
camaradas. O patriotismo era um =luxo a que no se podiam 
dar. Olhando para o amigo da Escola do =Exrcito, o capito 
considerou que era preciso estar bem confortvel na 
retaguarda para =se poder falar daquela maneira, era preciso 
viver no bem-bom sem =arriscar a pele para se ter a coragem 
de apregoar a glria da morte, =era preciso encontrar-se em 
segurana sem ouvir as minenwerfer a estourarem e as Maxim a 
matraquearem na sua =direco para se atrever a mencionar 
palavras como herosmo e =cagufa, era preciso estar longe, 
bem longe, para imaginar que a guerra =engrandecia a ptria e 
enobrecia os homens. S com a barriga cheia e vivendo em 
=conforto se podia teorizar sobre conceitos abstractos como a 
bravura, a honra, o patriotismo. =Para os soldados que comiam 
mal, dormiam na lama, conviviam com ratos, =tiritavam de 
frio, tremiam de medo e lamentavam a morte dos seus 
=camaradas, apenas a realidade contava, a realidade e o 
desejo de normalidade, o gosto pelas coisas simples, uma sopa 
=quente, uma lareira acolhedora, a roupa seca, o carinho da 
me, da =namorada, da mulher. Afonso conhecia bem a conversa 
dos cachapins e =decidiu no contra-argumentar, sentia-se 
cansado e s iria irritar-se.
O tenente Trindade intuiu o agastamento latente de Afonso e 
=atribuiu-o a quem vive as coisas demasiado perto, no fundo 
entendia-o, o =capito estava excessivamente prximo da 
guerra 349
para captar o retrato geral, a proximidade fazia-lhe perder o 
=sentido de perspectiva, a noo do sacrifcio individual 
para o bem comum. Era esse, afinal, o mal de todos os que 
=combatiam nas trincheiras, pensou Trindade. Para eles, a 
morte era uma =coisa pessoal e isso impedia-os de perceberem 
a importncia dos =grandes sacrifcios para cimentar o 
prestgio do pas. As pequenas coisas, como a vida de um 
homem, =tornavam-nos cegos aos grandes valores, como a vida 
de uma nao, =viam a rvore mas no enxergavam a floresta, 
as trincheiras =tornavam-nos mopes, perdiam a imagem global.
Tudo isto passou pela cabea dos dois homens em algumas 
=fraces de segundo enquanto se miravam. Vendo que o amigo 
no =dava luta, o rosto do tenente abriu-se num sorriso.
"Ento o que te traz por c? "
"Preciso de um favor teu. "
"Depende do favor. "
"No  nada de especial. Precisava que me dessem uns dias 
=para ir descansar a Paris. "
"Descansar a Paris? ", admirou-se o tenente, franzindo o 
sobrolho. ="No me digas que h moura na costa... "
O rubor que subiu ao rosto de Afonso traiu-o 
irrevogavelmente, e =Trindade riu-se, deliciado com a sua 
perspiccia e com o visvel =embarao do amigo.
"Quem diria que o Afonso Aprumadinho andava a caar 
=mademoiselles nas trinchas", exclamou, provocador. "E ainda 
falam nos =cachapins! " Inclinou-se na cadeira, o olhar 
gozo. " Quem  ela?"
"Deixa-te de merdas,  Ranhoso", cortou Afonso, reprimindo 
com =dificuldade a irritao. "Arranjas-me a licena ou no? 
"
O amigo tinha tocado num ponto sensvel, o capito no 
=queria fazer alarde da sua relao com Agns, ela no era 
=uma paixoneta do momento, pelo menos no era assim que a 
via.
"V, diz l", insistiu Trindade.
"No conheces e no interessa! ", declarou Afonso, num modo 
=que no admitia discusso. "Arranjas-me ou no uma licena 
=de uns dias?"
350
O tenente Trindade voltou a recostar-se na cadeira e respirou 
=fundo.
"Claro", assentiu finalmente. "Mas para o imediato s te 
consigo =obter dois dias. "
"Serve. Quando  que os posso gozar? "
"Vou ali ao velho e j a partir de amanh podes ir tratar da 
=sade  tua mademoiselle. "
"s um compincha", disse Afonso, com alvio. "E uma =licena 
mais alargada?"
"Arranjo-te cinco dias depois do Natal. "
"A srio?"
"Sem problema", retorquiu o tenente, levantando-se. Trindade 
foi =ter com um outro oficial no gabinete, pegou nuns papis 
e voltou para =junto de Afonso.
"Preenche estes formulrios que eu trato do resto. " Afonso 
=percorreu os documentos com os olhos, molhou uma caneta na 
tinta e =preencheu-os em silncio. Quando terminou, 
=entregou-os a Trindade. O tenente verificou se estava tudo 
nos =conformes, notou uma incorreco, questionou Afonso e 
rectificou o =texto, acabando por se dar por satisfeito.
"Vou ali levar isto ao velho", disse, erguendo-se da cadeira. 
="J sabes da revoluo? "
"Sim, o major Paes l venceu. "
O tenente inclinou-se para a secretria, abriu uma gaveta e 
=tirou de l um jornal, que estendeu a Afonso.
"L enquanto eu vou ao velho e j volto. "
O capito pegou no jornal, era O Sculo, datado de 8 de 
=Dezembro, tinha apenas cinco dias. A toda a largura da 
primeira =pgina estendia-se o ttulo "O movimento 
revolucionrio d'estes =dias", com uma fotografia area de 
Lisboa e um retrato de Sidnio Paes. Afonso leu avidamente o 
=jornal, que falava sobre "o troar do canho", "as descargas 
de fusilaria" e os "cruentos combates" na capital, revelando 
=que os alunos da Escola de Guerra e os homens de Cavalaria 7 
e =Artilharia se tinham juntado ao
351
major Paes na ocupao do Parque Eduardo VII, contando ainda 
=com o apoio de Infantaria 5, 16 e 33 e de muitos civis, 
alguns dos quais =saquearam lojas. Vrios edifcios da 
Avenida e da Baixa foram atingidos pela artilharia dos 
=revoltosos, incluindo o Avenida Palace, ao mesmo tempo que o 
Campo =Pequeno foi bombardeado por haver notcias de que se 
encontravam =a elementos afectos ao governo, designadamente 
a Guarda Republicana. =Cruzadores tomaram posies no Tejo, 
marinheiros ocuparam os =telhados da cidade, contaram-se 
setenta mortos e trezentos feridos, mas =as contas no 
estavam ainda fechadas. Afonso admirou-se com este relato de 
uma cidade transformada em campo =de batalha, com tiroteio no 
Rossio e nos Restauradores e canhes a =abrirem fogo do 
Parque Eduardo VII durante uma noite inteira, e =interrogou-
se pela ensima vez sobre os efeitos daqueles acontecimentos 
na participao =portuguesa na guerra. Soubera nas 
trincheiras que tinha havido uma =revoluo e que Sidnio 
Paes vencera aps dois dias de =combates em Lisboa, mas 
ningum ainda conseguia determinar ao certo qual o futuro do 
CEP. As =conjecturas multiplicavam-se,  verdade, mas 
certezas no havia.
O tenente Trindade regressou entretanto ao gabinete, um 
semblante =de dever cumprido no rosto.
"Est tudo tratado", anunciou. "Aqui tens os teus dois dias 
de =licena, a comear amanh."
Afonso pegou distraidamente nos documentos, com uma 
indiferena =que espantou o amigo, e acabou por disparar a 
pergunta que a todos =atormentava nas trincheiras.
" Olha l,  Ranhoso, a malta volta ou no para casa?" 
="Voltar para casa? ", interrogou-se o tenente, sem perceber. 
"Mas o que =me pediste foi uma licena de uns dias para... "
"No  isso", cortou Afonso, abanando a cabea com 
=impacincia. "O major Paes vai manter Portugal na guerra ou 
vai =mandar a malta para casa?"
"Ah! ", exclamou Trindade, caindo pesadamente na cadeira. O 
tenente =abriu a mesma gaveta, tirou de l outro jornal e 
estendeu-o ao amigo. ="L!"
352
Afonso pegou no jornal, era mais uma vez O Sculo, s que do 
=dia seguinte ao anterior, estava datado de havia quatro 
dias, 9 de =Dezembro. O capito admirou-se com a rapidez com 
que os jornais =chegavam ao quartel-general, mas no teceu 
comentrios. Olhou para a primeira pgina e apanhou o ttulo 
"Lisboa =regressa  normalidade". Comeou a ler o texto mas 
Trindade =apontou para um subttulo na coluna central, ao 
fundo da pgina. ="Palavras do sr. Sidnio Paes", anunciava o 
subttulo.
"O que  que tem? ", quis saber Afonso.
"No sabes ler? ", perguntou Trindade, inclinando-se sobre o 
=jornal e comeando a ler em voz alta um trecho da resposta 
do chefe =dos revolucionrios a uma pergunta feita pelo 
reprter de O =Sculo. "O governo manter os compromissos 
internacionais, nomeadamente os que se filiam na =aliana com 
a Inglaterra. " O tenente levantou os olhos do jornal e 
=fitou o amigo. "Percebeste? "
Afonso observava-o de olhos arregalados, digerindo o impacto 
das =palavras atribudas a Sidnio Paes. Levou um longo 
segundo a tirar =as devidas ilaes daquela declarao e a 
formul-las =numa curta frase.
"Vamos continuar na guerra. "
O tenente Trindade recostou-se na cadeira, ps as pernas 
=cruzadas sobre a secretria, acendeu um cigarro, aspirou com 
vagar, =tirou o cigarro da boca e expeliu uma enorme e 
tranquila baforada de =fumo cinzento.
"Afonso, s um gnio. "
353
VII
Os tringulos encarnados assinalavam a proximidade das tendas 
da =YMCA, a Young Men Christian Association, que se 
encontrava espalhada por =todo o sector ocupado pelo British 
Expeditionary Force. O Hudson =negociou a curva enlameada e 
imobilizou-se junto=20 primeira tenda, para onde convergiam 
vrios tommies ingleses, =todos eles visivelmente animados.
" aqui", disse Afonso, desligando o motor e apeando-se. O 
=capito deu a volta ao carro pela frente, abriu a porta do 
passageiro =e convidou Agns a sair. A jovem baronesa 
mostrava- se elegantemente =vestida, apesar de os seus trajos 
estarem quatro anos ultrapassados na agenda =dos exigentes 
estilistas parisienses. A silhueta minaret, que costurara =em 
Paris nos seus tempos de estudante de Medicina, tinha estado 
na moda =em 1913 mas fora j substituda por outras 
novidades, embora isso no passasse verdadeiramente de =um 
insignificante pormenor que se perdia naquele canto da 
provncia =embrutecido pela guerra. Uma mulher bela era 
sempre uma mulher bela, e a =sua sofisticada tnica de 
carmesim flamejante, envolvendo uma apertada saia de 
crinolina e =coroada com um magnfico chapu cloche, produziu 
um inevitvel
354
efeito dramtico entre a soldadesca britnica. Afonso entrou 
=na tenda orgulhoso como um pavo, levando no brao uma 
elegante =francesa que deixava os tommies de olhos 
arregalados. O capito =ofereceu um copo de capil a Agns e 
sentaram-se ambos nas cadeiras, aguardando o incio do 
=espectculo.
"Costumas ir ao cinematgrafo? ", quis saber Afonso enquanto 
=bebericava o seu capil.
"Agora, raramente. Mas em Paris fui muitas vezes ao =Phono-
Cinma- Thtre du Cours-la-Reine, s salas Omnia e ao 
=Gaumont-Palace, que  o maior cinema do mundo. "
"O maior? ", admirou-se Afonso. "Olha que eu acho que, se 
foi, =j no . Dizem que, na Amrica, foi agora estreado um 
=teatro cinematogrfico de luxo, todo ele ricamente decorado, 
com =candelabros de cristal, carpetes no cho e tudo. Li no 
jornal que  uma coisa faranica. Ao que parece, o =teatro 
tem mais de trs mil lugares sentados e uma orquestra com 
=espao para trinta msicos. "
"Vraiment? Mon Dieu, s na Amrica", comentou Agns em tom 
=apreciativo antes de mudar para o seu assunto favorito, as 
estrelas de =cinema. "A minha artista favorita  Sarah 
Bernhardt. "
"Eu c gosto da Mary Pickford e da Marion Davies. " Ela 
cerrou =as sobrancelhas, fez beicinho e encarou-o com ar 
grave.
"Se tivesses de escolher, preferia-las a elas ou a mim? " 
Afonso =riu-se, divertido com a pergunta tipicamente 
feminina. "A ti, claro, ma =mignonne. "
"Boa resposta, mon chri", sorriu Agns, agradada. "Pois eu 
=prefiro-te muito mais a ti do que ao Douglas Fairbanks. "
Os jovens da YMCA fecharam entretanto o acesso  tenda, 
=procurando impedir a entrada da luz, e anunciaram o incio 
da =projeco. A mquina de cinematografia comeou a 
trabalhar, =ronronando como uma metralhadora longnqua, tac-
tac-tac-tac, emitiu um foco de luz sobre uma tela branca, 
=apareceram nmeros a preto a saltitar na imagem e depois 
veio o =filme. Um padre anglicano sentou-se ao piano e 
comeou a tocar, =enchendo
355
a tenda de msica e suprimindo o silncio da pelcula. 
=Primeiro passou um documentrio dos Les annales de la 
guerre, um =trabalho da Section photographique et 
cinmatographique de l'Arme =com as ltimas novidades sobre 
o conflito, seguindo-se, para descontrair, o =sketch cmico 
The Rink, de Charles Chaplin, que produziu um tremendo efeito 
=dentro da tenda. Os espectadores desataram a aplaudir quando 
viram a =figura do vagabundo de bigode, e as gargalhadas 
tornaram-se =histricas  medida que Chaplin dava trambolhes 
no seu papel de trapalho com patins a tentar equilibrar-se 
dentro =de um ringue. Por fim veio o filme principal, 
intitulado The Heart of =the World. Era um trabalho de 
descarada propaganda patritica, assinado por D. W. Griffith 
e rodado parcialmente na frente =francesa, mas depressa 
Afonso se desinteressou dos ares cruis de =Erich von 
Stroheim, no papel de um sdico oficial alemo, 
=concentrando-se, em vez disso, no apetecvel pescoo de 
Agns. A francesa aceitou alguns beijos mais discretos, mas, 
=quando o capito se comeou a empolgar demasiado, viu-se 
=forada a rejeitar delicadamente os impetuosos avanos, 
preocupada =em no se transformar num espectculo dentro do 
espectculo.
"Pas ici", sussurrou, apelando  pacincia do amante. ="Aprs 
Alphonse. Aprs. "
Quando o filme acabou, abandonaram a tenda da YMCA e seguiram 
para =o Htel Boulogne, em Boulogne-sur-Mer, uma vilria a 
noroeste do =sector portugus, na costa atlntica da 
Picardia,  entrada do canal da Mancha. Ambos tinham decidido 
que era inconveniente =Afonso voltar ao Chteau Redier. Para 
alm do desrespeito gratuito =que significava dormirem juntos 
na casa do marido trado, havia o factor de risco a 
considerar. Nenhum dos dois conseguia =disfarar em absoluto 
os seus sentimentos na presena do outro, o =que o baro 
inevitavelmente notaria, e, por outro lado, as =escapadelas 
de Agns para o quarto dos hspedes acabariam tambm por 
serem constatadas pelo anfitrio ou =pelos criados. Para 
tornear o problema, a baronesa disse ao
356
marido que ia passar dois dias a Paris, e, fazendo coincidir 
esse ="passeio" com a licena obtida pelo capito no quartel-
general do CEP, foram ambos para Boulogne-sur-Mer. O 
=inconveniente era o de que, apesar de estarem relativamente 
longe de =Armentires, deveriam evitar aparecer juntos em 
pblico, o que os obrigou a fecharem-se no seu quarto de 
hotel. Em boa =verdade, porm, para Afonso isso no foi 
problema nenhum.
O Htel Boulogne serviu para darem largas  sua paixo. 
=Amaram-se fogosa e repetidamente, aproveitando os intervalos 
para =encomendarem refeies ou conversarem sobre tudo e 
sobre nada. Na =manh do segundo dia, Agns mostrou-se 
interessada em conhecer o passado do seu amante, um 
=interesse que no era novo mas que, desta vez, se revelou 
mais =insistente.
"Mas para que  que queres saber a minha histria? ", 
=resistiu Afonso. "No h nada de interessante para contar, 
ma =mignonne."
Agns franziu o sobrolho, no ia deixar as coisas ficarem por 
=ali.
"Hum, no me convences", disse. "Qual  o problema de me 
=contares o teu passado? "
"No h problema nenhum, minha pardaleca.  s que =no tenho 
nada de especial para contar. Acho que a minha vida se 
=resume a trs ideias principais. Nasci, cresci e conheci-te. 
"
"Desculpa, mas isso no  resposta. No me queres contar, =? 
" "No h nada para contar, minha querida. "
Ela cerrou os olhos.
"Acho esse teu silncio suspeito", sentenciou. "Ser que me 
=ests a ocultar algo? No me digas que s casado... "
"Eu? Casado? ", riu-se Afonso. "No, meu amor. No  nada =de 
especial, a verdade  que no tenho particular prazer em 
falar =de mim, percebes? "
"No, no percebo. Acho que ests a esconder-me alguma 
=coisa... "
"No estou nada, filha. Acredita!"
357
Mas Agns no acreditou. Irritada, fechou-se em si mesma. 
=Encostou-se na cama a ler o enigmtico  la recherche du 
temps =perdu e no lhe prestou a mnima ateno. Amuara. 
Afonso =tentou quebrar o gelo com algumas graolas, mas a 
francesa mostrou-se altivamente indiferente e permaneceu 
=distante, aparentava estar apenas preocupada com a descrio 
de =Proust sobre o glamour da vida dupla de Swann, as 
bisbilhotices da tia =Lonie, as possessivas soires dos 
Verdurin, a conturbada relao com Odette de Crcy.
Ao fim de uma hora, receando desperdiar-se daquela forma o 
=to promissor fim de semana, o capito suspirou e rendeu-se. 
=Encostado  cabeceira da cama, contou finalmente a sua 
histria. =Afonso relatou a infncia na Carrachana, a 
adolescncia no seminrio de Braga e a juventude na Escola do 
=Exrcito. Despenderam a manh a discutir o passado, 
comparando as =educaes e a importncia das viagens que 
ambos fizeram em =pequenos s respectivas capitais, ele a 
Lisboa, ela a Paris. Perto do meio-dia, =Agns espreguiou-se 
e ergueu- se da cama. Tinha seguido a =narrativa com ateno, 
mas dava sinais de se encontrar cansada por =permanecer tanto 
tempo encerrada no quarto do hotel, j lhe bastavam as 
=interminveis horas em que permanecia fechada no Chteau 
Redier, o =que ela queria agora era mesmo espraiar-se. A 
manh ia adiantada e a francesa, subitamente impaciente, 
incitou Afonso a dar =um passeio.
"J me contas o resto", disse-lhe enquanto vestia o casaco. " 
On =va!"
O capito no transbordava de vontade de sair  rua no =s 
porque encontrava no apertado quarto do hotel fartos e ricos 
=motivos de interesse, mas tambm devido ao seu receio de 
serem ambos =avistados por algum prximo do baro Redier. A 
ltima coisa que lhes convinha  que o marido enganado 
=descobrisse a verdade. O problema  que Agns no queria 
saber =dos argumentos aparentemente razoveis que o seu 
amante com =insistncia lhe apresentou.
"Ningum vem a Boulogne-sur-Mer para estar o tempo todo 
fechado =no quarto", sentenciou a baronesa num tom que no
358
admitia mais discusso, abrindo a porta de forma decidida e 
=mergulhando resolutamente no corredor. "Anda, mon chri. "
Afonso resignou-se e no teve outro remdio seno =acompanhar 
Agns no seu passeio. Abandonaram o Htel Boulogne e =foram 
passear pela Grande Place e por todo o sector histrico, 
situado no interior das muralhas da Haute Ville. Estava uma 
=manh fria e o sol espreitava timidamente por entre as 
nuvens. Foram = Basilique Notre-Dame ver a esttua de 
madeira de Notre-Dame de =Boulogne, a patrona da povoao 
apresentava-se coberta de jias, e seguiram at ao majestoso 
=castelo poligonal construdo no sculo xIII para os condes 
de =Boulogne, apreciando o exterior todo em pedra e as 
elegantes janelas que =espreitavam pelo telhado negro. s 
duas da tarde saram pela Porte des Degrs, onde admiraram as 
=duas torres medievais que flanqueavam a ruela, e decidiram 
ir almoar =uma terrine de enguias e um foie gras au saut 
com lagostim assado a =um simptico restaurante de peixe 
instalado no cais Gambetta, as mesas com vista =para o rio 
Liane, uns deliciosos craquelin de Boulogne para sobremesa.
"Ainda bem que no foste para padre", sorriu Agns no seu 
=primeiro comentrio  narrativa da manh. "Era um 
=desperdcio."
"Tambm acho", concordou Afonso enquanto trinchava o lagostim 
=com afinco. "No estava predestinado. "
A francesa fixou-lhe o olhar, maliciosa.
"Aposto que no deixaste essa tua namoradinha em paz", 
testou-o.
"Qual namoradinha? " perguntou ele, fazendo-se de sonso. 
"Essa =Caroline. "
Afonso engoliu em seco e esboou um sorriso amarelo, 
meditando =se estaria ou no a cometer um erro ao contar a 
sua histria com =tanto pormenor. Com as mulheres nunca se 
sabe, reflectiu, tudo o que =lhes contamos pode virar-se 
contra ns. Mas a narrativa j ia a meio e no tinha agora 
modo de voltar =atrs.
"Oh, foi uma coisa sem importncia", justificou-se, a face a 
=encher-se com um rubor embaraado.
359
"Hum, no sei se acredite", disse ela com uma careta 
sorridente. ="Mas conta-me o resto, v. "
"Agora?"
"Pourquoi pas? "
O capito passou toda a sobremesa a relatar a sua =integrao 
em Infantaria 8, os episdios da entrada de Portugal =na 
guerra e a vinda para Frana. Concluiu a histria aps o 
=caf. Afonso pediu a conta, beijou Agns, pagou, pegou no 
Hudson que tinha requisitado no CEP e levou-a num =passeio 
pela costa.
Sentiram a perfumada brisa martima encher-lhes os pulmes 
=com as fragrncias frescas do oceano quando o automvel 
comeou =a serpentear pelas estradas marginais  Cte d'Opale 
at os =conduzir  Colonne de=20la Grande Arme, a norte de 
=Boulogne-sur- Mer. Admiraram de mo dada o monumento em 
mrmore ali erguido, leram na inscrio que a obra tinha sido 
=construda em 1841 para homenagear os planos elaborados por 
=Napoleo para invadir a Gr-Bretanha e ficaram a saborear a 
bela =vista panormica da costa at Calais, o grande porto 
francs perfeitamente visvel daquele =ponto. Como um casal 
de namorados, subiram ainda aos promontrios =ventosos do Cap 
Gris-Nez e do Cap Blanc- Nez para apreciarem o mar bravo =a 
bater l em baixo na encosta escarpada, as manchas brancas 
dos penhascos da =costa inglesa desenhadas entre o azul-
escuro do mar e o azul-claro do =cu. Viram o pr do Sol na 
linha do horizonte, o astro alaranjado a mergulhar no canal 
=da Mancha, e fizeram apaixonadas juras de amor. Quando o 
manto da noite =se estendeu pela costa, meteram-se no carro e 
deram meia-volta para =regressarem ao Htel Boulogne. Fazia-
se tarde e teriam de viajar ainda nessa noite at =ao hotel 
que reservaram em Merville, uma vez que a licena do =capito 
estava a expirar e ele tinha ordens para se apresentar na 
=brigada logo pela manh.
Ao entrar no quarto do hotel, Agns sentiu-se angustiada e 
=frustrada pela brevidade da licena do seu amante. Queria 
permanecer =com ele e via-se presa pelas correntes de um 
casamento que no =desejava e de uma guerra que temia.
360
"Ento, mon petit choux? ", preocupou-se Afonso, atencioso. 
=Sentou- se ao seu lado e enxugou-lhe as lgrimas. Perguntou-
lhe em =portugus: "Ests com a mosca? "
"C'est quoi, a? ", quis saber Agns, no entendendo a 
=pergunta. Afonso traduziu o que dissera e a francesa 
encostou a =cabea ao seu ombro.
"Estou aterrorizada", disse. Soluou. "Gosto de ti, Alphonse 
mas =receio sofrer, sofrer muito, sabes? "
O capito beijou-a repetidamente.
"Mas eu nunca te magoaria, minha flor. "
"No digas isso, magoares-me no depende de ti, mas de Deus. 
=Entendes? " Soluou, as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto, 
agora =abundantes. "No depende de ti. "
Afonso puxou-a para si e apertou-a com mais fora. "Mas o que 
se =passa contigo? O que tens? "
"O que tenho, Alphonse,  que vivo aterrorizada com a 
=possibilidade de te acontecer o mesmo que sucedeu a Serge. " 
Fungou. "O =que tenho  medo de voltar a passar por aquilo 
que passei h =trs anos, de voltar a sentir-me perdida. " 
Soluou. "No sei quem sofre mais, se aquele que vai para a 
guerra ou se =aquela que o espera.  uma coisa... uma coisa 
que no tem =descrio, um sofrimento, uma ansiedade, uma 
inquietao... = terrvel, terrvel, sobretudo para quem 
vive isto pela segunda vez. "
A palavra "morte" no foi pronunciada, certamente devido ao 
=receio supersticioso de que a sua simples referncia 
atrasse o =azar, mas o capito no tinha dvidas quanto  
natureza dos =medos de Agns. A baronesa no o queria perder 
e agonizava com a aproximao da hora de se =separarem, 
sofria com o incio de mais uma semana de sobressalto, de 
=angstia pela espera, de enervamento quando ouvia os canhes 
=rugirem mais alto, de incerteza quanto  segurana do 
amante. Ele prprio sabia que havia a possibilidade =de no 
estar vivo da a pouco tempo, mas nada podia fazer a no =ser 
aproveitar todos os instantes, saborear cada momento, viver 
para o presente, =agarrar o que lhe dava a vida. Abraou 
longamente a amante.
361
Quando ela se acalmou finalmente, levantou-se e foi arrumar 
as =coisas. Fechar a mala revelou-se, todavia, uma tarefa 
mais complicada do =que o previsto devido a um problema com a 
fechadura. Afonso ps-se a =praguejar e a socar o couro. Por 
entre o esforo, ouviu Agns a arranhar um portugus 
afrancesado.
"Ts ca mosca? ", perguntou ela.
Afonso riu-se e voltou a abra-la. O abrao =transformou-se 
em volpia e, instantes volvidos, amavam-se com fervor, 
gemendo e respirando =com suspiros ofegantes, navegando um no 
outro, dando e recebendo, os =sentidos despertos e 
inebriados. Toc-toc- toc. Uma batida na porta =quebrou o 
feitio, ainda tentaram ignorar a interrupo e voltar a 
concentrar-se em si, =regressando ao mar da sua paixo. Toc-
toc-toc. Assim no podia =ser. A nova batida obrigou Afonso a 
saltar irritadamente da cama. =Agns encostou-se  almofada, 
envolvida no lenol, enquanto o capito vestiu =rapidamente o 
roupo e, passando pelas roupas espalhadas pelo =cho, foi 
ver quem era. Abriu a porta com irritada brusquido e =sentiu 
o sangue gelar e o corao parar.
Era o baro Jacques Redier.
"A minha mulher est?"
"Uh. perdo?"
O baro empurrou-o, entrou no quarto e encarou Agns deitada 
=na cama, coberta pelo lenol. O francs ficou rubro de 
fria, =mas conteve-se.
"Agns, vamos para casa!"
A baronesa arregalou os olhos, fitando o marido. "Jacques! "
"Vamos embora, anda. "
Afonso foi prostrar-se  cabeceira da cama, preparado para 
=defender Agns em caso de necessidade.
"Senhor baro", disse o capito. "Lamento que tenha 
=descoberto tudo desta forma,  realmente. "
"No quero saber das suas opinies e faa o favor de =no 
voltar a dirigir-me a palavra", cortou o baro sem o olhar. 
="Vamos Agns. "
362
A francesa hesitou, mas acabou por se decidir. Levantou-se da 
cama, =protegendo o corpo com o lenol, pegou nas roupas e 
fechou-se no =quarto de banho sem dizer palavra. Estabeleceu-
se no quarto um silncio confrangedor, Afonso e Redier 
evitando trocar olhares. O =portugus, sem perceber ainda o 
que tencionava Agns fazer, =aproveitou para vestir 
rapidamente a farda, que se encontrava espalhada =pelo cho.
Minutos depois, Agns reabriu a porta do quarto de banho e 
=reapareceu, j vestida. Dirigiu-se para Afonso e sorriu com 
fraqueza.
"Desculpa, Alphonse, mas tenho de ir. "
Afonso sentiu o corao cair-lhe nos ps.
"No acredito", murmurou. "Vais com ele? "
"Desculpa. Tem de ser. "
"Mas porqu? "
"Ele  o meu marido. "
Afonso abanou a cabea, angustiado, sentindo perder o p. 
="Mas tu no o amas. Como podes fazer isso? "
"Desculpa. "
Agns deu meia-volta, cabisbaixa, pegou na sua mala e 
dirigiu-se = porta. Afonso agarrou-lhe o brao, desesperado. 
"No. No =te deixo ir embora. "
O baro interveio, tentando afast-lo.
"Meu caro senhor, tenha modos", disse Redier. "No ouviu a 
minha =mulher? "
Afonso virou a cara para ele e depois para ela. Sentiu-se 
derrotado =e largou-a. Redier puxou Agns pelo cotovelo e 
tirou-a do quarto. A =francesa ainda espreitou para trs, os 
olhos tristes, perdidos, =suplicantes.
"Desculpa, Alphonse. Adeus. "
As horas seguintes foram difceis para Afonso. Permaneceu os 
=primeiros instantes colado aos vidros da janela do quarto, 
observando o =baro a levar Agns at  sua Renault amarela e 
o sedan a desaparecer pelas ruelas mal iluminadas =da cidade. 
Quando ela
363
partiu, sentiu-se vazio. Ficou lungamente sentado na cama, 
=deprimido, angustiado. Achou o quarto claustrofbico e 
decidiu sair = rua.
Deambulou por Boulogne nessa noite cerrada, sem direco nem 
=rumo, mas no encontrou a tranquilidade que buscava, o 
corao =apertava-se-lhe e experimentava at dificuldades =em 
respirar. Sentiu-se s. A solido =abateu-se sobre si como um 
manto abafado, como uma porta que se fecha na =priso, como o 
sol que se esconde no Inverno. Por mais que tentasse 
=distrair-se, no conseguia deixar de pensar na sua francesa. 
Agns =enchia-lhe a mente, o seu rosto invadia-o, a sua 
memria doa-lhe. Magoava-o a forma como ela partira, quase 
sem hesitar, obediente =ao marido, esquecendo a comunho que 
ambos sentiram, ou julgaram =sentir. Pensou que precisava 
urgentemente de fazer alguma coisa e, quase =sem mais nem 
menos, desatou a correr, correu como uma criana, destemido, 
sem propsito visvel, =correu por correr, para se cansar, 
para se estafar, para esquecer. Mas a =dor no abrandou. 
Mesmo ofegante, os msculos pesados, os pulmes arquejantes, 
mesmo assim ela permanecia presente.
Voltou para o quarto e acabou de meter as coisas na mala. 
Encontrou =algumas peas de roupa de Agns, perdidas por 
entre os =lenis, e cheirou-as, nostlgico. Quando terminou 
a =arrumao, pegou na mala e abriu a porta. Lanou um 
derradeiro olhar pelo quarto, relembrando a felicidade que a 
=vivera, estranhando a sbita mudana que se operara naquele 
=cubculo, antes to preenchido, to feliz e cheio de vida, 
agora assim vazio, morto, insuportavelmente =triste, 
assustadoramente desolado. No h dvida, pensou, =so as 
pessoas que fazem os lugares. Aquele quarto, que lhe parecia 
=to belo e alegre quando estava com Agns, apresentava-se-
lhe agora sombrio, deprimente. Tal como anos antes com 
=Carolina, julgava valorizar mais Agns agora que a no podia 
ter, =agora que ela partira. A diferena, porm,  que desta 
vez sempre soubera que a amava, dava-lhe valor, sentia-a 
=insubstituvel, nica, e a sua ausncia deixava-o devastado. 
=Fechou a porta do quarto e arrastou-se pelo corredor, 
cabisbaixo.
364
Desceu as escadas e foi ter  recepo, pagou a conta e =saiu 
 rua. Meteu-se no Hudson, colocou o motor a trabalhar e 
partiu.
Dirigiu-se para o Mtropole, o hotel de Merville que tinha 
=previamente reservado para passar essa noite com Agns. 
Ainda =considerou a possibilidade de no ir l dormir, ser-
lhe-ia penoso estar sozinho no quarto depois de todos os 
=planos que arquitectaram juntos. Mas a verdade  que no 
tinha =previsto qualquer boleto, pelo que teria mesmo de ir 
para o hotel. Deu =entrada no edifcio, preencheu o 
formulrio de cliente, pegou na chave e subiu at au quarto.
Como previra, a noite foi longa e difcil. Deu voltas e 
=reviravoltas na cama, tentou distrair-se, pensar noutras 
coisas, =fantasiar outras mulheres, mas Agns enchia-lhe o 
pensamento, no =havia como fugir-lhe. Repetidamente disse a 
si mesmo que tinha de dormir, tinha de aproveitar =enquanto 
estava na retaguarda, no dia seguinte iria para as 
trincheiras =e passaria uma semana sem quase conseguir pregar 
olho, mas era escusado, =o pensamento voltava-lhe sempre ao 
mesmo.=20Recapitulou todas as suas conversas juntos, tudo o 
que ela lhe disse, =tudo o que tinham partilhado, procurou 
meter-se na sua cabea e =adivinhar-lhe o raciocnio e os 
sentimentos. Desesperava em alguns instantes, convencido de 
que =a perdera para sempre. Enchia-se de esperana noutros, 
crendo que ela =voltaria. Interrogava-se longamente sobre o 
que ele prprio deveria =fazer. Deveria procur-la? Deveria 
aguardar? Deveria escrever-lhe? Como provocar-lhe saudades? 
=O que fazer? Mil interrogaes cruzaram o seu esprito, mil 
=dvidas, mil certezas, mil angstias. A cabea fervilhava-
lhe =de ideias, procurava solues, testava decises, 
arquitectava planos, ensaiava opes e =imaginava 
emocionantes discursos, palavras belas e arrebatadoras a que 
=ela no resistiria.
s quatro da manh, esgotado e desanimado, levantou-se e foi 
=fazer a barba. Tinha de se apresentar no acantonamento para 
preparar a =partida para a zona da frente e no lhe restava 
muito tempo. Vestiu a farda, pegou na mala e saiu. Sentia =os 
olhos cansados, pesados, a arderem de sono, na ressaca da 
noite que =no dormira. Bocejou. Percorreu vagarosamente o 
corredor, desceu
365
indolentemente as escadas e encostou-se com abandono ao 
balco =da recepo.
"L'addition, s'il vous plait", pediu.
O recepcionista, igualmente meio- ensonado, foi buscar o 
caderno =das despesas para lhe apresentar a conta.
"Qual  o seu quarto? "
" o 106", retorquiu Afonso, estendendo negligentemente a 
chave.
O empregado pegou na chave e voltou-se para o cacifo para a 
=depositar na respectiva caixa. Viu um papel na caixa do 
quarto 106. O =homem pegou nele e consultou-o brevemente.
"Ah, monsieur", exclamou. "J me esquecia. Est uma senhora 
=na sala de estar  sua espera."
O sono desvaneceu-se num instante.
"Uma senhora?"
"Sim, chegou h uma hora para falar consigo. Eu disse-lhe que 
=tinha ordens para no acordar ningum quela hora e ela foi 
ali para a sala de estar. Pediu para o avisar =quando 
descesse. Afonso largou a mala e caminhou rapidamente para a 
sala =de estar, o corao aos pulos, ansioso e excitado. 
Abriu a porta =do salo e viu um vulto estendido sobre um 
canap, a dormitar. Era Agns.
"Agns", chamou. "Agns. "
Ela estremeceu e abriu os olhos. "Alphonse", disse. "Ests 
bem? ="
A francesa sorriu timidamente e ergueu- se, tentando =abra-
lo. Inexplicavelmente, tomado por um orgulho inesperado, 
=Afonso recuou, evitando-a. Ela ficou pasmada a olh-lo, 
ferida com =aquela reaco inesperada.
"O que desejas? ", perguntou ele, magoado e ressentido. "O 
que =desejo? Mas,  evidente, desejo-te a ti. "
"No foi isso o que disseste ontem... "
"Ontem estava Jacques ao p de mim, numa situao =terrvel. 
No o podia deixar assim, como um trapo velho, ele que =tanto 
me ajudou. Tens de compreender isso. "
366
"Ah sim? E quem me compreende a mim? Ficaste com ele para no 
o =ofender, mas no te preocupaste em ofender-me a mim. "
"Alphonse, olha para mim", ordenou-lhe, o rosto muito srio. 
="Jacques ajudou-me muito quando eu estava perdida, deu-me a 
mo e =tirou- me de uma situao muito difcil. No posso 
fingir =que isso no aconteceu. Alm disso, a ingratido no 
 coisa de que eu seja capaz. "
"Muito bem, tu  que sabes. Mas, se o escolheste, tens agora 
de =assumir a tua opo, no podes andar a brincar com os 
meus =sentimentos. "
"Alphonse, no sejas criana. Estou aqui, escolhi-te, o que 
=mais queres? "
"A escolha j a fizeste em Boulogne. Est feita, no venhas 
=agora fingir que nada se passou. "
Agns ficou a olh-lo durante alguns longos segundos, 
=avaliando a situao, procurando decidir-se. Ao fim de uma 
=interminvel pausa, suspirou.
"Muito bem, vejo que no me queres. No vale a pena insistir. 
= Deu meia-volta e dirigiu-se resolutamente para a porta. Au
revoir, Alphonse. "
O capito permaneceu pregado ao cho, vidrado a v-la 
=partir, abismado com a sua prpria reaco. Desejava-a 
=ardentemente, nada mais queria na vida que no fosse a 
=reconciliao, aquele encontro ressuscitava-o do pesadelo em 
que mergulhara na noite =anterior. E o que fazia ele? 
Rejeitava-a, repelia-a, ignorava-a. Sentiu =um incontrolvel 
orgulho a prender-lhe o corao e a toldar-lhe =a razo, 
compreendeu que o seu comportamento se tornara refm desse 
=incomensurvel sentimento, egosta e arrogante, mas sentia-
se =impotente para o superar. Acima de tudo, desejava tornar 
difcil a =sua rendio, faz-la sofrer, mostrar- lhe que no 
podia dispor dele como queria, =provar-lhe que o que lhe 
fizera tinha consequncias. O problema  =que quem sofria era 
ele. Com o corao desfeito, viu-a sair da =sala de estar e 
desaparecer para alm da porta. Sentiu-se confuso, 
experimentou sensaes =contraditrias, o corao enfrentou o 
orgulho, o peso do mundo =367
desabou-lhe sobre os ombros, a respirao tornou-se-lhe 
=ofegante, pesada, aflitiva. Agitou-se, torturado pela 
dvida, =dividido quanto ao que fizera e quanto ao que teria 
de fazer. Sentiu os =segundos a esgotarem- se, cada segundo a 
afast-lo de Agns, cada instante a tornar irrevogvel a 
=separao. Torturado por um doloroso conflito interior, deu 
=trs passos em frente, parou, recuou, voltou a avanar, 
quase em =corrida, parou novamente, a indeciso dilacerava-o. 
Depois de uma derradeira hesitao, o =corao venceu. Largou 
em corrida, atravessou os corredores, =passou pela recepo e 
saiu do hotel. Viu Agns a subir para =uma caleche e receou 
que ela partisse sem o ver.
"Agns! ", gritou, a voz a ecoar pelas ruas desertas de 
Merville =naquela hora madrugadora. "Agns! Attends! "
Por um longo segundo pareceu-lhe que ela o ignorava. Mas a 
baronesa =imobilizou-se quando subia para o seu lugar e 
voltou a cara, =enfrentando-o. Afonso aproximou-se em 
corrida.
"O que desejas? ", perguntou-lhe ela, expectante. O capito 
=chegou-se  caleche, ofegante, o peito a subir e a descer, 
buscando =ar.
"Espera", arfou. Parou para recuperar o flego. "Desculpa o 
que =te disse. " Engoliu em seco. "Ficas comigo? "
Ela fitou-o com intensidade.
"Ests a falar a srio? "
"Nunca falei mais srio na minha vida. Ficas comigo? " Fez um 
ar =de splica. "Por favor... "
O rosto abriu-se-lhe num largo sorriso.
"Claro que fico, meu pateta! "
Agns desceu da caleche e caiu-lhe nos braos. Beijaram-se 
=sofregamente, felizes, aliviados. Afonso enlaou-a e levou-a 
de volta =ao hotel, apertando-a muito contra si, as cabeas 
inclinadas uma para =a outra, tocando-se com ternura. Pediu 
de novo as chaves ao recepcionista, com o brao livre pegou 
na =mala que abandonara junto ao balco, subiram as escadas 
agarrados um =ao outro, o capito colocou a chave na 
fechadura, abriu a porta, atirou a mala para a =direita, 
fechou a porta e caram ambos na cama.
368
Fizeram amor devagar, com carinho, com paixo, emocionados, 
=reconciliados, as mos sempre enlaadas umas nas outras. 
=Permaneceram depois um longo tempo abraados, fruindo o 
momento, =trocando sussurros e carcias. Quando o Sol 
finalmente=20nasceu, Afonso suspirou e olhou para o relgio.
"Meu amor,  terrvel mas tenho mesmo de ir", disse. "Tens de 
=ir onde? "
Afonso suspirou.
"Tenho de me apresentar no batalho, a minha licena est 
=esgotada. "
"Vais para as trincheiras? "
"Vou. "
"No podes esquecer-te de ir? "
"Poder, posso, mas isso teria consequncias. Seria punido 
=disciplinarmente e, pior do que isso, retirar-me-iam a 
licena que me =deram para depois do Natal. Achas que vale a 
pena? "
Agns cerrou os olhos.
"No. Se tens de ir, vai. "
"No fiques zangada,  o meu dever. "
A francesa sentou-se na cama de costas para ele, tapou a cara 
com =as mos e comeou a soluar.
"Vai. "
Afonso aproximou-se, agarrou-a pelas costas e beijou-a no 
=pescoo.
"Tem calma, meu amor, tem calma", murmurou com os lbios 
colados =aos ouvidos.
Agns soluava, amargurada. Tirou as mos da cara e 
=enfrentou-o, os olhos de um verde luminoso, brilhando entre 
as =lgrimas.
"E se te acontece alguma coisa, mon mignon? O que ser de 
mim? =Como poderei viver?"
"No me acontece nada, minha querida, fica descansada. " "Mas 
=isso no depende de ti, pode acontecer. Olha o Serge... " 
"No, =minha flor, eu fui destacado para os servios 
administrativos", =mentiu-lhe ele num repentino e inspirado 
improviso.
369
"Ouviste? J no estou envolvido em combates, apenas na 
=papelada, na burocracia. "
Ela afastou a cabea e olhou-o nos olhos, procurando a 
verdade.
"Vraiment? "
Afonso susteve o olhar apenas o suficiente e depois puxou-a 
para =si, receava que os olhos se descassem e trassem a 
mentira.
"Claro, ma petite. " Apertou-a no abrao e depois mirou-a 
=novamente. "Eu volto", garantiu-lhe com um sorriso. "Nem que 
me matem "
370
VIII
Os soldados abriram a boca de espanto, os olhos fixos no cu 
num =esgar de assombro. Uma vasta cortina de luz enchia o 
firmamento, =desenhando um fantasmagrico arco de cores que 
se perdia nas alturas. =O claro luminoso danava em 
silncio, como um harmnio majestoso e grandioso, a profunda 
treva =celestial pintara-se com manchas de luz amarela, 
verde, vermelha, azul =at, era coisa nunca vista, viso de 
embasbacar, uma maravilha que =enchia de fascnio ou de 
terror os homens na terra. A cascata brilhante e colorida 
=deslizava suavemente, muito devagar, num lento e ondulante 
movimento, =cheia de mistrio, sublime de imponncia. Um 
murmrio =respeitoso ergueu-se de Ferme du Bois, diversos 
lzudos caram de joelhos a rezar, havia mesmo quem tremesse 
de medo, =Deus manifestava-se, a Virgem regressava, ou ento, 
pensavam certos =soldados mais supersticiosos, era a fria do 
alm que estava =prestes a ser desencadeada sobre si, 
miserveis pecadores mergulhados na lama e na neve. Alguns 
homens, passado o =estupor inicial, comearam a gritar e a 
fugir pelas trincheiras, =receavam o castigo divino, outros 
permaneciam pregados ao solo a =contemplar aquele vasto 
incndio celeste que iluminava a noite como uma fogueira 
gigante.
371
"Uma aurora boreal", comentou Afonso, encantado com o 
singular =espectculo que o cu lhe proporcionava.
Era a noite de 20 para 21 de Dezembro, o batalho tinha, 
horas =antes, acabado de se instalar nas trincheiras para 
enfrentar um inimigo =mais desgastante do que os alemes. O 
frio. O Natal aproximava-se e =um gelo incrvel abateu-se 
sobre toda a Flandres. Afonso batia com os ps no =cho, 
junto ao fogo aceso no grande recipiente cilndrico 
=instalado no cho do posto, tentando desesperadamente 
aquec-los naquele frio glaciar, nunca tinha visto coisa 
assim, as manhs =geladas de Braga pareciam brisa tpida 
quando comparadas com aquelas =condies polares. De mos 
enluvadas apertadas dentro dos bolsos do sobretudo e densas 
nuvens de vapor a serem =expelidas pelo nariz e pela boca, o 
capito levantou-se e foi aos =saltinhos verificar a 
temperatura no termmetro que se encontrava =pregado na 
parede lamacenta do posto. O mercrio registava quinze graus 
abaixo de zero e Afonso percebeu o conceito =da morte de 
frio. Tremer de frio, como tantas vezes tremeu =em Rio Maior, 
e sobretudo em Braga, no era frio, era =mera frescura 
incmoda. Frio verdadeiro era aquele, era frio que =no fazia 
tremer, antes feria a pele, dilacerava a carne, ras gava o 
=corpo, era frio que queimava, que doa, que paralisava, que 
entorpecia, era frio que lhe fazia arder a cara, =que lhe 
roubava o ar, que lhe adormecia as mos num torpor de 
insensibilidade, que lhe arrancava uivos doloridos como se 
lhe estivessem a =espetar facas na pele, que escaldava o 
corpo com um ardor to forte =ao ponto de se confundir com 
fogo, que lhe inchava e magoava os dedos =at s lgrimas, 
frio verdadeiro era aquele que o torturava lenta e longamente 
em =Ferme du Bois, a ele e a todos os desgraados que o CEP 
enviara para =a frente.
O aparecimento da aurora boreal nessa noite suspendeu pur um 
par de =horas as hostilidades em terra, como se os soldados 
temessem que os =actos de guerra fossem iluminados por aquela 
estranha luz que se manifestava =no firmamento. Mas logo que 
o fogo divino desapareceu, as trincheiras =despertaram do seu 
torpor e reapareceu o fogo humano. As linhas inimigas 
=recomearam a
372
trocar ocasionais tiros de canho ou metralhadora, mas era 
fogo =de rotina, disparos destinados a lembrarem aos soldados 
de ambos os =lados que a guerra no acabara. Vinha a o Natal 
e era muito =improvvel que ocorressem agora operaes de 
grande envergadura, no s necessariamente devido  =poca 
festiva, mas tambm porque o Inverno aparecera inclemente, 
=havia neve e lama por toda a parte, no era prtico a 
infantaria =avanar naquele tipo de solo, onde o progresso 
das tropas se revelava lento e =os reabastecimentos difceis. 
Com o estado do terreno a =impossibilitar qualquer ofensiva 
em larga escala, o principal =adversrio dos lzudos passou a 
ser aquele frio cruel que os cercava e paralisava, era 
=contra ele que tinham agora de combater as tropas 
esfarrapadas que =viviam na lama das trincheiras.
No calendrio fixado na parede hmida do posto, Afonso 
=contava repetidamente os dias que lhe restavam nas 
trincheiras. Iria ali =passar o Natal e s sairia a 28, era 
uma eternidade, mas no havia =remdio. Para se distrair 
sentou-se no banco e releu a Ordem de =Operaes n. 12 
destinada ao seu batalho. O 8 ocupava agora, e =durante uma 
semana, justamente a do Natal, o subsector S. S. 2. ou Ferme 
=du Bois II, e o capito passou os olhos pelas instrues 
assinadas na vspera pelo =comandante interino da brigada, o 
tenente-coronel Eugnio Mardel. "A =companhia avanada da 
direita guarnecer os postos Boar's Head e Cockspur, com o 
comando da companhia em 5. 15. =b. 50. 95. A companhia 
avanada da esquerda guarnecer os postos =Vine, Copse e 
Goat, com o comando da companhia em S. 15. a. 65. 40. " Muito 
interessante, pensou, =bocejando. "O batalho do 8 ocupar o 
posto de observao =Savoy (S. 9. d. 08. 18. ), que lhe ser 
entregue pelo chefe dos =observadores do batalho do 3. " 
Afonso verificou no mapa a localizao do posto Savoy. 
="Terminada a ocupao dos novos subsectores, o batalho do 8 
e =do 3 comunic-lo-o a este Comando, respectivamente pelas 
palavras =Barcellos e Valena pelo telgrafo. " O capito 
tomou nota do cdigo Barcellos. "No S. S. 2. o =depsito de 
munies de St. Vaast remuniciar pela =decauville de St. 
Vaast e directamente a companhia da esquerda. O =depsito
373
de munies de King's Cross remuniciar pela decauville da 
=Rue du Bois directamente as companhias da direita e apoio. " 
Afonso =procurou na carta os paiis de St. Vaast e King's 
Cross e verificou =que St. Vaast ficava mesmo por trs de 
Lansdowne, o seu posto, o que o ps nervoso. Convinha que 
=nenhuma granada inimiga ali casse, seria um fogo-de-
artifcio =memorvel.
Quando acabou de estudar a ordem de operaes, deitou-se no 
=catre, cobriu-se com uma manta, fechou os olhos e deixou a 
sua mente =vaguear melancolicamente at Agns. Percebeu que 
entre eles j nada seria como dantes, tinha sido dado um 
passo irreversvel, =incontornvel, os seus destinos estavam 
agora irrevogavelmente =cruzados. Compadeceu-se com a 
preocupao que ela revelara por si, =pela sua segurana, mas 
no tinha dvidas de que por detrs daqueles receios de 
mulher pela vida do homem =ao qual se entregava se escondia a 
firmeza de quem encontrara o seu =caminho. O capito admirou-
lhe a determinao, a coragem, =aquela no era uma mulher de 
lamechices, parecia delicada como uma flor mas era =afinal 
dura como uma rocha. Isso assustou-o um pouco, esperava que 
as =mulheres fossem todas dceis, submissas e frgeis, era 
assim que se educava em Portugal, mas esta francesa era tesa 
e =o portugus surpreendeu-se a si mesmo por sentir que tal 
at lhe =agradava. Aquela determinao que se lhe lia nos 
olhos era ao =mesmo tempo assustadora e admirvel, o=20que, 
inexplicavelmente, o fazia am-la ainda mais. Era como se 
=temesse que um dia ela o abandonasse com a mesma ligeireza 
com que agora =se afastava do marido, como se mudar de vida 
fosse to fcil como =virar a pgina de um livro, no h 
dvida de que, nestas coisas de romper as relaes, as 
=mulheres so mais corajosas do que os homens. Encarando-a 
deste modo, =o capito comeou a perceber que para amar uma 
pessoa era preciso =admir- la.
Matias Grande accionou a bomba manual e comeou a despejar a 
=gua, num esforo para drenar a trincheira. Curvado ao
374
lado, Vicente Manpulas ajudava-o com um balde, enchendo-o de 
=lama gelada e atirando-a para l das linhas de circulao.
"Esta porra t sempr'a encher", resmungou Vicente de 
=frustrao, as pernas mergulhadas na lama at ao joelho. "Os 
=cabres dos boches no pram d'atirar gua p'r'qui. "
"Os boches? ", admirou-se Matias. " Manpulas, l =ests tu 
nesse refilano trapalho. Ora diz-me l que culpa =tm os 
boches deste tempo desgraado? "
"Ento no vs a posio deles? ", perguntou =Vicente, 
apontando para a elevao de terreno no outro lado da =terra 
de ningum, mesmo em frente a Neuve Chapelle, o sector 
vizinho =da esquerda. "No vs qu'os gajos ocupam uma posio 
mais elevada do qu'a nossa? "
"Ah sim? E depois?"
"E depois? E depois, disseram-me qu'os tipos tambm tm 
=bombas e usam-nas p'ra despejarem gua p'r nosso sector"
"Ah ? E quem  que te disse isso? "
"Ouvi uma convers'entre dois oficiais no estaminet. " Matias 
parou =o trabalho de faxina e olhou para o sargento Rosa, que 
descansava =encostado a uns sacos de terra.
"Meu sargento, d licena que suba a espreitar o inimigo? " O 
=sargento fez um gesto displicente e Matias galgou ao 
parapeito, donde =espreitou fugazmente a posio alem. O 
manto de neve cobria =toda a linha da frente, a terra de 
ningum e o sector inimigo, situado por entre o carbonizado 
arvoredo do Bois =du Biez. Varrendo o terreno com os olhos, 
constatou que, de facto, as =poas de lama e de gua no se 
encontravam na elevao de =terreno ocupada pelos alemes, 
mas c em baixo, junto s linhas portuguesas.
" mesmo", confirmou o cabo, recolhendo a cabea e voltando 
=para o seu posto de trabalho. "No s temos de gramar com as 
=bombas dos gajos, ainda levamos com a lama daqueles cabres. 
"
"J vist'o estad'em que t'li a Rue de Puits, mesm'atrs 
=d'Euston Post? "
375
"Ento no vi? A lama d pelo peito, caraas. =Disseram-me 
que, h uns tempos, morreu ali um bife afogado. "
Concentraram-se no trabalho, momentaneamente em silncio. 
"Isto = uma porra", desabafou Matias, esforando-se por 
manter a bomba =manual a drenar a trincheira.
"Mas olha l,  Matias, tu s cabo, no tens qu'estar =aqui a 
tirar lama. "
O matulo de Palmeira encolheu os ombros.
"No me importo", disse. "Se eu no viesse, ainda mandavam o 
=Velho ou o Lingrinhas, e esses no aguentavam, caraas. 
Esto =derreados. "
O cabo endireitou-se na trincheira, repousando por instantes 
do =trabalho de retirar a gua e a lama. Tirou um frasco de 
rum do bolso =e engoliu um golo.
"Ahhh, esta murrilha  um achado", considerou Matias, 
expelindo =um bafo quente e vaporoso. "At parece que se 
acende uma lareira =c dentro. "
"D c um bocado. "
Matias Grande atirou o frasco e Vicente bebeu um longo trago 
de =rum.
"Caramba, homem", protestou Matias. "No emborques tudo. Olha 
=que ainda apanhas uma valente naa e cangas para a. "
"Ora, no t'apoquentes", devolveu o Manpulas, limpando a 
=boca ao brao. "Vai sobrar muita desta mascambilha, vais 
ver. "
Matias olhou com desalento para o rio de lama que enchia a 
=trincheira.
"Amanh  vspera de Natal e vamos pass-la aqui =atolados na 
lama como marranos", desabafou. "J viste esta merda? "
"Nem me fales nisso. O que val' qu'eles vo trazer bacalhau. 
= "Bacalhau? Que bacalhau? "
" Matias, andas mesmo distrado. Ento no sabes qu'a =rao 
da consoada vai ser bacalhau? "
"No me digas! ", exclamou Matias, a gua a crescer na boca. 
=Estava farto do corned-beef e das pies, e uma posta de 
bacalhau com =batatas e azeite vinha mesmo a calhar. "E isso 
 amanh? "
376
"Espero que sim", riu-se Vicente, devolvendo o frasco de rum. 
=Matias guardou o frasco no bolso e regressou ao trabalho com 
redobrado =entusiasmo.
"Isso  que vai ser", disse, accionando vigorosamente a 
bomba. ="S faltava mesmo era os boches serem uns compinchas 
e darem-nos um =dia de descanso. "
"Acho qu' normal no haver guerra no Natal " "Tambm =j 
ouvi isso, mas no acredito. "
"A mim quem mo disse foi uma buscate de Bthune. Ela =contou-
m'at que no Natal  sempr'uma fest'aqui nas trinchas, o 
=pessoal cumpriment'os boches, vai ali p'r Avenid'Afonso 
Costa e =at se jog' bola. "
"E tu acreditas nisso? ", riu-se Matias.
" Bem. "
"A malta a jogar  bola com os boches na Afonso Costa? Isso  
=tudo conversa para enganar tolos.  Manpulas, s mesmo um 
=zino. "
O sargento Rosa agitou-se no seu repouso de sacos de terra. 
Era ele =o graduado encarregado de vigiar aquela obra. 
Tratava-se de um trabalho =de menor importncia, caso 
contrrio ter-lhe-iam dado quatro, =cinco ou at quinze 
homens, mas estava determinado a fazer sentir a sua 
autoridade. =Foi, por isso, com esforo e elevado sentido de 
dever que entreabriu =um olho para repreender os dois homens 
s suas ordens.
"Ento, rapazes? ", resmungou preguiosamente. "Vamos l, 
=menos paleio e mais trabalho. " Bocejou. "Depois das 
drenagens, temos =ainda de fazer reparaes nos paradorsos, 
nos traveses e nas =banquetas. " Remexeu o corpo, procurando 
uma posio mais agradvel, e voltou a recostar-se, 
indolente, nos =confortveis sacos de terra. "Portanto,  
despachar,  =despachar. "
Fechou os olhos, bocejou de novo e retomou a sesta.
A vspera de Natal nasceu calma. Tmidos raios de sol 
=atravessaram a bruma hmida e banharam de luz fria a neve 
reluzente =de Ferme du Bois, mas apenas por um breve 
instante.=20
377
Pesadas nuvens escuras apressaram-se a cortar- lhes o 
caminho, =ciumentas, bloqueando a luz e envolvendo a 
martirizada plancie da =Flandres num sombrio e montono 
manto cinzento. O termmetro =registava um grau abaixo de 
zero, nada mau para quem viu muito pior havia apenas alguns 
dias, mas o que mais =impressionou Afonso foi o silncio 
sepulcral que se abateu sobre a =zona de guerra, no se ouvia 
um nico tiro nas trincheiras.
"Bom dia, Joaquim", disse, cumprimentando a ordenana  
=sada do seu abrigo, o posto de Lansdowne, situado junto a 
Forresters =Lane, uma perpendicular a sul da Rue de la 
Basse.
"Feliz Natal, meu capito"
"Feliz Natal. Isto hoje parece calmo, hem? "
"Sim, meu capito. "
Afonso seguiu para uma ronda pelas linhas e foi saber como 
tinha =sido o A Postos da manh, a formatura efectuada uma 
hora antes do =nascer do Sol. Meteu pela Forresters Lane em 
direco a norte, como se fosse para Neuve Chapelle, desceu 
pela Rue de =la Basse e virou para dentro na Rue du Bois. 
Cruzou-se no caminho com o tenente =Pinto.
"Ora viva!"
"Feliz Natal, Afonso. "
"Boas festas, Cenoura. Tudo bem no A Postos? " "Uma 
maravilha. Nem =um tiro "
"Isto hoje promete"
"Se promete. J viste esta calmaria? Disseram-me que no Natal 
= sempre assim. "
" Quem  que te disse isso?"
"O teu amigo ingls"
" O Tim? Onde est esse sacripanta?"
"Anda por a "
Afonso seguiu pela trincheira lamacenta de Pioneer's, o 
bengalo =de ponta metlica na mo, Joaquim no encalo. 
Aquele era o primeiro Natal das tropas portuguesas na zona de 
combate =e a quadra parecia contagiar toda a gente, viam-se 
sorrisos, havia =alegria nas trincheiras. A manh permaneceu 
tranquila, com os
378
homens a limparem as armas e a bombearem a gua e a lama para 
=fora das passagens. Depois do almoo, Afonso foi 
inspeccionar o =sector de Port Arthur e deu em Pope's Nose 
com o =tenente Cook e um outro oficial britnico calmamente 
sentados no topo =do parapeito e virados para o inimigo,  
merc das balas =alems.
"Ento, Tim, ests maluco ou qu? Sai j da. " ="Xhat ho, 
Afonso, old lad. Merry Christmas "
"Merry Christmas para ti tambm, mas faz-me o favor de sair 
=da, tu e o teu amigo. Ainda levas um balzio. "
"Voc descontraia, Afonso", sorriu o tenente Cook, falando 
com o =seu caracterstico sotaque brasileiro. "Est todo o 
mundo fazendo =o mesmo ". Apontou em redor. " Olhe para ali, 
os soldados portugueses =esto no relax. "
Afonso ps o p no degrau do parapeito, esticou a cabea e 
=abriu a boca de espanto, viam-se lzudos espreguiando-se 
=languidamente no topo dos parapeitos, ignorando com calma 
olmpica as =letais miras alems.
"Mas est tudo louco! "
"Calma, Afonso", disse o ingls. "Hoje  vspera de Natal =e 
as trincheiras costumam ficar tranquilas,  assim todos os 
anos". =Apontou para o sector inimigo. "Alm do mais, voc 
est vendo? =H neblina ali em frente, os boches no nos 
conseguem enxergar. "
Um denso vapor pairava de facto na terra de ningum, 
reduzindo =fortemente a visibilidade. O arame farpado 
misturava-se com as nuvens baixas, a =neve perdia-se na 
claridade alva da neblina. Afonso encolheu os ombros, 
=resignado, e, com movimentos hesitantes e desconfiados, 
escalou o =parapeito e sentou-se junto dos oficiais 
britnicos.
"Captain Gleen, this is captain Afonso", apresentou-os o 
tenente =Cook. "Afonso, este  o capito Gleen. O capito foi 
destacado =pelo Alto Comando para o perodo do Natal "
"How do you do? ", saudou Afonso.
"Howdy, mate. Merry Christmas. Compris Christmas? "
379
"Yes. "
"Christmas bonne", riu-se o capito Gleen, as faces rosadas a 
=encherem-lhe o rosto cheio. "Beaucoup rhum, beaucoup 
champagne, beaucoup =port-wine. Et beaucoup zig-zag! " Fez um 
gesto com a mo, simulando =um movimento de embriagus. 
"Compris? Beaucoup rhum, beaucoup zig- zag! "
"Compris. Zig-zag. Compris", devolveu Afonso com uma 
gargalhada, =divertido com o trapalho patois de ingls e 
francs to =tpico das trincheiras. Voltou-se para o tenente 
Cook. " Tim, =este gajo est com os copos ou qu? "
"Ele  mesmo assim"
"Ah bom", exclamou. Mirou a neblina, ainda pouco  vontade 
por =estar ali a descoberto, perfeito alvo para os franco- 
atiradores =alemes, sentia-se como se estivesse nu. O 
problema  que =ningum parecia dar grande importncia  
posio vulnervel onde se encontravam, pelo que no seria 
ele a dar =parte de fraco. Para se abstrair da desconfortvel 
sensao de =perigo decidiu alimentar a conversa. "O que  
isso de o teu amigo ser =destacado durante o perodo de 
Natal? "
"O capito Gleen j viveu trs Natais nas trincheiras e o 
=primeiro foi mesmo aqui ao lado, em Neuve Chapelle. O Alto 
Comando achou que ele poderia ser-nos til com todo o seu 
=know-how. Assim poderia ajudar-nos com os acontecimentos 
desta quadra.
Os acontecimentos desta quadra. Que acontecimentos?"A 
=confraternizao com o inimigo. O Alto Comando anda
preocupado com isso. "
"Confraternizao? Que conversa  essa?
"Eu acho que  melhor ser ele mesmo a contar-te", disse o 
=tenente Cook, mudando a conversa para ingls. "Captain, pode 
dizer =aqui ao nosso amigo portugus o que aconteceu no 
Natal=20
de 1914?
"Christmas 1914 ", repetiu o oficial britnico, os olhos a 
=encherem-se-lhe de nostalgia. "Foi um Natal extraordinrio. 
=Extraordinrio". O capito Gleen retirou do bolso uma caixa 
amarela de cigarros, Gold Flalze =escrito no topo, acendeu um 
cigarro, largou
380
uma baforada e fixou os olhos no infinito. "A guerra durava 
havia =apenas quatro meses quando chegou o Natal de 1914. Eu 
era na altura um =corporal dos 18th Hussars destacado num 
regimento indiano de cavalaria =dos Royal Garhwal Rifles e 
estvamos barricados mesmo aqui em Neuve Chapelle, justamente 
nestas =trincheiras onde esto agora os portugueses. Houve 
violentos combates at ao dia 24, com os jerries a atacarem a 
20, os =indianos a recuarem a 22 e o nosso Corpo a responder 
e a reocupar =posies. O tiroteio prolongou-se durante a 
vspera de Natal, mas, quando a noite caiu, os combates 
pararam totalmente =e ficou tudo silencioso. Um silncio como 
este, neste momento. " =Girou a mo em redor. "De repente, no 
meio da escurido, =comemos a ver luzes a acenderem-se ali 
do outro lado. " Apontou. "Eram filas =e filas de luzes. 
Lanmos um very light e vimos que os jerries =estavam a 
colocar pequenas rvores de Natal iluminadas ao longo do 
=topo dos parapeitos. Ns e os indianos ficmos embasbacados 
a olhar. A nossa rapaziada =comeou a dizer que era o divali, 
o divali. Perguntei-lhes o que era =isso do divali e eles 
explicaram-me que se tratava da mais importante =festa do 
calendrio hindu, dedicada a uma deusa qualquer ligada  
riqueza. Foi uma =noite curiosa, mas as coisas ficaram por a 
"
"Isso foi na vspera de Natal", atalhou Afonso, meio 
=perguntando, meio afirmando.
"Indeed", assentiu.
" E no dia de Natal?"
"Bem, a foi diferente. A manh de 25 nasceu gloriosa, estava 
=um dia maravilhoso, o Sol brilhava alto no cu, a chuva da 
Flandres =tinha miraculosamente desaparecido. A dado momento, 
os jerries =comearam a cantar. Eram prussianos do VII Corpo 
e cantavam em coro, alguns com magnficas =vozes de tenor, 
at nos arrepivamos. Ouvamo-los a entoarem o =O Tannenbaum, 
o Stille Nacht, Heilige Nacht, o O du Frhliche, todos =muito 
afinados, cheios de corao, de emoo. Como eram prussianos, 
e consequentemente =militaristas, no se esqueceram, claro, 
das canes
381
nacionalistas, em especial do Xacht am Rhein e do Deutschland 
iiber =Alles. Parece que os estou a ouvir... "
O capito Gleen calou-se por um instante, mergulhado na 
=memria daqueles momentos.
"Vocs responderam? ", quis saber o tenente Cook, quebrando o 
=silncio.
"Os indianos no. Ficaram calados a ver. Mas alguns oficiais 
=britnicos entoaram baixo o Tipperary. Esto- nos a ver a 
cantar =Its a long Way to Tipperary? " Riu-se. "Bom, pelo 
meio-dia =comemos a v-los a fazerem passear sobre as 
trincheiras cha pus e capacetes =pendurados na ponta de 
paus. Depois puseram-se a espreitar pelos =parapeitos, 
primeiro a medo, a seguir erguendo as cabeas com =crescente 
confiana. Ns estvamos especados a v-los. "
"Ningum disparou?"
"Ningum disparou. Acho que achmos que, naquelas 
=circunstncias, isso seria assassnio a sangue frio. 
Comearam =ento a gritar em ingls, desejando-nos um feliz 
Natal. A Happy =Christmas to you all! berravam. Alguns at 
tinham sotaque cockney, d para acreditar? Outros gritavam 
Friede =aufder Erde. Eu arranho algum alemo, mas no 
entendi. O =capito Collins, que era fluente em alemo, 
disse-me que isso =significava paz na Terra. No lhes 
respondemos. Uma hora depois repetiram a graa. Puseram-se 
aos =gritos de Happy Christmas e, a dado momento, colocaram-
se em p sobre =os parapeitos, desarmados, totalmente  merc 
das nossas =espingardas e metralhadoras. Ns estvamos 
siderados. Os soldados apontaram as Lee- Enfield para darem 
cabo =dos prussianos mas o capito Collins deu uma ordem a 
proibir que se =disparasse. Ficou tudo em suspenso, eles a 
acenarem, ns quietos. A =situao era anormal e, meio 
hesitantes, alguns dos nossos homens puseram-se =tambm de p 
e acenaram, o que provocou uma festa do lado dos =jerries. 
Eles gritaram a dizerem que tinham charutos para nos 
oferecerem =e que ns fssemos l, que no disparariam, que 
era Natal. Ficmos desconfiados. Houve ento um =prussiano 
que pegou numa caixa de 382
charutos, saltou para a terra de ningum e veio por ali fora 
na =nossa direco " O capito Gleen apontou para um ponto  
=esquerda, algures na terra de ningum coberta de neblina. 
"Veio por ali, parece que o estou a ver, o =pickelhaube na 
cabea, uma gabardina cinzenta cheia de lama, a caixa =de 
madeira ao peito, segura pelas duas mos como se fosse um 
tesouro. =Uma vez que ningum se mexia, eu saltei tambm para 
a terra de ningum e fui ter com =ele por ali. " Apontou para 
a esquerda, indicando o ponto da trincheira =de Neuve 
Chapelle que ocupara nessa tarde memorvel. "Eu ia nervoso, 
as pernas tremiam-me, sentia espingardas =invisveis 
apontadas  minha cabea, ao meu peito, s minhas =pernas. 
Ainda pensei em dar meia-volta e desatar a correr, mas 
=controlei-me e segui em frente, perguntando mil vezes o que 
estava a fazer no meio da terra de =ningum. Encontrmo-nos 
ali no centro, junto ao arame farpado. Ele entregou-me a 
caixa e =disse-me a Happy Christmas to you. Fiquei sem jeito, 
sem saber o que =fazer ou dizer. Estiquei-lhe o brao e 
apertei- lhe a mo, disse-lhe danke schn und Merry Christmas. 
Quando nos viram no =handshake, os jerries do outro lado 
comearam a gritar como loucos, =pareciam os de Cambridge a 
festejarem a vitria sobre Oxford na =regata, muitos saltaram 
para a terra de ningum e vieram na nossa direco, os nossos 
indianos imitaram-nos e =foram ter com eles, no dava para 
acreditar. Apertaram as mos uns =dos outros, ofereceram-se 
prendas, ns dvamos-lhes cigarros, =corned-beef, biscoitos, 
chocolates, rum, ch e marmeladas Tickler e eles 
presenteavam-nos com schnapps, =sauerkraut, cognac, vinho e 
doces. Mas tinham sobretudo muitos charutos, =os quais, pelos 
vistos, eram profusamente distribudos l na retaguarda como 
prendas do Kaiser. Eram tantos os charutos que o =capito 
Collins comentou termos cado no meio de um batalho de 
=milionrios. " Gleen deu uma gargalhada e suspirou. "Ah, foi 
uma =festa incrvel, vocs haviam de ver, aquilo foi mesmo um 
Natal a srio. Vendo bem, e de =uma certa maneira, talvez 
tenha sido o melhor Natal da minha vida, o =ambiente era 
absolutamente fantstico. "
"Conversaram? ", perguntou Afonso.
383
"Claro. Havia muitos handshakes e sorrisos, mas conseguimos 
falar =um pouco. Fiquei com a impresso de que eles achavam 
que estavam a =ganhar a guerra e admiravam-se por ns ainda 
combatermos. Houve um =que at disse que havia tropas alems 
em Londres, o que provocou uma risada geral entre os oficiais 
=britnicos. Acho que ficaram desconcertados com a nossa 
=reaco. " Gleen enterrou o cigarro na neve, a=20ponta 
incandescente a mergulhar no gelo fofo e a apagar-se com um 
=fssssh. "Depois, um oficial jerry props que enterrssemos 
os =corpos que jaziam abandonados na terra de ningum, no que 
=concordmos. Todos os jerries que encontrmos do nosso lado 
foram-lhes entregues e todos os indianos do lado deles 
=foram-nos entregues. Um proco jerry rezou ali uma missa 
campal. =Estou a v-lo no pai-nosso, as mos juntas numa 
prece, os joelhos =na neve, a cabea tombada, a dizer vater 
unser, der Du bist im Himmel, Geheiligt werde =Dein Name. A 
seguir tirmos fotografias uns dos outros, voltmos a 
=cumprimentar-nos e despedimo-nos. Ficou combinado que 
haveria uma nova =trgua no ano novo para que, uma vez 
reveladas as fotografias, dssemos =cpias uns aos outros. 
Voltmos para as trincheiras e o resto do =dia permaneceu 
calmo. s vezes gritvamos coisas de um lado para o outro, 
uns a oferecerem charutos, outros =a prometerem souvenirs, e 
 noite voltaram as cantorias. Eles tinham =o mesmo 
repertrio da manh. Ns, os oficiais britnicos, =para alm 
do Tipperary, oferecemos-lhes uma valente interpretao do My 
=Little Grey Home in the lXest, do Home Sweet Home e, claro, 
do God Save =the King, tudo com muitos aplausos e aclamaes 
efusivas  mistura. " Suspiro. "Foi realmente um dia 
extraordinrio. "
"No dia seguinte recomearam os tiros", disse Afonso. "Not 
=really", retorquiu Gleen, abanando a cabea. "As coisas 
permaneceram =calmas a 26, ningum queria dar o primeiro 
tiro. A artilharia abriu =fogo da retaguarda, mas a 
infantaria permanecia=20quieta. Por vezes, quando um alto 
oficial aparecia nas trincheiras, =dvamos uns tiros para o 
ar, para disfarar. Eles tambm davam =uns tiros e, uma ou 
duas horas depois, desculpavam-se,=20
384
alegando que um general qualquer tinha passado por ali. No 
ano novo =permaneceu tudo na mesma e alguns homens 
encontraram-se junto ao arame =farpado da terra de ningum 
para oferecerem as fotografias de Natal. As coisas 
continuaram assim =durante meses e s a nossa grande ofensiva 
de Maro de 1915, =lanada justamente aqui em Neuve Chapelle 
e Ferme =du Bois,  que ps um fim a esse estado de coisas. "
"E toda essa confraternizao de Natal aconteceu s aqui 
=neste sector? ", quis saber o capito portugus.
"No, foi generalizada", retorquiu Gleen. "Acho que a guerra 
=parou em dois teros da linha da frente britnica, que na 
altura =se situava entre St. Eloi e La Basse. Diz-se que 
=at os franceses e os belgas, que odeiam os jerries por eles 
terem =invadido as=20suas terras, confraternizaram com o 
inimigo. Por toda a parte foi tudo =muito parecido. As 
cantorias, as luzes das pequenas rvores de Natal, =os 
apertos de mo, as fotografias, as trocas de presentes, a 
=relutncia em recomear a guerra... "
"Ouvi dizer que at jogaram football", indicou o tenente Cook 
=com um sorriso.
"Tambm ouvi falar nisso, sim, mas no vi nada e nunca 
=conheci ningum que tivesse testemunhado tal coisa em 
primeira =mo. Mas falou-se muito nisso, dizia-se que, em 
certos sectores, os =nossos homens jogaram football com os 
Fritz. Uns garantem que andaram todos aos =pontaps a uma 
lata de corned-beef, outros falam em bolas =improvisadas de 
farrapos. Foi at publicada num jornal de Londres a =notcia 
de que um jogo entre os nossos tommies e os jerries terminou 
com =eles a ganharem 3-2. Mas isso so boatos. Eu, 
pessoalmente, no vi =nada. "
"Os outros Natais foram todos tambm assim? ", quis saber 
=Afonso.
"No com esta dimenso, embora se tenha efectivamente 
=registado confraternizao. O Alto Comando deu instrues 
=rigorosas para no haver comportamento amistoso com o 
inimigo, mas =essas ordens no foram cumpridas em toda a 
parte. Em 1915, os soldados confraternizaram =ali em 
Laventie, por=20
385
exemplo. " Apontou para a retaguarda da esquerda, atrs de 
=Fauquissart. "E no ano passado, embora no tivesse havido 
conversa e =encontros entre tommies e jerries, tambm no 
houve combates, apesar de ter ocorrido alguma actividade de 
=artilharia. De qualquer modo, e no que diz respeito  
infantaria, =quase se pode dizer que no foram disparados 
tiros nos trs Natais =desta guerra. "
Ficaram os trs oficiais sentados no topo do parapeito, de 
olhar =perdido na neblina da terra de ningum, perscrutando 
as linhas =inimigas, adivinhando intenes, procurando 
sinais. Um bando de=20aves irrompeu com fragor sobre as 
trincheiras. Era uma viso rara, =nunca os pssaros vinham 
visitar aquele vulco de fogo e morte. =Afonso suspirou, 
quase feliz, admirando as pequenas aves a pousarem nas 
=rvores calcinadas e a quebrarem o silncio com as suas 
alegres canes de enamoramento.
"Estou cheio de curiosidade para saber o que vai acontecer 
esta =noite", comentou Afonso.
"Voc est querendo conversar com os boches", riu-se Cook, em 
=tom de provocao.
"Bem... e por que no? ", admitiu o portugus. "Deve ser 
=interessante conhecer assim o inimigo, falar com ele. Os 
nicos =boches que eu vi ao natural ou eram prisioneiros ou 
eram vultos =distantes que desapareciam num pice "
"Mas olhe que o Alto Comando no vai querer isso." "O Alto 
=Comando que v para o raio que o parta. O que  que eles 
fazem se =eu, na noite de Natal, conversar com o inimigo? 
Mandam-me para as =trincheiras?
"Se voc fosse britnico, levava com o tribunal de guerra em 
=cima. "
"O qu? No me digas que prenderam toda a malta que 
=confraternizou em 1914!"
"No, claro que no. Mas houve oficiais que sofreram =sanes 
disciplinares em 1915, e os regulamentos tornaram-se, =desde 
ento, mais duros no que diz respeito  =confraternizao com 
o inimigo. "
386
"Pois entre ns no h essa preocupao", sorriu =Afonso. 
"Vantagens de ser portugus. "
"O que tenciona voc fazer? "
"Eu? Nada. Mas, quando vierem as cantorias, a gente no se 
cala, =vai ser um concerto do camano. Se os boches se puserem 
a cantar o O =Tannenbaum, a malta responde com o Malho, 
Malho, vais ver. E, se =eles mandarem para c o ZXacht am 
Rhein, o pessoal do 8 atira-lhes com um vira do Minho. E, =se 
os tipos ainda vierem com o Stille Nacht, vamo-nos a eles com 
um =fadinho da Severa. " Esfregou as mos, antecipando com 
impacincia =o espectculo que se montava na sua imaginao. 
"Vai ser uma beleza. "
O tenente Cook explicou ao capito Gleen as intenes de 
=Afonso. Gleen abanou a cabea.
"Voc no pode fazer isso. "
"Porqu? "
"Porque os jerries no podem ver o estado em que se encontram 
as =tropas portuguesas."
"Porqu?"
"Se eles vos virem assim como vocs esto, todos rotos e 
=esfarrapados, cansados e ansiosos por sarem daqui, magros, 
sujos e =por barbear, eu  que no quero aqui ficar. Eles 
saltam-vos em =cima com toda a fora que tm. "
" Quebram a trgua?"
"No. Saltam-vos em cima depois da trgua. Depois. " "Ah", 
=exclamou Afonso, ficando a matutar nesta observao. " 
=imperativo que no haja contacto entre portugueses e 
jerries, o Alto =Comando faz muita questo nisso. Se houver 
confraternizao, o inimigo percebe num =instante que vocs 
so uma potencial vulnerabilidade no nosso =sistema 
defensivo. "
" Combatemos mal?"
"No  bem isso", atenuou Gleen. "Digamos que d a =impresso 
de que os vossos homens comeam a estar h demasiado =tempo 
nas trincheiras. Quando  que chegaram c? "
" Onde? A Frana?"
387
"s trincheiras!"
"Bem, a 1. a Diviso ocupou as suas posies na frente de
combate no final de Maio e a nossa brigada, que pertence  2.
Diviso, entrou nas trincheiras exactamente no dia 23 de 
=Setembro. "
 "Hum, Maio e Setembro... ", repetiu Gleen, fazendo as contas 
de =cabea e enumerando os dedos como se fossem meses.
"Portanto, se bem compreendo, a 1. a Diviso est a combater 
=h sete meses consecutivos e a 2. a Diviso h trs. Olhe, 
=se fossem
foras britnicas, j tinha chegado a hora de regressarem = 
retaguarda para um prolongado descanso, em especial a 1. a 
=Diviso.
Nenhum soldado aguenta estar tantos meses seguidos enfiado em
poas de lama com bombas a explodirem em redor e balas a
 voarem constantemente sobre a cabea. Ora veja os jerries 
ali =em
 frente, por exemplo. H pouco tempo estavam naquelas 
=trincheiras, do outro lado, os homens da 50. a Diviso. Pois 
os =ltimos
prisioneiros que capturmos revelaram-nos que esses j foram
 descansar. Esto agora ali os tipos da 44. a Diviso, 
=tambm pertencentes ao VI Exrcito de von Quast. Ou seja, de 
um =lado esto
jerries frescos e do outro encontram-se portugueses 
fatigados.  =Fungou. "Se quer que lhe diga, isto cheira mal.
" O que quer que ns faamos?"
 "Arranjem reforos, for Christ's sac", retorquiu. Fungou
novamente e lanou um escarro para a neve. "Vocs precisam de
tropas frescas e ainda no receberam nenhumas. O cansao 
=acumula-se, o moral ressente-se e isso comea a notar-se na 
forma =como os homens se apresentam. "
Sentiram movimento na trincheira, mesmo atrs, e voltaram as
cabeas para verem o que era. Passava um lzudo 
enregelado,=20
envolvido num pelico roado e com as mangas rasgadas da farda
a sobrarem-lhe, eram maiores do que os braos, mas o que nele
mais se destacava eram as botas abertas na frente, a sola a 
=descolar-se do cabedal, parecia uma boca escancarada com a 
lngua
de fora, a lngua eram os ps, claro, as meias rotas e 
=apodrecidas
encontravam-se cobertas de trapos imundos na extremidade, de
388
modo a protegerem os dedos. O cabedal fora confeccionado sem 
=gordura, o que era normal em Portugal e adequado s amenas 
=condies climatricas do pas, mas ali era diferente, o 
=clima da Flandres revelava-se bem mais hmido e, naquelas 
condies, o calado portugus tornava-se largamente 
=permevel  gua e  lama, o que facilitava o apodrecimento 
=dos fios de ligao da sola  gspia e provocava aquele 
=lamentvel e ridculo espectculo.
O capito Gleen apontou com o polegar para a miservel =praa 
que se arrastava com dificuldade pelas tbuas da trincheira 
=e que to oportunamente os brindara com a sua inspiradora 
=apario.
"You see?  justamente por causa disto que no podemos deixar 
=que o Fritz vos veja. "
Afonso ficou a olhar para o esfarrapado soldado, pobre e 
engelhado, =que se afastava, cabisbaixo, trincheira a cima, 
em direco a Hun =Street.
"Compreendo. "
"De qualquer modo, todos os oficiais britnicos que fazem 
=ligao com as foras portuguesas receberam ordem para 
=permanecerem todo o dia nas primeiras linhas deste sector", 
indicou =Gleen. "Se os jerries fizerem alguma gracinha do 
gnero de 1914 e 1915 aqui em Neuve Chapelle e em Laventie, 
teremos de =passar logo a informao para o quartel- general. 
"
Afonso lanou um derradeiro olhar para a neblina que tapava 
as =posies inimigas e, apoiando-se no bengalo de ponta 
=metlica, saltou de volta para a trincheira, onde o 
aguardava =Joaquim.
"No sei da vossa vida, rapazes", disse, despedindo-se dos 
dois =britnicos. "Mas eu tenho uma ronda para fazer. At 
logo. ="Cheerio. "
O capito foi pela trincheira fora dar a volta por todo o 
sector =ocupado por Infantaria 8, descendo pela Rue du Bois 
at Richebourg =Avou, depois virou  direita em Factory e 
subiu pela Edward Road, =aqui tropeou em duas gordas 
ratazanas junto ao Pteo das Osgas, achou-as =repugnantes com 
as suas caudas longas
389
e os corpos to anafados que at lhes era difcil =correrem, 
e decidiu voltar novamente  direita, =em Windy Corner, 
apanhando a Forresters Lane at chegar a Lansdowne, o =seu 
abrigo, habitualmente o complexo que albergava o comando do 
=batalho, mas que desta vez se contentava em acolher o 
responsvel =pela companhia e mais umas dezenas de homens. O 
tenente Pinto aguardava-o.
"Viva, Afonso, por onde tens andado? "
"Encontrei o Tim com um outro bife e ficmos  conversa ali 
=em Pope's Nose", retorquiu Afonso, entrando no abrigo e 
sentando-se no catre de arame. =Pinto imitou-o e instalou-se 
no banco, junto ao caixote de =munies que servia de mesa. O 
capito tirou o capacete e fitou =o amigo. "Os bifes esto 
preocupados com a possibilidade de confraternizarmos com os 
boches. "
"Disparate! "
"Olha que no  disparate nenhum. Estiveram-me a contar que 
=os boches costumam ser especialmente simpticos no Natal e 
os camones =receiam que a malta v na conversa deles e exiba 
as nossas =misrias ao inimigo. "
"Ah ? Ainda no vi acontecer nada... "
"Ento no reparaste que no se disparou hoje um nico =tiro? 
" "Isso  verdade", concordou o Cenoura. "Alis, comentei 
=isso contigo logo pela manh. "
"E j viste o pessoal a esticar-se acima dos parapeitos? Isto 
=at parece uma excurso.
"Afonso, isto  uma excurso", devolveu o tenente Pinto com 
=especial nfase na palavra "", a costela monrquica =anti-
intervencionista sempre presente. "A malta no devia estar 
aqui, =j te disse milhes de vezes. O Sidnio tem que nos 
tirar... "
" Cenoura, poupa-me", cortou Afonso, levantando as mos para 
=o cu com um gesto de impacincia. "Hoje no quero ouvir 
essa =conversa, no tenho pachorra. D-me uma trgua,  
Natal. "
Um correio apareceu no posto e espreitou pela entrada. "Meu 
=capito, d licena? "
" O que ?"
"Mensagem da brigada. "
390
O homem estendeu um envelope amarelo. Afonso pegou nele, 
rasgou-o e =leu-o. Um rubor de irritao subiu-lhe  face, e 
Pinto notou.
"Alguma coisa grave? "
"Estes gajos so uns cabres", rosnou Afonso. "Uma coisa 
=destas no se faz. "
" O qu?"
"Ora ouve l", disse, lendo a mensagem em voz alta. "Tomar 
todas =as medidas para combate. Toda a artilharia bombardear 
durante meia =hora o inimigo s dezassete, s dezanove e s 
vinte e uma =horas. " Levantou a cabea e acenou com a 
mensagem. "J viste isto?"
"Na vspera de Natal? " "Estes gajos so doidos. "
"Mas que bicho lhes mordeu? "
"Eu sei o que ", suspirou Afonso, erguendo-se do catre e 
saindo =do posto. "Eles querem garantir que no haver 
=confraternizao e decidiram oferecer aos boches ameixas 
como =prendas da consoada. E a malta  que se lixa. "
" E agora?"
"E agora vamos avisar o pessoal para se preparar para a 
festa. Vai =ser um bailarico e peras. "
Matias Grande acomodou-se o melhor que pde junto aos sacos 
de =terra da linha B, em Copse Post, entre Port Arthur e 
Richebourg Avou. O sargento Rosa tinha passado =por ali a 
avisar que iria haver sarilho, a artilharia ia entrar em 
=aco e era inevitvel a retaliao inimiga, pelo que 
=deviam tomar as precaues necessrias. No Vero e no 
Outono, um aviso sobre a iminente entrada em =aco da 
artilharia conduziria toda a gente para os abrigos, mas 
=agora no Inverno, com a gua e a lama a tudo invadirem, os 
abrigos =no ofereciam qualquer segurana. Construdos em 
terras argilosas e com as paredes lamacentas, era =comum 
desmoronarem- se por inteiro quando atingidos por uma granada 
=alem. No era a primeira vez que morriam assim vrios
391
homens, afogados na vaga de lama que se abatia sob o impacto 
de uma =exploso prxima. Da que, no Inverno, o ltimo stio 
=para onde os soldados iam durante um bombardeamento inimigo 
eram =justamente os abrigos, a menos que fossem construdos 
em beto. Preferiam ficar ao ar livre, =colados s paredes 
das trincheiras, rezando  Virgem para que os protegesse das 
bombas e dos estilhaos.
" Manpulas", interpelou Matias. "Passa-me a um xagrego. ="
Vicente foi ao bolso do casaco, sacou uma caixa de cigarros 
=franceses, os Gauloises Bleues, e ofereceu um a Matias.
"Queres lume? ", perguntou Baltazar Velho, o veterano do 
grupo.
"Sim. "
"Ento espera que a artilharia abra fogo", devolveu o serrano 
=com uma gargalhada boal.
Matias abanou a cabea, paternalista.
"s mesmo ribaldeiro. "
Baltazar tossia e ria-se ao mesmo tempo, divertido com a 
graola =e sentindo os efeitos da sua tuberculose emergente. 
Abel Lingrinhas =acendeu um fsforo e Matias colou-lhe a 
ponta do cigarro, aspirando =com fora.
"Qu'horas so? ", quis saber Vicente.
Matias consultou o relgio.
"Falta um minuto "
Ficaram calados, receando a aproximao da trovoada. "Ser 
=que vo mesmo dar bacalhau p'r jantar? ", interrogou-se 
Vicente, =quebrando o silncio tenso.
"Fui  cantina e o Matos confirmou", disse Matias. "Bacalhau 
com =batatas e azeite. E vai haver vinho. "
"Aposto qu' patreia", resmungou Vicente, desconfiado da 
=qualidade do tinto. "E p'r sobremesa? "
"Arroz doce. "
"No h rabanadas? ", perguntou Abel, coando a cabea 
=piolhosa. "C para mim, Natal sem rabanadas no  Natal. "
392
"Porra, Lingrinhas, andas mesmo exigente", cortou Baltazar, 
j =recuperado do ataque de riso e de tosse. "Daqui a um 
bocadinho vais =exigir cama com lenis lavados, almofadas e 
pijama. E, se estiveres agarrado a uma =sansardoninha com um 
valente par de catrinas e um surrasco peludo, ainda =melhor"
Um violento rugido interrompeu abruptamente a conversa. O ar 
=estoirou e abanou, agitando-se em vagas sucessivas, 
medonhas, e a terra =ps-se a tremer sob o impacto das 
deflagraes.
"Comeou", gritou Vicente, mais para si do que para os 
outros. =As detonaes vinham de trs, seguindo-se um zumbido 
a =sobrevoar as linhas e exploses a sucederem-se do lado 
alemo. As baterias portuguesas encontravam-se disseminadas 
pela linha das =aldeias, l para a retaguarda, e disparavam 
furiosamente sobre as =posies inimigas. Eram peas de 75, 
de tiro tenso, e obuses de 4 polegadas, com fogo mais 
=alongado. Cada canho descarregava quatro tiros por minuto 
nos =primeiros dez minutos, o que provocava um caos 
assustador.
"Vocs j viram esta merda? ", perguntou Baltazar por entre o 
=rugido da artilharia portuguesa. "Que falta de categoria, 
bombardear =desta maneira o inimigo na consoada. O que  que 
os boches vo =pensar? "
"", concordou Matias Grande. "No  nada catlico. =Vo 
julgar que somos uns selvagens. "
"Isto  mesmo um golpe baixo. "
"Bombardear os boches na vspera de Natal vai dar azar", 
=vaticinou Vicente, impressionado com o canhoneio.
" Cala-te, Manpulas. "
"Esperem p'ra ver", repetiu Vicente, erguendo o indicador 
como quem =faz um aviso. "Isto vai dar azar!"
Ao fim de dez minutos, o bombardeamento diminuiu de 
intensidade. De =quatro tiros por minuto, a artilharia 
portuguesa passou a dois tiros por =minuto. A trovoada 
permaneceu violenta, mas notava-se que se tornara =agora um 
tudo menos cerrada. Quando se esgotou meia hora, o batimento 
foi abruptamente suspenso.
393
O silncio voltou s trincheiras e os lzudos permaneceram 
=encostados s paredes de lama, os sons das baterias ainda a 
ressoarem =nos tmpanos, todos a aguardarem nervosamente a 
resposta dos =alemes.
"Eles devem estar todos nicados", sussurrou Baltazar, 
receando que =falar alto fosse a gota de gua que fizesse 
transbordar o copo da =pacincia do inimigo. "Isto vai 
escacholar, vo ver. "
Continuaram a aguardar, mas nada, os alemes no se mexeram, 
=nem um tiro. Nada. Aguardaram e esperaram, mas apenas o 
silncio =respondeu.
"Manducaram e calaram", comentou por fim Vicente, no ntimo 
=no acreditando que isso fosse mesmo verdade, era talvez um 
desejo, =uma splica, uma esperana.
Ao cabo de quinze minutos, contudo, comearam finalmente a 
=acreditar que no haveria retaliao imediata e 
=descontraram-se um pouco, fumando cigarros =em catadupa. 
=Inesperadamente, Baltazar lanou um grito de alarme.
"Ateno, gs! "
Os companheiros deram um pulo e olharam com ansiedade em 
redor, =assustados, procurando em vo a receada nuvem 
colorida enquanto as =mos buscavam freneticamente as 
mscaras.
" Gs Onde?"
Baltazar fez presso com a barriga e, com aparatoso rudo, 
=libertou a flatulncia retida nos intestinos.
"Gs feijo", exclamou o Velho antes de se perder em novas 
=gargalhadas. "Categoria, categoria. "
Os homens entreolharam-se, agastados, e voltaram a sentar-se. 
=Matias suspirou e ficou a abanar a cabea, um sorriso 
condescendente =desenhado nos lbios.
" Ribaldeiro. "
Instantes depois, o sargento Rosa apareceu no local e sentou-
se de =ccoras junto aos homens. Vinha ofegante, o receio da 
=retaliao alem forava-o a correr curvado, o que era 
=cansativo. Aproveitou a pausa na ronda para recuperar o 
flego.
"Ento? ", arfou. "Novidades? "
394
"Os boches esto quietos, meu sargento", informou Matias. "J 
=reparei. "
"Por que razo h to poucos homens nossos aqui nas 
=trinchas, meu sargento? "
"A brigada deu ordem para espalhar a malta pelos campos, l 
=atrs, na linha das aldeias, por causa da retaliao dos 
=boches. "
"Ento e ns? "
"Algum tinha de ficar nas trinchas, no ? Coube-vos a 
=vocs e a mais uns quantos "
" sempr'a mesma porra", resmungou Vicente Manpulas. "Os 
=maiorais decidem distribuir castanhas pelo Natal e a malt' 
que se =nica c'o troco. Puta qu'os pariu! "
"No vale a pena mandares vir porque os boches, pelos vistos, 
=no escacholaram", admoestou-o o sargento Rosa.
"Por enquanto, meu sargento, por enquanto", insistiu Vicente. 
="Espere pela volta do correio. "
"Mas que ave mais agoirenta! ", comentou Matias 
reprovadoramente, o =cabo sabia que os pressgios do 
Manpulas tinham um efeito =negativo no peloto.
"Quando  que servem o bacalhau? ", perguntou Baltazar, 
=igualmente preocupado com o efeito dos maus agoiros de 
Vicente e =decidido a aligeirar a conversa e lev-la para 
outros rumos. Como =tinha sempre a cabea no rancho, ainda 
para mais com a ementa especial de Natal a =aguar-lhe o 
apetite, achou que este era um magnfico tema para =distrair 
o grupo. "Ouvi dizer que esta noite, para a consoada, era 
coisa =de categoria e eu j estou c com uma larica... "
"No vai haver bacalhau para ningum", atalhou o sargento 
=secamente.
"Como? ", admirou-se Matias. "Mas o Matos disse-me... "
"O rancho na cantina foi suspenso. "
" O qu?"
"Desculpem l, malta, mas so ordens superiores", explicou 
=Rosa, embaraado por ser portador daquelas notcias. 
"Eles=20
395
querem toda a gente a postos durante a noite, a borrasca vai 
=continuar. "
"Oh, no! ", protestou Baltazar. "Mas que merda essa. "=20
Lamento, mas, como eu disse, so ordens. Vo ter de se 
=contentar com o corned-beef. "
"Eu quero qu'o corno-bife v p'r puta qu'o pariu! ", rugiu 
=Vicente, furioso e inconformado, aplicando um intempestivo 
pontap =num saco de areia e mais um chorrilho de palavres. 
"Aposto com quem =quiser qu'a merda do bacalhau vai parar  
mesa dos oficiais! "
Ningum quis apostar, era evidente para todos que o bacalhau 
=seria destinado aos cachapins da retaguarda.
"Mas que borrasca  essa de que falou, meu sargento? ", 
=perguntou Matias, atento s anteriores palavras de Rosa.
"Vai haver novo bombardeamento s sete da noite. " " Outra 
vez? ="
"Outra vez", confirmou o sargento, erguendo-se para 
prosseguir a =ronda, no queria ficar ali a aguentar com os 
protestos. Deu um passo =para se ir embora, hesitou, olhou 
para trs e esboou um tmido =sorriso. "Feliz Natal, 
pessoal"
396
IX
A manh prolongava-se, agradvel e modorrenta, no tranquilo 
=quartel-general do CEP, em St. Venant. Agns olhou 
melancolicamente pela janela da manso, admirando os enormes 
=ulmeiros que se erguiam como torres no jardim, o chilrear 
amoroso dos =pardais a encher de melodia aquele buclico 
quadro. Com os olhos pensativamente perdidos na verdura, a 
francesa =achou estranho estar ali, no centro de comando de 
uma das foras =envolvidas naquela guerra terrvel, e ver-se 
rodeada por tal paisagem =paradisaca, como era possvel que 
os homens que mandavam outros para a frente de batalha 
vivessem =num ambiente to pacfico, to recatado, to 
escondido dos =horrores resultantes das ordens que dali 
emitiam? Agns suspirou, =arquivou numa enorme pasta a carta 
que tinha na mo e encetou um novo envelope.
Sentiu a porta a abrir-se  esquerda e voltou a cabea. Era o 
=tenente Trindade que entrava na sala de dactilografia, 
momentaneamente =deserta, ou quase, e ia ter com ela.
" Quer um ch ", perguntou o oficial portugus. "No, 
=obrigada. " "Nem um caf? "
397
"No, no quero nada, obrigada. Estou bem. "
O tenente hesitou, olhou em redor, no estava l mais 
=ningum, o resto do pessoal tinha ido almoar e as mquinas 
de =escrever encontravam-se mergulhadas no silncio.
"Tem a certeza de que no quer ir esta noite danar um =fox-
trot comigo?"
"Agradeo-lhe de novo o amvel convite, mas no pode ser. ="  
Ia-se divertir. "
"Tenho a certeza, senhor tenente, mas infelizmente no posso.  
="Oh, no me chame senhor tenente, imploro-lhe. J lhe pedi 
tantas =vezes para me tratar por Cesrio. V l, seja 
simptica. =Cesrio. "
"Peo desculpa, tentarei lembrar-me. "
Agns sentia-se j cansada de todas as atenes com que =o 
tenente Trindade a brindava desde que, havia quase uma 
semana, =comeara a trabalhar no quartel-general. Ir para St. 
Venant tinha =sido uma ideia de Afonso, agora que sara de 
casa ela precisava de trabalho e o centro de comando do CEP 
era =uma alternativa interessante. Tratava-se de um lugar 
tranquilo, no =era por acaso que os soldados conheciam o 
quartel-general como Grande Canja. O amante tinha-a 
=apresentado ao seu amigo Trindade Ranhoso logo na manh em 
que se =reconciliaram e a coisa ficou resolvida, havia 
necessidade de uma pessoa =que fizesse o atendimento aos 
cidados franceses que contactavam o CEP por isto ou por 
aquilo, e Agns =foi preencher a vaga. O problema  que 
Afonso foi de imediato enviado =para as trincheiras e o seu 
amigo tenente mostrava pela bela =recm-chegada uma inusitada 
ateno. Tornara-se crescentemente claro que Trindade no lhe 
manifestava =toda aquela gentileza por mero sentido de dever 
para com Afonso, havia =antes um evidente e indisfarvel 
interesse do rapaz. O tenente =passara os ltimos dias a 
visitar a sala de dactilografia, sempre com pretextos para 
=conversa, e das falas galantes passara agora aos convites 
melosos.
"Nem quer ir ao cinematgrafo comigo? ", insistiu ele, aps 
=uma pausa embaraada.
398
"Seria fantstico, mas no posso. "
"No sabe o que perde. Vo mostrar um filme de Max Linder que 
= de rir at s lgrimas e depois a Joana d'Arc com a 
=Geraldine Farrar. "
"Prefiro a Sarah Bernhardt"
"Tambm gosto. Mas olhe que a Farrar tem uma belssima voz, 
=dizem que, na pera,  magnfica. "
"No interessa que ela tenha uma grande voz", riu-se Agns. 
="O filme  mudo. "
"Com efeito", reconheceu Trindade, um rubor a subir-lhe  
cara. ="Mas venha, vai gostar. "
"Obrigada, mas no posso. "
"Mas porqu? Tem alguma coisa assim de to importante para 
=fazer? "
"Alphonse chega esta noite. "
O tenente Trindade Ranhoso sentiu o golpe, forou um sorriso, 
=murmurou uma desculpa imperceptvel e, irritado, deu meia-
volta e =saiu da sala de dactilografia. Divertida com esta 
reaco, Agns riu-se baixinho e regressou ao envelope que 
abrira havia alguns =minutos. Era um agricultor de Lestrem a 
protestar porque os soldados lhe =haviam roubado todas as 
mas que tinha amontoado numa carroa =junto ao mercado e 
exigia agora uma compensao. A francesa tomou nota da queixa 
num formulrio prprio =e endereou o assunto ao major 
Ezequiel, o encarregado das =questes entre o CEP e os civis. 
Agns sorriu ao pensar nos francos que teriam de ser 
desembolsados para =pagar por estes furtos. Pelo volume de 
queixas que recebia, verificou =que o roubo de comida era 
comum entre os soldados, em especial batatas e =nabos. Mas 
muitos furtavam tambm roupas interiores, como camisolas, 
ceroulas e meias, especialmente de =l, e ainda luvas, 
coletes, impermeveis, botas de borracha, tudo =o que os 
pudesse proteger do frio e da lama.
Quando Agns se preparava para abrir o envelope seguinte, o 
=tenente Trindade espreitou pela porta e interrompeu-a.
"M dame ", chamou.
399
" Sim?"
"Est ali uma senhora para si. "
" Para mim?"
"Quer dizer, no  bem para si", atrapalhou-se o oficial. =" 
uma civil e acho que  melhor ser voc a falar com ela. "
Agns levantou-se, intrigada, e seguiu Trindade at  =porta 
de entrada da manso. Um soldado tapava o acesso, e do lado 
de =fora vinham uns gritos histricos em francs, era uma 
rapariga =claramente perturbada. Agns aproximou-se, o 
soldado deixou-a passar e ela deu com a rapariga lavada em 
=lgrimas.
"O que se passa, mademoiselle? "
Vendo uma francesa  frente, a rapariga acalmou ligeiramente, 
=embora tremesse de nervosismo.
"Vou-me matar, m'dame. "
"Disparate. Venha da e conte-me o que tem. "
Agns agarrou a rapariga pelos ombros e levou-a para a sala 
de =dactilografia. Trindade, desconfortvel com a situao, 
optou =por ficar para trs, detestava cenas de choradeira 
feminina.
"Ento conte l como se chama e o que a apoquenta", disse-lhe 
=Agns quando a rapariga se instalou numa das vrias cadeiras 
=vazias da sala.
"Chamo-me Germaine e trabalho no 183, a papelaria da madame 
Fas. "
Pausa.
"E o que se passa? " "Vou ter um filho. "
"Ah bom", percebeu Agns. "Tem a certeza? "
"Sim, foi o que o doutor Roche me disse. "
"E o pai  um soldado portugus. " "Sim", assentiu, baixando 
=a cabea.
" E onde est ele?"
"No sei, desapareceu. " Germaine agarrou a mo de Agns =com 
fora desesperada. "Tem de me ajudar a encontr-lo m'dame. 
=Tenho de casar com ele. Se no me casar, o meu pai mata-me. 
Eu =prpria me mato. "
400
"Tenha calma. Quem  ele? "
" Chama-se Carlos. "
Agns levantou-se, foi  porta e espreitou.
"Senhor tenente, por favor. O senhor... " "Cesrio, por 
favor. =Chame-me Cesrio. "
"Perdo. Cesrio. O senhor conhece algum soldado chamado 
=Carlos? "
"Carlos qu? "
Agns olhou para trs e repetiu a pergunta a Germaine, que 
=abanou a cabea, no conhecia outro nome, apenas aquele. A 
=baronesa voltou a encarar o tenente Trindade.
" S Carlos. "
"H milhares de Carlos no CEP, m'dame. Sabe ao menos a que 
=batalho pertence esse Carlos? "
Germaine no sabia. Agns agradeceu ao tenente e voltou para 
=junto da rapariga, explicando-lhe que, sem qualquer 
identificao =mais precisa, seria impossvel localizar o 
rapaz, Carlos era to comum entre os portugueses como Charles 
entre os franceses. Germaine =tapou o rosto com as mos e 
chorou desconsoladamente. Agns tentou =anim-la e para a 
convencer de que algo seria feito tomou nota da =ocorrncia, 
endereando- a ao major Ezequiel. Dez minutos depois 
acompanhou Germaine  =porta e viu-a partir, abatida, 
desesperada, entregue ao seu destino.
"Isto  muito comum", comentou negligentemente o tenente 
=Trindade, encostado  porta a acabar um cigarro. "Ainda na 
semana =passada tivemos aqui uma velha corcunda, av de uma 
outra rapariga, a insultar-nos a todos. " Largou uma baforada 
de =fumo. "Que bruxa, irra! "
Agns ouviu-o em silncio, simulou um sorriso tnue e 
=retirou-se. Voltou  sua secretria, mas j no foi capaz de 
prosseguir o trabalho. Sentia-se cansada e deprimida e 
=desejou ardentemente o reencontro com Afonso, que mais logo, 
se Deus =quisesse, viria das trincheiras.
A Brigada do Minho abandonou as primeiras linhas na noite de 
28 de =Dezembro, substituda pela 2. a Brigada da 1. a 
Diviso.
401
Infantaria 8 recebeu ordem de marcha e partiu de Ferme du 
Bois II, =ao abrigo da escurido, at Upton Road, virou  
direita na =Queen's Mary Road, passou por Senechal Farm, em 
Lacouture, cruzou o =canal La Lawe at Vieille Chapelle, 
atingiu a linha =frrea em Zelobes e estacionou em Paradis 
=South, em plena linha das aldeias. Depois de acompanhar os 
=homens at s suas posies de descanso, Afonso foi  
=brigada levantar a licena que lhe tinha sido prometida por 
Trindade. Com o documento na mo, =seguiu, muito fatigado, 
para o Htel Mtropole, em Merville.
Agns estava havia duas horas sentada no sof da =recepo  
sua espera, ansiosa e nervosa, com o corao =nas mos e 
muitos medos a corroerem-lhe a alma. Teria tudo corrido =bem? 
Estaria ele so e salvo? E se aconteceu algo nesta=20ltima 
semana e ningum disse nada? Trincou as peles das unhas e 
=sentiu o estmago doer- lhe, a ansiedade que a consumia 
contrastava com o seu aspecto sofisticado. A francesa 
embelezara-se com primor =para o receber condignamente, 
mostrava-se exuberante num vestido malva =de mousseline de 
soie e perfumada, como sempre, com os deliciosos aromas =de 
L'heure bleue. Quando, por fim, o viu entrar no foyer do 
hotel, enlameado e de olhar vidrado e fatigado, =grandes 
olheiras escuras a ensombrarem-lhe o rosto sujo, saltou-lhe 
para =os braos, feliz e aliviada, ele voltara vivo e isso 
era tudo o que =interessava. O abrao foi intenso, mas o 
cheiro nauseabundo exalado pelo capito levou-a =a abreviar a 
expansividade.
"Estou esfaimado", confessou-lhe o capito ao ouvido, 
=sentindo-se fraco.
"Sim", sorriu Agns, fazendo uma careta por causa do odor 
=fedorento que ele libertava. "Mas primeiro um banho. "
Afonso resistiu, queria comer. A francesa ordenou um jantar 
aos =empregados e aproveitou para lhes pedir que primeiro 
aquecessem gua. =Uma vez esta entregue no quarto dentro de 
um grande jarro, ela =prpria despiu o portugus e colocou-o 
na banheira, sentando-o na longa bacia em ferro fundido 
=assente em ps com forma de garra, despejou-lhe a gua 
quente no =corpo e esfregou-o com sabo de mel, incluindo na 
zona genital, o que =o
402
despertou do torpor da fadiga, provocando-lhe uma ereco e 
=fazendo-o lanar-lhe um olhar malicioso.
"Agora no", disse Agns com um sorriso que era, na verdade, 
=uma promessa, quem diz "agora no" deixa subentendido que 
"depois =sim", o brando pas maintenant da francesa continha o 
grmen de um =ardente oui.
Foi nessa mesma noite que, pela primeira vez, Agns teve a 
=verdadeira noo de que os homens, ao regressarem das 
primeiras =linhas, vm uns autnticos animais. Quando saiu do 
banho, Afonso =agarrou-se a ela, ainda molhado de gua, mas o 
som de algum a bater na porta obrigou-o a travar o =comboio 
em marcha, o que no foi fcil. Agns foi  porta e =uma 
empregada entregou-lhe um tabuleiro com o jantar e ficou com 
a farda =imunda do capito, mais as cuecas e as meias, para 
lavar, e as botas para engraxar. A =refeio era um cassoulet 
de cordeiro que Afonso, sentado na cama, =devorou 
sofregamente com a ajuda de um pain de campagne, enchendo o 
=po com as salsichas, o feijo e a carne do cassoulet e 
regando abundantemente a refeio com =um vin ordinaire, um 
tinto seco satisfatoriamente saboroso. Agns =encontrava-se 
impressionada com a voracidade com que o portugus =atacava o 
prato, parecia que no comia havia alguns dias. Enquanto 
engolia o cassoulet, Afonso no =conversava e apenas emitia 
uns grunhidos de apreciao. Arrotou no =final, enfartado, 
ps o tabuleiro no cho e, tremendo de =antecipao, arrancou 
apressadamente o vestido de mousseline de Agns e =penetrou-a 
sem demora, com abandono, com urgncia, ela por baixo =ainda 
mal lubrifi cada, ele logo a urrar, depressa o seu corpo 
acalmou, =veio o silncio, ela deixou-se ficar durante alguns 
segundos, sentiu a =respirao do homem tornar-se profunda, 
ouviu um ronco, =admirou-se, seria o que ela estava a pensar? 
Puxou-lhe a cabea e =constatou, decepcionada e j sem 
surpresa, que ele dormia como uma pedra.
Afonso esteve quinze horas mergulhado num sono profundo. 
Agns =passou toda a manh s, vendo-o ressonar pesadamente. 
Por vezes =ele agitava-se, conturbado. Falava sozinho e 
chegou a
403
dar um grito. Nessas alturas a francesa aconchegava-o e 
beijava-o, =sussurrava-lhe "tout va bien, tout va bien" 
enquanto lhe passava os =dedos pelo cabelo castanho e 
acalmava o sono agitado. Agns =encomendou o almoo e comeu 
junto  janela, determinada a no perturbar o descanso do 
soldado, no =havia dvida de que ele tinha vindo exausto, le 
petit pauvre.
O capito s acordou a meio da tarde, os olhos inchados de 
=sono e sujos de ramela preta, era a poeira das trincheiras 
que as =plpebras expulsavam. Foi lavar a cara e atirou-se ao 
que restava do =almoo, um canard d'orange servido com arroz, 
nada ralado com o facto de o =prato estar frio, a isso j ele 
se habituara havia muito. Com ar =descansado, mostrou-se bem 
mais falador do que na vspera, fazendo =perguntas sobre o 
que se tinha passado durante a semana.
"Esse Natal? "
"Senti-me s, fizeste-me falta", lamentou-se Agns. "E o teu? 
= "Nem quero falar nisso", indicou Afonso, com um gesto 
nervoso. ="Bombardemos os boches na vspera de Natal e eles 
responderam = granada e com tiros de morteiro no dia 25. 
Morreram trs homens e houve =uma dezena de feridos. "
"Lamento", balbuciou a francesa, afagando-lhe o cabelo.
"C'est la guerre", comentou o capito, com um resignado 
encolher =de ombros enquanto engolia mais um pedao do seu 
suculento canard.
"Sabes que tiveste um sono muito agitado? "
" Eu?"
"Sim, tu. Lembras-te do que sonhaste? "
"No", disse ele, trincando o pato. "No me lembro. " "Foi 
=com a guerra "
"No me lembro. "
" Costumas sonhar com a guerra?"
Afonso suspirou.
"Sim, isso costumo. Tenho muitos pesadelos "
"Que tipo de pesadelos? "
404
"Sei l, sonho com a morte de soldados que conheo, sonho que 
=fico mutilado, sem pernas e sem braos, sonho que me mandam 
=avanar pela terra de ningum e que no consigo correr, as 
pernas pesam-me como chumbo, sonho que vou matar um boche e 
descubro =que ele  o meu pai.  esse tipo de sonhos. "
"Hum", murmurou Agns, pensativa. "Todos os teus sonhos esto 
=relacionados com a guerra? "
"Sim, creio que sim. "
"Todos? " "Todos. "
"Tens de ter cuidado", aconselhou-o. "Esses pesadelos 
concentrados =num nico tema indiciam que ests num processo 
de desenvolver um =trauma emocional. Isso pode ter 
consequncias a prazo. "
"Olha l, ests a fazer-me uma consulta de psicanlise, =? " 
"No, Alphonse. Estou a ajudar-te. "
Afonso beijou-a.
"s amorosa", sorriu. "Mas no h nada que eu possa fazer, 
=no posso chegar ao p do major Montalvo, o meu comandante, 
e =dizer-lhe:  major, tire-me l da guerra que eu j ando a 
ter =pesadelos. Isso no  possvel. "
"Mas tens de ter cuidado contigo, ouviste? Percebo que no 
=possas impedir-te de estares na guerra,  evidente que isso 
no =depende de ti, mas deves saber gerir as tuas emoes. 
Por exemplo, o processo de colocar em palavras os sentimentos 
=dolorosos contribui para diminuir o sofrimento psquico. 
Alm do =mais,  importante que compreendas o significado dos 
teus sonhos, dos teus =sentimentos e dos teus pensamentos, 
isso ajuda-te a resolver esses =traumas que ests a 
desenvolver. "
"Sim, senhora doutora", retorquiu, fazendo continncia. "Oh, 
=l ests tu na brincadeira, no se pode falar a srio 
=contigo. "Pronto, pronto", disse, conciliador. "No te 
preocupes, meu amor, lembra-te de que eu agora trabalho 
sobretudo =na rea administrativa. "
405
Agns franziu o sobrolho.
"Olha l, mon mignon, existe mesmo trabalho administrativo 
nas =primeiras linhas? "
"Ento no existe? H imensa papelada de relatrios, 
=abastecimentos, logstica,  um inferno de burocracia " 
Afonso =mexeu-se na cama, novamente desconfortvel por estar 
a mentir sobre =as suas funes nas trincheiras, e decidiu 
afastar-se daquele tema o mais depressa =possvel. "A 
propsito de burocracia, como  que te deste no =quartel-
general de St. Venant? "
"Assim assim. "
"O Trindade Ranhoso tratou-te bem? "
"No me queixo", devolveu ela, decidida a no relatar os 
=avanos do tenente em relao a si, no queria ser fonte de 
=atritos entre homens. "Mas acho que vou tentar outra coisa, 
penso que =posso ser mais til noutro stio.
"Ah ? ", surpreendeu-se Afonso, as palavras abafadas, tinha 
a =boca cheia porque estava a trincar um pedao de peito de 
pato. "Onde? ="
"Tenho andado a pensar que  minha obrigao aplicar os 
=conhecimentos que adquiri em medicina. "
"Mas tu no completaste o curso. "
"Eu sei, mas mesmo assim posso ser til. Como enfermeira por 
=exemplo. "
"Ah bom. J me esquecia de que querias ser a Florence 
=Nightingale. "
"Desde pequena", assentiu ela. "Alm do mais, ficar aqui no 
=hotel  demasiado caro, tenho de encontrar um stio mais em 
conta. ="
"Queres que eu veja se h vagas em algum hospital? " "No 
=sejas tonto, mon petit mignon, claro que h vagas. Estamos 
numa =guerra, no te esqueas, h sempre falta de gente. "
"Tens razo", reconheceu Afonso, pensativo, chupando os 
dentes =para extrair um pedao de carne. "Vou ver o que pode 
ser mais =interessante para ti. Temos os hospitais de sangue, 
os depsitos de =convalescentes, os hospitais da base... "
406
"Sim,  uma hiptese. Ou posso ir para um hospital =francs, 
ou mesmo para um ingls "
"Podes, embora num portugus ficssemos mais perto um do 
=outro. "
"Sim, mas acho que os portugueses se do a demasiadas 
liberdades =com as mulheres. "
"Por que  que dizes isso? ", perguntou Afonso, suspendendo a 
=garfada seguinte no ar e fixando-a nos olhos, inquisitivo. 
"Tiveste =algum problema?"
"No", mentiu ela. "Mas ouvi algumas histrias que no me 
=agradaram. "
"Pois", riu-se o capito, retomando o interesse no canard e 
=engolindo o contedo do garfo suspenso. "Ns, os 
portugueses, =somos assim, meu amor. Uns garanhes. "
Para provar o que dizia, e alegando que era seu dever 
patritico =de oficial cimentar a fama dos machos portugueses 
junto da comunidade =feminina francesa no campo de batalha do 
amor, Afonso engoliu =apressadamente o que restava do almoo, 
arrumou o tabuleiro e estendeu- se na cama com a amante. 
Comeou a =explorar Agns com os lbios, com a lngua, com os 
dedos, muito =devagar, contornando-lhe as curvas macias, 
procurando-lhe os pontos =ergenos, excitando-a, 
lubrificando-a, arrancou-lhe as roupas com =suavidade, pea a 
pea, as mos e a boca sempre a =explor-la, foi lento e 
metdico at entrar dentro dela, depois ganharam velocidade, 
os dois juntando-se =como corpos em fogo, navegando um no 
outro em vagas turbulentas de =paixo, as guas a agitarem-se 
com fragor, revoltas, =imparveis, at que a tempestade 
atingiu o auge da fria e logo amainou, e a francesa, 
abandonada por entre os =lenis num torpor inebriante de 
sentimentos e sensaes, se =declarou satisfeita, to 
satisfeita quanto na vspera ficara =frustrada. Dormitaram 
durante alguns minutos, acabando por despertar com vagarosa 
=lentido da suave letargia em que tinham mergulhado.
"Vamos a Paris? ", perguntou-lhe ele finalmente, num 
murmrio, =quebrando o doce silncio que pairava sobre os 
corpos saciados.
407
"A Paris? ", soprou Agns, os olhos cerrados em plcida 
=modorra. "Mas no tens de te apresentar na brigada? "
"No te lembras de que consegui cinco dias de licena? ", 
=sorriu Afonso com preguioso vagar. "Vamos a Paris. "
Ela abriu os olhos, subitamente muito desperta.
"Mas isso  fantstico", exclamou com entusiasmo e 
=excitao, apoiando-se nos cotovelos. "E quando comea a 
=licena? "
"J comeou. "
"J comeou? Ento vamos embora", decidiu Agns, =levantando-
se da cama com um vigoroso salto. "Vamos, seu preguioso, 
=fora da cama, vamos embora!"
Ele ergueu a cabea, atarantado.
"Agora?"
"Sim, agora. Tens cinco dias de licena e mais de metade de 
um =j passou. "
"Mas... "
"No h mas nem meio mas. Daqui a trs horas passa um 
=comboio para Paris e vamos apanh-lo. Anda, despacha-te. 
Vite, vite. ="
Afonso fez um esforo e arrastou-se com indolncia para fora 
=da cama, quase contrariado. Foi barbear-se e pr a farda 
lavada, =entregue essa manh pelos servios de limpeza do 
hotel, enquanto =Agns escolhia para vestir a imitao de um 
Poiret, uma elegante tnica negra em estilo quimono com 
=bainha armada, a cintura alta apertada por um leno de seda 
rosa e um =turbante preto na cabea. Afonso olhou-a do quarto 
de banho como quem olha para uma princesa, =inatingivelmente 
bela e insuportavelmente distante, mas ela piscou-lhe o =olho 
verde, brincalhona, e logo a distncia se quebrou, o capito 
sentindo-se infinitamente afortunado por ser amado pela 
mulher mais =atraente e meiga que alguma vez conhecera.
"Isso que te brilha a na cara no so olhos", disse-lhe, 
=embevecido. "So esmeraldas"
O tempo escasseava e tiveram de se apressar. Ele calou as 
=botas, engraxadas com impecvel meticulosidade, e ajudou-a a
408
fazer as malas. Meia hora depois abandonaram o quarto. Afonso 
pagou =a conta e o gerente comprometeu-se a guardar o malo 
maior at ao =regresso da senhora, da a alguns dias. 
Apanharam um txi e, com apenas uma mala a servir de bagagem, 
seguiram para a =estao de Aire-sur-la-Lys a tempo do 
comboio para Paris.
Chegaram essa noite  grande cidade e um txi levou-os at 
=Les Halles, onde Agns conhecia um simptico hotel, 
localizado na =Place Sainte-Opportune. O Citron parisiense 
entrou no largo e =imobilizou-se junto ao passeio, Afonso 
ajudou Agns a sair do automvel, pagou ao chauffeur e 
admirou a praa num =longo relance, era um stio pequeno e 
tranquilo.
Num canto, quase escondido, erguia-se o Htel de Savoie, um 
=edifcio estreito de cinco andares, ao lado uma loja a 
anunciar Vins =Liqueurs, com uma carroa estacionada  porta, 
por cima o Htel de Venise, apertado e envelhecido, um cartaz 
a informar que aquele =era um Htel meubl. O esguio prdio 
deste hotel encontrava-se =encaixado entre o Htel de Savoie 
e um edifcio coberto de =cartazes publicitrios, todos 
colados de cima a baixo da longa parede caiada. Afonso fez 
=um esforo para ler os anncios, um fazia propaganda a uma 
tal de Moussoline des Alpes, outro =anunciava novidades nas 
Galeries Lafayette, um terceiro fazia =publicidade aos 
sensacionais sales de fotografia Dufayel. O =capito pegou 
na mala e a sua ateno regressou ao Savoie e ao Venise.
"Qual  o nosso? ", perguntou, os olhos fixos nos hotis 
=colados um ao outro.
" o Savoie. "
"Parece-me bem", aprovou Afonso, que j decidira ser este o 
que =tinha melhor aspecto.
O quarto do Savoie, no terceiro andar, era dominado por uma 
=imponente cama Nenfar, feita essencialmente de mogno e com 
remates =em bronze folheado a ouro, imagens florais 
inspiravam os engastes e a =madeira escura alongava-se nas 
vigorosas curvas tpicas do formato esparguete que 
caracterizava a art nouveau.
409
Os recm-chegados comeram uma simples baguette com queijo e 
=presunto e beberam um copo de leite antes de mergulharem na 
=esplndida cama do hotel e se amarem sucessivamente com tal 
=intensidade e desprendimento que, no final da terceira vez, 
Agns se interrogou em voz alta, languidamente estendida 
sobre os =lenis, j exausta, mas saciada e por entre 
gargalhadas, se =no estaria a transformar-se numa debochada.
Paris foi uma descoberta para Afonso. Agns levou-o aos 
locais =da sua juventude, a universidade, o apartamento de 
estudante na Rue de =Montfaucon, o Champ-de-Mars e a Torre 
Eiffel, a Brasserie Lipp, onde =conhecera Serge, e os cafs 
Le Procope, Stohrer e Tortini, onde estudara durante horas a 
fio, mais =todo o bairro de St. - Germain-des-Prs e os 
elegantes edifcios =da Sorbonne, numa emocionante viagem ao 
seu passado estudantil. O =curioso  que ela  que conhecia 
Paris, mas, apesar disso, perdia-se com frequncia, e =era 
ele quem acabava por se orientar nas ruas da cidade. Porm, 
=quando tambm Afonso se perdia, o que era raro, recusava-se 
=teimosamente a pedir indicaes a quem quer que fosse, 
insistindo em que encontraria o caminho por si =mesmo.
Foi, alis, depois de uma dessas teimosias que acabaram 
=acidentalmente por passar pela galeria Kahnweilec, na Rue 
Vignon, onde =Agns conheceu o cubismo quando era estudante. 
A galeria estava =fechada e um vizinho informou-a, com 
evidente satisfao, de que herr Kahnweiler se tinha exilado 
logo que a guerra =comeara.
"O boche meteu o rabo entre as pernas e foi-se embora, le 
salaud", =exclamou o vizinho, um velho magro e ossudo. "Devia 
ter culpas no =cartrio e  certamente por isso que a loja 
est sequestrada =pelas autoridades"
O encontro de Afonso com a grande arte no se produziu assim 
na =singela galeria Kahnweiler, e tentaram ento o imponente 
Museu do =Louvre. Mas o enorme palcio encontrava-se 
igualmente encerrado, as obras de arte tinham sido =retiradas 
para Toulouse logo que a guerra comeara, para desgosto de 
=Agns, que no se conformava com a m sorte.
410
" uma pena", lamentou-se, abanando a cabea. "Queria tanto 
=mostrar-te as grandes obras, a Vnus de Milo, o Gladiador 
=Borghse, o Cdigo de Hammurabi "
"Deixa l, fica para a prxima. "
"O Cdigo de Hammurabi  muito importante", insistiu ela. 
="Serge, que tirou Direito, explicou-me que o Cdigo  a 
primeira =tbua de leis conhecida, regulou a justia da 
Babilnia h =quase quatro mil anos. Ele foi precedido pelos 
Cdigos de Ur e pelo Cdigo do rei Ishtar, da Sumria e 
=Acdia, mas  o de Hammurabi a nica tbua de leis que 
=sobreviveu intacta ao tempo. O Cdigo estabelece umas 
trezentas leis =e est redigido em caracteres cuneiformes 
cravados numa estela de diorite, uma =espcie de pedra escura 
que foi trazida aqui para o Louvre.  um =pouco como a pedra 
de Rosetta, dos egpcios, que se encontra =em Londres. O 
Cdigo de Hammurabi  algo =realmente impressionante, nico, 
extraordinrio,  mesmo =lamentvel que no o possamos ver. "
"O que eu queria mesmo era ter a Gioconda  frente " "Oh, 
isso =tem mais fama do que proveito", atalhou Agns com uma 
careta de =desprezo, decepcionada com a ateno 
desproporcionada que todos =teimavam em dar  minscula 
pintura de Da Vinci. "A Gioconda  uma coisa pequenininha, 
=insignificante, ridcula at. No se compara, em 
=importncia, ao Cdigo de Hammurabi, acredita =em mim. Mas, 
=sabes, no meu tempo de estudante aconteceu uma coisa 
engraada " =Sorriu. "A Gioconda foi roubada. Foi um grande 
escndalo na poca, =com os jornais cheios de acusaes de 
negligncia e de incompetncia. Demoraram dois anos a 
=localiz-la, tinha sido furtada por um italiano, que levou a 
pintura =para Itlia. Quando o quadro voltou para o Louvre, 
foi montado um =enorme dispositivo policial para o proteger, 
at parecia que a Gioconda era a rainha de Inglaterra "
A vida nocturna de Paris revelou-se surpreendente, sobretudo 
porque =permanecia to activa em tempo de guerra. Passaram 
uma noite no =Moulin Rouge e foram dar um p-de-dana ao 
animado Moulin de =la Galette. Afonso derreteu aqui uma parte 
=significativa do seu p-de-meia, mas no se importou, 
ganhava 478 =francos
411
por ms e raramente os gastava, as trincheiras faziam pouco 
=apelo ao consumo, de modo que ao longo dos meses foi 
acumulando os =salrios. A verdade  que a experincia da 
guerra =relativizara-lhe a importncia do dinheiro, encarava 
agora todos aqueles francos como apenas um =meio para viver o 
presente, saborear o momento, fruir a vida e esquecer =tudo o 
resto.
Foi por isso que, na penltima noite, a do reveillon, decidiu 
=proporcionar a Agns uma inesquecvel festa de passagem do 
ano. =Levou-a s Folies-Bergre, cuja cabea de cartaz era um 
=espectculo com duas das grandes estrelas francesas do 
momento, a bela Mistinguett e o charmoso Maurice =Chevalier.
"Chama-se Chevalier mas no  da famlia", esclareceu =Agns 
com uma gargalhada, durante o intervalo. "Ns somos 
=Chevallier com dois eles, ele  Chevalier com apenas um ele 
"
A principal cano do espectculo era Pas pour moi, que 
=cantaram novamente quando soou a meia-noite. Brindaram a 
chegada de 1918 =com champagne e fizeram juras de amor eterno 
num longo abrao de ano =novo. Aps o reveillon, e j 
terminado o espectculo e a festa, Agns saiu das =Folies-
Bergre agarrada ao brao de Afonso e a trautear a melodia 
=popularizada por Mistinguett e Chevalier:
a des gens veinards
Qui mang'nt des huitrs et des z'homards
Des pts d'joi'
C'est pas pour moi.
Paris permitiu-lhes conhecerem-se melhor. Deram longos 
passeios =pelas margens do Sena, pelas Tulherias e pelos 
Champs-Elyses, sempre =de mo dada e a desafiarem o frio, e 
no quarto do Savoie aprofundaram a sua =intimidade e 
aprenderam as manhas de cada um, ela cheia de graa 
=feminina, ele repleto de vigor masculino. Para Agns, Afonso 
representava um tipo de companheiro que ia de encontro s 
=suas necessidades. Era sensvel, atencioso, compreensivo, 
preocupado =com os pequenos pormenores.
412
Detalhe importante, revelou-se o nico homem que ela 
conhecera =que tinha pacincia em acompanh-la nas compras, 
mostrou mesmo =algum prazer quando Agns o arrastou para as 
Galeries Lafayette e ali =gastou uma tarde inteira.
"Por que no experimentas este? ", perguntou-lhe ele, 
exibindo =um vestido ostentado por um manequim.
Agns observou o traje, era um vestido creme, longo e 
apertado =nas ancas, com uma saia sobre a saia principal, uma 
espcie de =tnica que ficava abaixo do joelho. Em vez das 
habituais golas altas, =porm, tinha o pescoo aberto em V, 
pormenor que de imediato chamou a ateno da =francesa.
"Oh la la, vais ser excomungado", comentou ela com um sorriso 
=malicioso.
"Eu? Porqu? "
"No te faas sonso, meu maroto", riu-se. "Ento no =vs que 
o vestido se abre  frente, por baixo do pescoo? "
Afonso observou com ateno.
"Ah, pois ! ", exclamou. Olhou para ela. "Ento  melhor 
=no o comprares,  um bocado atrevido "
"Oh, isto para ns j no  nada de especial. Mas, =h uns 
trs anos, a Igreja denunciou estes vestidos por serem 
=escandalosos e indecentes e at houve mdicos que disseram 
que =eles constituam uma ameaa  sade pblica, v l tu. "
"Pois, pois", assentiu Afonso. Virou-se imediatamente para 
outro =vestido, mais conservador, procurando desinteress-la 
do anterior. ="Olha, este tambm  bonito. "
Para alm de a ajudar a escolher as roupas, os chapus e os 
=sapatos, dando opinies e resistindo estoicamente s suas 
=indecises, Afonso chegou at a arrast-la para outras reas 
=das galerias que nunca visitara com ateno. O portugus 
sentia-se fascinado com aquele gigantesco =estabelecimento, 
nunca vira coisa igual. Aproveitou para adquirir =novidades 
para si prprio, comprou produtos de uso corrente, como uma 
=lata de Crme Eclipse para polir botas, o creme Dianoir para 
sapatos e um sabo =de barbear Erasmic. Alm disso, 
presenteou Agns com o ltimo =grito da
413
moda parisiense, o badalado Chypre, miraculoso perfume 
acabado de =colocar no mercado e que levava milhares de 
francesas  loucura com =os seus deliciosos aromas de 
bergamota, jasmim e musgo de cedro, combinados com um leve 
tom de feno libertado pela cumarina.
"Ests a insinuar que L'heure bleue no te agrada? ", 
=perguntou a francesa, mirando o delicado frasco de Chypre.
"O que  isso? "
"L'heure bleue  o meu perfume. "
"Oh no, o teu perfume  fantstico", assegurou-lhe =Afonso. 
Cheirou o frasco que ela segurava nas mos e cerrou os olhos, 
=deliciado com a fragrncia. "Mas deves acompanhar a moda 
n'est pas? "
Foi fora das Galeries Lafayette, todavia, que Afonso efectuou 
as =duas aquisies que o deixaram mais entusiasmado. Uma foi 
uma =grande inovao importada do outro lado do Atlntico, a 
pasta de dentes Colgates Ribbon Dental Cream, que os dough 
=boys, como eram conhecidos os soldados americanos, tinham 
trazido para =Paris. Como toda a gente, Afonso estava 
habituado ao p para dentes =que normalmente comprava em 
potes de faiana, e achou graa quando descobriu, num 
quiosque de St. =-Germain-des-Prs, a caixa vermelha de 
papelo a anunciar que o =p dos dentes vinha agora em creme, 
contido num tubo malevel, as =instrues na caixa a 
mostrarem que bastava dobrar o tubo para a pasta ir =saindo.
A outra compra que o empolgou foi a que fez numa pequena loja 
do =Trocadro. Iam os dois a passar em direco  Torre 
Eiffel =quando Afonso notou uma pequena mquina fotogrfica 
exposta na =montra do estabelecimento.
"Olha esta cmara", apontou. "Os bifes tm muitas iguais nas 
=trincheiras. "
Era uma vest Pocket Kodak. Depois de a namorar com os olhos, 
Afonso =entrou na loja e perguntou pelo preo.
"C'est combien?"
414
"So sessenta e cinco francos, msieur", disse o comerciante. 
O =vendedor mostrou-lhe como podia prender o estojo da 
mquina ao cinto, =um pormenor de utilidade prtica que fez a 
diferena na deciso de Afonso. Tirou a carteira, contou as 
notas e entregou-as ao homem. O =resto da tarde foi passado 
em brincadeiras no Champ-de-Mars, ambos =divertindo-se como 
garotos, rolando na relva, correndo por entre os =arbustos, 
rindo e gritando, a minscula mquina fotogrfica a disparar 
clichet atrs de clichet para =registar a felicidade do casal 
de namorados.
Nem tudo era perfeito, claro. Agns agastava-se um pouco com 
a =forma como o portugus punha tudo em pantanas, as roupas 
sempre =desarrumadas no quarto de dormir, negligentemente 
amontoadas num canto, =e o quarto de banho transformado num 
verdadeiro campo de batalha. Sempre que ia tomar banho, o 
=capito deixava a banheira repleta de pelos e o soalho 
inundado de =gua, era um verdadeiro selvagem. Cantava alto e 
desafinado na banheira, =mas mantinha um desconcertante pudor 
sempre que ela entrava no quarto de =banho. Cobria-se com uma 
toalha, envergonhado e tmido, o que a fazia =rir.
"Olha l, achas que nunca vi isso, ? ", perguntou-lhe ela 
=certa vez, provocando-o ao entrar no cabinet de toilette 
para ir buscar =uma escova. Divertia-se por v-lo com tantos 
pudores. "Ora mostra =l. "
Um rubor embaraado encheu-lhe a face.
"Oh, no sejas assim", resmungou Afonso, encolhido na toalha. 
="Despacha-te e deixa-me  vontade, v. "
"Mon Dieu, uma vez seminarista, sempre seminarista! ", 
exclamou =Agns, rolando os olhos numa careta trocista. Pegou 
na escova, deu =meia- volta e dirigiu-se  porta para sair. 
"Quem te visse nunca =diria que s um garanho na cama. " 
Riu-se e espreitou pela frincha antes de fechar a porta. 
="At j, fornicador pdico "
Noutros instantes era ele que a provocava. Evitava as 
vulgaridades, =preferia floreados mais romnticos, com um 
toque platnico e =eloquente.
415
"Mon petit choux", disse-lhe numa ocasio, preparavam-se para 
=sair. "s uma santa, s bela como uma flor de Primavera. "
Era um piropo banal, um pouco fatela at, mas Agns sentiu-se 
=agradada.
"To querido", agradeceu com ar meigo, devolvendo-lhe o 
=cumprimento nos termos que sabia serem irresistveis para o 
ego de =qualquer homem. "Pois tu, mon mignon, o teu maior 
atributo  essa =potncia incansvel. " Revirou os olhos e 
fez um ar cocotte. "Oh la la. "
"Achas? ", questionou ele com falsa modstia, baixando 
=momentaneamente os olhos, algo envergonhado.
"Ah oui! "
Sempre que ela o testava, perguntando, por exemplo, se tinha 
o rabo =gordo ou os seios demasiado pequenos, coisas que 
sabia no serem =verdadeiras, ele dava sempre a resposta 
certa e insistia =em que Agns era linda, perfeita, suprema, 
=nica.
Quando se aconchegavam na cama, depois de se saciarem no amor 
e =antes de repousarem no sono, Afonso segredava-lhe palavras 
doces ao =ouvido, enaltecia-lhe a beleza e a generosidade, 
soprava-lhe ternuras =meigas e acariciava-a com um toque 
suave. Abraados no quarto do Savoie e  sombra da noite, o 
capito jurou-lhe =que iria fugir das trincheiras s para lhe 
cantar uma serenata  chuva. Embalava- a num turturilhar de 
amor com promessas doces e =sussurros melosos, dizia-lhe que 
a amava, que a adorava, que a =idolatrava, que ela era a 
melhor coisa que lhe tinha acontecido, que =iriam envelhecer 
juntos, que Agns era uma deusa, a mulher dos seus sonhos. 
Ela era uma rosa, uma =jia, um raio de sol, um aroma 
florido, uma ria sublime, uma =brisa pura da Primavera. A 
francesa cerrava os olhos e bebia com avidez 
=aquelas=20palavras encantadas que a faziam sentir-se to 
especial, to =nica, bebia-as at ficar tonta, at se sentir 
embriagada de =amor e inebriada de paixo, at achar que, na 
verdade, Afonso =no tinha comparao, era o melhor dos 
homens.
Mas a licena depressa se esgotou no fulgor daquele intenso e 
=inesquecvel passeio por Paris, e o momento do regresso=20
416
aproximou-se, implacvel, inexorvel, como uma nuvem negra 
=correndo com rpida e traioeira lentido em direco ao 
=Sol, correndo at o ocultar e sobre os amantes lanar a sua 
sinistra e triste sombra, arrancando-os da sobressaltada 
=felicidade em que viviam mergulhados e arrastando-os 
penosamente para o =pesadelo da assustadora fornalha em que 
se transformara a Flandres. =Agns e Afonso apanharam o 
comboio de regresso a Aire-sur-la-Lys como escravos 
resignados ao seu amaldioado =destino, a sombria nuvem 
solitria que os perseguia sempre a crescer, =a alargar, a 
encher o horizonte, ameaadora e sufocante, cinzenta e 
=carregada, at se tornar, perto do indesejado destino, uma 
vasta e tenebrosa =tempestade de guerra.
417
Afonso no deixava de se sentir surpreendido com a engenhosa 
=capacidade de camuflagem da artilharia portuguesa. Os 
canhes =escondiam-se em buracos espalhados pelos campos 
atrs do seu sector, =e a dissimulao era to eficaz que 
havia j dois meses que o inimigo no conseguia detectar e 
atingir uma =nica pea do CEP Infantaria 8 encontrava-se de 
apoio  linha =das aldeias no sector de Laventie, por detrs 
de Fauquissart, e o =capito aproveitou a manh tranquila 
para ir admirar um canho Schneider-Canet de 7, 5 centmetros 
=que tinha sido ocultado perto do seu posto, atrs da Rue de 
Paradis. =A pea de artilharia permanecia disfarada dentro 
de um abrigo a que os soldados chamavam Elefante, um buraco 
=protegido por chapas de ferro onduladas e espessas, de forma 
=cilndrica, ligadas por cantoneiras e tapadas por terra e 
=vegetao, a boca do buraco parecendo um curto tnel que 
emergia do solo.
"Macacos me mordam se os boches conseguem topar esta 
bisarma", =murmurou Afonso para si mesmo, contemplando com 
admirao aquele =trabalho de perfeita camuflagem.
Sentiu passos  direita e viu Joaquim aproximar-se em corrida 
=com uma folha de papel na mo esquerda, a Lee- Enfield a=20
418
balouar a tiracolo. O capito fixou os olhos na folha e 
=reconheceu o Folhetim de Guerra, um impresso que os alemes 
atiravam =regularmente para as linhas portuguesas em tiro de 
morteiro e que =caa do lado de c em pacotes inseridos nos 
projcteis que a rapaziada apelidava de ananazes.
"Ento, Joaquim? ", saudou Afonso. "Trazes a o Dirio de 
=Noticias de Berlim? "
"Sim, meu capito", confirmou a ordenana, ofegante, 
=estendendo o impresso. "Eles atiraram isto esta manh. "
"Vamos l ver se  melhor do que o almocreve das petas", 
=comentou o capito com ironia, referindo-se  forma como era 
=conhecido o boletim dirio das operaes emitido pelo CEP. 
=Pegou na folha, o ttulo Folhetim de Guerra bem visvel no 
topo, em baixo todo o texto redigido em portugus. "Ora 
=deixa c ver isto. "
Corria o dia 25 de Janeiro de 1918 e a folha assinalava a 
data de =30 de Dezembro. Era antiga, mas trazia novidades. O 
primeiro ttulo =anunciava sensacionalmente que havia uma 
"demobilizao das tropas =em Portugal" e que a excepo era 
apenas das "tropas portuguezas que se acham nos diversos 
theatros =de guerra". O capito estudou o estilo de escrita, 
o que fazia sempre =que punha os olhos num exemplar daqueles, 
e reforou a sua =convico de que o texto tinha sido 
redigido por algum que vivera =em Portugal. Ou era um 
portugus ou =ento tratava-se de um alemo que conhecia 
profundamente a lngua =portuguesa. O assunto era muito 
discutido entre os oficiais, divididos =entre as duas 
hipteses. Afonso achava que se tratava de um =compatriota, 
provavelmente um prisioneiro de guerra, mas tambm podia ser 
um =monrquico, era conhecida a simpatia que muitos 
monrquicos =nutriam pela Alemanha. Sem chegar a grandes 
concluses naquele instante, mas sempre atento aos detalhes 
que lhe pudessem dar =indicaes, o capito passou  segunda 
notcia, a qual, =sob o ttulo de "Portugal e os Alliados", 
dava nota da existncia =de ms relaes entre o novo governo 
de Sidnio Paes e os executivos de Londres e =Paris, 
indicando que "a Inglaterra se oppe com todos
419
os meios  tudo quanto o novo governo resolver". A suspeita 
de =que o autor do texto era um monrquico portugus saiu 
enfraquecida =da leitura de outro trecho desta mesma notcia, 
designadamente a =referncia  restaurao da monarquia, 
projecto que, segundo a folha alem, "nem os =prprios 
monarchistas portuguezes apoiario, sabendo, como consta, 
=que o jovem rei Dom Manuel se acha completamente nas mos 
dos =Inglezes e avassallado por elles". Este ambguo trecho 
indiciava que o autor do texto poderia no ser um 
=monrquico.  certo que muitos monrquicos simpatizavam com 
os =alemes e mostravam-se crticos para com o rei no exlio, 
mas =acus-lo de ser um vassalo dos ingleses parecia ser 
forte de mais. Ora, se o =autor do panfleto no era um 
monrquico, reflectiu Afonso, =ento s poderia tratar-se de 
um prisioneiro, certamente um oficial. Meditou um =breve 
instante sobre o que levaria um militar a trair daquela forma 
o =pas e, percebendo que no tinha resposta porque no 
conhecia =as circunstncias em que o traidor se=20encontrava, 
voltou  folha. A terceira notcia, "um successo =allemo na 
frica", referia um combate em Moambique entre =foras 
alems e portuguesas, e a ltima informao do Folhetim de 
Guerra era a de que tinham sido presos em Lisboa dois 
=antigos ministros portugueses da Guerra, o general Barreto e 
o coronel =Pereira.
"E esta? ", admirou-se Afonso, depois de soltar um longo 
assobio =logo que leu os nomes. "O Pereira foi de cana. Sim 
senhor, isto est =bonito. "
O capito deu meia-volta e seguiu em direco ao posto com =o 
impresso na mo, havia ali suficiente informao para 
=alimentar uma manh de conversa com o Cenoura ou mesmo com 
Tim. =Ningum ignorava que aquele era material de propaganda, 
mas o que  certo = que tais "notcias" tinham geralmente 
algum fundamento, o =problema era analisar os textos e saber 
interpret-los, procurar a =verdade por detrs da retrica. 
Todos sabiam que existiam notcias que o CEP jamais deixava 
=transpirar e que a melhor maneira de a elas ter acesso era 
atravs =daqueles boletins de propaganda inimiga. Entre os 
militares prevalecia a =convico
420
de que a verdade se situava algures entre as duas verses, a 
=dificuldade era localiz-la com exactido na imensa 
distncia =que separava ambas as propagandas.
Absorto nos seus pensamentos, o oficial nem deu pela chegada 
do =capito Resende, o lisboeta-que-era-gordo-e-emagreceu, a 
quem Afonso =e Mascarenhas tinham oferecido dois meses antes 
uma memorvel =recepo ao caloiro nas trincheiras.
"Ora viva, capito Brando", saudou Resende, muito 
=sorridente, proveniente da direco de Laventie.
Ah, ol, capito Resende, devolveu Afonso, como se estivesse 
=a despertar.
"Ol e adeus, digo eu. "
"Ah sim? Ento adeus, adeus. "
" homem, quando digo adeus  mesmo adeus. Vou-me embora. "
"Ah ? Para onde? Vai a Paris?"
"Qual Paris, qual carapua! ", riu-se Resende, realmente bem- 
=disposto. "Vou para Lisboa, caraas, vou para casa. " Afonso 
=abrandou, admirado com tal revelao.
" Para casa? Como?"
"De comboio, como  que havia de ser? De comboio, porra. " 
"Mas =o senhor acabou de chegar! A que propsito  que vai 
para casa? =Que eu saiba, a guerra ainda no acabou. "
"Eu quero l saber da guerra! Pode no ter acabado para si, 
=capito Brando, mas olhe que acabou para mim. Vou-me embora 
e =cago nesta merda toda! "
Afonso estacou, ainda indeciso quanto ao significado daquelas 
=palavras.
"Desculpe, capito, mas no estou a entender. Quem  que 
=est a autorizar a sua partida? "
"O Sidnio, caraas, quem  que havia de ser? "
" O Sidnio Paes?"
Sim, claro. Vou eu, vai o Almeida, o Cabral, o Carrio e mais 
=uma data de malta que se dava com o Sidnio. Vamos fazer 
umas =comisses em Lisboa, coisas importantes, embora no 
sejam de
421
natureza militar. De qualquer modo, j estava na hora de o 
=pas reconhecer o nosso valor. "
Tudo se tornou agora claro para Afonso. Um rubor de irritao 
=encheu-lhe o rosto, sobretudo ao ouvir o nome do capito 
Cabral, =aquele que em Tancos o tentou aliciar a juntar- se 
ao general Machado =Santos para se revoltar contra os 
embarques para Frana. Juntamente com os outros oficiais 
sediciosos, =Cabral foi detido e enviado  fora para a 
Flandres e era agora premiado com um regresso antecipado a 
=casa. Baixando a voz e cerrando as sobrancelhas, Afonso 
formulou a =pergunta seguinte num tom acusatrio.
"O senhor meteu uma cunha para sair daqui? "
" capito! ", devolveu o outro com ar escandalizado, 
=ofendido at. "Eu no fujo das minhas responsabilidades. 
=Vossemec no me conhece, mas eu sou um homem de bem, 
cumpridor =dos meus deveres, fiel  ptria e  Repblica.=20 
com relutncia, digo-lhe sinceramente,  com muita 
=relutncia que eu regresso a Portugal. Sabe, a verdade  que 
eu =nunca quis ir, mas o Sidnio... " Fez um gesto vago, como 
se =procurasse a palavra adequada. "Olhe, o Sidnio  um tipo 
formidvel, um gajo s direitas, amigo do seu amigo. Ele 
=mandou dizer que precisava de mim. Que ele precisava, no. 
Que a =ptria precisava de mim. Ainda resisti, garanto-lhe, 
meu caro =capito Brando, ainda resisti. Mas aquele mangano 
 tramado, tem um poder de =persuaso que s visto, aquilo  
uma fora, um =arrebatamento. De modo que, ai de mim! deixei-
me convencer. Parto de =corao destroado, vossemec pode 
crer, pode crer, mas parto com o sentimento de dever 
cumprido. E, =se a ptria precisa de mim em Lisboa, o que 
quer? Quem sou eu para =dizer o contrrio? De modo que, meu 
caro capito Brando, eu e =mais alguns amigos l recebemos 
guia de marcha e vamos agora regressar. "
"E todos os oficiais que se vo embora consigo, como o 
=capito Cabral e os outros, esto tambm a responder a um 
apelo =da ptria?"
422
"Sabe, eu quero crer que sim", disse o capito Resende, 
=assumindo uma postura de confidncia. "Mas suspeito de que 
haja =alguns casos, esses sim, de cunha. " Cerrou os olhos e 
fez um olhar =entendido. "Cunha, digo-lhe eu. "
Afonso ficou a analis-lo, agastado. Estaria o homem a fazer 
=pouco de si? Era evidente que sim, aquela conversa no era 
normal, a =postura um tudo-nada teatral de mais, mas decidiu 
no dar parte de =fraco.
"Pois sim, capito Resende, ento v l prestar o seu 
=servio  ptria", disse, em tom cordial, antes de despejar 
a =farpa. "Sempre  mais til estar l corajosamente sentado 
num gabinete do que aqui a esconder-se nas =trinchas. Ao 
menos em Lisboa no tem que andar sempre a fugir do =inimigo. 
"
O capito Resende fulminou-o com o olhar, despeitado e 
ofendido, =virou-lhe as costas e seguiu estrada fora em passo 
rpido e modos =bruscos. Afonso ficou ali parado, no meio da 
lama, em silncio, a =v-lo partir, um peso na alma por 
assistir=20quele abandono, sempre era mais um oficial que se 
ia embora, em boa =verdade aquilo s tinha um nome, era uma 
desero, aqueles =oficiais serviam-se das suas relaes com 
o novo regime e fugiam, =deixavam para trs os seus homens, 
entregues a si mesmos, nas mos do destino.
Baltazar Velho fixou os olhos no documento e leu-o com 
esforo, =letra a letra, slaba a slaba, palavra a palavra. 
O serrano era o =nico do grupo que sabia ler, e mesmo assim 
mal, mas ningum se =podia queixar, o proco de Pites das 
Jnias dera o seu melhor quando o Velho era novo, mais no se 
podia =exigir das poucas aulas que o jovem padre Augusto, com 
a melhor das boas =vontades, ministrara muitos anos antes ao 
pequeno Baltazar, durante as =breves lies de catequese nas 
frias manhs de domingo. Baltazar era ento um =miservel 
pastorinho que vinha de um lugar ermo perdido l na =serra do 
Gers, algures entre Tourm e Outeiro, mais habituado ao 
balir das ovelhas e ao pipiar das =perdizes do que ao 
estranho latim das missas ou aos sons inteligveis
423
que as folhas escritas libertavam. Foi difcil, mas a 
catequese =entreabriu-lhe as portas da literacia.
Nesse princpio de tarde, num buraco triste e lamacento da 
=Flandres, Baltazar recompensava o proco de Pites com uma 
leitura =gaguejante. Mas mesmo hesitante, cheio de falhas e 
de dvidas, somando as letras com dificuldade para reproduzir 
sons e formar =sentidos, o Velho lia o suficiente para ser 
capaz de extrair daquele =texto rebuscado a informao que 
todos ansiosamente aguardavam.
"Ento, Baltazar? ", impacientou-se Vicente Manpulas. 
="Iss' p'ra hoje ou p'r'manh? "
"Calma, Manpulas, calma l", disse o Velho, levantando a 
=mo. Arrastou-se mais uns instantes at perceber o 
significado do =que tinha em frente, um telegrama do 
documento assinado por Sidnio =Paes apenas quatro dias 
antes. "Ento  assim. Aqui diz que a malta tem direito  
primeira licena cento =e vinte dias depois de chegar. "
"Depois de chegar s trinchas? "
Baltazar releu o texto, titubeante. Parou ali. Hesitou, 
voltou a =arrancar e descobriu.
"No. Depois de chegar a Frana. "
"Quatro meses? ", exclamou Matias Grande, aps fazer as 
contas. ="J passou, j passou. "
"Pois, os quatro meses j l vo", reforou Vicente, =coando 
o couro cabeludo irritado pelos piolhos. "E que mais? "
"Calma", pediu Baltazar, sempre concentrado no documento. 
Passou os =olhos pelas letras, fungou, murmurou sons 
imperceptveis e, aps mais uma eternidade a decifrar o 
texto, captou finalmente o sentido. ="Diz aqui que temos 
direito a trinta dias de licena. "
Um murmrio de satisfao encheu o abrigo, todos se 
=entreolharam e sorriram, j se imaginavam no Minho, com a 
famlia, =a ajudar na lavoura, a banharem-se no Cvado, no 
Este, no Lima, a =danar o vira, a cavar a terra, a apanhar a 
uva, a encher os espigueiros, a =comer um cozido regado com 
um verde de Melgao,
424
mas que grande naa iriam apanhar na primeira noite entre os 
=seus.
"Um ms", repetiu Vicente, sonhador.
"Ah se eu me apanho nu Minho, a cheirar os carvalhos e os 
teixos do =Gers, ou a respirar aquele ar das brandas, l no 
alto da serra, =nunca mais me pem os olhos em cima", 
sentenciou Baltazar, cerrando =as plpebras com sentida 
nostalgia. "Que categoria. Escondo-me l no =mosteiro de 
Pites e a tropa que se pine. "
"s tu e eu", disse Vicente, imaginando-se na sua carpintaria 
de =Barcelos e nos passeios por entre os seixos do Cvado. 
"Vou e no =volto, vocs vo ver. "
"Eu c s quero  a sopa seca que a minha me faz l =em 
casa", desabafou Matias, sentindo-se salivar. "Hum, s de 
pensar =que vou emalar o salpico, o presunto, a vitela, a 
galinha e a couve lombarda que ela mistura na =sopa! " 
Suspiro. "S vos digo, um pitu. Depois molho um bolacho =na 
sopa. " Passou a mo pelo estmago vazio. "Ah! Vou manducar 
=at ficar inado que nem=20um marrano. "
"A minha patroa tambm faz uma sopa seca levada da breca", 
=comentou Baltazar, que no perdia uma oportunidade para 
falar de =comida. "Mas o melhor  o corao de porco com 
vinho tinto, cortado em cubos e servido com batatas e =vagens 
cozidas. Ah, rapazes, vocs haviam de ver! Aquilo  que = um 
prato de se lhe tirar o chapu! Uma categoria, s vos =digo. 
Uma categoria! "E eu j me estou a imaginar a dar uma 
pinadela na primeira sansardoninha que me =aparecer pela 
frente", exclamou Abel Lingrinhas, que at a se =mantivera 
timidamente calado, como era seu feitio. "Comeo assim como 
=quem no quer a coisa, com uma bocaringa aqui e outra ali, e 
depois pino-a =toda, os dois agafanhados num espigueiro. No 
estado em que me encontro, =at um almazem marchava. "
Todos fizeram sinal de aprovao. Sentiam o mesmo, sabiam bem 
=o que cada um queria dizer, o ar da terra, a comida de casa 
e uma boa =minhota era tudo o que desejavam da vida, eram 
afinal homens simples = procura de coisas simples.
425
"Agora o que  que temos de fazer? ", perguntou Matias, ainda 
=inebriado com os apetites a satisfazer quando regressasse a 
Palmeira.
"Apresentar o pedido de licena, acho eu", retorquiu 
Baltazar, =encolhendo os ombros e dobrando o documento com as 
informaes =sobre o novo sistema de licenas acabado de 
aprovar pelo governo de =Sidnio Paes. "Vamos ter com os 
cachapins da brigada e metemos os papis. ="
"Mas isso j ns fizemos um porradal de vezes", queixou-se 
=Vicente. "E no deu em nada. "
Um zumbido familiar encheu o ar, em crescendo, e todos se 
=encostaram s paredes do abrigo, quase instintivamente. A 
minenwerfer =explodiu l fora, o cho tremelicou, as paredes 
abanaram e =libertaram algum p, mas aguentaram. Depois 
ouviram um som diferente, como o gorgolejar de =um peru, 
seguido de exploses surdas, com um pop seco, semelhante ao 
barulho de uma rolha a saltar =de uma garrafa de champagne. 
Depois, mais nada. Os soldados aguardaram =um instante, 
certificaram-se de que no havia consequncias de =maior e 
voltaram a sua ateno ao assunto que tinham entre mos como 
se no tivesse havido =interrupo.
"Com' qu'a malta sabe que no nos to outra vez a passar =a 
perna? ", retomou Vicente, o corao carregado de suspeitas 
=quanto ao novo sistema de licenas agora aprovado por 
Sidnio =Paes. "J no  a primeira vez qu'esses cabres nos 
enganam. Ou vocs no se =lembram das promessas qu'eles nos 
fizeram nos ltimos meses? E inda =c tamos... "
O grupo despertou do seu torpor e a desconfiana instalou-se, 
=insidiosa.
"Se calhar, tens razo", meditou Baltazar. "Quando a esmola  
=grande, o pobre desconfia... "
"Querem saber a minha opinio? ", perguntou Matias. O cabo 
=raramente tecia comentrios sobre este tema, mas havia j 
algum =tempo que achava terem sido ultrapassados todos os 
limites. "Pois eu =penso que, bem espremidas as coisas,  
tudo conversa, tudo conversa.
426
"S' conversa, olha qu' s p'r'alguns", cortou Vicente, 
=levantando o indicador. "Aos oficiais j to a ser dadas 
=licenas, pois claro. Suas senhorias to sempr'em primeiro. 
"
"", confirmou Baltazar. "H uns quantos que foram passar 
=frias a Portugal, j l vai tempo, e nunca mais deram 
=notcias. "
"At hoje", comentou Vicente, que nunca deixava escapar uma 
=observao sobre o comportamento dos oficiais.
"Chama-lhes burros", considerou Baltazar. "Se vocs fossem de 
=licena, voltavam? "
"S s'eu fosse parvo", admitiu Vicente, abanando a cabea. 
="Mas ns j'qui tamos h mais de seis meses seguidos, j 
=tivemos a nossa conta, n'? Nem os bifes s'aguentam tanto 
tempo na =frente, no viram agor'os camones da esquerda, em 
Fleurbaix, que j foram retirados p'ra =descansar? E ns 
ind'aqui. Eles que mandem outros c p'r =aougue."
"Alm do mais", meditou Matias, "essa merda dos trinta dias 
de =licena nem  novidade, j antes do Sidnio nos disseram 
o =mesmo e a verdade  que a malta no viu nada. "
O ambiente entre os homens do CEP no era dos melhores e 
=deteriorava- se de dia para dia, o cansao desgastava-os e o 
exemplo =que vinha de cima no era encorajador. Os lzudos 
viam os aliados =a rodarem regularmente as tropas, ainda dias 
antes a 38. a Diviso britnica, a =vizinha da esquerda do 
CEP, tinha sido substituda pela 12. a =Diviso aps ter 
permanecido apenas trs meses na linha. Matias =podia ser um 
homem respeitador da hierarquia, mas no era tolo e tirou as 
suas concluses quando comeou a ver os =prprios oficiais 
portugueses a passarem  frente dos soldados. A =verdade  
que todos gozavam licenas que, na prtica, estavam =vedadas 
s praas. O sentimento de injustia, que crescia havia algum 
tempo entre os =soldados, comeou a afectar profunda mente o 
estado de esprito =nas trincheiras. Onde alguns instantes 
antes predominava a euforia, =sucedeu-se a angstia, a 
incerteza, a dvida.
"Os tipos em Portugal to-s'a a cagar p'ra ns, no 
=percebes?, exclamou Vicente, gesticulando com profuso, 
frustrado e
427
zangado, ansiava desesperadamente por regressar a casa. "O 
=Sidnio fez o golp'e abandonou-nos, no mand's reforos, 
=no mand' terceira diviso prometida pelo Afonso Cost's 
=camones. "Mas, afinal, com quem  que a Alemanha est em 
guerra, h? ", quis saber Baltazar, erguendo a voz. "Est =em 
guerra com
Portugal ou apenas com o CEP? H? Est em guerra com quem? = 
que parece que Portugal no tem nada a ver com esta merda, 
=porra, parece que a guerra  s connosco!
"Os boches  que tm razo", declarou Vicente, abanando a 
=cabea, desanimado. "Os polticos tramaram-nos e to agor'a 
=lavar as mos. "
Vicente referia-se aos folhetos lanados pelos alemes, 
=informando os homens do CEP sobre a nova poltica de guerra 
de =Sidnio Paes. O Folhetim de Guerra distribudo pelos 
morteiros =inimigos sublinhava nas suas sucessivas edies 
que Sidnio, antigo ministro plenipotencirio de Portugal em 
=Berlim, era um germanfilo que sempre se opusera  entrada 
de =Portugal no conflito mundial e que, aps derrubar o 
governo de Afonso =Costa, tinha travado o projecto de 
constituio de uma terceira diviso para o Corpo 
Expedicionrio =Portugus. Na verso alem, o novo governo 
decidira deixar as =foras na Flandres entregues a si mesmas 
e o melhor era mesmo os =soldados renderem- se.
"Vocs no viram o que se passou com o major Gomes? " atalhou 
=Baltazar. "Pediu licena para ir para Portugal, passou  
frente do =pessoal e partiu. Depois, alegou doena e por l 
ficou. "
"E o coronel Antunes? ", acrescentou Vicente. "Disseram-me 
qu'o =tipo meteu os papis em Aveiro a jurar que tava com 
problemas de =sade. "
"Problemas de sade? ", questionou Matias com um sorriso 
=irnico, voltando a quebrar o seu silncio. "Deve ser 
diarreia. =Ento no se lembram de que o homem se borrou todo 
naquela noite em que as =marmitas quase atingiram o abrigo 
onde ele estava escondido, l em =Marmousse? "
Riram-se todos, deliciados, a relembrarem a cena ento 
relatada =pela ordenana do coronel, o Alfredo, que assistira 
a tudo.
428
"Categoria", exclamou Baltazar, dando uma palmada na coxa. 
"S'o =gaj' d'Aveiro  porqu' cagaru", atalhou Vicente, 
sempre =cido nos seus comentrios em relao aos oficiais. 
="Com' cagaru, n'hora do regresso tambm se deve ter 
cagado, coitado. "
Vrios entre eles j tinham passado pelo mesmo, defecaram nas 
=calas uma ou duas vezes durante um bombardeamento, 
sobretudo depois =das primeiras mortes, no incio, quando o 
som da tempestade de fogo a =desabar em torno de si lhes 
gelava o sangue e libertava os intestinos, problema que, com 
o tempo e a =experincia, aprenderam a controlar. Defecar nas 
calas no =era, consequentemente, algo vergonhoso entre as 
praas, mas apenas um =sinal de inexperincia. No grupo, 
aquele passou a ser considerado um fenmeno natural, =afinal 
de contas eles eram lzudos, viviam na lama como toupeiras, 
partilhavam o rancho com ratazanas =e o sono com piolhos e 
passavam os dias a fintarem a morte, a fugirem =aos snipers, 
a esconderem-se das minenwerfers. Acima de tudo, eram a 
=carne que os canhes esquartejavam. Mas o coronel Antunes 
era diferente, ele era um =cachapim, como quase todos os 
altos oficiais estava habituado a dar =ordens para outros 
morrerem e a pregar sobre o sacrifcio que =terceiros 
deveriam fazer pela ptria, mas desconhecia o que era sofrer 
de medo, aquele medo da morte que =subia pelas pernas fracas 
e secava a garganta, aquele horror paralisante =que se 
espalhava pelo corpo e penetrava no corao, a tempestade de 
granadas a explodirem na alma e a despedaarem a =vontade. 
Era por isso que, quando um cachapim se borrava, todo o 
=lzudo gozava.
Matias recostou-se no seu canto.
" tudo verdade", assentiu o cabo, mirando as unhas sujas. 
"Mas =a maior verdade  que o coronel Antunes passeia-se 
agora em Portugal =no bem-bom e ns ainda aqui estamos. "
Os sorrisos desfizeram-se e todos se calaram, pensativos e 
=resignados. Foi nessa altura que Baltazar comeou a farejar 
o ar com =inspiraes curtas e fortes, como um perdigueiro.
"Vocs no sentem este cheiro a alho? "
"J ts com larica, Velho? ", perguntou Vicente.
429
"Por acaso estou. "
"Mas comemos h uma hora... "
"O que  que queres? Tenho fome e este cheirinho no ajuda. " 
="Tens aqui uma lata de corned-beef. "
"Qual corno-bife qual qu. Um bifinho frito em vinha d'alhos 
= que vinha mesmo a calhar. "
E espirrou.
O capito Afonso Brando abriu a cigarreira prateada que 
=Agns lhe tinha oferecido depois do seu primeiro encontro 
amoroso, =tirou um Kiamil, acendeu-o e ficou de olhar perdido 
no horizonte.
"J viste isto, Cenoura? ", desabafou, sem se voltar para o 
=amigo. "J metem cunhas para sarem daqui. Cunhas. "
O tenente Pinto passou a mo pelo bigode ruivo e sorriu.
"s mesmo ingnuo, Afonso. Do que  que estavas tu  
=espera?"
"At o capito Cabral! "
"Quem me dera ir com ele... "
Afonso largou uma baforada do seu Kiamil e baixou a cabea. 
="Sabes o que  que eu no percebo? "
" O qu?"
" que no haja uma deciso. "
" Que deciso?"
"Uma deciso qualquer, caraas, mas uma deciso". Olhou =para 
o amigo. "Se o Sidnio acha que  de sair da guerra, ento 
=que assuma e vamo-nos todos embora, no estamos c a fazer 
nada. =Se o Sidnio acha que  de ficar, ento que nus envie 
reforos, que crie as condies para =podermos combater com 
eficcia. Agora, isto? Isto no, isto no = nada, isto  no 
querer decidir, isto  fugir s =responsabilidades. "
Pinto suspirou.
"Ai, Afonso, Afonso, parece que nasceste ontem, homem. H 
quanto =tempo te ando eu a dizer que nos metemos numa=20
430
embrulhada, que no estamos aqui a fazer nada? Andamos ns 
=aos tiros e aqueles gajos a gozarem com a malta... "
"A questo no  essa, Cenoura", disse Afonso, dando =meia-
volta para entrar no posto, fazia demasiado frio c fora. "A 
=questo  que andamos aos ziguezagues, ora estamos 
empenhados, ora =no estamos, ora estamos outra vez... ", 
desabafou, gesticulando imenso, =irritado, o tenente Pinto a 
segui-lo para dentro do abrigo. "Assim =ningum se entende. 
Por exemplo, olha para a palhaada do sistema =de licenas. "
"O que  que tem? "
O capito sentou-se pesadamente no caixote de munies que 
=servia de banco e o tenente acomodou-se no catre de arame.
"O que  que tem? O que tem  que  uma vergonha pegada. 
=Primeiro, eram quinze dias. Depois, passou para vinte. A 
seguir, para =trinta. Feitas as contas, estamos em zero 
porque s os oficiais  =que as gozam. "
"Ainda te queixas? Que eu saiba, ainda noutro dia foste gozar 
uma =licena a Paris... "
"Mas o problema, Cenoura, no  os oficiais gozarem 
=licenas, isso  normal e merecido. O problema  que as 
=praas no gozam a porra de licenas nenhumas, e isso  que 
= desmoralizante para os homens. "
"Ests preocupado com eles? "
"Claro que estou, caraas, e tu tambm devias estar. Como = 
que ns, os oficiais, vamos comandar soldados que se sentem 
=gozados, esquecidos e humilhados? Que moral temos ns para 
os =mandarmos para o combate quando, na hora das licenas, 
lhes passamos todos  frente? O que acharo eles destes 
=oficiais que fazem uns arranjinhos para se porem na alheta e 
que, uma =vez em Portugal, vo a uma junta mdica efectuada 
por uns =amigalhaos quaisquer e arranjam mil e uma desculpas 
para no voltarem para =c?  evidente que os magalas podem 
ser analfabetos, mas no =so totalmente estpidos e percebem 
muito bem que so os =nicos que no arranjam maneira de 
sarem daqui. "
"Problema deles. "
431=20
Afonso atirou o Kiamil esgotado para o cho lamacento do 
posto e =esmagou a beata com a bota, certificando-se de que o 
lume se extinguia.
"No  problema deles, no senhor.  um problema nosso, =j 
te disse. Como  que eu=20vou comandar em combate soldados 
que se sentem deste modo esquecidos? =Qual o moral das tropas 
quando a coisa der para o torto? Achas que =consegues lutar 
sozi nho contra os boches? Quando a coisa aquecer, tu 
=precisas dos homens, Cenoura. Se eles no estiverem l ou 
no quiserem combater, chapu, ests =tramado, quilhado. No 
te esqueas disso. "
"Afonso, cada um faz pela vida... "
"Porra, Cenoura, mete na cabea que, com essa mentalidade, 
=ningum vai longe. Temos um quadro de oficiais que  uma 
vergonha, =sempre a conspirarem, a falarem mal de tudo, no 
bota -abaixo, a verem =quandu  que se pem ao fresco. " "No 
so os oficiais que so uma vergonha", cortou o tenente
Pinto, erguendo a voz. "So os polticos que nos venderam, 
=esses Afonsos Costas... "
"Quem  pior? O Afonso Costa, que colocou Portugal nu mapa... 
="... esses Bernardinos Machados. "
"... ou o Sidnio Paes, que abandonou a malta? "
". essa canalha toda dos republicanos e do Partido 
Democrtico. ="
J no se ouviam, um e outro aos berros, cada vez mais alto, 
=ambos nervosos, at que a voz de Afonso acabou por se 
impor,=20
afinal de contas, embora amigos, era ele o capito. "Deixa a 
=poltica de parte", disse finalmente, fazendo um gesto
 para acalmarem a conversa e evitarem aquela parte 
controversa =sobre a qual nunca chegariam a acordo. "Se 
calhar, os polticos =so todos culpados, no sei e no 
interessa para o caso. O qyue =interessa  que pa ra aqui 
fomos mandados e aqui estamos. E, se
aqui estamos, s temos agora duas opes: ou cumprimos bem =a
nossa misso ou ficamos de braos cruzados a falar mal de 
=tudo
e de todos. No sei o que  que tencionas fazer, mas eu sei 
=qual o meu dever. "
"Vais cumprir bem a tua misso", adiantou o tenente com 
=desdm.
"Exacto", assentiu Afonso, optando por ignorar a ironia 
colocada =pelo amigo no tom de voz. "No posso aceitar o 
comportamento que vejo =em muitos oficiais que se esto pura 
e simplesmente a cagar para os =homens, no querem saber se 
eles esto bem, no mostram qualquer interesse em partilharem 
as suas =privaes e sacrifcios, nem sequer em correrem os 
mesmos riscos. Apenas se mostram =preocupados no bota-abaixo, 
em comerem as demoiselles, em andarem nas =passeatas, em 
emborcarem cerveja nos estaminets... "
"Tem graa tu dizeres isso, Afonso", atalhou Pinto com 
frieza. ="Ainda h uma semana estavas tu com uma demoiselle 
numa passeata... "
"No  a mesma coisa", corrigiu Afonso, embaraado. "
em Paris. Agora, o que  mais curioso, =meu caro,  que tu 
falas em partilhar privaes, o que  muito bonito, mas a 
verdade  que j andas a dormir =em palacetes. E, quanto a 
correr riscos ao lado dos homens, eu gostava de saber para 
=que misses j te candidataste tu? "
"Estive a chefiar a operao para expulsar os boches que nos 
=atacaram as trincheiras em Novembro. "
"Isso foi quando eles atacaram, que remdio tiveste tu seno 
=combater. Mas o que eu quero saber  para quantas misses de 
=patrulha e para quantos raides j te candidataste? "
"Sabes muito bem que no tm ocorrido raides nossos. " "Mas 
=tem havido patrulhas todas as noites. Quantas integraste 
tu?"
"No calhou. "
"No integraste nenhuma. Nenhuma, Afonso. As patrulhas so 
=quase exclusivamente constitudas por praas, fazem-se 
dezenas de =patrulhas por noite e raramente h um oficial que 
as comande. =Portanto, no me venhas com tretas e a falar nos 
nossos oficiais que so uma =merda, porque tu tambm s um 
deles.=20
433
Tambm tu passeias demoiselles pela retaguarda enquanto as 
=praas tm de pagar pelas putas do Le Drapeau Blanc, tambm 
tu =dormes em palacetes enquanto as praas se ficam pelos 
palheiros, =tambm tu te abrigas no posto de beto enquanto 
as praas se aguentam  bronca com as marmitas dos =boches a 
carem-lhes nos buracos de lama, tambm tu ficas a ver da 
=primeira linha enquanto as praas tropeam em boches nas 
crateras =traioeiras da Avenida Afonso Costa. No fundo, meu 
caro, s como eu e o =resto do pessoal. S falas  de maneira 
diferente."
Afonso fitou o amigo nos olhos e permaneceu um instante =em 
silncio. Quando falou, falou com =intensidade, com 
convico, a voz tranquila e segura, o olhar sereno e 
determinado.
"Ests enganado, Cenoura", disse. "No sou como vocs e =hei-
de prov-lo."
Levantou-se e abandonou o posto, seguindo em passo firme para 
a =ronda da tarde. Mas a certeza de que iria provar a 
diferena foi-se =esbatendo  medida que caminhava e 
reflectia sobre o pouco que sabia =de si. Bem l no ntimo 
no fazia ideia de como quebrar o medo que lhe tolhia os 
movimentos nos =instantes de puro terror. Tinha conscincia 
de que uma coisa era =falar e outra executar, sabia que, nos 
momentos de aflio, as =suas reaces eram imprevisveis e 
incontrolveis, a emoo toma conta da mente e a animalidade 
=sobrepe-se  humanidade. Quantos homens que passavam a vida 
a =falar de herosmo e a preparar-se
para o grande teste no fraquejavam quando o momento chegava, 
=enquanto outros, tmidos e calados, na hora das dificuldades 
tudo =pareciam superar. O que era afinal a temeridade seno 
fingimento, que =era a coragem seno o medo de se ser 
considerado cobarde? O que era o herosmo seno =um acto 
resultante do
medo social que se sobrepe ao medo animal? E o que era a 
=bravura seno um momento de pura loucura, um gesto insano 
feito para =benefcio alheio e prejuzo nosso?
O major Botelho aproximou a vela para observar melhor os 
olhos do =soldado. Passava das trs da manh quando o grupo 
de
434
praas lhe apareceu no posto de socorros avanados a 
=queixar-se de mal- estar, e o major era o mdico militar de 
=servio. Analisou superficialmente os soldados, eram quatro 
homens e =alguns gemiam. Comeou com o caso que lhe pareceu 
mais agudo.
"Como  que voc se chama? ", perguntou, estudando os olhos 
=inflamados do homem.
"Baltazar, meu major. "
"Como  que voc apanhou isto, Baltazar? "
"No sei, meu major. Estava no abrigo com os meus maradas e 
=comecei a espilrar, a espilrar... "
"A espirrar", corrigiu o mdico.
"Isso. E aqui os meus maradas no mesmo. Depois sentimos o 
nariz e a =garganta assim a arder, uma sensao cada vez mais 
forte, =percebemos que estvamos com gripe. H pouco, 
comearam-nos a doer muito os olhos e a sair ranho do nariz. 
Vieram-me =tambm umas dores na barriga e vomitei antes de 
chegar aqui ao posto. ="
"Quando  que comearam a espirrar? "
"Foi a h umas doze horas, ao incio da tarde, meu major. =" 
"E vocs? ", perguntou aos outros, sem tirar os olhos da 
=inflamao de Baltazar.
"Ns o mesmo, meu major", disse Matias. "Foi na mesma altura. 
A =diferena  que no vomitmos. "
"A mim, para alm da barriga, di-me tambm a cabea", 
=adiantou Vicente.
Abel Lingrinhas apontou para uns pontos na cara e no pescoo.
"Eu tenho aqui umas borbulhinhas. "
O mdico ponderou o caso enquanto limpava os olhos de 
Baltazar =com um algodo molhado.
"Hum", murmurou pensativamente. "Vocs por acaso no 
=apanharam um ataque de gs? "
"No, meu major", negou Matias, enfatizando com um abano da 
=cabea. " gripe. "
435
"Hum", voltou o mdico a murmurar. "Abra a boca. " Baltazar 
=abriu e o major Botelho analisou a garganta irritada. "No 
sentiram =um cheiro a mostarda? "
"No, meu major"
"Nem a alho? "
Os soldados entreolharam-se.
" Bem. "
" Sentiram um cheiro a alho?"
"Sim, meu major. "
O mdico parou de inspeccionar Baltazar e mirou o grupo. "E 
=no puseram as mscaras?
Os soldados baixaram a cabea.
"No, meu major. " O mdico suspirou.
"Burros. Vocs so uns burros. Ento no sabem que =tm de 
pr as mscaras logo que sentem um cheiro a qumicos? =No 
sabem? "
"Meu major", disse Baltazar, a voz submissa. "Ns no 
=cheirmos qumicos. Cheirmos comida"
"Qual comida, qual qu! Vocs apanharam foi com gs =em cima. 
Onde  que estavam quando vos =cheirou a alho? "
"No abrigo, meu major. "
O major Botelho largou os olhos de Baltazar e sentou-se num 
=caixote, junto a uma mesa. Tirou uns formulrios de uma 
gaveta, =colocou-os sobre a mesa e comeou a tomar notas. 
"Quando saram do =abrigo, repararam em algumas granadas 
intactas?"
"Sim, meu major. "
"Como  que elas eram? "
Os homens entreolharam-se, no percebendo a pergunta.
"Bem, eram granadas de ferro, meu...
"No  isso", impacientou-se o mdico. "Estavam pintadas =com 
alguma cor? "
"Sim, meu major", adiantou Matias, o mais observador do
grupo. "Eram granadas de 7, 7 centmetros, de modelo=20
436
comprido, pintadas a azul e com a cabea amarela. Lembro-me 
de =que tinham duas cruzes, acho que uma era verde e a outra 
amarela. "
"Mau, no percebo nada. Verde e amarela ou azul e amarela? " 
"As =cruzes eram verde e amarela, mas as granadas estavam 
pintadas a azul e =amarelo. "
"Azul e amarelo", repetiu o mdico, pegando num grosso 
dossier =que se encontrava numa estante, a capa a indicar 
tratar-se dos =relatrios dos Chemical Advisers do XI Corpo 
britnico. Abriu a =pasta e folheou as pginas. "Azul e 
amarelo. " Virou uma folha. "Azul e amarelo. " Outra =folha. 
Passou os olhos de relance por cada relatrio, apenas atento 
=ao segundo ponto de cada documento, intitulado nature of the 
shells. "Azul e amarelo. " Mais uma. ="Azul e amarelo. " Mais 
outra. "Azul e amarelo... c est. " =Pousou o dedo na linha 
que procurava e leu. "Painted blue with yellow on =top. " 
Tirou a folha e estudou-a com ateno. Levou um minuto a 
analisar o relatrio e a tirar as suas =concluses, mais para 
si do que para os homens. "Pois, estou a ver, =isto  um 
derivado do enxofre com uma elevada percentagem de =clorina", 
murmurou, coando o queixo. Consultou demoradamente o ltimo 
ponto do documento, =referenciado como symptoms of personnel. 
Mais um longo minuto de leitura =e voltou enfim a quebrar o 
silncio. "Pois, pois, est aqui tudo. =Vmitos, olhos i 
nflamados, irritaes na garganta. " Sem levantar a cabea, 
arrancou uma folha =do formulrio e comeou a preench-la. 
"Vou mandar-vos para um =hospital de sangue. " Agora, sim, 
ergueu a cabea e fitou os homens. ="Nomes e nmeros? "
" grave, meu major? "
" grave, ", confirmou o mdico, o olhar carregado. " 
=grave que vocs sejam casmurros que nem umas portas e no 
ponham =as mscaras conforme diz o regulamento. "
"Mas  muito grave? ", insistiu Baltazar, ansioso e com os 
olhos =a lacrimejarem profusamente por causa da inflamao.
"A nica coisa que  grave  que o CEP vai ter de =sobreviver 
sem vocs durante dois dias", retorquiu o mdico, 
=prolongando
437
o suspense. "Quanto s vossas miserveis pessoas, vo =ficar 
toda a noite aflitos, mas amanh, pelo meio-dia, devero 
=estar melhores. Este  um gs tramado porque quase no se 
sente =o cheiro, mas a vantagem  que no faz demasiado mal. 
Vou dar-vos uma baixa de quarenta e oito horas e =depois 
regressam s trinchas. "
"Obrigado, meu major", disseram todos quase em coro, 
aliviados e =momentaneamente sorridentes. No havia melhor 
coisa do que ter uma =baixa devido a um mal que no era 
permanente.
"Vamos l, vamos l", impacientou-se o major Botelho. "Nomes 
=e nmeros?
"Matias Silva, meu major. Nmero 216 "
438
XI
Passava do meio-dia e a manh, como de costume, tinha sido 
=calma. As actividades de ambos os lados das trincheiras 
foram intensas =desde o pr do Sol da vspera, com legies de 
homens a repararem passadeiras, a consertarem o arame farpado 
e a =drenarem as passagens inundadas sob a proteco do manto 
escuro da =noite, enquanto outros patrulhavam a terra de 
ningum ou procuravam alvos na mira das Lee-Enfield, se eram 
portugueses, ou =das Mausers, no caso dos alemes. Quando os 
raios de sol espreitaram =por fim, o astro erguendo-se lenta 
e majestosamente por detrs das =linhas inimigas, j tinha 
decorrido=20o primeiro A Postos desse dia 8 de Fevereiro e 
muitos homens foram-se =deitar. Afonso e Pinto acordaram 
pelas onze, lavaram a cara numa bacia =cheia de gua barrenta 
e imunda, urinaram num canto hmido da trincheira, junto ao 
seu posto de Picantin, e sentaram-se sobre =o caixote de 
munies para comerem o pequeno-almoo que Joaquim =lhes 
trouxera. Engoliram rapidamente a omoleta e as torradas com 
=manteiga, regadas pela tapioca com acar e uma chvena de 
caf forte. Quando estavam prestes a =terminar, chegou o 
tenente Timothy Cook.
439
"Jhat oh, Afonso, old bean", cumprimentou.
O capito ergueu-se, esfregou as palmas das mos nas coxas 
=para as limpar das migalhas das torradas e da gordura da 
manteiga e =apertou a mo ao oficial ingls de ligao.
"Old bean? ", interrogou-se, abafando um arroto. "Por que  
que =me ests a chamar velho feijo, meu sacripanta "
Tim riu-se.
"Voc no ligue,  uma forma amigvel de nos =exprimirmos. " 
O ingls cumprimentou Pinto com um aceno.
"Breakfast? ", perguntou Afonso, indicando o que restava do 
=pequeno-almoo.
"No, obrigado, j comi", indicou Tim. "Bacon com scrambled 
=eggs and baked beans. " Fez um ar satisfeito. "Capital 
breakfast. =Capital. "
"Ento, se  assim, vamos l para a ronda. "
O capito e os tenentes, com a ordenana atrs, desceram 
=pela Picantin Road at  Rue Tilleloy, viraram  direita 
para =apanharem Picantin Avenue, foram chapinhando na lama 
at chegarem = linha B, entraram nela junto ao posto 
avanado Flank Post e seguiram para sul em direco a 
Rifleman's =Avenue, circundando o seu sector em Fauquissart. 
Um ronco distante no cu despertou-lhes a ateno. Pararam e 
=ergueram os olhos. Do lado inimigo vinha o que parecia ser, 
l longe, =uma mosca incmoda, zumbia como uma varejeira, era 
um avio =alemo, as cruzes negras visveis na fuselagem 
apesar da distncia.
"Um Tauber", disse Pinto.
"Que mania que vocs tm de chamarem Tauber a todos os 
=aeroplanos jerries", notou Tim. "Aquilo  um Fokker"
O tenente Pinto olhou-o, desconfiado.
"Como  que sabe? "
"I know, Iad. know"
"O Tim sabe distingui-los", explicou Afonso. "Ele andou no 
Royal =Flying Corps e conhece os aeroplanos todos. Se o Tim 
diz que aquele  =um Fokker, ento, meu caro Cenoura,  
porque aquele  mesmo um =Fokker."
440
O monoplano voava alto, como se quisesse passar despercebido. 
De =repente, e de forma inesperada, alterou o seu 
comportamento. O avio =picou em direco s linhas 
portuguesas, sobre Fauquissart, =parecia que iria abrir fogo.
"Vai largar uma abbora", exclamou Pinto.
Mas nenhuma bomba foi lanada. J perto do solo, =endireitou-
se e sobrevoou as posies do CEP no sentido norte-sul a 
baixa altura. As Vickers e as Lewis =desataram a matraquear, 
tentando atingir o aparelho, mas o Fokker ganhou =altitude 
logo que cruzou Ferme du Bois, l ao fundo. Subiu, deu uma 
=pirueta e voltou a descer sobre as posies portuguesas, 
desta vez no sentido inverso, de sul para norte, =embora no 
disparasse um nico tiro, encontrava-se claramente em =misso 
de observao. Um segundo aparelho irrompeu nessa altura 
sobre as linhas, agora proveniente do lado aliado.
"Um dos nossos", comentou Pinto com satisfao. " Que 
=aeroplano ?", quis saber Afonso, olhando para o tenente 
=britnico.
"Um Sopwith Camel", identificou Tim, de olhos fixos no cu. 
"Um =camelo? "
"Right ho", sorriu o ingls. "Est vendo o formato da 
=carlinga do aeroplano? H quem ache que aquilo parece uma 
bossa, =embora eu no enxergue como. De qualquer modo,  por 
isso que lhe =chamam camel. "
Os trs oficiais e a ordenana ficaram pregados ao cho, =na 
expectativa quanto ao que se iria passar. Os combates areos 
eram =altamente apreciados nas trincheiras, sendo 
considerados o mais =emocionante espectculo da guerra. Em 
vez da morte impessoal e industrial no meio da lama, =com 
massas de soldados a carem varados por balas ou 
esfrangalhados =por granadas e bombas lanadas por inimigos 
invisveis e distantes, os confrontos no ar estavam 
envolvidos numa aura =romntica, os pilotos eram os modernos 
cavaleiros do cu, cheios =de galanteios cavalheirescos e 
elegantes actos de nobreza, os seus =embates areos 
transformavam-se
441
em emocionantes duelos por entre as nuvens, um contra o 
outro, =coragem contra coragem, percia contra percia, um 
vencedor e um =vencido.
As trincheiras agitaram-se em antecipao, viam-se 
indicadores apontados para cima, soldados e oficiais 
chamaram-se =uns aos outros, mais homens abandonaram os 
abrigos e juntaram-se aos que =permaneciam especados a 
aguardarem o duelo. Mas um "oooh!  desapontado =percorreu as 
linhas quando o avio alemo deu meia- volta e fugiu para as 
suas posies, =recusando o combate. O Sopwith Camel ainda o 
perseguiu durante alguns =minutos, mas voltou para trs e 
ficou a patrulhar os cus sobre =Ferme du Bois, Neuve 
Chapelle e Fauquissart.
"Os jerries tm medo dos Sopwith Camel", comentou Tim com um 
=sorriso orgulhoso.
" Porqu?"
"O Sopwith Camel  um aeroplano muito bom", disse. "Mas, 
=ateno, no  para qualquer um.  difcil de pilotar, 
=costuma... como se diz, spin out of control... "
" Ficar descontrolado "
"Yes, fica out of control nos... tight turns? "
" Curvas apertadas. "
"Right ho", confirmou o ingls. "Muitos aviadores pouco 
=experientes morreram nestes aeroplanos. Mas os bons pilotos 
acham que o =Sowith Camel  o melhor aeroplano que existe.  
muito gil e =sobe em grande velocidade.  por isso que os 
grandes ases do Royal Flying Corps os pilotam. Os =jerries 
sabem isso. Da que tenham medo e fujam"
Quando j ningum esperava mais novidades, eis que emergiu do 
=sector de Bois du Biez, nas linhas alems, um segundo avio. 
Os =homens do CEP, muitos dos quais tinham j desmobilizado, 
voltaram a =posicionar-se para assistirem ao grande 
espectculo, agora com a certeza de que o combate era 
inevitvel.
"Oh, blast it! Este  um Albatros D- type", exclamou Tim, 
=referindo-se ao novo aparelho alemo.
442
" E ento?"
" o melhor aeroplano jerry. Voa a cento e setenta 
=quilmetros por hora, tem uma excelente velocidade de subida 
e =est equipado com duas metralhadoras sincronizadas. "
"O que  isso? "
"Metralhadoras sincronizadas? Well, o sincronismo  um 
mecanismo =que permite aos pilotos disparar as metralhadoras 
atravs do... =propeller? "
"Hlice. "
"Right ho. Dispara atravs do... hlice, sem atingir as =ps 
do hlice. "
"Da hlice. "
"Sorry. Da hlice. A hlice est ligada ao gatilho da 
=metralhadora de uma forma que a impede de disparar sempre 
que uma p =fica  frente do cano da metralhadora, de modo a 
evitar que a p =seja destruda pelos tiros. No caso deste 
aeroplano, ele no tem apenas uma, mas =duas metralhadoras 
sincronizadas com os movimentos da hlice. "
"O aeroplano ingls no tem essas metralhadoras? " "Tem. "
"Ento qual  o problema? "
"None whatsoever", disse Tim. "Aqueles so os melhores 
=aeroplanos dos dois lados. Vai ser a jolly good fight "
O Albatros alemo mergulhou em direco ao Sopwith Camel. =O 
confronto parecia iminente, mas o avio britnico deu 
=subitamente meia- volta e, claramente em fuga, comeou a 
ganhar altitude. Os oficiais e os soldados voltaram a 
suspirar de =desapontamento, afinal iam mesmo ser privados 
daquele grande =espectculo.
"O bife est a pisgar-se", protestou Pinto.
"No percebo", admirou-se Afonso.
"O gajo acagaou-se, o que  que queres? "
O tenente ingls permaneceu calado, um rubor envergonhado a 
=encher- lhe a cara enquanto via o Sopwith Camel em
443
fuga. O aparelho britnico escondeu-se numa nuvem, mas o 
=alemo no desistiu e, sempre no encalo, foi procur-lo =l 
em cima. Quando o Albatros passou pela nuvem, o Sopwith 
=Camel saiu disparado na sua direco, como se se fosse 
esmagar no =inimigo, endireitou-se no ltimo instante, mesmo 
por cima do alemo, e largou uma bomba. O Albatros explodiu 
em pleno ar, foi envolvido =pelas chamas e comeou a cair. Um 
novo "oooh! ", agora emocionado, =ergueu-se das trincheiras. 
O avio atingido mergulhava velozmente em =direco ao solo, 
libertando um rasto de fumo negro, mas, quando todos 
=esperavam o impacto, eis que o piloto alemo conseguiu 
controlar o =aparelho e, apesar de ele estar envolto em 
lnguas de fogo, curvou =para leste e tentou lev-lo de volta 
para as linhas alems. Os homens nas trincheiras =sustiveram 
a respirao, colados ao esforo titnico do =piloto inimigo. 
J perto do solo, ainda sobre as linhas aliadas, os =soldados 
viram uma figura tombar do aparelho fumegante, parecia uma 
bala disparada para baixo, a =corrida abruptamente 
interrompida quando se esmagou no cho. Logo a =seguir, o 
avio, j sem piloto, inclinou o nariz, desceu com rapidez e 
embateu =violentamente na terra, rolando e rolando, era agora 
uma bola de fogo a =desconjuntar-se, uma massa ardente a 
esfrangalhar-se, um bloco de lava a =rodar no cho, 
incandescente. O silncio abateu-se momentaneamente sobre as 
trincheiras, os homens =mostravam-se petrificados com a cena. 
Quando os destroos flamejantes =do Albatros se imobilizaram 
junto s paredes de umas runas, levantou-se uma salva de 
palmas das linhas portuguesas, eram os =lzudos, no a 
festejarem a morte do inimigo, mas a =homenagearem-no no seu 
ltimo voo de valente.
"O bife enganou-o bem", comentou o tenente Pinto, dando meia-
volta =para prosseguir a ronda.
"Enganou-o a ele e a ns", corrigiu Afonso, os olhos pregados 
no =cho  procura das partes menos enlameadas onde assentar 
os =ps. "Pensmos que se ia pr ao pira, e afinal. "
A actividade recomeou nas trincheiras. Uma metralhadora 
=alem abriu fogo  esquerda, o matraquear claramente 
audvel, e
444
a artilharia portuguesa respondeu com dois disparos de um 
morteiro =pesado, pelo som todos identificaram um calibre de 
quinze =centmetros, provavelmente um morteiro Hadfields. Os 
trs oficiais =e a ordenana encolheram-se um pouco mais na 
linha B, mas, tirando essa postura =reflexiva, prosseguiram 
como se nada se passasse.
"O boche no estava nada  espera de levar com a bomba", 
=considerou Pinto. "Teve uma morte chata, a cair assim ao 
cho. "A =alternativa era pior, believe me", explicou Tim. 
"Os pilotos morrem =normalmente por trs razes. " Ergueu 
trs dedos da mo esquerda  medida que enumerava as razes. 
"Ou =so metralhados pelo inimigo, ou se esmagam no solo, ou 
morrem =carbonizados vivos dentro dos aeroplanos. A morte 
pelas chamas  a pior. " Fez uma careta. "Ghastly! " Bateu 
com a palma da mo =direita no coldre. "Muitos pilotos levam 
sempre uma pistola  cintura =e, se o aeroplano se incendeia 
e eles vem que no podem escapar, =do um tiro na cabea. "
"A srio? " "No shit. "
Sempre a comentar as incidncias do emocionante duelo areo, 
=ainda mais dramtico do que aqueles a que habitualmente 
assistiam =todos os dias das linhas, chegaram a Rotten Row e 
viraram para dentro, cruzando a Rue Tilleloy e prosseguindo 
pela =Regent Street at  Rue du Bacquerot, donde voltaram 
para a =direita at Picantin Road, regressando ao posto 
depois de passarem pelas redes de =arame farpado. Picantin 
Post era um pequeno reduto de perfil elevado, =com duas 
posies descobertas para metralhadoras e um paiol e =ainda 
trs abrigos pequenos. Tinha capacidade para uma guarnio de 
cem =homens e era defendido exteriormente por trs abrigos 
para =metralhadoras pesadas Vickers, construdos em tijolo e 
ferro e  =prova de estilhaos, com seteiras viradas para a 
estrada e para Picadilly Trench. A sua =importncia era 
enorme, uma vez que defendia o acesso mais curto e =directo 
das primeiras linhas at Laventie, sendo por isso normal que 
=se vissem ali 445
bastantes homens. Mesmo assim, Afonso notou um estafeta que 
se =encontrava sentado  entrada do abrigo de Picantin. 
Quando os viu =aproximarem-se, o soldado ergueu-se num pulo e 
fez continncia.
"Capito Afonso Brando? "
" Sim "
"Com a sua licena, meu capito, o tenente-coronel Mardel 
=deseja falar consigo. "
Eugnio Mardel era um dos mais altos oficiais da Brigada do 
=Minho, o homem que assumia o comando da brigada sempre que o 
comandante =se ausentava. Se Mardel o chamara, raciocinou 
Afonso, era porque havia =novidades, e das grandes.
"Onde est o senhor tenente-coronel? "
"Em Laventie, meu capito. "
Afonso entrou no abrigo, pegou na mquina de escrever e 
=colocou-a sobre o caixote que lhe servia de mesa, sentou-se 
no banco, =colocou duas folhas com papel qumico no meio para 
fazer uma cpia =e redigiu apressadamente o relatrio da sua 
companhia sobre as ltimas vinte e quatro horas no sector =de 
Fauquissart. Sabia que Mardel iria querer ver o documento e 
no =tencionava desapont-lo. A redaco do texto obedecia a 
um =formato previamente estabelecido e o capito apenas 
precisou de meia hora para o concluir. Quando acabou de 
=dactilografar o texto, releu tudo, fez duas pequenas 
correces =com a caneta, assinou, dobrou o documento, meteu-
o no bolso do casaco e =saiu.
"Vamos l", disse ao abandonar o abrigo. "Pinto, substitui-me 
no =posto. At logo, Tim. "
"Cheerio, old bean. "
No eram as dores nos msculos que incomodavam Matias, mas o 
=cansao e, sobretudo, a indisposio geral que o deixavam 
=prostrado. O cabo permaneceu encostado ao parapeito e 
aspirou com =fora o Xoodbine que tinha nas mos, tratava-se 
do mais baratucho dos cigarros ingleses, embora servisse 
=perfeitamente
446
para o fim em vista. Sentiu o fumo invadir-lhe os =pulmes, 
tentou descontrair as costas e expirou devagar, libertando um 
acre =sopro cinzento.
"Como  que achas que ficou o corpo do tipo? ", perguntou 
=Baltazar, sentado ao lado a limpar a Lee-Enfield.
"Quem? O gajo do aeroplano? "
" Sim. "
"Deve estar esfrangalhado, no ? "
Matias sentiu a acidez do vmito ainda presente na garganta e 
=voltou a chupar o Xoodbine para tentar tirar aquele gosto 
azedo da boca. =A noite no tinha sido fcil. Trs dias 
antes, um homem do 8 =fora abatido na terra de ningum, junto 
a Bertha Trench, durante uma patrulha nocturna, e os 
=companheiros fugiram desordenadamente, deixando-o para trs. 
Nas =noites seguintes foram organizadas patrulhas para o 
localizar, mas =apenas na madrugada anterior conseguiram 
enfim detect-lo. Matias integrou esta ltima patrulha e foi 
o cheiro nauseabundo =de um cadver em putrefaco, um odor 
que lhe lembrava a =pestilncia libertada por batatas podres, 
que o atraiu para o local onde afinal =se encontrava o corpo 
do homem perdido. Deu com ele dentro de uma =cratera, 
semimergulhado em guas ftidas,  esquerda do sector 
=portugus, j na rea patrulhada habitualmente pelos 
ingleses estacionados =em Fleurbaix. Depois de atingido, 
deve-se =ter desorientado e arrastado at aqui, raciocinou 
Matias, reconstituindo mentalmente o =itinerrio do soldado 
moribundo. No admira que as patrulhas =no o tenham 
encontrado, pensou ainda, est muito longe do =stio onde se 
deu a escaramua. O cabo inclinou-se sobre o cadver para o 
levantar, mas congelou o =gesto ao ouvir um rudo e sentir 
actividade a seus ps. Levou um =instante a perceber que eram 
ratazanas a arrancarem pedaos de carne do morto. O cheiro 
era aqui forte, imundo, repugnante. =Afugentou os roedores 
com a coronha da espingarda, colocou a Lee-Enfield =a 
tiracolo e, vencendo o nojo, pegou no corpo, sentiu-o hirto e 
=endurecido, caminhou umas dezenas de metros na
447
escurido, sempre a tentar conter a respirao, no 
=conseguiu, o peso do cadver f-lo arfar, a pestilncia 
=invadiu-lhe as narinas, sentiu o estmago revoltar-se, 
deixou cair o morto, inclinou-se para a frente e =vomitou. O 
barulho atraiu as atenes do resto da patrulha. Com 
=sussurros mal contidos, os outros soldados vieram ajud-lo a 
=transportar o corpo pelo caminho de lama at s linhas 
portuguesas. Disseram a senha  sentinela e caram na =linha 
da frente portuguesa, aliviados. Pousaram o cadver no cho 
=e sentaram-se no parapeito, derreados e arquejantes, a 
recuperar o =flego. Minutos depois um dos homens levantou-se 
e foi  procura dos maqueiros, deixando os restantes a 
=descansar. A certa altura, j recuperados, veio-lhes a 
curiosidade de =conhecerem o rosto do morto que tinham 
resgatado  terra de ningum. Acenderam uma lanterna e Matias 
observou de relance a figura =estendida no estrado da 
trincheira. O cadver estava inchado, a pele =amarelo-
acinzentada, um brao voltado para cima, hirto, congelado 
=naquela posio, os olhos vidrados e revirados para cima, 
partes dos lbios e da =face tinham sido arrancadas, 
presumivelmente pelas ratazanas, revelando =a dentio, via-
se ali o incio da caveira. O cabo vomitou uma =segunda vez.
"No vai estar pior do que o tipo que foste buscar", comentou 
=Baltazar.
Matias olhou-o sem compreender.
" Quem?"
"O boche do aeroplano, caraas! ", exclamou o Velho, 
=enervando-se com o ar ausente do amigo. "Se acabou de 
morrer, no =deve cheirar to mal como o outro, pois no? " 
Admirou a sua =Lee-Enfield, j limpa e oleada. "Bem, a 
verdade  que, estando esfrangalhado no cho, deve ter as 
tripas de fora. E as =tripas cheiram a merda, no ? "
O cabo mirou o parapeito com o olhar perdido no infinito e 
acabou o =Woodbine. Enterrou a ponta do cigarro na lama e 
atirou a beata para =longe.
"Sabes qual foi o primeiro morto que eu vi, Baltazar? "
448
" Hum."
"Quando eu era mido, tinha uns catorze anos, havia uma gaja 
=l no bairro, em Palmeira, que era casada com um marinheiro. 
" Afagou =as patilhas. "Chamava-se Maria do Cu. Era mulher 
a para uns trinta anos. Tinha uma cara larga e muito rosada, 
com uma =verruga debaixo do olho. No era bonita, mas tinha 
umas mamas do =camano. Aquilo  que eram umas valentes 
catrinas "
" Era um almazem?"
"Um almazem, no direi, mas tinha um ar bem constitudo. " 
=Fez uma pausa, como se estivesse a recordar algo. "Um dia, a 
tipa veio =ter comigo. Eu j era um matulo e na altura 
trabalhava na terra para quem me pagasse. Pois ela veio e 
=disse que me queria contratar para trabalhar todas as manhs 
no seu =quintal, tinha uma horta para tratar e o marido 
andava l nos barcos. =De modo que fui. " Coou o nariz. 
"Aquilo no tinha nada que saber. Havia para l umas 
=batatas, umas couves, uns tomates, uma macieira, tudo com 
trementelos = volta, e no canto estava uma cerca com uns 
marranos e umas =galinhas. Era tudo um pouco acanhotado. Fui 
para l trabalhar naquilo e a tipa no me largava, abacou ali 
e ficou a =topar-me. Pensei que era desconfiada. Ol, disse 
c para mim. =Ento no  que a gaja me est a vigiar? Senti-
me um bocado =escamado, caraas, a coisa abuzinou-me um 
pedacito. Ao segundo dia ps-se-me a fazer =perguntas. Queria 
saber se eu tinha namorada, se era muito ribaldeiro, =se j 
tinha dado bocaringas a algum, coisas assim. Fiquei assim 
=um bocado envergonhado, aquilo no eram conversas para ter 
com uma mulher, no ? Passado um =pedao desta conversa, a 
gaja disse que queria mijar. Levantou a saia = minha frente 
e ps-se a reinar, via-se a breixa e tudo. "
"Categoria. "
"Enquanto reinava, ela olhava para mim. Gostas de me ver a 
mijar? =perguntou-me a tipa. Fiz que sim com a cabea e senti 
a minha =mingalha crescer dentro das calas, foi como se o 
mazpio
449
tivesse acordado ao ouvir aquela pergunta. Acho que percebi 
ali o =que a gaja queria. Era uma rifeira bem melada. Ela 
topou que a minha =mingalha estava toda bazulaca e aproximou-
se. Despiu a camisola e deixou =as catrinas ao lu, aquilo  
que eram uns meles do catano, nunca tinha visto coisa to 
boa. =Estavam um pouco descados e tinham uns mamilos muito 
largos, =avermelhados, com a ponta tesa. Tirou-me as calas 
devagarinho e =agarrou-se com a boca ao mazpio. "
"Ena! Categoria! S eu  que nunca tive vizinhas assim 
=caraas. "
"De modo que, sempre que eu ia trabalhar para casa da Maria 
do =Cu, era para a brincadeira. Ela ensinou-me tudo o que 
havia para =aprender e era danada para as pinadelas, no 
havia dia nenhum que =no pedisse o saarugo. Mesmo quando 
andava chanfanada queria ir ao castigo, largava =sangue por 
todo o lado, parecia um marrano em dia de matana, mas a 
=tipa no se ficava, gozava o prato todo. S havia ali uma 
coisa =que era estranha. Ela fazia questo de que eu s l 
fosse de manh.  tarde, no. S de =manh. De maneira que 
andei um ano na vadiagem todas as manhs por =conta da fome 
da Maria do Cu. " Matias cuspiu para o cho, =tentando 
expulsar os ltimos traos do sabor cido do vmito. "Um dia, 
o marido voltou e eu deixei =de l ir. O homem veio para 
ficar uns dias. Ao fim de uma semana =houve um grande 
rebolio, as vizinhas a chamarem  da guarda,  =da guarda. O 
tipo tinha morto a mulher. "
"Ah! ", exclamou Baltazar, quase chocado. "No me digas que 
ele =soube que a gaja andava metida contigo."
"Comigo, no. Mas, pelos vistos, percebeu que havia homens a 
=irem ali a casa. O marinheiro foi preso e eu fui l pela 
ltima =vez. Encontrei uma multido  porta, as mulheres 
todas na conversa, pareciam umas galinhas tontas, e =o corpo 
da Maria do Cu deitado no cho, numa poa de sangue. O =tipo 
esfaqueou-a toda, viam- se golpes no peito e na barriga, uma 
=tristeza. "
"E depois? "
450
"E depois, nada. Foi a primeira pessoa que eu vi morta, s 
isso. =" Ouviram um sibilo crescente, encolheram a cabea e 
sentiram a =exploso da granada duzentos metros atrs. 
Voltaram-se para verem =o penacho de fumo e poeira ascender 
ao cu e, aps uma hesitao, Matias mirou o amigo de novo. 
"Fez-me =um pouco impresso v-la assim morta, parecia uma 
boneca, custava =at imaginar que aquele corpo parado, que 
agora no reagia  =minha presena, era antigamente uma 
fogueira esfaimada, nunca ficava quieto. Mas o =que achei 
mais estranho  que no senti coisa alguma c dentro. =Tive 
pena, claro, at rezei por ela, era boa moa. Uma rifeira do 
=camano, mas boa moa. S que a gaja finou-se e isso no me 
abuzinou, nem sequer fiquei =agnico. " Tirou das calas o 
mao de fJoodbine. "Vai um =xagrego?"
"D c. "
Matias estendeu um cigarro ao amigo e tirou um outro, que 
colocou =na boca.
"Um ano depois,  conversa com um rapaz meu vizinho, o 
=Loureno, vim a descobrir uma coisa do caraas. "
"O qu? "
"A certa altura falmos, nem sei porqu, mas falmos na 
=Maria do Cu. O tipo fez um ar comprometido e, assim meio a 
medo, =contou-me que foi ela quem o levou pela primeira vez 
ao castigo. " =Raspou um fsforo e acendeu o cigarro, 
libertando a primeira nuvem de fumo. "Era =sempre s 
tardinhas. "
Afonso e Joaquim seguiram o estafeta, o capito algo nervoso 
com =a convocatria que acabara de receber. Percorreram de 
novo a Picantin =Road e foram apanhar a Rue du Bacquerot, 
flectiram para sul e, logo =junto a Red House, viraram  
direita para Harlech Road. Antes de chegarem  Rue de 
Paradis, voltaram = esquerda e entraram em Laventie, 
dirigindo-se para o edifcio =onde se encontrava sediado o 
quartel-general da brigada durante o =perodo em que a fora 
minhota permanecesse naquele sector de Fauquis
451
sart, na ponta norte das linhas portuguesas. O estafeta foi  
=sua vida e Afonso dirigiu-se ao graduado do edifcio e 
indicou que =vinha falar com o tenente-coronel Mardel. O 
graduado pediu-lhe a =identificao, mandou-o esperar e 
voltou instantes depois, apontando-lhe a porta entreaberta. 
Afonso espreitou e viu =Mardel.
"O senhor tenente-coronel d licena? "
"Meu caro capito", exclamou Mardel efusivamente, erguendo-se 
da =cadeira onde trabalhava e vindo ter  porta. "Bons olhos 
o vejam. "
Afonso fez continncia e depois apertaram as mos. "Vim assim 
=que fui convocado. "
"Obrigado, obrigado", agradeceu Mardel, indicando outra 
cadeira. ="Sente-se, sente-se. Esteja  vontade. "
O capito acomodou-se na cadeira, disfarando o nervosismo e 
=tentando acomodar-se o melhor possvel. Mardel instalou-se 
no lugar =donde se erguera.
"Quer caf? ", perguntou o tenente- coronel, recostando-se na 
=sua cadeira.
"Sim, se faz favor. "
Mardel voltou-se para a porta do abrigo.
"Duarte", chamou.
A cabea do graduado assomou  entrada.
"Sim, meu tenente-coronel? "
"Traz a dois cafs. Quentinhos, h? " "Imediatamente, meu 
=tenente-coronel. "
O graduado retirou-se e Mardel voltou- se para Afonso. "Ento 
=como vo as coisas?
"Vai-se andando", respondeu Afonso. Ps a mo no bolso e 
=retirou o relatrio das ltimas vinte e quatro horas, sabia 
que =era um documento lido com muito interesse pelo Alto 
Comando. "Quer o =relatrio? "
"Afirmativo", disse Mardel, estendendo a mo. "Mostre l. " O 
=tenente-coronel pegou na folha, abriu-a e leu-a com ateno. 
="Pelos vistos, uma patrulha detectou problemas no arame dos 
boches", =disse com um sorriso.
452
"Sim, meu tenente-coronel", assentiu Afonso. "No sector de 
Wick =Salient. "
"Uma coisa a explorar", comentou cripticamente. O graduado 
entrou =no gabinete com duas chvenas fumegantes e uma 
caixinha de =acar numa prateleira, colocou o caf na mesa e 
retirou-se. Os =dois oficiais mergulharam o acar no caf, 
mexeram-no e tragaram um golo.
"Ah, maravilha", exclamou Mardel.
"Uma delcia", concordou o capito, sentindo o travo quente e 
=aucarado do caf a adoar-lhe a boca.
Mardel pousou a chvena.
"Viu o combate areo de h pouco? "
"Sim, meu tenente-coronel. Foi renhido. "
"Afirmativo. L renhido foi", concordou Mardel. "Mas sabe o 
que = verdadeiramente relevante no que vimos no cu? "
"A vitria do aeroplano ingls, meu tenente-coronel? " 
="Negativo, capito. Isso foi agradvel, mas no o mais 
=importante. O mais significativo foi o comportamento do 
primeiro =aeroplano boche. No reparou em nada de estranho, 
capito? "
"Ele fugiu quando viu o aeroplano ingls. "
"Negativo. Isso  relevante, mas no  o mais estranho. O 
=que  verdadeiramente inslito  que ele no abriu fogo 
=sobre as nossas linhas. Sabe certamente o que isso 
significa. "
Afonso ajeitou-se na cadeira, desconfortvel com o mtodo de 
=questionrio sucessivo, sentia-se de regresso  escola 
primria =de Rio Maior, onde era forado a responder s 
perguntas do =professor, s que desta vez no era Manoel 
Ferreira a test-lo com a cartilha Joo de Deus, mas =o seu 
superior hierrquico.
"Estava em observao", disse finalmente, esperando acertar. 
="Afirmativo. A sua misso era a de observar as nossas linhas 
do ar, =provavelmente tirando fotografias. E foi certamente 
por isso que evitou =o combate, o confronto no era a sua 
misso. Mas sabe o que  que me anda realmente a perturbar, a 
mim e a =todo o comando do CEP? "
453
"No, meu tenente-coronel. "
"O que nos anda a perturbar  que estamos a notar um 
crescente =interesse dos boches em ns. Aumentaram as 
patrulhas inimigas, aparecem cada vez mais aeroplanos de 
=observao, vem-se oficiais boches a observarem-nos de 
=binculos. Enfim, esto a estudar-nos e ns comeamos a 
=ficar nervosos "
"Os boches esto a estudar o CEP? "
"Afirmativo, capito. "
"E sabe qual o objectivo? "
"Negativo. Presumimos que queiram fazer um raide, mas isso 
somos =ns a falar. A verdade  que no sabemos. "
Bebericaram mais um golo do caf, o capito estranhando a 
=linguagem telegrfica que preenchia o colorido lxico do seu 
=superior hierrquico. Afonso pousou a chvena e pronunciou 
aquela =que suspeitava ser a frase-chave da conversa.
"Vamos ter de saber o que se passa. "
"Afirmativo, capito", concordou Mardel, desta vez com 
=solenidade, acentuando a palavra "afirmativo" e 
pronunciando-a de forma =pausada. O tenente-coronel inclinou-
se ento para a frente e cravou =os olhos no seu 
interlocutor. "H j alguns dias que andamos a pensar nisto, 
mas o comportamento do primeiro =aeroplano boche desfez todas 
as dvidas e tommos uma deciso =final. Temos de efectuar um 
raide s linhas inimigas e quero que =voc prepare o plano "
"Eu, meu tenente-coronel? Porqu eu? "
" Por que no voc? Tem medo?"
A pergunta foi formulada em tom de desafio, de provocao, de 
=teste  sua masculinidade, e Afonso percebeu que no tinha 
=opes. O capito suspirou.
"Medo temos todos, meu tenente-coronel. Mas terei muito gosto 
em =preparar esse plano e execut-lo. "
O rosto de Mardel abriu-se num sorriso largo.
"Sabia que podia contar consigo, capito Brando", disse. 
="Irei comunicar ao general Simas a sua disponibilidade, ele 
vai ficar =satisfeito. "
454
O general Simas Machado era o comandante da 2. a Diviso e, a 
=par do general Gomes da Costa, da 1. a Diviso, respondia 
apenas =perante o general Tamagnini Abreu, o comandante do 
CEP.
"E o major Montalvo? ", perguntou Afonso, preocupado em no 
=passar por cima do comandante de Infantaria 8, no queria 
problemas =com o seu superior hierrquico.
"Falei com ele h pouco e pedi-lhe para me dar a honra de ser 
eu =a convid-lo para preparar o raide", disse Mardel. "Como 
v, ele =acedeu. "
"Muito bem", disse o capito. "Qual o objectivo tctico da 
=operao?"
"O plano tem trs objectivos", enumerou Mardel, sempre 
=telegrfico, levantando os dedos um a um. "Um, capturar 
prisioneiros =para obter informaes. Dois, mostrar ao 
inimigo capacidade de =combate. Trs, elevar o moral das 
nossas tropas. "O moral das tropas? "
"Afirmativo. Como sabe, o pessoal anda h demasiado tempo nas 
=linhas e est a ficar saturado. Lisboa no manda reforos e 
=no temos maneira de darmos descanso aos homens.  falta de 
=melhor, pode ser que um espectacular golpe de mo anime a 
malta. "
"Estou a ver", disse Afonso sem grande convico. Engoliu o 
=ltimo trago de caf e pousou indolentemente a chvena. 
"Para =quando quer esta operao? "
"Para daqui a um ms", indicou Mardel. "No tenha pressa, 
=estude bem as coisas, observe o terreno, procure os pontos 
fracos do =inimigo, estabelea procedimentos. Estamos no 
final da primeira =semana de Fevereiro e voc tem de preparar 
bem os pormenores do raide, a executar na primeira =semana de 
Maro, mais coisa menos coisa. Quando tiver tudo estudado, 
=venha ter comigo para ratificao. "
O tenente-coronel ergueu-se da cadeira e Afonso imitou-o. 
Mardel =estendeu a mo, despediram-se e o capito saiu do 
posto de =Laventie e regressou pensativamente ao seu abrigo 
de Picantin, os olhos =perdidos num ponto infinito de 
preocupao.
455
XII
Agns sentia-se cansada. Apesar disso, fez um esforo para
manter um ar sorridente ao passar pela enfermaria. Tinha 
=permanecido a noite toda de servio e o seu turno 
aproximava-se do
fim, mas havia que manter uma aparncia fresca perante os 
=pacientes, era importante para o moral dos convalescentes. 
Alm do =mais, gostava do trabalho que fazia, desde que a 
guerra comeara
nunca se sentira to til, to necessria, to =empenhada na 
vida,=20
 abraava o cansao com fome de trabalho, com a alma 
=inteiramente dedicada  tarefa em mos, o sonho de infncia 
=concretizava-se, era finalmente Florence Nightingale, um 
anjo de =conforto a pairar num antro de dor e sofrimento.
A mudana que se operara na sua vida devia-a ao seu capito.
Graas a uns cordelinhos mexidos por Afonso, entrara havia 
uma
semana ao servio no Hospital Misto de Medicina e 
Cirurgia,=20
bem na retaguarda, escapando ao tdio do quartel-general de 
St. =Venant e aos incmodos avanos do tenente Trindade 
Ranhoso. O =capito tentou inicialmente coloc-la num dos 
dois hospitais de
sangue, o hospital n. 1, em Merville, ou o hospital n. 2, =em 
St. Venant, ambos constitudos por oito tendas e com 
capacidade para duzentos pacientes, mas =Agns tinha feito 
questo de ir para
456
o mais longe possvel do Ranhoso e o Hospital Misto parecera-
lhe =adequado. Adaptara-se facilmente ao trabalho, e os 
pacientes a ela, =no era comum ver uma mulher daquela beleza 
a cirandar entre a =soldadesca, uma palavra amvel aqui, uma 
festinha ali, um sorriso cativante acol, a sua simples 
=passagem pela enfermaria era um tnico maravilhoso para os 
acamados. =Embora tivesse estudado para ser mdica, via-se no 
papel de =enfermeira e desempenhava-o com gosto e dedicao. 
No falava portugus, mas os soldados desembrulhavam-se =no 
patusco patois das trincheiras e isso parecia chegar. Moi pas 
bonne, =mademoiselle bonne, boches mchants, eram frases que 
faziam agora =parte do seu quotidiano de dilogos.
Agns cruzou apressadamente a enfermaria nessa manh porque 
=tinha sido informada pelo contnuo de que um oficial se 
apresentara = porta do hospital para falar consigo. Presumiu 
que se tratava de =Afonso, que o seu portugus estava de 
regresso das trincheiras, mas havia tambm a pavorosa 
=possibilidade de ser uma m notcia, um amigo do amante com 
a =terrvel novidade, temia todos os dias que o que se 
passara com Serge viesse a repetir-se com =Afonso, um correio 
desconhecido com um telegrama negro a destruir-lhe a =vida, e 
o pensamento encheu-a de ansiedade, de inquietao. Quase 
=correu at  porta, o corao aos pulos, em sobressalto.
Ao chegar  entrada, estacou debaixo da aduela e suspirou de 
=alvio, viu-o sentado num degrau, o bon nas mos, os olhos 
=fechados e a cabea inclinada para trs de modo a melhor 
receber o =ar fresco da manh, deixando-se embalar pelo 
meloso ruflar dos beija-flores e pelo =cantarolante gorjear 
das cotovias que esvoaavam pelas tlias do =jardim. Murmurou 
de olhos cerrados uma breve prece de agradecimento e =correu 
finalmente para ele, abraou-o e beijou-o, dividida entre o 
alvio de o ver so e salvo e o =dever de manter uma postura 
respeitvel no permetro hospitalar.
"Tu m'as manqu", soprou-lhe ao ouvido.
"Mon petit choux", foi tudo o que ele conseguiu dizer no 
calor do =abrao.
457
"T'es bien? "
Ele fez que sim com a cabea. Sentiu-lhe a delicada 
=fragrncia
de Chypre e sorriu, era o perfume que lhe tinha oferecido em
Paris. A francesa afagou-lhe os cabelos e, desprendendo-se 
devagar, =pegou-lhe na mo e puxou-o.=20
"Viens, anda ver a minha enfermaria.
Afonso deixou-se levar, deslizando pela porta de entrada 
atrs =de
Agns. O suave aroma de Chypre desapareceu de imediato e, em 
sua
substituio, o capito notou o cheiro a ter e a 
=desinfectante a
 pairar no ar. O hospital revelava-se-lhe feio e frio, feito 
de =compridos corredores de chapa zincada e canelada, tudo 
metlico e =negro, pintado a piche. O soalho, constitudo por 
madeira encerada ou
envernizada, rangeu quando o pisou; a luz entrava a jorros 
por
janelas abertas em pestana na chapa de zinco. As moblias 
eram
 de ferro e vidro, num estilo art nouveau rudimentar, aqui um 
jarro
de begnias ou de rosas perfumadas, ali uma revista pregada 
na
parede com uma beldade estampada na capa. Via-se muito 
movimento =pelos corredores, uma azfama de enfermeiros, um 
punhado de =mdicos e muito pessoal auxiliar, uns para aqui e 
outros para ali, atarefados e apressados, observados por 
=pacientes silenciosos, alguns tossiam aflitivamente, cinco 
ou seis =balouavam
nas cadeiras os cotos amputados das pernas e dos braos.
"Hoje  dia de evacuao", explicou ela. "Vamos mandar 
=pacientes para o hospital de Hendaya, de modo que isto est 
agora um =pouco catico. "
"Se calhar, era melhor eu vir visitar isto noutro dia...
 "No, fica. S daqui a duas horas  que vo aparecer =os 
camies para levarem os pacientes  estao. "
Estao?"
"Sim, claro. Hendaya fica junto  fronteira espanhola.
"Mas isso  longe!"
"Oui. No se percebe bem por que razo o exrcito =portugus
colocou em Hendaya o seu principal hospital. Mas, voil, 
mesmo assim.
Chegaram a uma porta e ela largou-lhe a mo.
458
"Esta  a minha enfermaria", anunciou com intensidade. "Todos 
os =pacientes que aqui esto so tuberculosos. " Levantou o 
indicador. ="Agora presta ateno. Nesta enfermaria, eu no 
sou a tua =Agns, sou a enfermeira que no s ajuda os 
acamados como at alimenta os seus sonhos, as suas 
=fantasias, sobretudo a sua vontade de ficarem bons. 
Portanto, nada de =intimidades perante os doentes, ouviste? "
" Bem. "
"Ouviste? " "Uh... sim. "
Feito o aviso, e parecendo dar-se por satisfeita com a 
titubeante =resposta, empurrou a porta e entrou na enfermaria 
com Afonso no =encalo. Era uma sala grande e bem iluminada, 
com camas dispostas em =fila, lado a lado, de uma ponta  
outra, um corredor de passagem pelo eixo central da 
enfermaria. =Agns seguiu por esse corredor, o capito quase 
encostado a si, ao lado. O ar enchia-se de tosse, tosse 
=persistente nuns casos, tosse seca noutros, alguns com 
pequenas bacias =na mesinha de cabeceira para a deitarem a 
expectorao, uns poucos a gemerem fracamente. A enfermeira 
francesa, com ar muito =profissional, indicou um paciente que 
dormitava  esquerda.
"Este est muito fraco, tem febres constantes, no sei se se 
=safa. " Apontou para o do lado direito, que tossia 
consecutivamente. ="Aquele vai um pouco melhor, mas tambm 
parece tremido. " O seguinte =da esquerda, com uma perna 
engessada. "Este=20 um caso curioso. Foi para a ala dos 
traumatizados, um estilhao =quase lhe levou a perna. Quando 
estava a recuperar, apanhou a =tuberculose. Vai-se 
aguentando. "Mademoiselle", chamou um, do lado =direito. "Moi 
pas bonne. Massage, sirv' pur. "
"S'il vous plait", corrigiu Agns.
"Sirva o pur", insistiu o paciente.
"Aprs, Lus, aprs", retorquiu a enfermeira. Voltou-se =para 
Afonso e riu-se. "Este  um brincalho, diz que vai casar 
=comigo quando a guerra acabar. "
459
"Ah ?"
 No fiques com cimes, mon petit mignon", sorriu Agns.
 "Ele est quase bom e vai ter alta em breve, de modo que no
volta a pr-me os olhos em cima. "
O capito no gostou, mas permaneceu calado. Sabia que era
inevitvel que a sua francesa, bonita como era, atrasse 
=piropos num mundo de homens famintos de fmeas. Custou-lhe 
mais ver =isso acontecer  sua frente, mas aguentou-se, no 
teve outro =remdio, estava fora de questo ir esbofetear o 
paciente atrevido.
"O que mais no falta por aqui so brincalhes", =acrescentou
ela, aps uma breve pausa. Tirou do bolso um papel bem
dobrado e exibiu-o a Afonso. "Ests a ver isto?  uma carta 
=que um paciente me entregou h dias para mandar ao irmo. " 
=Sorriu.
"O rapaz fez questo de escrever em francs para mostrar =l 
na
terra que fala bem, quer impressionar. " Agns estendeu a 
carta =ao
 capito. "Ora l, c'est rigolo. "
Afonso desdobrou o papel. A carta estava escrita com letras
mal desenhadas, as linhas a descarem, mas o contedo era 
=bizarro:
France, 2-2-1918.
Ma chere frre:
Te participe que mu parl tr bian le franci. Ha =boc de 
madamuaseles joli.
Mang tujur cornobife  une cigarrete  jur.
Camones tr simpatiques, mu achet  un angl un =par de 
palhetes at  gen aveque cordons  mu don = lui une
garrafe de picles.
Mu m agore un madamuasele  apr la guerre fini =partir 
Portugal aveque mu fianc. Les mules du Parue bone =sant.
Boc de sovenires de ta frere
Jos Papagaio.
460
Com ar divertido, Afonso devolveu a carta, que Agns 
prontamente =guardou no bolso.
"At parece inventada", comentou o capito.
A enfermeira continuou a caminhar pelo corredor central da 
=enfermaria e, j no final, abrandou e foi observar um 
paciente =deitado na cama da esquerda. Ps-lhe a mo na testa 
e afagou-lhe =os cabelos. O sorriso que lhe danava nos 
lbios desfez-se. O soldado respirava com dificuldade, 
arquejante e =cansado, os olhos mortios por entre olheiras 
profundas e escuras, a =pele seca como um pergaminho, os 
malares sobressados no rosto magro =e macilento, parecia uma 
mmia. Afonso espreitou para o bacio colocado na mesinha de 
cabeceira e =constatou que o recipiente estava sujo de 
expectorao com laivos =de sangue. A enfermeira olhou 
resignadamente para o capito.
"No se safa, le petit auvre", murmurou. "No deve passar de 
=hoje "
Depois de dar de beber ao paciente moribundo, Agns saiu da 
=enfermaria com o oficial sempre atrs.
"Morrem muitos? ", quis saber Afonso.
"Alguns, no demasiado", disse Agns. "Um tero dos mortos 
=por doena  vitimado pela tuberculose, este  o mal que 
mais =mata. L mais para trs vm a meningite e a pneumonia. 
Mas temos muitos casos de astenia e anemia =que tornam os 
soldados incapazes de regressarem s linhas. "
"So essas as doenas mais comuns? "
"Sim", disse a francesa. Fez uma pausa, hesitou e acrescentou 
em =voz baixa, apressadamente: "H tambm as doenas 
venreas, =mas esses pacientes vo para outro hospital. "
"Pelas vossas contas, os soldados morrem mais por doena ou 
por =combate? "
"Combate. Pelo que j vi, em cada quatro mortos, trs 
=resultam de ferimentos em combate e apenas um de doena. "
"E os feridos? "
"Tambm os temos, claro. Esto noutra enfermaria ou ento 
=so mandados para os hospitais ingleses, como o 39th 
Stationary
461
Hospital e o General Hospital 7, e depois ficam no depsito 
de =convalescentes. "
Um enfermeiro passou por eles, empurrando uma cama de rodas 
com um =homem sem o brao esquerdo, o coto engessado pelo 
ombro, manchas de =sangue seco a sujarem o pano branco.
"Qual  o tipo de feridos mais comum? ", perguntou Afonso sem 
=tirar os olhos do rapaz mutilado.
Agns fez uma pausa para pensar.
"Os gaseados andam a pelos quarenta por cento dos feridos 
=aparecem muitos, muitos. Morre-se pouco de gs, mas os 
soldados ficam =com leses incurveis nos pulmes e at 
noutros =rgos. Tudo porque no pem as mscaras, ou pem-
nas mal, ou tiram-nas cedo de mais. " Fez nova pausa. ="H 
ainda uns dez por cento de feridos =em acidentes. Mas no h 
dvida de que metade dos feridos que aqui =vm parar foi 
atingida por projcteis =em combate. A maior parte apanha 
estilhaos, so feridas =horrveis, j vi um que ficou sem o 
queixo, apareceu a vivo =sem metade da cara... "
Afonso comeou a sentir-se maldisposto, tudo aquilo no era 
=uma mera abstraco, mas um futuro possvel para si, uma 
=realidade que o poderia atingir em breve, irreversvel, 
final. Angustiado, decidiu subitamente ir-se embora do 
hospital, =no queria ver nem saber mais, sentiu um pnico a 
crescer-lhe na =alma, uma claustrofobia a estrangular-lhe a 
respirao, estar ali =naquele stio de sofrimento era mau 
agoiro, que pssima ideia ter entrado, =tinha de se ir 
embora, sair, fugir, balbuciou uma desculpa esfarrapada e 
=despediu-se apressadamente com um beijo fugidio, quase 
correu para a =porta, l fora correu mesmo, correu com medo, 
com ansiedade, correu como se de =correr dependesse a sua 
vida. S parou, ofegante, quando chegou ao =Hudson que lhe 
tinham emprestado no quartel-general da 2. a Diviso, =em La 
Gorgue, e ali ficou  espera, sentado ao =volante, com gotas 
de suor frio a brotarem-lhe na testa, os olhos fixos =nos 
portes do Hospital Misto de Medicina e Cirurgia, aguardando 
pelo final do =turno da mulher que amava.
462
Afonso conseguiu em La Gorgue uma dispensa para poder 
elaborar o plano do raide sem se preocupar com =os deveres do 
dia a dia. Nada revelou a Agns sobre as ordens que 
=recebera, justificando a sua sbita liberdade de movimentos 
com uma =licena especial que lhe fora atribuda para tratar 
de papis, no mbito das funes =burocrticas que 
desempenhava. No via razes para lhe aumentar =a ansiedade e 
destruir a felicidade que ela sentia por t-lo mais =tempo 
consigo.
O capito passou vrios dias a estudar mapas e a analisar 
=fotografias areas, identificando todas as linhas de 
=comunicao no sector inimigo, incluindo bifurcaes e 
=cruzamentos, mais a posio conhecida de minas, postos de 
atiradores, ninhos de metralhadoras, =posies de morteiros e 
artilharia. Este foi, de resto, um =exerccio particularmente 
difcil, uma vez que, do ar, a leitura =do terreno revelou-se 
complicada, s se viam crateras, manchas e linhas dentadas. A 
confuso era tal que =decidiu pedir ajuda a Tim Cook.
"Voc sabe", explicou o tenente ingls, "quando so vistos 
=de cima, os objectos tm um aspecto diferente daquele que 
apresentam =quando os vemos do solo. "
"Mas como  que eu entendo isto? ", desesperou Afonso, 
exibindo =uma ininteligvel fotografia area da terra de 
ningum e das =posies alems diante de Fauquissart.
Tim agarrou na fotografia e analisou-a com cuidado. "Ns 
temos =especialistas que passam a vida visitando as linhas 
que conquistamos aos =jerries e comparando a perspectiva do 
solo com a perspectiva area", =murmurou o ingls, sempre a 
estudar a fotografia. "Aprendem assim a perceber qual o 
=aspecto que uma coisa apresenta quando vista de cima". 
Apontou para uma =linha dentada. "Est vendo isso? So 
trincheiras. "
Afonso suspirou de impacincia.
"Obrigadinho,  Tim", disse com ironia. "At a j eu =tinha 
chegado. O problema  o resto. "
O tenente apontou para uma cratera.
"Essa a  uma posio de metralhadora e essa outra de 
=artilharia ", garantiu.
463
"Como  que sabes? ", admirou-se Afonso, que perscrutava 
=intensamente a fotografia. "S vejo a uma cratera, no 
=vislumbro metralhadora nenhuma, nem qualquer canho. "
"Voc no esquea que eu estive muito tempo envolvido na 
=fotografia area quando voava no Royal Flying Corps " 
Apontou para um =ponto na imagem. "Est vendo essa linha mais 
clara que est saindo =da cratera?
"Sim? "
"Isso  a prova de que essa no  uma cratera qualquer. =Essa 
linha  um caminho e significa que a cratera tem uso. E no 
=me estou referindo a um uso para plantar batatas, no. 
Estou- me =referindo a metralhadoras e artilharia "
"Hum", foi tudo o que Afonso conseguiu dizer.
"E isso a, est vendo? ", perguntou Tim, apontando para 
=outras manchas. "So abrigos e latrinas. E ali est arame 
farpado. ="
Com as fotografias devidamente interpretadas e a respectiva 
=informao passada para o mapa, Afonso foi visitar as linhas 
para =observar a rea onde tencionava desencadear a operao. 
Tomou =nota do stio onde se encontravam os drenos, os pontos 
de difcil passagem, os =renques de rvores, as posies de 
arame farpado e a =localizao de crateras para abrigo em 
caso de necessidade. Munido =de um telmetro, mediu 
distncias atravs de um engenhoso sistema de triangulao 
ocular, os olhos =fixos no culo, e foi registando as 
coordenadas. Inspeccionou postos =de artilharia e ninhos de 
metralhadora, estudando as suas posies =de tiro, e 
consultou os relatrios sobre as anteriores operaes 
lanadas contra as =posies inimigas, procurando extrair 
lies dos sucessos e =fracassos.
A vida com Agns assumiu entretanto aspectos de verdadeira 
=vivncia conjugal. A francesa j no estava hospedada no 
hotel =de Merville. Tinha alugado um anexo de um casaro nos 
arredores de =Bthune, a importante povoao mesmo a sul do 
sector do CEP. Encontrava-se a instalado o =quartel-general 
do Corpo do Exrcito britnico, que guarnecia as =linhas  
direita das foras portuguesas, a sul de Ferme du Bois. 
=Beneficiando da sua licena
464
especial, Afonso passou a pernoitar em Bthune, quase fazendo 
=vida conjugal com a francesa. Levava para o anexo delcias 
=portuguesas que comprava na Cantina Depsito e que lhe 
transportavam para a Flandres os sabores da sua terra. 
=Apresentou a Agns
o Ermida tinto maduro, o Bucellas branco e o Amarante verde, 
todos =a menos de dois francos, mais um porto de 1870 que 
adquirira por oito =francos. Tambm lhe deu a experimentar a 
ginja, que comprou a cinco francos, e ainda a =bolacha Maria, 
cuja lata de um quilo lhe custou a astronmica quantia =de 
dezoito francos. Beberam gua Vidago-Sabrozo e o capito 
entregou-lhe bacalhau, que comprou a quatro francos e 
cinquenta =cntimos o quilo, ensinando-a a cozinh- lo 
segundo uma receita =que lhe rabiscara o Matos, o cozinheiro 
do batalho.
Por vezes iam os dois visitar as tendas da YMCA para uma 
sesso =de cinematgrafo. Nesse final de Inverno assistiram 
ao sensacional Le =mystre d'une nuit d't, um melodrama 
romntico com Yvette =Andreyor lavada em lgrimas do 
princpio ao fim, e ao extico Cleopatra, com a sensual Theda 
Bara no prin =cipal papel. Mas a pice de rsistance era, 
inevitavelmente, o
grande Charlie Chaplin, que emergia depois do newsreel, o 
bloco de =notcias da Path, para desencadear um terramoto de 
gargalhadas na =tenda sobrelotada de soldados.
Durante este perodo, o capito encontrou-se vrias vezes 
=com Mardel e com Montalvo para fazer um ponto da situao. 
O =tenente- coronel foi-o mantendo a par da evoluo dos 
=acontecimentos, e a verdade  que cada vez havia mais coisas 
a relatar. Os diversos batalhes =davam conta de um aumento 
da actividade das patrulhas e da artilharia =inimiga, aumento 
que comeou a ser notado sobretudo a partir do final =de 
Fevereiro.
"Os boches sabem que estamos de rastos", confidenciou Mardel 
com =preocupao, exibindo uma mo-cheia de relatrios
de operaes e informaes. "Capito, preciso dessa =operao 
para breve. "
"Daqui a alguns dias apresento-lhe o plano", prometeu Afonso. 
"Acha =que este aumento da actividade inimiga traz gua no 
bico?"
465
"Afirmativo. Eles esto a preparar alguma. O qu, no sei, 
=mas l que os tipos andam a preparar alguma, l isso andam. 
"
Afonso voltou s linhas para ultimar o plano. Sabia que, 
antes =de o apresentar, teria ele prprio de efectuar uma 
patrulha pela =terra de ningum para reconhecer o terreno. 
Essa era uma actividade geralmente reservada aos soldados, 
todas as noites as foras =portuguesas efectuavam mais de uma 
dezena de patrulhas e era =relativamente raro ver oficiais a 
acompanh-las. Mas, impertigado pelos confrontos verbais com 
o Cenoura e =preocupado em elaborar com cuidado um plano para 
o raide, o capito =decidiu chefiar uma patrulha da a trs 
noites. Foi ter com o sargento Rosa e ordenou-lhe que 
preparasse um =grupo de homens para a aco.
"Quero aquele matulo que consegue carregar a Luisa", fez 
=questo de indicar.
" Quem, meu capito?"
"Aquele matulo, o grandalho. "
"O cabo Matias Grande, meu capito? "
"Esse mesmo. O que acha dele? "
"O Matias  bom homem, bom soldado.  forte como um touro e 
=esconde o medo, com ele os boches no fazem farinha. O 
pessoal gosta =dele, sente-se seguro com o gajo por perto, os 
homens at combatem =melhor quando esto ao lado do Matias. "
"Ento esse que venha. Esse e mais uns quantos. " 
"Exactamente =quantas praas ao todo, meu capito? " "
homem, sei l, umas cinco ou seis, no mais. Isto no  =um 
raide,  uma patrulha de reconhecimento do terreno, tem de 
ser =coisa discreta. Olhe, vou eu, vai voc, vai o cabo 
latago e mais =uns trs" Somou com os dedos. "Seis. "
"Vou chamar os homens do Matias, meu capito " "Eles so 
=bons? "Sim, meu capito. O meu capito chegou a comand-los 
=quando houve aquele ataque dos boches no ano passado ali =em 
Neuve Chapelle. "
466
"Ah, j me lembro", exclamou Afonso, fazendo uma expresso de 
=reconhecimento. "Eram bons, eram. Como  que eles se 
chamam?"
"So s trs, meu capito. O peloto est muito =desfalcado, 
temos de meter mais homens. Mas Lisboa no manda =ningum... 
"
"Adiante, homem", impacientou-se o capito. "Diga l como = 
que eles se chamam "
"Tem l o Vicente Manpulas, que  um bocado refilo, 
=protesta muito,  daqueles homens que fervem em pouca gua e 
passa =a vida a agoirar, at enerva. Mas na hora do aperto  
teso que se =farta, pode estar certo. O Baltazar Velho=20 
uma espcie de paizinho do grupo, preocupa-se com o conforto 
e =d-lhes estabilidade. O problema  que  um lambuzo, s 
=pensa em comida, e com esta dieta de corned-beef isso s 
vezes  =mau para o moral. E o Abel Lingrinhas=20 do tipo 
calado, metido consigo. No tem muita iniciativa, embora 
=faa tudo o que lhe dizem. Pode estar borrado de medo, mas 
no se =pira quando as coisas escacholam. "
"Est bem, esses que venham"
Afonso passou dois dias em nervosa actividade, preparando em 
=pormenor a patrulha na terra de ningum. Na manh de 2 de 
=Maro, um estafeta foi cham-lo e o capito apresentou-se no 
=quartel-general da 2. a Diviso,=20em La Gorgue, onde o 
mandaram sentar numa =cadeira junto  entrada. Ficou quatro 
horas  espera, sem que =ningum lhe dissesse o que quer que 
fosse. Pela uma da tarde, Eugnio =Mardel irrompeu 
apressadamente no edifcio. Afonso ergueu-se num =salto e fez 
continncia. O tenente-coronel emitiu um grunhido 
=maldisposto e fez-lhe sinal com a cabea para o seguir. 
Percorreu o corredor em silncio, entrou no gabinete =e caiu 
pesadamente sobre a sua cadeira. Suspirou e ficou a aguardar 
que =Afonso se sentasse.
"Ento j sabe da merda que houve esta manh? ", =perguntou-
lhe finalmente, com ar cansado.
"No, meu tenente-coronel", admirou-se Afonso. "O que 
aconteceu? ="
467
"Os boches fizeram-nos um raide em Neuve Chapelle e a coisa 
correu mal. " =Abanou a cabea com ar desanimado. "Caram-nos 
com tudo em cima. Artilharia, gases, morteiros, 
=metralhadoras. Depois assaltaram as nossas posies em 
Chapigny em vagas sucessivas, ocuparam a primeira linha, 
chegaram =s linhas de suporte e andaram para ali a passear-
se durante duas =horas, at a nossa artilharia os obrigar a 
retirar. "
"Sofremos muitas baixas? "
"Muitas. " A cabea abanou afirmativamente. "Muitas. Perdemos 
=mais de cem homens. "
" Porra "
"Os gajos caram em cima de Infantaria 4, de Faro, e de 
=Infantaria 17, de Beja. Fala-se at em cento e cinquenta 
baixas, =entre mortos, feridos e prisioneiros. " Fez uma 
pausa. " uma merda! ="
Afonso mirou o mapa das trincheiras, pregado na parede do 
posto.
"Conheo bem Chapigny. J estive no Dreadnought Post e no 
=Grants Post, mesmo atrs. "
"Passei a manh numa reunio do comando para analisar a 
=situao e discutir as nossas opes", disse Mardel, como se 
=no tivesse escutado Afonso. "Tenho boas e ms notcias para 
=si. Quais quer ouvir primeiro? "
O capito fez um trejeito nervoso com a boca.
"Se calhar,  melhor comear pelas ms. "
"Muito bem", assentiu Mardel. "O general Simas esteve a 
discutir o =seu raide com o general Tamagnini e decidiram no 
avanar. "
Afonso suspirou profundamente. Parecia um suspiro 
contrariado, =feito de desiluso e frustrao, mas era na 
verdade um suspiro =de alvio, o capito no tinha vontade 
nenhuma de avanar a =peito descoberto pela terra de ningum, 
debaixo de uma chuva de balas e estilhaos, nem alimentava 
=ambies de grandes actos de bravura. Queria era viver, 
sobreviver =se necessrio, mas sobretudo saborear todos os 
momentos, deleitar-se =com cada instante,=20
468
procurava apenas os prazeres simples que a vida lhe concedia, 
os =pequenos nadas, comer um bacalhau, beber umas cervejolas, 
dormir numa =cama de palha, amar Agns. O projecto de raide 
no o entusiasmava, =era uma mera obrigao de militar, um 
risco estpido e desnecessrio, o capricho de um =cachapim da 
retaguarda que fantasiava feitos de glria arriscando a =vida 
alheia. Mas no o podia confessar. Por isso, simulou 
=desapontamento.
" pena", lamentou com disfarada satisfao. "Sabe =dizer-me 
por que razo decidiram assim? "
"Afirmativo", exclamou Mardel. "Foi emitida h dias uma ordem 
do =Exrcito britnico a colocar em prtica um acordo de 
Janeiro =entre os governos de Portugal e da Gr-Bretanha. O 
acordo prev a =dissoluo do CEP como corpo autnomo e a sua 
integrao num corpo de exrcito britnico, =sendo tratado 
como se fosse uma formao inglesa. O CEP ficar =com uma 
diviso nas primeiras linhas e a outra ir para o =descanso. 
Como a 1. a Diviso est h mais tempo nas trinchas, ser ela 
a descansar. Ora,  luz dos =acontecimentos de hoje, o 
comando decidiu lanar mesmo um raide e, =uma vez que a 1. a 
Diviso est de sada, o comando entendeu =que ela deveria 
sair=20em grande. Tendo de escolher entre um raide de 
Infantaria 8 e outro de Infantaria 21, o =comando optou pela 
proposta do 21, uma vez que essa unidade pertence = 1. 
Diviso. "
"Que sorte que esses gajos tiveram", comentou Afonso, j 
=descontrado. " O 21  donde?"
" malta da Covilh. "
"Mas que grande vaca! V-se mesmo que nasceram com o cu 
virado =para a Lua. "
Mardel sorriu pela primeira vez.
"Mas,  capito, tenho tambm boas notcias para si. " ="Ah 
pois", exclamou. Se as ms notcias tinham sido assim to 
=boas, Afonso ficou com curiosidade para saber se as boas 
poderiam ser =ainda melhores. "Ento conte l. "
"O general Simas intercedeu veementemente por si e obteve uma 
=concesso do general Tamagnini e do general Gomes da Costa. 
"
469
"Uma concesso? "
"Afirmativo. O general Gomes da Costa aceitou que um peloto 
do =8 fosse includo no raide do 21 "
"Como assim? "
" homem, ser que tenho de lhe explicar tudo? Voc =tambm 
vai participar no raide, caraas! " Estendeu-lhe a mo. 
="Parabns Agns veio nessa noite algo diferente. Afonso 
estava sentado na cama a fumar um Tagus e a consumir-se com o 
=pensamento de que iria mesmo participar no raide quando 
sentiu a porta =abrir-se e viu a sua francesa entrar. Ela 
vinha com um elegante jersey =de malha e um casaco de l azul 
sem gola e abotoado  frente. Agns sorriu fracamente, sem 
=convico nem espontaneidade. Os lbios esboaram o sorriso, 
=mas os olhos verdes mostravam-se carregados de preocupao. 
Pousou =dois sacos  entrada, fechou a porta e veio dar-lhe 
um beijo.
"Salut, mon mignon", saudou-o.
Afonso devolveu-lhe distraidamente o beijo e ficou sentado na 
cama =a v-la dirigir-se  banca da cozinha e a preparar o 
jantar. Em =circunstncias normais, ele teria de imediato 
notado que havia algo =de anormal naquele comportamento, que 
ela no estava em si. Mas aquelas no eram =circunstncias 
normais. O capito passou o ltimo ms angustiado com a 
perspectiva do raide que andava a preparar e dividido =quanto 
ao que poderia contar-lhe. Deveria dizer-lhe que iria 
participar =num ataque s linhas alems? O ms esgotou-se 
rapidamente, e =agora, com o raide na iminncia de ser 
efectuado, a angstia tornou-se profunda e deixou-o cego =ao 
mundo em redor. O tenente-coronel Mardel revelara-lhe que a 
operao fora marcada =para 9 de Maro, da a exactamente uma 
semana, e que ele teria de =se articular com os homens do 21. 
O anncio significava que o =capito teria de tomar uma 
deciso em relao ao que dizer a Agns. Passou as ltimas 
horas a =ponderar o assunto e sentia-se inclinado a nada lhe 
contar. De que =serviria mortific-la com a notcia?
470
O que tinha a ganhar com isso, a no ser uma semana de 
ansiedade =partilhada? Por outro lado, considerou que talvez 
aquela fosse a sua =derradeira semana juntos, talvez no a 
voltasse a ver, e interrogou-se se teria o direito de lhe 
ocultar =essa informao.
Embrenhado nos seus pensamentos, Afonso demorou a perceber 
que =Agns se encostara  banca num pranto silencioso. Os 
olhos =viam-na, mas o crebro no registava. At que, sem que 
o =esperasse, uma imagem das lgrimas da francesa se 
intrometeu na complicada cadeia de raciocnio =que lhe 
consumia a mente. O capito estremeceu, como se acabasse de 
=despertar, e viu-a com olhos de ver, viu-a curvada na banca 
a chorar =baixo, uma mo diante da boca, os olhos cerrados e 
brotando delicadas gotas que =deslizavam devagar at ao 
queixo. Ergueu-se num salto, surpreendido e =alarmado, e foi 
abra-la.
"O que se passa, mon petit choux? "
Ela soluou e fixou os olhos no soalho.
"C'est rien, c'est rien. "
Afonso suspeitou de que ela tinha sido informada do raide. 
=Admirou-se por constatar que uma informao to secreta 
=estivesse j a circular entre os civis, parecia impossvel, 
mas =depois lembrou-se de que Agns trabalhava no hospital, e 
num hospital sabe-se tudo.
"Tem calma", soprou-lhe ao ouvido. "Tem calma. " Ela 
encostou-se ao =seu corpo e Afonso sentiu-a tremer. Pegou-a 
ao colo e levou-a para a =cama, deitou-a com delicadeza e 
limpou-lhe as lgrimas. Agns estava vermelha, a face 
molhada, os olhos verdes a brilharem com =intensidade, mais 
bela do que nunca. Esboou um sorriso doce, =confortado.
"Merci, mon mignon. "
O capito sentiu-se derreter com o calor suave daquelas 
=palavras. Beijou-a nas bochechas e nos lbios hmidos, 
passou-lhe =os dedos pelos cabelos longos e encaracolados, 
deslizou o indicador pelo =nariz arrebitado e molhado.
"Diz-me o que te apoquenta. "
471
Agns ergueu-se lentamente na cama, sentou-se e fixou em 
Afonso =os seus olhos cristalinos e enamorados, mas neles 
via-se tambm =preocupao, vislumbrava-se receio. Pegou-lhe 
na mo.
"Alphonse, tu amas-me? " "Bien sre, minha fofa. "
"Mas amas-me mesmo, Alphonse? Amas-me de verdade? " Afonso 
franziu =o sobrolho, espantado com a intensidade dos 
sentimentos que nela =detectava.
"Claro, minha santa. O que se passa? "
"Amas-me como um soldado que amanh me esquecer ou como um 
=homem que nunca me deixar?
"Que pergunta, meu amor! Claro que nunca te deixarei, s se 
=fosse louco. Amo-te com todas as minhas foras. "
"Vraiment? "
"Sim, amo-te acima de tudo, acima do meu ser. Tu s o ar que 
eu =respiro, a alma que me preenche, a luz que me guia, a 
vida que me faz =viver. "
"E o que vai ser de ns quando a guerra acabar? " "Quando a 
=guerra acabar, ma petite, eu fico aqui contigo. Fico aqui ou 
levo-te =comigo. Nunca nos separaremos. "
A francesa fez um hum hum com a garganta, afinando a voz.
"Alphonse", disse ela.
 Hesitou e deixou a frase suspensa no ar. Fez-se silncio.
" Sim "
"Alphonse", recomeou Agns. "Fui hoje ao doutor Almeida. " 
="Quem? "
"Fui ao doutor Almeida, um mdico l do hospital. " "Ah, sim. 
=Je suis enceinte. "
" Como?"
"Estou grvida "
472
XIII
Os bocejos pareciam contagiosos, sucedendo-se uns atrs dos 
=outros, em sequncia, os homens abriam a boca 
sucessivamente, =aspirando o ar frio e hmido daquela 
madrugada de 9 de Maro e expelindo-o num longo e vaporoso 
suspiro. Afonso invejou o sono =desses homens, s podia 
bocejar assim quem no tinha medo, quem =no era consumido 
pela nsia, quem no iria participar na =operao. A 
artilharia trovejava havia quase uma hora, regando as 
=posies inimigas, o horizonte acendera-se em fogo e, em 
pleno =caos, pasme-se, havia homens a bocejar. O capito 
olhou em redor e =achou curiosa a diferena de postura dos 
soldados. As praas e os maqueiros da segunda =companhia de 
Infantaria 21, serranos da Covilh, encostavam-se 
=modorrentamente aos parapeitos de Copse Trench, os olhos 
ensonados, era =evidente que no iriam saltar para a terra de 
ningum, cabia-lhes outra misso, =os soldados iam guardar a 
primeira linha e cobrir os flancos da fora =de ataque e os 
maqueiros ficariam a assegurar a retirada dos feridos.
Mas j os outros, os que integravam a fora de assalto, os 
=que iam enfrentar a morte, esses agitavam-se bem despertos, 
nervosos
473
e expectantes, os olhos danando temerosamente em todas as
direces, as gargantas secas, a adrenalina a contaminar-lhes 
=o sangue, a fora a faltar-lhes nas pernas, um tremor 
invisvel a
consumir-lhes o nimo perante o vulco de fogo que se 
=estendia
 sua frente e para o qual se iriam lanar. Afonso sentia-se 
=desgastado pelo medo, cansado da espera, desejava que tudo 
comeasse =depressa, no suportava mais a angstia de saber 
que iria =combater. Se esse momento era inevitvel, pensou, 
ento que viesse j.
Olhou para Matias e admirou-se com o ar tranquilo que o cabo
exibia, dir-se-ia estar convencido de que ia apenas dar um 
passeio
at s linhas alems. J o Lingrinhas agitava-se 
=nervosamente, o corpo franzino a balouar na penumbra como 
um =pndulo, irrequieto, os olhos saltitando por entre os 
clares da =artilharia,=20
receosos, assustando-se com as sucessivas detonaes que 
=faziam trepidar o ar, parecia um pardal a tremer diante dos 
predadores.
Baltazar tinha as plpebras cerradas, rezava decerto, os 
=lbios
agitando-se num leve murmrio dirigido aos cus, o pensamento
nos filhos que deixara em Pites das Jnias. O capito =virou 
o
 pulso e consultou pela ensima vez o seu Pate Philippe de 
=pulso, os ponteiros incandescentes indicavam agora as quatro 
e
cinquenta e cinco.
"Faltam cinco minutos", disse Afonso. "Vamos ao conhaque. "
Os homens desenroscaram os cantis, satisfeitos por ocuparem
a mente, por a distrarem da cacofonia de exploses e da 
=enervante espera, alguns engoliram o rum em golos 
sucessivos, =sfregos, deixando gotas escaparem-se-lhes pelo 
canto das bocas e
deslizarem at ao queixo, outros saborearam o lcool com 
=forada lentido, muito compenetrados, como se aquela fosse 
a
ltima bebida das suas vidas, o derradeiro prazer antes do 
=extertor final. A cada trago faziam uma pausa para expirarem 
o calor que =lhes crescia pelo ventre a cima; o medo ainda 
por saciar, engoliam mais =um golo ardente.
"Aaaah! ", exclamou Baltazar Velho. "Valente murrilha! "
Sentiram-se gradualmente mais calmos, tranquilos e 
=descontrados, o lcool subiu-lhes rapidamente  cabea e 
=dominou o
474
medo, deixou-os serenos, invadidos por um sentimento de 
=irrealidade, como se estivessem num sonho, o tempo abrandou, 
as batidas =cardacas desaceleraram e alguns esboaram mesmo 
um sorriso.
"Esta bodega  porreira", comentou Afonso, piscando o olho a 
=Matias.
"Vamo-nos a eles, meu capito, vamo-nos a eles! ", devolveu o 
=enorme cabo, esfregando as mos de impacincia, era a espera 
que =mais o afligia. "Temos de lhes dar a paga de anteontem. 
"
Matias Grande referia-se a um raide efectuado dois dias antes 
pelos =alemes sobre Neuve Chapelle e Ferme du Bois, 
rechaado por =Infantaria 15, de Tomar, e Infantaria 22, de 
Portalegre. Apesar de a =operao ter redundado num fracasso 
para o inimigo, aos oficiais portugueses =no passou 
despercebido o facto de se ter tratado do segundo raide 
=alemo no espao de apenas uma semana e do primeiro a 
envolver um =assalto simultneo a dois sectores portugueses.
"Ests parv'ou qu? ", cortou Vicente, olhando para Matias. 
="Ist'inda vai dar azar. Ai vai, vai. "
" Manpulas, pra l com os agoiros "
Afonso voltou a consultar o relgio. Faltavam dois minutos. 
Um =sargento de Infantaria 21 aproximou-se dos homens do 8.
"Meu capito,  melhor tomarem posio. "
O oficial assentiu com a cabea, fez sinal ao sargento Rosa e 
o =pequeno grupo do 8 escalou o parapeito. Tacteando o 
terreno, os homens =aninharam-se junto ao arame. O sargento 
do 21 juntou-se a eles e indicou =um ponto invisvel na 
escurido.
"No se esqueam, vo por ali", disse. "O arame j =est todo 
cortado e a via aberta. "
"Por ali? ", perguntou Afonso, preocupado em no se enganar. 
="Sim, por ali. Boa sorte. "
O sargento voltou  trincheira, contente por no fazer parte 
=da fora de ataque. Afonso ficou colado ao cho lamacento, 
os =olhos fixos no relgio de aviador que Tim lhe tinha 
oferecido pelo =Natal. Sorriu ao lembrar-se de que aqueles 
mesmos relgios de pulso foram durante anos considerados 
=meras peas de joalharia,=20
475
adornos semelhantes a pulseiras s adequadas a senhoras. Se 
os =irmos o vissem ali naquela figura, pensou, chamar-lhe-
iam rabicho. =Mas a verdade  que a guerra tinha mostrado que 
esta era a forma mais =prtica de transportar um relgio, e 
ali estava ele, com um rude Patek Philippe suo, tornado 
=mais feio pela grelha de metal que protegia a montra dos 
estilhaos. =Suspirou e assinalou o tempo.
"Um minuto. "
O ponteiro dos segundos iniciou a ltima volta, progredindo 
=inexoravelmente, alguns homens rezavam baixinho, os olhos 
cerrados, os =canhes rugiam, o ponteiro dos segundos comeou 
a subir, tiques =atrs de tiques, ponto a ponto para cima, 
Vicente fechou os olhos, Abel =suspirou fundo, Matias 
desentorpeceu os braos, Baltazar fez o sinal =da cruz, Rosa 
manteve-se hirto, o ponteiro subiu ainda mais e atingiu o 
=cume, o fatdico 12.
"Vamos! ", ordenou Afonso.
O grupo do 8 ergueu-se da lama e desatou a correr, primeiro 
com =prudncia, procurando o caminho aberto por entre o 
arame, depois mais =rpido, mais rpido, todos em correria 
pela terra de ningum, =s escuras, as pernas moles de pavor, 
o grupo a tentar chegar o mais =longe possvel antes de os 
alemes darem pela sua presena, =mais rpido, fora, fora, 
os soldados seguiam pelo itinerrio previamente estudado, o 
terreno inclinava-se para cima, ressoavam os =cliques e 
claques metlicos das Lee-Enfield embaionetadas, dos =cintos, 
das munies, das Mills, das botas, mais o arfar ofegante 
=dos homens em esforo, alguns tropeavam na escurido, as 
pernas sempre moles, Afonso caiu num charco =invisvel e logo 
se levantou, desengonado, interrogou- se mil =vezes sobre o 
que estava ali a fazer, que disparate era aquele. O torpor 
=do lcool desaparecera, aniquilado pela adrenalina 
fulminante, mas o sentido =de irrealidade permanecia, a 
sensao de sonho ainda os invadia a =todos quando soou o 
primeiro tiro de espingarda, ouviram-se gritos do =lado 
alemo, era o alerta, surgiram mais tiros, quatro, cinco, 
dez, vinte tiros, =um foguete
476
ergueu-se em Sally Trench e explodiu no ar, era um =very 
light a iluminar a terra de ningum. A luz fantasmagrica do 
foguete encheu as trincheiras como um pequeno sol, resgatando 
da =penumbra minsculas figuras em movimento, viam-se agora 
os
soldados portugueses a correr em direco s linhas 
=inimigas, tropeando em buracos, caindo em crateras, 
esbarrando em =obstculos, mais de cem homens da primeira 
companhia do 21 e um =punhado do 8 vinham de Ferme du Bois e 
avanavam a descoberto pela terra de ningum em direco ao 
inimigo, =a Sally Trench, a Sapper Trench, a Mitzi Trench, as 
linhas alems =aguardavam-nos. Mais very lights foram 
lanados para o ar, os =alemes iluminaram o campo de batalha 
com sis sucessivos, a noite fez-se dia, os tiros isolados 
das Mausers =cresceram e misturaram-se  cacofonia da 
artilharia, as Maxims =juntaram-se  festa e comearam a 
ladrar por toda a parte, voavam =granadas e surgiram as 
primeiras exploses na terra de ningum. E os portugueses 
sempre a correr, a correr, a =correr.
A primeira linha alem apareceu-lhes inesperadamente em 
frente, =por detrs de uma derradeira vedao de espesso 
arame farpado.
"Alicates! ", gritou Afonso logo que caiu junto ao arame com 
os =seus homens.
Uma praa do 21 aproximou-se rapidamente e, as mos 
=protegidas por umas luvas muito grossas, comeou a cortar o 
arame com =urgncia, claque aqui, claque ali, claque, claque, 
os fios =metlicos contorciam-se, as agulhas do arame 
balouavam com maldade, procurando rasgar a pele de quem as 
mutilava, mas o =homem evitava-as com percia e ia abrindo o 
caminho, devagar, =devagar, todos impacientes, o homem do 
alicate no havia meio de se =despachar, claque, claque, 
todos deitados no cho, cada um a vigiar o inimigo, um olho 
nos alemes, o outro no homem =do alicate, claque, claque, o 
alicate sempre a cortar o arame, o cu =iluminava-se com 
foguetes e no solo danavam as sombras, zzziiimm, zzziiimm, 
as balas a cortarem o ar em =zumbidos sucessivos, em sibilos 
metlicos, em assobios de morte, =traioeiros e
477
enervantes, claque, claque, zzziiimm, zzziiimm, claque, 
claque, =zzziiimm, zzziiimm.
"J est", anunciou por fim a praa, banhada em suor =naquela 
madrugada gelada.
Os portugueses ergueram-se, penetraram temerosamente pelo 
caminho =aberto pelo alicate, alguns rasgaram a pele nas 
pontas soltas do arame =mas avanaram na mesma, saltaram  
pressa para o buraco da primeira linha inimiga, as 
espingardas =apontadas, os olhos atentos, procurando vultos 
ameaadores, a =trincheira parecia deserta mas o ar era 
sempre cortado por zumbidos, =sibilos, assobios.
"Abriguem-se! ", ordenou Afonso, sentindo as balas a zurzirem 
como =moscas em redor.
Os homens anicharam-se s paredes. O capito olhou em volta e 
=viu praas do 21 misturadas com o seu peloto do 8. Matias 
esticou =a cabea acima do nvel do parapeito para lobrigar o 
inimigo, =detectou clares de armas a serem disparadas e logo 
se encolheu.
"Esto naquela direco", indicou entre duas arfadas, 
=apontando com a mo para a direita.
O cabo ajeitou a Lewis, respirou fundo para recuperar o 
flego, =ergueu-se num mpeto, apontou a metralhadora para o 
sector que =identificara e comeou a vomitar rajadas. Os 
outros homens, =encorajados pelo exemplo de Matias, ergueram-
se igualmente e dispararam as Lee-Enfield na mesma direco. 
Os very =lights continuavam activos, iluminando a batalha, e 
os portugueses viram =os alemes l ao fundo a fugir.
"Fogo  vontade! ", exclamou Afonso, a pistola na mo. A 
=Lewis e as Lee-Enfield despejavam balas e balas sobre os 
fugitivos, =alguns tombaram no cho, um ou outro ainda se 
levantou e retomou a corrida em dificuldade, a =coxear, o 
fogo permaneceu intenso at os alemes que ainda se 
=encontravam em p sarem do campo de viso. Afonso chamou 
=ento o sinaleiro do seu grupo. O homem aproximou-se com o 
telefone na =mo, o fio esticado desde as linhas portuguesas. 
Afonso fez sinal ao =sargento Rosa.
478
"Larga o foguete de chegada "
O sargento pegou num very light e disparou-o para o cu.
O foguete explodiu em luz vermelha l em cima, lanando uma 
=claridade de sangue sobre as linhas. Outros very lights 
vermelhos =explodiram  direita e  esquerda. Era o sinal 
convencionado para =anunciar s linhas portuguesas que a 
primeira linha alem se encontrava ocupada =pelo CEP. 
Satisfeito com a indicao de que as coisas estavam a =correr 
bem com os outros pelotes, Afon so pegou no telefone.
"Aqui peloto do centro", anunciou o capito pelo bocal. 
="Estamos em posio. Henrique. Repito. =Henrique. "
"Henrique" era o nome de cdigo para a artilharia portuguesa 
=alongar o tiro para a retaguarda alem. A ideia era fustigar 
o =inimigo e evitar atingir as tropas portuguesas instaladas 
na primeira =linha alem.
Logo que a artilharia corrigiu o tiro, Afonso fez sinal aos 
homens =e o grupo progrediu cautelosamente por uma trincheira
de comunicao com o intuito de limpar o terreno, os soldados 
=avanando curvados e de espingarda em riste. Matias ia  
frente, a pesada Lewis nos braos, seguido do =sargento Rosa 
e de Abel, atrs vinham Afonso, Vicente e Baltazar, =mais os 
homens do 21. Viram um buraco  direita e hesitaram.
"Um abrigo", murmurou Matias para trs, a metralhadora 
apontada =para um buraco aberto na base de um macio bloco de 
cimento.
Afonso aproximou-se e verificou a entrada do abrigo sem se 
atrever =a aproximar-se.
"Faam-me a limpeza disso. "
O sargento Rosa disparou dois tiros para o interior e ficou a 
=aguardar. Nada. Matias avanou, colocou o cano da Lewis pelo 
buraco e =espreitou. Estava tudo escuro.
"Lanterna. "
Afonso deu uma lanterna elctrica ao sargento Rosa, que a 
=colocou nas mos do cabo. Matias acendeu a luz e verificou o 
abrigo. =O claro percorreu as paredes, viam-se estantes 
com=20
479
livros nas paredes, fios elctricos e lmpadas penduradas no 
=tecto. A luz da lanterna desceu pelo cho, iluminaram-se 
sofs, cadeiras, camas duplas com grossos cobertores, o 
soalho parecia seco. =Ao fim de algum tempo, Matias deu-se 
por satisfeito e voltou a cabea =para trs.
"No est c ningum", disse aos companheiros. De =seguida, o 
cabo mergulhou no buraco e desceu para inspeccionar melhor o 
=abrigo. Atrs dele seguiram os outros homens do 8 e alguns 
do 21, =todos embasbacados com o bunker alemo.
"Ena, caraas, j me toparam isto? ", exclamou Baltazar. 
="Isto  um abrigo de reis! Porra! Que categoria! "
" do camano", confirmou Vicente, sentando-se com visvel 
=prazer na superfcie fofa do sof. "Andamos ns a viver na 
lama =e estes gajos a refastelarem-se nestes palacetes. Sim 
senhor, ist' =qu' vida! A eles tratam-nos bem. J connosco 
 o qu'a malta sabe... "
"Se o pessoal tivesse um hotel destes, at nem me importava 
de =andar nas trinchas", gracejou Baltazar. "Categoria! "
Afonso sentia-se igualmente surpreendido com a qualidade do 
abrigo, =era, de longe, superior a qualquer coisa existente 
no CEP ou mesmo nas =posies britnicas que visitara. Mas a 
estupefaco durou pouco. Tinha pressa em sair dali, 
completar a misso e =regressar  segurana relativa das 
trincheiras portuguesas. =Constatou que no havia documentos 
para apreender e decidiu abandonar =o local.
"Vamos, vamos embora daqui! ", ordenou. "Vamos l, vamos l, 
=rpido! "
Os homens saram do abrigo e regressaram  trincheira de 
=comunicao, restabelecendo-se a hierarquia anterior. Matias 
 =frente, Rosa logo a seguir, os restantes atrs. A 
trincheira fez uma =leve curva  esquerda e, no meio daquela 
escurido iluminada pelos clares da =artilharia e pelos 
sucessivos very lights, o cabo detectou um vulto a 
=desaparecer ao fundo.
"Boches! ", avisou.
O grupo parou por momentos e, aps uma ligeira hesitao, 
=retomou a marcha, Matias muito atento a qualquer movimento.
480
Trinta metros mais  frente, perto do sector onde tinha visto 
o =vulto, deparou com novo buraco, desta feita  esquerda, na 
base do =parapeito.
"Abrigo. "
Mais uma paragem. Rosa repetiu o procedimento anterior e 
disparou =dois tiros para o esconderijo. Ouviu-se barulho l 
dentro e um tiro =respondeu ao fogo portugus.
"Granadas", pediu Matias.
Rosa entregou-lhe duas Mills, Matias pegou numa, premiu a 
alavanca, =puxou pela argola e arrancou a cavilha de 
segurana, atirou-a pelo =buraco e repetiu a operao com a 
outra. Ouviram-se gritos em =alemo, "achtung! ", "was ist 
das? ", "granate! ", sucederam-se duas =exploses, veio o 
silncio, ouviu-se um gemido e Matias =aproximou-se da 
entrada do abrigo, apontou a lanterna e viu estantes 
=partidas, um corpo estendido de bruos, uma perna decepada, 
um outro corpo pendurado numa cadeira, um terceiro a mexer-se 
no =cho, barriga para o ar, o ventre aberto e os intestinos 
a =escorregarem-lhe pelas mos, o homem a olhar surpreendido 
para as suas entranhas expostas. Ergueu =os olhos e mirou 
Matias.
"Entschuldigen... Sie bitte! ", disse, arfando. "Knnen Sie... 
mir =helfen? " Respirou fundo. Gemeu. "Bitte... Kamerad. "
Matias olhou para trs, para os seus companheiros. "O abrigo 
=est limpo. "
"Os boches? ", quis saber Afonso. "Esto dois mortos e um 
=ferido. "
O capito espreitou pela entrada e viu o alemo estendido no 
=cho, a gemer.
"Coitado", comentou. "J viram que ficou com as tripas de 
fora? =Matias assentiu com a cabea. "No se safa. Est a 
bombar. "
O alemo insistiu, o esgar perdido.
"Bitte. " Arfou. "Kamerad. " Gemeu. "Knnen... Sie mir. helfen 
481
Afonso entendeu.
"Est a pedir ajuda", explicou. "Se calhar,  melhor dar-lhe 
=um tiro, acaba-se-lhe j o sofrimento"
O capito olhou em redor, como que a pedir voluntrios. 
=Matias baixou os olhos, os que estavam atrs fizeram- se 
=desentendidos. Afonso voltou a mirar o alemo, ergueu a 
pistola, =apontou-a  cabea do homem, deixou-a apontada, 
aguardou, hesitou terrivelmente, pensou =que era um acto de 
caridade, de misericrdia, mas logo outro =pensamento 
contraps, lembrando-lhe que ia matar algum, que ia =pecar, 
era talvez a sua reprimida conscincia de seminarista a 
revoltar-se, pensou e hesitou, a hesitao =prolongou-se, o 
alemo agonizante devolveu-lhe o olhar, percebeu =tudo, os 
olhos azuis miravam- no aterrorizados, viam o abismo, viam o 
=fim. Afonso suspirou e baixou a pistola. No era capaz.
"Vamos embora", disse pesadamente, regressando  trincheira 
de =comunicao.
O grupo avanou pelas linhas abandonadas pelo inimigo e 
chegou = Mitzi Trench. Mais abrigos desertos foram 
inspeccionados, todos =revelando condies de habitabilidade 
infinitamente superiores =s existentes do lado aliado. 
Afonso chamou os sapadores-mineiros da =terceira companhia, 
igualmente envolvidos na operao, e os =abrigos foram 
arrasados. Pouco depois, um very light verde iluminou o =cu 
 direita. Era o sinal de retirada dado pelo comandante da 
=operao, o capito Ribeiro de Carvalho. Os homens 
regressaram = primeira linha alem e Afonso voltou ao 
telefone do sinaleiro.
"Aqui peloto do centro", anunciou. "Antnio. Repito. 
=Antnio.
Tratava-se da palavra de cdigo a informar que ia retirar. 
=Devolveu o telefone ao sinaleiro e deu ordem de retirada. O 
grupo meteu =pela brecha aberta no arame farpado, atravessou 
a terra de ningum e =regressou a Copse Trench, o ponto de 
Ferme du Bois donde tinham partido duas horas =antes.
482
XIV
Afonso abandonou as linhas num estado de total exausto e, 
tal =como todos os homens que participaram no raide, 
beneficiou de uma =dispensa de dois dias. Depois de 
apresentar um relatrio ao major =Montalvo, o comandante de 
Infantaria 8, requisitou um cavalo e foi at =Bthune, ao 
anexo que se tinha transformado no seu lar. Deixou a =montada 
amarrada a um carvalho, junto a um bebedouro, e caminhou 
=ansiosamente para o cubculo alugado por Agns. Estacou 
frente  porta de madeira tosca, procurou a chave no =bolso, 
colocou-a na fechadura e entrou.
"Agns "
Ningum respondeu. Olhou em redor e verificou que tudo se 
=encontrava bem arrumado e o anexo relativamente aquecido. A 
sua francesa =tinha provavelmente ido trabalhar, mas deixara 
o anexo impecvel antes de sair. Afonso fechou a porta, 
despiu o casaco, foi at ao =bacio, mirou-se ao espelho, 
tinha o ar cansado, a barba por fazer, =olheiras a 
ensombrarem-lhe os olhos. Pegou no jarro, despejou gua =fria 
nas mos, lavou a cara, despiu a roupa imunda, tirou as botas 
enlameadas e as =meias sujas, mergulhou os ps no bacio, a 
gua estava to fria =que at os ouvidos lhe doeram,
483
passou gua pelo corpo, esforando-se por retirar a lama seca 
=que lhe cobria a pele, esfregou com sabo, voltou a passar 
gua, =depois mergulhou a cabea na gua barrenta, mais lama 
saiu, passou ainda uma toalha molhada pelo =corpo, a tremer 
de frio secou-se apressadamente, colocou meias limpas, =um 
pijama lavado, atirou-se para a cama e enroscou-se nos 
cobertores.
Uma superfcie hmida, quente e macia colada s bochechas =e 
um agradvel e familiar aroma perfumado fizeram-no abrir os 
olhos. =Viu uns lbios enormes  sua frente e levou dois 
segundos a =compreender. Era Agns que o beijava.
"a va, mon mignon?
A voz era suave, quase uma carcia, e Afonso sentiu-se bem. 
="Ol mon petit choux", disse com voz de sono.
Reparou ento que estavam na penumbra, tudo se encontrava 
=escuro, a noite cara, passara todo o dia a dormir. A 
francesa =passou-lhe a mo carinhosamente pelo rosto.
"Ento como foi a guerra hoje? "
Afonso hesitou. Quis contar-lhe tudo, relatar-lhe o raide, os 
mil =perigos, o medo, os mortos e a histria do alemo 
moribundo, ainda =abriu a boca mas interrompeu-se a tempo, 
pensou que era pouco avisado =estar a relatar-lhe a operao, 
ela ficaria assustada e passaria a viver em sobressalto mais 
do que =j vivia, mais valia que continuasse a acreditar que 
o seu capito =estava agora unicamente encarregado de tarefas 
burocrticas nas =trincheiras.
"Tudo normal", devolveu, fingindo-se despreocupado. "Muita 
=papelada, muita papelada"
"No fizeste des btises? "
"Non. "
"No andaste atrs de demoiselles? "
"Nas trincheiras?
Ela riu-se.
" Oh la la! So as piores! ", exclamou, piscando o adorvel 
=olho verde.
484
"Ah sim, o que para l mais h so mesmo demoiselles! ", 
=comentou Afonso com um sorriso amargo. "Parvinha "
Disse "parvinha" em portugus, e ela arregalou os olhos.
"Quoi? "
"Parvinha. "
" est quoi, a?"
"Parvinha? Uh... sei l,  tipo... uh... parvalhone. " 
="Parvalhone?"
Afonso riu-se. Quando no sabia qual a exacta palavra 
francesa, =afrancesava uma palavra portuguesa, mas nem sempre 
saa bem.
"No interessa", disse, desistindo de procurar a palavra 
exacta. ="Como vai o pequerrucho? "
Agns olhou para o ventre. A protuberncia da gravidez era 
=ainda minscula.
"Oh, tem-se portado bem,  um amor. "
"Temos de lhe escolher um nome. J pensaste? " "Oui", disse 
ela, =fazendo-se sria. "Por que no Alphonse, como o seu 
pap? ="Afonso? No, vamos pensar noutro... "
"Temos sempre a hiptese do nome do meu pai. Como se diz Paul 
em =portugus? "
"Paulo. "
"Hum, parece italiano. " Fez um ar meditativo, apreciando a 
=sonoridade do nome. "Paolo. Gosto. "
"Paulo", corrigiu Afonso. "Parece-me bem. " Deu-lhe um beijo. 
"Mas, =olha l, e se for menina? "
"Se for menina, temos duas hipteses. Ou Michelle, como a 
minha =me, ou ento o nome da tua me. Como  que ela se 
chama =mesmo?"
"Mariana. "
"Mariana ento. Um desses dois. "
"Por que no Ins? "
"Ins? Que nome  esse? " " Agns em portugus. "
Agns fez um trejeito de boca, pensativa.
485
" uma ideia. Vamos amadurecer isso, afinal de contas temos
tempo. O doutor Almeida disse-me que o parto s deve ser l
para Outubro "
Afonso fez nessa noite amor com intranquilidade, as imagens
do raide, do alemo desventrado, da correria tresloucada, dos
projcteis a sibilarem, tudo sempre na sua mente. Olhava 
=Agns
e via a guerra, os mortos, as exploses, os disparos, os very 
=lights,=20
os gritos, a crueldade, o medo. Teve dificuldade =em 
concentrar-se. Depois de saciarem os corpos, agarrou-se a ela 
como se a
fosse perder dentro de instantes. Emocionado, pegou-lhe na 
mo
e fitou-a nos olhos.
"Queres casar comigo? "
Agns estremeceu e abraou-o com fora.=20
"Oui, oui", soprou. "Pensei que nunca irias perguntar.
Ele beijou-a nos lbios e sentiu-lhe a face molhada.
"Casamo-nos, temos o filho e vens comigo para Portugal. Vais
ver aquele sol... "
Ela fungou.
"Oui. "
"Vou pedir uma licena para casar. Que dizes de final de 
Abril? ="
"Parece-me difcil "
"Porqu? "
"Alphonse, no te esqueas de que eu ainda estou casada. =J
meti os papis do divrcio, mas acho que s l para o =Vero 
serei uma mulher livre"
Afonso suspirou, conformado.
"Ento ser no Vero. O problema  que a Igreja no =aceita
divrcios...
 "No sejas bte. No vs que eu no me casei pela =Igreja?
"Como assim, no te casaste pela Igreja? "
"Com Serge casei-me na igreja, mas ele morreu. Com 
Jacques,=20
que  ateu, casei-me na Conservatria de Armentires. 
=Portanto, para a Igreja eu nem sequer sou casada, sou viva.
"Mas isso resolve tudo", exclamou Afonso com entusiasmo.
"Assim sendo, casamos mesmo pela Igreja, comme il faut.=20
486
Pedimos ao capelo do Exrcito e fazemos a cerimnia ali =na 
parquia de Aire ou de Merville. "
"No, a no,  demasiado vulgar. Sempre sonhei num 
=casamento grandioso. Por que no na Catedral de Amiens? "
"Na Catedral de... "
"A Catedral de Amiens  a maior de Frana, uma coisa 
=magnfica. "
"Muito bem, ser na Catedral de Amiens", concordou. "S  
=pena que a minha famlia no possa assistir"
Ficaram algum tempo agarrados um ao outro, =em silncio. De 
repente, Afonso pegou na vela que estava na mesinha de 
cabeceira, levantou-se, foi =sentar-se  mesa, nu, cobriu-se 
com uma manta e rodeou- se da caneta, =do tinteiro e de um 
papel de carta.
"O que ests tu a fazer? ", perguntou ela, apoiada sobre o 
=cotovelo, na cama, admirada por v-lo a escrever quela 
hora.
"Vou escrever uma carta", limitou-se a dizer.
Agns ficou a observ-lo, o seu homem curvado sobre a folha 
=de papel a desenhar as letras com a lngua entre os lbios, 
=relendo baixinho o que escrevera naquele idioma 
desconhecido, volta e meia pousava a ponta da caneta no 
tinteiro e =voltava a escrever. Finalmente dobrou a folha, 
inseriu-a no envelope, =passou a lngua molhada pela cola, 
fechou o envelope e entregou-lho. A francesa =ficou a olhar 
para o sobrescrito, surpreendida.
"Escreveste-me a mim? ", perguntou sem compreender. "No, 
=escrevi  minha me."
"Mas o que  que queres que eu faa com isto? Queres que a 
=v pr no correio?"
"No, no, isso seria mau sinal", disse-lhe ele. "S deves 
=mandar essa carta se me acontecer alguma coisa, entendeste? 
"
A francesa fitou-o com alarme e ansiedade.
" Se te acontecer alguma coisa?"
"No te preocupes,  uma mera medida de preveno. =Estamos 
em guerra, eu ando nas trincheiras, em princpio no 
=acontece nada porque estou encarregado da papelada, no de 
combater, =mas nunca se sabe, no ? De modo que, se me 
acontecer alguma coisa,=20
487
o que no penso que venha a acontecer, mas, se acontecer, 
tens =a o contacto da minha me com todas as minhas 
explicaes. ="
" Que explicaes?"
"As coisas normais em tais circunstncias. Quem tu s, que eu 
=te amo, que quero casar contigo, que tens o meu filho no 
ventre, que ela =deve dar-te toda a assistncia de que 
precisares, que todas as minhas =poucas posses vo para ti... 
tudo. "
Agns voltou a mirar a carta, atrapalhada.
"E a que propsito  que tu te lembraste disso agora, a esta 
=hora? "
Ele abraou-a.
"Sei l, lembrei-me, pronto. " Deu-lhe um beijo. "Mas no te 
=preocupes, ma mignonne, j te disse que no morro nem que me 
=matem, vais ver. Nem que me matem. Aqui o teu Afonso  rijo 
como um =carapau, est para lavar e durar. "
Depois de Agns ter adormecido, o capito permaneceu ainda 
=longas horas desperto, a rever os acontecimentos da 
madrugada, segundo a =segundo, imagem por imagem, emoo 
atrs de emoo. Sentia-se exausto mas, quando se foi deitar, 
tardou a adormecer, era =a conscincia que o apoquentava, a 
imagem do alemo com as =entranhas de fora, a voz numa 
splica de moribundo a ecoar-lhe na =memria.
Teve vrios pesadelos durante a noite, chegou a acordar 
=transpirado, Agns a acalm-lo, "tout va bien, mon petit, 
tout va =bien", sussurrou-lhe ela, mas quando acordou da 
ltima vez viu que a luz do Sol lhe entrava pela janela. 
Apalpou a cama, =pro curando a francesa ao lado, mas a mo 
apenas encontrou o =lenol, percebeu que ela j l no 
estava, tinha ido trabalhar. Deixou-se ficar ainda uma meia 
hora na =cama, meio para l, meio para c, no quentinho, na 
sorna, numa =modorra gostosa, at que sentiu fome, bocejou e 
levantou- se. Era =meio-dia. Vestiu uma farda lavada, colocou 
o sobretudo e saiu  rua.
Choviscava c fora, mas o bon de oficial protegia-lhe a 
=cabea. Deu de comer e de beber ao cavalo, que permanecia 
atado
488
 rvore, e seguiu a p pela vila. A trovoada da =artilharia 
mostrava-se nesse dia particularmente intensa e Afonso 
=agradeceu aos cus por no se encontrar de servio nas 
=trincheiras. Cirandou pelas ruas de Bthune e foi a um 
estaminet muito frequentado pelos oficiais do CEP, a 
=proprietria era madame Cazin, uma normanda rechonchuda e 
=bem-disposta, boa compincha dos portugueses. Afonso sentou-
se numa mesa = janela e a senhora Cazin trouxe-lhe uma 
marmite Dieppoise, um suculento =prato da sua Dieppe natal, 
servido num tacho onde se misturavam peixe, =mariscos e molho 
de natas, com uma tarte normande a rematar, tudu regado =a 
poir, uma bebida tradicional normanda feita a partir de 
peras. Estava j =ele a trincar a ma da tarte quando viu um 
rosto familiar entrar =no estaminet.
"Psst, Mascarenhas", chamou. " Mascarenhas! Mascarenhas! " O 
=seu amigo transmontano da Escola do Exrcito, o 
sportinguista dos =cinco costados que era segundo comandante 
de Infantaria 13, veio ter =consigo.
"Ora viva, Afonso! Com que ento por aqui? "
"C vamos. Senta-te, homem. "
O major Mascarenhas acomodou-se na cadeira em frente, a 
claridade =da luz do dia a penetrar pela janela e a iluminar-
lhe o lado direito do =rosto.
"O que  que andas aqui a fazer? ", perguntou o =recm-
chegado. "Desertaste ou qu? Que eu saiba, o 8 est nas 
=linhas e aquilo anda hoje bem quentinho. "
"Pois anda, mas eu estou de licena, graas a Deus. " "Ah 
=sim? Quem  que tiveste de subornar, meu sacripanta? " "No 
me =digas nada, homem. Participei ontem de madrugada num 
raide  Mitzi. "
"O qu? O raide do 21? Tu estiveste l? "
"Estive pois. "
"Mas o que  que tu andavas a fazer no raide do 21? Mudaste 
de =batalho ou qu? "
" muito complicado, Mascarenhas, muito complicado. Coisas de 
=poltica dentro do CEP. Era uma operao da 1. Diviso,=20
489
mas o pessoal da 2. a tambm quis um quinho e quem serviu de 
=carne para canho foi aqui o teu amiguinho "
"Ena, caramba", riu-se Mascarenhas. "No me digas. Conta l 
=como foi aquilo "
"Correu mais ou menos"
"Mais ou menos? Fala-se num grande xito, nos objectivos 
todos =alcanados e numa catadupa de cruzes de guerra e 
promoes a =caminho...
Afonso encolheu os ombros, cansado.
"Sim, sob esse ponto de vista no correu mal. No conjunto de 
=todos os pelotes que participaram no raide, matmos um 
porradal =de boches, fizemos um prisioneiro, destrumos um 
decauville e uma =data de abrigos, no foi mal. "
"Vocs sofreram muitas baixas? "
"No meu peloto, nenhuma. Mas, nos outros pelotes, mais de 
=uma dezena de homens ficaram feridos, incluindo um alferes e 
um tenente. =Acho que encontraram um abrigo que era um 
verdadeiro vespeiro de boches, mas mataram-nos todos. Ou 
melhor, =quase todos, ainda prenderam um, v l. "
"Ouvi dizer que os nossos dois oficiais que ficaram feridos 
=esto mal", comentou Mascarenhas em voz baixa. Fez- se, por 
um =momento, um silncio embaraado, mas o transmontano 
depressa =relanou a conversa em tom mais animado. "E tu? 
Viste muitos boches?"
"Nem por isso. Os gajos pisgaram-se, ainda apanhmos uns 
quantos =em fuga e outros escondidos nos abrigos, mas nada de 
especial. "
"Espero que o raide tenha posto os tipos =em sentido. Andam a 
ficar cada vez mais =atrevidotes, com os ataques que nos 
lanaram nos dias 2 e 7. J reparaste que os gajos 
intensificaram as =operaes?
", est a chegar a Primavera, a lama comea a secar e a 
=coisa vai aquecer.
"Mas no so s os raides", insistiu o major. "Estive a =ler 
os relatrios e reparei que os tipos intensificaram tambm 
as=20
490
patrulhas, este ms j tentaram entrar vrias vezes  =sucapa 
na nossa primeira linha. Ora isso raramente acontecia antes. 
"
"Ah sim? No sabia disso... "
"E j notaste que a artilharia boche tem estado mais activa 
do =que o normal?"
"Issu eu j tinha reparado. Interrogo-me sobre o que  que 
=eles andam a congeminar. Alis, o prprio Mardel anda 
preocupado, =da o raide que ontem fizemos. "
"Pois hoje as coisas voltaram a aquecer, o comando teve 
=informaes de que os gajos iam atacar a todo o momento e 
emitiu =uma ordem para a nossa artilharia bombardear Pitre, 
Ligny le Petit e =alguns sectores da retaguarda por alturas 
de Illies. De modo que, neste momento, vai para =l uma 
actividade danada. "
Ficaram os dois a ouvir o rumor distante da artilharia, os 
=canhes portugueses e alemes em fogo e contrafogo. Madame 
Cazin =aproximou-se entretanto da mesa com a ementa. 
Mascarenhas consultou a =lista e pediu umas andouilles com 
ma. A dona do estaminet afastou-se e o major piscou o olho 
a Afonso.
"No sei que treta  esta das andouilles, mas pelo nome 
=parece uma ave. Ser que so andorinhas? "
Afonso sorriu.
"Chourio em tripas", disse.
"Tripas? "
"Recheadas de chourio. E mas. Os normandos pem =mas em 
tudo. "
"Normandos? "
"Sim, homem, normandos. No sabias que a dona deste estaminet 
= normanda? "
"O qu? Aquela? Uma viking? "
"No, homem, a Normandia  uma regio de Frana aqui =perto, 
junto  costa. Ela veio de l,  s isso "
"Ah", exclamou. Fez uma pausa e ficou a pensar no prato que 
=encomendara. "No desgosto de tripas, nem de chourio. L 
=em Vila Real comemos isso e muito mais "
491
Permaneceram os dois calados, a olhar pela janela que se 
encontrava =ao lado da mesa. Afonso bebeu o ltimo trago do 
poir.
"Sabes que mais me admirou quando andmos ontem a passear l 
=pela Mitzi? "
" O qu?"
"As trinchas dos gajos. "
" O que  que tm "
"So de um luxo do caraas. Tudo bem tratado, o cho seco, 
=sofs, beliches, livros, iluminao elctrica, gramofones, 
=relgios de pndulo, tapetes, eu sei l. At vi um abrigo 
=decorado com papel de parede, v l tu. "
"Ests a reinar. "
"A srio. Aquilo  incrvel, parece que esto em casa, = 
tudo muito asseado, muito organizadinho. Alm do mais, so de 
=uma segurana a toda a prova. Os abrigos da linha esto 
cavados em profundidade, defendidos por paredes de beto e 
ligados =uns aos outros por uma rede de tneis subterrneos. 
No d =para acreditar"
"Mas isso  mesmo assim? "
" como te digo. O Tim j uma vez me tinha dito issn, s =que 
eu no acreditei, achei que eram balelas. Mas agora que vi... 
="Como  que eles conseguem ter isso tudo assim to 
arranjadinho "
"Investiram muito nas instalaes de defesa. Ao que parece, 
=enquanto ns consideramos as trincheiras um local de 
passagem, um =abrigo efmero enquanto no os obrigamos a 
recuar, eles =consideram-nas um posto de permanncia a longo 
prazo, um stio donde nunca sairo. Os nossos =comandos acham 
que temos de permanecer desconfortveis para que =tenhamos 
vontade de os expulsar, dizem eles que  para mantermos o 
=esprito ofensivo. J os comandos dos tipos pensam que a sua 
tropa tem de permanecer =confortvel para no ter vontade de 
recuar. De modo que, enquanto =a malta est na pocilga, os 
gajos refastelam-se em sumptuosas =manses cavadas na terra. 
"
Mascarenhas abriu as mos com as palmas para cima, num gesto 
=conformado.
" C'est la vie "
492
XV
A mo direita curvou-se em garra, as unhas encardidas da 
=sujidade preta da lama escura da terra, aquela lama viscosa 
e peganhenta =que tudo invadia e tudo impregnava, insidiosa e 
to omnipresente que =a ela todos se tinham resignado. 
Vicente meteu a mo por baixo da camisa e coou o ombro 
esquerdo.
"Porra p'rs pulgas! ", exclamou, voltando o pescoo para o 
=lado onde sentiu a comicho. Ergueu ligeiramente a camisa, 
pela gola, =e espreitou para a borbulha vermelha nascida da 
picada do parasita. Acto =contnuo, a mesma mo foi coar o 
couro cabeludo, irritado pelos piolhos. Vicente passou os 
olhos =pelo abrigo e suspirou de enervao. "S mesm'a ns  
que =nos pem neste galinheiro", resmungou. "Quem viu os 
boches a viverem =como fidalgos, l nos seus palacetes 
subterrneos, e quem nos v p'r'qui, neste buraco cheio de 
lam'e merda, deve pensar que somos parvos. " =Calou-se por 
instantes, a reflectir. "E sabem que mais? Somos mesmo. 
=Somos parvos, som'uns grandes parvos por nos sujeitarmos a 
estas =condies, e todos caladinhos, enquant'os cabres dos 
oficiais s'abotoam c'as melhores =instalaes, os bons 
ranchos, as grandes vinhaas e as gajas =boas, e s'esto a 
cagar p'ra ns. A cagar. 493
"Podes crer, Manpulas", concordou Baltazar, deitado no seu 
=catre, os braos abertos e as mos cruzando-se na nuca, a 
=sustentarem a cabea como almofadas. "Isto no  vida, no 
= vida. Andamos para aqui a arrastar-nos, manducamos umas 
raes =mal amanhadas e, ainda por cima, temos de aguentar 
com estes =bombardeamentos da porra que no h meio de 
pararem. "
L fora, a artilharia dos dois lados encontrava-se nesse dia 
=muito activa, mais do que o normal.  verdade que a 
actividade =crescera nas duas ltimas semanas, mas parecia 
agora prolongar-se =para alm do costume. Os canhes 
vomitavam granadas a um ritmo regular, sucedendo-se exploses 
em =ambos os lados das trincheiras, no muito intensas, mas 
permanentes, =uma detonao aqui, depois outra ali, e outra 
ainda. No era uma barragem de ataque, mas um martelar de 
desgaste.
"Dizes bem, no param", queixou-se Abel, os nervos em franja. 
="Isto para mim  o pior. H dois dias que no durmo. No sei 
=que bicho mordeu aos gajos, mas a verdade  que, desde que 
h umas semanas lhes deu para nos chatearem a toda a hora e 
nos atirarem =com as garrafas de litro, os copos de meio 
litro, as abboras e eu =sei l que mais, eu no prego olho. 
"
"P'ra mim, o pior so os barris d'almude", comentou Vicente, 
=referindo-se aos projcteis de grosso calibre. "Quand'eles 
estouram, =at os tomates se me tremem, caraas! "
Todos esboaram um sorriso fatigado. A canhoada prosseguia, 
=incansvel.
"Os bombardeamentos so tramados,  verdade", insistiu 
=Baltazar. "Mas a paparoca  que d cabo de mim. " Sentou-se 
no =catre e mirou os companheiros, num esforo para desviar 
as =atenes do violento bombardeamento que se desenrolava no 
exterior. "Ento no  que =eu fui comprar um queijinho l  
Cantina Depsito, um queijinho =que era uma categoria, h? 
uma categoria de queijo flamengo, trouxe-o =aqui para as 
trinchas e j me desapareceu todo? "
"Desapareceu, como? ", quis saber Matias, at ali entretido a 
=limpar a Lewis.
494
"Desapareceu. Pendurei-o ali, apagmos a luz, fui bater uma 
=sorna e, quando l voltei, foi-se. "
"Ests parvo ou qu? Ento deixas o queijo para a e =depois 
surpreendes-te que ele tenha desaparecido? "
"Sim, claro que me surpreendo. Nunca imaginei que os meus 
maradas =me gamassem comida, caraas "
"A malta? Gamar-te o farnel " Matias ps o pano de limpar 
numa =pedra e bateu com o indicador na testa. " homem, tem 
mas  =juzo! No vs que isto est cheio de ratos? "
"E o que  que os ratos tm a ver com o meu queijo? " Matias 
=ficou baralhado.
"O que  que tm a ver? Mas, se so ratos... "
"Quais ratos, qual porra! Ests a reinar comigo ou qu? " 
=Baltazar levantou-se bruscamente, com grandes gestos, 
irritado. "Pois se =eu pendurei o queijo! Pendurei-o, 
percebes? Aqui. " Indicou com as =mos o stio. "Ests a ver 
este gancho no tecto? " Tocou no gancho. "Amarrei o queijo e 
=pendurei-o aqui no gancho. Como  que queres que os ratos 
tenham =vindo buscar o queijo, h? Como  que queres? S se 
forem ratos =voadores... "
" Baltazar, tem mas  tino nessa cabea! "
"Tino? Eu? "
"Sim, tino! Ento no sabes que os ratos se penduram nos 
=ganchos para chegarem  comida? "
"Penduram-se nos ganchos? Os ratos? Nos ganchos? Vai-te 
cardar! "
"Estou-te a dizer que se penduram em tudo, Baltazar. Tudo. 
At =nos ganchos. "
"j viste? "
"Por acaso, j. "
Baltazar olhou-o com incredulidade.
"Ests a reinar. "
"Estou-te a dizer que j vi. Uma vez, quando vocs estavam a 
=trabalhar nas drenagens das trinchas e eu voltei sozinho de 
um servio de sentinela, deixei uma baguette pendurada num 
saco pregado ao tecto. =Fui-me deitar e, quando comecei a 
dormir, senti
495
ratazanas a correrem em cima de mim. Passado um bocado, quis 
ir =mijar. Acendi a vela e vi os ratos todos pendurados no 
po, pareciam =um cacho, as caudas pretas suspensas no ar. Ao 
verem a luz, largaram a =baguette, caram no cho e pisgaram-
se todos, mas o certo  que eles estavam l =pendurados. 
Andei a investigar, a meter o bedelho nas coisas, vi-lhes os 
=olhinhos a brilharem nos buracos e topei tudo. Eles montaram 
um sistema =de tneis nas paredes das trinchas e pem-se  
coca. Quando a luz se apaga, vai de sarem e atirarem-se = 
doida para a comida. A doida. Sentem-lhe o cheiro e saltam de 
todos =os lados. Portanto, foi de certeza assim que eles 
tambm te limparam =o queijo. "
"Homessa! ", exclamou Baltazar, surpreendido. "Ora querem l 
ver =isto?  verdade que eles andam sempre por aqui a 
escarafunchar e  =noite, quando a luz est apagada, aparecem 
mais. Mas nunca imaginei que conseguissem apanhar =farnel 
pendurado no ar, caraas.  do camano! "
"Os ratos so uma merda! ", grunhiu Vicente, ainda a coar as 
=borbulhas das picadas das pulgas. "Tambm j no sei onde 
poss'esconder a comida. E fic'aqui quilhado quand'os 
=sint'andarem por cima de mim durant'a noite. Os mais 
pequenos saltitam, =s'estivermos ferrados nem se d por ela, 
inda v que no v. =Mas h os outros, aqueles gordos=20e 
anafados, to a ver? Esses so mesmo pesados, catano,  
=difcil ignor-los. Ainda por cim's vezes escond'o po 
=debaixo d'almofada, p'ra eles no lhe chegarem, mas os 
cabres =no me largam, pem-se-m'a cheirar o cabelo. "
", parecem lontras", assentiu Abel com ar conhecedor. "J 
=repararam que, depois dos combates, os gajos andam mais 
gordos? J =repararam nisso, h "
Calaram-se todos e ficaram momentaneamente a matutar nesta 
=perturbadora observao do Lingrinhas, embalados pelo som 
das =exploses. Matias lembrou-se do cadver que semanas 
antes tinha =resgatado da terra de ningum, meio comido pelas 
ratazanas, e estremeceu. Na altura no comentou =o assunto 
com ningum e preferia no o fazer agora.
496
"Mas por qu' que no se faz um extermnio dos ratos? ", 
=perguntou Vicente, tambm ele arrepiado com a ideia de os 
ratos se =alimentarem de carne humana. "Sempre s'acabava c'o 
esta praga... "
"O comando no deixa", respondeu Baltazar. "Consta que os 
=maiorais acham que os ratos so teis "
"teis? Os ratos? teis p'ra qu? "
"Os tipos acham que os ratos no deixam apodrecer a carne dos 
=mortos, so teis para a higiene ali da Avenida Afonso 
Costa", =disse o Velho, projectando a mo direita vagamente 
em direco =da terra de ningum.
"Porra, caraas! ", vociferou Vicente, elevando a voz. "S 
=mesm'a mente dos porcalhes dos oficiais p'ra pensar numa 
nojeira =dessas! Cabres de merda! Marranos d'um raio! E o 
qu' qu'eles =diriam se lhes atirssemos umas ratazanas 
esfaimadas p'ra cima dos cornos, h? Isso =tambm no seria 
til p'r higiene das trinchas? Se calhar =era melhor, 
livrvamo-nos d'uma vez por todas dessa corja de =chupistas e 
paneleiros e amos mas  todos p'ra casa! " Era nos momentos 
de irritao que Vicente mais =se atrapalhava a falar e mais 
slabas engolia. "Puta qu'os pariu! "
A artilharia calou-se nesse momento e os soldados respiraram 
de =alvio. Matias arrumou a Lewis a um canto, sacudiu as 
mos e =ergueu-se, decidido.
"Malta", disse ento. "Vamos l tratar da sade aos ratos. =" 
"Como assim, tratar-lhes da sade? ", admirou-se Baltazar. O 
cabo =ignorou a pergunta.
"Abel e Vicente, vo l fora buscar quatro ps. " Os dois 
=soldados ergueram-se, sem nada compreenderem, penduraram as 
mscaras =antigs ao pescoo, no fosse o diabo tec-las, e 
saram =do abrigo para executarem a ordem. Matias acocorou-se 
junto s provises, tirou uma =lata de corned-beefe e abriu-
a. As praas regressaram, entretanto, =com as quatro ps e 
ficaram a aguardar instrues. O cabo pegou =em duas ps, 
ficou com uma na mo e entregou a outra a Baltazar. De 
seguida, espalhou um
497
pouco de corned-beef pelo cho hmido do abrigo e olhou para 
=os seus homens.
"Vamos apagar a luz. Quando os gajos aparecerem e vierem para 
aqui =manducar a carne,  minha ordem comeamos a avi-los 
com as =ps. Entendido? "
Todos murmuraram que sim e foram apagar os candeeiros. Logo 
que o =abrigo mergulhou na escurido, ouviu-se o habitual som 
das patinhas a percorrerem o soalho molhado e =a convergirem 
para o local onde se encontrava a comida. Escutaram-se 
=pequenos corpos a roar uns nos outros, atarefados e 
gulosos, =certamente que se amontoavam, sfregos, esfaimados, 
disputando com ferocidade o msero pedao de =carne.
"Agora! ", exclamou Matias.
Os quatro homens despejaram as ps sobre o molho invisvel de 
=ratos, acertaram no stio onde estava a carne e ouviram 
guinchos a =escaparem-se do cho. Sempre s escuras, 
reergueram as ps e voltaram a bater, desta vez usando o 
perfil da concha da p como =se fosse uma lmina gigante, e 
bateram ainda mais uma e outra vez, =por vezes as ps 
atrapalhando-se umas s outras, mas batendo na mesma. Ouviram 
os ratos a espraiarem-se pelo =abrigo, em pnico, e a 
violncia terminou to depressa como =comeara. Sentindo a 
calma restabelecida, Baltazar reacendeu os =candeeiros. A luz 
revelou pequenos corpos negros e castanhos estendidos no 
cho, ensanguentados, mutilados, =contaram sete, dois mortos, 
trs moribundos, dois feridos. Os que =ainda mexiam foram 
prontamente aniquilados pelas vingativas ps. =Terminada a 
matana dos sobreviventes, os soldados encheram as ps de 
corpos desfeitos =de ratos e ratazanas e levaram-nos para as 
trincheiras. Chovia l =fora. Atiraram os corpos para poas 
de lama que se encontravam para =alm do parapeito e 
repararam que nesses charcos havia outros ratos, vivos, =a 
nadar, os narizinhos espetados  superfcie, todos a 
convergirem =para os cadveres recm-chegados.
"Que se comam uns aos outros! ", disse Baltazar com um esgar 
de =nojo. "Bom proveito"
498
Soaram nesse instante as buzinas Strombos. O soldado colocou 
a =mscara no rosto e apressou o passo em direco ao abrigo. 
=Vinha a gs.
Afonso e Pinto foram na manh de 18 de Maro ao Laventie East 
=Post para coordenarem o apoio s primeiras linhas. O 
regresso da =Primavera tinha sido turbulento, com as posies 
portuguesas a =enfrentarem sucessivos vendavais de 
bombardeamentos alemes. O inimigo lanou =novos raides a 12 
e nesse dia 18, reflectindo um aumento de actividade =que 
provocou uma razia entre os depauperados efectivos 
portugueses. =Quando o ltimo raide terminou e os alemes 
retiraram, os dois oficiais seguiram pela Harlech Road em 
=direco a Red House, na Rue du Bacquerot. A meio da 
estrada, =perto de Harlech Castle, cruzaram-se com o tenente 
Cook, que vinha em =sentido contrrio.
"What ho, Afonso, my lad! ", cumprimentou o ingls, fazendo 
=continncia. Olhou para o Cenoura. "Como est, seu Pinto? "
"Viva Tim", saudou Afonso. "Por aqui? "
" mesmo, estou preparando um report para o meu boss. " "Isto 
=est mau, hem? "
"Right ho", assentiu o tenente Cook sombriamente. "Not good, 
not =bloody good. "
"Anda, vamos ali tomar um chazito "
O ingls aceitou o convite e juntou-se aos dois portugueses. 
=Caminharam pela Harlech Road, apanharam a Rue du Bacquerot 
junto a Red =House e viraram  esquerda at Picantin Road, 
indo instalar-se =em Picantin Post.
"Joaquim, ch para trs", disse Afonso  sua ordenana =ao 
entrar no posto.
O soldado foi aquecer a chaleira enquanto os trs oficiais 
=recm- chegados se instalavam dentro do abrigo do capito, 
=sentados em caixotes de munies. Cook retirou do bolso um 
=cachimbo e um saquinho com o que parecia ser erva escura.
"Tabaco de Aleppo", explicou, notando o olhar inquisitivo dos 
=portugueses.
499
O tenente ingls colocou o tabaco no cachimbo e juntou-lhe o 
=lume de um fsforo. Afonso pigarreou.
"O que  que achas que os tipos esto a preparar? " " Quem? 
=Os jerries?"
"Sim. "
O tenente ingls aspirou forte, com o fsforo aceso sobre o 
=tabaco, e conseguiu puxar uma baforada de fumo. O aroma 
agradvel do =cachimbo perfumou o abrigo.
"Hard to say", disse finalmente. Aspirou mais um pouco e 
largou uma =nova nuvem de fumo. "No h dvidas de que os 
jerries vo =atacar em breve. No doubts whatsoever. O 
=prprio Alto Comando j comenta isso abertamente. A questo 
= saber onde. "
"Achas que ser aqui? "
"Hardly. " Ergueu-se e aproximou-se do mapa que se encontrava 
na =parede. "Temos informaes fidedignas que apontam para 
algures no =sector de Arras, mais para o sul. " Indicou com o 
cachimbo o ponto que =referenciava Arras no mapa. "Aqui. "
"Ento por que  que esto a bombardear- nos desta forma 
=todos os dias e a lanar estes raides? "
 "O Alto Comando pensa que so manobras de diverso. Os
jerries querem manter-nos no escuro, a tentarmos adivinhar 
qual o =ponto que vai ser atacado. Por isso, reactivaram esta 
frente " "Mas =sabes o que  que ns j notmos? ", perguntou 
Afonso, remexendo-se desconfortavelmente sobre o =caixote 
onde se encontrava sentado. "Os boches esto a regular o tiro 
=sobre ns. "
Cook fez um ar intrigado.
" Jhat do you mean "
"O fogo de artilharia no est a cair aleatoriamente. Antes 
=pelo contrrio, eles esto a disparar com muita preciso 
sobre =determinados alvos. Por exemplo, andam a regular o 
tiro sobre estradas, cruzamentos e postos de =comando. " 
Estreitou os olhos. "D a impresso de que esto a =ensaiar. 
Para que  que lhes serve bombardearem estradas, a no =ser 
para as referenciarem de modo a que, se lanarem um grande 
ataque, possam impedir a circula o de =reforos? "
500
"Isso  curioso", reflectiu Cook, sentando-se no seu caixote. 
="Confesso que me vou inclinando para a possibilidade de eles 
estarem =tentando criar uma manobra de diverso, mas isso que 
voc diz me =deixa na dvida. " Aspirou o cachimbo e soltou 
mais uma lufada de fumo =aromtico. "Sabe, d a impresso de 
que esses raides todos =esto servindo para os sujeitos 
testarem as vossas defesas. Admito =que eles lancem uma 
operao por aqui, mas olhe que vai ser coisa limitada, ser 
s para nos =xingarem, entendeu? "
Afonso e Pinto entreolharam-se. O capito ergueu-se, foi 
buscar =uma pasta que guardava debaixo do catre e voltou a 
sentar-se no caixote. =Abriu a pasta e exibiu uma resma de 
folhas dactilografadas em papel =qumico, eram cpias de 
documentos.
"Ests a ver isto? ", perguntou, levantando as folhas e 
=agitando- as  frente do ingls. "So os nossos relatrios 
=dirios. So elaborados pelos oficiais da Brigada do Minho e 
=referem-se  actividade aqui em Fauquissart, o sector=20 
nossa guarda." Afonso ps-se a folhear os documentos, lendo 
aqui =e ali, mudando de folha, lendo mais um pouco, mudando 
novamente, e assim =por diante. A certa altura parou numa 
folha, voltou para a folha =anterior, de novo a seguinte, 
outra vez=20a anterior. "C est", exclamou finalmente. 
Apontou para o meio da =pgina. "Olha para isto. "
" What? "
Afonso leu o documento.
"Este  o relatrio do dia 7 de Maro, h menos de duas 
=semanas. Nessa noite saram vrias patrulhas para a terra de 
=ningum, e diz aqui o seguinte. " Fez uma pausa para ler o 
texto. ="Foi notado bastante rudo de viaturas  retaguarda 
das linhas inimigas. " Ergueu a cabea e fixou o =ingls. 
"Ouviste?  a primeira vez que um relatrio menciona a 
=existncia de rudo de viaturas na retaguarda alem. " Mudou 
=para a folha seguinte. "Agora  o relatrio de 8 de Maro. " 
Comeou a ler o trecho que lhe interessava. ="Ouviu-se o 
rodar de vagonetas  retaguarda da primeira linha =inimiga. " 
Sem levantar a cabea, passou  folha
501
seguinte. "Este  o relatrio de 9 de Maro " Uma ligeira 
=pausa. "Durante toda a noite foi ouvido o rodar de vagonetas 
 =retaguarda da primeira linha inimiga " Nova folha. 
"Relatrio de 12 =de Maro " Hesitou, surpreendido. "Olha, 
falta-me o de 10 e o de 11 " Procurou =na resma, foi para 
trs e para a frente, mas no encontrou. =Encolheu os ombros, 
resignado. "No faz mal, vamos ver o de 12 " Curta pausa. " 
Todas as patrulhas =informam que durante a noite houve grande 
movimento de viaturas  =retaguarda das linhas inimigas e 
rodar de vagonetas. " Folha seguinte. ="Relatrio de 13 de. "
"All right, all right, got it", interrompeu Cook. "J entendi 
=que h grande movimento de viaturas nas linhas alems. "
Afonso ergueu a cabea e fixou-lhe os olhos.
"Exactamente. Eles esto a movimentar tropas  nossa frente. 
=" "Pode ser muita coisa. "
"Pode ser. "
"Pode ser que estejam movimentando foras para outros pontos 
da =frente. "
"Pode ser. Mas tambm pode ser que estejam a movimentar 
=foras de outros pontos para aqui. Alis, tudo isto coincide 
com o =aumento dos bombardeamentos e dos raides inimigos 
sobre as nossas =linhas. Basta somar dois e dois "
Joaquim entrou no abrigo com a chaleira a ferver e copos de 
=lato. Os dois oficiais portugueses serviram-se, mas o 
ingls =preferiu concentrar-se no cachimbo. Cook aspirou 
forte, os lbios a =envolverem o bocal, mas no saiu fumo 
nenhum.
"Damn! ", praguejou, inspeccionando o tabaco inserido no 
cachimbo. ="Se apagou. "
Colocou o cachimbo de lado, irritado, e serviu-se de ch. "O 
=problema  que esta actividade dos boches est a reflectir-
se negativamente no moral das tropas", disse Afonso. "Eu 
=notei", devolveu Cook. "Enxerguei sentinelas cochilando nas 
trincheiras, =munies espalhadas pelo cho,  toa, 
parapeitos por =reparar. Isso no  bom, no "
Afonso suspirou.
502
"Andamos aqui h demasiado tempo, demasiado. Olha, Tim, 
quando a =nossa brigada entrou nas linhas, em Setembro, os 
boches tinham diante de =ns a 219. a Diviso. Em Novembro, 
essa diviso foi rendida =pela 50. a Em Janeiro saiu a 50. a 
e entrou a 44. a E este ms a 44. a foi descansar e temos 
agora pela frente =a 81. a Diviso alem. Ou seja, em seis 
meses eles colocaram ali =quatro divises diferentes, rodando 
os homens e deixando- os =descansar. Pois nesses seis meses 
ns nunca descansmos e tivemos sempre de enfrentar tropas 
frescas. " =Bebeu um golo de ch. "Mesmo as vossas foras tm 
estado sempre =a ser rendidas.  nossa esquerda, desde 
Setembro, estiveram =sucessivamente a 38. a Diviso 
britnica, a 12. a Diviso e agora a 57. a Diviso. E  
direita =sucederam-se, no mesmo perodo, a 25. a Diviso, a 
42. a =Diviso e agora a 55. a Diviso. E ns sempre na 
mesma, parece =que crimos razes. Como  que queres que o 
moral das nossas tropas permanea elevado H?"
Cook assentiu com a cabea.
"Vocs tm de ser substitudos, no tenho dvida =nenhuma. 
Nem eu, nem o Alto Comando. Alis, essa  a minha 
=recomendao ao meu boss. " Engoliu de assentada o resto do 
ch e ergueu-se. "Look, Afonso, tenho de ir andando para 
fazer meu report. =Se eu tiver novidades, eu te digo, t? " 
Fez continncia. ="Cheerio, old chap. "
Comeou por ser apenas um rumor, algum que disse que =algum 
ouviu dizer, e a palavra foi circulando de boca em boca, 
=esvoaando pelas trincheiras, saltitando pelos abrigos. No 
posto de =sinaleiros, porm, o boato transformou-se em 
certeza.
"Sim, meu capito, os boches lanaram uma grande ofensiva", 
=confirmou o oficial de servio aos sinais, um tenente.
"Onde? ", quis saber Afonso.
"Entre Arras e St. Quentin, meu capito. "
Afonso dirigiu-se ao mapa.
"Hum, isso  em frente de Amiens", verificou, medindo as 
=distncias em relao a Armentires e em relao a =Paris. 
"E como  que esto as coisas? "
503
"Acho que mal, meu capito. Temos poucas informaes, mas 
=dizem que  o maior bombardeamento de sempre e que h uma 
mar =de boches a avanarem sobre os camones. "
"Os gajos avanaram at onde? ", quis saber Afonso, sempre 
=com os olhos pregados ao mapa.
"Isso no sei, meu capito. "
Afonso sentiu um peso a libertar-se-lhe dos ombros. Corria o 
dia 21 =de Maro e aquela era certamente a grande ofensiva da 
Primavera. Os =alemes davam o tudo por tudo para quebrarem 
as linhas aliadas e, =mais importante do que o resto, no 
escolheram o sector do rio Lys para o fazerem. O capito 
quase =sorriu de contentamento, o pior cenrio, aquele que 
mais temera e que =mais o consumira, no se confirmara. Tim 
tinha razo quando dizia =ter informaes seguras de que os 
alemes iriam antes avanar no sector de =Arras.
Reforando a convico de que j no havia motivos =para 
recear uma grande operao alem contra o CEP, a =actividade 
do inimigo sobre as posies portuguesas diminuiu 
drasticamente de intensidade nos dias que se =seguiram ao 
grande ataque do dia 21. As patrulhas ainda continuaram a 
=registar enorme movimento de viaturas na retaguarda das 
linhas alems, mas a partir do dia 25 instalou-se a 
tranquilidade.
Afonso suspirou de alvio.
504
XVI
"O qu? Atacas com trunfo? ", perguntou Afonso, olhando
surpreendido para o sete de copas deitado sobre a mesa de 
madeira =tosca.
 a manilha. V, v l se cobres isso, anda, desafiou o
tenente Pinto com ar de troa.
O capito retirou uma carta do seu jogo e lanou-a para a
mesa. Era o s de copas.
O tenente sorriu.
"Ests a ver como tinhas o s, h? "
"Tinha, pois", disse Afonso, recolhendo as cartas. "Tinha o 
s
e fiquei-te com a manilha. "
Pinto mirou o seu jogo. Sem levantar os olhos das cartas,=20
voltou ao assunto que lhe interessava.
"No percebo como  que eles planearam a ofensiva. " Abanou
a cabea. "No percebo. "
"Quem? Os boches? ", perguntou Afonso, sabendo muito bem
que era sobre os alemes que o tenente falava. "Se calhar, os
nossos homens tambm deram uma ajuda, afinal de contas no
os amos deixar vir por a em passeio, no ? "
505
"Mesmo assim "
Os dois oficiais jogavam s cartas ao princpio da tarde de 3 
=de Abril, sentados em sacos de terra junto a um dos postos 
de =metralhadora de Picantin Post, a comentarem o fim da 
ofensiva alem. =O inimigo tinha chegado a tomar Ham e 
Bapaume, aproximando-se perigosamente de Amiens e Arras =e 
lanando o pnico entre os aliados. Mas uma muralha 
improvisada, =constituda inclusivamente por artilharia 
proveniente do sector do =CEP, conseguiu travar o caminho aos 
alemes e a ofensiva esgotou-se.
Afonso preparava-se para lanar o trs de copas e, desse 
=modo, destrunfar o adversrio quando um estafeta chegou de 
bicicleta =e tirou um envelope do saco que levava a tiracolo. 
O capito assinou =o papel a acusar a recepo, pegou no 
envelope, rasgou a extremidade, tirou a folha que estava l 
dentro e =desdobrou-a. Era a Ordem R. O. /23. Comeou a l-la 
e um sorriso =aflorou-lhe aos lbios.
"O que , Afonso? ", quis saber Pinto, a quem no passou 
=despercebida a reaco do amigo.
"Cenoura, meu caro, cheira-me que em breve vamos passear a 
Paris. "
"Ests a reinar comigo", excitou-se o tenente, inclinando-se 
=para a frente e estendendo a mo para pegar na ordem. 
"Mostra l =isso. "
O capito deu uma gargalhada e atirou o brao para trs, 
=mantendo a folha fora do alcance do amigo, que se esticava 
para a =alcanar.
"Calma", riu-se. "Calma. " "s indecente. Mostra l... "
Pinto voltou a sentar-se, embora relutantemente, e Afonso leu 
de =novo a ordem.
"Ento  assim", disse, perante a expectativa do tenente. 
="Amanh  noite, a 1. a Brigada sai da linha e vai 
descansar, =sendo substituda pela 2. a Brigada. Depois de 
amanh, a 3. a =Brigada sai da linha e as que c ficam 
esticam as suas foras para ocuparem o espao que ela 
=deixou. A 2. Diviso, reforada pela 1. a Brigada,=20
506
vai tomar conta de todo o sector, enquanto a 1. a Diviso ir 
=finalmente repousar. E daqui a trs dias passamos a ficar 
integrados =no XI Corpo dos bifes "
O tenente hesitou.
"No percebo por que  que ests assim to contente", 
=desabafou, decepcionado. "Quem vai descansar  a 1. a 
Diviso, =esses  que devem estar aos pulos. Ns ficamos aqui 
a amochar, =qual  a piada?"
"A piada, meu caro Cenoura,  que isto significa que tambm 
=ns iremos em breve descansar. Ento no percebes que a 2. a 
=Diviso, mesmo reforada por uma brigada da 1. a Diviso, 
no pode ficar eternamente a aguentar um sector que antes era 
defendido =por duas divises? Os camones no vo nisso. 
Quando passarmos a =integrar o XI Corpo, os gajos ficam a 
controlar-nos e, zs! =substituem-nos logo. " Fez um gesto 
rpido com a mo, a acompanhar o "zs". "Eles sabem que 
estamos a =dar as ltimas. "
Foi a vez de Pinto sorrir.
"Sim, talvez tenhas razo", admitiu. "E onde  que fica a 
=nossa brigada? "
"Essa, meu caro Cenoura,  a cereja em cima do bolo. A 2. a 
Brigada vai para Ferme du Bois, a 6. a para =Neuve Chapelle e 
a 5. a para Fauquissart. E a Brigada do Minho, meu =caro, a 
nossa Brigada do Minho sai daqui de Fauquissart e fica 
=gloriosamente de reserva!"
O tenente deu uma entusiasmada palmada na coxa e riu-se. 
"Boa, boa! =Boas decises!  assim mesmo! Adeus Brigada do 
Minho, viva a =Barrigada do Minho. "
Uma hora depois, a Ordem R. O. /23 foi completada pela Ordem 
de =Operaes n. o 19, emitida pela Brigada do Minho com 
=instrues detalhadas sobre o processo de rendio de 
=foras. Este segundo documento, assinado pelo comandante 
interino da =brigada, o tenente-coronel Mardel, estabelecia 
que a rendio =ficaria completa em trs dias, com Infantaria 
8 a ser colocada em =apoio e, logo a seguir,=20em reserva. O 
ambiente entre os minhotos =desanuviou-se consideravelmente e 
Afonso mal podia conter a ansiedade
507
por voltar a ver Agns. O dia seguinte, 4 de Abril, voltou a 
ser =tranquilo. Os homens quase s falavam nas rendies que 
se =anunciavam, pressentindo nelas o preldio de um descanso 
mais prolongado, quem sabe o regresso a casa. Viam-se 
=soldados a sorrir, a brincar, o pesadelo aproximava-se do 
fim.
Na manh do dia 5, o capito foi chamado a Laventie para uma 
=reunio com o tenente-coronel Mardel. Os comandantes dos 
quatro =batalhes do Minho e os restantes comandantes de 
companhias =juntaram-se na sala de conferncias do quartel-
general, havia muitos sorrisos, algumas gargalhadas no 
=burburinho animado da conversa, os oficiais estavam 
descontraidamente =agarrados aos cigarros, vivia-se um 
ambiente festivo, alegre, aliviado.
O suave rumor das vozes foi interrompido quando a porta se 
abriu e =Mardel entrou na sala. O comandante interino da 
Brigada do Minho vinha com o rosto fechado e ar grave. 
=Cumprimentou- os com um gesto seco e mandou-os sentar. Os 
oficiais =calaram-se e acomodaram-se em torno da grande mesa, 
subitamente =inquietos, pressentiam problemas no olhar 
sombrio de Mardel.
"Oh diacho! ", comentou Afonso para Montalvo entre dentes. 
"Vem =com ar de caso. "
Mardel aguardou que todos se instalassem. Afonso notou que 
ele =tinha as sobrancelhas carregadas e um tique nervoso no 
nariz, no era =bom augrio.
"Meus senhores", disse enfim o tenente- coronel, olhando 
lentamente =em redor. "Na noite passada, os homens de 
Infantaria 7 pegaram em armas =e revoltaram-se."
Um murmrio tenso percorreu a mesa. O 7, de Leiria, pertencia 
= 2. a Brigada e todos sabiam que essa era a nica brigada 
da 1. a =Diviso que no iria descansar. Mardel deixou a 
notcia =assentar.
"As praas do 7 no aceitaram ficar na linha enquanto as 
=outras brigadas retiravam. Segundo informaes que agora me 
=chegaram, os soldados recusaram-se a marchar para Ferme du 
Bois, o =sector que lhes estava destinado. Puseram-se aos 
tiros 508
e impediram que Infantaria 23 e Infantaria 24 seguissem para 
as =suas posies. " O 23 e o 24 tambm pertenciam  2. a 
=Brigada. "De modo que, meus senhores, lamento ter de vos 
comunicar que =recebi ordens=20de St. Venant no sentido de 
que a Brigada do Minho ter de se manter =em Fauquissart. "
Os oficiais entreolharam-se, decepcionados. Todos pensaram no 
=efeito que a notcia teria nos homens, j felizes por sarem 
da =linha e serem colocados de reserva.
"Meu tenente-coronel, qual ser a nossa disposio? ", 
=perguntou o major Xavier da Costa, comandante de Infantaria 
29, o outro =batalho de Braga.
"Fica tudo como est. Nas primeiras linhas permanecero 
=Infantaria 8,  esquerda, e Infantaria 20,  direita. Atrs 
=teremos Infantaria 29 e Infantaria 3. "
"E a 5. a Brigada vai para Ferme du Bois? ", quis saber o 
major =Montalvo, comandante do 8.
"Afirmativo. Ir substituir a 2. a Brigada. Para alm de 
=ns, quem se trama  a 3. a Brigada, que ia descansar e j 
=no vai, fica de reserva por causa da revolta na 2. a 
Brigada "
Como era de prever, os homens no receberam bem a notcia. 
=Ouviram-se insultos e protestos, mas, no fundo, todos 
compreendiam que o =pessoal da 1. a Diviso tinha mais 
direito ao descanso do que o da 2. =a Diviso, uma vez que se 
encontrava havia mais tempo nas linhas.
A preocupao de Afonso adensou-se nessa noite. O capito 
=mandou o sargento Rosa e o seu peloto efectuarem uma 
patrulha de =reconhecimento e ficou na linha da frente, junto 
 Great Northern =Trench, a aguardar o regresso dos homens. 
Ouviu vrias rajadas de metralhadora enquanto a patrulha se 
encontrava na =terra de ningum, o que o fez recear pela 
segurana dos homens. Ao =fim de duas horas, porm, a voz de 
Matias, com a senha do dia, =devolveu-lhe a tranquilidade. O 
enorme cabo saltou de regresso  primeira =linha, seguido de 
Abel, do sargento Rosa, de Vicente e de Baltazar.
509
"Ento? Tudo calmo? ", perguntou Afonso ao sargento. "Meu 
=capito, eles tiveram as costureiras muito activas, foi um 
pouco =agitado "
"Eu ouvi-as. E quanto ao resto? "
O sargento fez um trejeito com a boca e olhou de relance para 
o =resto da patrulha, o olhar ensombrado de apreenso.
"No sei, meu capito. No sei. "
"No sabes o qu? ", admirou-se Afonso.
Rosa suspirou.
"Sabe, meu capito, esto a passar-se coisas estranhas do 
=outro lado... "
"Coisas estranhas? Que coisas estranhas? "
"A malta ouviu o som de motores na retaguarda dos gajos, eram 
=camionetas e camies a passarem uns atrs dos outros, um 
movimento =danado. " Rosa coou a barba rala. "E ouvimos 
tambm um som =diferente, assim catac-catac-catac, 
parecia, sei l, parecia um comboio. "
"Um comboio? "
Rosa olhou para Matias.
"Era ou no era um comboio? ", certificou-se o sargento.
Matias fez que sim com a cabea, sem dizer nada, e os outros 
=homens imitaram-no.
"Um comboio? ", interrogou-se Afonso, verdadeiramente 
intrigado. =Olhou para Rosa. "E foi tudo? "
"No, houve mais", indicou o sargento. "Vimos tambm muitos 
=homens desarmados, l ao fundo, e um grupo a consertar fios 
=telefnicos. "
Afonso regressou pensativo e preocupado ao seu posto de 
Picantin. =Foi falar com o tenente Pinto, comunicando-lhe as 
novidades, e decidiram =ir ambos conversar com os homens que 
participaram nas patrulhas dos dias =anteriores. Localizaram 
os soldados na manh seguinte, 6 de Abril, e o que ouviram 
deixou-os verdadeiramente =inquietos. As praas envolvidas 
nas aces de reconhecimento =revelaram ter recomeado no dia 
2 a escutar o barulho de camies a =circular na retaguarda 
alem. Os soldados
510
falavam excitadamente num grande movimento de tropas inimigas 
e =diziam ter visto homens a consertar fios telefnicos, a 
colocar =tabuletas, a transportar madeira, a carregar sacos e 
caixotes, a montar =crateras artificiais, a melhorar as vias 
de comunicao. Uma das praas afirmou mesmo ter observado um 
oficial =alemo a estudar de binculos as linhas portuguesas 
e a tomar =notas, enquanto outras detectaram o uso de 
periscpios.
Imensamente alarmado, Afonso requisitou um cavalo e seguiu 
pela =Harlech Road at Laventie. Apresentou-se no quartel-
general da =brigada e pediu para falar com o tenente-coronel 
Mardel. Aps uma espera de apenas cinco minutos, o comandante 
interino da Brigada =do Minho recebeu- o e Afonso comunicou-
lhe todas as informaes =que tinha recolhido. Quando 
concluiu a exposio, Mardel sorriu.
"Voc preocupa-se demasiado, caro capito Brando. " =Afonso 
corou, embaraado.
"O senhor acha, meu comandante? "
"Ento no hei-de achar? "
"Mas no pensa que estes sinais so preocupantes? " 
="Afirmativo. Penso que so preocupantes, capito, muito 
=preocupantes at. "
O capito ficou atrapalhado, sem entender a desconcertante 
=reaco de Mardel.
"Mas ento... "
"Os sinais so preocupantes, mas no para ns", cortou o 
=comandante. "So preocupantes  para os bifes. "
"Para os bifes? ", admirou-se Afonso. "Mas olhe que isto est 
=tudo a passar-se  nossa frente, meu comandante, isto vai 
cair-nos em =cima!"
"Negativo, capito. Negativo. Vai cair em cima dos bifes. " 
=Afonso hesitou.
"Mas... como  que... "
"Tenha calma, capito, tenha calma", adiantou Mardel. Abriu 
uma =gaveta da sua secretria e tirou umas folhas 
dactilografadas. ="Est a ver isto? " Exibiu-lhe a primeira 
pgina e Afonso percebeu
511
que era um documento redigido em ingls. "Isto  a Ordem de 
=Rendio n. o 329, emitida esta manh pelo general Haking, o 
=comandante do XI Corpo britnico, e que me chegou h pouco 
aqui = brigada, h coisa de uns vinte minutos. E sabe o que 
 que diz? " Mardel fixou =os olhos em Afonso, procurando 
captar-lhe a expresso quando =pronunciasse a frase seguinte. 
"A Ordem de Rendio n. 328 determina a retirada da frente de 
combate de todo o corpo =portugus. " Fez uma pausa 
dramtica. "Todo. "
Afonso abriu a boca, tentando digerir o impacto da notcia. 
="Todo o corpo portugus? Vamos retirar? "
"Afirmativo, capito Brando. Vamos ser rendidos. " "Mas 
=ainda h dias. "
"O general Haking veio visitar as nossas linhas", apressou-se 
=Mardel a esclarecer. "Ele viu o estado das tropas e concluiu 
que os =homens no podem continuar na frente, j no esto 
=em condies. De modo que, meu caro, =samos ns e entra a 
50. a Diviso britnica. "
"Mas isso  magnfico, meu comandante. Magnfico! " Afonso 
=no se conteve de alegria. Efusivo, o capito levantou-se da 
=cadeira e, com entusiasmo, estendeu a mo para cumprimentar 
Mardel. O tenente-coronel devolveu o cumprimento e o 
=sorriso.
"Daqui a dias, capito, vamos a Paris, caramba, vamos s 
=gajas! "
Afonso olhou pela janela e sentiu um aroma suave a encher-lhe 
os =pulmes, respirou aquela fragrncia leve que lhe 
anunciava a =liberdade h muito desejada, era um sentimento 
inexprimvel e =inefvel, o corao danava-lhe no peito, 
teve ganas de pular, de cantar, de correr, de sair =porta 
fora e ir contar a Agns a grande novidade, apeteceu-lhe 
=abraar Mardel e cheirar as flores, quis rir e chorar, dizer 
poemas e amar. =As cores pareciam- lhe mais vivas, o ar mais 
perfumado, os sons mais =melodiosos. Porm, a inesperada 
sombra de uma suspeita, furtiva e =traioeira, toldou-
lhe=20momentaneamente o esprito.
"Quando  que ser a rendio? ", perguntou, =desconfiado.
512
"Comeamos a sair na noite de 9 de Abril e completamos a 
=retirada na noite seguinte. "
" 9 de Abril?" " 9 de Abril. "
Afonso contou mentalmente.
"Estamos a 6 de Abril. " Sentiu os dedos com o polegar. Sete, 
oito, =nove. "Trs dias. " Descontraiu-se. "Faltam trs 
dias."
O capito Afonso Brando estava entretido a arrumar as coisas 
=no abrigo de Picantin Post, dois dias depois, quando Joaquim 
assomou = porta.
"Meu capito, recebemos uma comunicao da brigada a dizer 
=que o tenente Cook deseja falar consigo com urgncia, pelo 
que se =deve apresentar ainda hoje no quartel-general da 40. 
a Diviso =britnica, em Fleurbaix. "
Afonso olhou para a sua ordenana, intrigado. Mas que raio de 
=coisa teria Tim para lhe dizer com tanta urgncia? Corria o 
dia 8 de =Abril, tudo permanecia calmo, na noite seguinte as 
foras portuguesas =iriam ser rendidas, o que haveria assim 
de to importante que no pudesse esperar mais vinte e quatro 
horas? O =capito ainda hesitou e admitiu a hiptese de 
ignorar o pedido, =mas reflectiu melhor e considerou que 
aquele era um excelente pretexto =para dar um salto  
retaguarda e ir ver Agns.
Requisitou um cavalo, na verdade uma gua, e abandonou 
=Fauquissart. Quando chegou a Laventie, em vez de virar para 
norte, rumo =a Fleurbaix, prosseguiu para oeste. Foi ter ao 
Hospital Misto de =Medicina e Cirurgia, desmontou, deixou a 
gua junto ao porto e mandou chamar a enfermeira Agns 
Chevallier. =A francesa correu para ele mal o viu. Tinha uma 
bata branca, um uniforme =concebido para reprimir a 
feminilidade das enfermeiras, mas naquele =corpo o uniforme 
era manifestamente incapaz de lhe retirar a =sensualidade. 
Agns abraou-o com fora, beijaram-se na face, no pescoo, 
nos lbios.
"Salut mon mignon", disse ela finalmente, segurando-lhe o 
rosto com =as duas mos. "Ests bem? J vieste da guerra? "
513
"Ainda no, mas tenho uma novidade para te dar", anunciou-
lhe.
"Vraiment? Boa ou m? "
"Boa, boa", sorriu ele, tranquilizando-a. "Amanh samos das 
=trincheiras e vamos para um longo descanso na retaguarda. 
Para mim, a =guerra acabou. C'est fini! Zut! "
"Oh la la! ", exclamou Agns, os olhos verdes incendiados. 
=Abraou-o novamente com muita fora. "Merci, merci, mon 
Dieu! =Estou to contente, no imaginas como estou contente. 
"
Soprou-lhe beijos nos ouvidos, dos lbios rosados saram-lhe 
=carcias e sussurros, palavras suaves e melosas.
"Meu amor", murmurou ele, os olhos cerrados, o corpo a senti-
la =comprimida a si.
"Estou to aliviada! ", suspirou Agns. "Ah, oui, que bom, 
=terminou o pesadelo. "
Tiveram enorme dificuldade em despedir- se. Agns acompanhou 
=Afonso at ao porto, beijaram-se e abraaram-se, sentiam-se 
=radiantes. O capito l acabou por se encher de coragem e 
saltou para a sua montada. Afastou-se lenta e relutantemente. 
Ao =fundo da rua, antes da curva, voltou-se uma derradeira 
vez para trs, =viu Agns pregada ao cho, as mos cruzadas 
no corao, os cabelos castanhos-claros a reluzirem ao sol, 
trigueiros e =cristalinos, um sorriso feliz desenhado nos 
lbios. Ergueram ambos os =braos e disseram adeus. Afonso 
esporeou a gua e desapareceu na =curva.
Uma hora e meia depois, o capito portugus apresentou-se no 
=quartel-general da 40. a Diviso britnica, em Fleurbaix, e 
pediu para falar com o tenente Timothy Cook. Tim apareceu 
pouco =depois, descendo as escadas e indo ter com Afonso ao 
lobby.
"What ho, Afonso. Jolly good to see you! "
"Ol, Tim, ests bom? "
"Come on", convidou Tim, conduzindo Afonso pelas escadas. "s 
=mesmo um camone", sorriu o portugus. "Ento que coisa 
urgente = essa que me fez vir at aqui? "
514
O tenente ingls estacou num degrau.
"Temos informaes... disturbing... como se diz? " 
="Preocupantes. "
"Right ho, preocupantes. Temos informaes preocupantes. " 
=Recomeou a subir as escadas, os olhos fixos nos degraus. 
"Desde o =dia 31 de Maro que a nossa aviao tem registado 
um movimento =geral de tropas e artilharia alems para norte, 
congestionando estradas e caminhos de ferro. No dia 1 de 
=Abril, um nico aeroplano contou, em apenas duas horas, 
cinquenta e =cinco comboios a convergirem para o sector 
imediatamente diante das =vossas posies. Essa observao 
foi confirmada nos dias seguintes por outros aeroplanos. " 
Olhou de =relance para o portugus. "Anteontem os aeroplanos 
verificaram que as =estradas e linhas frreas mesmo  frente 
do sector portugus se =encontravam engarrafadas com camies 
e camionetas, e as nossas patrulhas viram os jerries a 
transportarem =caixas e caixas de munies para as suas 
linhas de apoio. "
"Isso no  grande novidade para ns, Tim", retorquiu 
=Afonso. "H j algum tempo que percebemos que os gajos esto 
a =montar um grande ataque neste sector. Mas esse, se queres 
que te diga, =j no  um problema nosso.  vosso. Amanh  
noite, meu amigo, samos das linhas. " Fez =sinal de adeus 
com a mo direita. " Goodbye "
" wrong, Afonso, esse  um problema vosso", disse Tim, 
=acentuando a palavra. Chegaram ao segundo andar e meteram 
por um =corredor. " um problema vosso e  um grande 
problema. "
O capito olhou-o, perturbado. "O que queres dizer com isso? 
"
"Quero dizer que os nossos especialistas acham que os 
preparativos =terminaram e que os jerries vos vo atacar 
agora com toda a fora =que tm. "
Afonso sentiu o ar a faltar-lhe.
"Como... como  que eles podem prever isso? ", gaguejou. "Os 
=boches podem s atacar daqui a alguns dias. Porqu 
justamente =amanh? "
515
"Por causa do que se est a passar hoje. "
"E o que  que se est a passar hoje? "
"Nada. "
"Nada? Ento qual  o problema? "
"O problema  que nada significa tudo. "
"Olha l, ests parvo ou qu? O que queres tu dizer com 
=isso?"Quero dizer que hoje no se passou nada nas linhas 
alems. =Nada. "
" E ento?"
Chegaram junto a uma porta e Tim imobilizou-se. "Afonso, 
quando =esto decorrendo preparativos para um ataque, h 
sempre uma grande =azfama por detrs das linhas. No momento 
em que a azfama =pra, isso significa que os preparativos 
terminaram. " Ergueu o indicador. ="Eles esto prontos e vo 
atacar. "
O capito voltou a respirar com dificuldade. Suspirou 
=pesadamente e olhou para o amigo com ar de splica.
"Est bem, terminaram os preparativos, j percebi. Mas o que 
= que nos garante que eles vo mesmo atacar amanh? Por que 
=no noutro dia?
Tim no respondeu imediatamente. Rodou a maaneta da porta e 
=abriu-a, convidando Afonso a entrar. Era uma sala larga, 
cheia de =actividade, havia mesas encostadas s paredes com 
enor mes aparelhos em cima e homens sentados com 
=auscultadores a tomarem notas. Tim aproximou-se de um deles 
e disse-lhe =para vagar o lugar. O homem ergueu-se, fez 
continncia e saiu, e o =tenente fez sinal ao capito para se 
sentar.
"Este  um sistema que ns temos que nos permite interceptar 
=as comunicaes telefnicas entre os chrries", explicou, 
=estendendo-lhe os auscultadores. "Se chamam Listening Sets. 
Como voc =fala alemo, estou certo de que achar essas 
conversas muito interessantes. "
Afonso sentou-se na cadeira e colocou os auscultadores. Os 
ouvidos =encheram-se-lhe de sons estranhos, metlicos, apenas 
516
se escutava esttica, estalidos e assobios. O capito 
=aguardou um minuto, o barulho era permanente. Fez sinal ao 
tenente Cook, =como quem diz que no havia ali nada para 
ouvir, mas Tim pediu-lhe =pacincia com um gesto. Afonso no 
teve outro remdio seno permanecer com os auscultadores 
=colocados. Passaram-se dez minutos, quinze, vinte, as 
plpebras =comearam a pesar-lhe, tinha sono, ia-se deixando 
embalar pelo som da =esttica. De repente, uma voz ressoou-
lhe aos ouvidos.
"Hallo, Spandau", chamou a voz.
"Jawohl", devolveu uma outra.
"Bleiben Sie am Apparat. "
" Vas ist das "
"Bleiben Sie am Apparat. Geben Sie mir das Kennwort. "
"Jawohl. "
Ouviu-se um sinal elctrico.
"Hallo. Ist die verbindung in Ordnung? "
"Jawohl. "
lso, jetzt gut aufpassen, auf keinen Fall von dem Aparat 
=weggehen. "
Fez-se silncio, mas Afonso permaneceu agarrado aos 
=auscultadores, tenso, na expectativa, totalmente desperto, 
preso a cada =palavra que fora pronunciada. O silncio 
prolongou-se por cinco =minutos, at que a primeira voz 
voltou  linha.
"Spandau. Passen Sie auf... Uhr 36. Ruben Sie Oberhalb an und 
geben =Sie es weiter Passen Sie auf... 5 Uhr 36. Muss aber 
genau stimmen. "
Afonso retirou os auscultadores, horrorizado, os olhos 
vidrados de =medo.
"Meu Deus! ", murmurou. "Eles esto a sincronizar os 
=relgios. 517
III
TEMPESTADE
Foi como se algum tivesse ligado o interruptor. Num instante 
=estava tudo calmo, sereno, silencioso. Ouviam-se rs a 
coaxar junto =aos charcos imundos e grilos a estridular nos 
descampados devastados. No =momento seguinte, porm, a 
tempestade foi desencadeada com uma violncia inaudita. No 
=foi primeiro um tiro, seguido de outro e de mais outro 
ainda. Foram os =canhes em simultneo a metralhar explosivos 
com uma intensidade brutal, numa cerrada barragem de fogo, 
como uma brusca mar que, sem =aviso, galga terreno e invade 
a praia numa fria destruidora, como =uma orquestra que de 
repente rasga o silncio e irrompe furiosamente =numa 
infernal sinfonia.
Desde que regressara de Fleurbaix que o capito Afonso 
=Brando tinha mergulhado num grande estado de ansiedade. 
Comunicou ao =major Montalvo tudo o que soubera no quartel-
general da 40. a =Diviso britnica, mas o comandante de 
Infantaria 8 no se mostrou muito =preocupado, provavelmente 
pensou que era mais um de muitos falsos alarmes dados por 
mais um =oficial demasiado nervoso. Sentindo-se impotente 
para travar o rumo dos =acontecimentos, Afonso resignou-se ao 
seu destino e
521
regressou ao Picantin Post ainda com a ntima esperana de 
=que os seus receios fossem realmente infundados. No 
conseguiu =dormir. Passou a noite irrequieto, a inspeccionar 
as trincheiras, a =mandar limpar as armas e a verificar os 
paiis. Fixava por vezes os olhos nas linhas inimigas, 
tentando lobrigar =movimento, procurando adivinhar o que ali 
se tramava, mas nada via, era =como se ali estivesse erguido 
um muro negro, ameaador e sinistro, =insondvel e 
impenetrvel. Pelas quatro da manh, j algo cansado, 
recolheu ao posto e =sentou-se junto ao ninho de 
metralhadoras a beber um ch com dois =homens de servio  
Vickers.
Apesar de j estar de sobreaviso, Afonso quase entornou a 
caneca =de ch com o susto provocado por aquela enorme vaga 
de exploses =que de sbito acendeu o horizonte e iluminou as 
sombras. Um fragor =tumultuoso encheu a noite, o solo tremia 
como se fosse abalado por um tremendo =terramoto, brutal e 
medonho, de uma intensidade alucinante, colrica, =o ar 
vibrava e trepidava ao ponto de baralhar os olhos, a 
barulheira era =tanta e to cerrada que o capito teve 
dificuldade em entender o que lhe gritava um dos homens da 
=metralhadora situada a uns meros dois metros de distncia.
"... ... ra... go. "
" Como?"
". ... ra... go"
Afonso olhou para o soldado, perplexo. No conseguia entender 
o =que ele lhe gritava. Deu um passo e encostou o ouvido 
direito  boca =da praa.
"V para o abrigo! ", berrava o homem.
O capito fez que no com a cabea. A inteno do =soldado 
era boa, mas ali quem dava ordens era ele. Olhou para o 
=relgio e verificou que eram quatro e um quarto da 
madrugada. Esticou =a cabea acima do monte de sacos de terra 
que protegia o ninho e viu o =horizonte incendiado  frente e 
atrs de si, uma claridade de =vermelho do inferno erguia-se 
das trincheiras enquanto clares =luminosos cruzavam o cu s 
centenas, aos milhares, todos a assobiarem, eram os 
projcteis incandescentes que =os alemes
522
lanavam como chuva sobre as linhas portuguesas, batendo 
=inicialmente a rea do comando, na retaguarda. Os tiros de 
canho =eram tantos que no se ouvia nenhum isoladamente, 
antes formavam =todos um urro nico, surdo, brutal, sinistro. 
Pelo sentido das detonaes, =tornara-se evidente que o 
bombardeamento no era aleatrio, mas =dirigido com preciso 
para as estradas, cruzamentos e pontos de =comando. Clares 
de fogo brilhavam no sector onde se situava Laventie, era 
provavelmente o quartel-general =da brigada que ardia.
O major Gustavo Mascarenhas acordou em sobressalto e viu 
pedaos =de tijolo, terra e calia espalhados pela manta que 
o aquecia. Deu um =salto na cama, surpreendido, os ouvidos 
ainda a zunir, e, j em =p, olhou para alm da janela 
despedaada. A noite acendera-se, iluminada por sucessivas 
exploses, a =plancie tremia sob uma barragem de fogo jamais 
vista pelas tropas =portuguesas. O segundo comandante de 
Infantaria 13=20despiu atabalhoadamente o pijama e colocou a 
farda num tropel. Uma vez =vestido e armado, saiu do quarto e 
desceu  sala que servia de =secretaria, para onde 
convergiram tambm os outros oficiais do =batalho 
transmontano.
"Meu major, j viu isto? ", perguntou-lhe o alferes Veiga, 
ainda =a calar uma bota. "Nem no ltimo dia os boches nos 
deixam =em paz. Nem no ltimo dia, caraas. "
"", assentiu Mascarenhas, bem-disposto. "Acho que j =esto 
com saudades nossas e resolveram mandar-nos estes simpticos 
=postais de despedida. "
Todos se riram nervosamente, incluindo dois sargentos que 
=executavam tarefas de amanuenses na secretaria do batalho. 
O comando =de Infantaria 13 encontrava-se instalado num 
edifcio designado por =Senechal Farm,=20em Lacouture, um 
posto que estava para Ferme du Bois como Laventie para 
=Fauquissart.
L fora, o barulho das detonaes era ensurdecedor. A casa 
=tremia com a vibrao das exploses, mas os oficiais 
=mostravam-se calmos.
523
"Sabem o que isto ? ", perguntou o capito Ambrsio =depois 
de mais um estremeo dos alicerces da casa.
"Uma retaliao pelo nosso bombardeamento de ontem? ", 
=arriscou Veiga.
"Nem mais. Os gajos esto a dar-nos o troco. "
A artilharia portuguesa tinha, na vspera, bombardeado as 
=posies alems em Bois du Biez, frente a Neuve Chapelle, e 
=todos concordavam que estavam a assistir  resposta inimiga.
" Veiga, v l se este bombardeamento  s em nossa =honra 
ou se est tambm a atingir outros batalhes", ordenou 
=Mascarenhas.
O alferes era o sinaleiro de Infantaria 13 e foi ao telefone 
=comunicar com a brigada. Pegou no aparelho, colou- se ao 
bocal e colocou =o auscultador junto ao ouvido esquerdo.
"Est l? Est l? ", chamou. Fez uma pausa. "Ouve bem? =Est 
l? Est l? " Tentou durante mais um minuto at se 
=convencer de que a ligao no era possvel. Olhou para 
=Mascarenhas e abanou a cabea. "No h resposta, meu major. 
As granadas devem ter cortado os fios. "
"Pega a em dois homens e vo l fora reparar as linhas", 
=ordenou o major.
Veiga vestiu a gabardina, chamou duas praas, pegou numa 
caixa =de ferramentas e saiu, mergulhando na noite 
turbulenta.
Havia j uma hora que o peloto comandado pelo sargento Rosa 
=se encolhia na linha da frente, vendo a trincheira da 
primeira linha a =ser metodicamente despedaada pelas 
granadas e bombas que ululavam =em aproximao. As primeiras 
salvas tinham =sido dirigidas para a retaguarda, mas a 
artilharia alem foi pouco a =pouco encurtando o tiro, 
arrasando as posies portuguesas de trs para a frente como 
um rolo compressor, =at se concentrar na primeira linha. 
Vicente tinha j sido =atingido de raspo no ombro esquerdo 
por um estilhao de bomba, quando se ouviu mais um zumbido e 
todos se encolheram, =instintivamente perceberam que a 
granada ia mesmo cair por cima deles.
524
A exploso ocorreu em cheio na linha da frente, numa zona 
=guarnecida por alguns homens do peloto. Foi uma deflagrao 
=terrvel, seguida de um sopro quente de ar e de uma chuva de 
=destroos, pedras e poeira, era como se um bafo dos infernos 
por ali estivesse a passar. Matias =Grande ergueu-se, os 
ouvidos a zumbirem, inspeccionou o corpo, confirmou =que 
escapara ileso apesar de a farda ter sido rasgada nas mangas, 
e =olhou para a cratera onde a granada tinha cado. No lugar 
dos seus camaradas encontrava-se apenas aquele =sinistro 
buraco fumegante, era evidente que os corpos tinham sido 
=cortados aos bocados ou mesmo se tinham evaporado pela aco 
do =calor da exploso. O sargento Rosa levantou-se com igual 
dificuldade, sentia-se tonto, e =olhou para cada um dos 
homens do peloto, contabilizando-os.
"Faltam trs", concluiu. Olhou de novo, buscou os rostos que 
=no via e chamou-os. "O Ribeiro? " Procurou ainda. "Ribeiro! 
Ribeiro! =" Todos permaneceram calados, o olhar pesado, 
tenso. " O Parente O =Oliveira "
No houve resposta e o grupo presumiu, sem grande margem para 
=dvidas, que os trs estavam mortos. Na cratera viam-se 
alguns =pedaos de carne solta e reconheciam-se mesmo dois 
dedos, um deles um =polegar. Havia mais vestgios, mas 
ningum os quis analisar. Outros dois homens encontravam-se 
feridos e gemiam =encostados ao que restava do parapeito, uns 
sacos de terra j =rasgados. Um dos feridos sangrava 
abundantemente da cabea e o =segundo tinha um estilhao 
cravado na perna.
"Pedroso", chamou Rosa. "Ajuda esses dois e leva-os ao posto 
=mdico. "
"Sim, meu sargento. "
Pedroso colocou a Lee-Enfield a tiracolo, agarrou no brao do 
=que ficara ferido na perna, que se apoiou nele, e pegou na 
mo do =outro, seguindo trincheira a cima at onde lhes 
pudesse ser prestada =ajuda.
O peloto encontrava-se agora reduzido a uns meros quatro 
homens =estendidos na primeira linha a vigiarem a terra de 
ningum. Ao longo =da trincheira abrigavam-se outros pelotes 
525
da companhia, mas no estavam  vista. Dez minutos mais 
=tarde, duas outras granadas caram de seguida em plena linha 
da =frente, a uns quinze metros de distncia dos restos do 
peloto do =sargento Rosa, e os homens entreolharam-se.
"Meu sargento", chamou Matias, encostado ao ouvido de Rosa. 
" =melhor irmos para uma trincha de comunicao, seno 
estamos =quilhados. Esta linha no se aguenta. "
Rosa analisou a parte da linha da frente que se estendia ao 
alcance =dos seus olhos e verificou que a trincheira ficara 
totalmente =desmantelada, havia partes em que j no existia 
parapeito, apenas =uma amlgama de terra e lama e tbuas 
quebradas e sacos rebentados. Os homens encontravam-se todos 
=deitados no cho, as mos a taparem os ouvidos, era a nica 
=maneira de se defenderem das sucessivas exploses. Rosa 
ergueu-se, tocou nas costas de cada um para lhes chamar a 
=ateno, fez sinal com a cabea, agarrou no telefone e foi a 
=correr, curvado, at Burlington Arcade, era a primeira 
trincheira de =comunicao que lhe apareceu  frente; o que 
restava do peloto seguiu- o. Uma vez na nova =trincheira, 
que se encontrava mais composta e oferecia melhor =proteco 
s detonaes de flanco, os homens anicharam- =se, as Lee-
Enfield embaionetadas, Matias sempre agarrado=20 sua Lewis, 
e aguardaram.
Afonso olhou mais uma vez para o relgio. Eram seis da manh, 
=havia quase duas horas que se encolhia no abrigo, esmagado 
pela =violncia daquele fogo cerrado. O capito interrogou-se 
quanto = durao do bombardeamento. Convicto de que se 
encontravam perante uma grande =ofensiva, admitiu a hiptese 
de a chuva de bombas se prolongar por =mais de um dia e 
questionou-se se, naquelas condies, seria =possvel fazer a 
rendio do CEP pelas novas foras britnicas destinadas 
quele =sector. Era desejvel que isso acontecesse antes do 
avano da =infantaria alem, raciocinou, mas Afonso sabia que 
tal se tornara =improvvel, jamais os ingleses efectuariam 
uma rendio de foras sob =semelhante bombardeamento.
526
"Eu acho que eles vo fazer um raide", opinou o tenente Pinto 
=com a voz trmula.
Todos os oficiais que se encontravam no abrigo de Picantin 
=concordaram. Aquele s poderia ser o bombardeamento 
preliminar de =mais um raide alemo. Afonso tinha outra 
opinio, mas inibiu-se de =a manifestar, sabia que ela s 
iria corroer a determinao e o moral das tropas.
"Andr, liga a para a linha da frente", ordenou ao 
=telefonista de servio.
O sargento Andr agarrou-se ao telefone e chamou. "Est =l? 
Est l? Primeira linha? " Fez uma pausa. "Um momento, o 
=capito Brando quer falar. "
Afonso foi ao telefone.
"Est l? Aqui capito Brando. Quem fala? ". Pausa. 
="Sargento Rosa, o que se passa na primeira linha? ". Pausa 
prolongada. ="Sim, fizeram bem. " Mais uma pausa. "Pois. " 
Pausa. "Sargento, a ordem = a de resistir, entendeu? Se vir 
necessidade, recuem para a linha B. Mas =resistam, ouviu? 
Resistam. " Pausa. "At logo, sargento. At logo. ="
Pousou o auscultador e olhou para os seus companheiros no
abrigo.
"Ento? ", quis saber Pinto.
"A linha da frente est toda destruda", disse. "Caram =umas 
granadas em cima do peloto do Rosa, matando trs praas e 
=ferindo duas, j retiradas para o posto mdico. O resto do 
=peloto colocou-se na Burlington. " Olhou para o 
telefonista. "Andr, =passa-me a os outros postos da 
primeira linha. "
O sargento agarrou-se ao telefone, mas Joaquim chamou Afonso 
antes =de a nova ligao ser estabelecida.
"Meu capito, est aqui uma ordenana da companhia do 
=centro", anunciou, mostrando um soldado magrinho, com ar 
assustado.
"O que , rapaz? "
"Meu capito, o meu comandante manda comunicar que retirou 
parte =da companhia para a direita e outra parte para a
527
esquerda porque no se pode estar no ponto onde nos 
=encontrvamos, a barragem  muito forte e j temos dois 
mortos =e seis feridos. "
"Muito bem", retorquiu Afonso. "Diz ao comandante que eu 
tomei nota =e vou passar essa informao " Voltou-se para o 
tenente Pinto. ="Cenoura, chama-me a o Augusto. Quero que 
ele v ter com o major =Montalvo para lhe transmitir estas 
informaes e pedir instrues. "
"Meu capito", interrompeu Andr, agarrado ao telefone. 
="Tenho aqui o cabo Veloso na primeira linha "
Afonso olhou para todos os rostos voltados para si, ansiosos, 
=multiplicando-se em solicitaes, e pensou que ia ter um dia 
bem =difcil.
A Senechal Farm era abalada por sucessivas detonaes e os 
=seus ocupantes comearam agora a ficar seriamente 
preocupados. O =alferes Veiga tinha sado havia quase trs 
horas para consertar as =linhas telefnicas, mas a verdade  
que os telefones permaneciam mudos.
"So sete da manh, j l vo trs horas de =bombardeamento" 
impacientou-se Mascarenhas. "Isto no deve ser =retaliao. "
" um raide, meu major, s pode ser mais um raide", alvitrou 
=o capito Ambrsio. "E que raide! "
A porta de entrada abriu-se com brusquido e entrou um 
soldado =esbaforido, outros vinham atrs.
"Meu major, d licena? "
" O que ?"
"Temos feridos, meu major"
"Entrem, entrem", disse.
Pela porta passaram quatro homens levando aos ombros outros 
trs =com as roupas esfarrapadas, manchas de sangue nos 
braos, nas pernas, =na cabea. O capito Ambrsio levou-os 
para os quartos e ajudou a colocar-lhes os pensos. O 
=sargento Cacheira, um dos amanuenses que se encontravam na 
sala,=20
528
encostara-se junto de uma janela a observar as exploses 
quando =lanou o alarme.
"Acabaram de cair invlucros vazios", anunciou. "Tm fumo =l 
dentro! " Esticou a cabea para ver melhor. "Ateno! = gs! 
 gs! "
Colocaram todos as mscaras, mesmo os feridos. Os militares 
=sentiram a respirao pesada, o ar a rarear, os culos a 
=embaciarem-se, mas resistiram  vontade de arrancarem as 
mscaras =e assim se deixaram ficar.
O Sol ergueu-se por detrs das linhas alems, mas ningum =o 
conseguia ver. A claridade do dia emergia palidamente do 
nevoeiro =cerrado que se abatera sobre as trincheiras, uma 
neblina to densa e opaca que apenas permitia uma 
visibilidade de trinta metros, =cinquenta no mximo. Afonso 
cansou-se de usar os binculos para =tentar observar o que se 
passava, os seus olhos embatiam numa barreira =nublada que as 
lentes no logravam penetrar. O bombardeamento diminura 
sensivelmente de =intensidade sobre as primeiras linhas, com 
a artilharia alem =concentrada agora na retaguarda do sector 
portugus. Esta =evoluo, por um lado encarada com alvio, 
era, na verdade, muito preocupante porque significava que o 
=inimigo, com alta probabilidade, fazia avanar a sua 
infantaria. O =problema  que o denso nevoeiro impedia que se 
observasse o que se =passava na terra de ningum, dando assim 
uma enorme vantagem s foras atacantes.
"Andr, no me arranjas a primeira linha? ", perguntou 
=Afonso. O sargento abanou a cabea.
"Acho que os fios telefnicos foram cortados, meu capito. 
=Ningum responde. "
Afonso suspirou. Precisava urgentemente de falar com a linha 
da =frente para saber se tinham sido avistados soldados 
inimigos, mas sem =comunicaes era difcil determinar a 
situao da =companhia. Os telefones no funcionavam e o 
nevoeiro no permitia ver os very lights =lanados pelos 
diferentes pelotes e companhias a solicitarem =socorro ou a 
informarem o abandono de linhas.=20
529
Percebendo que no podia operar sem dispor de qualquer 
=informao, o capito foi  porta do abrigo e chamou a sua 
=ordenana.
"Joaquim! Joaquim! "
O soldado saiu do seu bunker e aproximou- se em passo rpido. 
="Sim, meu capito? "
"Quero que vs  primeira linha ver o que se est a =passar. 
Se vires algum boche, no quero c tiroteios. Voltas a 
=correr e informas-me, percebeste? "
"Sim, meu capito. "
"Vai l, anda. "
Afonso regressou ao abrigo, pensativo. Se o bombardeamento 
=abrandara, raciocinou novamente, era certamente porque a 
infantaria =alem avanava. O nevoeiro s servia para ocultar 
a pro =gresso das tropas.
"Cenoura", disse, dirigindo-se ao tenente Pinto. "Vai dizer 
aos =homens das metralhadoras que quero que reguem a terra de 
ningum com =rajadas sucessivas. Eles que disparem para l, 
mesmo que no =enxerguem nada. "
Matias agitava-se na trincheira, preocupado por no conseguir 
=ver a terra de ningum. Ouviam-se disparos de metralhadora e 
=espingardas, mas nada se podia observar, eram apenas sons 
que vinham de =algures. O problema  que no era s aquele 
nevoeiro denso que lhe toldava a viso. Era tambm a =posio 
onde o peloto se encontrava. A Burlington Arcade podia =at 
ser mais segura do que a primeira linha durante um 
bombardeamento =pesado, mas, devido ao seu enfilamento 
perpendicular, no =constitua certamente o melhor stio para 
observar qualquer =eventual avano da infantaria inimiga. No 
era por acaso, de resto, que a Burlington no fora concebida 
como =trincheira de combate, mas apenas de comunicao.
"Meu sargento", chamou para trs.
J no havia necessidade de gritar, as granadas continuavam a 
=estourar por ali, mas sem a intensidade das trs primeiras 
horas.
" O que , Matias?"
530
"A infantaria boche deve estar a avanar a qualquer 
momento,=20
se  que no avanou j", indicou o cabo. "Aqui nesta 
=trincha no os conseguimos topar. Ouvimos os tiros, mas no 
vemos =nada. Temos de nos mudar. "=20
"E onde queres ir tu, Matias? ", admirou-se o sargento 
Rosa.=20
"No vs que a primeira linha ficou inutilizada? Alis, =j 
nem h primeira linha. "
"Eu sei, meu sargento. O melhor  irmos para a linha B. "
"O capito Brando mandou resistir at ao fim. "
"Sim, meu sargento", assentiu Matias. "Mas aqui no 
resistimos =nada. Se os boches aparecerem, do ponto que 
ocupamos s
os topamos quando eles nos carem =em cima. Alm do mais,=20
como a artilharia boche j abrandou o tiro sobre esta zona, 
muito possvel at que eles nos estejam a tentar envolver, 
=apanhando-nos por trs.  por isso que temos de ir para a 
linha B. =L resistimos melhor. "
"Ele tem razo, meu sargento", concordou Baltazar, deitado
atrs de Matias.
Rosa ficou a matutar no assunto. Ergueu a cabea, olhou para
um lado e para outro, constatou que, de facto, no conseguia 
ver =o que se passava nem  direita nem  esquerda e voltou-
se para o =peloto.
"Est bem", exclamou finalmente. "Vamos l. "
Eram oito da manh quando o peloto do sargento Rosa 
=abandonou a sua posio na Burlington Arcade, junto  linha 
da
frente, e recuou por aquela trincheira de comunicao rumo =
linha B. Os homens avanaram em passo rpido, sempre 
=curvados, e foram dar com a Rue Tilleloy, onde se formava a 
segunda
linha. Continuaram a correr para atravessarem a grande 
estrada,=20
mas, quando iam a meio, sentiram o ar a ser cortado por 
=projcteis rasantes, estacaram surpreendidos, ouviram o 
matraquear=20
de uma metralhadora  direita, desorientaram-se, um deles 
caiu
no cho com um som seco, foi atingido, Rosa saltou em frente 
e
atirou-se para a berma, o resto do peloto recuou e ficou do
outro lado.
531
"Boches! ", berrou Matias, ofegante, cosido ao cho. "Esto 
=boches aqui na Tilleloy! "
Os homens ergueram a cabea e observaram o companheiro que 
=tombara em plena estrada, atingido pela metralhadora 
inimiga. Era Abel, =o rapaz magrinho e calado que viera de 
Gondizalves. O ferimento era =srio, a sua situao parecia 
desesperada. O Lingrinhas agarrava-se ao pescoo, donde 
=saam, em pavorosas golfadas, esguichos de sangue escuro, as 
mos =pintadas de vermelho a tentarem estancar a hemorragia, 
o buraco na =garganta a emitir horrveis rudos de ar a 
tentar entrar e sair. Abel asfixiava em silncio, incapaz =de 
proferir um gemido que fosse, e ningum o podia ajudar. 
Vicente ergueu-se para saltar para a estrada e ir =socorrer o 
amigo, a metralhadora abriu fogo e Matias placou-o pelas 
=pernas e atirou-o ao cho.
"Deixa-me! ", debateu-se Vicente, tentando libertar-se. 
="Deixa-m'ajud-lo! "
"Est quieto, Manpulas! ", rugiu o cabo. "No o podes 
=ajudar. E, se fores para ali, eles matam-te tambm. "
Matias era muito mais forte do que o companheiro e manteve-o 
=firmemente preso nos seus enormes braos. Vicente percebeu 
que no =conseguiria libertar-se, esticou a mo esquerda em 
direco de =Abel, que ainda se contorcia=20em plena 
Tilleloy, e comeou a chorar, =desesperado, impotente. J 
tinha visto outros camaradas morrerem, mas este era 
diferente, fazia =parte do seu mais restrito ncleo de amigos 
do peloto. O =Lingrinhas torcia-se agora em convulses, era 
evidente que vivia os =seus ltimos instantes, e todos os 
homens,  excepo de Matias, voltaram a cara para o lado ou 
fecharam os =olhos, no queriam assistir  morte do rapaz. 
Apenas o cabo viu o extertor final, as pernas a =tremerem num 
violento espasmo, os olhos a revirarem- se para o branco, o 
=corpo a estremecer na derradeira convulso, um suspiro 
cavado e =tenebroso, a carne a imobilizar-se=20finalmente, o 
sangue a estancar e a deixar de jorrar pela garganta.
Os homens do peloto permaneceram um longo minuto calados. 
=Vicente tinha recuperado o controlo das emoes e manteve
532
-se igualmente silencioso. Mas os homens sabiam que se 
encontravam =numa situao bem mais difcil do que tinham 
antecipado. Matias =interrogava-se sobre o que estava uma 
metralhadora alem a fazer na =Rue Tilleloy, no sector de 
Fleurbaix,  esquerda das linhas portuguesas, uma rea que 
era suposto estar =guarnecida pelas tropas britnicas da 40. 
a Diviso.
"Meu sargento", chamou.
"O que ? ", respondeu a voz do outro lado da Tilleloy.
"No v os camones? "
"No. "
Matias ficou pensativo.
"Devem ter cavado", cogitou em voz alta para Rosa. "Os 
camones =cavaram e os boches esto a entrar por ali " Fez uma 
pausa para =prosseguir o seu raciocnio. "Isto significa que 
eles nos =comearam a flanquear, meu sargento, esto a dar a 
volta para nos apanharem por trs. Estamos quilhados! "
"Temos de recuar mais", disse o sargento. "O que sugeres? " 
Matias =olhou para o peloto. Vicente e Baltazar permaneciam 
deitados =atrs de si, muito imveis. O cabo rastejou at uma 
rvore =calcinada, a dez metros de distncia, ergueu a 
cabea, devagar, e espreitou pela berma do tronco para =a sua 
direita. Viu homens l ao fundo. Olhou com ateno para =os 
capacetes e confirmou que eram alemes. Baixou-se e rastejou 
de =volta para junto dos homens.
"Os boches esto mesmo ali ao fundo, a vigiar a Tilleloy", 
=disse, suficientemente alto para Rosa o ouvir. "Vamos fazer 
assim. " Fez =uma pausa para recuperar o flego. "Eu j os 
topei e vou abrir fogo sobre os gajos aqui com a minha Luisa. 
Quando =eu mandar as rajadas, vocs saltam para o outro 
lado", ordenou, =falando agora para os dois soldados ao seu 
lado. "Depois,  a vez de =vocs os trs dispararem sobre os 
boches e de eu saltar. Compreendido? "
Os homens assentiram com a cabea e Rosa confirmou de viva 
voz. =Matias fez sinal aos companheiros para se aprontarem, 
agarrou a Lewis =com firmeza, respirou fundo, ergueu-se e 
abriu fogo.
533
Acto contnuo, Vicente e Baltazar levantaram-se e atiraram-se 
=para o outro lado da estrada. Os alemes responderam e o 
cabo =baixou-se de imediato. Aguardou um instante.
"Est tudo bem? "
"Sim", confirmou Rosa. "Aguenta um pouco, vamos agora 
aprontar-nos =ns. Ao meu sinal, abrimos fogo e saltas tu " 
Fez-se um compasso de =espera para os trs homens prepararem 
as Lee- Enfield. Mais uns =instantes e ouviu-se a voz do 
sargento. "Agora! "
Os trs homens ergueram-se e dispararam as espingardas. Ao 
mesmo =tempo, Matias atirou-se para o outro lado da Tilleloy 
e rebolou pela =berma, enquanto a Maxim alem voltava a bater 
a estrada, os repicos =da rajada a levantarem nuvens de terra 
e lama.
"Ests fino? ", perguntou Rosa, novamente agachado. "Sim, 
eu... ="
Um rudo por trs deixou-os momentaneamente paralisados. 
=Voltaram as armas para a Picadilly Trench, a trincheira de 
=comunicao que prolongava a Burlington Arcade, e 
prepararam-se para carregar nos gatilhos, =mas o azul da 
farda do homem que viram emergir da linha f-los =suspender 
os disparos. O recm-chegado era portugus.
"Ento, malta? ", saudou o desconhecido.
Os elementos do peloto suspiraram.
" homem, amos dar-te cabo do canastro, caraas", =exclamou 
o sargento Rosa. "O que ests aqui a fazer? "
"O capito Brando mandou-me ver o que se passa na linha da 
=frente", disse o soldado, erguendo-se para prosseguir. 
"Tenho de ir =at l. "
"Como  que te chamas? "
"Joaquim. "
"Pois bem, Joaquim, a linha da frente  aqui. " "Aqui? Mas 
isto = a Tilleloy. Eu tenho  de... "
"Joaquim", cortou Rosa. "A primeira linha j no existe, 
=est arrasada. Percebes? H boches ali  esquerda com uma 
=costureira pronta a limpar-nos o sebo. Por isso, j no 
podes =avanar, esta  agora a linha da frente. Entendeste? "
534
Joaquim olhou para os quatro homens com desconfiana. Mas o 
seu =ar srio e cansado, mais o corpo estendido em plena 
estra-da, =convenceram-no de que, por incrvel que parecesse, 
estavam a falar =verdade. Os alemes tinham mesmo chegado  
Rue Tilleloy.
"Os boches esto aqui? "
"Sim", confirmou Matias, apontando para a esquerda. "Ali ao 
fundo. ="
"Vocs viram-nos? "
"Ns vimo-los, disparmos sobre eles, eles dispararam sobre 
=ns e mataram-nos um marada. "
Joaquim deu meia-volta.
"Ento  melhor acompanharem-me at ao Picantin Post. O 
=capito Brando vai querer falar convosco "
 mesma hora, oito da manh, o alferes Viegas entrou na casa 
=de Senechal Farm com um soldado atrs de si. O homem vinha 
ofegante, =coberto de p e lama, e, pormenor muito notado 
pelos oficiais de =Infantaria 13, encontrava-se desarmado.
"Meu major", disse Viegas. "Apanhei este desertor a correr 
pela =estrada, feita galinha tonta. Traz novidades da frente. 
"
O major Mascarenhas aproximou-se do homem, que parecia 
=absolutamente aterrorizado.
" Identificao "
"Sou o soldado Fonseca, meu major" Arfou. "Praa n. o 173, 
=contramestre de corneteiros de Infantaria 17 "
"Infantaria 17? ", repetiu Mascarenhas, reconstituindo 
mentalmente =a disposio das foras no terreno. "Se no me 
engano, =devias estar em Ferme du Bois. Creio que o teu 
comando  no Lansdowne =Post. O que  que andas aqui a fazer, 
h? Quem  que te autorizou a ausentares-te do teu posto? "
O homem olhou-o com horror.
"Mas, meu major... no est a compreender", exclamou de forma 
=atabalhoada. "Os boches... os boches entraram de roldo... 
um mar =deles, pareciam formigas... prenderam tudo, o comando
535
do 17, o comando do 4, mais os homens todos... est tudo a 
=cavar, tudo a cavar... o cavano  geral, meu major... eles 
vm =a, temos de fugir. "
"Mas tu ests a reinar comigo ou qu? ", perguntou 
=Mascarenhas com ar duro. "Quais boches, qual qu! Tu s um 
=desertor, abandonaste os teus camaradas,  o que ! "
"Meu major... por favor. " O homem gaguejava, arquejava, 
revirava =os olhos, as palavras saam-lhe num tropel, 
hesitantes e trapalhonas, =mostrava-se agitado e parecia  
beira de um ataque de nervos. "Temos =de cavar... por favor, 
deixe-me cavar daqui! "
Uma sentinela do 13 entrou na sala.
"Meu major, apareceram mais desertores na estrada, vm a 
fugir =das primeiras linhas. O que fazemos? "
Mascarenhas hesitou. Olhou para o contramestre dos 
corneteiros do =17, percebeu que a histria por ele contada 
era verdadeira, s =podia ser verdadeira dado o seu estado de 
nervos e o aparecimento de =mais fugitivos, e voltou-se para 
a sentinela.
"Arrebanhem-me esses desertores todos e recolham a informao 
=que eles tm para dar", ordenou. "Depois, preparem-nos para 
=resistirem. Est na hora de esses tipos deixarem de cavar e 
irem combater" Apontou para =o soldado Fonseca. "E levem-me 
tambm este gajo daqui "
O major fez sinal aos oficiais do seu estado-maior para se 
=aproximarem e foi buscar um mapa, que estendeu sobre uma das 
mesas da =sala. Pegou num lpis e assinalou a situao no 
terreno antes =do ataque.
"Portanto, na linha de Ferme du Bois estava o 17 =em 
Lansdowne Post e o 10 =em Path Post, com o 4, atrs, =em 
Chavattes Post", disse, escrevendo os nmeros dos 
=respectivos batalhes no ponto por eles supostamente 
guarnecido. ="Ora, a acreditar naquele idiota, e tudo indica 
que ele est mesmo a falar verdade, o 17 e o 4 deixaram de 
combater. No temos =notcias do 10, mas, se o 4, que est 
atrs, foi aniquilado, o =10 tambm j deve encontrar-se fora 
de combate " Assinalou cruzes sobre Lansdowne, =Path e 
Chavatte, assumindo que no podia contar com essas foras.
536
Ergueu a cabea e fitou os seus oficiais. "Isso significa que 
=somos ns agora a linha da frente e que os boches vm a " 
=Fez-se silncio. "Alguma sugesto? "
O capito Ambrsio pigarreou.
"Meu major, no deveramos aplicar o plano de defesa? "
"Sim", concordou Mascarenhas. "O problema  que no temos 
=plano de defesa. Pedimo-lo ontem ao major Passos e Souza e 
ele disse que =ia tratar do assunto, mas no nos comunicou 
mais nada. Portanto, =no h plano e temos de ser ns a 
inventar um. " Olhou de novo para o mapa e suspirou. "S vejo 
um =caminho. Temos de avanar no terreno e estabelecer 
contacto com o =inimigo. " Voltou a mirar os seus oficiais. 
"Voluntrios? "
"Eu, meu major", exclamou de imediato o tenente Alcdio de 
=Almeida, comandante da segunda companhia.
"Muito bem, Alcdio", disse Mascarenhas em tom de =aprovao. 
Voltou com o lpis ao mapa. "A segunda companhia vai =ocupar 
aqui a trincheira 5 e enviar patrulhas para explorar o 
terreno =em frente. A misso dessas patrulhas  =localizarem 
o inimigo, ligarem-se a quaisquer homens nossos que venham a 
=encontrar e resistirem at ao limite. " O major ergueu a 
cabea e mirou o alferes Martins, =ajudante do batalho. 
"Alis, o mesmo devem fazer a primeira e a =terceira 
companhias. Por isso, senhor alferes, transmita estas ordens 
ao =tenente Gonalves e ao capito Magno. " Endireitou-se, 
dando sinal de que a reunio estava =concluda. "Meus 
senhores, vamos resistir at virem os =reforos. Est 
previsto que os ingleses nos rendam esta tarde. Uma =hora, 
uns dez minutos apenas, podem fazer a diferena. Temos de 
esperar por eles para depois, e de forma compacta, 
=empurrarmos os boches l para o inferno. Por isso, meus 
caros, conto =convosco para aguentarem o impossvel, 
aguentarem at os ingleses =chegarem. Boa sorte a todos. "
Os oficiais destroaram. Mascarenhas acompanhou o tenente 
=Alcdio at junto dos homens da segunda companhia e 
constatou que =as munies eram um ponto crtico. Faltavam 
cartuchos, cada =soldado apenas estava munido da sua dotao 
individual.
537
Alm disso, no havia granadas de mo nem de espingarda. O 
=major lembrou-se ento de que os homens de Infantaria 24, 
que antes =ocupavam Senechal Farm, deixaram vrias caixas de 
cartuchos =abandonadas, espalhadas pelo acantonamento de 
Lacouture, e foi com os soldados buscar essas =munies, 
entretanto recolhidas e guardadas na secretaria. Os 
=cartuchos foram distribudos a todos. E, quando a segunda 
companhia =partiu finalmente, Mascarenhas saiu  procura de 
mais munies.
Foi ao fazer a toilette da manh que Agns pela primeira vez 
=se apercebeu de que algo de anormal estava a passar-se. Ao 
aproximar-se =da janela do anexo reparou que o rumor da 
artilharia tinha recrudescido =de intensidade em relao ao 
habitual. Deteve-se a meio de um movimento e ficou esttica, 
=atenta aos sons distantes. Em vez dos costumados estampidos 
que =caracterizavam os longnquos tiros de canho, notou 
agora um rolar permanente, um marulhar ininterrupto e 
=assustador. Abriu a porta e esticou a cabea para fora, 
confirmando =essa impresso. Ficou apreensiva e pensou 
imediatamente num raide. Para se acalmar =lembrou-se 
repetidamente de que Afonso desempenhava funes de 
=secretaria e no ocupava as primeiras linhas. Alm do mais, 
nada =garantia que, a ser um raide, se tratasse de um raide 
inimigo. Podia muito bem ser uma =operao dos portugueses. 
Acalmou-se. O pnico deu lugar a um =nervosismo miudinho.
Saiu  rua quinze minutos depois, num estado de grande 
=inquietao, ansiosa e perturbada. Pegou na bicicleta e 
dirigiu-se apressadamente ao hospital para assegurar o turno 
que lhe fora =destinado. Pedalou com os olhos voltados para 
leste, para a fonte do =fragor da batalha, e percebeu pela 
reaco dos transeuntes que =tambm estes achavam que o 
barulho da artilharia era mais intenso do que o =habitual. 
Igualmente o trfego de viaturas militares parecia 
=anormalmente elevado, o que contribua para o estado de 
nervosismo =geral que se apossara de todos.
Logo que entrou no hospital, Agns notou que o ambiente era 
=catico, o movimento intenso, o ptio encontrava-se pejado 
de
538
feridos e pairava no ar uma inquietao indefinvel. Com =um 
mau pressentimento a pesar-lhe a alma, a francesa passou pela 
=secretaria.
" mademoiselle! ", chamou a enfermeira-chefe portuguesa 
quando a =viu pela porta do seu gabinete. "Hoje precisamos de 
si nos =traumatizados, vai para l um rebolio que s visto! 
"
"Nos traumatizados? Porqu?"
A enfermeira-chefe estacou, surpreendida.
"Porqu? Ora, que pergunta! Ento no v que hoje temos 
=muitos feridos? "
Agns sentiu-se paralisada. Queria formular a pergunta que 
tinha =em mente, a pergunta crucial, a pergunta que a 
consumia desde que pela =primeira vez ouvira o anormalmente 
intenso marulhar da artilharia. =Experimentava, porm, um 
pavor que a imobilizava, receava a resposta, temia a verdade. 
=Hesitou um longo segundo, angustiada e indecisa, mas acabou 
por =pronunciar as palavras que a sufocavam.
" O que se passa "
A enfermeira-chefe preenchia o registo das admisses da 
=ltima hora e nem levantou a cabea.
"Ento no sabe? Os boches lanaram uma grande ofensiva. " =O 
corao de Agns disparou.
"Onde? "
"Em todo o sector portugus. Ferme du Bois, Neuve Chapelle, 
=Fauquissart.  uma catstrofe, h muitos mortos e os feridos 
=esto sempre a chegar, so s centenas. "
Agns olhou apavorada para o registo que estava a ser feito 
pela =enfermeira-chefe, arrancou-o com brusquido das mos da 
sua =superiora hierrquica, deixando-a boquiaberta, e 
procurou com =sofreguido e em grande estado de ansiedade o 
nome do capito Afonso =Brando. Percorreu a lista trs 
vezes. Depois de se certificar de =que ele no constava do 
registo, deixou cair o documento no cho e =foi a correr para 
o ptio. Com os olhos marejados de lgrimas e a mo direita 
colada = boca, ficou vidrada a mirar o horizonte.
"Alphonse", murmurou, abalada.
539
Quis gritar, mas as foras faltavam- lhe, apenas um soluo 
=lhe assomou  garganta. Ali permaneceu especada, de olhar 
perdido, =invadida por pressentimentos tumultuosos, o 
desespero a apossar-se-lhe =da alma, a esperana atirada para 
um recanto, acossada e esquecida. Sentia-se perdida, 
=amedrontada, abandonada pelo destino, cercada pelo sinistro 
fragor da =batalha, esmagada pelas tenebrosas colunas de fumo 
negro que se =estendiam para o cu num pavoroso augrio de 
morte, eram afinal o orculo, a profecia de uma terrvel 
=tragdia.
Pouco passava das nove da manh e Afonso sabia que a 
=situao era muito crtica. O sargento Rosa tinha-lhe 
trazido a =notcia de que os alemes estavam a flanquear o 
batalho, =entrando pelo sector ingls de Fleurbaix, o que 
significava que o posto corria o risco de ser =cercado.
"No entendo por que motivo os bifes no disseram nada" 
=desabafou para Pinto. "Ento os gajos recuam e no avisam? "
O tenente Pinto encarou-o com ar alucinado. "Devamos fazer 
como =eles, Afonso", disse. "Se os tipos cavaram, temos 
tambm de cavar, = perigoso estar aqui. "
Afonso ficou siderado com este comentrio proferido diante
das praas.
" tenente, componha-se! ", rugiu o capito, assumindo com 
=firmeza o seu papel de superior hierrquico. "No quero 
ouvir aqui =esse tipo de conversa! Temos um dever a cumprir e 
vamos cumpri-lo. =Faa o favor de garantir que os homens sob 
este comando se mantm com =esprito de combate "
O tenente nada mais disse e foi sentar- se junto ao 
telefonista, =cabisbaixo. Afonso olhou-o com preocupao. 
Pinto parecia-lhe =muito assustado. Recusava-se a sair do 
abrigo, alegando os mais variados =e absurdos pretextos, 
transpirava abundantemente e mantinha-se alheado das funes 
de comando a que, por ser =oficial, estava obrigado. O 
capito considerou que, dadas as =circunstncias, isso era 
normal, ele prprio se encontrava =terrivelmente amedrontado, 
mas o Cenoura no deveria deixar transparecer de
540
modo to visvel o seu medo, sobretudo  frente dos =homens. 
Mais do que afectar o prestgio dos oficiais, essa atitude 
=era, naquelas circunstncias, tremendamente perigosa.
Uma intensa fuzilaria eclodiu nesse momento no posto. As 
=metralhadoras e as espingardas desataram a disparar, e 
ouviam-se =zumbidos por todo o lado. Afonso saiu do abrigo de 
comando e foi a =correr at um dos trs ninhos de Vicers 
existentes no posto. O operador da metralhadora =disparava 
furiosamente para a frente, enquanto o ajudante preparava uma 
=segunda cinta de balas para encaixar na arma. O capito 
colou-se-lhe = orelha, tentando fazer-se ouvir no meio da 
cacofonia.
"O que se passa? "
"Boches, meu capito", gritou o ajudante de volta. Apontou em 
=frente e Afonso viu capacetes a movimentarem-se nas linhas, 
eram =centenas e centenas. "Esto ali. "
O capito olhou em redor e viu os soldados que defendiam o 
posto =de Picantin a abrirem fogo para leste e para norte. 
Voltou ao abrigo de =comando para pegar, tambm ele, numa 
espingarda e coordenar a defesa. =Assomou  porta e deu as 
suas ordens.
"Andr, vais com uma praa at Red House pedir socorro. =Diz-
lhes que estamos a ser cercados e precisamos de reforos e 
=munies. "
"Imediatamente, meu capito", exclamou o telefonista, 
saltando =da cadeira e agarrando numa arma.
Afonso olhou em redor.
" Onde est o tenente Pinto?"
Andr encarou-o com embarao. "O tenente... saiu, meu 
=capito"
"Saiu? Foi para onde? " O telefonista encolheu os ombros e 
baixou =os olhos. O capito percebeu que ele no estava a 
falar toda a =verdade. "Andr, vai cham-lo, v " Afonso foi 
ao armrio do =abrigo e agarrou na ltima Lee-Enfield que l 
se encontrava. Deu meia-volta para sair e viu Andr especado 
no =mesmo stio. "Ento? O que ests a a fazer? "
"Meu capito", gaguejou o telefonista, calando-se de 
imediato.
541
"O que , homem? ", impacientou-se Afonso, cheio de pressa. 
="Desembucha, v! "
"Meu capito, o tenente Pinto no est c", disse =Andr com 
grande esforo.
"Isso j eu sei. Vai busc-lo. "
O telefonista hesitou.
"Meu capito, o tenente Pinto cavou"
O major Gustavo Mascarenhas olhou para as caixas de munies 
=que conseguira reunir. Eram agora dez horas da manh e o 
segundo =comandante de Infantaria 13 juntara apenas trs mil 
cartuchos, =mendigados junto do comandante de um batalho de 
ciclistas ingleses que se encontrava no blockhaus de 
Lacouture, ao =lado da igreja. No eram muitas balas, pensou, 
mas teriam de viver =com o que tinham. O problema era agora 
fazer chegar estas munies =s companhias que partiram  
procura do inimigo.
"Meu major, d licena? "
Mascarenhas virou-se e viu o alferes Viegas.
" O que , Viegas "
"Apareceram ali tropas do 15, meu major. "
O major seguiu o alferes e encontrou os elementos de 
Infantaria 15, =de Tomar, junto  igreja. Esse batalho 
mantinha-se de reserva =atrs de Vieille Chapelle e o seu 
aparecimento era a primeira boa =notcia do dia. Mascarenhas 
foi ter com o comandante do 15, o major Peres, =que se 
encontrava na cave de uma casa das redondezas, e exps-lhe o 
=problema da falta de munies.
"No tenho cartuchos para lhe dar", retorquiu Peres. 
Mascarenhas =suspirou, desalentado.
"Ento no sei como resista", desabafou. "Sem balas no 
=temos como nos opor ao avano do inimigo. "
O major Peres ficou pensativo, desdobrou um mapa sobre a mesa 
e =indicou um ponto.
"Major Mascarenhas, o melhor que podemos fazer  montar um 
=servio de remuniciamento atravs de postos at aqui, a 
Vieille
542
Chapelle. Vocs vo aos postos buscar as munies e 
=distribuem-nas pelas tropas. Serve? "
" melhor do que nada", consolou-se Mascarenhas. "Mas 
precisava =tambm de reforos "
O major Peres tamborilou com os dedos sobre a mesa onde se 
estendia =o mapa, pesando as opes. Acabou por se decidir.
"Dou-vos uma companhia", disse. "A do capito Brito. " O 
alferes =Viegas entrou nesse momento na cave, acompanhado por 
um soldado =ofegante.
"Meu major, d licena? ", disse, dirigindo-se a Mascarenhas. 
=" Diz l "
"Est aqui o soldado Camacho, da segunda companhia, que 
acabou =de chegar com informaes "
" O que se passa?"
O soldado fez continncia, o peito arfando pesadamente, viera 
a =correr.
"Meu major, os desertores esto a dizer que os boches avanam 
=pelos intervalos dos postos, cercando-os e prendendo toda a 
gente. " Fez =uma pausa para respirar. "O tenente Alcdio 
pergunta o que fazer. " =Alcdio era o comandante da segunda 
companhia. "Ele tambm pede =munies. "
"Muito bem, Camacho", disse Mascarenhas. "Vais voltar para as 
=linhas e levar algumas munies contigo. Diz ao tenente 
Alcdio =que lhe vamos enviar foras do 15 para o apoiarem. 
J tiveram =contacto com o inimigo?"
"Ainda no, meu major"
"Quando tiverem, as ordens so as de resistir, resistir 
sempre. =Percebeste?"
"Sim, meu major. "
"Ento vai l. "
Vicente Manpulas sentia os msculos do brao direito 
=cansados de tanto repetir o movimento. Apontava para um 
alemo, =disparava, abria a culatra, puxava-a, deixava a bala 
entrar no cano, =fechava a culatra, apontava, disparava, 
abria a culatra,=20
543
puxava-a, deixava a bala seguinte entrar no cano, fechava a 
=culatra, apontava, disparava, e assim sucessivamente, at 
esgotar, no =espao de dois minutos, as dez balas do depsito 
da Lee-Enfield. =Nessa altura substitua o depsito e 
recomeava o processo de abrir a culatra, pux- la, deixar a 
bala entrar =no cano, fechar a culatra, apontar e disparar. 
Na verdade, o processo de =esvaziar um depsito durava dois 
minutos porque o capito =Brando tinha dado ordens para se 
pouparem balas e s dispararem pela =certa. Caso contrrio, 
os soldados eram capazes de despenderem as dez balas em 
apenas =cinquenta segundos, uma vez que o processo de 
carregar a espingarda =durava uns meros cinco segundos.
"A equipa da costureira caiu! ", gritou algum. "Acudam! " 
=Vicente percebeu, pela alterao na cacofonia que o rodeava, 
que =uma das Vickers tinha deixado de disparar. Seguiu-se 
alguma confuso, apenas com as espingardas e uma outra 
Vickers a abrir fogo, at =que algum lhe tocou no ombro. 
Manpulas virou-se e viu Afonso com =o alarme estampado nos 
olhos.
"Sabes usar a Vickers? ", perguntou-lhe o oficial. "Mais ou 
menos, =meu capito. "
"Ento vai l. O Srgio ajuda-te com as cintas de =munies. 
" Vicente correu curvado at ao ninho da metralhadora =e viu 
os dois homens que a operavam estendidos no cho. Um jazia 
inerte, o outro mexia-se e estava a ser visto por um 
=companheiro. Num olhar de relance, percebeu que tinham sido 
atingidos =por balas, presumivelmente de metralhadora. 
Espreitou pela seteira, a =brecha aberta entre os sacos de 
terra, e procurou a arma inimiga que varrera =os homens da 
Vickers.  esquerda, encostada a um tronco de rvore, 
=posicionava-se efectivamente uma Maxim, provavelmente 
acabada de ser =colocada pelos alemes sem que a equipa da 
Vickers a tivesse referenciado. O Manpulas =agarrou as pegas 
da metralhadora pesada, apontou para a Maxim, esperou =que 
Srgio viesse juntar-se a ele para o remuniciar e, j 
=confortvel, premiu o gatilho. Sucessivos penachos de terra 
e poeira ergueram-se =junto ao tronco. A Maxim respondeu, 
Vicente insistiu, largou rajada =sobre rajada e a 
metralhadora inimiga calou-se. Quando a
544
poeira assentou, a Maxim apareceu voltada ao contrrio, 
=claramente tinha sido atingida.
"Apanhmo-los! ", congratulou-se Vicente, sorrindo para 
=Srgio.
O ajudante devolveu o sorriso.
"Boa, Manpulas. "
Vicente viu umas dezenas de homens a correrem perto do stio 
=onde se encontrava a Maxim e voltou a premir o gatilho, 
largando novas =rajadas que atingiram mais alguns alemes. De 
repente, a metralhadora =portuguesa passou a disparar=20em 
seco. Vicente ficou admirado, olhou e =viu que a cinta de 
balas se esgotara.
"Mete-me mais munies", pediu a Srgio. "Depressa, 
=depressa! O ajudante pegou numa nova cinta e encostou-se ao 
tambor da =Vickers para a encaixar na metralhadora. Ao tocar 
na arma, porm, o =Manpulas gritou de dor.
"Caramba, esta merda t a ferver! ", exclamou, sacudindo a 
=mo.
Vicente experimentou a temperatura do metal com um leve toque 
dos =dedos e verificou que a metralhadora estava 
efectivamente a escaldar.
"gua", pediu, olhando freneticamente em redor. "Ond' =qu'h 
gua "
No encontraram gua para arrefecer o tambor e Srgio foi 
=ter com Afonso para ver se arranjava alguma. O capito deu 
um salto =ao ninho de metralhadora e, aps verificar 
igualmente a temperatura =da Vickers, mirou Vicente.
"A pouca gua que temos tem de ser racionada e est destinada 
=unicamente a dar de beber aos homens", disse.
"Mas, meu capito, com' qu'arrefecemos a costureira? Ela =t 
a escaldar e, se continuar assim, o cano vai derreter. "
Afonso fixou-lhe os olhos.
"Olha l, no tens vontade de mijar? "
O rosto de Vicente congelou-se numa expresso interrogativa, 
mas =em dois segundos abriu-se-lhe um sorriso, tinha=20
545
compreendido. O Manpulas foi buscar uma vasilha, puxou a 
=Vickers, retirando-a da seteira aberta entre os sacos de 
terra, colocou =a vasilha por baixo da parte dianteira da 
manga, desenroscou a tampa e =do interior da manga comeou a 
jorrar gua a ferver para a vasilha. Quando a gua deixou de 
correr, =recolocou a tampa enquanto Afonso desenroscava outra 
tampa, esta situada =na parte superior da manga, logo a 
seguir  mira da arma. Os dois =homens, aos quais se juntou 
Srgio, ergueram-se, mantendo o tronco curvado para no se 
exporem ao =fogo inimigo, abriram as braguilhas e fizeram 
pontaria  abertura situada no topo da manga. Quando a urina 
tocou no ferro =escaldante produziu-se de imediato um ffzzzz 
de arrefecimento, parte do =lquido evaporou-se, a outra 
parte acumulou-se na manga cilndrica. Cada um esvaziou a 
bexiga no interior da manga e Afonso foi =chamar mais homens 
para urinarem na Vickers. Quando a manga ficou cheia, =Srgio 
enroscou a tampa e Vicente experimentou com os dedos a 
=temperatura do metal.
"Ainda t quente, mas t muito melhor", disse. "Aguenta mais 
=uns cinco minutos, dez no mximo "
"Quando estiver outra vez a ferver, voltas a esvaziar a manga 
e =metes-lhe a gua da vasilha", instruiu-o Afonso, 
consultando o =relgio. Eram dez da manh.
"Sim", concordou Vicente. "C'o briol que p'r'qui vai, por 
=ess'altura a gua j deve ter arrefecido. "
Afonso espreitou pela seteira para as posies inimigas. "De 
=qualquer modo, tenta poupar munies, h? No te =esqueas.
O capito retirou-se, deixando Vicente e Srgio a operar a 
=Vickers. O Manpulas recolocou a metralhadora na seteira, 
viu mais =alemes a correrem l ao fundo, largou uma rajada e 
outra logo a =seguir. Alguns alemes tombaram, os restantes 
foram procurar refgio. Vicente girou a =Vickers para a 
esquerda e para a direita, procurando novos alvos. Pelo 
=canto do olho sentiu um objecto metlico a cair-lhe ao lado, 
parecia =uma garrafa. Srgio ergueu-se de repente, como se 
tivesse sido impelido por uma mola.
546
"Granada! ", gritou.
O ninho da Vickers explodiu.
Os sons da guerra ecoavam intensos  volta de Senechal Farm. 
=Eram j onze da manh e o major Mascarenhas mostrava-se 
=surpreendido com a persistncia do nevoeiro. Comeou a 
suspeitar =de que todo aquele fumo no resultava de uma mera 
neblina matinal, mas era tambm fruto do emprego de granadas 
de fumo =destinadas a ocultarem o movimento da infantaria 
atacante. Colocou os =binculos nos olhos e inspeccionou o 
nevoeiro.  esquerda apenas =se via vapor branco e  frente 
tambm. Girou os binculos para a direita e, por entre as 
nuvens baixas, =observou vultos a esgueirarem-se pelo 
terreno. Baixou os binculos e =mirou a olho nu aquele 
sector. Havia ali, de facto, alguns pontos =minsculos a 
movimentarem-se. Presumiu que se trataria de uma das 
companhias =que enviara para estabelecerem contacto com o 
inimigo, embora no =pudesse ter a certeza. Olhou de novo 
pelos binculos, mas a imagem tremia em excesso, devido aos 
ligeiros movimentos =das suas mos, tremendamente 
amplificados pelas lentes. Para =estabilizar os binculos 
assentou-os sobre uma pedra e acocorou-se =atrs dela, 
espreitando pelos culos. A imagem apresentava-se agora muito 
melhor e Mascarenhas =distinguiu com clareza o contorno dos 
capacetes. Eram alemes.
"Maciel! ", gritou, chamando o alferes que o acompanhava. O 
homem =aproximou-se a correr.
"Sim, meu major? "
"Ests a ver aqueles pontos ali? ", perguntou Mascarenhas, 
=apontando para a direita.
O alferes Maciel virou-se na direco indicada, esticou a 
=cabea para a frente, estreitou os olhos e, aps uma breve 
=hesitao, assentiu.
"Estou a v-los, meu major"
"So boches. Faam fogo nutrido sobre aquele sector, mas 
=depois tenham cuidado porque h tambm para ali homens 
nossos. 547
As metralhadoras e as espingardas portuguesas abriram uma 
barreira =de fogo sobre a direita, varrendo a rea onde os 
alemes tinham =sido avistados. O inimigo respondeu ao fogo 
com fogo, generalizando-se o =tiroteio  direita de Senechal 
Farm. Os defensores distriburam as tarefas, com =os 
ciclistas ingleses a defenderem a esquerda, que permanecia 
calma, =Infantaria 13 a vigiar o centro e Infantaria 15 na 
direita. Uma hora =depois foram avistados alemes igualmente 
 esquerda e as tropas portuguesas varreram o sector =com 
duas metralhadoras e muitas espingardas. Vrios soldados 
inimigos =tombaram no solo, apanhados pela saraivada, mas 
Mascarenhas no tinha =iluses. Os alemes apareciam=20 
esquerda e  direita, em breve Senechal Farm ficaria cercada. 
=Vendo-se momentaneamente impedidos de progredirem, os 
atacantes fixaram-se no terreno. Depressa Mascarenhas ficou 
=apreensivo, no apenas por causa da fragilidade da sua 
posio, =como sobretudo devido ao crescente isolamento das 
companhias que enviara =para fazerem frente ao inimigo.
"Maciel! ", voltou a chamar.
"Sim, meu major? "
"Manda-me ordenanas com cunhetes para as companhias da 
frente. ="
O alferes Maciel foi executar a ordem e Mascarenhas voltou 
aos =binculos.
O posto de Picantin j s tinha um punhado de homens a 
=resistirem. Afonso contou-os, eram uns vinte e as trs 
Vickers =estavam fora de servio, uma destruda pela granada 
que matara =Vicente Manpulas e Srgio, outra bloqueara e a 
terceira tinha o cano derretido. Como =metralhadoras, apenas 
funcionavam duas Lewis, uma delas operada por =Matias Grande.
"Meu capito", gritou o cabo. "J s tenho um disco" A =Lewis 
era alimentada por um disco com noventa e sete balas. A 
=guarnio de Picantin j tinha saqueado um paiol e levado 
todos =os discos para as Lewis, cintas para as Vickers e 
depsitos para as Lee- Enfield, mas as munies chegavam 
agora
548
ao fim e a defesa do posto tornava-se insustentvel. Afonso 
=sabia que era impossvel resistir com baionetas. Sem balas 
no =valia a pena permanecer em Picantin.
"Vamos evacuar o posto! ", gritou. "Toda a gente ajuda os 
feridos a =sarem. Carreguem-nos s costas, se for preciso. " 
Apontou para =Matias. "Cabo, voc fica a a dar-nos cobertura 
com a Luisa e =s sai quando o ltimo homem abandonar o 
posto" Apontou para a sua ordenana. ="Joaquim, ajuda-o. "
Joaquim posicionou-se no ninho da Vickers bloqueada com a 
Lee- =Enfield a espreitar pela seteira e Matias Grande 
colocou-se num ponto =donde podia observar em simultneo a 
esquerda e a direita. Quando o =resto da guarnio deixou de 
disparar e comeou a retirar, Joaquim passou a alvejar os 
vultos que se moviam em =frente, enquanto Matias abria fogo 
em diversas direces com =rajadas muito curtas. O objectivo 
dos dois portugueses j no era =agora o de abaterem soldados 
inimigos, mas simplesmente criarem a impresso de que aquela 
posio =tinha ainda muitos homens a defend-la.
Afonso registou a hora em que o posto foi abandonado. Eram 
onze da =manh. A guarnio de Picantin Post fez-se s 
trincheiras =quase sem munies e carregando duas dezenas de 
feridos. A maior =parte seguiu pelo prprio p, alguns 
apoiando-se nos camaradas quando os seus ferimentos eram numa 
=perna e os impediam de andar normalmente. Trs seguiram em 
macas =improvisadas, no estavam em condies de caminhar. 
Com=20a coluna a caminho, Afonso olhou uma derradeira vez 
para o posto e =interrogou-se quanto ao tempo que Matias e 
Joaquim ainda conseguiriam =resistir sozinhos.
Danando numa direco e noutra, o cabo continuava a =manter 
o inimigo ocupado, enquanto Joaquim se conservava fixo no 
ninho =da Vickers. Mas a iluso de que o posto ainda 
permanecia guarnecido durou apenas cinco minutos, =findos os 
quais se esgotou o derradeiro disco da metralhadora de 
Matias. =A Lewis aquecera at ao rubro, o cano prestes a 
fundir-se, e o cabo =largou no cho a arma que tanto o 
servira nos ltimos meses, agarrou numa
549
Lee-Enfield abandonada por um companheiro, estranhou j no 
=ouvir disparar a espingarda de Joaquim, foi ao ninho da 
Vickers e viu o =seu camarada estendido no cho, varado pelo 
tiro certeiro de uma Mauser inimiga. Sentiu-lhe o pulso e 
verificou =que Joaquim estava morto. Afagou-lhe o cabelo, 
numa breve carcia de =despedida, e, sem perder mais tempo, 
largou a correr no encalo da =coluna que fugia para Red 
House.
Os avies alemes irromperam em voo baixo sobre Senechal 
=Farm. Os Gotha, os Halberstadt, os Roland e todos os outros 
desceram =sobre as posies portuguesas, regando-as com 
metralhadoras e bombas e enviando sinais =luminosos para 
regularem o fogo da artilharia. Mascarenhas comeou a 
=convencer-se de que no conseguiria manter Senechal Farm por 
muito =mais tempo. Nenhuma das ordenanas enviadas para 
remuniciarem as companhias da frente tinha regressado. =Alm 
disso, o facto de aparecerem cada vez mais soldados alemes 
=pela frente deixava supor o pior. A confirmao de que 
Senechal Farm era agora, literalmente, a linha da frente foi 
=dada quando surgiu no local um punhado de sobreviventes da 
primeira =companhia e alguns homens das restantes.
"Meu major", disse um cabo acabado de chegar, o olhar 
alucinado. ="Eles varreram-nos quando os atacmos com uma 
carga de baioneta. =H ainda algum pessoal do 13 a resistir 
nas trinchas, mas esto =cercados e no vo durar muito. "
Mascarenhas olhou em redor.
"Maciel! ", chamou. "Distribui cartuchos por estes homens" O 
fogo =inimigo tornou-se mais nutrido quando era meio- dia e 
meia, os =alemes dispunham visivelmente de mais soldados no 
sector. Os =avies pareciam moscardos a polvilharem o cu. 
Mascarenhas observou-os um a um e apenas identificou enormes 
cruzes =negras desenhadas nas asas e na carlinga.
"Mas onde  que esto os camones? ", interrogou-se em voz 
=alta, abrindo os braos com frustrao. "S se vem 
=aeroplanos boches! "
Infantaria 13 e uma companhia de Infantaria 15 resistiam ali 
com =apenas duas Lewis e as Lee-Enfield de cada praa. Os 
portugueses =batiam os alemes de flanco, procurando retardar 
a sua progresso. =A uma da tarde, a resistncia dos 
defensores estava circunscrita, na esquerda, ao blockhaus, 
onde =se refugiava o batalho de ciclistas ingleses, e ao 
cemitrio, =onde permaneciam outros ingleses. No meio 
permaneciam os portugueses, =ocupando Senechal Farm, e,  
direita, junto a King George's Street, outra fora 
portuguesa. A =certa altura, o alferes Sevivas, que empunhava 
uma das Lewis em =Senechal, desapareceu, e a resistncia 
ficou ali circunscrita a uma =nica metralhadora ligeira. O 
alferes Maciel, visivelmente consternado, =aproximou-se do 
seu segundo comandante.
"Meu major, vamos ser envolvidos", disse.
"Eu sei, j reparei. " Mascarenhas olhou para o compacto 
abrigo =de cimento que se encontrava junto  igreja de 
Lacouture. "Temos de =retirar para o blockhaus. " Observou a 
disposio das suas =foras. "Quem  aquele? ", perguntou, 
apontando para o soldado que tinha a nica =Lewis operacional 
nas mos.
" o sargento Carvalho, meu major. "
"Ele que nos cubra. "
A ordem de evacuao foi dada de imediato. Dezenas e dezenas 
=de soldados portugueses convergiram para o sector da igreja, 
correndo =curvados por entre o arvoredo, saltando sobre as 
crateras, contornando o arame farpado, cruzando a ribeira 
Loisne, e entraram no =blockhaus. O sargento Carvalho ficou 
para trs, sozinho, a Lewis a =manter as formaes alems em 
respeito naquele terreno acidentado e coberto de verdura. 
Quando =verificou que os companheiros tinham todos retirado 
de Senechal Farm, =Carvalho esgueirou-se pelos arbustos, 
correu, correu, correu e entrou =enfim, tambm ele, no macio 
abrigo de beto.
Havia quase duas horas que a coluna chefiada por Afonso 
errava pela =labirntica rede de trincheiras, tentando 
desesperadamente evitar o =contacto com o inimigo. As 
munies=20
551
encontravam-se praticamente esgotadas e o volume de feridos 
fazia =daqueles homens uma ineficaz fora de combate. A 
coluna estava agora =reduzida a metade desde que abandonara o 
Picantin Post. Os alemes flagelavam implacavelmente a 
unidade, que foi perdendo homens  =medida que os 
sobreviventes de Infantaria 8 deparavam com as foras 
=inimigas. A ideia inicial de Afonso era retirar para Red 
House, onde se =encontrava o comando de Infantaria 29, mas, 
por esta altura, esse plano estava totalmente =desbaratado. 
Todos os caminhos se mostravam bloqueados, as =posies e 
postos portugueses tinham cado nas mos do =inimigo e a 
coluna que evacuara Picantin j s procurava recuar, fosse 
para onde fosse, mas recuar.
Pelas duas da tarde, os homens do 8 foram alvejados 
simultaneamente = frente e na retaguarda. Afonso percebeu 
que j s tinha uma =carta na manga, uma carta frgil, 
incerta, fraca. Mas era a nica.
"Os feridos que podem caminhar vo prosseguir a retirada" 
=gritou, deitado no cho enquanto as balas zumbiam sobre as 
cabeas =dos portugueses. "Sero escoltados pelo cabo 
Esperana e mais um homem. Os restantes ficam comigo para 
atrair o inimigo e =cobrir a retirada. Quando os feridos 
estiverem longe, retiraremos =igualmente. Entendido? "
"E os feridos que no podem andar, meu capito? ", perguntou 
=Rosa, apontando para os trs homens deitados nas macas.
"Vo ter de se render, no vejo outra hiptese. " Os =homens 
assentiram, sabiam que no restavam alternativas. O cabo 
=Esperana rastejou para junto dos feridos que conseguiam 
andar e =da,  distncia, chamou Afonso.
"Meu capito, qual  o homem que levo comigo? " "Sei l", 
=devolveu Afonso, encolhendo os ombros com indiferena. "Um  
sua =escolha, tanto me faz. "
O cabo escolheu uma praa da sua confiana e ambos foram 
=puxando os feridos at chegarem a uma zona de trincheira com 
os =parapeitos altos. Puseram-se a todos de p e partiram, 
os que =tinham uma perna inutilizada apoiados em espingardas, 
usadas
552
como se fossem bengalas. Deitado na lama, Afonso contou os 
seus =efectivos. Tinha ali o cabo Matias, o sargento Rosa, o 
soldado Baltazar =e mais um outro que s conhecia de vista. 
Somavam cinco homens.
"Quantas balas temos? ", perguntou Afonso.
Os soldados contaram os cartuchos. Eram, ao todo, vinte e 
duas =balas.
"Ainda d para aviarmos vinte e dois boches", gracejou 
Baltazar. =" Categoria, h "
Ningum se riu.
"Quando eles vierem, s disparem pela certa, no momento em 
que =eles estiverem mesmo perto. Entenderam? " Afonso fechou 
ruidosamente a =culatra da sua espingarda. "Cada tiro, cada 
melro. "
Os alemes disparavam furiosamente sobre a posio 
=portuguesa, protegida por sacos de terra, e a ausncia de 
fogo de =resposta deu-lhes atrevimento. Comearam a 
aproximar-se, devagar, devagarinho. Quando se encontravam a 
=cinquenta metros, Afonso mandou disparar e vrios alemes 
rolaram por terra. Os restantes abrigaram-se e voltaram a 
regar os =portugueses com tiros de Mauser. A certa altura, 
uma Maxim juntou-se ao =tiroteio. Logo  segunda rajada, por 
sinal certeira, o sargento Rosa =foi atingido na cabea e 
tombou morto, o outro homem sofreu vrios tiros nas costas e 
=deixou igualmente de dar sinal de si. Um dos feridos que se 
encontrava =deitado na maca tambm foi atingido e agonizava, 
moribundo. Afonso, Matias e Baltazar =entreolharam-se. 
Perceberam que tinham chegado ao fim da linha. Antes =que 
fosse disparada a terceira rajada, Afonso esticou o pescoo e 
=gritou:
"Kamerad! "
O primeiro a levantar-se, os braos bem erguidos, foi 
Baltazar. =O Velho ps-se de p e foi imediatamente abatido 
por vrios tiros de espingarda. Matias viu-o tombar ao seu 
lado sem soltar um =gemido, os olhos a rolarem para cima e a 
ficarem brancos, um buraco na =testa e outros presumivelmente 
no tronco, a nuca aberta pela sada da =bala, via- se a 
matria branca e esponjosa da
553
massa enceflica a escorregar para fora do crnio. O cabo 
=observou-o, estupefacto, mal queria acreditar que aquele era 
o seu amigo =Baltazar, que ele cara morto, abatido como um 
co quando se rendia. Parecia a Matias que vivia um sonho, 
experimentou =uma sensao de profunda irrealidade, de uma 
estranheza dormente, =teve a impresso de que nada daquilo 
estava a acontecer, via e no acreditava. Primeiro tinha sido 
o Lingrinhas, depois o Manpulas, =agora o Velho, o seu 
desfalcado peloto j no existia, tinha =sido dizimado em 
poucas horas, os amigos transformados em pedaos de carne 
inerte. Cerrou os olhos, abanou a cabea e abriu-os 
=novamente, na iluso de que despertaria assim do sonho, mas 
Baltazar permanecia deitado, o olhar vidrado. Estava =mesmo 
morto. Fitou-o aparvalhado, atordoado, perdido numa 
incredulidade =embasbacada.
A voz do capito, rouca e gutural, despertou-o da letargia. 
="Kamerad! ", gritou Afonso, a plenos pulmes. "Kamerad! " O 
tiroteio =foi enfim suspenso. Aproveitando a pausa, o capito 
voltou a berrar. ="Ich bin Kamerad! "
Ouviu-se um burburinho  distncia e uma voz respondeu a 
=Afonso.
"Ergebt euch ", gritou. "Legt die Waffen nieder Los Los " 
Depois, =uma segunda voz adoptou o francs das trincheiras. 
"Armes pas bonnes. =Portugais prisoniers, bonnes. Portugais
guerre, pas bonnes Jetez les armes "
Afonso olhou para Matias. O cabo encontrava-se em estado de 
choque, =embora j estivesse a sair do breve transe em que 
mergulhara. A =sensao de irrealidade permanecia forte, 
ainda acreditava que =tudo aquilo podia no passar de um 
sonho mau, mas,  cautela, algo dentro de si decidiu =que se 
deveria portar com prudncia, afinal de contas o que estava a 
=acontecer em seu redor comeava a parecer muito real.
"Eles querem que atiremos as armas fora", explicou-lhe 
Afonso. Os =dois pegaram nas respectivas Lee-Enfield e 
projectaram-nas para a =frente, de forma suficientemente alta 
para serem vistas  =distncia. A seguir, devagar, a medo, 
ergueram-se com as
554
mos levantadas, primeiro permaneceram curvados, esperando a 
=todo o momento o pior, e depois, mais confiantes, 
endireitaram o tronco, =os braos sempre esticados para o 
cu.
Mascarenhas espreitou pela seteira e olhou na direco que 
=lhe indicava o alferes Veiga. L ao fundo circulavam 
camionetas a =transportarem soldados e viam-se homens com 
bandeirolas a regularem o =trnsito, eram os alemes a 
enviarem reforos para aproveitarem as brechas abertas pela 
ofensiva dessa =manh. O cu cobrira-se de avies inimigos, o 
que consternava =os sitiados.
" impressionante! ", exclamou Mascarenhas. "No se v um 
=nico aeroplano nosso. "
Veiga assentiu.
"Estamos totalmente isolados, meu major. Somos uma ilha num 
mar de =boches. "
J passava das quatro da tarde e o major decidiu inspeccionar 
o =blockhaus. O abrigo de cimento onde se encontrava 
encerrado estava =camuflado por uma casa. Era constitudo por 
dois andares, ambos com =seteiras por onde os ciclistas 
britnicos colocavam as suas metralhadoras pesadas e regavam 
as posies inimigas. Mascarenhas contou os efectivos, 
contabilizando setenta =ingleses e quase cento e setenta 
portugueses, a maior parte do 13, mas =alguns do 15. Muitos 
dos portugueses estavam feridos e tinham pensos =espalhados 
pelo corpo. Dentro do blockhaus havia ainda uma zona de 
segurana adicional, um =abrigo de beto com cmara de 
rebentamento, onde se entrincheirara =o comandante britnico 
com a maior parte das munies. =Mascarenhas foi l implorar 
um remuniciamento e o major ingls cedeu-lhe cinco mil 
=cartuchos. O major do 13 distribuiu as balas pelos homens e, 
j sem =nada para fazer, voltou s seteiras.
A sombra da noite emergiu no horizonte como um vulto umbroso, 
=sobretudo do lado donde vinha o inimigo, mas os avies 
mantinham-se =no ar com os seus voos rasantes.
"Parecem moscas", comentou Mascarenhas junto do cabo Guedes.
555
"Gostava de apanhar um com a minha Luisa", comentou o cabo. 
"Daqui =no  possvel", explicou-lhe o major. "Precisavas de 
estar num =ponto alto. "
O cabo franziu o sobrolho.
"O meu major est-me c a dar uma ideiazinha", disse, com um 
=sorriso malicioso. "Vou l acima, ao telhado. Pode ser que 
tenha =sorte. "
Guedes pegou na Lewis e subiu ao telhado da casa erguida por 
cima =do blockhaus. Encostou-se  chamin e ficou a aguardar, 
observando =a evoluo dos aparelhos sobre Lacouture. Um 
avio aproximou-se finalmente pela frente, baixou e, quase em 
voo rasante, =comeou a metralhar o abrigo de beto. O cabo 
ergueu a Lewis, =apontou e largou uma rajada. O aparelho 
flectiu para a direita e ganhou altura, esquivando-se ao fogo 
do =telhado. Desapontado, Guedes regressou ao blockhaus.
Afonso e Matias Grande caminhavam lado a lado sem trocarem 
palavra. =Sentiam-se demasiado cansados para isso. Marchavam 
como mquinas, =alheios ao que os rodeava, a mente apenas 
fixa nos acontecimentos da =manh, relembrando cada episdio, 
os instantes dos bombardeamentos e as circunstncias que 
=envolveram a morte dos amigos. Caminhavam como sonmbulos, 
=tropeando pelo caminho, a mente ausente, estavam j 
mergulhados =no passado, nas memrias daquela manh brutal, 
reviviam ainda cada sentimento, cada sensao, o terror e =o 
medo, os cheiros e os sons, as exploses e os gritos.
O nevoeiro j tinha levantado, revelando uma paisagem lunar 
=fumegante, as trincheiras revolvidas pelas bombas e pelas 
granadas ao =ponto de se terem tornado irreconhecveis. Os 
prisioneiros seguiam sozinhos, sem escolta, cruzando-se com 
=milhares e milhares de soldados alemes que marchavam por 
Fauquissart =rumo  frente de combate. O oficial que os 
revistara tirara-lhes as =mscaras antigs, pelo que ambos 
vigiavam o terreno de uma forma inconsciente, pareciam 
=alheados de tudo e, no entanto, algures na sua mente 
permaneciam =vigilantes, preocupados em
556
detectarem atempadamente qualquer nuvem suspeita. Avanaram 
pela =Great Northern e passaram ao lado de Flank Post. Afonso 
lanou um =olhar ausente sobre o abrigo, mas a desolao 
daquele stio =familiar despertou-lhe a ateno, o posto 
encontrava-se totalmente devastado. Viam-se alguns mortos, 
=corpos esfacelados, deitados de bruos ou em posies 
=estranhas. Os soldados alemes paravam aqui e ali para 
examinarem os =cadveres. Tiravam-lhes dinheiro, algumas 
peas do vesturio, botas, relgios e, sobretudo, comida.
Afonso e Matias chegaram  antiga linha da frente e 
constataram =que, das trincheiras portuguesas, apenas restava 
agora um vago =enfilamento. O seu interesse pelo que os 
rodeava aumentou =consideravelmente a partir desse ponto, foi 
como se comeassem a emergir de um sonho. Entraram na terra 
de ningum e meteram =em direco s antigas linhas inimigas. 
Afonso achou estranho =estar a passear assim,  luz do dia e 
com descontraco, por =sectores onde antes apenas se 
circulava=20 noite e muito a medo.
Um soldado alemo, por sinal corpulento, aproximou-se dos 
dois e =gritou para Matias, apontando-lhe para os ps.
"Gib mir deine Stiefel! "
"Ele quer as tuas botas", traduziu Afonso.
Matias ficou surpreendido, mas obedeceu. Sentou-se no cho e 
=descalou maquinalmente as botas, que entregou ao soldado 
inimigo. O =alemo tirou as suas e colocou as do portugus, 
que eram aproximadamente do mesmo tamanho. Ergueu-se e 
assentou bem =os ps no solo.
"Mist, die sind kaputt! ", vociferou, desagradado. Arrancou 
as =botas de Matias e atirou-as furiosamente contra o cabo. 
De seguida, =calou de novo as suas e foi-se embora.
"O gajo devia julgar que as nossas botas eram iguais s dos 
=camones", comentou Matias enquanto se calava.
"O que  que tm as tuas botas? "
"Esto descosidas  frente", explicou o cabo, exibindo a sola 
=aberta. "Est a ver? " Esticou a perna e aproximou a bota 
dos olhos =do capito. "O boche ficou pior do que uma barata. 
"
557
Atingiram a primeira linha alem em Nut Trench e meteram por 
um enfilamento =de trincheiras at chegarem  curva de uma 
estrada. Fazendo um esforo para recordar o traado =das 
linhas inimigas nos mapas, Afonso concluiu que aquela era a 
Rue =Deleval, uma estrada com tanta importncia para os 
alemes como a =Rue Tilleloy para os portugueses. Se esta era 
a Rue Deleval, raciocinou Afonso, ali  esquerda =situava-se 
a Farm Delapone e Orchard e a curva onde se encontravam 
=correspondia a Irma's Elephant.
Um oficial aproximou-se dos dois e ordenou-lhes que se 
dirigissem =para um ponto  direita, na Rue Deleval. 
Obedeceram e foram dar a um =local onde se encontrava um 
punhado de militares portugueses.
"Ora viva", saudou Afonso.
"Ruhe! ", berrou um guarda, mandando-o calar.
O grupo permaneceu em silncio  espera de instrues. =A 
noite caa e surgiu um segundo oficial que os mandou seguir 
dois soldados. Dirigiram-se para =oeste e fizeram a curva 
para sul num local que Afonso identificou como =sendo 
"Sousa", uma casa assinalada no mapa do CEP e que, por 
ironia, =pertencera a um portugus radicado na Flandres. 
Desceram pela estrada, caminhando paralelamente =s antigas 
primeiras linhas alems, viram a Rue Dante  =esquerda, mas 
os guardas ignoraram-na, e prosseguiram pela Rue Deleval. 
=Continuavam a ver-se aqui muitas formaes de soldados a 
marchar com aprumo para combate, homens enquadrados por 
=oficiais a cavalo que lanavam sobre os prisioneiros olhares 
cheios =de curiosidade. Diversos oficiais alemes chegaram a 
abrandar a marcha das montadas para melhor observarem os 
=soldados inimigos. Seguindo mecanicamente os guardas, os 
portugueses =cruzaram Clara Trench e Butt House, mas, quando 
atingiram a Fauquissart =Road, apanharam-na em direco a 
leste, rumo a Aubers, afastando-se definitivamente da Rue 
Deleval e =da zona da frente.
As granadas comearam a atingir o blockhaus com violncia =s 
seis e meia da tarde. Ouvia-se o guincho dos projcteis em 
voo
558
e, com o impacto das bombas, o edifcio estremecia, abanando 
=at aos alicerces, um fragor terrvel a encher o interior. A 
=estrutura rangia, algumas partes desmoronavam-se, caam 
destroos =por toda a parte, uma nuvem de p danava no ar. 
Mas, no essencial, o abrigo aguentava-se, era slido e 
=macio.
Mascarenhas decidiu percorrer os dois andares do blockhaus, 
=preocupado em manter o moral dos homens. Nada melhor do que 
uma conversa =para distrair a mente e fazer os homens 
esquecerem as granadas que =choviam sobre o edifcio.
"No se preocupem, o abrigo foi construdo para aguentar isto 
=e muito mais", explicou a um grupo do 13 que guarnecia uma 
das seteiras.
" meu major, a malta c no corta prego", disse um =soldado 
com um sorriso forado. "Mas, mesmo que estivssemos =cagados 
de medo, no tnhamos por onde cavar, no ? "
"Quem vai cavar so os boches, vocs vo ver. Os camones 
=vo-nos enviar reforos, corremos com esses cabres todos e 
=ainda vamos ser tratados como uns heris. "
Uma granada atingiu o blockhaus, fazendo estremecer o 
edifcio, =e todos se calaram. Caiu algum p, mas no houve 
consequncias =de maior.
"A mim, o que me deixa mais nicado  a fome ", exclamou um 
=soldado.
Mascarenhas sorriu.
"Se pudesses encomendar um prato, o que  que escolhias? " " 
=meu major, isso  pergunta que se faa? "
"Ento, rapaz? No temos comida, mas nada nos probe de 
=sonharmos com ela, no ?"
"Ah, meu major, eu alambazava-me com uma boa feijoada  
=transmontana, caraas, uma daquelas que a minha me faz. "
"Tu s donde? "
"Eu sou de Bisalhes, meu major, mesmo ali ao p de Vila 
=Real. "Bem sei, bem sei", retorquiu Mascarenhas. "A terra 
dos barros =negros. " O major sabia que no havia nada de que 
um=20
559
soldado mais gostasse do que falar de comida e sonhar com a 
sua =terra. Esses eram dois temas que garantidamente 
despertavam o interesse =de qualquer homem, para alm das 
mulheres, claro. Dadas as =circunstncias, falar sobre esses 
assuntos era o melhor modo de os manter distrados e 
animados. =Voltou-se, por isso, para outro soldado. "E tu 
donde s? "
"Eu sou de Lamas de Olo, meu major."
"Onde  isso? "
"Em Trs-os-Montes, meu major"
" homem, isso j eu sei, aqui toda a malta  de =Trs-os-
Montes. Mas onde  que fica essa terra? "
"Lamas de Olo  l para o Alvo, meu major. Entre o =Tmega e 
o Corgo "
"E  bonito? "
"Se  bonito?  o paraso, meu major, o paraso! =Vive-se l 
no meio da serra, tomam-se umas banhocas nas Fisgas de 
=Ermelo, d-se um passeio at ao Alto das Caravelas, anda-se 
 =caa, come-se perdiz com uvas, faiso com castanhas, eu 
sei l. " O homem suspirou. "Ah, meu major, isto = que so 
c umas saudades. "
"No me falem em comida, caraas, no me falem na =paparoca", 
cortou o primeiro soldado. "Com a larica com que estou, =at 
a merda do corno-bife me sabia a cabrito assado! "
Uma nova exploso interrompeu a conversa, era uma minenwerfer 
=que embatera no bloclzhaus com aparato. O claro da exploso 
=iluminou as seteiras, agora que a noite cara e toda a luz 
brilhava =mais forte.
O soldado alemo apontou a Mauser para o tenente portugus e 
=berrou:
"Die Jace her! "
O tenente ficou embasbacado, sem perceber o que queria o 
homem.
"D-lhe a gabardina", disse-lhe Afonso. "Ele quer a 
gabardina" =Aparvalhado, o tenente despiu a gabardina, o 
alemo ficou com ela e =foi-se embora.
560
"Ora esta", queixou-se o tenente. "Agora gamaram-me a 
gabardina, =vejam l... "
Ningum disse nada, as ordens eram para manter o silncio. O 
=grupo prosseguiu a marcha, os guardas ignorando os soldados 
que pilhavam =os prisioneiros. Contornaram o Bois du Biez, a 
posio alem tantas vezes bombardeada pela artilharia 
portuguesa, e observaram com =curiosidade os slidos bunkers 
instalados no bosque e os muitos =canhes que por ali se 
encontravam espalhados, eram um autntico =mar. No se viam 
corpos de ho mens, mas havia em abundncia cadveres de 
=cavalos, vtimas inocentes dos bombardeamentos portugueses. 
=Prosseguiram o caminho pela Fauquissart Road e chegaram a 
Aubers. A =povoao mostrava-se aniquilada, as casas 
reduzidas a runas, parecia Neuve =Chapelle.
Depois de Aubers seguiram at Illies, onde foram levados para 
=uns barraces erguidos num permetro protegido por arame 
farpado. =Ao fim de uma hora serviram-lhes o jantar, po de 
centeio com uma salsicha e um dedo de manteiga. Foi o seu 
primeiro =contacto com os bratwurst. Para beber, os guardas 
distriburam =gua. Quando os prisioneiros terminaram a 
pequena refeio, receberam a visita de um general com ar 
bonacheiro.
"Guten Abend. uJillkommen in Illies", saudou-os o oficial. 
"Mein =Name ist General Albert Zeitz. " Os portugueses 
olharam-no com cara de =quem nada percebia e o general 
depressa mudou para o patusco francs =das trincheiras. "Moi 
gnral Zeitz. Allemands bonnes. Portugais promenade 
aujourd'hui  Lille. =Compris "
Um major portugus levantou o brao e o general fez-lhe sinal 
=para falar.
"Compris. Portugais canss, promenade pas bonne. Dormir 
bonne. =Compris? "
O general assentiu. No sabia o que raio queria dizer canss, 
=nunca tinha ouvido semelhante palavra, mas admitiu tratar-se 
de uma =expresso requintada, rebuscada, porventura at um 
francs de =qualidade literria. O que valia, pensou,=20 que 
as restantes
561
palavras lhe eram familiares. Sorriu com bonomia, satisfeito 
por =poder comunicar com tanta fluncia com os prisioneiros, 
e no lhe =custou, por isso, ceder  sua vontade.
"Compris", concordou, magnnimo.
Alguns homens dormitavam encostados ao cimento. O 
bombardeamento =contra o blockhaus tinha parado, mas todos se 
sentiam fracos, =sonolentos, eram os efeitos do cansao e da 
fome.
"O que eu agora no dava pelo corned-beef e pelas compotas 
dos =camones", desabafou o alferes Viegas, sentindo-se fraco 
e esfaimado.
"Estamos todos com fome, Viegas", disse Mascarenhas. "Mas 
temos de =aguentar, pode ser que cheguem reforos. "
O alferes inclinou a cara.
"O meu major acredita mesmo nisso? "
Mascarenhas suspirou.
"Acredito que  possvel. "
"L possvel , meu major", admitiu Viegas com um trejeito 
=de boca. "Mas olhe que isto est mal. S se vem boches l 
=fora, os aeroplanos so todos deles e o som da artilharia 
est a =afastar-se, d a impresso de que os tipos continuam 
a avanar e a nossa primeira linha a =recuar"
O major aproximou-se de uma seteira, vigiada por uma 
sentinela do =15. Para l da pequena abertura era a escurido 
total.
Sim, vai l fora um movimento danado, disse, chamando o 
alferes =com a mo. "Anda c, anda c. Queres ouvir isto? "
Calaram-se e ficaram  escuta. No exterior,  distncia, 
=escutava-se o som de motores.
"So camies, meu major. "
"Pois so. Os gajos esto a reforar as linhas e ns =no 
passamos de um empecilho, um espinho que lhes ficou cravado 
nas =costas. "
De sbito, eclodiu uma sequncia de detonaes e o =blockhaus 
voltou a ser atingido sucessivamente pelas granadas. O abrigo 
=tremeu at aos alicerces e todos os soldados acordaram,=20
562
assustados com o fragor infernal do bombardeamento. O relgio 
de =pulso de Mascarenhas, um Longines prateado, assinalava as 
quatro da =manh. Alguns homens sentiam-se de tal modo 
cansados que voltaram a =adormecer, mesmo debaixo daquela 
cacofonia de exploses, mas a maior =parte permaneceu de 
viglia.
"Gs! ", gritou uma voz, dando o alerta.
As mscaras foram colocadas  pressa, os dentes a apertarem o 
=bocal, uma pina metlica a bloquear as narinas para obrigar 
a =respirao a processar-se pela boca, as fitas elsticas a 
=ajustarem a tela da mscara ao rosto. Ficaram assim vinte 
minutos, num grande incmodo, o =ar a faltar-lhes, a 
respirao pesada e ruidosa. Quando tiraram as =mscaras, 
primeiro um homem, depois os restantes, o ar regressara ao 
=normal, as narinas apenas detectaram o eterno cheiro a 
plvora a que =se tinham habituado em zona de guerra.
A fome comeou entretanto a apertar. Apesar de o edifcio 
=continuar a ser alvejado pela artilharia inimiga, rangendo 
=assustadoramente a cada impacto de granada, Mascarenhas 
decidiu mandar =sair uma patrulha para avaliar a situao e, 
j agora, detectar alimentos.
"Voluntrios ", pediu.
Ofereceram-se cinco homens e o major determinou que o raide 
seria =comandado pelo mais graduado, o cabo Macedo. A porta 
foi destrancada e a =patrulha esgueirou-se pela escurido com 
a misso de ir vasculhar =uma casa prxima. O edifcio 
localizava-se na linha de tiro das seteiras do blockhaus, 
pelo que =os alemes no se tinham ainda atrevido a ocup-lo 
ou mesmo a =inspeccion-lo. s sete da manh, o 
bombardeamento contra o reduto de Lacouture foi suspenso e a 
=patrulha regressou, antecipando-se  alvorada. Os homens 
trouxeram =comida e ofereceram-na aos oficiais. Era po e 
queijo.
Os prisioneiros levantaram-se com a aurora e formaram no 
ptio =dos barraces a tremelicarem de frio. Um oficial 
alemo dividiu os =portugueses em dois grupos, de um lado os 
oficiais,
563
do outro os soldados, a maior parte com aspecto miservel, 
=pareciam vagabundos e pedintes. Afonso e Matias viram-se 
assim =separados, irmos de armas divididos pela hierarquia e 
pelo destino. =Procuraram-se com os olhos, despediram-se com 
um aceno=20 distncia, em silncio desejaram-se mutuamente 
boa sorte e =seguiram caminhos diferentes.
A coluna do capito marchou at Fournes, as bermas da estrada 
=pejadas de civis franceses que olhavam, calados, taciturnos, 
para os =prisioneiros de guerra. Alguns acenavam com pes ou 
aproximavam-se com tigelas de caldo, mas logo lanceiros a 
cavalo, =que faziam a escolta da coluna, intervinham, 
interpondo-se entre os =civis e os prisioneiros, impedindo o 
contacto, afugentando a =multido.
Ao final da manh, a coluna entrou em Lille pela Porte de 
=Bthune, a sul da grande cidade, e meteu pela Rue d'Isly, a 
qual mais = frente, aps a Place de Tourcoing, se 
transformava no Boulevard =Vauban. Soldados alemes montaram 
cordes de segurana em toda a largura da avenida, impedindo 
ainda que os =civis entrassem em contacto com os 
prisioneiros. Os populares enchiam os =passeios, olhando com 
tristeza para os soldados capturados. Alguns =atiravam pes 
ou chourios para a coluna, outros choravam amargamente, a 
mo na boca, =choravam com tal emoo que Afonso se sentiu 
comovido e chorou =tambm. Em alguns pontos, o cordo dos 
soldados estava rompido, presumivelmente por falta de 
efectivos, e =alguns civis arriscavam umas palavras, lanadas 
com carinho, atiradas =como flores.
"T'es anglais? ", perguntou uma mulher jovem, olhando Afonso 
com =intensidade.
"Non", disse o capito, abanando a cabea e caminhando 
=sempre. "Je suis portugais. "
A mulher hesitou, surpreendida. No sabia que havia 
portugueses =a combaterem pela Frana. Era jovem, mas o rosto 
mostrava-se =prematuramente envelhecido, no era fcil a vida 
sob ocupa =o inimiga. Vendo os soldados vencidos a 
desfilarem diante de
564
si, lamentando a sua derrota mas querendo confort-los, 
abriu-se =num sorriso triste. Quase a correr pelo passeio, 
num comovente =esforo para acompanhar a marcha dos 
prisioneiros, a francesa beijou =os dedos e soprou na 
direco de Afonso.
"Merci, le Portugal. "
Quando os prisioneiros cruzaram a Rue Colbert, os civis que 
enchiam =os passeios comearam a cantar. La Marseillaise 
estava proibida pelas autoridades ocupantes, mas os franceses 
tinham =outras opes para animarem os prisioneiros e 
desafiarem os =carcereiros. As vozes ergueram- se em coro, 
desafinadas e em desafio, os olhares fixos nos homens 
derrotados que marchavam =miseravelmente pelo piso calcetado 
do Boulevard Vauban:
O t'en vas-tu, soldat de France, Tout quip, prt au 
=combat? O t'en vas-tu, petit soldat? C'est comme il plait  
=la Patrie, Je n'ai qu' suivre les tambours. Gloire au 
=drapeau, Gloire au drapeau.
J'aimerais bien revoir la France, Mais bravement mourir est 
beau.
Afonso achou a letra desadequada, era uma cano para 
=militares franceses que partiam para a guerra, no para 
soldados =portugueses que dela vinham em cativeiro. Mas o 
=capito percebeu a inteno, sentiu o calor humano a erguer-
se =daquelas vozes, o orgulho a vibrar no coro, a multido a 
agradecer, a prestar homenagem aos estrangeiros que por ela 
combateram. O =oficial portugus deixou de caminhar curvado, 
com os olhos fixos no =cho, arrastando-se pela calada, 
abatido e cabisbaixo, no era essa a pose que dele esperavam 
aqueles franceses. Ergueu a =cabea, endireitou o tronco, 
atravessou a verdejante Esplanade e =entrou com altivez pela 
majestosa Porte Royale, cruzando os muros =fortificados da 
Citadelle.
565
O tiroteio recomeou s oito da manh, mas desta feita os 
=sitiados puderam responder ao fogo inimigo. O Sol j 
nascera, =iluminando os campos calcinados de Lacouture e as 
posies donde =os alemes abriam fogo sem cessar. As 
munies chegaram ao fim e Mascarenhas foi ao abrigo onde se 
refugiava o =comandante do batalho britnico e pediu mais 
cartuchos.
"Take it", disse o major ingls, apontando para umas caixas 
de =munies. "Les derniers, compris? Les derniers. "
Mascarenhas contou os cartuchos, eram dois mil. Os ltimos. 
As =munies foram distribudas pelos homens que guarneciam 
as =seteiras, com a recomendao de serem conservadores no 
gatilho e =s atirarem pela certa. O major observou os 
terrenos circundantes e =constatou que havia alemes por toda 
a parte, o blockhaus =encontrava-se totalmente cercado. s 
onze da manh, as =munies esgotaram-se, cada espingarda 
ficara reduzida  baioneta e a duas ou trs balas, guardadas 
para derradeiras =eventualidades.
Um homem aproximou-se ento com uma bandeira branca na mo 
=esquerda. Mascarenhas observou-o pelo binculo. O indivduo 
vestia =uma farda kakhi, era um soldado britnico. As portas 
do blockhaus foram abertas, dando passagem ao homem. 
=Tratava-se de um maqueiro ingls que tinha sido aprisionado 
pelos =alemes e trazia uma mensagem do inimigo. A mensagem 
foi entregue ao =major ingls, que se reuniu  porta fechada 
com os comandantes de Infantaria 13 e Infantaria 15. A 
reunio =terminou meia hora mais tarde e o comandante do 13 
chamou os homens e =anunciou que o comando do reduto tinha 
decidido que iriam render-se. =J no havia munies e o 
inimigo, apercebendo-se de que o fogo do blockhaus quase 
parara, =ameaava atirar tudo pelos ares. O maqueiro saiu com 
a resposta dos =sitiados e voltou mais tarde com as 
instrues dos alemes.
Mascarenhas desarmou os cem soldados de Infantaria 13, 
enquanto os =oficiais do 15 e do batalho ingls faziam o 
mesmo s suas =praas. As Lee-Enfield, as Lewis e as Vickers 
foram amon toadas num =canto. Os homens choravam 
convulsivamente ao=20
566
formarem no interior do blochaus. Ainda choravam quando as 
portas =se abriram e marcharam para fora do abrigo, 
entregando-se ao inimigo. O =major ficou na cauda do grupo e 
foi dos ltimos a abandonarem o reduto. De repente, ouviu 
armas a abrirem fogo e =viu os homens  sua frente a 
recuarem, num pnico, num tropel =aflito, os braos esticados 
no ar em sinal de rendio, mas =tambm de desespero.
"Os gajos esto a disparar! ", gritou um soldado que tentava 
a =todo o custo reentrar no blochaus. "Os gajos esto a 
matar-nos. "
Mascarenhas ainda viu, estupefacto e indignado, os alemes a 
=descarregarem as armas sobre os prisioneiros, mas um oficial 
inimigo =interveio e o fogo foi suspenso. Alguns homens 
rebolavam-se pelo =cho, feridos. O oficial alemo, com uma 
fita branca no brao e uma pistola em riste, gritava com =os 
seus soldados. Depois, fez sinal aos sitiados para sarem, 
mas =parecia mais preocupado em vigiar os seus efectivos do 
que os =portugueses e os ingleses.
Os prisioneiros receberam ordem de marcha e seguiram pela 
estrada =rumo ao cativeiro. Os homens de Infantaria 13, 
transmontanos rudes e =teimosos, gente do campo habituada  
vida dura em Boticas, em Alfndega, no Mogadouro, em Romeu e 
em Moncorvo, estes rsticos de modos =bruscos e palavras 
toscas ergueram as vozes como crianas e =comearam, de 
baixinho, num coro suave, a entoar o hino do =batalho:
Palpita um peito d'ao em cada farda Do 13 nem um passo p'ra 
=retaguarda.
Um alemo mandou-os calar. Passavam poucos minutos do meio-
dia =de 10 de Abril.
567
II
O cativeiro em Lille durou apenas alguns dias. Afonso foi 
colocado =com trs mil prisioneiros portugueses por detrs 
das portas de =ferro do quartel do antigo regimento de 
couraceiros franceses, =instalaes militares encerradas na 
gigantesca Citadelle. Tratava-se de uma =enorme fortificao 
em forma de estrela pentagonal, situada a =noroeste de Lille 
e separada da cidade pelo rio Dele e respectivos =canais.
Foram dias duros, com os homens alimentados a po, gua e 
=sopas aguadas. Dormiam no cho e tiritavam de frio por falta 
de =agasalhos. Os contactos com civis franceses eram 
proibidos, uma ordem de =resto desnecessria devido ao 
isolamento em que se encontravam os prisioneiros. Mesmo 
=assim, Afonso lobrigou um francs a prestar servio na 
cantina e =no tardou em meter conversa.
"Voc  de Lille? ", perguntou-lhe na primeira oportunidade 
=quando o homem lhe servia sopa, na fila do refeitrio.
O francs olhou em redor, assustado.
"Shut, no posso falar com os prisioneiros. "
Afonso fixou-lhe os olhos.
"Conhece Paul Chevallier? Tem uma loja de vinhos na Vieille 
Bourse. ="
568
O homem fitou-o com ar surpreendido. Para Afonso era evidente 
que o =seu interlocutor conhecia o pai de Agns. O francs 
recomps-se =e fingiu que verificava a sopa do portugus.
"Agora no", murmurou muito baixo, falando apressadamente. 
="Escreva num papel o que quer e d-mo amanh, quando vier 
buscar a =sopa "
Afonso passou a tarde  volta de uma folha, tentando redigir 
uma =carta em francs. Consultou amide um oficial portugus 
de origem francesa, pedindo-lhe para =verificar palavras e 
rever frases. Procurava desse modo evitar erros =ortogrficos 
e incoerncias gramaticais, como faltas de =concordncia e de 
gnero, num esforo para criar uma boa primeira impresso no 
destinatrio, o pai de =Agns. Quando terminou de rever o 
texto, deu-se por satisfeito e =passou a verso final para um 
papel limpo:
Caro senhor Paul Chevallier,=20
O meu nome  Afonso Brando, capito de infantaria do 
=exrcito portugus em Frana, actualmente prisioneiro na 
=Citadelle de Lille. Escrevo-lhe estas curtas linhas para lhe 
comunicar =que conheci a sua filha Agns em Armentires e ela 
contou-me que, com o inicio da guerra, deixou de ter contacto 
=com a famlia. Assim sendo, informo-o de que o seu marido 
Serge =morreu em combate logo nas primeiras batalhas e ela 
foi viver para casa =do baro Redier=20em Armentires. 
Apaixonmo-nos e =pedi-lhe a mo em casamento, tendo a 
felicidade de a ver aceitar a minha proposta. =Ela agora  
enfermeira num hospital de guerra portugus e =encontra-se 
bem de sade. Rogo-lhe que lhe comunique, se tiver 
oportunidade de a ver antes de =eu a encontrar, que estou 
vivo e de sade, tendo sido feito =prisioneiro pelos alemes. 
No sei qual o destino que me reserva o =inimigo, mas 
garanta-lhe, por favor, que a procurarei logo que seja 
libertado.
Com os melhores cumprimentos,=20
Afonso Brando.
569
Quando concluiu esta verso final, Afonso releu o texto, 
dobrou =a folha e guardou-a no bolso. Ainda reconsiderou se 
valeria mesmo a pena =omitir que Agns se tinha casado e 
separado do baro Redier e que =se encontrava grvida de um 
filho seu, mas receou que os padres morais do seu futuro 
=sogro fossem de tal modo estreitos que essa informao 
deitasse =tudo a perder. Decidiu, por conseguinte, manter 
assim o texto. No dia =seguinte, ao almoo, passou o papel 
discretamente para as mos do francs das sopas, =murmurando 
que o entregasse ao monsieur Chevallier.
O francs levou algum tempo a cumprir a misso. Alegou que 
=no encontrava Paul Chevallier e que a sua loja de vinhos 
estava =encerrada. As autoridades alems anunciaram 
entretanto que os portugueses iriam ser enviados para um 
=campo de prisioneiros na Alemanha, e Afonso comeou a temer 
que =sasse de Lille antes de estabelecer contacto com o pai 
de Agns. =Mas, ao quarto dia, a resposta veio finalmente. O 
francs entregou-lhe um envelope por baixo =da tijela da sopa 
e Afonso teve dificuldade em reprimir, durante a =refeio, a 
vontade de ler imediatamente a carta que escondera =dentro 
das calas. Engoliu apressadamente a sopa e o naco de po e 
retirou-se para =as camaratas, onde, encostado a uma parede, 
encetou o envelope:
Meu caro capito Brando,=20
No sabe at que ponto fez de mim um homem feliz por ter 
=recebido enfim noticias da minha pequena Agns. Lamento a 
morte de =Serge, parecia-me bom rapaz mas, devo dizer, no o 
conheci bem. O que =interessa, porm,  que a minha filha se 
encontre de sade e feliz, como parece ser o =caso.
A vida aqui em Lille, sob ocupao inimiga, tem sido muito 
=difcil. A minha pobre Michelle faleceu h trs anos, 
segundo =os mdicos vitima de pneumonia, mas na realidade 
vitima dos =alemes. Os ocupantes comearam em 1914 a 
requisitar todos os bens das casas dos franceses. =Levaram-
nos moblias, bicicletas, telefones e, o mais grave de tudo, 
=at as camas. Tivemos
570
de passar a dormir no cho. Houve tambm uma grande fome em 
=914 e 915. Debilitada e deitando-se todas as noites no frio 
soalho de =pedra de nossa casa, a minha mulher no resistiu e 
desenvolveu uma pneumonia fatal. Restou-me a minha filha 
=Claudette, mas, em 1916, os alemes deportaram-na de Lille, 
levando-a =com muitas outras raparigas para trabalhos 
forados no campo. Foram vinte e cinco mil pessoas de Lille, 
sobretudo =mulheres e crianas, enviadas  fora para a 
provincia para =cultivarem a terra, partirem pedras, 
construirem pontes, fazerem sacos de terra e outros trabalhos 
=de escravo. Felizmente, s durou cinco meses essa provao, 
e =Claudette j se encontra de novo comigo.
Perdoe-me estas divagaes de velho, mas elas tm um 
=propsito. Conto-lhe todos estes pormenores sobre a nossa 
vida para o =caso de ocorrer a circunstncia contrria  que 
o senhor teme, =isto , encontrar-se o senhor primeiro com a 
minha filha. Asseguro-lhe =porm, meu caro capito, que, no 
caso de ser eu o primeiro a =v-la, lhe mostrarei sem falta a 
missiva que teve a amabilidade de me =remeter e pode estar 
certo de que abenoarei o matrimnio que j acordaram, ciente 
de que o senhor a =honrar e far dela uma mulher feliz.
Deus o abenoe,=20
Paul Chevallier.
Dias depois, os guardas alemes mandaram os prisioneiros 
formar =para serem transferidos para a Alemanha. Afonso e os 
seus companheiros =saram da Citadelle e atravessaram uma 
grande avenida, com o =irnico nome de Boulevard de=20la 
Libert, at chegarem  gare de =mercadorias, no outro lado 
da cidade.
A viagem de comboio durou quatro dias e s terminou em 
Rastatt, =uma pequena povoao na orla da Floresta Negra, na 
Baviera, onde =os prisioneiros, esfaimados e doridos, 
foram=20
encerrados num Russen Lager, ou campo russo. O campo tinha 
trinta =hectares e estava dividido por blocos, cada um 
isolado por duas redes de =arame farpado. O campo era 
inicialmente destinado a prisioneiros russos, =mas, com a 
sada da Rssia da guerra no ano anterior, passou a albergar 
franceses, =britnicos e portugueses.
Comeou a um calvrio de vida de recluso. Afonso e outros 
=oficiais foram submetidos a uma dura dieta de beterraba, 
cenoura, batata =e farinha, por vezes com pedaos de carne ou 
farrapos de bacalhau. Os =militares portugueses passavam as 
refeies a protestar contra a qualidade da alimentao, 
enquanto =os oficiais britnicos se mantinham  mesa 
compostos e serenos.
Ao fim de poucos dias, Afonso foi transferido para a 
fortaleza de =Friedrichfest, ainda em Rastatt, regressando 
mais tarde ao Russen Lager. =Algumas semanas depois, os 
alemes levaram-no para Karlsruhe, fechando-o no Kriegs 
offizier =gefangenenlager, um confortvel campo de oficiais 
prisioneiros =situado num acolhedor parque da cidade e onde 
os portugueses se =entretinham a admirar as atrevidas 
fraulein que se iam propositadamente bambolear frente =aos 
reclusos estrangeiros. Houve mesmo um, o tenente Ribeiro, que 
fez =amizade com uma alem muito loira, a bochona, como lhe 
chamavam, =no era esbelta mas parecia uma valente valquria 
e caiu-lhe no goto, o =namoro tornou-se tema de conversa 
entre os reclusos, era danado o =Ribeiro! No durou muito a 
permanncia nesse crcere =paradisaco, uma vez que o capito 
recebeu nova ordem de transferncia, desta feita para um 
=miservel campo em Hannover, onde encontrou o comandante do 
seu =batalho, o major Montalvo, igualmente capturado na 
grande =batalha.
Durante todo o tempo em que andou a saltar de campo de 
prisioneiros =em campo de prisioneiros, Afonso procurou 
arranjar maneira de manter =contactos com o exterior. 
Escreveu  famlia atravs da Cruz =Vermelha, mas teve 
maiores dificuldades=20em localizar Agns, uma vez que no 
=tinha memorizado a morada do anexo de Bthune. Optou por 
enderear as cartas ao Hospital Misto de Medicina e Cirurgia, 
sem nunca obter =resposta. O silncio da francesa deixou-o 
perturbado e era permanente =tema de
572
preocupao. O capito variava diariamente de estados de 
=esprito, mergulhando em quieta melancolia ou consumindo-se 
em =agitada inquietao, humores que alternava com esgotante 
=frequncia. Os torpores melanclicos eram dominados por 
recordaes pormenorizadas de todos os =instantes que com ela 
passara e por emocionantes fantasias sobre o =reencontro, mas 
os momentos de inquietao revelavam-se piores, =interrogava-
se ento sobre a gravidez e a sua evoluo e questionava-se 
doentiamente =quanto aos motivos por detrs do silncio s 
suas insistentes =cartas. Poder a correspondncia ter-se 
extraviado? Ter =Agns abandonado o hospital? Ser que ela 
j o esquecera? Emergia esgotado desses instantes de maior 
=angstia, compensando-os com outros momentos onde alimentava 
a certeza de =que estava tudo bem, tentava consolar-se, 
tranquilizar-se, convencia-se =de que, afinal de contas, as 
sucessivas transferncias de campos de prisioneiros 
certamente dificultavam as coisas  =Cruz Vermelha, impediam 
que os servios fizessem chegar s suas =mos as ansiadas 
cartas de resposta.
Na companhia de Montalvo, Afonso mudou-se meses mais tarde 
para =o campo de Breensen, em Mecklemburg, o ltimo destino 
dos permanentes =passeios pelo interior da Alemanha. Passou 
ali o ms de Outubro numa =montona existncia, apenas 
animada por uma divertida representao de uma =pea de 
teatro, encenada em trs actos pelo tenente-coronel 
=Malheiro, com o ttulo de O Amor na Base do CEP. A aco 
=decorria nas praias de Trport e Paris-Plage, em Frana, 
facto que o capito achou significativo. Na verdade, a 
escolha =dessas estncias de veraneio para o local da aco 
era bem =representativa da forma como alguns oficiais 
encaravam os seus deveres =na guerra, aquela era mesmo uma 
histria de cachapins e palmpedes, oficiais da retaguarda 
habituados ao =cio e  vida au grand air na prazenteira 
costa francesa. Afonso =conhecia alguns que at se gabavam de 
serem pagos para irem gozar a praia, beneficiando de um 
absurdo =sistema de subvenes que premiava o desleixo. 
Enquanto um =capito que arriscava a vida nas trincheiras se 
limitava a ganhar
573
a subveno de campanha, aqueles que iam passear pelas 
=grandes estncias de veraneio beneficiavam de um subsdio 
extra de =vinte francos dirios para pagarem alimentao e 
casa e mais =uns valentes trocos para o combustvel.
Embora a pea lhe tenha devolvido inadvertidamente  =memria 
alguns dos aspectos mais caricatos e lamentveis da 
=organizao do CEP, a verdade  que a representao =teatral 
teve o condo de, mesmo que por apenas um breve instante, lhe 
permitir desligar-se =das suas preocupaes obsessivas. 
Aquele tornou-se =indubitavelmente um acontecimento no campo 
de prisioneiros, por sinal =at bem divertido, sobretudo 
porque as vrias personagens femininas eram, como no podia 
deixar de ser, =interpretadas por oficiais. Foi de rir at s 
lgrimas ver o =capito Grilo, com o seu bigode farfalhudo e 
os braos gordos=20e peludos, a personificar uma jovem actriz 
parisiense, supostamente =esbelta e deslumbrante, e a fazer 
arrebatadas declaraes de amor =ao enfezado tenente Santos. 
S faltou os dois oficiais beijarem- se =nos lbios para que 
a excitada plateia deitasse abaixo o barraco.
A representao no passou, porm, de uma fugaz =distraco 
para Afonso, sempre com a mente voltada para a gravidez =de 
Agns. Pelas contas que os mdicos tinham feito, o parto 
=deveria ocorrer por esta altura e o capito desesperava por 
no poder estar presente. Havia momentos em que a =ansiedade 
o sufocava, apetecia-lhe fugir, passar pelo porto a =correr, 
saltar as vedaes, tinha sede de liberdade e fome de =amor, 
faltava-lhe o ar naquela priso, queria sair dali a todo o 
custo, a guerra no havia meio de =terminar.
Este estado de esprito s veio a ser alterado numa manh 
=cinzenta de Novembro. Afonso acordou cedo, como todos os 
prisioneiros, =vestiu-se e saiu do barraco, enfrentando o 
frio cortante e agreste =da alvorada para se dirigir s 
latrinas. Quando passava perto do porto reparou que os 
guardas alemes do =campo de Breensen estavam todos agarrados 
a jornais, o ar circunspecto, =sombrio, trocando comentrios 
em murmrios secretivos. J na =vspera tinha notado que o 
ambiente era=20
574
estranho entre os carcereiros, mas no atribura grande 
=importncia a esse facto. Agora, porm, o comportamento dos 
guardas tornara-se mais pesado e parecia ter os =jornais como 
epicentro. Cheio de curiosidade, Afonso aproximou-se do 
=grupo, formado por quatro soldados.
"Hallo ", cumprimentou. " Jie geht "
Um soldado respondeu com um grunhido maldisposto, os outros 
=mantiveram-se calados, ignorando-o, os olhos sempre fixos no 
jornal, =perdidos nas notcias da frente. Estranhando aquela 
postura, Afonso =baixou a cabea, espreitou a primeira pgina 
e sentiu um baque no corao. O jornal, datado desse dia, 12 
=de Novembro de 1918, anunciava que a guerra tinha acabado na 
vspera. =Os aliados venceram.
Apesar do armistcio, Afonso permaneceu mais dois meses no 
=cativeiro. Foi libertado em Janeiro, em pleno Inverno, o 
corpo debilitado pelo frio e pela malnutrio. Apanhou um 
=comboio para Frana, planeando ir  procura de Agns, mas 
=no tinha dinheiro e encontrava-se febril e enfraquecido. 
Percebeu =que no estava em condies de ir no encalo da sua 
francesa e deixou-se levar at Brest =com outros companheiros 
que com ele vieram desde Breensen.
No dia 25 apanhou o paquete Gil Ennes no grande porto francs 
e =rumou a Portugal, o navio repleto de ex-prisioneiros e 
doentes, a maior =parte tuberculosos. O capito procurou 
entre os tuberculosos aqueles que estiveram internados no 
=Hospital Misto de Medicina e Cirurgia e depressa encontrou 
quem se =lembrasse de Agns.
"Er'uma gaja muita boa, n era? ", disse um dos tuberculosos, 
=por entre dois ataques de tosse. Falava de modo trapalho, 
como =Vicente, uma espcie de Manpulas com cerrado sotaque 
algarvio. ="Alembro-me dela, pois m'alembro. Ato n havia de 
m'alembrar? Aquil' qu'era uma mulher, camano, n era 
=com'uns estafermos ordinares que p'ra l andavam, umas 
gajas =qu'at bigode tinham naquelas bas. "
575
" O que lhe aconteceu?"
" francesa? Depois do 9 de Abril andava muita tristonha, 
=tadinha! " Tossiu. "A gaja tava prenha, acho qu'o homem 
er'um =portugus que se finou durant'a batalha " Mais tosse. 
"Andava desconsolada, a =pobrezita. Ao fim d'algum tempo 
meteu baixa e nunca mais lhe pusemos os =olhos em cima " 
Ainda mais tosse. "Foi uma pena, aquela moa at 
=ressuscitava um morto, caraas, er'um'alegria v- la passar 
pel'enfermaria a abanar aquela =pda gostosa. "
576
III
A ponte foi colocada com firmeza, estabelecendo a ligao 
=entre o Gil Ennes e o cais do porto de Lisboa. O oficial que 
comandava a =operao coou a barba rala enquanto observava 
os homens a =assegurarem- se de que a ponte estava 
transitvel. Quando as verificaes ficaram concludas e a 
atracagem =completa, voltou-se para a legio de militares 
miserveis e =esfarrapados que observavam terra com incontida 
e faminta nsia.
"Muito bem", berrou. "Primeiro descem os oficiais, depois as 
=praas e, no fim, saem os acamados. Quero um desembarque 
ordeiro e =sem confuses. " Fez um gesto para um sargento 
colocado junto  =ponte. "Vamos l. "
Os oficiais dirigiram-se para a ponte e atravessaram-na. 
Afonso =aguardou a sua vez na fila, paciente, os olhos 
perdidos no horizonte =entrecortado pelos familiares telhados 
vermelhos de Lisboa, a baa =cor de tijolo a espraiar-se sob 
o azul-plido do cu invernal. A sua ateno deambulou 
distraidamente em =redor, fixou-se nas gaivotas que grasnavam 
em irrequietas nuvens, =melanclicas, iam e vinham como ondas 
a cortarem o ar, por vezes =rasavam as guas cristalinas do 
Tejo e perdiam-se nas cintilaes de luz =reflectida na 
crista da espuma, o aroma salgado do mar,=20
577
no seu encontro amoroso com o rio, a encher-lhe as narinas e 
a =trazer- lhe aos pulmes o esquecido perfume da sua terra, 
a maresia =fresca e revigorante que flutuava na brisa baixa.
O capito atravessou finalmente a ponte, pisou o cho do cais 
=e verificou, surpreendido, que a fila dos oficiais se 
mantinha.
" meu major, que bicha  esta? ", perguntou a Montalvo 
=trs lugares mais  frente.
" para a Comisso Protectora dos Prisioneiros de Guerra. " 
="Ah sim? J temos comisso protectora? E ela protege-nos de 
=qu?"
"Deve ser dos boches", riu-se Montalvo.
 medida que a fila avanava, Afonso apercebeu-se de que, 
=instaladas por detrs de uma mesa, umas senhoras de meia-
idade iam =entregando aos oficiais uns papis pequenos. 
Quando chegou a sua vez, =uma das mulheres tambm lhe deu uma 
mo-cheia dos papis.
" O que  isto, minha senhora?"
"So senhas, senhor oficial" "Senhas? Senhas para qu? "
"Correspondem a donativos de vesturio e dinheiro. Com essas 
=senhas, o senhor oficial pode adquirir os produtos de que 
necessita.
Afonso guardou as senhas no bolso e seguiu o grupo de 
oficiais. =Aglomeravam-se todos  volta de uma outra mesa 
instalada no cais, =discutindo animadamente, alguns 
mostravam-se agastados e erguiam a voz, =outros abriam os 
braos em desconsolo resig nado. O capito estranhou o 
burburinho e foi ter com =Montalvo.
"Meu comandante, o que se passa? "
O major encolheu os ombros.
"No sei bem", disse, hesitante. "Parece que h um problema 
=qualquer e no podemos ir para Braga "
"No podemos ir para Braga? Porqu? "
"No sei, no sei, no percebi. "
Afonso furou por entre o grupo e foi ter com um tenente que 
se =encontrava sentado na mesa. Era um rapaz jovem, de bigode
578
fino e com um tique na boca. O tenente tomava nota dos nomes 
dos =recm- chegados.
" tenente, o que se passa? "
O tenente nem levantou os olhos.
"Vocs vo ter de ficar aquartelados aqui em Lisboa", disse, 
=atarefado, sem parar de escrever "Ponha-se na bicha, se faz 
favor"
Afonso olhou com intensidade para aquele rapazola acabado de 
sair =da Escola de Guerra, deu consigo a pensar que o mido 
nunca tinha =escutado um tiro disparado em fria, 
evidentemente nem sabia quo =desesperada era a angstia que 
atormentava os homens diante de si, ignorava por certo aquela 
=dolorosa e pungente nsia de quem sofre pelo reencontro com 
as =famlias, permanecia friamente alheio  fome de afecto e 
 sede de conforto que lhes assaltava o corpo e inquietava a 
alma. Em vez =de os respeitar, o jovem tenente comportava-se 
at como se estivesse =a fazer-lhes um favor, gastando a sua 
preciosa ateno com um bando de maltrapilhos malcheirosos. O 
capito sentiu uma =fria cega, poderosa e libertadora, 
crescer-lhe no estmago, =encher-lhe o peito, subir-lhe  
cabea e tomar conta de si.
"Tenente", berrou de sbito, com voz de comando. "Em sentido 
=perante o seu superior! "
O tenente estremeceu de susto, olhou alarmado para Afonso, 
ergueu- =se atrapalhadamente da cadeira e ps-se muito hirto, 
=em sentido. Fez-se silncio em redor.
"Mas que merda vem a ser esta? ", insistiu Afonso em tom 
=ameaador. "Ento no se faz continncia ao superior 
=hierrquico?"
"Sim, meu capito", disse finalmente o tenente, lvido, 
=erguendo a mo em continncia.
Afonso mirou-o de alto a baixo, inspeccionando-o. Apontou 
para os =ps.
"Isto so botas que se apresentem? H? Isto so botas que =se 
apresentem?"
O tenente mirou de relance as botas.
"Meu capito... uh... as minhas desculpas", gaguejou, sem 
=perceber o que havia de errado com as botas.
579
"Quando eu acabar de tratar de si, quero essas botas a 
brilharem =como a baioneta de um boche, ouviu? Como a 
baioneta de um boche! "
"Sim, meu capito. "
Afonso estava rubro. Respirou fundo e acalmou-se, subitamente 
=surpreendido com a sua prpria fria, mais ainda por ter 
dito um =palavro, desde os tempos do seminrio que era 
incapaz de dizer ="merda"
"Agora conte-nos l por que razo a malta tem de ficar 
=aquartelada aqui em Lisboa", ordenou o capito, num tom de 
voz mais =tranquilo.
Um clamor de aprovao ergueu-se do grupo de oficiais. O 
=mido fora posto na ordem e tinha agora de responder  
questo =que todos queriam ver esclarecida.
"So... so ordens do general Figueiredo, meu capito. " ="E 
quem  esse caramelo? "
" o meu comandante, meu capito "
"O general Paneleiredo, ou l como  que esse tipo se chama, 
=no sabe que a malta das trincheiras no v a famlia h 
=mais de um ano? H? No sabe? "
O tenente baixou os olhos.
"Eu... uh... eu c no sei nada disso, meu capito " =Afonso 
ficou a observ-lo, as sobrancelhas cerradas, o ar 
=desconfiado, intimamente perplexo por ter esboado um 
segundo =palavro, Paneleiredo era algo que nunca pensou ser 
capaz de chamar a um =superior hierrquico.
"E voc? ", perguntou finalmente. "Sabe ao menos por que 
=razo no podemos ir para Braga? "
" por causa da revolta, meu capito. "
"Da revolta? Qual revolta? " "A do Norte, meu capito "
"A revolta do Norte? Mas voc ensandeceu? Que revolta  essa, 
=h? Explique l, homem! Vamos, desembuche! "
O tenente transpirava. Olhou em redor, deixando escapar um 
esgar =aflito.
580
"Foram os monrquicos, meu capito", titubeou. "Revoltaram-se 
=h uns dez dias. A Junta Militar do Norte proclamou a
monarquia no Porto e aclamou D. Manuel II como rei de 
Por4tugal. =Aqui em Lisboa tambm se revoltaram, os 
monrquicos
acamparam ali em Monsanto e houve porrada da grossa na semana 
=passada, mas os republicanos acabaram por venc-los.=20
O tenente calou-se e os oficiais entreolharam-se, espantados.
"Sim senhor, isto est bonito", comentou um major.=20
"Chegmos  balbrdia,  o que . "
" a treta do costume", avanou outro oficial.=20
"Sempre a mesma merda. "
"E o Sidnio, h? No faz nada? ", inquiriu Montalvo.
O tenente mirou-o com um olhar estupidificado.
"O presidente da Repblica morreu. "
Fez-se silncio no grupo.
" O que diz voc ", perguntou uma voz. " O Sidnio morreu?"
"Foi assassinado na estao do Rossio", esclareceu o tenente.
"A h coisa de ms e meio, antes do Natal. "
Com o pas em p de guerra e o Norte em rebelio, os 
=militares
minhotos foram instalados num quartel de Lisboa, aguardando o
desenlace dos acontecimentos. Mas Afonso no era minhoto e
tinha a famlia em Rio Maior, do lado de c da fronteira 
=invisvel que, durante os tormentosos vinte e cinco dias que 
durou a Monarquia do Norte, dividia o =pas. Sem nada a 
prend-lo  capital,=20
o capito apresentou-se no quartel-general, preencheu os 
=documentos que regularizavam a sua situao, solicitou uma 
=licena,=20
que lhe foi imediatamente concedida, e dois dias depois, j 
bem
dormido e comido, dirigiu-se  estao do Rossio. Corriam =os
primeiros dias de Fevereiro de 1919quando apanhou um comboio 
at =s Caldas da Rainha e seguiu de caleche para Rio 
Maior,=20
mal contendo a ansiedade que lhe enchia o peito.
O reencontro com a famlia foi emotivo e triste. Afonso soube 
=ento que o pai tinha morrido no ano anterior, na sequncia 
de uma =queda enquanto apanhava frutos numa rvore. O capito 
foi=20
581
nesse dia ao cemitrio visitar a campa onde ele se encontrava 
=sepultado. Depositou uma coroa de flores junto ao tmulo, 
rezou num =murmrio e encomendou uma missa em memria de 
Rafael Laureano.
 noite, a famlia juntou-se na Carrachana para o jantar, 
=vieram os irmos, Manuel, Jesuna, Joo e Joaquim, mais as 
=respectivas famlias, todos reunidos para celebrarem o 
regresso do mais novo. A senhora =Mariana colocou na mesa uma 
panela de misturadas e Afonso engoliu a sua =dose com um 
prazer que o surpreendeu, no se lembrava de ter =apreciado 
tanto aquele prato na sua meninice.
"Isto est muito bom, me, est mesmo saboroso", exclamou, 
=acompanhando a sopa com o po.
"Ento no havia de estar bom? ", riu-se Manuel, o mais 
=velho. "Para quem andava a comer aquelas porcarias todas na 
Frana e =na Alemanha, isto deve ser um manjar de reis. "
"Diz l se a nossa paparoca no  melhor do que a dos 
=estrangeiros, h? Diz l", desafiou-o Jesuna.
"Ento no ? ", concordou Afonso. "Onde  que l os 
=franceses tm panela de misturadas? "
"O que  que eles comem, filho? ", quis saber Mariana. "Bem, 
=comem mais ou menos o que ns comemos, s que confeccionado 
de =maneira diferente e com nomes finos. Por exemplo, em vez 
de linguado =frito, eles dizem linguado a la meunire, fica 
mais chic"
"E tu comias isso, meu filho? "
"s vezes, quando ia aos estaminets ou aos bistrts. " "Ai 
=que nomes esquisitos! ", comentou Jesuna. "Jesus, credo!
At me faz espcie! "
" Jesuna, tem juzo", atalhou Joaquim. "Ento que =nomes 
querias que os francis dessem s suas casas de pasto, =h? 
Tasca do Z Russo, no? " Deu uma grande gargalhada. "Havia 
=de ser bonito, os francis a dizerem uns aos outros: olha 
l, vou ali  Tasca do Z =Russo aviar umas febras! "
Riram-se todos. Manuel sabia ter graa quando se juntavam =em 
grupo. Assumindo-se agora como o chefe =da famlia, ou no
582
fosse ele o homem mais velho depois da morte do pai, gostava 
de =animar as reunies familiares.
" Manel, no  nada disso", retorquiu Jesuna, vexada =por 
ser alvo da chacota do irmo. "Estava s admirada por o 
Afonso =saber as palavras estrangeiras, s isso. "
"Mas,  Afonso, ento tinhas de comer essas coisas dos 
=franceses, era? ", insistiu a me, sempre preocupada com a 
=alimentao que o filho teve na guerra, afinal de contas, 
=constatou, o rapaz veio magro que nem um carapau, at as 
costelas se lhe viam, coitadinho, decididamente a comida no 
=devia ser l grande coisa.
Sim, me, tambm comia isso, mas s enquanto estava na 
=retaguarda. Quando ia para as trincheiras, davam-nos uma 
carne que vinha =em latas inglesas, e isso era bem pior do 
que a alimentao francesa, acredite. E, depois de ser preso 
pelos boches, a coisa ainda =piorou, os tipos quase nem 
tinham carne para os seus soldados, quanto =mais para ns. "
"Ah sim, filho? E o que  que esses comem? "
"Quem? Os bifes ou os boches? "
"Os dois. "
"Como  bom de ver, os bifes comem bifes", disse. "Os boches 
=enchem-se de salsichas, aquilo  uma coisa horrorosa, cheia 
de =gordura, mas foi a nica carne que para l vi. Tudo o 
resto eram =vegetais, batatas e coisas do gnero. "
"Nenhum faz as comezainas da tua rica mezinha, pois no? " 
="Oh, me, claro que no. "
"No h paparoca como a da nossa mezinha", concordou 
=Manuel, sempre bem-disposto e j ligeiramente tocado pelo 
vinho. =Olhou para a mulher e acrescentou: "A nossa mezinha 
e aqui a minha =Aurinda, pois claro "
"Ah, estava a ver! ", devolveu a mulher.
Afonso olhou em redor, como se procurasse alguma coisa. Desde 
que =chegara a casa que queria saber se Agns lhe tinha 
escrito, essa era =uma questo absolutamente essencial, 
prioritria. Precisava de =conhecer o seu paradeiro, receber 
notcias, entrar em contacto com ela, arranjar maneira de ir 
 Flandres =para a ir
583
buscar ou para l ficar. Alm do mais, e pelas suas contas, 
=j deveria ser pai havia uns dois ou trs meses, mas 
necessitava =da confirmao. O problema era levantar a 
questo, no sabia bem como o fazer. Engoliu em seco e 
encarou a senhora Mariana, =esforando-se por dar o ar mais 
natural possvel  pergunta que =tinha para lhe colocar.
" me, j agora, no recebeu nenhum correio para mim, =pois 
no? ", perguntou, fingindo que essa ideia acabara de lhe 
=ocorrer.
"Correio donde, filho? "
"Sei l. De Frana, por exemplo. "
" De Frana?"
A senhora Mariana mostrava-se genuinamente surpreendida e 
Afonso, =acossado pela impacincia e vergado pela ansiedade, 
no resistiu e =foi direito ao assunto.
"Sabe, me, estou  espera de uma carta de uma senhora 
=francesa. "
Foi a risada geral, para grande embarao de Afonso, 
=imediatamente arrependido por ter levantado a questo  
frente de =todos. A me sorriu e piscou-lhe o olho.
"Com que ento o meu menino tem amiguinhas francesas, ? " 
=Afonso corou.
"Oh me, no  nada do que est para a a pensar... =" "Ah, 
grande Afonso! ", rugiu Manuel do outro lado da mesa. "Bem me 
=parecia que ias honrar o nome dos machos da famlia, 
caraas!  d'homem! Aposto que as francesas te vieram todas 
comer  mo, =h? Rica vida deves ter tido l na Frana, sim 
senhor! "
"Cala-te, Manel! ", ordenou a mulher, a tesa Aurinda. "J 
chega =de brincadeiras, deixa l o rapaz. "
Mas foi Mariana quem no o largou.
"Ento e a Carolina, h? J no queres saber dela? " ="Mas o 
que  que eu tenho a ver com a Carolina, me? Ela est 
=casada e que seja muito feliz."
"Est casada, no. Est viva. "
"Viva? O que  que aconteceu ao marido? "
"Apanhou o tifo. Houve para a uma epidemia desgraada no ano 
=passado, em Maro, e o senhor engenheiro bateu a bota. "
584
" Coitado. "
"Coitado, no! No se tivesse metido com a Carolina, que era 
=tua. Olha, ela se calhar at ficou melhor! " Olhou-o com 
matreirice. ="Assim como assim, est agora sem homem"
"Vai-te a ela! ", berrou Manuel, os bigodes a pingarem gotas 
de =tinto.
"Cala-te, Manel", insistiu Aurinda.
A pacincia de Afonso chegara ao limite.
"Chega, parem com isso", exclamou, a voz irritada. "Deixem-me 
em =paz! "
"Pronto, pronto, no te enerves. "
Afonso respirou fundo. Tinha levantado a questo e iria agora 
=at ao fim.
" me, diga l, recebeu ou no recebeu nada para mim? =" " 
De Frana?"
" Sim. "
Mariana esboou um trejeito de boca enquanto vasculhava a 
=memria.
"No... no... h, espera... lembro-me de que o Incio 
=apareceu a... "
"O Incio? "
"Sim, o carteiro. Agora, que falas nisso, lembro-me de que 
ele =apareceu a com uma carta para ti. Como no tnhamos 
=notcias tuas, eu mandei o teu irmo ler a carta", disse, 
=apontando para Joaquim.
Afonso interrogou o irmo com os olhos, mas este encolheu os 
=ombros.
" Afonso, eu abri a carta, l isso abri, mas no percebi 
=patavina do que estava para l escrito, era em estrangeiro. 
"
"Francs? "
"Sei l. At podia ser em chins. No se percebia nada, eram 
=uns gatafunhos horrorosos. "
" E o que fizeram com a carta?"
"Olha, filho", atalhou a senhora Mariana. "Como ns no 
=entendamos aquela algaraviada toda, fui levar a carta  
dona
585
Isilda, que  muito culta e conhece as chinesices todas. Ela 
=leu-a e disse-me para estar descansada, no era nada de 
importante. "
"A dona Isilda leu a carta? "
"Sim, Afonso, ela leu e. "
Afonso ergueu-se da mesa, interrompendo- a.
"Desculpe, me, mas  imperativo que eu saiba o que dizia 
=essa carta. Quando  que a recebeu? "
"Sei l, foi... foi antes do Natal, mesmo antes. "
"Em Dezembro? "
" Sim, filho. "
Afonso vestiu um casaco e dirigiu-se apressadamente  porta. 
="Mas,  filho, acaba o jantar. Onde vais tu, valha-me Deus? 
" "Vou =ali  dona Isilda", despediu-se. "J volto. "
O capito seguiu a p da Carrachana at ao centro de Rio 
=Maior. A Casa Pereira encontrava-se encerrada, j era noite, 
mas =Afonso sabia que a proprietria vivia no andar de cima e 
bateu  porta. Ouviu passos e a porta abriu-se. Carolina 
fitava-o com ar =surpreendido, estupefacto at.
"Ol, Carolina, como vai isso? "
Estava mais madura, o cabelo num desalinho, embora 
permanecesse =atraente. Continuava a no ser uma beldade, mas 
no h =dvida de que era capaz de despertar as atenes dos 
homens.
"Afonso... que surpresa! O que ests aqui a fazer? " "Vim 
falar =com a tua me. Ela est? "
Os olhos de Carolina mostraram uma ligeira decepo, 
=ocultando com dificuldade a desiluso por Afonso ter vindo  
=procura da me, no de si.
" Sim, sim, entra, disse ela, abrindo totalmente a porta. 
Desculpa =receber-te assim, nestes preparos, mas, 
sinceramente, no estava nada = espera "
Subiram as escadas e Carolina levou-o  presena da me. 
=Dona Isilda pareceu-lhe bem mais velha, acabada, o corpo 
franzino =enroscado numa manta junto  lareira. Os olhos 
brilharam- lhe quando viu o seu antigo protegido =entrar na 
sala, garboso naquela farda azul de militar.
586
"Olha quem  ele! ", exclamou. "O nosso heri" Afonso 
=beijou-lhe a mo. "Como est, dona Isilda? "
"Melhor", sorriu ela. "Melhor, agora que te vejo. Ests um 
=homem, rapaz, um homem. "
"E a senhora continua rija... "
"No digas disparates, Afonso. A idade no perdoa. " "Como 
=vai o seu irmo? "
"Bem, ele vai bem. Foi transferido para Chaves, v l tu, mas 
=anda fino. E pergunta muitas vezes por ti, oh se pergunta! "
"Mande-lhe cumprimentos meus, dona Isilda. Diga-lhe que tenho 
=saudades dele. "
"Sero entregues. Vai ficar contente por te saber de regresso 
da =guerra. Coisa terrvel, a guerra, h? Terrvel!"
Afonso suspirou.
"Sim,  algo inimaginvel". Fez uma pausa. "A propsito, =fiz 
muitas amizades l em Frana, e a minha me disse-me ter 
=recebido uma carta para mim escrita numa lngua que ela no 
=identificou, que presumo ser francs, e que a trouxe aqui 
para a senhora ler. Tem a essa carta? "
Dona Isilda agitou-se na cadeira, desconfortvel. O rosto 
=ensombrou-se-lhe e olhou de soslaio para Carolina, que 
assistia  =conversa de p.
"Carolina, minha filha, vai ali preparar uma tisana para a 
me e =para o Afonso, vais?"
Carolina ensaiou uma vnia e retirou-se para a cozinha. Mal a 
=filha abandonou a sala, dona Isilda fez sinal a Afonso para 
se sentar e =pegou- lhe na mo.
"Meu filho, tens de ser forte", disse simplesmente. Afonso 
olhou-a =com horror, um pavoroso pressentimento a pesar-lhe 
na alma.
" O que foi, dona Isilda?" "Eu queimei essa carta. "
"Queimou a carta? Mas a que propsito? "
"Queimei a carta porque ela era terrvel, Afonso, terrvel. "
587
O capito sentiu um baque no corao.
"O que  que a senhora quer dizer com isso? O que  que dizia 
=a carta?"
A velha baixou os olhos e suspirou.
"No me lembro dos pormenores, s do essencial. A carta foi 
=remetida de Lille e era assinada por um senhor"
"Um homem?"
"Sim, um homem. "
S podia ser Paul Chevallier, pensou Afonso.
"E o que dizia ele? "
Dona Isilda apertou-lhe a mo ainda com mais fora. "Dizia 
=que a filha tinha morrido. "
Afonso abriu a boca, horrorizado. No queria acreditar no que 
=estava a ouvir.
"Qual... qual filha? ", balbuciou.
"Lembro-me de que se chamava Agns", disse dona Isilda. "Ela 
=morreu. Ela e... a criana. Entendes? A criana. Apanharam a 
gripe =espanhola e morreram em Lille "
Afonso permaneceu um longo minuto paralisado, boquiaberto, em 
=estado de choque. Tentou falar, mas nada conseguiu dizer. 
Lembrou-se da =ltima imagem que guardava de Agns, a 
francesa no porto do hospital, sorridente, os olhos 
enamorados, despedindo-se de si com =ar feliz, alegre com a 
notcia de que Afonso iria em breve abandonar =as 
trincheiras. O capito levantou-se com brusquido e arrastou-
se =pela sala, sentiu-se a perder o equilbrio, ouviu vagas 
vozes em torno de si, eram dona Isilda e Carolina =a falar, 
mas no as entendeu, cambaleou pelas escadas aos sucessivos 
=encontres ao corrimo, julgou-se mergulhado num pesadelo 
mau, =caminhou como um sonmbulo=20e, quando finalmente saiu 
 rua, a noite ficou turva de lgrimas e =ele chorou, chorou 
como nunca tinha chorado desde a infncia, chorou =com 
abandono, com desespero, chorou perdidamente, a voz largando 
urros =terrveis, em atroz sofrimento. Sentiu-se perdido, 
rejeitado pela sorte, =acossado pelo destino. Descobriu-se 
horrivelmente s.
588
IV
Afonso estava sentado numa banqueta de Picantin Post, a fumar 
um =cigarro, quando ouviu uma buzina Strombo a dar o alerta 
de gs =txico. O alarme soava mesmo ao lado, ferindo-lhe os 
ouvidos. =Sobressaltado, o capito olhou em direco  origem 
do som e descobriu, com estupefaco, que era Agns =quem 
accionava a Strombo. Deu um salto na banqueta, confuso. 
Receava =acreditar nos seus olhos. Mas, no instante seguinte, 
as dvidas=20desfizeram-se, era mesmo ela, sentiu um banho de 
felicidade a encher-lhe =a alma e uma libertadora sensao de 
euforia a percorrer-lhe o =corpo. Correu para ela, 
imensamente aliviado por v-la viva, a tremenda alegria que o 
invadia a relegar para segundo plano =a estranheza por 
encontr-la ali nas trincheiras. Mas, quando se =aproximava 
da sua francesa, preparando-se para a apertar num maravilhoso 
=abrao de reencontro, viu o vulto cinzento de um alemo a 
aparecer sobre =as trincheiras, mesmo por detrs de Agns. 
Sacou da pistola e =abateu-o. Logo um outro alemo surgiu 
tambm, e um outro ainda, e =mais outro. Puxando Agns para 
trs de si, foi-os abatendo um a um. Mas eles no paravam de 
chegar, =pareciam um formigueiro, avanavam inexoravelmente
589
e tentavam cerc-los. Afonso comeou a desesperar, a sentir 
=que no conseguiria travar aquela inesgotvel onda de 
assalto. =Protegia Agns com o corpo e abria fogo sem 
descanso para a direita e =para a esquerda, febrilmente, 
matava-os uns atrs dos outros e eles, mesmo assim, 
avanavam, eram tantos que o =oficial portugus entrou em 
pnico, tentou abraar Agns e =disparar ao mesmo tempo, 
sentiu que a queriam levar, que lha tentavam =roubar, que a 
procuravam matar, isso no podia ser, isso no podia ele 
permitir, nem pensar, nem pensar, uma =imensa aflio encheu-
lhe a alma, um indizvel terror =apossou-se-lhe do corao 
ante a perspectiva de a voltar a perder. =Ps-se a chorar, 
implorando  divina Providncia para que a poupasse, para que 
a deixasse ficar =com ele, Agns era agora um frgil vulto 
atrs de si, ambos =cercados por alemes que avanavam 
ameaadoramente, ela =debilmente protegida por um desesperado 
Afonso.
"O que , filho? "
Afonso deu consigo sentado na cama, a gritar e a chorar, um 
n =na garganta, a me  porta a olh-lo com alarme. Sentiu 
gotas =de suor na testa, estava ofegante e tinha lgrimas nos 
olhos. Olhou em redor, momentaneamente confuso, aparvalhado, 
=mas acabou por perceber. Suspirou.
"No  nada, me. Foi um pesadelo. "
A senhora Mariana levou a mo ao peito.
"Ai que susto que me pregaste, Afonso. Gritavas que era uma 
coisa =aflitiva, valha-me Deus. "
"Foi s um pesadelo. "
" mais um esta semana, filho. V l se sonhas com coisas 
=mais alegres, ouviste? "
"Sim, me. Boa noite. "
 "Boa noite, filho. Descansa, v. "
Afonso fechou os olhos, recostou-se na cama e tentou acalmar-
se. =Desde que soubera da morte de Agns que aquele tipo de 
pesadelo lhe =aparecera, era sempre diferente e, no entanto, 
sempre o mesmo, to repetitivo no tema que se tornara 
recorrente. Lembrou-se das conversas =com a namorada sobre 
Freud e a
590
importncia dos sonhos e ps-se a imaginar o que Agns lhe 
=diria sobre aquele pesadelo em particular. Talvez que ele 
ocultava um desejo e um sentimento de culpa, o desejo de a 
ver =viva e os remorsos por no ter sabido proteg-la da 
morte, por =no ter estado com ela no momento da doena, quem 
sabe se a sua =presena no teria sido crucial para impedir o 
desenlace trgico. A mente de =Afonso era assaltada por 
mundos alternativos, por hipteses =diferentes, a palavra 
"se" atormentava-o a todo o instante. Se ao menos =eu tivesse 
feito algo diferente, pensava. Se eu no lhe tivesse 
arranjado aquele lugar no hospital, ou se eu tivesse =ficado 
com ela no dia em que a fui ver ao hospital pela ltima vez, 
=ou se eu tivesse fugido dos campos alemes, ou ainda se eu 
tivesse feito algo diferente, algo que alterasse o =encadear 
dos acontecimentos, ento talvez ela ainda vivesse. Eram 
=tantos os "ses", tantos os pequenos nadas que no foram 
alterados, =tantas as minsculas pedrinhas que provocaram 
aquela dolorosa avalancha. A culpa =consumia-o, cruel e 
implacvel, obsessiva e incansvel.
O capito permaneceu dois meses fechado em casa da me, na 
=Carrachana. Encerrou-se no quarto com os seus demnios, 
atormentado =pelos fantasmas que lhe assombravam a alma. 
Carolina foi v-lo vrias vezes nas duas primeiras semanas. A 
partir da terceira semana =passou a visit-lo todos os dias. 
De incio ela falava e ele =permanecia calado, em silncio, 
deprimido, mergulhado nas suas =memrias e nos seus planos 
destroados, por vezes com ataques de ansiedade ou acessos de 
culpa. Tinha =insnias e receava permanecer acordado, era 
atormentado por pesadelos =e temia mergulhar no sono. No 
comia, sentia-se fraco e sem energia, =a boca secava-se-lhe e 
a cabea doa-lhe, deixara de se lavar, de se barbear ou de 
mudar de roupa. =Mostrava-se aptico, metido consigo, calado, 
solitrio, no =passavam cinco minutos em que no pensasse em 
Agns, em que no =sentisse d da sua desgraa. Os sonhos e 
os pensamentos concentravam-se obcecadamente no mesmo =tema, 
como se tentasse reorganizar o passado, como se procurasse um 
=desenlace diferente, mais feliz. Custava-lhe aceitar
591
a realidade, alimentava por vezes a secreta esperana de 
receber =uma carta que tudo desmentisse, acordava de manh 
com a fugaz =iluso de que tudo no passara de um pesadelo, 
mas era apenas por =um breve instante de traioeira fantasia. 
Depressa caa em si e percebia que o guio j =estava 
escrito, no era possvel mudar o passado, o que fora feito 
=ficara feito, aquela era uma estrada j percorrida e sem 
retorno, uma =pera triste que j fora cantada. Pequenas 
coisas, palavras, sons, melodias, aromas, =minsculos nadas, 
lembravam-lhe Agns. Doa-lhe a forma abrupta =como tudo 
acontecera, a impossibilidade de se despedir. Agonizava sobre 
os =instantes que precederam o falecimento, interrogava-se se 
ela sofrera, =se estaria assustada, se se apercebera da morte 
a acercar-se, insidiosa =e inexorvel como uma terrvel 
tempestade que se abate sobre a terra. Nesses instantes 
tornava-se =ainda mais sombrio, deprimido, sorumbtico, 
sentia-se vazio e =fechava-se em si, mergulhava nas trevas de 
um abismo sem fundo.
A dada altura, porm, comeou a reagir. Depois do choque 
=inicial e dos primeiros meses de depresso, dias cuja 
existncia =no passava agora de um obscuro borro na sua 
memria, =despertou da letargia. Lembrou-se das palavras de 
Agns sobre o efeito teraputico da compreenso dos traumas e 
da =verbali zao dos sentimentos e sentiu uma inesperada 
energia, =ligeira
mas firme, a tomar conta de si. Ajudado pela memria da 
francesa =e por tudo o que ela lhe ensinara a respeito da 
mente e das suas dores, =comeou gradualmente a tentar 
resolver aquele sofrimento que o =paralisava. O primeiro 
passo foi dado quando se ps a escutar Carolina, sobretudo 
quando ela lhe falava no trauma da =morte do marido. 
Compreendiam-se bem, tinham passado pelo mesmo, =perderam o 
outro e custava-lhes encarar a realidade. Num certo sentido, 
=eram almas gmeas, irmos na mesma dor.
Afonso foi-se abrindo lentamente. De ouvinte passivo passou a 
=narrador activo, de incio titubeante, era difcil 
transformar os =sentimentos em palavras, a dor era inefvel, 
inexprimvel. Mas, =com o tempo, o capito tornou-se mais 
fluido, mais articulado,=20
592
emergiu a par e passo do abismo onde tinha mergulhado. 
Sentado na =cama ou encostado  janela, reviveu dolorosamente 
o passado, passou =os sentimentos a palavras, falou-lhe de 
Agns, da sua vida, dos seus =sonhos, dos seus projectos a 
dois, do=20amor que no vivera e da dor que o dilacerava. 
Chorou como uma =criana quando comeou a tocar na profunda 
ferida que lhe rasgava =o corao, falava aos soluos e com 
esforo, receando aquele sofrimento mas enfrentando-o para o 
resolver, =enfrentou- o com tal determinao que at parecia 
=autoflagelao, fazia pena v-lo sofrer daquela maneira.
Uma tarde, logo depois do almoo, o padre lvaro apareceu-lhe 
=no quarto. Carolina saiu para os deixar a ss e o proco 
sentou-se = borda da cama onde Afonso se encontrava 
estendido e quase se =assustou com o aspecto do seu antigo 
discpulo, o cabelo despenteado e revolto dava-lhe um certo 
ar de doente, de =louco. O capito, por seu turno, olhou para 
o padre que o levou na =adolescncia para Braga e achou-o 
velho, a pele riscada de rugas e o corpo franzino a dobrar-se 
em curva, quase como se =estivesse a desenvolver uma 
corcunda, os cabelos grisalhos a =revirarem-se com rebeldia 
na cabea e na barba.
"Ento, filho? ", perguntou o padre lvaro com voz meiga. " 
=Ento?"
Afonso permaneceu calado. Avaliou-o com os olhos e depois 
fixou-se =no infinito, num ponto perdido para alm da janela. 
S falou ao =fim de trs minutos.
"Porqu? ", perguntou enfim o capito.
O padre observou-o, surpreendido.
"Como? " " Porqu?"
"Porqu o qu? "
"Porqu? Por que  que isto me aconteceu? " Afonso mirou-o. 
="Passei a guerra a pensar que morria, que talvez no 
escapasse. E, =quando vejo que escapei, quando penso que tudo 
acabou, que a guerra =terminou e que poderei afinal viver,  
justamente nessa
593
altura que ela morreu. Qual o sentido de isso ter acontecido? 
Que =propsito essa morte serviu? Por que  que isto 
aconteceu? =Porqu "
"Foi a vontade de Deus, meu filho. "
Afonso endureceu o olhar e voltou a fixar-se no infinito para 
=alm da janela.
"Deus no existe", sentenciou finalmente.
O padre lvaro endireitou-se, desconfortvel com a 
=blasfmia, olhou em redor, como se estivesse a assegurar-se 
de que o =Senhor no estava no quarto e no ouvira tal 
heresia, e fixou-se =no seu protegido.
"Ento, filho? O que  isso? Vamos l, vamos l,  =preciso 
acreditar n'Ele, na Sua bondade. " Estendeu o dedo, indicando 
=que aquele era um aviso, e levantou a voz para um nvel que 
considerava suficientemente alto para que o Senhor o 
escutasse. ="E  preciso tambm temer a Deus. "
"Disparate! ", cortou Afonso, cravando-lhe os olhos, 
canalizando =ali a sua revolta interior. "Deus  bondoso ou 
Deus  temvel? =H? Em que ficamos? Que contradio  essa? 
Ou bem que  =bondoso, ou bem que  temvel. No pode  ser 
as duas coisas ao mesmo tempo. "
O padre lvaro contemplou-o com serenidade.
"Deus  bondoso, temos de ter f mas temos tambm de O 
=temer. Afonso suspirou, impaciente.
"Sabe, senhor padre, eu vi muita coisa nestes ltimos dois 
anos. =Coisas de que no quero falar, coisas de que no 
consigo sequer =falar. At j me esqueci de algumas delas, 
veja l. E, ao ver =tudo isso, e aps reflectir no assunto, 
s posso concluir que nos enganamos quando falamos de Deus. "
"Ento, filho? Que coisas dizes, minha Nossa Senhora? " " 
=tudo uma mo-cheia de disparates", exclamou. Ergueu a mo 
=esquerda, a palma voltada para cima. "Olhe, diz a Igreja que 
 =preciso acreditar em Deus,  preciso ter f,  preciso 
rezar. E eu pergunto, para qu? Ento, os que no =acreditam 
n'Ele vo para
594
o inferno s porque no acreditam n'Ele? Ento, se eu for =um 
patife e rezar todos os dias como um beato, e se outro for um 
homem =de bem, ntegro e honesto, mas no tiver f nem rezar, 
eu vou =para o cu e ele vai para o inferno? Eu que sou um 
patife e ele que  =ntegro? Mas isto faz algum sentido? Que 
Deus  este que  de =tal modo egosta que exige que O 
idolatrem, que coloca a =idolatrao acima da bondade? "
O padre revirou os olhos, fazendo uma prece silenciosa para 
que o =Senhor estivesse distrado e no tivesse escutado 
aquele chorrilho =de palavras pecaminosas.
"Deus  o Criador, temos de O respeitar, de O amar, de O 
temer. ="
"Olhe, se quiser, at estou pronto para aceitar a Sua 
=existncia", assentiu Afonso. "Mas garanto-lhe que, se Deus 
existe, =no  certamente este Deus de que fala a Igreja. 
Deus no  =bom nem mau, Deus  inexprimvel, est para alm 
das palavras, dos conceitos, da moral. Ele  simplesmente o 
=Criador, a fonte das coisas, a origem da morte e a 
inspirao da =vida. Deus est-se bem ralando para que morram 
dez, cem ou mil =soldados, Ele quer l saber de mim, de si, 
de Agns ou de quem quer que seja. Para Deus, =uma pedra vale 
tanto como uma andorinha, como uma pessoa, como eu ou o 
=senhor, tudo o que existe so Suas criaes, tudo tem o 
mesmo =valor. " Afonso pigarreou, pensativo. "Olhe, sabe qual 
 a grande questo, a =questo que a tudo responde? "
"O qu? "
"A grande questo  a velha dvida de saber por que =razo 
Ele nos criou, por que razo Ele nos impinge tanto 
=sofrimento, que propsito tudo isto serve? Essa  a grande 
=questo, o grande mistrio. " Mordeu os lbios. "Acho que a 
chave desse mistrio radica no problema de =determinar se o 
futuro est aberto ou est fechado. Ou seja, se as =coisas 
esto ou no previamente determinadas, se somos realmente 
=livres e donos do nosso futuro ou se apenas temos a iluso 
da liberdade e =no passamos de escravos do destino, meras 
personagens no teatro =divino. " Afonso estudou as unhas, 
contemplou-as sem as ver =verdadeiramente, os olhos
595
embrenhavam-se no mistrio que o apoquentava. "Estaria a 
morte =de Agns previamente determinada? Acho que a resposta 
a este problema =permite-nos perceber qual o desgnio da 
criao. " O olhar perdeu-se de novo na janela. "A 
dificuldade, naturalmente, = que no tenho modo de responder 
a essa pergunta que tanto me =atormenta. Ser que a morte de 
Agns estava antecipadamente determinada? " Suspirou mais uma 
vez. "Bem, se =a morte dela estava escrita desde o incio dos 
tempos, isso significa =que Deus  tudo, Ele tudo controla e 
tudo decide, ns somos uma =nfima parte do Seu ser. Tal como 
uma clula desconhece que faz parte =do corpo, ns 
desconhecemos que fazemos parte de Deus. O corpo  
=constitudo por milhes de clulas, cada uma  uma entidade 
=viva que tem uma individualidade e que no sabe que faz 
parte de um todo muito complexo, o corpo. Pois =ns, a 
exemplo do que acontece com as clulas, vivemos na =iluso de 
que temos uma individualidade e que uma coisa somos ns =e 
outra  o mundo, o universo, Deus, quando afinal  tudo a 
mesma coisa, tudo = uma nfima parte do todo, de Deus "
"E se o futuro no est previamente determinado? " "Nesse 
=caso, senhor padre, receio mesmo que Deus no exista. Ou, se 
existir, =tem muito pouco poder"
"i filho, no ser isso antes o indcio de que Deus =decidiu 
conceber o homem como um ser livre?"
"No creio. Sabe, no acredito nessa ideia de que o =Todo-
Poderoso tenha alienado o seu poder de tudo decidir. Se assim 
=fosse, Ele no seria todo- poderoso. Se existe de facto um 
Criador =omnipotente, pode estar certo de que Ele no criou o 
universo para deixar as coisas entregues ao acaso. Se Ele  
=todo-poderoso, Ele tudo decidiu. Consequentemente, se o 
futuro no =est j determinado,  porque Ele tem poderes 
limitados. Um =deus com poderes limitados no  Deus. Nesta 
hiptese, Deus talvez mesmo nem exista. "
"Ai, Jesus, como  que podes dizer isso? ", exclamou o padre 
=lvaro, revirando outra vez os olhos para cima, quase 
pedindo =desculpa ao divino pela blasfmia do seu antigo 
pupilo, como se
596
sentisse que aquele insulto a Deus tambm fosse da sua 
=responsabilidade. "Virgem santssima! "
"Olhe, digo isto por uma razo muito simples. Se o futuro no 
=est previamente determinado, isso significa que eu tenho 
livre =arbtrio e que Deus no me controla nem a mim nem ao 
futuro. Ora, =se eu controlo o meu destino, ento  porque 
Deus no  todo-poderoso. As coisas no acontecem =porque tm 
de acontecer, mas apenas como fruto do acaso e das =vrias 
vontades individuais, sem propsito ltimo nem razo 
=transcendente. Nesse caso, provavelmente, Deus no passa de 
um desejo, de uma criao humana destinada a =procurar um 
inexistente sentido para a existncia "
"E tu, filho? O que achas? "
Afonso recostou-se na cama e fixou os olhos no tecto. Havia 
duas =aranhas coladas s teias num canto das paredes caiadas 
e escurecidas =pela humidade, e o capito ficou a observ-las 
a deambularem por =entre os insectos inertes presos s suas 
redes. Estariam aqueles movimentos das aranhas determinados 
desde =que o tempo comeou? A questo apoquentava-o deveras.
"Eu quero acreditar que o futuro est previamente 
determinado", =disse finalmente. "S isso d sentido a tudo o 
que passei e estou =a passar. "
"Acreditando nisso, temes a Deus? "
"Isso  um disparate, j lhe disse. De que serve a Deus o 
=medo dos homens? Na verdade, o medo a Deus  um conceito 
ridculo =uma vez que sugere que o Criador  inseguro, talvez 
at =prepotente, mimado, mesquinho e egosta. Mas, se o 
futuro est previamente determinado, presumivelmente =por 
Ele, de que Lhe serve que os homens O amem ou O receiem se 
foi Ele =quem tudo determinou ao escrever a pera csmica que 
interpretamos =a todo o momento? " Afonso abanou a cabea e 
fez um trejeito de boca. "No, Deus no  para ser =amado nem 
temido. Deus , Ele simplesmente . Move-se com um =propsito 
misterioso e acredito que todos ns, homens, animais, 
=plantas, coisas, todos fazemos parte desse propsito, desse 
projecto. Nada ocorre por acaso, tudo tem uma causa e um 
=efeito. Agns morreu e esse  um acontecimento aparentemente
597
insignificante  escala do universo. Porm, acredito que essa 
=morte faz parte do universo, acredito que o universo ficou 
diferente com =o desaparecimento de Agns e de cada um dos 
meus camaradas de armas. =O seu falecimento  mais um acto da 
grandiosa pea de teatro previamente composta pelo 
=dramaturgo divino, mesmo que o propsito da morte nos parea 
=gratuito. O seu verdadeiro sentido permanece-nos 
desconhecido "
"Os desgnios do Senhor so insondveis", sentenciou o =padre 
lvaro.
Afonso mirou-o meditativamente.
"Essa  possivelmente a nica grande verdade que a Igreja 
=ensina, senhor padre. Tudo tem um propsito, acho eu, mas 
esse =propsito escapa-nos " Baixou a cabea. "A alternativa 
seria =simplesmente insuportvel. A de que=20as coisas 
acontecem por acon tecerem, sem sentido nem razo. Isso 
=seria insuportvel!"
Afonso sentiu falta do padre Nunes, pensou que talvez s o 
seu =antigo mestre seria capaz de o compreender realmente e 
calou-se. A tarde =prolongou-se, silenciosa e lnguida. O 
padre lvaro despediu-se ao cair da noite, partiu intranquilo 
e inquieto, mas =Carolina permaneceu. Nesse dia e nos 
seguintes. Foi para ela que Afonso =se voltou em busca do 
equilbrio, da salvao. No tinha =capacidade para 
acompanhar os seus raciocnios, mas oferecia-lhe conforto 
emocional. Carolina dava-lhe a =mo nos momentos mais 
difceis, chegava mesmo a abra-lo =quando o sentia 
desesperado, perdido, esvaziado. Deu-lhe foras e calor 
humano, ajudou-o a enfrentar os fantasmas do passado, as 
=memrias de Agns, a dor pela perda, os remorsos e o 
sentimento de =culpa, a fria e a revolta pela partida que o 
destino lhe pregara, o desespero por =aquele ser um caminho 
sem retorno. Fragilizado, Afonso agarrou-se =quela bia, 
prendeu-se quele porto seguro, soltou as =emoes e abriu a 
alma. Ele abriu-se-lhe tanto que, quase sem dar por isso, =de 
mansinho, foi-lhe tambm abrindo o corao.
Carolina e Afonso casaram no Vero de 1920, numa boda simples 
=realizada na pequena igreja de Rio Maior. A missa foi
598
celebrada pelo idoso padre lvaro, tio de Carolina e 
protector =de Afonso em Braga, um entusistico mestre de 
cerimnias muito =compenetrado no seu papel, o proco fazia 
questo de conferir quele casamento uma solenidade e 
grandiosidade que o tornariam =inesquecvel.
Mas um dos nubentes mal o ouvia. De p no altar, diante do 
padre =a celebrar a missa em latim, o capito passou grande 
parte do tempo =abstrado do que se passava em redor de si, a 
mente a vaguear pelo passado como =um vagabundo perdido, a 
procurar Agns, a imagin-la ao seu lado, =a fingir que 
aquela no era a pequena igreja de Rio Maior mas a =grande 
catedral de Amiens, a efabulao tornou-se to perfeita que 
at detectou um sotaque =francs no latim do eclesiasta. 
Durante alguns instantes, todavia, =regressava  realidade e 
intua vagamente a monstruosidade da sua =traio, percebia 
que entregava o seu corpo incompleto quela mulher, =faltava-
lhe a alma e o corao, ambos refns no amor de outra. 
=Compreendia a falsidade desse momento, a duplicidade daquela 
=situao, os seus sentimentos encontravam-se longe dali, 
casava com uma e =dificilmente passava uma hora em que no 
pensasse na outra. =Arrependia-se e apetecia-lhe fugir, sair 
da igreja e correr, abandonar o =altar e procurar o refgio 
no aconchego uterino do quarto da Carrachana. Num supremo 
esforo =para se distrair, a mente depressa mergulhava no seu 
sonho, na sua =fantasia, na estrada imaginria por onde 
caminhava em delrio =febril, um trilho feito de memrias e 
sensaes, de recordaes de tempos felizes e de desejos por 
=satisfazer.
No momento da verdade, quando o padre lvaro lhe formulou a 
=pergunta sacramental, Afonso disse que sim, ao seu lado 
estava Carolina =e ouviu-o dizer sim, sups ela que ele lhe 
dizia sim a si, no =sabia que dizia sim a outra que l no 
podia estar, o fantasma que para sempre seria a sua sombra.
Montaram casa junto  Praa do Comrcio, =em Rio Maior, atrs 
da velha Casa =Comercial de Jos Ferreira Lopes. Dona Isilda 
iniciou Afonso na gesto da Casa =Pereira. Levou-o s 
fbricas
599
onde ia buscar a mercadoria, apresentou-o aos fornecedores, 
=explicou-lhe as contas e revelou-lhe as tcnicas de venda. 
=Ensinou-lhe como expor os produtos, como receber os 
clientes, como =avaliar os empregados, como decidir quando se 
deve ou no conceder crdito a um cliente, quanto crdito e 
durante quanto =tempo.
"Um comerciante no tem corao", repetiu-lhe ela. "A 
=prioridade  defender o negcio, s isso conta. As decises 
=no podem ser ditadas pela piedade, mas pela racionalidade. 
"
Afonso afagou o bigode, meditando nestas palavras, duvidando 
se =teria estmago para pr na prtica o que, com aquela 
=facilidade, era dito.
"Mas, dona Isilda, s vezes encontramos situaes =humanas... 
" "A Igreja que as resolva", cortou a sogra. "Se fores 
=piedoso e estiveres a conceder crdito a toda a gente que 
no pode pagar e mantiveres na loja empregados incompetentes, 
tudo porque =tens pena de toda essa gente, irs rapidamente  
falncia. =Quando isso acontecer, rapaz, acabaste por 
prejudicar todos. =Prejudicaste-te a ti,  tua famlia, aos 
teus bons empregados e aos teus bons clientes. " Fez uma 
pausa =e olhou-o bem nos olhos. "E sabes qual  a grande 
ironia, h? =Sabes?  que, feitas as contas, os maus 
empregados e os maus clientes =ficaram como ficariam se tu os 
tivesses enfrentado mais cedo, uns ficam na mesma sem emprego 
=e outros sem crdito, porque a casa faliu. A piedade nem a 
eles =serviu. Nem a eles. "
"Mas cortar o crdito a quem precisa dos bens e despedir quem 
=necessita de trabalho para viver  uma crueldade", disse o 
=capito. "No sei se sou capaz de o fazer. "
Isilda suspirou.
"Imagina, Afonso, imagina que ests na guerra e s atingido 
=na perna por uma bala. Vais para o hospital e os mdicos 
verificam =que a perna est a gangrenar. Constatando essa 
situao, os =mdicos s tm duas opes. Ou cortam a perna e 
salvam-te a vida, ou deixam ficar tudo como =est, porque tm 
pena da perna, e tu morres no fim. Morres tu e, =grande 
ironia, morre a prpria perna. Agora imagina que o teu corpo 
= a Casa Pereira, o mdico
600
s tu e a perna gangrenada  um mau empregado ou um mau 
=cliente. Se cortares a perna, salvas o corpo. Se no 
cortares, o =corpo morre e a perna tambm. O que fazes, h? O 
que fazes? ="Bem... "
" O que fazes?"
"Uh... suponho que tenho de salvar o corpo, no ? " "Lindo 
=menino " Ergueu o dedo. "No te esqueas, rapaz. Um 
comerciante =no tem corao e a prioridade  defender o 
negcio. "
No foi fcil a adaptao, mas Afonso gradualmente se 
=habituou s exigncias da funo,  impossibilidade de 
=agradar a todos,  necessidade de avanar para rupturas,  
prioridade de defender o colectivo sobre o individual. Afinal 
de =contas, no era isso o que fizera durante a guerra? 
Apercebeu-se de =uma curiosa ironia, a de que, nos momentos 
crticos, apesar de o =colectivo beneficiar das suas 
decises, era o individual que atraa a simpatia geral. Se 
despedia um =empregado fraco, por exemplo, todos o 
lamentavam, acusavam-no de no =ter corao e de ser 
desumano, ningum percebia que isso era =para o bem da 
maioria. O=20colectivo era abstracto, o individual concreto, 
as pessoas reviam-se no =indivduo, no no grupo. Vendo bem, 
pensou, a morte da sua =ordenana em Picantin tinha sido uma 
tragdia, mas a morte de qua =trocentos homens em toda a 
batalha no passava de uma mera estatstica. O colectivo era 
mais importante, =reflectiu, embora fosse com o indivduo que 
as pessoas realmente se =identificavam.
O capito comeou por dividir a sua vida entre o negcio =da 
famlia e a carreira militar. Passava muito tempo a viajar 
entre =Braga e Rio Maior, at chegar  concluso de que no 
podia =continuar assim. Ainda considerou a hiptese de pedir 
transferncia para o quartel de Santarm, mas, ao =fim de 
dois anos de persistentes conversas, dona Isilda convenceu-o 
de =que havia uma melhor opo.
"Tens de abandonar a vida militar, Afonso", disse-lhe ela. 
"H =quanto tempo te digo isto, h? Um negcio  como um 
casamento. =Requer exclusividade"
601
Farrapos brancos e esponjosos, como tiras de algodo rasgado, 
=pairavam imveis por entre o azul profundo do cu, eram 
cirros matinais, nuvens altas e majestosas que assinalavam a 
=suave chegada da Primavera de 1922. Afonso atravessou o 
Campo do Conde =Agrolongo com os sentidos bem despertos, 
registando cada instante, =inebriado por todas as sensaes 
daquela manh, queria guardar dentro de si o momento da 
despedida. =Escutava com ateno o musical gorjear das recm-
chegadas =andorinhas, sentia o aroma perfumado dos pinheiros 
a flutuar na brisa =fresca da manh, era um ventinho macio 
e=20puro que lhe acariciava o rosto com gentileza e soprava 
com brandura =sobre as rvores, os ramos agitados num 
farfalhar delicado, =marulhante, sussurrado. Lanou um longo 
e nostlgico olhar sobre a =larga fachada alva do quartel do 
Ppulo, sabia que aquela era provavelmente a ltima vez que 
visitava o =edifcio onde se fizera oficial.
O capito dirigiu-se ao quartel para apresentar os papis e 
=despedir-se dos camaradas que com ele viveram a guerra.  
conversa =nas escadarias ou na messe, os veteranos deitavam 
ainda contas aos =acontecimentos do 9 de Abril, contavam 
histrias, reconstituam episdios, recordavam companheiros 
cados, =faziam
602
balanos. O curioso  que, da guerra, as memrias pareciam 
=apenas concentrar-se no pitoresco, relegando para um 
conveniente =esquecimento justamente tudo aquilo que fizera 
daquela experincia =uma coisa terrvel. No havia no Ppulo 
quem no tivesse orgulho na cruz de guerra de primeira classe 
=que distinguira Infantaria 8 pelo seu comportamento na 
grande batalha, =ou no considerasse justa a Ordem Militar da 
Torre e Espada que dois =anos antes fora concedida  cidade 
de Lille pelo apoio que os seus habitantes prestaram aos 
=reclusos portugueses, alimentando- os e ajudando-os  
revelia dos =ocupantes.
Afonso por todos passou, acenando aqui e cumprimentando 
acol, =subiu as largas escadarias cruzadas do ptio central 
e encostou-se =languidamente  janela da secretaria.
"Ento muito bom dia", saudou, espreitando para o interior. 
Um =alferes curvava-se sobre a mesa a dactilografar 
documentos. O homem =ergueu a cabea e levantou-se quando viu 
o superior hierrquico.
"Bom dia, meu capito", disse, fazendo continncia. Deu dois 
=passos e chegou-se  janela. "Posso ajud-lo? "
Afonso olhou em redor e mirou o alferes.
" O que tenho de fazer para sair do Exrcito?"
" Como?"
"Eu quero sair do Exrcito. O que tenho de fazer? " O alferes 
=hesitou.
"Bem... uh... tem de preencher uns documentos e fazer um 
=requerimento ao senhor comandante. "
"E quais so os termos do requerimento? "
"Tenho ali uma minuta, quer ver? "
"Ora passe-me l isso. "
O alferes foi a uma gaveta, tirou uma folha e entregou-lha. 
"Aqui =est. Mas, por favor, meu capito, devolva-ma depois, 
 a minha =nica cpia. "
"Fique descansado. "
O alferes afinou a voz com um hum hum arranhado. "Sabe, o 
senhor =comandante pode recusar o seupedido... "
603
"Fique descansado", sorriu Afonso. "Eu falo com o comandante 
e ele =no recusar nada. Depois do que passei na Flandres, 
era o que =mais faltava "
O capito demissionrio preenchia os documentos no corredor
do primeiro andar do quartel, sentado num banco junto  
janela =da secretaria quando sentiu um vulto a prostrar-se 
diante de si.
 "Ento, capito? A escrever uma carta a uma demoiselle, =? 
Ergueu a cabea e reconheceu o agora coronel Eugnio Mardel, 
=o homem que comandara a Brigada do Minho durante a grande 
batalha. =Levantou-se num salto, um enorme sorriso no rosto.
"Meu comandante", exclamou, fazendo continncia. "Bons olhos 
o =vejam"
Mardel estendeu a mo, informal.
"Como est, capito? Ento como foi a sua passagem pela 
=Alemanha, h? Os boches trataram-no bem? "
Apertaram as mos com vigor.
"Cinco estrelas, meu comandante. Cinco estrelas. At 
=distribuam caviar de aperitivo e champagne para matar a 
sede. Mardel =riu-se.
"Imagino.
"O que est o senhor comandante a fazer aqui no Ppulo? " 
="Olhe, vim visitar os regimentos da brigada, uma espcie de 
passeio =da saudade, percebe? "
"Ah, muito bem, muito bem"
"Voc j almoou? "
"No, ainda no. Mas confesso que j estou c com uma=20
traa. " "Ento venha da comigo. H por aqui alguma =tasca 
de jeito. "Temos o restaurante do hotel, do outro lado do 
largo.  ="Come-se bem? "
"Melhor do que nas trinchas, meu comandante " Abandonaram as 
=instalaes do Ppulo e foram almoar juntos ao restaurante 
=do Grande Hotel Maia, mesmo em frente ao quartel, no outro 
lado do Campo =do Conde Agrolongo. Pediram
604
umas iscas de fgado  moda de Braga e mergulharam nas 
=memrias do passado. A pedido de Mardel, Afonso relatou tudo 
o que =lhe acontecera desde o dia da batalha. Quando concluiu 
o relato, o =coronel manteve-se silencioso, o olhar ausente.
"Em que pensa, meu comandante? "
Mardel pigarreou.
"Questiono-me se tudo isto valeu a pena", desabafou. 
"Cumprimos o =dever,  certo, mas ser que serviu para alguma 
coisa?"
Afonso fitou-o nos olhos.
"A guerra  feita por jovens, que se matam para glria de 
=velhos. Para os jovens, claro que no valeu a pena. Para os 
velhos... ="
A frase ficou em suspenso e foi Mardel quem a concluiu. "Para 
os =velhos ficam glrias que no merecem", disse. "Eu sei. " 
Fez uma =careta. "Sabe, capito Brando, apenas seis 
batalhes foram condecorados por bravura em combate durante o 
9 de Abril. Nesse =nmero contavam-se os nossos quatro 
batalhes da Brigada do Minho, =mais os dois batalhes 
transmontanos, Infantaria 10, de Bragana, =que combateu  
direita de Ferme du Bois, e Infantaria 13, de Vila Real, que 
resistiu =em Lacouture.
"O segundo comandante do 13, o major Mascarenhas,  meu amigo 
=dos tempos da Escola do Exrcito. "
"Ah sim? Pois, olhe, o seu amigo foi um bravo. " "Eu sei. "
"Bem, isto para dizer que s os minhotos e os transmontanos 
=combateram. Os restantes batalhes, incluindo todos os da 
Brigada de =Lisboa, mais os algarvios do 4 e os alentejanos 
do 11 e do 17, cavaram =perante o inimigo ou renderam-se 
quase sem oferecerem resistncia e no foram distinguidos. "
Afonso franziu o sobrolho.
"Isso  curioso", comentou com lentido. "Ser que o =pessoal 
do Norte  mais valente do que o do Sul? "
"No tenho a certeza de que essa seja a pergunta certeira. 
Penso =que a verdadeira questo  saber se o pessoal do campo 
 mais =bravo do que o das cidades. " Mardel passou a mo 
pelo
605
cabelo. "Sabe, capito Brando, no h guerreiro mais 
=temvel do que o agricultor. A malta do campo est habituada 
 =dureza da vida, ao trabalho na terra, s contrariedades 
impostas pela =natureza, e no se impressiona facilmente com 
as dificuldades da guerra. So tesos =p'ra caraas! J os 
galrichos das cidades so o que se sabe, =querem  regabofe e 
fadinho, gajas e boa vida, bola e paparoca na =mesa. Quando a 
coisa aquece e d para o torto, cavam todos "
"Isso pode explicar o comportamento dos lisboetas, no digo 
que =no. Mas e os alentejanos e os algarvios? "
"Confesso que no encontro explicao para esses. Dizem-me 
=que eles tm uma natureza mais indolente, mas tenho dvidas 
de que =tenha sido a indolncia que os ps no cavano. At 
porque o Wellington tinha unidades algarvias e fartava-se de 
as gabar. ="Bem, no interessa", exclamou Afonso, fazendo um 
gesto impaciente =com a mo. "O que  facto  que fomos a 
nica brigada que =resistiu em bloco. Mas de que serviu isso? 
"
"De nada, acho eu", suspirou Mardel. Encolheu os ombros. "De 
nada. =Morreram quatrocentos portugueses nessa batalha e mais 
de seis mil foram =feitos prisioneiros. Se formos a ver bem, 
os mais espertos at foram os lisboetas, que cavaram e andam 
agora a passear com as mulheres =pelo Rossio e pela Rotunda, 
vivinhos da silva. Ns e os =transmontanos, que demos luta, 
ns  que nos trammos, em vez =de=20estarmos a saborear a 
vida, andamos a lamentar os mortos e a consolar as =vivas. E 
o trgico, meu caro capito, o trgico  que o =sacrifcio 
dos que combateram foi em vo. Os boches entraram pelas 
nossas linhas =como um furaco, foram por ali fora, os bifes 
viram-se aflitos para =os travarem e a situao tornou-se de 
tal modo crtica para os aliados que os camones =chegaram a 
emitir uma ordem a dizer s tropas para
que morressem onde estavam. Voc imagina o que isso , 
=capito Brando, receber uma ordem para morrermos onde 
estamos? " =O capito abanou a cabea.
"Ainda bem que nunca recebemos uma ordem dessas... "
Mardel fez um silncio pensativo.
606
"A  que voc se engana", disse finalmente. "Essa ordem 
=tambm nos foi dada. "
"A ns, portugueses? "
"Afirmativo. "
"Para morrermos onde estvamos? "
"Afirmativo. "
"Essa ordem foi dada pelos bifes? "
"Afirmativo. "
"Durante a batalha? "
"Antes da batalha. "
"Antes da batalha? Como assim? "
"Seis dias antes do ataque dos boches, o general Haking, que 
=comandava o XI Corpo, emitiu uma ordem  2. Diviso do CEP 
para =morrer na linha caso o inimigo avanasse. A ordem 
mencionava =explicitamente essa instruo, morrer na linha B. 
"
"E o que  que vocs fizeram? "
"O que  que havamos de fazer, diga l? Ouvimos, =calmos e 
no dissemos nada a ningum, no queramos =espalhar o 
pnico.  por isso que voc no soube. "
"Ah bom", exclamou Afonso. "Muito me conta, sim senhor. " Fez 
uma =pausa, observando o empregado do restaurante do hotel a 
servir as iscas =de fgado, acompanhadas de arroz branco e 
cebola frita. Quando o =empregado se retirou, os dois 
oficiais comearam a comer em silncio. Afonso trincou a 
primeira =fatia da sua isca e retomou a conversa enquanto 
mastigava. "Mas ento, meu coronel, estava a dizer-me que os 
boches =avanaram por ali fora e os camones comearam a ver 
as coisas =pretas "
"Pois, foi isso, mas tudo se comps e veio a verificar-se que 
=aquela foi verdadeiramente a ltima grande ofensiva dos 
boches. Os =aliados estancaram a hemorragia aberta no nosso 
sector e passaram depois =ao ataque, acabando por ganhar a 
guerra. "
"V l, v l, a nossa reputao conseguiu =escapar ilesa... 
" Mardel parou momentaneamente de mastigar e fez um =trejeito 
de boca.
607
Negativo, capito Brando, negativo. A bem dizer, a nossa
 reputao ficou foi na lama. Os bifes passaram a olhar-nos 
=com
 desconfiana, diziam que no tnhamos capacidade de 
=combate,=20
i que tnhamos fugido, que ramos uns desorganizados, que =s
 servamos para dar umas pinadelas s demoiselles, que isto e 
=que
 aquilo, e mandaram as nossas tropas fazerem trabalhos de
estrada, como se a malta no passasse de uns operrios de 
=terceira, de uns chinocas. Foi uma vergonha. "
"Ora essa! Mas eles no sabiam o que aconteceu? "
O coronel inclinou-se na mesa e fitou-o fixamente.
"E o que aconteceu, diga-me l? "
Afonso devolveu-lhe o olhar, atrapalhado.
"Bem... uh... enfim, tudo", gaguejou.
"Mas o qu? Explique-me l o que poderamos ns dizer =aos
bifes? "
"Sei l... talvez, no sei, talvez que houve seis =batalhes 
nossos
que resistiram, por exemplo, ou que a nossa nica diviso, 
=que se
encontrava j bem cansada e desgastada, apanhou com quatro
divises boches pela frente, todas elas fresquinhas como 
=alfaces.
Ou ainda que a nossa nica diviso defendia uma linha que era
suposto ser defendida por duas divises, portanto com menos
soldados por quilmetro de trincheira. " O capito fez um ar
inquisitivo. "No ? Que eu saiba, no foi pouco, no =acha?
Mardel voltou ao seu prato, trinchando mais uma fatia.
"Alguns camones sabiam o que aconteceu realmente,  verdade, 
mas =a maior parte s ligou ao facto de que os boches 
entraram pelo nosso =sector. Ou seja, se ns cedemos,  
porque ramos
fracos. Ponto final. Tudo o resto no passava de conversa.
Afonso suspirou.
"Bem, meu coronel, temos de reconhecer que isso tem
 efectivamente algum fundamento.  um facto que as nossas 
tropas =estavam muito desgastadas, mas disso no tinham os 
bifes
culpa nenhuma. Se as tropas se sentiam cansadas, que=20
descansassem, caraas! Portugal devia era substitu-las. Se 
=no substituiu  porque mostrou incapacidade para andar ali. 
E, se =no era capaz de sustentar o esforo de guerra, que 
no se metesse naquelas cavalgadas. O governo devia era ter 
juzo e =mandar a gente de volta. "
" verdade,  verdade", concordou Mardel, mastigando a 
=comida. "Os bifes no tm nada a ver com o facto de que a 
malta =foi abandonada por Lisboa. Tudo o que eles sabiam  
que j no =nos encontrvamos em condies de combater, e 
isso, bem vistas as coisas, era realmente verdade. "
Afonso engoliu a derradeira fatia de iscas.
"Portanto, se bem compreendi, nunca mais nos mandaram para a 
frente =de combate. "
"Bem, isso  inexacto", indicou Mardel. "A malta de 
artilharia =voltou a combater, integrada em unidades 
inglesas, e ns chegmos =tambm a meter dois batalhes de 
infantaria em aco, mesmo =no final da guerra. Andaram para 
l a perseguir os boches nas margens do Escalda. "
"Ah sim? Lisboa sempre mandou os reforos? "
Mardel riu-se com gosto.
"Lisboa? Lisboa estava-se a cagar para a malta! " Ergueu o 
=indicador. "No nos mandaram nem um homem, nem sequer um 
maricas para =amostra, eles no queriam saber do pessoal para 
nada "
"Mas, ento, que infantaria foi essa? "
"A mesma de sempre, homem, a malta que j l andava. " "Ah 
=? E como  que o pessoal reagiu? "
"Mal, como voc calcula. Houve revoltas sucessivas, incluindo 
=at da Brigada do Minho, e ocorreu mesmo um incidente do 
qual nem =quero falar. "
Afonso ficou curioso.
"Incidente? Que incidente? "
"J lhe disse que no quero falar nisso. "
"V l, diga l. J que mencionou o assunto, conclua, =que 
diabo! No me deixe assim pendurado, isso no se faz. "
609
Mardel hesitou. Respirou fundo, inclinou-se sobre a mesa e 
baixou a =voz.
"Isto que lhe vou contar no se pode saber, percebeu? No se 
=pode saber. "
"Muito bem, vou ficar de bico calado, esteja descansado. Mas 
conte =l. "
"Ento  assim", comeou Mardel, inclinando-se para a 
=frente, o tom muito secretivo. "Tudo aconteceu em meados de 
Outubro, =mais exactamente na noite do dia 16. Portanto, a 
menos de um ms do fim da guerra. Estava-se na altura a 
tentar reunir unidades com o =objectivo de as preparar para 
serem enviadas para a frente de combate, =era um esforo 
destinado a reorganizar o CEP. Ora bem, os magalas do 
=reconstitudo batalho 11/17 souberam destas intenes e 
pegaram em armas durante o =bivaque. Que no iam, que nem 
pensar em marchar para o aougue, =que mandassem outros, que 
j tinham feito mais do que o suficiente, que queriam era 
voltar para Portugal, que fossem todos para o raio =que os 
partisse e que fossem tambm para outras partes, enfim, =voc 
imagina. Vai da, o comando no esteve de modas. No dia 
seguinte, 17 de Outubro de 1918, nunca mais me =esquece essa 
data, nesse dia decidiram actuar  sria. Chamaram 
=Infantaria 23, os revoltosos foram cercados e, pimba! 
metralharam-nos. "
Fez-se uma pausa.
"O qu? ", murmurou Afonso, incrdulo. "O qu? " ="Mataram-
nos a tiros de metralhadora. "
A derradeira visita de Afonso a Braga serviu para acertar as 
=ltimas contas do passado. O capito demissionrio nunca 
mais =falou com o tenente Pinto. Quando por acaso com ele se 
cruzava nos =corredores do quartel, virava a cara para o 
lado, no lhe perdoava a fuga no momento mais difcil da 
companhia no 9 de =Abril, quando do cerco ao Picantin Post.
A verdade, porm,  que s havia mesmo uma pessoa que =Afonso 
fazia absoluta questo de reencontrar. O problema  que
610
desconhecia o seu paradeiro. Fez vrios inquritos e a 
=oportunidade acabou por surgir a dois dias de regressar a 
Rio Maior, =quando o alferes que trabalhava na secretaria do 
quartel descobriu um =documento a referenciar a residncia do 
homem que procurava num stio chamado Palmeira, um lugar 
=remoto a norte de Braga. Sem perder tempo, o capito 
requisitou um =cavalo e trotou at ao local. Meteu pelos 
caminhos de terra e foi dar =com a morada que rabiscara num 
papel.
" aqui que mora o Matias Silva? ", perguntou Afonso, 
=inclinando- se da montada.
Uma velha minhota, curvada na bengala, a pele enrugada em 
torno dos =olhos azuis, um leno negro a cobrir-lhe a cabea, 
apontou =tremulamente para a casa ao lado.
"O Matias  ali, senhor"
Afonso olhou para a casa de pedra que lhe foi indicada. 
Parecia- =lhe uma verso minhota dos pardieiros da 
Carrachana, claramente =partilhava com o antigo cabo a mesma 
origem humilde. Desmontou, amarrou =o cavalo a uma rvore e 
deu uns passos pelo caminho de cabras at chegar diante da 
=casa. A porta de madeira tosca estava entreaberta e o 
capito entrou, =hesitante.
"Est aqui algum? ", chamou.
Ouviu o som de um talher a bater na porcelana e uma tosse 
cavada. =Olhou na direco do rudo. Um enorme vulto 
encontrava-se na =penumbra, sentado  mesa e debruado sobre 
uma tigela. No se =lhe via o rosto, mas Afonso reconheceu-o. 
O vulto ficou momentaneamente paralisado e, ao fim de um 
=longo e silencioso segundo, ergueu-se com lentido.
"Meu capito. "
Os dois homens aproximaram-se e estacaram um diante do outro, 
meio =sem jeito. J no se viam havia quatro anos, desde que 
os =alemes os tinham separado em Illies. =Abraaram-se 
finalmente. Abraaram-se com fora, =como irmos, como velhos 
amigos que as circunstncias da vida =tinham afastado, como 
companheiros de estrada que se reencontravam aps uma longa e 
difcil jornada.
611
"Sente-se aqui, sente-se aqui", disse Matias, puxando Afonso
para a mesa. O capito acomodou-se e o antigo cabo foi buscar
 uma outra tigela de sopa. " uma canjinha de sonho, meu 
=capito. Se o Baltazar aqui estivesse, chamava-lhe uma 
categoria. "
 Tossiu. "Foi a minha Francisca que a fez, ora prove l. "
 Afonso engoliu uma colher e piscou o olho.
 "Est boa. "
"Est, no est? A minha Francisca  uma grande =cozinheira
l isso . Pena que no esteja aqui, foi ali ao rio lavar =a 
roupa e
p-la a abelar. Mas j volta. " Tossiu. "Ela era a minha 
=namorada
sabe? Quando voltei da Alemanha, pensei c para mim:  
=Matias,=20
a moa  sria e honesta, no  nenhuma =sansardoninha, no 
nenhuma rifeira,  boa de verdade, casa-te com ela, anda.
Tossiu outra vez, desta feita prolongadamente.
"Isso est mal", notou Afonso com preocupao.
Reconhecera aquela tosse e sabia que no era de bom agoiro.
Matias ficara rubro de tanto tossir, mas acabou por recuperar 
o =flego.
"So a merda dos gases, meu capito. " Tossiu novamente. "Os
boches ainda me esto a matar com os gases que me meteram no
corpo. At sinto o lquido a escorrer c dentro, no peito. =" 
Respirou fundo, para demonstrar o que dizia, e, de facto, os 
=pulmes
pareciam assobiar. "Os gases esto a fazer aquilo que as 
=costureiras e abboras no conseguiram nas trinchas, esto-
me a =dar
cabo do canastro " Sorriu com tristeza. "Era estranha aquela 
vida
nas trinchas, no era? A morte perseguia-nos todos os dias, 
=cheirava-nos, roava-nos, mas, sabe, eu sempre tive em mim a 
vontade =de viver"
"Voc era um optimista", considerou Afonso. "Havia uns que
 achavam que iam morrer, passavam a vida  espera da 
=desgraa,=20
 tudo os deitava abaixo, viviam invadidos de maus 
pressentimentos, =eram verdadeiras aves agoirentas.
O Manpulas era assim... "
 "E depois havia os outros, os tipos como voc, aqueles que
tornavam grandes as mais minsculas coisas, saboreavam uma
612
pausa, procuravam a felicidade nos pequenos nadas, num naco 
de =po, num rouxinol que cantava, num raio de Sol capaz de 
vencer aquele =sombrio manto de nuvens cinzentas "
Um novo acesso de tosse encheu a sala. Matias respirou fundo 
e =engoliu em seco.
"Sabe, s era possvel viver ali se consegussemos ignorar =o 
que aquilo tinha de mau, se consegussemos erguer um muro que 
nos =isolasse de toda aquela desgraa. " Matias tossiu. 
"Lembra-se, meu =capito, da indiferena com que olhvamos 
para um morto ou para um corpo mutilado? Isso era o muro que 
nos =protegia. Tanto nos esgotmos a sofrer por ns que j 
no =conseguamos sofrer por eles. Essa  que era a verdade, 
os mortos =tornaram-se-nos indiferentes. "
"Excepto os camaradas", atalhou Afonso.
"Excepto os maradas", confirmou o antigo cabo. Tossiu. "Os 
maradas =eram a melhor coisa daquela merda toda. S eles 
contavam. " Tossiu =novamente. "Qual ptria, qual porra! Era 
pelos maradas que eu lutava. =Manducvamos juntos, dormamos 
juntos, soframos juntos, ramos amigos, irmos, tudo. Foi 
=ali na guerra que eu verdadeiramente conheci os homens, 
conheci-os  =sria, no bom e no mau, mas sobretudo no bom, 
na entreajuda, na amizade, =nas pequenas coisas e nos grandes 
gestos. " Baixou a cabea. "O =problema era quando morriam, 
isso era insuportvel. " Fitou Afonso. ="Sabe que eu fiz uma 
peregrinao aqui pelo Minho para visitar as famlias dos 
maradas do meu =peloto, os maradas cados em Frana?  
verdade, fiz isso. =Foi duro, foi xuega para caramba. Fui a 
Barcelos falar com a me do =Vicente Manpulas, dei um salto 
a Gondizalves para ver os pais e os irmos do =Abel 
Lingrinhas e viajei at ao Gers, at Pites das =Jnias, 
para conhecer a mulher e os filhos do Baltazar Velho. E aqui 
=ao lado, em Palmeira, est a mulher e o filho do Daniel 
Beato, um marada que o capito no =conheceu, mas que foi 
decapitado por uma granada "
"Por que fizeste isso? "
Matias suspirou.
613
"Remorsos, acho eu", disse. "Sabe que eu sonho muitas vezes 
com os =maradas? O que  engraado  que eles nunca esto 
mortos. =Sonho que fazemos as coisas do costume, andamos a 
matar ratos, a abrir =drenos, a contar anedotas, todos 
armados=20em ribaldeiros. Quando se passam duas =semanas sem 
sonhar com eles, sinto saudades e quero sonhar outra vez. " 
Tossiu. "Estranho, no ? "
"Isso  a guerra que continua na nossa cabea. " "Talvez. 
=Mas, no meio disto tudo, meu capito, h uma coisa que no 
=compreendo, que no aceito. " Tossiu ainda. "Sabe o que ? "
" O qu?"
"No percebo por que sobrevivi. No entendo, no concebo =por 
que razo morreram eles todos e eu vivi. O que fiz eu de 
especial =para viver? Qual o sentido de ter escapado? Porqu 
eu? No =percebo, no percebo. " Baixou a voz. "Sinto-me 
culpado, agnico, anelante,  =como se os tivesse trado, 
como se os tivesse abandonado, como se =no os merecesse. 
Eles lutaram at  morte e eu rendi-me, =no tive coragem de 
ir at ao fim, sobrevivi sem os salvar, amaldioo-me todos os 
dias por =isso. "
"Tambm penso nisso muitas vezes", confessou Afonso. "Mas a 
=verdade  que, naquela altura, naquelas circunstncias, no 
=tnhamos alternativas. O que podamos ns fazer? Deixarmo-
nos =abater como ces? "
Matias mirou o infinito, irremediavelmente perdido na sua 
batalha =interior.
"Sabe, meu capito, descobri que o mais duro no  fazer a 
=guerra", murmurou o antigo cabo. "O mais difcil  
sobreviver a =ela,  viver com ela depois de ter vivido nela. 
Percebe o que eu =quero dizer?"
Afonso respirou fundo.
"Ento no percebo, Matias? Todas as noites sonho com isso. " 
=Fez uma pausa. "Nem sei mesmo se sobrevivi. Olha, por 
exemplo, s =vezes sonho que estou nas trinchas rodeado de 
mortos, viro um corpo para =cima para lhe ver a cara e 
descubro que o cadver sou eu. " Estremeceu, arrepiado com o 
pensamento.
614
"Levei muito tempo a perceber este sonho, mas acho que j 
=entendi. Ele significa que uma parte de mim morreu nas 
trinchas e que =estou de luto pela minha prpria morte. "
" isso mesmo, meu capito. Estamos de luto por ns =mesmos. 
" Suspirou. "Sabe, quando andamos aos tiros, as coisas 
acontecem =e ns nem damos por isso, ou no ligamos, 
continuamos a agir sem =pensarmos, mecanicamente, amanh  um 
novo dia, h que seguir em frente " Fez uma pausa e olhou 
para a =mo, olhou-a mas no a via, estava absorto no seu 
raciocnio. ="Agora, quando se acaba a guerra, quando ela 
acaba, meu capito, a =coisa comea
 logo c dentro, a moer, a moer, a moer sem descanso. Bateu 
com =o indicador na testa. "Parece que no, mas fica c tudo, 
aqui na =tola, para depois ser digerido, devagar, devagar. " 
Nova pausa. "Olhe, a =morte do Lingrinhas, o senhor no 
assistiu, mas foi uma coisa... nem sei como dizer. Ns 
estvamos =a retirar da primeira linha, ele foi apanhado por 
uma costureira boche e =ficou ali, no meio da Tilleloy, com 
um buraco na garganta, a asfixiar, a =bombar. O Manpulas 
tentou ajud-lo, tentou ir l, e sabe o que fiz eu? H? Sabe? 
"
Afonso abanou a cabea.
"Agarrei o Manpulas e no o deixei ajudar o Lingrinhas. " 
=Uma grossa lgrima correu pelo rosto rude de Matias. 
"Agarrei-o com =toda a fora, toda a fora, e no o deixei 
ajudar o Lingrinhas, coitadinho, o Lingrinhas que morria ali 
=no meio da Tilleloy, sozinho, sozinho, sem ningum ao menos 
lhe dar a =mo.
Soluou. "Sonho muitas vezes com o Lingrinhas e o Manpulas, 
=sonho que deixo o Manpulas ajudar o Lingrinhas e que o 
Lingrinhas se =safa e fico feliz... Mas depois, quando 
acordo... quando acordo vejo que =no passou tudo de um 
sonho, que o Lingrinhas morreu porque no deixei =o Manpulas 
ajud-lo. " Fungou e limpou o nariz. "E o Velho, que =morreu 
estupidamente! Se o meu capito visse os filhos, coitados, 
=to felizes quando lhes disse que o Baltazar os adorava, que 
ele s =falava neles... que morte estpida o Velho teve, meu 
capito. =Morrer quando se rendia... "
615
Afonso saiu destroado do encontro com Matias. A conversa foi 
=catrsica, fez-lhe bem, mas no tinha a certeza de conseguir 
=sobreviver a outra igual. Planeara antecipadamente dar um 
salto a Vila =Real para abraar o major Mascarenhas, o velho 
amigo sportinguista da Escola do =Exrcito, o homem de 
Infantaria 13 que resistira mais de vinte e =quatro horas em 
Lacouture, mas a dolorosa experincia com Matias =dissuadiu-
o, achou que no iria aguentar e preferiu regressar 
discretamente a Rio Maior. Seria =Carolina quem iria suportar 
a guerra que ele levava na cabea.
616
VI
As contas da Casa Pereira no batiam certas. Afonso 
endireitou =os culos e decidiu recomear a soma das vendas 
do dia. As cpias dos recibos assinalavam a data, 9 de Abril 
de 1928. Os olhos de =Afonso retiveram-se na data. 9 de 
Abril? Recostou-se na cadeira do seu =escritrio, abalado. 
Dez anos. Fazia nesse dia dez anos que ocorrera a grande 
=batalha. Parecia a Afonso que os trgicos acontecimentos da 
Flandres =se tinham passado apenas na semana anterior. O 
antigo capito contava =agora trinta e oito anos e no 
conseguira ainda digerir tudo o que se passara na sua vida 
naquele =fatdico ano de 1918.
Olhou para as fotografias que tinha espalhadas pela 
secretria, =numa estava ele, todo janota, com a sua farda de 
oficial e os olhos =carregados de esperana e sonhos de 
glria, um bengalim na mo =e uma pose imperial. Outra era 
uma foto de famlia, ao seu lado encontravam-se Carolina e os 
trs pequenos =filhos, Rafael, Joaquim e Ins, cada nome uma 
homenagem, o mais velho =era um tributo ao pai, o do meio  
sua ordenana na Flandres e a =menina a Agns. Se tivesse 
mais um menino, pensou, chamar-lhe-ia Matias, em =memria do 
valente cabo, o irmo de armas que
617
morrera meses depois do seu derradeiro encontro, havia mais 
de =cinco anos. Algum lhe disse que Matias expirou pela 
ltima vez na =sua miservel casa de Palmeira, asfixiado, os 
pulmes liquefeitos, =mais uma vtima tardia dos gases das 
trincheiras.
Decidiu nessa noite beber em memria dos seus camaradas e da 
sua =francesa, gente que lhe ficou na carne, pessoas que o 
acompanhavam todos =os dias, em pensamento, em sonhos, em 
pesadelos. =Os pesadelos eram dirios desde que regressara a 
Portugal. Sonhava com Joaquim, que deixara ficar =no posto de 
Picantin para morrer. Sonhava com o sargento Rosa, abatido 
=ao seu lado numa trincheira miservel. Sonhava com Baltazar, 
cado =quando erguia os braos=20em rendio. Sonhava com 
Matias, o =grande Matias, generoso e valente, um corao de 
ouro e uns =pulmes de merda. E sonhava sobretudo com Agns, 
via-a entrar-lhe em casa, =dialogava com ela, falavam sobre 
Freud e sobre a vida, sobre Deus e a =medicina, a arte e a 
cincia, conversavam tanto em tantas noites que Afonso 
chegava a =interrogar-se se os sonhos no seriam mesmo uma 
forma de manter o =contacto com o alm, de estabelecer 
ligao com as pessoas que =realmente contavam.
Abanou a cabea, espantando os fantasmas como se fossem uma 
=nuvem de fumo e regressando daquele mundo j desaparecido. 
Agora, =raciocinou, no podia estar com fantasias, tinha 
mesmo era de voltar ao presente e =refazer as contas. 
Inclinou-se sobre a secretria e mergulhou de novo =nas 
facturas.
Ouviu um tumulto no corredor, a porta do escritrio abriu-se 
com =violncia e Carolina irrompeu num pranto.
"Afonso! Afonso! " " O que foi, filha?"
"A minha me... a minha me est-se a sentir mal. "
Dona Isilda foi a enterrar no dia seguinte, uma manh 
primaveril =de Abril. Carolina era filha nica e nica 
herdeira, mas no se =encontrava em condies de tratar dos 
papis, tarefa de que Afonso ficou encarregado. Passou dois 
dias a remexer =os documentos da velha. Viu ttulos, 
hipotecas e contas e no final =deitou
618
mos  pasta da correspondncia. Eram sobretudo cartas do 
=irmo, dos primos, de amigas, de vendedores, de credores e 
de =fornecedores. Quando se preparava para fechar a pasta, 
Afonso notou, no =meio de todas aquelas cartas, um 
pequeno=20envelope que lhe era endereado. Estranhou ver 
entre a =correspondncia para dona Isilda uma carta que lhe 
estava destinada e =olhou para o selo. Era francs. Estudou o 
carimbo e verificou que o envelope tinha sido remetido de 
=Lille. Abriu a boca de espanto e ali ficou a mirar o 
envelope, =incrdulo, a interrogar-se sobre o seu contedo, a 
decidir o que =fazer. Com as mos trmulas, retirou a folha 
dobrada dentro do sobrescrito e leu o texto, =redigido em 
francs:
Lille, 9 de Dezembro de 918
Caro capito Alphonse Brando,=20
 com o maior pesar que lhe venho comunicar a morte da minha 
=querida filha, Agns Chevallier, vitima da terrivel gripe 
espanhola =que tantas vidas est a ceifar por essa Europa 
fora.
Desconheo se o senhor j regressou do cativeiro, mas rogo a 
=Deus que esta minha missiva o encontre de sade. Foi a minha 
=prpria filha quem me deu a morada da senhora sua me, que 
espero =lhe faa chegar a carta que esperava nunca ter de lhe 
escrever.
Lille foi libertada no passado dia 17 de Outubro pelas tropas 
=britnicas, e Agns apareceu em minha casa logo no dia 20. 
No pode calcular a nossa alegria nem a felicidade que ela 
sentiu quando =lhe mostrei a carta que me remeteu da 
Citadelle, ela que o julgava morto =nos campos de batalha. 
Agns estava, como saber, grvida e deu = luz uma bela 
menina no dia 27 de Outubro, a quem baptizou de Marianne, 
=aparentemente em homenagem  senhora sua me.
Mas a nossa felicidade no durou muito. Na semana passada, 
=Agns comeou a queixar-se de fortes dores de cabea, 
dizendo =que parecia que estavam a dar-lhe marteladas mesmo
619
atrs dos olhos. Alm disso, veio-lhe uma tosse assustadora e 
=sangrou do nariz. Alarmados, levmo-la ao hospital de St. -
Sauveur, =donde no mais saiu. Atiraram-na l para uma 
enfermaria especial e =no nos deixaram ficar com ela. Um 
amigo meu que trabalha no Instituto Pasteur =pediu 
informaes aos seus colegas do hospital e disse-nos, nessa 
noite, que o caso era =muito grave. A tosse tornara-se muito 
violenta e as hemorragias =tinham-se estendido para os 
ouvidos. Agns apanhou a gripe espanhola e foi colocada de 
quarentena numa enfermaria =onde se encontravam internadas 
todas as pessoas que contrairam a =epidemia. Como deve 
calcular, ficmos em pnico, mais ainda quando o nosso amigo 
nos comunicou que a pele dela =estava agora azul-escura, 
parecia uma negra de frica. No h =dvida, foi atacada pela 
peste negra, s que ningum lhe chama =esse nome para no 
assustar as pessoas mais do que elas j esto. Garantiu-me o 
=nosso amigo que muitas pessoas atingidas pela espanhola 
acabavam por =recuperar, mas, infelizmente, no foi esse o 
caso da mi nha Agns. =Aps trs dias em delirio e 
sofrimento, veio a falecer.
Remeto-lhe esta carta, meu caro amigo, para lhe dar a triste 
=noticia do desaparecimento de Agns e para lhe comunicar que 
ela lhe =deixou uma linda menina, agora com um ms de idade, 
e que est a =ser cuidada por Claudette at que o senhor nos 
d instrues.
Aguardo noticias suas e peo-lhe que tenha coragem nestes
tempos dificeis que estamos a viver.
Deus o abenoe,=20
Paul Chevallier
Afonso leu a carta duas vezes, siderado.
"O diabo da velha! ", murmurou, quando concluiu a segunda 
leitura. ="A grande puta. "
Percebeu que dona Isilda no lhe contara toda a verdade, em 
bom =rigor at lhe mentira quando disse que a criana tambm 
tinha
620
morrido. Tornava-se agora evidente que o casamento com 
Carolina foi =planeado pela velha senhora aps a viuvez da 
filha e que a =existncia da criana era a pedra no sapato 
desse projecto. Para =eliminar o problema escondeu a pedra 
por baixo do tapete. Ocultou a carta e alterou a crucial 
informao que a missiva =transmitia, a notcia de que o 
capito tinha uma filha  sua =espera.
Afonso permaneceu dois dias a matutar no assunto, sem nada 
dizer a =ningum. Tomou gradualmente conscincia de que dona 
Isilda tinha sido, de uma estranha forma, a pessoa mais 
importante da sua =vida. Foi ela quem convenceu os pais a 
permitirem que Afonso fosse para =o seminrio, dando-lhe uma 
oportunidade de educao que de =outro modo no teria. Quando 
esse meio de o afastar da filha falhou, foi ela quem 
=engendrou a ideia de o inscrever na Escola do Exrcito, 
=conferindo-lhe um novo rumo  vida. E dez anos antes, logo 
que ele regressou da guerra, foi ela quem =preparou tudo para 
viabilizar o casamento com a sua filha viva. Pelo =caminho 
mentiu, ocultou, manobrou, seduziu, manipulou, fez tudo o que 
=foi necessrio para alcanar os seus objectivos, sempre fiel 
 velha mxima de que um =comerciante no tem corao, a sua 
prioridade  defender o =negcio. Afonso percebeu que, feitas 
as=20contas, lhe devia tudo o que de bom e de mau lhe 
acontecera na vida e =que todas as decises cruciais da sua 
existncia no foram =tomadas por ele, nunca por ele, mas por 
ela. Agora, porm, Afonso =via-se confrontado com uma deciso 
de grande magnitude, uma daquelas opes determinantes para o 
=seu futuro, e dona Isilda no se encontrava ali para, nas 
sombras, =mais uma vez fazer a escolha por si. Em boa 
verdade, ele poderia at desfazer o que ela decidira em 
segredo dez anos antes. E a deciso a =tomar era muito clara. 
Deveria ou no Afonso assumir a paternidade da =criana? Por 
um lado, aquela menina constitua um embarao para a sua vida 
familiar, apenas lhe vinha atrapalhar a existncia, 
=mergulhar Carolina no desgosto e os filhos na vergonha de 
terem uma =irm bastarda. Mas, por outro lado, pensou que a 
pequena no era =vergonha nenhuma, era um legado
621
de Agns, era o fruto do maior amor da sua vida, no tinha o 
=direito de o renegar. Alm disso, no estava no seu sangue 
=abandonar o seu sangue.
Ao terceiro dia tomou a deciso. Iria a Lille conhecer a sua 
=filha, iria l busc-la, doesse a quem doesse, custasse o 
que =custasse. Se Carolina verdadeiramente o amava, no teria 
outro =remdio seno aceitar a realidade e acolher a irm dos 
seus filhos. Foi com essa convico em mente que, depois =do 
pequeno-almoo, convidou a mulher para um passeio at s 
=salinas. A ideia suscitou a estranheza de Carolina.
"Mas para que queres tu ir agora at s salinas? ", 
=questionou ela. "Tens cada uma... "
"Tenho uma coisa para conversar contigo.
"Ento conversa "
"Aqui no. "
A mulher mirou-o, desconfiada, mas ele evitou o olhar, o que 
apenas =serviu para a perturbar. Entregaram as crianas aos 
cuidados da ama e =meteram-se no Hispano-Suiza que tinham 
adquirido no ano anterior, o =prmio pela boa gesto da Casa 
Pereira. O belo carro azul, um H6B Torpdo Scaphandrier, =era 
o orgulho de Afonso e uma atraco =em Rio Maior, uma mquina 
de provocar inveja a um santo.
Meteram pela estrada de terra batida e depressa chegaram s 
=salinas. Viam-se homens a amontoar o sal com as ps e a 
despej-lo =em sacos. O Sol, ainda baixo na sua ascenso, 
=desenhava os contornos dos pinheiros em sombras deitadas na 
terra, =pedaos de neblina agarravam-se s copas das rvores 
como =algodes doces e pegajosos, eram o bocejo lento e farto 
da pacatez =preguiosa que se estendia por aquela fresca 
manh de Primavera.
Afonso estacionou o vistoso automvel por baixo de um 
pinheiro =manso e mostrou ento  mulher a carta que 
descobrira no =esplio de dona Isilda, narrando-lhe os 
acontecimentos do passado e =traduzindo-lhe o contedo da 
missiva. No final, Carolina estava lvida.
"O que queres que te diga? ", perguntou a mulher 
sombriamente.
622
"No quero que me digas nada", retorquiu Afonso, fitando-a 
bem =nos olhos. "Mas tomei uma deciso. "
"Ah sim?"
"Vou a Lille buscar a minha filha. "
"O qu? ", exclamou Carolina, exaltando-se, os olhos 
arregalados =numa expresso de horror.
Afonso j aguardava aquela reaco e no se deixou 
=impressionar.
" como te digo. Vou buscar a minha filha. "
"Mas ser que tu ensandeceste, Afonso? Mas que disparate te 
=est a passar pela cabea, Santo Deus? "
Carolina gesticulava agora.
"No  disparate nenhum. Tenho uma filha a viver em Frana =e 
vou l busc-la,  to simples como isso. "
"No vais nada busc-la, era o que mais faltava! " "Ai vou, 
=vou. "
"Ento e os nossos filhos? "
Afonso fez um trejeito de boca, com ar de quem no percebia 
onde =ela queria chegar.
"O que tm os nossos filhos? "
Carolina respondeu com um gesto de impacincia. " Afonso, 
=no te faas de sonso! O que vo pensar os nossos filhos 
quando =virem uma mida estrangeira entrar na nossa casa para 
viver =connosco?"
"Vo ficar todos contentes porque ganharam uma irm mais 
=velha. "
"E o que diro as pessoas, valha-me Deus? "
"Quais pessoas? "
"A... a dona Maria Vicncia, por exemplo. " Era a mulher do 
=professor Manoel Ferreira. "A dona Constana. " Era a mulher 
do =mdico. "A dona Isabel. " A mulher do advogado. "J viste 
a =humilhao que me vais fazer passar, trazer para a minha 
casa a tua filha =bastarda? J viste? "
Afonso suspirou.
623
" filha, eu quero l saber o que essas galinhas pensam! 
=Tanto se me d como se me deu. A questo est em que eu 
=descobri que tenho uma filha e no vou fugir s minhas 
=responsabilidades. " Apontou-lhe o dedo. "Olha l, tu eras 
capaz de deixar um filho abandonado? "
"Afonso, no me venhas c com baralhaes! Eu no =tenho 
nenhum filho abandonado, graas a Deus. O que eu no quero = 
uma escandaleira de filhos bastardos na minha casa, desculpa, 
mas =isso no pode ser. "
O marido fitou-a nos olhos, avaliando a situao. Aquela 
=reaco negativa era natural, considerou. A notcia que lhe 
=tinha dado constitua sem dvida um choque. Por um lado, 
dava-lhe, =como nunca ela tivera, uma ideia da intimidade das 
suas relaes com =Agns, tornava-lhe brutalmente real o 
facto de que a ligao =que ele tivera com a francesa no era 
de natureza meramente platnica e isso com certeza que a 
fazia sentir-se desconfortvel. Por =outro, significava uma 
importante mudana na sua vida e, sobretudo, =uma afronta  
moral da boa sociedade riomaiorense. Mas, no final, e =por 
muito que protestasse, Afonso no tinha dvidas de que 
Carolina acabaria por se conformar com a =situao. De resto, 
no havia remdio. A deciso j =estava tomada.
Suportou com infinita pacincia as recriminaes, a =revolta, 
as lgrimas, a fria e as ameaas, e numa manh de =Maio, 
decidido e esperanado, apanhou o comboio at Lisboa, donde 
=seguiu para Madrid, depois para Paris e finalmente para a 
Flandres. Foi uma viagem longa, feita em =silncio, a mente 
revolta num turbilho de pensamentos. =Preocupava-o o que 
iria encontrar, a forma como a filha reagiria  =sua presena 
e ele  dela. Seriam estranhos do mesmo sangue, unidos por 
uma nica mulher, =ela rf de me, ele vivo do amor que no 
vivera, ambos =vtimas de acontecimentos que no controlavam, 
meros joguetes nas =mos do destino, folhas atiradas ao vento 
pelo sopro de uma terrvel e =assombrosa tempestade.
Quando o comboio percorria velozmente a melanclica plancie 
=da Flandres, Afonso sentiu uma irresistvel vontade de se=20
624
reencontrar com o passado, de se confrontar com os fantasmas 
que =diariamente assombravam o seu sono. Decidiu, por isso, 
num mpeto, =num arrebatamento, fazer escala em Aire-sur-la-
Lys antes de prosseguir =viagem at Lille. Apeou-se na 
estao de Aire, admirou o ar familiar que as coisas tinham, 
estranhou as =pequenas mudanas, as paredes reconstrudas, as 
estradas =recompostas, havia ainda muitas runas mas sentia-
se o cheiro das =coisas novas. Meteu-se num txi e pediu ao 
motorista para o levar s antigas trincheiras do sector 
=entre Fauquissart e Ferme du Bois. O pequeno Peugeot foi at 
Laventie =e passou ao lado do cemitrio militar. Afonso 
mandou parar e foi =visitar o local. Consultou um responsvel 
e descobriu algumas campas que procurava. Estavam l as de 
=Joaquim e do Vicente Manpulas, que tinham morrido =em 
Picantin Post, mas no havia sinais das sepulturas do 
=sargento Rosa, do Abel Lingrinhas e do Baltazar Velho, 
provavelmente =enterrados apressadamente pelos alemes numa 
qualquer vala comum. As =lpides de Joaquim e do Manpulas, a 
exemplo das restantes, apresentavam-se maltratadas e o 
=cemitrio tinha um ar abandonado. Ajoelhou-se sobre as duas 
campas, =comovido, e rezou em memria dos homens que 
comandara at  =morte.
Voltou depois ao txi e prosseguiu at Fauquissart. 
=Reconheceu a Rue Tilleloy, agora bem arranjadinha, a estrada 
tratada, os =campos verdejantes nuns lados, dourados de trigo 
noutros, as rvores =viosas e as flores garridas, o orvalho 
a reluzir nas ptalas coloridas, =eram lgrimas frescas e 
cristalinas. O horizonte enchia-se de =robustos choupos, 
pltanos, tlias, olmos, viam-se preguiosas =vacas a 
pastar=20onde antes apenas se encontrava desolao, a vida 
renascera sobre =as crateras e tudo transformara. Em vez de 
esventrada por granadas, a =terra era agora removida pelos 
instrumentos agrcolas que plantavam batatas, cereais, 
beterraba, aveia, cenouras. As =velhas trincheiras mostravam-
se irreconhecveis, tapadas pela =vegetao, a natureza 
encarregara-se de ocultar com plantas aquelas cicatrizes 
=abertas na terra. Identificou por aproximao o local onde 
se =situara o Picantin Post, palco de tantos pesadelos, 
voltou a lembrar-se =de Joaquim e do Vicente 625
Manpulas, tinham ambos cado ali. Sentiu uma comoo =enorme 
ao passar pelo antigo posto, mas no havia dvida de que 
=tudo mudara, tornara-se diferente, mais aprazvel, acolhedor 
mesmo.
Desceu at Neuve Chapelle e foi visitar o memorial da guerra, 
na =Mairie, e a igreja de St. -Christophe, j reconstruda e 
=albergando um dos clebres Cristos das trincheiras que, 
durante a guerra, tanto =impressionaram os soldados 
portugueses. Aquela esttua de Cristo na =cruz sobrevivera  
destruio da igreja, mantendo- se a cruz =plantada no meio 
das runas, a cu aberto, a figura de Jesus praticamente 
intacta, numa teimosa =resistncia que suscitara o veneroso 
respeito dos atemorizados =soldados portugueses. Afonso deu 
ainda um salto a Bthune para rever =o anexo onde viveu com 
Agns. A casa permanecia igual, mas o anexo fora 
transformado, uma das =paredes tinha sido substituda por um 
porto, era agora uma =garagem. Ao ver aquele cubculo onde 
passou dias to intensamente =felizes, uma dor lancinante 
apertou-lhe o corao, a velha ferida dava de si. Com um n 
na garganta e os olhos =hmidos, afastou-se rapidamente, a 
saudade dolorosa era um sofrimento =que no queria reviver, 
no com aquela intensidade.
Ao pr do Sol, cansado e abatido, vergado pela triste 
melancolia =de quem acabou de remoer a ferida ainda por 
cicatrizar, de remexer a =lcera do seu sofrimento dirio, 
pediu ao taxista para finalmente =o levar a Lille. No era 
muito longe, agora que os alemes no barravam o caminho. 
=Quando o Peugeot arrancou, pregou a cara ao vidro traseiro, 
viu pela =derradeira vez a paisagem que assombrava os seus 
pesadelos, despediu-se =em silncio dos companheiros cados, 
disse adeus ao passado e s memrias que o afligiam, viu a 
=velha linha da frente desaparecer no lgubre fio do 
horizonte, =banhado pelos mesmos raios dourados do 
crepsculo, e endireitou-se no assento, sentindo-se 
subitamente leve e =aliviado, sereno e em paz consigo mesmo.
Tal como dez anos antes, entrou em Lille pela Porte de 
Bthune e =subiu pela Rue d'Isly e pelo Boulevard Vauban at 
chegar  =Citadelle. Uma vez a, virou  direita, para o 
Boulevard de =la Libert, e meteu na primeira  esquerda, =na 
Rue Nationale, at
626
desembocar na Grande Place. Disse ao taxista para aguardar e 
foi =at  Vieille Bourse procurar o Chteau du Vin. 
Encontrou a =loja dos vinhos, mas estava encerrada, o que no 
era surpresa, =passavam j das nove da noite. Sem desanimar, 
bateu em todas as portas em busca de =indicaes sobre o 
paradeiro do velho Paul Chevallier. Uma senhora =de meia-
idade sugeriu-lhe que falasse com o guarda das lojas e 
indicou o =stio onde o encontrar. Afonso deu finalmente com 
o homem, mas teve alguma =dificuldade em convenc-lo a 
confiar-lhe a morada da casa do dono do =Chteau du Vin, o 
que s veio a conseguir aps acenar com uma =nota de dez 
francos.
s nove da noite, o txi imobilizou-se  frente de uma das 
=portas da Rue do Palais Rlhour, contgua  Grande Place. 
Afonso =estudou a fachada, tratava-se de um edifcio 
antigo=20em pleno centro da cidade, as varandas bem cuidadas, 
coloridas, =mignonnes, como diria Agns. A noite abatera-se 
gelada, como nos =velhos tempos, o ar hmido, crescendo em 
nuvens de vapor  frente =da boca, uma nvoa a pairar sobre 
os telhados, abraando-os com cime. Respirou fundo e 
atravessou a rua. Carregou na campainha e ouviu o =toque soar 
no interior da casa. Aguardou um ins tante. Sentiu passos 
=vagarosos a aproximarem-se. A porta abriu-se e um velho alto 
e magro, o =rosto cravado de rugas e marcado por malares 
salientes, os olhos de um azul-cristalino e os cabelos to 
=brancos que pareciam neve, espreitou para fora.
"Oui? S'il vous plait? "
"Monsieur Paul Chevallier? "
"C'est moi. "
"Bon soir. Eu sou o capito Afonso Brando, de Portugal. " 
=Fez-se silncio. O velho arregalou os olhos azuis, fitou-o 
com =intensidade, abriu a boca e fechou-a novamente, mas 
voltou a abri-la.
"Capito Alphonse? "
Afonso sorriu com carinho, reconhecia aquele Alphonse de 
algum =lado.
"C'est moi. Finalmente. "
627
O velho olhou-o com desconfiana.
"Voc  mesmo o capito Alphonse? "
"Sim, sou eu. " "De Portugal? "
"Sim, sim, sou eu. "
O velho parecia atrapalhado.
"Zut alors! ", exclamou. "Mas eu recebi uma carta h dez 
anos, =creio que da sua me, a dizer que o senhor tinha 
morrido. " Hesitou. ="Ela at me pediu para no voltar a 
escrever. "
Foi a vez de Afonso se surpreender. Maldita Isilda, pensou. 
No =lhe escapou nada. Previu tudo, o diabo da velha. Que 
arda no inferno.
"Monsieur", comeou por dizer. "Essa carta que lhe remeteram 
era =falsa e foi-lhe enviada para manter escondido de mim o 
segredo da =existncia da minha filha. De resto, s no ms 
passado tive =acesso  carta que o senhor me enviou, h dez 
anos, a dar conta do que acontecera, razo pela qual s hoje 
=aqui estou. "
O velho mirou-o, digerindo com dificuldade o que lhe estava a 
ser =dito, mas decidiu que o portugus era sincero e abriu-se 
num grande =sorriso.
"Capito Alphonse, no percebo nada dessa histria, mas =no 
faz mal, ainda bem que est vivo. Seja bem-vindo  casa de 
=Agns. "
Afonso subiu o degrau e entrou na casa.
"A minha filha est?"
"Marianne? "
"Sim. "
O pai de Agns virou-se para o fundo do corredor, onde se via 
=uma luz.
"Marianne! ", gritou. "Marianne! Viens ici! "
Ouviu-se uma voz melosa l ao fundo.
" Oui papy."
"Viens ici, tout de suite!
Uma figurinha frgil, de menina, apareceu no corredor e 
estacou =quando viu um estranho ao p do av. Afonso olhou- a 
e reconheceu =aqueles cabelos castanhos encaracolados, 
aqueles
628
olhos verdes adocicados, aquela figura magrinha de menina 
bonita. =Abriu os braos na sua direco. Ela viu-lhe 
lgrimas nos =olhos, o av tambm se comovia atrs dele, mas 
foi sobretudo o que o estranho dizia, a voz embargada e 
=carregada de emoo, a voz que a acariciava com as palavras 
que =s em sonhos fantasiara ouvir, foi sobretudo aquela 
simples e poderosa =frase que lhe tocou na alma e lhe 
arrebatou o corao.
"Ma fille, ma petite fille. "
Marianne ficou a estud-lo, hesitante, receando acreditar. 
Deu =um passo em frente, a medo, depois outro e outro ainda, 
comeou a =andar e o andar transformou-se em corrida, correu 
para ele como se =sempre o tivesse conhecido, ningum lhe 
disse que era ele mas ela soube-o, talvez fosse desejo, 
talvez =fantasia, talvez aquela recusa infantil em acreditar 
que o pap tinha =ido para o cu, o certo  que ela o 
reconheceu, reconheceu-o e =correu at ele, at o envolver 
num longo e inesquecvel abrao. Intenso. Como um =braseiro 
que queima, como uma paixo que asfixia, como o Sol que nos 
=encandeia, era intenso aquele abrao entre o pai e a filha. 
E, enquanto apertava a sua menina, os olhos =turvos e um n 
na garganta, sentindo aquele pequeno corpo a =anichar-se no 
seu, Afonso lembrou-se inesperadamente do padre Nunes, =no 
sabia porqu mas lembrou-se do velho mestre do seminrio, 
interrogou-se se aquele instante no estaria =previsto desde 
o amanhecer dos tempos, se a sua vida e se aquele =encontro 
no obedeceriam a um estranho e misterioso desgnio, se =tudo 
aquilo no estava afinal predestinado. Mas duvidou. Talvez 
no. Talvez =estivesse apenas a tentar fazer sentido do caos, 
a procurar dar =significado  vida, a esforar-se por 
atribuir uma razo a tudo =o que lhe sucedera, quando, feitas 
as contas, no h verdadeiramente um sentido nem um 
significado, as coisas so =o que so e acontecem como 
acontecem, acontecem com simplicidade, com =a naturalidade 
daquele abrao do capito  sua filha perdida, =daquele 
murmrio de voz embargada que lhe brotava dos lbios e era 
repetidamente =soprado aos ouvidos da menina que o enlaava 
pelo pescoo.
"Ma petite fille. "
629
Nota final
Tratando-se,  certo, de uma obra de fico, este romance 
=procura reproduzir factos histricos ocorridos na Flandres 
em 1917 e =1918. As personagens centrais so criaes do 
autor, embora as =situaes por elas vividas sejam inspiradas 
em acontecimentos e episdios =que efectivamente se 
reproduziram. Em alguns casos, e para benefcio =da 
narrativa, esses acontecimentos foram comprimidos no tempo ou 
=adaptados ficcionalmente. A reunio de Mons, a 11 de 
Novembro de 1917, ocorreu realmente, embora o palco =no 
tenha sido a Mairie. Foi a que comeou a ser delineada a 
=Operao Georgette, o plano de ataque s foras portuguesas, 
=e os dilogos reproduzem os raciocnios efectivamente 
desenvolvidos pelo Alto Comando alemo nessa e =em reunies 
subsequentes. Os raides descritos no livro foram de facto 
=executados, designadamente os de 22 de Novembro de 1917 e 9 
de Maro =de 1918, para j no falar nos acontecimentos do 
Natal de 1917 e, evidentemente, na grande =batalha de 9 de 
Abril de 1918, quando quatro divises alems =atacaram a 
nica diviso portuguesa que defendia a linha naquele 
=sector.
Para benefcio da narrativa, contudo, foram alterados alguns 
=pormenores. Os nomes das ruas e trincheiras de 
Fauquissart,=20
631
Neuve Chapelle e Ferme du Bois esto correctamente 
reproduzidos. =Vrias personagens so reais, desde os altos 
comandos portugueses, =britnicos e alemes at figuras como 
o ento tenente- =coronel Eugnio Mardel, o major Montalvo e 
a maior parte das personagens que resistiram em Lacouture e 
ainda o =farmacutico Francisco Barbosa, o professor Manoel 
Ferreira ou o =empregado da farmcia Franco que jogava na 
equipa do Grupo Sport Lisboa. O texto da =tabuleta de St. 
Venant com o "Avisa" sobre o uso de latrinas  =verdadeiro, 
tal como o da carta em francs de um soldado ao irmo =e 
todas as citaes de jornais e relatrios, mais o jargo e o 
calo das trincheiras.
Para que este romance fosse possvel tornou-se necessrio 
=efectuar um profundo trabalho de pesquisa histrica. 
Consultei =milhares de documentos do Arquivo Histrico-
Militar e da Biblioteca Nacional e centenas de livros sobre 
os mais =variados temas, desde a guerra at matrias de mera 
referncia =da poca, como obras sobre moda, fardas 
militares, mobilirio, =electricidade, utenslios de uso 
corrente, produtos de consumo, comboios, automveis, =artes, 
filosofia, medicina, e ainda postais ilustrados e anurios 
=comerciais com as mais variadas informaes teis, incluindo 
=horrios de diligncias e comboios, preos de bilhetes de 
caleches, percursos ferrovirios, estradas =existentes na 
altura, feiras, restaurantes, hotis, pastelarias, =padarias, 
jornais, ruas, etc.
Na verdade, deitei a mo a tudo o que pudesse ajudar-me a 
situar =a poca e a reproduzir o esprito do tempo,=20ao 
mesmo tempo que procurava evitar os sempre enervantes 
anacronismos. =Seria demasiado fastidioso enumerar todas as 
obras consultadas, pelo que =me limitarei ao estritamente 
essencial. Entre as fontes bibliogrficas mais importantes 
sobre o conflito de 1914-1918, destaque para os =relatos 
feitos por militares que participaram na guerra e publicados 
nos =livros A Batalha do Lys, do general
Gomes da Costa; Livro da Guerra de Portugal na Flandres, do 
=capito David Magno; O Soldado-Saudade e Ao Parapeito, do 
tenente =Pina de Morais; A Malta das Trincheiras, do capito, 
dramaturgo, =jornalista e humorista Andr Brun; Os 
Portugueses
632
na Flandres, do tenente-coronel Fernando Freiria; A Brigada 
do =Minho na Flandres, do coronel Eugnio Mardel; Joo 
Ningum, =Soldado da Grande Guerra, do capito Menezes 
Ferreira; O Bom Humor no =C. E. P. do major Mrio Affonso de 
Carvalho; Good-bye to All That, do capito e poeta =Robert 
Graves; e War Letters of Fallen Englishmen, de Laurence 
Housman. =Tambm foram consultados estudos sobre os 
acontecimentos na Flandres =envolvendo o CEP, 
designadamente=20La Lys, de Castro Henriques e Rosas =Leito; 
Guerra e Marginalidade, de Alves de Fraga; Portugal e a 
Guerra, de =Nuno Severiano Teixeira; e Portugal na Grande 
Guerra, de Aniceto Afonso =e Matos Gomes. Finalmente, as 
fontes de informao sobre o =conflito e as circunstncias em 
que ele foi combatido incluem obras como The Trench, de 
Richard =van Emden; To the Last Man, de Lyn McDonald; Over 
the Top e 918, de =Martin Marix Evans; A Foreign Field, de 
Ben Maclntyre; The Swordbearers, de Correlli Barnett; 
Christmas Truce, de =Malcolm Brown e Shirley Seaton; History 
of the First World War, de Sir =Liddell Hart; The First World 
War, de Stephen Pope e Elizabeth-Anne =Wheal; The World War 
Source Book, de Philip Haythornthwaite; True World War 
Stories, de Jon Lewis; The Western Front, =de Malcolm Brown; 
The Battle of Neuve Chapelle, de Geoff Bridger; Les =soldats 
de a Grande Guerre, de Jacques Meyer; =La Grande Guerre, de 
Marc Ferro; e Premire =Guerre Mondiale, de Pierre Chavot e 
Jean-Denis Morenne.
Todos os erros histricos que o romance eventualmente 
contenha =so da minha inteira e exclusiva responsabilidade. 
Mas devo sublinhar =que, no que ele porventura tem de bom, 
fico-o a dever  =inestimvel ajuda prestada por um conjunto 
de pessoas que me deu preciosas indicaes para o trabalho 
=de investigao. Agradeo penhoradamente o auxlio de =Lus 
Cunha, do ACP Clssicos; de Augusto Lopes, da Cmara 
Municipal de Rio Maior; do Valdemar Abreu, da CP; do 
=tenente-coronel Vieira Borges, da Academia Militar; de Jos 
Paulo, =director do Seminrio Conciliar de So Pedro e So 
Paulo; do =Jos Manuel Mendes e do Lus Costa, entusisticos 
guias pelo passado de Braga; da Ziza e da
633
Nicole, pela ajuda no alemo; e do Guilherme Valente, o 
editor =que lutou pelo livro. Alguns destes amigos ajudaram-
me igualmente nas =revises do manuscrito, pelo que esta obra 
tambm lhes pertence.
O agradecimento final vai para a Florbela, a primeira leitora 
e a =grande musa, a origem e o destino deste romance.
634
Fim=20
